169 – Antônio Rodrigues Gomes

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Como foi dito na viagem anterior, Antônio Rodrigues Gomes se casou com Rita Esméria de Almeida, filha de Manoel Antônio de Almeida e Rita Esméria de Jesus. Com ela teve pelo menos 12 filhos, sendo 5 nascidos no Curato do Feijão Cru.

Aqui chegando em 1829, Antônio declarou[1] que adquiriu 200 alqueires de terras de Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda, encarregado de vender as duas sesmarias doadas aos irmãos Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda, tios do vendedor.

Antônio denominou sua propriedade como Águas Vertentes e informou que se localizava no Córrego do Moinho, sendo seus vizinhos José Tomaz de Aquino Cabral (Fazenda Santa Cruz), Mariana Pereira Duarte (Fazenda Recreio), João Gualberto Ferreira Brito (Fazenda Fortaleza), Antônio Joaquim Teixeira e seu irmão Bento Rodrigues Gomes. Além destes vizinhos, ainda se tem o registro de Antônio Carlos da Silva Teles Faião informando que sua propriedade, que se estendia das vertentes até a barra do Ribeirão Recreio, fazia divisa com Antônio Rodrigues Gomes.

Segundo Barroso Junior[2], Antônio Rodrigues Gomes foi o escrivão da doação que Joaquim Ferreira Brito fez para constituir o Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru no dia 01 de junho de 1831.

Antônio faleceu[3] em Leopoldina aos 13 de fevereiro de 1866.

Os filhos

Antônio e Rita Esméria de Almeida tiveram os filhos:

1) Maria Constança de Jesus cc Antônio de Almeida Ramos, filho de Manoel Antônio de Almeida e Rita Esméria de Jesus. O casal viveu na Fazenda Boa Vista, em Tebas, propriedade desmembrada da fazenda Feijão Cru, dos pais do marido; 2) Manoel Rodrigues do Nascimento cc Ana Esméria de Jesus, com quem viveu no distrito de Cataguarino, Cataguases; 3) Francisco Rodrigues Gomes de Almeida cc Maria Umbelina da Anunciação, filha de Bernardo José Gonçalves Montes e Maria Antônia de Jesus. O casal viveu na Fazenda Sossego, de Bernardo José; 4) Luciana Francelina da Anunciação cc Vicente Rodrigues Ferreira, filho de Bento Rodrigues Gomes e Ângela Joaquina de Jesus.O casal é citado como vizinho e/ou condômino nas fazendas Recreio, de Mariana Pereira Duarte e depois João José Dutra; fazenda Santa Cruz, dos Aquino Cabral, sítios Aracaty e Porangaba dos Costa Cruz e Alves Ribeiro. Compraram parte da fazenda Boa Vista, na mesma região onde viviam os pais de ambos; 5) Mariana Esméria da Natividade cc José Joaquim Pereira Garcia e numa segunda união com Antônio Joaquim Teixeira Filho, filho de Antônio Joaquim Teixeira e Lina Rosa da Trindade. Com o segundo marido, viveu na fazenda do pai dele que era vizinha do pai dela; 6) Ignacio Rodrigues Gomes cc Delfina Ignacia de Moraes, filha de Antônio Luiz de Moraes e Rita de Cássia de Almeida. O casal era vizinho das fazendas Recreio e Santa Cruz, de João José Dutra, tendo vivido na fazenda São Manoel da Bocaina onde o pai de Delfina era condômino; 7) Joaquina Eucheria de Jesus cc Josué de Vargas Corrêa, filho de Francisco de Vargas Corrêa e Teresa Maria de Jesus. O casal tinha quinhão na fazenda Santa Cruz, de João José Dutra e doou terreno para o cemitério de Vista Alegre em 1899; 8) Messias Rodrigues Gomes cc Francisco Ferreira Neto, filho de Manoel Ferreira Brito e Maria Josefa da Silva. Foram proprietários da fazenda Laranjeiras, de Recreio, vizinhos das fazendas Santa Clara, Recreio, São Manoel da Bocaina e Boa Vista. Ele foi vereador, presidente do conselho distrital de Recreio e diretor-presidente do Banco de Leopoldina; 9) Venancia Esméria de Jesus cc Francisco de Vargas Corrêa [filho], filho de Francisco de Vargas Corrêa e Teresa Maria de Jesus. Foram vizinhos da fazenda Constança, arrematantes de parte da fazenda Independência e condôminos da fazenda Alto da Serra; 10) Ana Rodrigues Gomes cc José Amâncio de Menezes, filho de Antônio José de Menezes e Joaquina Margarida, casal que adquiriu terras da fazenda Província, em Itapiruçu, Palma; 11) João Rodrigues Gomes cc Messias Ferreira Damasceno, filha de João Damasceno Ferreira e Rita Joaquina de Jesus.O casal era confrontante da fazenda Monte Alegre, tendo vivido na propriedade do pai de Messias, na fazenda Santa Clara; e, 12) Rita Guilhermina de Jesus cc Josué de Vargas Corrêa, filho de Francisco de Vargas Corrêa e Teresa Maria de Jesus.Confrontante das fazendas Recreio e Santa Cruz, com quinhão nesta última.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 421 no jornal Leopoldinense, junho de 2021

Fontes consultadas:


[1] Registro de Terras de Leopoldina. Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, termo 37 
[2] BARROSO JÚNIOR. Leopoldina e seus primórdios. Rio Branco: Gráfica Império, 1943: notas da pag 61 
[3] Inventário de Antônio Rodrigues Gomes processo 38404808 COARPE / TJMG fls 4v img 6.

168 – Antônio e Bento Rodrigues Gomes

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O Trem de História de hoje recorda dois irmãos pioneiros de Leopoldina que se uniram a filhas de dois outros pioneiros bastante conhecidos na cidade. São eles, Antônio Rodrigues Gomes, que se casou com Rita Esméria de Almeida, filha de Manoel Antônio de Almeida casado com Rita Esméria de Jesus e, Bento Rodrigues Gomes, que se uniu a Ângela Joaquina de Jesus, filha de Joaquim Ferreira Brito e Catarina Esméria de Sene.

A história destes dois irmãos começa em outubro de 1774 quando se casaram em Aiuruoca-MG o português João Rodrigues Gomes, natural de Santa Maria das Neves de Pedroso, e Mariana Rosa de Jesus. Ele, filho de João Rodrigues Truze e Ana Gomes. Ela, nascida por volta de 1753 no Termo de São João del Rei, filha de João da Silva de Oliveira e Maria Rosa de Jesus.

O casal João Rodrigues Gomes e Mariana Rosa de Jesus teve, pelo menos, dez filhos. O terceiro deles, Antônio Rodrigues Gomes, foi batizado em Aiuruoca no dia 31 de janeiro de 1779. Outro filho, Bento Rodrigues Gomes, foi batizado aos 17 de outubro de 1790 também em Aiuruoca.

Os dois irmãos acompanharam os sogros na mudança para o Feijão Cru e aqui adquiriram terras nas proximidades do Ribeirão Jacareacanga.

Tanto no inventário de Bento como no de Antônio, verifica-se que as propriedades de ambos diminuíram de extensão entre o momento do registro, em 1856, e da morte deles, 1862 e 1866 respectivamente. O que deve ter ocorrido em função de dotes de filhos e filhas.

Mas para compreender melhor este fato, necessário se faz relembrar comentários baseados na pesquisa realizada em processos de inventário, partilha e divisão de terras no município de Leopoldina entre 1846 e 1911.

De imediato é preciso lembrar que em História Social e Antropologia, usa-se o termo matrilocal para definir a prática social em que o casal reside perto dos pais da esposa.

Historicamente isto deu origem ao sistema de clãs em que três ou quatro gerações vivem no mesmo lugar. No caso das famílias leopoldinenses do século XIX, observou-se que a matrilocalidade foi praticada especialmente quando a família da noiva detinha maior poder econômico do que a do noivo.

Importante também destacar que no período colonial os filhos adultos solteiros não se tornavam automaticamente emancipados ao atingir os 25 anos, idade limite para a maioridade. Era preciso requerer judicialmente a emancipação. Já no século XIX a maioridade se tornou automática[1], mas quando se tratava de tomar posse dos bens herdados dos genitores, o interessado precisava apresentar prova de idade obtida junto ao pároco da igreja na qual tinha sido batizado. Sendo assim, enquanto os genitores viviam, os filhos de qualquer idade permaneciam morando com os pais por não deterem meios de subsistência, já que habitualmente trabalhavam para a “empresa familiar”, como era entendida a propriedade rural. Conforme destacou Nazzari[2], segundo o Livro III das Ordenações Filipinas, “os pais deviam conservar e aumentar seu patrimônio em benefício de seus herdeiros”.

Depois da Independência, a constituição do patrimônio familiar sofreu significativa mudança. Nos séculos anteriores, a terra não era mercadoria avaliada em termos monetários, já que não era comprada, mas recebida em doação e sua transferência só era permitida com autorização da Coroa ou de seus prepostos. Com o fim da concessão de sesmarias e mais tarde com a aprovação da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, conhecida como Lei de Terras, passou a ser legalmente permitida a compra e não só de terras públicas. Esta transformação da terra em mercadoria pode ser observada nos inventários. Enquanto no período colonial destacavam-se bens como joias, roupas, artefatos de metal e benfeitorias, no século XIX o valor primordial passou a ser a terra. A diminuição da quantidade deste bem, no caso dos irmãos Rodrigues Gomes, pode ser compreendia através de informações sobre os filhos deles.

Mas isto já será carga para nova viagem Trem de História que virá com a próxima edição do Jornal. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 420 no jornal Leopoldinense, maio de 2021

Fontes Consultadas:


[1] SIDOU, J. M. Othon. O Ingresso na maioridade (à luz do Código Civil e do direito Comparado) In: Revista da Academia Brasileira de Letras Jurídicas. Rio de Janeiro: Imprenta, Academia Brasileira de Letras Jurídicas, 1985.v. 20, n. 26, p. 125–131, jul./dez., 2004. p. 126 [2] NAZZARI, Muriel. O Desaparecimento do Dote. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p.147

167 – Fazendas Thezouro e Cachoeira da Boa Vista

Logomarca Trem de História

Percorrer os caminhos traçados pelos primeiros entrantes no território do atual município de Leopoldina tem sido o combustível e a razão de muitas viagens do Trem de História. Hoje, com estes mesmos ingredientes, ele visita a Fazenda Thezouro e a sua filha, a Fazenda Cachoeira da Boa Vista.

É bom lembrar, de início, que numa região montanhosa como este leste mineiro é natural que a maioria dos rios e ribeirões contem com quedas d’água ou cachoeiras que, por via de consequência, acabaram entrando na composição do nome de diversas fazendas. Fato que às vezes confunde um pouco a pesquisa em documentos da época, pela repetição do nome em vários pontos do município.

FAZENDA THEZOURO

A fazenda Thezouro foi formada no início do povoamento do Feijão Cru por Luciana Esméria de Almeida, filha de Manoel Antonio de Almeida e seu marido Joaquim Cesário de Almeida, que vinha a ser sobrinho materno do mesmo Manoel Antonio. Joaquim Cesário faleceu[1] aos 18 de março de 1855 e a propriedade passou a ser administrada por sua esposa que a registrou[2] em 1856 pelo tamanho de uma sesmaria, ou seja, mais ou menos 225 alqueires.

Divisava com Bernardo José Gonçalves Montes, José Ferreira Brito e Francisco José de Freitas Lima que mais tarde se tornaram sogros de filhos do casal Luciana-Joaquim Cesário. Eram também vizinhos da Fazenda do Tesouro: Manoel José Monteiro de Castro (1º Barão de Leopoldina) e Antonio Augusto Monteiro de Barros Galvão de São Martinho.

No processo[3] de Derrota[4], em 1868, consta que a Fazenda Thezouro divisava com “um corrigo chamado da Independencia”; com Domiciano Antonio Monteiro de Castro; com os vizinhos originais, Bernardo José Gonçalves Montes (que veio a ser sogro de João Basílio de Almeida), José Ferreira Brito e Francisco José de Freitas Lima. Divisava, ainda, com Prudente Vital de Oliveira que havia comprado 8.512 braças quadradas de Domiciano Antonio Monteiro de Castro, conforme escritura transcrita no processo de Derrota; e com o filho do casal João Basílio e seus cunhados Antonio Venancio de Almeida e Antonio Augusto de Almeida.

Nessa ocasião, Francisco José de Freitas Lima já havia comprado a legítima de Ignacio Ferreira Brito, que era genro do casal formador da fazenda. E o 1º Barão da Leopoldina havia comprado a legítima da esposa de Francisco Gonçalves Neto, que era filha do casal formador da fazenda.

Luciana Esméria de Almeida faleceu[5] dia 1 de agosto de 1864 e foi sucedida na administração dos bens do casal pelo filho mais velho, João Basílio de Almeida.

FAZENDA CACHOEIRA DA BOA VISTA

A história da fazenda Cachoeira da Boa Vista começa alguns anos antes de 30 de outubro de 1868, quando o piloto agrimensor Carlos Pereira de Souza apresentou o Memorial da Derrota[6] da “Fazenda Thezouro”. E, em linha gerais, a partir dos documentos a que se teve acesso, pode ser contada assim.

Algum tempo depois do falecimento de Luciana a fazenda Thezouro foi dividida. Na época, os condôminos eram João Basílio de Almeida e Antonio Augusto de Almeida que eram herdeiros da Tesouro; Antonio Venâncio de Almeida, João Ferreira de Almeida e Antonio de Freitas Lima (genros dos formadores da Tesouro), Francisco José de Freitas Lima (sogro de uma filha dos formadores da Tesouro) e o 1º Barão da Leopoldina, que havia comprado uma parte da fazenda.

A partir daí uma parte da Thezouro recebeu o nome de Fazenda da Cachoeira da Boa Vista e como tal funcionou por aproximadamente duas décadas.

Vinte anos depois, em 1884, Antonio José de Siqueira, um dos condôminos, requereu a divisão[7] da Fazenda Cachoeira da Boa Vista. Nessa ocasião eram condôminos: Antonio José de Freitas Lima; Bernardo Rodrigues Gomes e sua mulher Augusta Leopoldina de Rezende Montes; Manoel José de Siqueira Araújo e sua mulher Maria Virgilina de Almeida Siqueira, residentes na Corte; Romualdo Rodolfo Rodrigues Montes e sua mulher Blandina Leopoldina de Almeida; Antonio Pedro de Almeida; Joaquim Martins de Almeida; Filomena Ludovina de Almeida, filha do finado João Basílio de Almeida; Elisa de Almeida com seu tutor Bernardo Rodrigues Gomes; Dorcelina, Luciano e Eurico filhos de João Basilio de Almeida.

A Fazenda Cachoeira da Boa Vista divisava com as terras de: João Baptista Guimarães e sua mulher; Emidio Manoel Victorio da Costa; João Ferreira de Almeida e sua mulher Maria Cesaria de Almeida; Lucas e João, filhos de João Ferreira de Almeida; Antonio Augusto de Almeida e sua mulher Virginia Pereira Werneck; Antonio Venancio de Almeida e sua mulher Rita Virginia de Almeida; Antonio José de Freitas Lima e sua mulher Honorina Antonia de Almeida; José Antonio de Moraes e sua mulher; Francisco de Souza Guerra e sua mulher; José Luiz Machado e sua mulher; José de Moraes Lima e sua mulher Mariana Augusta de Almeida; Francisco de Moraes Lima e sua mulher; Miguel de Faria Coutinho e sua mulher Felicidade Perpétua de Freitas; Ana Eufrosina de Freitas Lima; Francisco José de Freitas Lima e sua mulher Francisca Margarida.

Em 04.07.1883 Augusta Leopoldina Rezende de Almeida vendeu[8] a Antonio José de Siqueira sua meação na Fazenda da Cachoeira da Boa Vista, que fazia divisa com herdeiros de Francisco José de Freitas Lima, com João Batista Guimarães, João Ferreira de Almeida, Antonio Augusto de Almeida, Antonio Venancio de Almeida e Emidio Manoel Victorio da Costa, num total de 137 hectares e 94 ares. E em 24.09.1883 nova escritura ratifica os termos da anterior registrando que a meação de Augusta Leopoldina Rezende de Almeida foi dada em pagamento a Antonio José de Siqueira.

Augusta Leopoldina Rezende de Almeida, viúva de João Basilio de Almeida, casou-se a segunda vez com Bernardo Rodrigues Gomes que passou, então, a ser condômino da fazenda.

Registre-se que o processo ora analisado menciona o ribeirão São Lourenço em algumas passagens e, comparando-se com outras informações do mesmo processo, conclui-se que a fazenda se localizava em território que pertenceu ao distrito de Conceição da Boa Vista sendo desmembrado para a formação do distrito de Abaíba, criado em 1890.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Mas fique certo o eventual leitor que na próxima edição do Jornal um pouco mais da história da cidade ocupará este espaço. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 419 no jornal Leopoldinense, abril de 2021

Fontes consultadas:


[1] Cartório de Notas de Leopoldina, MG - 1º Ofício, Maço 20
[2] Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, nr 40
[3] Processo COARPE – TJMG 38405817. Divisão da Fazenda Cachoeira da Boa Vista.
[4] Derrota era o termo usado para denominar o processo de medição de uma propriedade rural.
[5] Cartório de Notas de Leopoldina, MG - 2º Ofício, Maço 64.
[6] Processo COARPE/TJMG 38405817. Divisão da Fazenda Cachoeira da Boa Vista.
[7] Idem
[8] Idem

Providência: 131 anos do distrito

Estrada de Ferro Leopoldina chega ao município que lhe deu o nome

… a estação de Providência foi aberta ao tráfego no dia 9 de dezembro de 1874.

Publicado 10/12/2015

Providência

O território que constituiu o distrito foi desmembrado de Conceição da Boa Vista e da sede do município.

Publicado 09/05/2014

Providência, Leopoldina, Minas Gerais

Representação cartográfica do distrito.

Publicado 23/05/2012

Autoridades em Providência

Autoridades distritais do século XIX.

Publicado 05/03/2002

Primeiros Moradores de Providência

Estudo sobre os primeiros moradores do distrito de Providência.

Publicado 02/06/2001

Veja todas as matérias que citam Providência neste link.

Memória Leopoldinense

Título da coluna de Luciano Meneghetti no jornal Leopoldinense, agora com versão no perfil “lucleopoldinense” no You Tube. Visitem, curtam, conheçam o grande acervo de imagens de Leopoldina da coleção deste que é também um artista plástico de lindas obras.

166 – O surgimento do Arraial do Feijão Cru: revisão de literatura

Nesta edição comemorativa do aniversário da cidade, mais uma vez, à moda da Coluna Trem de História o espaço é ocupado com um tema vinculado à história do lugar. Agora, numa viagem que pretende conduzir o leitor ao surgimento do distrito, procurando fazer a revisão de algumas informações repetidas e que merecem ser pensadas a partir de novos documentos encontrados.

O Padre e a Capela

De início é bom que se repita que a mais antiga informação sobre o surgimento do distrito do Feijão Cru foi obtida na obra de Sinval Santiago[1], base para a investigação sobre a existência da capela de São Sebastião do Feijão Cru em 1831 como querem alguns. E é bom que se diga, também, que houve alguma dificuldade em estabelecer os limites do território onde nasceu o arraial e que não foi encontrada, até o momento, a provisão para erigir a capela. Sobre isso, aliás, existe a declaração de um memorialista de São João Nepomuceno de que várias capelas da região teriam sido erigidas por ocasião de invasão do território mineiro por parte de um padre de Santo Antônio de Pádua, sob ordens do bispo do Rio de Janeiro.

Mas como falar em “invasão do território mineiro” quando, na verdade, o limite da província mineira ainda não estava bem definido naquela área, conforme estudo[2] sobre as divisas entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além disso, segundo o processo[3] de concessão de título ao padre Vicente Ferreira Monteiro de Castro, desde a década de 1820 o religioso atuava na região sob orientação do então Bispo do Rio de Janeiro. E é sabido que a paróquia de São Sebastião do Feijão Cru, assim como outras da margem direita do Pomba em seu trecho final, só foi transferida para o bispado de Mariana muito tempo depois, pelo decreto pontifício[4] de 16.07.1897.

O vale do Pomba e o Distrito da Pomba

Para Sinval Santiago[5], “todo o vale do Rio Pomba até sua foz no Paraíba, inclusive Santo Antônio de Pádua (hoje município fluminense) pertencia naquele tempo ao município do Pomba”.

Tal afirmativa provoca reflexão visto que, segundo Pizarro[6], em 1812 foram criados os curatos da Aldeia da Pedra (hoje Itaocara) e de Santo Antônio de Pádua, ambos subordinados à Matriz de Santíssimo Sacramento de Cantagalo.

Neste caso talvez a interpretação de Santiago tenha origem na menção de Pizarro ao “distrito da Pomba”, nome que então se dava ao entorno da foz do rio Pomba no Paraíba do Sul. Até porque o próprio Pizarro[7] não deixou dúvidas ao se referir aos dois curatos como São José da Leonissa e Santo Antonio no Rio da Pomba, ambos no distrito de Campos dos Goitacazes.

A criação dos Distritos

Santiago informa que entre 1830 e 1834 “a criação dos distritos era feita por meio de resoluções das Câmaras Municipais em observância ao Decreto Imperial de 11-IX-1830”[8]. Acrescenta que os distritos “Tesouro do Feijão Cru e Santíssima Trindade do Descoberto” foram criados[9] pela Câmara de Rio Pomba com base em tal normativo.

Na verdade, o referido Decreto era de setembro e não de novembro de 1830, como se observa na Coleção das Leis do Império do Brazil[10], e “Manda eleger Juizes de Paz em todas as capelas filiaes curadas, e providencia quanto aos limites de seus districtos”.

No artigo 3º o Decreto estabelece que “Os districtos das capelas, para que devem nomear-se, e de todas as outras, em que já existem nomeados Juizes de Paz, serão marcados pelas Camaras Municipaes, em cujo termo estiverem as mesmas capelas, com tanto que cada uma delas não compreenda menos de setenta e cinco fogos.”

Ainda é de Sinval Santiago[11] a informação de que “uma carta de lei provincial mineira, de 12.08.1834 mudou a legislação sobre a criação de distritos, que passou daí por diante a ser da alçada do Presidente da Província”.

No entanto, o dispositivo que trata do assunto é a Lei nº 16, de 12.08.1834 promulgada pela Regência do Império e não pela Assembleia Provincial Mineira e ela “Faz algumas alterações e adições à Constituição Política do Império, nos termos da Lei de 12 de outubro de 1832” que diz, no Art. 10: Compete às mesmas Assembleias legislar: 1º) Sobre a divisão civil, judiciária e eclesiástica da respectiva Província…

A freguesia do Pomba e o Feijão Cru

É também de Santiago a informação sobre a constituição da Freguesia de São Manoel do Pomba, citando os nomes das capelas filiais existentes em 1829, sem incluir a suposta Capela de São Sebastião do Feijão Cru.

De fato, o decreto de criação da Vila do Pomba[12] de 13.10.1831 não cita São Sebastião do Feijão Cru nem São José do Paraíba. Sabe-se que o distrito de São José do Paraíba só foi criado[13] pelo decreto de 14.07.1832.

Registre-se que o artigo 3º do Decreto Imperial de 11.09.1830 declarava que a criação de novos distritos estava sujeita à comprovação de que ali existiam, no mínimo, setenta e cinco fogos, ou seja, 75 unidades formadas por moradias uni ou multifamiliares.

Talvez por esta razão, em 25.08.1831 foi enviado um ofício para o Curato de São José do Paraíba, que entre outras providências solicitava o envio da relação de habitantes do Curato. Este ofício teve resposta a 01.11.1831, sendo acompanhada pela Relação dos Habitantes do Curato de S. Joze da Parahiba, Termo da Nobre e muito Lial Villa de Barbacena[14]. Tal relação teria subsidiado a decisão de criar o Distrito de São José do Paraíba em 1832.

Importante destacar que no dia 19.11.1831 o Juiz de Paz do Curato do Meia Pataca assinou documento de igual teor que seguiu acompanhado da relação de moradores daquela localidade. O Juiz de Paz de São João Nepomuceno fez o mesmo no dia 22 daquele mês e ano e encaminhou anexo à lista dos moradores do Curato de Mercês do Kagado. Os moradores do Curato do Espírito Santo[15], cuja sede atual é o município de Guarará, seguiram a mesma trilha com documento datado de 10.12.1831.

Curiosamente, quando compulsadas as listagens mencionadas, observa-se que alguns moradores listados no Meia Pataca aparecem, posteriormente, em fontes relativas ao Feijão Cru. Parte deles residente no território que em 1851 compôs o então criado Distrito da Piedade[16]. Entre os moradores do Curato do Espírito Santo, algumas famílias viviam na área que em 1839 passou a constituir o Distrito de Bom Jesus do Rio Pardo[17], atual município de Argirita; ou, que em 1852 se tornou o Distrito de S. A. Aventureiro[18]. Tanto na listagem de São João Nepomuceno como na da futura Guarará constaram moradores que residiam no território que em 1858 passou a ser o Distrito de Dores do Monte Alegre[19], hoje Taruaçu. E na relação de São José do Paraíba constam 142 fogos, entre os quais 62 chefiados por moradores do território que mais tarde viria a se tornar o Novo Corato de S. Sebastiam do Tezouro do Municipio da Pomba, conforme identificado por Manoel Ferreira Brito que nele atuava como Juiz de Paz em 1835.

Diante de todos estes documentos parece difícil aceitar o ano de 1831 como sendo o da criação do distrito do Feijão Cru.

O curato do Tesouro do Feijão Cru e o distrito de São Sebastião do Feijão Cru

Recorde-se que a exigência do número mínimo de 75 fogos ainda permanecia quando o já então Curato do Tesouro do Feijão Cru, devidamente provido de um Juiz de Paz, teria recebido o ofício de 08.05.1838 cobrando resposta a uma correspondência aparentemente do ano de 1835. Tal ofício foi respondido em setembro de 1838 e encaminhado capeando a Relação Nominal dos Habitantes no Destricto de S. Sebastião do Feijão Crú, Termo da Villa da Pomba[20] com a seguinte descrição:

“Pertence este Destricto assima mencionado, ao Termo da Villa da Pomba, Commarca do Rio Parahibuna, hé Curato, e os seos limites com os Destrictos vezinhos são os seguintes = Devide com o Destricto da Aldeia da Pedra, que fica a Norte, em a Barra do Riacho denominado Pirapetinga, que dista deste Arraial dez legoas, a Sul devide com o destricto do Espirito Santo em distancia de seis legoas, e com o Destricto de S. José da Parahiba na distancia de quatro leguas, e de tres com o Destricto de Sta. Rita do Meia Pataca, contada estas do lugar da Povoação do mesmo.”

Verifica-se, pois, que entre julho de 1832 quando foi criado o distrito e paróquia de São José do Paraíba e setembro de 1835 quando Manoel Ferreira Brito assinou como Juiz de Paz, foi criado o Curato do Tesouro do Feijão Cru. E entre esta última data e a resposta ao ofício de maio de 1838, o Curato havia sido elevado a distrito e paróquia, como se observa a seguir:

“Incluzo envio a V. Ex.ª a relação nominal dos habitantes deste Destricto, que V. Ex.ª em Officio de 8 de Maio pp. Determinou que se organizasse e envia-se, por Ter assim rezolvido a Assemblea Legislativa Provincial. Rogo a V. Ex.ª relevar algumas faltas, que encontram na mencionada relação. / Deos guarde a v. Ex.ª / Districto de S. Sebastião do Feijão Crú em 7 de setembro de 1838 / Ilmo. E Exmo. Snr. Prezidente da Provincia. / João Ferreira da Silva.

Vale registrar que a declaração de João Ferreira da Silva está no Arquivo Público Mineiro capeando a Relação Nominal com assinatura de Manoel Ferreira Brito em 1835.

Concluindo, então, a viagem de hoje, resta reafirmar que, pelos documentos hoje disponíveis, não resta dúvida de que o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru foi criado entre setembro de 1835 e maio de 1838.

Parabéns Leopoldina, pelos 167 anos da sua emancipação administrativa!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 419 no jornal Leopoldinense, abril de 2021

Fontes consultadas:


[1] SANTIAGO, Sinval Batista. Município de Rio Pomba - Síntese Histórica. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991.
[2] CANTONI, Nilza. Disputas de Limites entre Rio e Minas. Mono. Petrópolis-RJ: 1996. Disponível em <https://cantoni.pro.br/2005/05/27/disputas-de-limites-entre-rio-e-minas/>
[3] Arquivo Nacional, COACE/COADI cx 939 pact 131: Processo de Concessão do título de Cônego da Capela Imperial ao Padre Vicente.
[4] TRINDADE, Cônego Raimundo. Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: SPHAN, 1945 p.132.
[5] Idem, p. 90
[6] ARAÚJO, Joze de Souza Azevedo Pizarro e. Memorias Históricas do Rio de Janeiro e das Províncias anexas a jurisdição do vice-rei do estado do Brasil. Rio de Janeiro: Impressão Regia, 1820 vol 5 p. 230
[7] Idem, vol. 7 p.212
[8] SANTIAGO, op.cit. p.85
[9] Idem, p.86
[10] Colecção das Leis do Imperio do Brazil 1830. Rio de Janeiro: Typograhia Nacional, 1876. Parte 1 p.29
[11] SANTIAGO, op.cit. p.86
[12] Coleção das Leis do Imperio do Brazil 1831. Rio de Janeiro: Typograhia Nacional, 1875. Parte 1 p.134
[13] Idem, p.31
[14] Arquivo Público Mineiro: CX 07 DOC 07, Termo de Barbacena, Comarca do Rio das Mortes, Mapa da População do Curato de São José do Paraíba - 1831.
[15] Arquivo Público Mineiro: CX 07 DOC 03, Termo de Barbacena, Comarca do Rio das Mortes, Mapa da População do Curato do Espírito Santo - 1831
[16] Lei Mineira nº 533 de 10 de outubro de 1851
[17] Lei Mineira nº 147 de 6 de abril de 1839
[18] Lei Mineira nº 575 de 4 de maio de 1852
[19] Lei Mineira nº 947 de 8 de junho de 1858
[20] Arquivo Público Mineiro CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba. Mapa da População do Feijão Cru - 1835.