Autoridades de Campo Limpo empossadas entre 1881 e 1892

Relação de autoridades distritais do atual distrito de Ribeiro Junqueira, extraída dos antigos códices 32 e 146 do Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina.
Antonio Carlos Neto 3º Juiz de Paz 07.01.1881
Antonio José Pereira Júnior 1º Juiz de Paz 15.01.1883
Antonio Pedro da Silva Lessa 2º Juiz de Paz 07.01.1881
Bento Xavier Ferreira 2º Juiz de Paz 23.01.1892
Cândido José Marques Fiscal 20.12.1881
Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho 4º Juiz de Paz 09.01.1886
Ildefonso José dos Santos 1º Juiz de Paz 07.01.1881
João Carlos Neto 4º Juiz de Paz 08.02.1881
1º Juiz de Paz 17.01.1891

João Neto Carlos 2º Juiz de Paz 08.01.1883
Viriato da Fonseca Pinto 3º Juiz de Paz 23.01.1892

Autoridades Municipais Empossadas entre 1855 e 1894

Relação de Autoridades Municipais de Leopoldina extraída dos antigos códices 32 e 46 do Arquivo da Câmara Municipal.
Alberto Moretz Sohn Membro do Conselho de Intendência 09.12.1890
Alvaro de Souza Werneck 5º suplente de Delegado 30.10.1864
Américo Antonio de Castro Lacerda Vereador 07.01.1887
Ananias Ferreira Brito

Juramento do Juiz de Paz Ananias Ferreira Brito

 

1º Juiz de Paz 08.01.1877
2º Juiz de Paz 28.03.1881
Membro do Conselho de Intendência 03.04.1891
Antonio Agostinho Horta Barbosa 3º Juiz de Paz 07.01.1883
3º Juiz de Paz 07.01.1887
Antonio Augusto Duarte e Castro 6º substituto de Juiz Municipal 16.03.1866
Antonio Carlos da Silva Teles Faião 2º suplente do Delegado 12.06.1855
Vereador 07.01.1857
Antonio Carlos Teixeira Leite Vereador 26.03.1861
Antonio José Alves Ramos

 

 

3º suplente de Juiz Municipal 15.04.1890
Assinatura de Antonio José Alves Ramos
Antonio José Corrêa de Carvalho 4º Juiz Municipal substituto 10.05.1859
Antonio José Monteiro de Barros Suplente de Vereador 02.01.1856
4º Juiz de Paz 03.11.1859
Antonio Júlio da Paixão Vereador 09.04.1862
3º substituto de Juiz Municipal 05.03.1866
Antonio Mateus Monteiro de Castro 5º substituto de Juiz Municipal 05.03.1866
Antonio Maurício Barbosa Vereador 04.03.1861
6º suplente de Delegado 23.09.1865
Antonio Pedro da Silva Lessa Vereador 07.01.1883
Antonio Prudente de Almeida [Ramos]

 

Vereador 30.09.1856
4º Juiz de Paz 30.03.1857
Assinatura de Antonio Prudente de Almeida
Antonio Teodoro de Souza Carneiro 1º suplente de vereador 08.03.1881
Antonio Xavier Monteiro da Silva 2º suplente de Delegado 18.06.1862
Vereador 07.01.1865
Aristides César de Almeida Inspetor Municipal de Instrução 29.07.1889
Astolfo Pio da Silva Pinto Vereador 07.01.1881
Aureliano Lopes de Faria Escrivão 15.10.1878
Baldoíno Teixeira Lopes Guimarães 1º Juiz de Paz 07.01.1881
1º Juiz de Paz 07.01.1883
1º Juiz de Paz 07.01.1887
2º suplente de Juiz Municipal 17.06.1889
Caetano José de Almeida e Gama Vereador suplente 01.11.1861
Cândido José de Almeida 2º Juiz de Paz 23.11.1891
Custódio de Vargas Corrêa 4º Juiz de Paz 12.02.1861
Custódio José da Costa Cruz Suplente de Juiz de Paz 07.11.1878
Domiciano Mateus Monteiro de Castro Vereador suplente 11.06.1855
Delegado de Polícia 12.06.1855
5º substituto de Juiz Municipal 09.10.1862
Vereador suplente 11.01.1860
Domingos José Teixeira Pena Vereador 01.02.1865
Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho Vereador 07.01.1881
Vereador 07.01.1887
Elias Antonio Monteiro de Castro 14º suplente de Juiz de Paz 25.07.1891
Eugênio Botelho Falcão

 

Vereador 07.01.1883
Eleitores de Leopoldina
Eugênio de Freitas Malta Vereador 07.01.1881
Ezaú Antonio Corrêa de Lacerda Vereador suplente 22.10.1862
Félix Martins Ferreira Vereador 07.01.1881
Francisco Antonio de Almeida Gama 4º suplente do Delegado 24.10.1855
Vereador 30.09.1856
Vereador suplente 03.07.1857
4º Juiz de Paz 14.10.1858
Francisco Antonio Reiff 4º Juiz de Paz 07.01.1881
2º Juiz de Paz 07.01.1883
Francisco Antonio Ribeiro Suplente do Conselho de Intendência 03.04.1891
Francisco Antonio Teixeira Vereador suplente 12.02.1861
4º Juiz de Paz 18.07.1861
Francisco Augusto de Barros Vereador 07.01.1883
Francisco de Assis Rodrigues Vereador 12.01.1865
Francisco de Paula Ramos Horta Júnior Vereador 07.01.1887
Francisco Ferreira Rodrigues Júnior Vereador 03.02.1887
Francisco José da Silva Quadros Vereador suplente 26.11.1859
Francisco José de Freitas Lima Vereador 20.01.1855
Vereador 07.01.1857
4º suplente do Delegado 12.07.1862
6º substituto de Juiz Municipal 22.09.1862
Francisco Teixeira de Siqueira Vereador suplente 02.03.1857
Vereador suplente 08.08.1861
2º suplente de Delegado 29.08.1863
Francisco Vital de Mendonça

 

5º suplente de Juiz de Paz 14.04.1891
Francisco Vital de Mendonça
Gabriel de Paula Almeida Magalhães 3º Juiz de Paz 12.02.1861
3º Juiz de Paz 07.01.1865
Vereador 07.01.1865
Gervásio Antonio Monteiro de Castro Vereador 07.01.1881
Inácio de Lacerda Werneck Suplente do Conselho de Intendência 03.04.1891
Jerônimo Fernandes das Chagas Vereador 07.01.1883
João Antonio da Costa Coimbra Vereador 07.01.1881
João Batista Guimarães Vereador 07.01.1881
João das Chagas Lobato Juiz Municipal 08.08.1861
Delegado de Polícia 30.11.1861
João Evangelista Coimbra Vereador suplente 09.10.1862
João Evangelista dos Santos Durães Imediado do Juiz de Paz 13.06.1894
João Gabriel Fernandes Dunga Júnior Vereador suplente 09.08.1861
João Gonçalves Neto 3º Juiz de Paz 12.10.1859
Vereador suplente 16.01.1862
Vereador 07.01.1865
João Gualberto Damasceno Ferreira 1º Juiz de Paz 12.04.1862
João Gualberto Ferreira Brito

Capitão João Gualberto

 

Vereador 20.01.1855
Vereador 07.01.1857
Substituto do Juiz Municipal 23.03.1858
Vereador 07.01.1861
1º Juiz de Paz 07.01.1865
Presidende da Câmara Municipal 07.01.1865
João Luiz Guilherme Gaëde Adjunto do Conselho de Intendência Municipal 01.12.1890
João Teixeira Lopes Guimarães 2º Juiz de Paz 07.01.1865
Vereador suplente 28.02.1882
João Vidal Leite Ribeiro Vereador 20.01.1855
Joaquim Antonio de Almeida Gama 3º substituto de Juiz Municipal 21.02.1855
Vereador suplente 24.04.1855
Vereador 07.01.1857
Substituto do Juiz Municipal 23.03.1858
2º suplente de Delegado 01.02.1865
1º substituto de Juiz Municipal 05.03.1866
Joaquim Antonio do Santos Vereador suplente 16.11.1859
Joaquim Desidério da Silva Agente Interino do Correio 21.10.1890
Joaquim Honório de Campos Vereador suplente 19.07.1858
Vereador suplente 04.03.1861
Joaquim José da Costa Cruz Vereador suplente 17.12.1858
Vereador 05.03.1861
Joaquim Martins Ferreira Vereador 26.03.1861
Joaquim Pereira de Sá Vereador 07.01.1887
Joaquim Vieira da Silva Pinto Vereador suplente 24.04.1855
5º substituto de Juiz Municipal 02.05.1862
José Antonio de Oliveira Martins Agente do Correio 01.08.1889
José Antonio Monteiro da Silva Vereador 07.01.1887
José Antunes Pereira Vereador 07.01.1883
José Antunes Pereira 4º substituto de Delegado 11.07.1860
José Augusto Monteiro de Barros 1º suplente de vereador 20.02.1855
1º suplente do Delegado 03.07.1855
1º Juiz de Paz 10.01.1857
Vereador suplente 02.03.1857
José Cezario Monteiro de Miranda Ribeiro Vereador suplente 07.07.1859
José de Moura Neves Alinhador da Câmara 23.09.1884
1º suplente de Juiz de Paz 20.12.1890
José de Oliveira Martins Subdelegado de Polícia 26.07.1892
José de Rezende Monteiro Vereador 04.03.1861
Vereador 01.02.1865
José de Souza Soares Filho Vereador 07.01.1883
José Domingues de Andrade Pinto 4º Juiz de Paz 30.11.1884
José Fajardo de Melo Vereador 07.01.1887
José Francisco dos Santos Durães Vereador suplente 12.02.1861
José Garcia de Matos Suplente de Vereador 07.04.1856
Vereador suplente 08.07.1857
José Januário Ferreira Caminheiro da Câmara 08.03.1881
José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros Vereador 20.01.1855
1º Substituto do Juiz Municipal 06.03.1855
1º substituto de Juiz Municipal 13.05.1862
José Joaquim Monteiro de Barros 3º Juiz de Paz 10.01.1857
José Maria Monteiro da Silva Vereador suplente 11.01.1859
Vereador suplente 14.04.1861
José Mendes Pereira 1º suplente de Delegado 02.08.1863
José Tavares Pinheiro Vereador 07.01.1881
José Teixeira Lopes Guimarães Vereador 07.01.1865
José Tomaz de Aquino Cabral 2º Juiz de Paz 09.01.1857
José Vieira de Rezende e Silva Vereador 20.01.1855
4º substituto de Juiz Municipal 02.05.1862
Justino de Azevedo Ramos Vereador suplente 11.07.1862
Lauriano Fernandes Lopes Vereador suplente 07.04.1860
Lucas Augusto Monteiro de Barros Vereador suplente 11.06.1855
Lucas Mateus Monteiro de Castro Vereador 07.01.1883
Luiz Botelho Falcão 1º suplente de vereador 03.12.1889
Luiz Dias de Souza Escrivão da Coletoria 23.08.1878
Manoel Alves de Oliveira Paranhos Membro do Conselho de Intendência 03.04.1891
Manoel Cândido de Oliveira Lima 1º suplente de Juiz Municipal 14.02.1884
Manoel de Freitas Pacheco Vereador suplente 02.03.1857
Manoel de Freitas Pacheco Vereador 07.01.1861
1º substituto de Delegado 16.11.1859
Manoel Francisco Malta 4º substituto de Juiz Municipal 22.02.1855
Vereador 21.03.1857
2º substituto de Delegado 06.11.1859
Vereador suplente 12.02.1861
4º Juiz de Paz 07.01.1865
Manoel Gregório da Silva Porto Contínuo da Câmara 06.09.1880
Manoel Hermogeneo Ferreira Guimarães Aferidor 28.03.1881
Manoel Jacinto Nogueira Velasco da Gama Substituto do Juiz Municipal 23.03.1858
Manoel José Monteiro de Barros Galvão de São Martinho Delegado de Polícia 14.05.1856
Manoel José Monteiro de Castro Vereador 20.01.1855
Presidente da Câmara 07.01.1857
2º substituto de Juiz Municipal 13.05.1862
Manoel Teixeira da Fonseca Vasconcelos 3º Juiz de Paz 20.06.1877
Martiniano de Souza Lintz Juiz Municipal 20.08.1866
2º Juiz de Paz 07.01.1887
Mateus Herculano Monteiro de Castro 2º substituto de Juiz Municipal 21.02.1855
Miguel Arcanjo Teixeira Ruas Delegado de Polícia 26.07.1892
Miguel Eugenio Monteiro de Barros Suplente de Vereador 22.01.1856
Militão José de Souza Ameno

 

Vereador 07.01.1883
Eleitores de Leopoldina
Moisés dos Reis Coutinho 3º Juiz de Paz 07.01.1881
Nominato José de Souza Lima Vereador 07.01.1865
Pedro Gonçalves Neto Vereador 07.01.1887
Pedro Moreira de Souza Vereador suplente 16.01.1862
Pedro Rodrigues Xavier da Silva Chaves Vereador suplente 08.07.1857
6º substituto de Juiz Municipal 13.07.1859
Romão Pinheiro Correa de Lacerda Vereador suplente 24.04.1855
3º substituto do Delegado 25.04.1855
Teófilo Domingos Alves Ribeiro Vereador 07.01.1887
Teotonio Joaquim de Araújo Vereador 07.01.1883
Virgilio Honorio Teixeira 4º Juiz de Paz 21.06.1877

Autoridades de Conceição da Boa Vista

Autoridades do distrito de Conceição da Boa Vista, empossadas pela Câmara Municipal de Leopoldina, conforme códices 32 e 146 do Arquivo da Câmara Municipal.

Antonio Augusto Monteiro de Barros Galvão de São Martinho 2º Juiz de Paz 09.01.1857
1º Juiz de Paz 10.05.1861
1º Juiz de Paz 07.01.1865
Domingos Custódio Neto 4º Juiz de Paz 10.01.1857
Domingos de Carvalho Teixeira Pena 3º Juiz de Paz 02.04.1857
Francisco Antonio de Souza Lima 2º Juiz de Paz 26.03.1883
Francisco Augusto de Freitas 3º Juiz de Paz 07.01.1881
4º Juiz de Paz 13.02.1883
3º Juiz de Paz 07.01.1887

Autoridades Distritais

Francisco Ferreira Neto 2º Juiz de Paz 07.01.1881
1º Juiz de Paz 07.01.1887
Francisco Hypolito Valory Alinhador da Câmara 07.12.1880
Inácio Ferreira Brito 3º Juiz de Paz 07.01.1865
Jacinto Manoel Monteiro de Castro 1º Juiz de Paz 10.01.1857
2º Juiz de Paz 10.05.1861
2º Juiz de Paz 05.04.1865
Joaquim Felicíssimo de Moraes 4º Juiz de Paz 09.01.1865
José Caetano Gonçalves 2º Juiz de Paz 23.01.1892
José Cezario de Castro Monteiro de Barros 1º Juiz de Paz 07.01.1881
Lucas Mateus Monteiro de Castro 2º Juiz de Paz 07.03.1878
4º Juiz de Paz 07.01.1887
Pedro Dias de Moura 3º Juiz de Paz 23.01.1892
Querino Ribeiro de Avelar Rezende 4º Juiz de Paz 13.01.1864
Romualdo José Monteiro de Rezende 1º suplente de Juiz de Paz 29.09.1881
Valeriano Coelho dos Santos Monteiro 3º Juiz de Paz 12.04.1862
2º Juiz de Paz 07.01.1887

Notícia sobre os primórdios de Piacatuba

No primeiro ano de funcionamento do distrito de Nossa Senhora da Piedade foram realizados diversos batismos, casamentos e funerais de moradores do lugar. Agradecemos a gentileza do Monsenhor Antônio José Chamel, bem como a de D. Ana Bárbara Fajardo Barbosa, por nos terem permitido fazer o levantamento daquelas primeiras páginas da história de Piacatuba. Com este trabalho, em 2001 pudemos entregar, restaurados, os livros que compõem o acervo paroquial de Piacatuba do século XIX.

Para escrever sobre os primórdios do atual distrito de Piacatuba foram utilizados outras fontes documentais que complementaram informações obtidas nos livros paroquiais. Entre as mais importantes estão os livros do Cartório de Notas da Piedade, encontrados no Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina.

De tal sorte foi possível concluir que, nos primeiros anos de sua criação, o distrito de Piacatuba contou com o esforço de seus moradores para transformar as condições de habitabilidade então existentes. Até a chegada do colonizador, a região era ocupada pelos índios puris. Alguns deles adaptaram-se ao novo modo de vida e passaram a fazer parte do grupo social que ali viveu. Não se tem notícia de escravização de indígenas, embora alguns deles sejam mencionados como trabalhadores em algumas das fazendas da região. Infelizmente, por falta de sobrenome não nos foi possível identificá-los a contento.

Cartografia de 1936

É importante observar que, na época, o distrito da Piedade abrangia parte do território que veio a constituir o município de Cataguases, vinte e quatro anos depois, bem como parte do território que em 1881 formou o distrito de Santo Antônio de Tebas. Aliás, o nome deste distrito é uma homenagem a um dos pioneiros da região – Manoel Joaquim Ferreira ou Manoel Joaquim Tebas – falecido a 24 Set 1847. Provavelmente, foi este antigo morador que abriu o antigo caminho carroçável, que ligava sua propriedade ao caminho entre o Distrito de Bom Jesus do Rio Pardo (Argirita) e o Distrito de Nossa Senhora da Piedade Piacatuba). Neste percurso a estrada servia a algumas das antigas fazendas, como Vargem, Limoeiro, Bocaina e Samambaia. Claro está que, na época, ainda não eram conhecidos estes nomes, mas sabemos que a propriedade de Manoel Joaquim Tebas se chamava Monte Alegre e divisava com a Fazenda do Feijão Cru Pequeno, de propriedade de Manoel Antônio de Almeida.

Nas proximidades da foz do Ribeirão Tebas, no local hoje conhecido como Valverde, foi aberta uma variante do caminho que levava à Piedade e que ia encontrar o Rio Pardo, na altura da Fazenda Boa Vista. O Distrito da Piedade já estava cortado por diversos caminhos, desde o início de sua colonização. O território entre o Ribeirão São João (oeste), Rio Pardo (leste), Córrego Pirapetinga (norte) e a Serra da Boa Vista (sul), é provavelmente , a mais antiga região habitada do distrito.

Três Jovens do Concelho de Óbidos

Pesquisando a origem de Antônio de Almeida Ramos, na tentativa de descobrir um pouco sobre sua vida antes de passar ao Brasil, entramos em contacto com o vigário da Freguesia do Espírito Santo do Landal, Freguesia do Espírito Santo, Concelho de Óbidos, Lisboa, Portugal.

Por indicação do Padre, passamos a trocar correspondência com moradora de Caldas da Rainha, autora de um livro sobre a Câmara de Oliveira do Bairro e outro sobre a Freguesia do Espírito Santo do Landal. O que se verá a seguir é um resumo das informações recolhidas até agosto de 2001.

Por volta de 1740 passaram ao Brasil três jovens portugueses, nascidos na Freguesia do Espírito Santo do Landal, então Termo e Concelho de Óbidos, hoje Concelho de Caldas da Rainha. Foram eles:

1 – Antonio de Almeida Ramos, nascido entre 1722 e 1737;

2 – Agostinho de Almeida Ramos, nascido entre 1700 e 1730;

3 – Francisco Farto de Almeida, nascido entre 1715 e 1735.

Os dois últimos eram filhos de Francisco Farto e Maria Almeida, parentes próximos. O pai do primeiro, nosso biografado, era primo e cunhado de Francisco Farto, pois era irmão de Maria Almeida. A mãe de nosso biografado, Teresa Maria, era também parente de Francisco Farto.

A pesquisadora portuguesa escreveu:

A Freguesia do Espírito Santo do Landal é metade, a nascente, da grande freguesia de São Silvestre, a partir de 1147 dividida entre três Hospitalários e Cavaleiros Francos (todos cruzados), que ficaram na metade Poente, a que se chamou “Dos Francos”.

Landal, onde havia um curato, etimologicamente vem de “terra landeira”, ou montado de sobreiros espontâneos (nascidicos), cujo frunto é landa – ou bolota. E só teve a sua independência paroquial em princípios do século XVI. Desanexou-o de São Silvestre dos Francos um Comendador de Malta, residente, de apelido Abreu Peixoto.

Landal foi couto, que começava onde acabavam os coutos de Alcobaça – e ia até ao termo do território de Óbidos.

Desde o início, era cabeça desta Comenda dos Hospitalários de São João Batista de Jerusalém, sediada no Landal de Óbidos, Nossa Senhora de Todo o Mundo, ou do Ar – que é a padroeira da aviação portuguesa (e quiçá mundial), embora ainda não reconhecida como tal.

Por sua vez, esta Comenda era cabeça das Comendas da mesma ordem, situadas em Torres Vedras, Caixaria, Leiria, Torres Novas e Alenquer, cujos Tombos se guardavam no Landal.

Os seus habitantes formavam a 4ª Companhia de capitão e subalternos. Entre eles, destacam-se:

– Almeidas – ainda hoje há muitos. Num tombo dado às terras desta Comenda, em 1742, fala-se do seu vigário, Reverendo Frei Domingos de Almeida. Também o procurador da Comenda se chamava João de Almeida.

– Ramos – No inventário da ermida de Nossa Senhora do Rosário, do lugar dos Ameais, cita-se o seu fundador, Capitão de Malta Pedro Manoel Ramos. Em 1742, o seu administrador deve ser um descendente: João Manoel Ramos.

– Maria Teresa – assim se chamavam a mulher do Capitão Alexandre de Abreu Velho Coutinho e uma sua sobrinha, que faleceu no Landal – isto já em 1750

Tudo acabou em 1834! Depois, a sede da freguesia, o lugar do Landal, foi-se despovoando pouco a pouco – e hoje poucos habitantes tem. Os habitantes da freguesia rondam os 1800 a 2000.

Nossa correspondente fez diversos contactos com o Arquivo Nacional na Torre do Tombo, não tendo tido sucesso nas buscas de demais documentos. Fez também um “Aviso aos Moradores”, que foi colocado na Igreja do Espírito Santo, pedindo aos paroquianos que enviassem informações a respeito dos três jovens portugueses e suas famílias. Além disso, ela guarda uma cópia do tombo dado em 1742 a uma parte das terras da Comenda e um manuscrito de seu próprio pai, com dados dos livros antigos, antes de os retirarem em 1834, para a Provedoria de Torres Vedras.

Eis os nomes de Capitães da Ordem de Malta por ela apurados:

– Manoel Ramos – casou, em 1694, com D. Victoria Maria de Seixas;

– Pedro Manoel Ramos – que mandou erigir a ermida dos Ameais;

– Alexandre de Abreu Velho Coutinho – casou, em 1750, com D. Teresa Maria de Seixas Abreu e Oliveira;

– João Rebelo – falecido em 1769;

– Domingos Rodrigues de Oliveira – falecido em 1796;

– Correia Fialho Lobo da Silveira – família conhecida de Alenquer, freguesia próxima;

– Antonio Manoel de Seixas, que foi testemunha no tombo dado a algumas terras da Comenda, em 1742.

Promotores do tombo:

– Juiz, Dr. Félix Francisco da Silva;

– Vigário, Frei Domingos de Almeida;

– Escrivão, José Leonardo de Seixas;

– Delegado da Comenda, João Almeida;

– Porteiro, Antonio dos Reis;

– Testemunhas, Capitão de Malta Antonio Manoel de Seixas e Frei Doutor João de Abreu e Oliveira (que , em 1759, veio a ser Vigário da Igreja Paroquial do Espírito Santo do Landal

Escreve ainda a pesquisadora:

Em 1742 não há Comendador residente no Landal. O Comendador era o Venerando Bailio Frei Fernando Correia de Lacerda, de Leca do Bailio. Não havendo Comendador residente é aqui que aparece, em 1742, o Procurador da Comenda João de Almeida. Era ele que, por natureza do cargo, se ocupava da administração directa e da contabilidade da Comenda da Ordem de Malta na Freguesia do Espírito Santo do Landal. Nada da confusões: o tombo é iniciado por um inventário à Igreja Paroquial e às capelas e, em 1742, não há referência alguma à Irmandade do Santíssimo Sacramento, cuja alusão só encontro em 1759, e sem grande relevo.

Reparo que há muitas repetições de apelidos (Seixas, Ramos, Almeida), sendo bem natural que os que de fora iam, por lá se fixassem durante gerações. Assim, deve ter havido algum Comendador residente, um Frei qualquer coisa Almeida, cujos parentes por lá ficaram e ocuparam vários cargos. E é natural que, mais tarde, um neto ou bisneto do tal Comendador Almeida, tivesse muita honra e prosápia (especialmente sendo um rapagote novo) na sua ascendência e dela falassse por forma que os seus conhecidos lhe chamassem “o Comendador”.

Sobre os motivos da viagem dos três primos ao Brasil, lembro-lhe que no fim do reinado de D. Pedro II se descobriram, no Brasil, ricas minas de oiro e diamantes. Foi no tempo de seu filho, D. João V (1706-1750), que entraram em exploração. Esta foi a época em que embarcaram para o Brasil três moços da freguesia do Espírito Santo do Landal.

Assim, os três, sem mais nem menos?! Não. Eles sabiam ao que iam, o que os esperava. Alguém os chamou ou os mandou ir. Também convém não esquecer que a extinta Ordem do Templo se tornou, por obra de D. Dinis, Ordem de Cristo e teve à frente o Infante D. Henrique (1394-1460). Além disso, certo remanescente da O. do Templo reverteu para os então Hospitalários – O. de Malta. Sabe-se que os Templários há muito conheciam o Brasil – até antes de P. Alvares Cabral (100 anos antes), já os mesmos templários conheciam e praticavam essas rotas, segundo lendas quase históricas.

De uma maneira ou de outra, deve ter havido um Frei da O. de Malta que aliciou os moços para uma aventura que lhes traria fortuna certa. De outra forma, os três moços de famílias mais ou menos abastadas (ligadas à Ordem, que era riquíssima), não iam à tôa por esses mares fora, sem uma certeza a esperá-los do lado de lá. Sim, porque não creio que todos eles tivessem cometido crimes que os obrigassem a fugir.

Demais, D. João V confirmou os poderes e regalias da O. de Malta em 1728. Estava, portanto, tudo organizado para que o futuro dos moços atingisse o nível que atingiu. E sabemos que esses títulos obtidos implicam grandes contrapartidas – esforço, valor e… muito dinheiro.

Outros dados fornecidos pela pesquisadora portuguesa referem-se à população da Freguesia do Espírito Santo do Landal: 1527 – 135 moradores; 1759 – 263 moradores; 1960 – 1483 moradores; 1981 – 1331 moradores; 1999 – 1800 moradores.

Desta forma, embora sem termos descoberto muitos dados sobre os três jovens, pudemos conhecer um pouco sobre a região de origem de Antonio de Almeida Ramos, Agostinho de Almeida Ramos e Francisco Farto de Almeida.

Já nos arquivos brasileiros conseguimos verificar a presença dos nomes destes portugueses em diversas fontes. Numa delas, o Abecedário dos Moradores da Comarca do Rio das Mortes, documento da Coleção Casa dos Contos arquivado na Biblioteca Nacional, levantamos os moradores da Comarca que, de alguma forma, se vinculam aos povoadores de Leopoldina.

Esclareçamos que este documento é um conjunto de cinco cadernos tamanho ofício sem pauta, onde são listados os moradores de cada região da comarca. Até o momento não foi possível, a nenhum historiador, especialista ou técnico em grafoscopia, identificar a data em que a listagem foi organizada. No entanto, considerando que o primeiro caderno informa que seu autor foi Joaquim Silvério dos Reis, e sabendo que tal personagem arrematou o contrato das entradas entre 1782 e 1784, tendo permanecido no controle da arrecadação até 1792, pode-se inferir que ali constam os pagantes de tributos desta época.

Também não se tem notícia de qual foi a fonte utilizada para a organização da listagem. Admite-se que, ao tomar posse, Silvério dos Reis utilizou-se de livros de controle de arrecadação do quinto do ouro e deles extraiu os nomes dos que haviam sido fiscalizados no período próximo precedente. Acrescente-se que alguns nomes poderão ter sido acrescentados com base no movimento do Registro entre 1782 e 1792. Ao lado de cada nome é informado um número, sem que alguém até então tenha descoberto a que se refere. Há os que aventam a hipótese de ser o número da página onde foi efetuado o lançamento do débito daquele morador. Os mais altos algarismos são inferiores ao número total de páginas que habitualmente compunham os livros de registro então utilizados.

Nestes “cadernos” apuramos que, entre os moradores do Caminho Novo estavam os seguintes personagens, todos com descendentes em Leopoldina: Antonio d’Almeida Ramos, Antonio Joaquim de Ávila, Antonio Roiz da Fonseca, Antonio Roiz Gomes, Bernardino Coelho Gomes, Domingos Gonçalves Pereira Chaves, Domingos Roiz Chaves, Francisco Xavier da Fonseca, Joaquim José da Fonseca e Tomaz Ferreira de Aquino.

Sob o código I – 10, 6, 3, nº 4, sem menção ao autor e com caligrafia algo distinta do anterior, encontramos na Biblioteca Nacional a lista dos moradores do L4, como era então designada a região que tomava São João del Rey por sede. Neste caderno foram listados os moradores de São João del Rey, Lavras do Funil, São José do Rio das Mortes, Prado, Tamanduá, Borda do Campo, Caminho Novo do Mato, Santa Ana do Bambuí e Baependi. A organização é um pouco confusa, já que os moradores são divididos por seus locais de moradia e a ordem alfabética não é rigorosa. Numa análise um tanto superficial, localizamos apenas Felisberto da Silva residente em São José del Rey e dois moradores da Borda do Campo que nos interessam: Felix Gonçalves da Costa e Felix de Oliveira Braga.

E sob o código I – 10, 6, 3, nº 5, encontramos o caderno contendo as listas de moradores do L5 da Comarca do Rio das Mortes. Refere-se às localidades de Aiuruoca, Pouso Alto, Campanha do Rio Verde e Ouro Fino, Jacuí, Itajubá, Congonhas do Campo, Carijós e Itaverava. Para nossa surpresa, e sem que tivéssemos nos detido na análise cuidadosa dos nomes, na primeira página encontramos os moradores Agostinho de Almeida Ramos e Antonio Gonçalves da Costa, ambos de Aiuruoca.

Com o objetivo de a conferir o encontrado com outros documentos, pesquisamos a carta de Brás Álvares Antunes a Antonio Mendes da Costa, informando ter recebido a lista de 28 créditos do Registro do Caminho Novo e o envio da lista do Registro da Mantiqueira, de 06.10.1776. Em outra carta do mesmo remetente, endereçada a João Rodrigues de Macedo, há referência ao envio da lista de créditos do Caminho Novo, de 27.11.1777. Esta carta faz menção a um provável anexo, nomeado como “Lista 18, 24 credores”.  Infelizmente porém, não há notícias desta “Lista 18”.

Há uma série de outros documentos da Coleção Casa de Contos que poderão conter anexos como o citado na carta retro mencionada. Até que prossigamos neste assunto, deixamos registrada nossa impressão, tal qual o fizemos no competente livro de registros: os três jovens provenientes do Concelho de Óbidos aparecem entre os contribuintes registrados na segunda metade do século XVIII, bem como no Abecedário de Moradores da Comarca do Rio das Mortes.

Mas como era a região onde passaram a viver depois de deixar a terra natal?


Preparar a Mudança

Referências às impressões dos viajantes estrangeiros que estiveram em Minas no século XIX nos dão oportunidade de nos aproximarmos do pensamento vigente na época em que nossos ancestrais portugueses trilharam os caminhos da nossa terra. Quando publicamos o opúsculo que ora revisamos, havíamos consultado antigas edições dos relatos de John Mawe, Auguste de Saint-Hilaire, Jean Louis Agassiz e Richard Burton. Ao nos propormos a revisar nosso texto, buscamos edições mais recentes que pudessem, eventualmente, esclarecer pontos obscuros nas traduções consultadas. Além dos destaques da primeira edição, decidimos acrescentar trechos que nos passaram despercebidos na primeira leitura. Um deles é a descrição do tipo mineiro, segundo Burton (2001, p. 463):

O mineiro – no sentido do homem cujos antepassados, ou, pelo menos os pais, nasceram na região – é facilmente reconhecido, mesmo entre os brasileiros, e suas peculiaridades não podem ser explicadas “pela bazófia e pelo culto do dólar”. É um tipo alto, magro, ossudo, que, quando exagerado, representa nosso popular D. Quixote esguio e macilento. Não há necessidade do “batismo intelectual”, da inervação, vulgarmente chamado “sangue”. O arcabouço é musculoso e bem adequado à atividade; é reto como o do basco, e não semelhante ao do sargento instrutor e mesmo os trabalhadores não costumam curvá-lo, como nossos camponeses de ombros abaulados. O pescoço é comprido e a laringe proeminente; ao tórax freqüentemente falta espessura. Os quadris e a pelve são, em geral, estreitos; as juntas, punhos e calcanhares, finos, e as pernas, como acontece muitas vezes entre as raças latinas, não são proporcionais aos braços na força. A obesidade é rara, como é entre os verdadeiros persas; ocasionalmente aparece em homens de idade avançada e é considerada como diabetes nullo curabilis. O português, baixo, quadrado e robusto, ossudo e muscular, não é raro, contudo. [...] Muitas das mulheres têm formas cheias e arredondadas, que chegam aos extremos mais tarde, tornando-as gordas, por vezes excessivamente. Não poucas possuem aquela beleza frágil, graciosa e delicada, que todos os estrangeiros notam nas cidades da União.

Assim como disséramos na primeira vez em que levamos a público este artigo, cremos ser dispensável entrar em detalhes antropométricos, já que muito do que se escreveu sobre nossos ancestrais é hoje contestado por novos estudos científicos. Parece-nos, entretanto, ainda não ter sido questionada a impressão de fisionomia séria do mineiro, um apreciador de exercícios físicos. Por outro lado, a idéia dos viajantes estrangeiros de que o mineiro tinha espírito nômade, sempre viajando em busca de novos locais a desbravar, suscita algumas reflexões ao nosso olhar, viventes da última metade do século XX.

Em todos os nossos escritos temos chamado a atenção para o risco de uma postura anacrônica, levando para a realidade dos nossos ancestrais a experiência adquirida em nossa própria estadia no planeta. Assim é que, muitas vezes, nossos interlocutores insistem em argumentar que os pioneiros abandonavam a casa dos pais porque ali faltava o pão. Não é, já o dissemos em várias oportunidades, a nossa opinião. Lendo os diários dos europeus que por aqui estiveram no século XIX, ficamos sabendo que o mineiro andava a cavalo desde tenra idade, apoiando apenas uma parte do pé no estribo porque acreditavam que assim a viagem seria menos cansativa. E qual o motivo de tantas viagens? Acreditamos que, na busca de suprimentos que tornassem mais fácil a vida em suas fazendas, o mineiro também se demorava em incursões verificadoras, expressão que criamos para significar as viagens que os fazendeiros faziam pelo interior das matas, seguindo caminhos indicados pelos tropeiros. Para os interessados, sugerimos nosso texto sobre Tropas e Tropeiros, em nosso Caderno 3: Os Moradores do Caminho Novo (CANTONI, 1976).

Um outro aspecto a considerar entre os hábitos de nossos antepassados, é a forma como se vestiam. Sabemos que o consumo exagerado de peças do vestuário, tão comum atualmente, bem longe está da realidade daqueles que povoaram os rincões mais distantes de Minas Gerais. Tendo abandonado os trajes habituais em seus lugares de origem, por inadequados ao clima da terra que escolheram por moradia, o mineiro do século XVIII vestia-se com simplicidade e acumulava um pequeno número de peças de roupa durante a existência, sendo comum um conjunto escuro para as tarefas mais pesadas e roupas mais claras para ocasiões formais. Indicamos outro de nossos textos, As Tecelãs de Ibitipoca (ALMEIDA, 1972) para o que se refere ao vestuário mais usual entre as famílias antigas. Lembramos ainda, que eram considerados pertences pessoais os arreios de prata, as esporas, as rosetas, um chapéu alto para as solenidades, o chapéu panamá para o cotidiano e as botas de cano longo que os protegiam de ataques dos animais rastejantes.

Como o objetivo deste texto é abordar as incursões de nossos antepassados, que os levaram a ocupar terras desabitadas, queremos ressaltar um aspecto importante da vida em família. Burton (2001, p. 478), citou uma de suas interlocutoras para declarar que, assim como para a mulher mexicana, para a mineira

o baluarte de parentes pelo qual a jovem esposa é cercada serve, em grande parte, para protegê-la; independente disso, porém, acho-a quase sempre retraída e recatada, chegando mesmo ao puritanismo, quando os estranhos se mostram audaciosos. Seus casamentos são realmente domésticos e felizes; os cônjuges são sempre vistos juntos e o marido costuma oferecer presentes à mulher, o que é considerado como uma prova especial de afeição.

Convido-os, pois, a imaginarem como seria a preparação de uma viagem que levaria um casal, seus filhos, escravos e pertences para se estabelecerem em algum lugar escolhido para fixarem nova residência. No próximo capítulo, vamos trazer informações de vários autores sobre os locais onde se instalaram.


Impressões de Viagem

Na reunião de família do ano passado, um grupo de parentes insistiu em buscar explicações para o nosso interesse em conhecer tantas cidades mineiras, pequenos lugarejos nos quais muitas vezes não conseguimos, sequer, obter uma imagem que nos ajude a fixar na memória alguma impressão local.

Uma das nossas dificuldades é reproduzir as poucas fotografias que fizemos nestas nossas viagens. Por esta razão, e sabedores da nossa pouca possibilidade de descrevê-las adequadamente, buscamos em autores consagrados aquilo que acreditamos sejam relatos bem próximos do que existia na época em que os Almeida Ramos espalharam-se pela terra mineira.

Ao relatar suas primeiras impressões dos arredores do Rio de Janeiro, Agassiz (2000) nos dá uma imagem saborosa da paisagem e também dos percalços pelos quais passaram. Considerando que sua estadia em nosso país ocorreu um século depois da chegada dos jovens de Óbidos, é fácil imaginar quão mais difícil teria sido a viagem daqueles rapazes em solo nacional. Por outro lado, os hábitos observados pelos americanos Agassiz nos fazem supor que a tão decantada hospitalidade nasceu justamente das dificuldades de sobrevivência.

Voltemo-nos ao diário de Elizabeth Agassiz para tentarmos fazer um paralelo com as providências que teriam sido tomadas pelos descendentes de nossos personagens, quando decidiam sair da casa de seus pais para formar suas próprias fazendas. Diz a autora que a casa sede das fazendas normalmente tinha apenas um andar em um edifício comprido e de grande extensão. Por estarem totalmente isoladas e afastadas de outras habitações, era necessário fazer provisão de todo o necessário, gerando hábitos primitivos como o que lhe foi contado por um de seus anfitriões. O caso teria ocorrido com rica marquesa que pernoitara na fazenda, no trajeto de uma viagem de poucas semanas até a Corte. Para tanto, a ilustre figura vinha acompanhada de uma tropa de “trinta e uma bestas de carga conduzindo toda a bagagem imaginável, sem contar as provisões de toda espécie, galinhas, presuntos, etc. e vinte e cinco criados a acompanhavam.” (AGASSIZ, 2000, p. 73) Isto, para uma viagem relativamente curta ao fim da qual estaria instalada em residência que contava com o conforto possível na época.

Descrições desta natureza nos fazem compreender que a organização de uma viagem era empreitada bastante complexa, envolvendo um sem número de providências inimagináveis nos dias atuais. Em meados do século XIX, os viajantes estrangeiros observaram que bastava alguém se apresentar numa fazenda ao fim de um dia de jornada e, se a aparência não fosse má, os proprietários o receberiam cordialmente, oferecendo-lhe alimentos e um quarto para repousar. De modo geral, o viajante municiava-se de uma carta de recomendação para facilitar a acolhida. Isto, quando estava em viagem. Mas como seria a viagem de mudança, em que toda a família se transferia para outro lugar?

Evidentemente que o status econômico era determinante, sendo possível identificar as posses de uma família pela quantidade de bagagem que a tropa de mudança conduzia. Por outro lado, os menos aquinhoados não decidiam, por si sós, pela mudança de residência. Antes, pelo contrário, famílias mais simples só saíam de um local quando agregadas aos grandes proprietários que, eles sim, tomavam a decisão de abrir novas frentes de ocupação. Pelo que nos foi dado apurar até o momento, os Almeida Ramos inscreviam-se na categoria daqueles que possuíam alguns bens e organizavam as expedições de mudança, levando para outros pontos os seus pertences, escravos e agregados.

É ainda Agassiz (2000) quem lembra que os percursos eram realizados através de trilhas estreitas, esburacadas e com variados níveis de risco. Ao longo da ocupação das vias transitáveis, foram criadas “estações de troca”, nas quais o viajante fazia uma pequena parada e trocava seus animais por outros descansados. Entretanto, as migrações internas dos Almeida Ramos não parecem ter sido feitas pelos caminhos descritos pelos viajantes estrangeiros. Acreditamos mesmo que foram pioneiros na abertura de novas vias de ocupação. E tornaram-se conhecedores de paisagens que assombraram não poucos estudiosos, como ocorreu a Agassiz (2000, p. 86), “perplexo e muito embaraçado com o aspecto inteiramente novo de fenômenos que lhe são bastante familiares noutras regiões, mas que, nessas montanhas, o desconcertavam completamente.”

Neste ponto pedimos permissão para remeter nossos leitores a uma obra recentemente reeditada, na qual tivemos oportunidade de confirmar a forte impressão que nos causaram as casas de cupim que vislumbramos em diversos trechos de nossas incursões pelas terras onde outrora viveram os Almeida Ramos. Na visão de Burton (2001, p. 85), as casas de cupim são “grandes colunas ou pirâmides de barro, amarelas ou pardacentas, de acordo com a terra, e chegando às vezes, a uns dois metros de altura”. Assim como observou este naturalista inglês, lembram túmulos, espalhando-se aos pares ou em grupos maiores. Mesmo das atuais estradas de rodagem, não nos escapa a visão dos cupinzeiros que chamaram a atenção do viajante estrangeiro, parecendo abandonados. Entretanto, ensina-nos Burton que, quando abertos, “parecem um hotel monstruoso, tal como Asmodeus o veria, e bastam alguns golpes decididos com uma picareta sobre a dura crosta desses cupinzeiros que parecem desertos, para se ver sair de seu interior uma multidão tão frenética quanto os hóspedes de um hotel que fogem ao grito de ‘Fogo!’.”

Mas os estudiosos também nos ensinam que os cupinzeiros não prejudicam sobremaneira os fazendeiros, já que encontram inimigos naturais no solo onde tentam vicejar. Fica-nos o questionamento: estavam os nossos ancestrais habilitados a contornar os males causados ao solo pelos cupinzeiros, assim como pelas formigas e demais partícipes de seu modus vivendi? É ainda de Burton que extraímos, sobre a vida no cupinzeiro:

Não se trata, contudo, de uma família feliz, se se leva em conta que o sapo, depois de comer o cupim, é comido pela cobra, e a cobra comida pela seriema, uma ave cujo gosto coincide com o Gypogeranus africanus, mas falta-lhe a caneta atrás da orelha que fez os holandeses dar-lhe denominação tão literária. Há, também, quem acredite que os cupins novos são aprisionados e escravizados, como africanos ocidentais, pela maldosa e impiedosa formiga das fazendas, que representa, assim, o maldoso e impiedoso homem branco. (BURTON, 2001, p. 86)

Sebollas

Iniciemos nosso percurso por Santana de Sebollas, um pouco antes de adentrarmos a terra mineira. Lá estivemos enquanto pesquisávamos sobre uma família que, naquela época, pensávamos ter ligações com os Almeida Ramos. Sabíamos que ali Carlos José de Santana, filho de José Joaquim de Santana e Maria Rosa de Jesus, casara-se em junho de 1877 com Emilia Francisca Gonçalves, filha de Antonio Joaquim de Santana e Francisca Maria de Jesus. Suspeitávamos que este casal tivesse vínculos com Joaquim Farto de Almeida, um dos netos de Francisco Farto, filho de outro do mesmo nome. Joaquim Farto nasceu em 1754 em Santa Rita de Ibitipoca e teve, pelo menos, os filhos Jacinta (1781), Teodora (1783), Francisco (1788), Joaquim (1792) e Carlos Gomes de Almeida, nascido em Conceição de Ibitipoca em 1797.

Sebollas é o atual distrito de Inconfidência, cujo núcleo urbano fica a cerca de 20 km da sede municipal em Paraíba do Sul. A localidade entrou para a história do Brasil por ter servido de pouso ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dá nome ao atual Museu Sacro e Histórico de Inconfidência. Suas construções mais antigas datam do século XIV.

Nossa viagem a Sebollas não trouxe o resultado esperado, já que os livros paroquiais encontravam-se em outra localidade onde estivemos mais tarde. Entretanto, o resultado de nossas leituras levou-nos a concluir que, embora não havendo vínculos familiares no local, certamente os três rapazes de Óbidos passaram por Sebollas. Além do que já houvéramos apurado em Abreu (1975), a recente obra de Santos (2001) nos faz acreditar que nossos ancestrais estiveram naquele pouso antes de seguirem viagem para Minas.

Seguindo em direção a Minas, nossos rapazes portugueses provavelmente se depararam com o ambiente descrito mais de cinqüenta anos depois por Saint Hilaire (1975, p. 47):

A paisagem que se apresenta aos olhos do viajante quando este entra na Comarca do Rio das Mortes, às margens do Paraibuna, tem algo que impressiona por um misto de desordem e regularidade selvagem. Por toda a parte o rio é dominado por montanhas elevadas; como ele descreve uma volta antes de chegar ao registro, não se vislumbra por esse lado mais que uma pequena parte do seu curso, e dá a impressão de ;que todo ele começa na base de uma montanha mais alta que as outras, e cujo cume absolutamente nu contrasta com a vegetação vigorosa dos morros vizinhos.

Nosso percurso para conhecer o provável caminho de entrada em Minas não obedeceu à mesma ordem em que aparece em Saint Hilaire. De Sebollas fomos à Paraíba do Sul e dali rumamos para São José das Três Ilhas.

Iniciemos nosso percurso por Santana de Sebollas, um pouco antes de adentrarmos a terra mineira. Lá estivemos enquanto pesquisávamos sobre uma família que, naquela época, pensávamos ter ligações com os Almeida Ramos. Sabíamos que ali Carlos José de Santana, filho de José Joaquim de Santana e Maria Rosa de Jesus, casara-se em junho de 1877 com Emilia Francisca Gonçalves, filha de Antonio Joaquim de Santana e Francisca Maria de Jesus. Suspeitávamos que este casal tivesse vínculos com Joaquim Farto de Almeida, um dos netos de Francisco Farto, filho de outro do mesmo nome. Joaquim Farto nasceu em 1754 em Santa Rita de Ibitipoca e teve, pelo menos, os filhos Jacinta (1781), Teodora (1783), Francisco (1788), Joaquim (1792) e Carlos Gomes de Almeida, nascido em Conceição de Ibitipoca em 1797.

Nossa viagem a Sebollas não trouxe o resultado esperado, já que os livros paroquiais encontravam-se em outra localidade onde estivemos mais tarde. Entretanto, o resultado de nossas leituras levou-nos a concluir que, embora não havendo vínculos familiares no local, certamente os três rapazes de Óbidos passaram por Sebollas. Além do que já houvéramos apurado em Abreu (1975), a recente obra de Santos (2001) nos faz acreditar que nossos ancestrais estiveram naquele pouso antes de seguirem viagem para Minas.

Sebollas é o atual distrito de Inconfidência, cujo núcleo urbano fica a cerca de 20 km da sede municipal em Paraíba do Sul. A localidade entrou para a história do Brasil por ter servido de pouso ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dá nome ao atual Museu Sacro e Histórico de Inconfidência. Suas construções mais antigas datam do século XIV.

Seguindo em direção a Minas, nossos rapazes portugueses provavelmente se depararam com o ambiente descrito mais de cinqüenta anos depois por Saint Hilaire (1975, p. 47):

A Freguesia de São José do Rio Preto, ou São José das Três Ilhas, foi instituída por provisão episcopal de 7 de novembro de 1833. A criação do distrito civil só ocorreu em 1850. Estas datas nos desanimaram num primeiro momento. A Igreja é muito nova e ali não encontraríamos informações.

Resolvemos então pesquisar as Cartas de Sesmaria e encontramos uma de 09 de dezembro de 1818, concedendo terras na Paragem de São Roque de Monte Verde, Freguesia de Simão Pereira, Termo de Barbacena a Carlos Gomes da Fonseca. Estava resolvida nossa principal dúvida, já que o beneficiário era filho do português Carlos Gomes Monteiro e Antonia Maria de Jesus e portanto irmão de Joaquim Gomes Monteiro, este último pai de Zeferino Antonio Gomes da Fonseca que foi pai de Teresa Maria.

Necessário se torna esclarecer que a visita a Três Ilhas tinha sido motivada por pesquisas em torno da família Fonseca, que só mais tarde descobrimos ter descendentes em diversas famílias leopoldinenses. O curioso é que em assentos religiosos relativos a membros da família Fonseca, algumas vezes é informado que moravam na Fazenda Reserva e outras vezes na Fazenda São Roberto. Segundo José Rodrigues de Magalhães Alves, oficial substituto do Cartório de Três Ilhas, a Fazenda São Roberto foi construída pelo terceiro avô dele, Francisco de Assis Alves, localizada em território hoje pertencente ao distrito de Porto das Flores. Não logramos êxito na busca da Carta de Sesmaria que teria dado origem à Fazenda São Roberto. Suspeitamos que as duas fazendas fossem vizinhas e a Reserva estaria localizada nas proximidades da atual divisa entre Santa Bárbara do Monte Verde e Belmiro Braga.

A seguir, decidimos pesquisar um pouco sobre a história de Simão Pereira, a mais antiga freguesia daquela região.


Simão Pereira

A paisagem que se apresenta aos olhos do viajante quando este entra na Comarca do Rio das Mortes, às margens do Paraibuna, tem algo que impressiona por um misto de desordem e regularidade selvagem. Por toda a parte o rio é dominado por montanhas elevadas; como ele descreve uma volta antes de chegar ao registro, não se vislumbra por esse lado mais que uma pequena parte do seu curso, e dá a impressão de ;que todo ele começa na base de uma montanha mais alta que as outras, e cujo cume absolutamente nu contrasta com a vegetação vigorosa dos morros vizinhos.

Nosso percurso para conhecer o provável caminho de entrada em Minas não obedeceu à mesma ordem em que aparece em Saint Hilaire. De Sebollas fomos à Paraíba do Sul e dali rumamos para São José das Três Ilhas.

São José das Três Ilhas

Todas as localidades por onde passa o rio do Peixe já foram objeto de nossos olhares, uma vez que nelas residiram os antepassados dos povoadores de Leopoldina. Conta a história que no Sítio de Simão Pereira foi criada a freguesia de Nossa Senhora da Glória em 1718. Vejamos como descreveu Cunha Matos, em obra publicada em 1837.

Grande distrito paroquial cuja igreja matriz existe na estrada do Rio de Janeiro para Barbacena, na margem esquerda do Rio do Barros, braço setentrional do Paraibuna, em terreno muito baixo na fralda de uma alta serra, ramo da Mantiqueira. A pequena distância da igreja existe uma humilde casa em que mora o vigário, e na serra fronteira há outra ainda menor, proporcionando, aliás, o terreno as melhores comodidades para uma grande povoação. Dista 35 léguas do Rio de Janeiro, e 43 da cidade do Ouro Preto.

Recebeu o nome de Simão Pereira por se achar próxima do lugar em que um homem assim chamado estabeleceu fazenda que ainda se apelida “Sítio do Simão Pereira”. Fica ao norte de outro lugar conhecido pelo nome de Rocinha de Simão Pereira, ambos na estrada real. O distrito próprio de Simão Pereira, dista 23 léguas da cabeça do termo. Tem 98 fogos e 964 almas.

Diz ainda Cunha Matos que a paróquia era também conhecida pelo nome de Simão Pereira do Caminho Novo. A Freguesia de Nossa Senhora da Glória do Sítio de Simão Pereira era o primeiro povoado de Minas. Mas, para descrever aquele trecho do Caminho Novo com maior proximidade no tempo, utilizaremos trechos do diário de Saint-Hilaire.

Auguste de Saint-Hilaire, cientista francês que viajou pelo interior do Brasil entre 1816 e 1822, deixou-nos preciosas informações sobre o Brasil do início do século XIX. A Segunda Viagem de Saint-Hilaire a Minas começou a 29 de janeiro de 1822, no Rio de Janeiro. No dia 6 de fevereiro entrou em território mineiro. Eis parte de seu relato do dia:

Serve o Rio Preto de fronteira às capitanias do Rio de Janeiro e Minas. À extremidade de uma ponte fica uma cidadezinha encostada à montanha, composta de uma única rua muito larga e paralela ao rio. Tem a cidade o mesmo nome do rio; depende do distrito de Ibitipoca e só conta uma igreja não colada, servida por um capelão. As casas de Rio Preto, excetuando-se uma ou duas, são térreas, pequenas, mas possuem um jardinzinho plantado de bananeiras, cuja pitoresca folhagem contribui para o embelezamento da paisagem.

O Caminho Novo

Seis dias depois o cientista estava acomodado em uma granja no “Rancho de Manoel Vieira” e seu relato volta a mencionar características da paisagem. Já tendo passado pela “Serra Negra”, informa que todo o percurso é um subir e descer muito cansativo. Sobre o Rio do Peixe que atravessara “um quarto de légua” antes, diz apenas; “passamos, sobre uma ponte de madeira, o pequeno rio chamado Rio do Peixe e pelo percurso vimos várias fazendas”.

Já no relato de sua primeira viagem Saint-Hilaire declarou-se impressionado com o que chamou de “misto de desordem e regularidade selvagem”, com a atenção voltada para “as montanhas que se misturam no horizonte e fazem pensar que o rio nasce na elevação posterior à que primeiro se avizinha” quando, ao passar posteriormente por ela, constatou que as águas vinham de um ponto bem mais distante. Século e meio depois o grande poeta Carlos Drumond de Andrade nos brindou com suas fortes impressões das montanhas de Minas.

Antes de prosseguirmos, transcrevemos mais um trecho da primeira viagem.

O primeiro lugar habitado que se encontra depois do Paraibuna é Rocinha da Negra, onde se vê um rancho e uma venda construídas em um vale à margem de um regato. Pouco mais longe, passa-se diante de uma choça denominada Três Irmãos, e em breve se chega à povoação de Vargem, localizada em um amplo vale rodeado de morros. O nome Vargem, sinônimo da palavra portuguesa várzea, se aplica geralmente a essas espécies de planícies úmidas e rodeadas de elevações que são bastante comuns nas partes montanhosas do Brasil, e diferem um pouco do resto do país pela vegetação.

Em nota do próprio autor ao texto acima, ficamos sabendo que ele foi recebido de maneira muito cordial em Vargem e que por isso faz questão de denunciar um outro viajante estrangeiro que teria sido tão bem recebido quanto ele e que, no entanto, depois teria “vilipendiado” o hospedeiro.


Santa Bárbara do Monte Verde

Seguindo o percurso inverso ao que julgamos ter sido realizado pelos Almeida Ramos, visitamos Santa Bárbara do Monte Verde em duas oportunidades. Não logramos êxito na busca da fazenda que pertenceu ao Barão de Santa Bárbara, personagem que acreditávamos descender de Antonio de Almeida Ramos.

Muitas foram as nossas buscas em Santa Bárbara do Monte Verde, bem como na documentação relativa àquele município que se encontra no Arquivo Público Municipal de Juiz de Fora. Mas foi somente neste ano de 2007 que, com a ajuda do pesquisador Júlio Sales Moreira, tivemos êxito na confirmação de nossa hipótese: descendentes de Antônio de Almeida Ramos deixaram a região da Serra da Ibitipoca no início do século XIX, vindo povoar os atuais municípios de Santa Bárbara do Monte Verte e Rio Preto.

O quinto filho de Antônio de Almeida Ramos e Maria de Oliveira Pedrosa foi João de Almeida Ramos, batizado em Santa Rita de Ibitipoca no dia 16 de abril de 1769. Casou-se a 3 de março de 1794, em Santa do Garambeo, com Teresa Maria de Jesus, filha do açoriano Manoel José do Bem e de Teresa Maria de Jesus. Ressalte-se que Teresa era filha do português Inácio Franco e da ilhoa Maria Tereza de Jesus. Portanto, a esposa de João de Almeida Ramos tinha relação de parentesco com ancestrais de grande parte da população de Leopoldina.

João de Almeida Ramos e Teresa Maria de Jesus foram pais de Francisco, Rita, Manoel Antonio de Almeida Ramos, João de Almeida Ramos Filho, Ana Bernardina de Almeida e Maria Teresa. Destaque-se que Ana Bernardina de Almeida casou-se com Manoel Rodrigues da Silva, formador da fazenda Puris no então Curato de São Sebastião do Feijão Cru. Também por João de Almeida Ramos Filho, que se casou com Joaquina Felisbina de Jesus, vamos encontrar descendentes em Leopoldina no século XIX.

Mas as nossas viagens a Santa Bárbara tinham sido motivadas pelo terceiro filho de João de Almeida Ramos e Teresa Maria de Jesus: Manoel Antonio de Almeida Ramos. Em literatura publicada em meados do século XX, observamos que eventualmente os autores consideravam que Manoel Antonio de Almeida, conhecido como Comendador em Leopoldina, era tido como sendo o mesmo Manoel Antônio de Almeida Ramos que viveu em Santa Bárbara do Monte Verde. Houve, parece-nos, um engano provocado pela semelhança de nomes. Entretanto, o “nosso” Manoel Antônio de Almeida foi o filho caçula de Antonio de Almeida Ramos e Maria de Oliveira Pedrosa, sendo tio do Manoel Antonio de Almeida Ramos de Santa Bárbara do Monte Verde.

Tantos anos depois de nossas buscas, Júlio Sales Moreira ofereceu-nos cópias de documentos que esclareceram definitivamente a questão. Através de um Titular do Império – o Barão de Santa Bárbara, o Júlio colocou um ponto final na questão. O Barão, cujo nome foi João Evangelista de Almeida Ramos, era filho de Manoel Antônio de Almeida Ramos e Joana Tereza do Espírito Santo. Era, portanto, sobrinho neto do nosso Manoel Antônio de Almeida e bisneto de Antônio de Almeida Ramos.

Rio Preto

Quando escrevemos o texto sobre os Almeida Ramos e os Farto de Almeida (CANTONI, 1978), citamos como possibilidade o vínculo entre as duas famílias. Entretanto, conclusões apressadas de outros autores haviam nos desanimado, já que nenhum deles tinha aventado a hipótese de ligação entre as famílias de dois Titulares do Império que descendem de Antônio de Almeida Ramos.

Já em nossa reunião de 1998 foram abordadas as grandes dificuldades para se chegar aos livros paroquiais desta e de outras antigas localidades onde nossos antepassados viveram. A Capela do Senhor dos Passos do Presídio do Rio Preto, segundo Trindade (1945, p. 242), foi erigida em 1831, a pedido de João Alves Garcia. Elevada a Freguesia em 1832, desmembrada da Freguesia de Conceição de Ibitipoca, quatro anos depois foi instituída canonicamente. Segundo o mesmo autor, em 1838 as obras de construção da matriz ainda não estavam concluídas.

Através das pesquisas realizadas no Arquivo Histórico da Prefeitura de Juiz de Fora, e de consultas ao material disponível na Casa de Cultura de Rio Preto e no acervo do Seminário Santo Antônio em Juiz de Fora, apuramos que descendentes dos três jovens de Óbidos viveram em território do atual município de Rio Preto, MG.

Além do já citado Manoel Antônio de Almeida Ramos, pai do Barão de Santa Bárbara, outros filhos e netos de Antonio de Almeida Ramos, de Agostinho de Almeida Ramos e de Francisco Farto de Almeida, são referidos em diversos documentos encontrados no Fórum de Rio Preto.

Acreditamos que outras pesquisas venham a esclarecer detalhes sobre estas ligações, incluindo a ascendência do Barão de Almeida Ramos, título concedido a Joaquim de Almeida Ramos.

Chapéu d’Uvas e Barbacena

Quisemos acompanhar a narrativa de Richard Burton por ali termos encontrado referência a Chapéu d’Uvas, um dos povoados que contaram com os Almeida Ramos no seu nascedouro. O viajante inglês (BURTON, 2001, p. 88) informa que o nome Chapéus d’Uvas refere-se a um cultivador de parreiras que as oferecia para matar a sede dos viajantes que por ali passavam. Acrescenta que naquela localidade encontravam-se dois caminhos: o do Mato, a nordeste, e o do Campo, direção noroeste. Quanto à aparência, o súdito do império britânico destacou o aspecto de pousada à beira da estrada, uma rua, uma capela pobre e pouca possibilidade de fornecer o necessário para o consumo local. Isto, lembremos, numa impressão de 1867. Com o intuito de dar voz aos viajantes estrangeiros, em suas descrições das localidades que vimos estudando, transcrevemos mais um trecho de Burton (2001, p. 114), para sabermos qual a impressão que lhe causou Barbacena.
Barbacena da Rainha fica a 21º13’9" 1 de lat. S. e 0º49’43"3 de long. O. (Rio), no ponto culminante do planalto, a 1.270 metros, em números redondos acima do nível do mar. O clima é essencialmente temperado; a temperatura máxima anual é de 26,6º à sombra. A cidade teve sua origem no Arraial da Igreja Nova da Borda do Campo, pouso para as tropas entre Ouro Preto (22 léguas) e Petrópolis (40 léguas); seu comércio principal consistia em quitandas e comestíveis semelhantes, vendidos por algumas velhas. O lugar era muito adequado para uma povoação de tal origem. No Brasil, as cidades fundadas por eclesiásticos ocupam as melhores posições, colinas e elevações com uma bela vista; os leigos preferiam os terrenos baixos, perto da água e do ouro. A localidade foi elevada a vila em 1791, pelo famoso ou infame Visconde de Barbacena, capitão-general das Minas, que lhe deu seu próprio nome. Mawe (1809) descreve-a como uma povoação de 200 casas, governada por um ouvidor ou juiz auditor. Foi elevada a cidade por lei provincial de 9 de março de 1849. A população do município era em 1864, de 23.448 almas, com 1.954 votos e 39 eleitores, cobrindo 1.400 alqueires de terra. A cidade tinha 5.000 habitantes em 1849; era, então, uma espécie de oásis central do deserto formado pelo mato meridional, a região coberta de florestas que havíamos atravessado e pelos campos do norte, que iríamos atravessar.

Com estes comentários esperamos ter completado o percurso que fizemos em busca da trajetória dos três rapazes de Óbidos. As demais localidades onde viveram, diversas vezes citadas em nossos textos anteriores, poderão vir a merecer novas referências futuras. Especialmente quando lograrmos êxito nas buscas ainda em andamento.

Referências Bibliográficas

ABREU, Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

AGASSIZ, Jean Louis Rodolph. Viagem ao Brasil 1865-1866. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.

ALMEIDA, Nilza. Caderno de Família: As tecelãs de Ibitipoca. Leopoldina, MG: do autor, 1972.

BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1995. p. 46

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2001.

CANTONI, Nilza. Caderno de Família 3: Os Moradores do Caminho Novo. Leopoldina, MG: do autor, 1976

CANTONI, Nilza. Entre nós: Almeida Ramos ou Farto de Almeida. Leopoldina, MG: do autor, 1978

CANTONI, Nilza. Os 3 jovens do Concelho de Óbidos. Leopoldina, MG: Jornal da Terra, 2001

Cartas de Sesmaria. Belo Horizonte: Revista do Arquivo Público Mineiro, 1988

Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – IBGE, 1960 – vol VII, fls 444

MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837) – Belo Horizonte, Itatiaia, 1981

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo – Belo Horizonte: Itatiaia, 1974

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte, Itatiaia, 1975.

SANTOS, Márcio. Estradas Reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil.  Belo Horizonte: Estrada Real, 2001

TRINDADE, Cônego Raimundo. Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: SPHAN, 1945

São Sebastião da Cachoeira Alegre

Freguesia de 1887, pertencente à Paróquia de São Paulo de Muriaé, São Sebastião da Cachoeira Alegre ocupava grande extensão territorial, com 470 fazendas e 4.000 habitantes na década de 1870.

No seu extremo sul apareceu, ao final dos anos de 1880, o povoado de Bom Jesus da Cachoeira Alegre com metade da extensão territorial e população. Quando Palma alcançou autonomia administrativa, a população somada de São Sebastião e Bom Jesus era 40% superior à de Palma. No processo de incorporação, os 4.200 habitantes de São Sebastião permaneceram vinculados a Muriaé e os de Bom Jesus passaram a Palma que teve, então, sua população aumentada de 5.000 para quase 8.000 habitantes.

Houve muita disputa política entre o final do século anterior e a primeira década do século XX, com os administradores de Palma querendo exercer o poder sobre São Sebastião da Cachoeira Alegre. Em 1911 veio a decisão a favor de Palma,  o que não agradou aos moradores. Prosseguiram as disputas até que, em 1920, São Sebastião da Cachoeira Alegre passou para o distrito de Silveira Carvalho, pertencendo a Muriaé. Entre os mentores desta nova divisão administrativa encontram-se, entre outros, os Silveira Carvalho, Duarte, Almeida, Rocha, Lammoglia, Meloni e Montovani.

Bom Jesus da Cachoeira Alegre permaneceu em Palma até 1962, quando o distrito de Morro Alto foi elevado a município com o nome de Barão de Monte Alto. O principal motivo da separação foi o abandono a que estava relegado o distrito de Morro Alto, ao qual Bom Jesus havia sido incorporado.

Na década de 1920 as localidades de Morro Alto, Bom Jesus e São Sebastião receberam muitos imigrantes portugueses, atraídos pelo baixo preço das terras esgotadas pela monocultura de café. Desde o final do século anterior já havia grande número de imigrantes, especialmente italianos, em São Sebastião da Cachoeira Alegre. A multiplicação de pequenas propriedades, onde outrora existiram verdadeiros latifúndios produzindo apenas café, modificou sensivelmente o panorama local. Muriaé, que foi o 16º município brasileiro em produção cafeeira  naquele 1920, aos poucos passou a dedicar-se a outras atividades, liberando grande extensão de terras para os neo-agricultores. Assim, portugueses e italianos atingiram o sonho da terra própria. Infelizmente, porém, foram os mais atingidos pela quebradeira de 1929.

Entre outras famílias que participaram desta retomada do crescimento está a do tio do poeta Miguel de Torga, que saiu de Leopoldina para comprar a Fazenda de Santa Cruz em São Sebastião da Cachoeira Alegre, na época distrito de Muriaé com o nome de Silveira Carvalho. Seus familiares estão profundamente vinculados ao movimento político que resultou na criação do município de Cachoeira Alegre e permaneciam em sua administração até a realização desta pesquisa, em 2001.

Quanto aos descendentes de italianos, a geração nascida a partir de 1930 conheceu dificuldades inomináveis. Embora a energia elétrica tenha chegado a Muriaé em 1910, seus distritos só a conheceram dez anos mais tarde. Por outro lado, Palma só teve energia elétrica a partir de 1920 e até 1964 este benefício não tinha chegado ao distrito de Morro Alto.

Da mesma forma teve influência a baixa escolarização dos habitantes. Apesar de Muriaé oferecer educação nos distritos desde o final do século XIX, as disputas políticas em São Sebastião da Cachoeira Alegre impediram a criação de escolas antes de sua re-anexação à antiga sede. Enquanto Muriaé contava com 36 núcleos de educação básica em 1916, o município vizinho atendia apenas a população da área urbana em suas 6 escolas.

Este texto foi composto a partir de informações obtidas em:

– entrevistas com descendentes dos Correia da Rocha;

– entrevistas com descendentes de italianos;

– relatórios da Presidência da Província de Minas Gerais;

– dados estatísticos fornecidos pelo Centro de Documentação da Fundação IBGE;

– dados estatísticos da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais;

– Fundação Henrique Hastenreiter e sua Revista de Historiografia Muriaeense;

– Revista Municípios, número dedicado a Muriaé;

– FARIA, Maria Auxiliadora de. O que ficou dos 178 anos da história de Muriaé. Itaperuna, RJ: Damadá, 1985.

Eleitores do Rio Pardo

Nos estudos sobre os antigos habitantes de Leopoldina, foram consultados os livros de Atas de Eleições que incluem as Qualificações de Eleitores ou Atas de Alistamento. No caso do atual município de Argirita, elas foram encontradas no Livro de Atas de Eleições de Bom Jesus do Rio Pardo, códice 25, que abrange o período de 1862 a 1874 e pertence ao acervo da Câmara Municipal de Leopoldina. É uma fonte interessante para saber quem eram os homens brancos, livres, maiores de 24 anos, com renda anual que lhes desse o direito de votar e, se de renda superior, o direito também de serem votados. Muitos daqueles nomes já constavam da Lista Geral de Votantes de São João Nepomuceno, códice PP 11 caixa 43, cujo pacote 09 se refere ao então distrito de Bom Jesus do Rio Pardo e que está no Arquivo Público Mineiro.

Não se pretende, aqui, discutir o sistema eleitoral vigente no Brasil ao tempo do Império. O objetivo é apenas usar um de seus instrumentos de controle para reunir os nomes dos cidadãos nele inscritos. Ressalte-se que a ortografia dos nomes é a constante nas fontes consultadas.

Importante esclarecer que a coluna Nascimento indica o ano estimado segundo a idade constante nas atas consultadas. Já a coluna Localização traz a informação encontrada nas atas de 1862 a 1864, as únicas a mencionarem o local de moradia do eleitor. A indicação “Dores” seguida de um numeral ordinal significa que o eleitor residia em território que em 1856 passou a constituir o distrito de Dores do Monte Alegre, então pertencente ao município de Leopoldina, atualmente denominado Taruaçu e pertencente a São João Nepomuceno. O numeral se refere ao quarteirão de Dores do Monte Alegre na época.

A transcrição destes dados tem por objetivo auxiliar outros pesquisadores que não tenham oportunidade de ir a Leopoldina consultar os livros do século XIX que não estão disponíveis para acesso à distância.

Nota: este material foi produzido em 2001, atualizado e republicado em março de 2021.

Piacatuba: evolução administrativa e origem do nome

Entre 1844 e 1851 o povoado, em homenagem a Nossa Senhora da Piedade, abrangia uma vasta região em torno de uma capela filial, curada da Freguesia de São Sebastião do Feijão Crú. Para melhor explicarmos sua evolução, lembremo-nos do significado de cada um dos termos próprios da divisão administrativa, no século dezenove, bem como a sua aplicação.

A Província de Minas Gerais era administrada por um Conselho Geral, presidido pelo Governador da Província, que encaminhava os pedidos de criação de Vilas e Cidades para a Assembleia Geral Legislativa do Império. Aprovado o pedido, era então emitido o Decreto Imperial que sancionava a criação, estabelecendo que a Vila teria uma Câmara Municipal e determinando qual seria sua área de abrangência. Procedia-se à eleição dos Vereadores e marcava-se a data de Instalação da Vila. O mais velho entre os eleitos assumia como Presidente da Câmara.

No decurso de sua atuação, as Câmaras Municipais avaliavam a necessidade de criar subdivisões administrativas que melhor atendessem às necessidades da população. O Decreto Imperial de 11 de setembro de 1830, estabelecia que a criação de Distritos cabia às Câmaras Municipais. Esta determinação foi modificada por Lei Provincial Mineira de 12 de agosto de 1834 e a criação de Distritos passou para a alçada do Presidente da Província. Distrito é a divisão civil de uma Vila ou Cidade.

Durante o processo de criação, e algumas vezes somente depois de criado o Distrito, era encaminhada ao Bispado a solicitação de Instituição Canônica da Freguesia, também conhecida por Confirmação Episcopal.

Geralmente a criação de um Distrito se dava em torno de um povoado onde já existia uma Capela. Em todas as grandes fazendas, o proprietário mandava construir, no mínimo, um Oratório para o serviço religioso de sua própria família. Se localizada a grande distância da Freguesia, após acordo com os fazendeiros vizinhos o proprietário fazia a Doação do Patrimônio ao Santo de sua devoção.

Na prática, isto significava uma Escritura de transferência de seus direitos sobre um pedaço de terra para o Bispado a que estivesse subordinado. De posse do Patrimônio, a Cúria Episcopal autorizava a realização de serviços religiosos naquela capela. O padre era então designado e poderia ser um Vigário Colado ou um Cura. A diferença está em que na Vigairia Colativa o salário do padre era pago pela Fazenda Real e era chamado de Côngrua. No Curato, os rendimentos do padre eram um percentual das taxas pagas pelos Fregueses para a realização dos atos religiosos.

Da estrutura de funcionamento do Bispado fazia parte a realização das Visitas Pastorais que, entre outras obrigações, fiscalizava os livros de cada uma das Igrejas de sua jurisdição. Observando um crescimento da população e, consequentemente, o aumento dos atos realizados no período, iniciava-se o processo de elevação do Curato em Freguesia.

Antes de prosseguirmos, queremos deixar claro que não havia regularidade no processo, e dois Bispados poderiam agir de forma bastante diferente. A história da criação do Curato de Nossa Senhora da Piedade, bem como do Curato do Tesouro de São Sebastião do Feijão Cru e alguns vizinhos, foi um tanto diferente de outros na mesma província. Isto porque, embora localizados dentro do território de Minas Gerais, sua Instituição Canônica foi realizada pelo Bispado do Rio de Janeiro.

O Curato de Nossa Senhora da Piedade foi instituído em terras doadas por Domingos de Oliveira Alves, em 1844. Foi elevado a distrito pela lei número 533 de 10 de outubro de 1851, fazendo parte do então recém-criado município de Mar de Espanha. Com a emancipação do Feijão Cru a Vila Leopoldina, em 1854, passou para esta jurisdição.

A lei número 2027, de 1º de dezembro de 1873, criou a Paróquia de Nossa Senhora da Piedade. De acordo com a legislação da época, isto significava conceder autonomia para ampliar o raio de ação, podendo o padre atender aos fregueses residentes fora de sua área administrativa. Acreditamos que esta lei tenha sido uma consequência do que já vinha ocorrendo na prática. Desde 1851 é possível encontrar assentos paroquiais de atos realizados nas capelas do Porto de Santo Antônio (Astolfo Dutra) e de Santana de Cataguases, lançados nos livros da Igreja de Nossa Senhora da Piedade.

Alguns autores consideram que não houve Instituição Canônica, ou que a lei acima foi tornada sem efeito, em virtude do contido na lei número 3798 de 16 de agosto de 1889, que tratava da elevação à Freguesia. Pedimos permissão para manifestar uma opinião algo divergente. Analisando Atas de Visitas Comarcais do período, concluímos que pode ter havido algum processo interrompido, mas que a legislação civil acatou a lei de 1873, passando a referir-se à Freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Leopoldina. Nos atos eclesiásticos, porém, consta que ainda era Curato quando foi transferido para a Diocese de Mariana, por Ato Pontifício de 16 de julho de 1897, com o nome de Piedade da Leopoldina.

A derradeira mudança de nome veio muito tempo depois. Na divisão administrativa de Minas Gerais levada a efeito pela Lei número 843 de 7 de setembro de 1923, foram trocados os nomes de 324 sedes distritais, sendo que, de 177, foram substituídas as denominações de origem cristã. Enquadra-se, neste caso, o Distrito da Piedade que, a partir daí, passou a ter uma palavra de origem tupi como seu topônimo.

O nome Piacatuba é formado dos seguintes termos: PIA que significa coração, CATU que significa bom e BA que significa lugar. Portanto Piacatuba, na língua geral, significa LUGAR DE GENTE DE BOM CORAÇÃO, numa alusão aos índios puris que foram seus primeiros habitantes e que, então, eram considerados pacíficos.

Infelizmente, temos uma nota dissonante a este respeito. Embora o nome sugerido pelo Senador Basílio de Magalhães, por ocasião da discussão da Lei número 843 acima citada, tenha sido evidentemente explicado conforme documentação que compõe os anais da Assembleia Legislativa Estadual, muitos não compreenderam ou não quiseram aceitar seu significado. Data desta época a versão “Piracatuba” para o nome do distrito, constante em algumas obras oficiais, como a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, editada 26 anos depois.

Mais uma vez, pedimos licença para manifestar opinião pessoal. É que a substituição de “Pia” por “Pira” modificaria o significado do topônimo. No lugar de ser conhecida como “Terra de gente de bom coração”, seria conhecida como “Terra de incendiários”, numa linguagem atualizada. No entanto, os autores de tal absurdo demonstraram o completo desconhecimento da língua geral. Isoladamente, “Pirá” era palavra utilizada pelos índios para designar peixe, donde temos, por exemplo, o peixe chamado “pirarucu”. Quanto a “Pyrá”, do grego, e “Pyra”, do latim, ambas se relacionam a “fogo e fogueira”. Uma hipotética aglutinação de Pyrá + Catu + Ba significaria, mais ou menos, “lugar bom para queimar”. Se considerada de exclusiva origem do tupi, Pira + Catu + Ba significaria “lugar bom para peixe” ou para pescar. O que não é, historicamente falando, o caso de Piacatuba.

Pelo que pudemos apurar em algumas lendas familiares, a troca de nome do lugar teria sido alimentada por pessoas de pouco siso, cujo único objetivo seria achincalhar a origem da Cruz Queimada, episódio que foi berço da religiosidade séria e respeitável de toda a “Gente de Bom Coração”. O início da década de 1920 viu nascer disputas acirradas de praticantes das religiões protestantes contra os católicos, como se pode observar nos jornais A Noite, A União, A Razão, Correio da Manhã, O Brasil e O Combate, publicações da capital federal e da capital mineira. E justamente naquela época começou a ser construído o Monumento da Cruz Queimada.

Além da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, outras publicações utilizaram o nome Piracatuba ao longo do século XX:

Sino Azul – Rio de Janeiro – Revista da CTB, 1964, ed 1, p 13, col 2.

Correio da Manhã. 27 maio 1924, ed 9212, p 5, col 1;

Brazil-Ferro-Carril. Revista Semanal de Transportes Economia e Finanças, 15 out 1925, p 507, col 2;

O Jornal. 15 fev 1928, ed 2824, última página, col 7;

Revista Excelsior – Rio de Janeiro. set 1931, ano IV, nr 44, p 73, col 2;

O Jornal. 01 abril 1949, ed 8872, Segundo Caderno, p 1, col 7;

Texto publicado em outubro de 2001 por Lucimary Vargas de Oliveira e Nilza Cantoni e atualizado em abril de 2018 e abril de 2024 por Nilza Cantoni.

Raízes no Rio Pardo

Mauro de Almeida Pereira, autor de “Os Almeidas, os Britos e os Netos em Leopoldina”, foi quem direcionou meus passos para Argirita mesmo sem que ele próprio soubesse de nossa ligação com o antigo Curato do Senhor Bom Jesus do Rio Pardo.

Desde o lançamento de seu livro em 1966 e até alguns meses antes de sua morte em junho de 2001, o Mauro foi meu principal interlocutor. No início era dele que eu ouvia as principais referências que serviram de base para estabelecer minha estratégia de buscas. Nos últimos anos ele foi o ouvinte atento, sempre vibrando com cada nova descoberta.

Pois bem! Pesquisando a genealogia dos Almeidas o Mauro descobriu que a avó materna dele era filha de Carolina Rosa, de quem se dizia ser parente do Alféres José Joaquim da Silva Xavier. Durante muitos anos ele acreditou que o parentesco viria através da mãe de Carolina Rosa. Mas, ao tempo em que pesquisava ativamente, era ainda mais difícil encontrar documentos probatórios das lendas familiares. Além disso, ele confiou nas informações publicadas por Artur Vieira de Rezende e Silva em “Genealogia Mineira”, acreditando que ali foram listados todos os parentes do Tiradentes que viveram em nossa região. Somente na década de 80 apresentei ao Mauro uma hipótese que justificasse a memória familiar. Ele achou válida e passamos a buscar provas documentais para defendê-la.

Tal hipótese transferia para a ascendência paterna de Carolina Rosa o parentesco com Tiradentes e acrescentava um sobrenome ao que já conhecíamos como sendo o terceiro-avô materno do Mauro. Compulsando diversas fontes, encontrei em “Velhos Troncos Mineiros” do Cônego Raimundo Trindade, a afirmação de que o personagem que eu acreditava ser pai de Carolina Rosa foi filho único e faleceu em 1845, na Fazenda Campo Limpo, em Leopoldina. Infelizmente nós ficamos com a publicação do Cônego Trindade e não mais procuramos documentos em Leopoldina, após constatarmos que não existia o inventário do personagem em questão e tampouco de seus pais.

Já na década de 90 consegui acesso ao Arquivo da Prefeitura Municipal de Leopoldina e, para nossa surpresa, constatamos que a informação do Cônego Trindade não procedia. Encontrei o pai e o avô de Carolina Rosa como eleitores do Curato de Bom Jesus do Rio Pardo em 1862!

A partir daí foi fácil reordenar os dados colhidos em diversos documentos e demonstrar minha hipótese. Para tanto voltei a pesquisar todos os documentos possíveis sobre Argirita. O resumo desta busca foi publicado sobre o título Pioneiros Esquecidos, há cerca de um ano. O conjunto das pesquisas permitiu compor um estudo da história de Argirita. Futuramente poderão ser acrescentados outros dados já que ainda existe a hipótese dos pais de Carolina terem sido primos por parte de pai e, a se confirmar, alguns textos sofrerão modificação.

§         Antonio Felisberto da Silva Gonçalves, nascido a 2 janeiro 1804 em São João d’El Rei, MG; faleceu entre  1865 e 1868 em Argirita ou Aventureiro.  Era filho de Felisberto Gonçalves Silva e Ana Bernarda da Silveira. Antonio Felisberto casou-se com Francisca de Paula de São José, nascida por volta de 1815 provavelmente em Baependi, MG.

§    De Antonio Felisberto e Francisca de Paula encontramos apenas a filha Carolina Rosa de São José, nascida por volta de 1831 em território do então Distrito de Bom Jesus do Rio Pardo. Carolina casou-se com Francisco de Paula Pereira Pinto, filho de Carlos Pereira Pinto e Francisca Augusta. Do casal Carolina Rosa e Francisco de Paula Pereira Pinto descende o Mauro de Almeira Pereira e muitos outros usuários do sobrenome Almeida em Leopoldina e cidades vizinhas.

§         Felisberto Gonçalves Silva nasceu em São Sebastião do Rio Abaixo e faleceu em 1863 em Argirita, MG.  Era filho de Domingos Gonçalves de Carvalho e Maria Vitória de Jesus Xavier.  Felisberto casou-se com Ana Bernarda da Silveira no dia 29 setembro 1802 em São Tiago, Ibituruna, São José del Rei, MG.

§         Ana Bernarda da Silveira nasceu em 1789 em São João d’El Rei, filha de Bernardo José Gomes da Silva Flores e Joaquina Bernarda da Silveira.

§         Domingos Gonçalves de Carvalho, nascido por volta de 1740 em São João de Arneja, Bastos, Portugal, era filho de Antonio Gonçalves e Maria Mendes.  Domingos casou-se com Maria Vitória de Jesus Xavier em 1 outubro 1759 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Prados, MG.

§         Maria Vitória de Jesus Xavier, nascida por volta de 1742 em São João d’El Rei, MG, era filha de Domingos da Silva Santos e Antonia da Encarnação Xavier.

§         Bernardo José Gomes da Silva Flores, nascido em San Thiago de Lobam, Porto, Portugal, era filho de Manoel Gomes da Silva e Maria Rosa de Jesus.  Bernardo casou-se com Joaquina Bernarda da Silveira no dia 26 agosto de 1787 em São João del Rei, MG.

§         Joaquina Bernarda da Silveira, nascida por volta de 1770 em São João d’El Rei, MG, era filha de Anastácio José de Souza e Maxima Jesuina da Silveira.

As divisas do distrito da Piedade

O distrito da Piedade, atual Piacatuba, teve os seus primeiros limites fixados em 10 de outubro de 1851 pela Lei nr. 533 que criou o distrito:

Art. 5 – O novo Distrito de Nossa Senhora da Piedade do Município do Mar de Hespanha, divide com o do Feijão Cru pelas águas vertentes do Ribeirão da Samambaia, e córrego do Nery; dali em direção às Laranjeiras e à fazenda de João Pedro de Souza no Rio Pomba; por este acima à fazenda do Capitão David; e dali em direção à Serra da Pedra Branca, atravessando o Ribeirão do Pires, até alcançar a fazenda da Graminha, compreendidas as vertentes do Rio Novo; e com o distrito do Rio Novo, divide pela maneira seguinte: ficam pertencendo ao novo Distrito de Nossa Senhora da Piedade as vertentes do Ribeirão da Independência, desde a sua foz no Rio Pardo até a Serra da Parapetinga, e da Barra do mesmo Ribeirão, Rio Pardo acima, ficam compreendidas as fazendas de D. Antônia Maria da Luz, Francisco Tavares e Francisco Mendes da Silva.

No estudo acima, a área em laranja corresponde ao distrito da Piedade em 1851 e a área em cinza não lhe pertencia. A área azul na parte inferior era do distrito do Senhor Bom Jesus do Rio Pardo, hoje Argirita. A linha azul, pelo centro e à direita do mapa, mostra a atual divisa do distrito com Tebas ao sul, a sede do município de Leopoldina a leste e Cataguases a norte-nordeste, demonstrando a área que Piacatuba perdeu entre a criação do distrito e as divisas atuais. Conforme verificado na imagem, a linha divisória sofreu algumas alterações, ora aumentando, ora diminuindo a área do distrito.

Será sempre oportuno buscar novos documentos que possam esclarecer, exatamente, quais eram os limites entre os distritos da Piedade, Rio Pardo e Monte Alegre. Especificamente sobre o Distrito do Rio Pardo (Argirita), sabemos que ele se limitava, pela serra Dourada e vertentes do rio Angu, com o Distrito de Madre de Deus do Angu (Angustura); com o então Curato do Espírito Santo (Guarará), pela serra da Prata e vertentes do ribeirão de mesmo nome; pelas vertentes do rio São João, com São João Nepomuceno e, partindo da serra de Santa Rita, seguia o córrego de São Bento até encontrar, novamente, a serra Dourada, também chamada de serra da Boa Vista.

Lei 1198 de 9 de agosto de 1864

A lei 2027 de 1º de dezembro de 1873 aborda os limites distritais e indica, como pertencentes ao Distrito de Nossa Senhora da Piedade, as fazendas Graminha, a de Manoel Antônio Dutra e a de José Maria Gonçalves Coelho, que marcavam os limites com São João Nepomuceno.

Ainda nesta lei de 1873, encontramos a primeira menção a Francisco de Paiva Campos como freguês da Piedade, sendo ali esclarecido que, até então, sua fazenda pertencia ao Distrito de Dores do Monte Alegre.

Dois anos depois, com a criação da Vila de Cataguases em novembro de 1875, foram retirados do território de Piacatuba, os terrenos da margem esquerda do rio Novo, na parte que hoje pertence a Dona Eusébia. No entanto, na jurisdição eclesiástica, aqueles terrenos continuaram com a Igreja de Nossa Senhora da Piedade.

Em 1880, nova lei vinha tratar dos limites entre Piacatuba e Cataguases. Agora estabelecendo que, do ponto do Rio Novo, onde é a atual divisa entre Itamarati, Cataguases e Dona Eusébia, seguindo pelo córrego Pirapetinga e até encontrar a foz do Rio Pardo, todos os terrenos ao norte ficariam pertencendo a Cataguases. Mas, esta ainda não seria a divisão definitiva. Em setembro do ano seguinte, o trecho compreendido entre a serra da Pedra Branca, em Astolfo Dutra, e o rio Novo, passaria também para Cataguases. Desta forma, as fazendas de João Antônio de Araújo Porto e de José Henriques da Mata, deixaram de pertencer à Piedade. Pouco depois, em outubro de 1882, foi a vez de passarem para Cataguases as fazendas de David Alves Ferreira e Pedro Antônio Furtado de Mendonça. Finalmente, em 1884, nova transferência acrescenta a Cataguases a fazenda de Cândido da Silva Ladeira.

Lei nr 2700 de 30 de novembro de 1880

Em virtude de tantas alterações dos limites entre Cataguases e a Piedade, até hoje continuam a ser mal informados os leitores de jornais e livros publicados na própria região. Especialmente no que se refere ao Museu da Eletricidade, é comum ler que a Usina Maurício está localizada naquele município. Acreditamos que caiba ao morador de Piacatuba, assim como a todos aqueles que amam este belo distrito, lutarem para que seja preservada adequadamente a sua história.

Foi no ano de 1880, com a criação do distrito de Santo Antônio de Tebas, no lugar antes denominado Aplicação de Monte Alegre, que começaram as modificações nos limites da Piedade pelo sudoeste. Ali, num primeiro momento, passaram para o novo distrito as fazendas de Francisco José Barbosa de Miranda, Francisco Paulino Ramos e Francisco Xavier Augusto. Na outra margem do rio Pardo, continuaram, na Piedade, as fazendas de Manoel Ferreira de Souza, Francisco Antônio Nogueira, Eleotério Gonçalves Pereira e João Paulino Barbosa.

Dois anos depois, com a elevação de Tebas a Freguesia, em 1882, passou a contar, em seu território, com as seguintes fazendas desmembradas da Piedade: Valverdes, Manoel Lopes de Carvalho, Rafael Teixeira, Pedro José de Novaes, Francisco Antônio Nogueira da Gama, Francisco Paulino Dias de Oliveira, Luiz José Gonzaga de Gouvêa, Paulo José Ribeiro e Joaquim Rodrigues da Silva.

Este texto foi atualizado em novembro de 2023.