157 – A Barca do Miranda e o distrito Vista Alegre

É difícil escrever sobre Vista Alegre sem que venha à lembrança a música de Serginho do Rock[1] com seu inspirado refrão: “se você está triste? Vista… Alegre!…” E, sem lembrar a ponte de metal, de onde o cantor sugere que se aprecie o visual.

Estação da Estrada de Ferro Leopoldina

Sacudindo estas lembranças e a saudade da Estação de onde partia a verdadeira Maria Fumaça, que pelo vale do Ribeirão Jacareacanga chegava ao centro de Leopoldina, o Trem de História segue tratando da Fazenda Santana dos Miranda, da Barca do Miranda e de Vista Alegre.

É sabido que Artur Vieira[2] se baseou em livros dos cartórios de notas de Cataguases, o que lhe confere um valor especial por ter utilizado fontes pouco consultadas e conhecidas. E foi em livros também pouco conhecidos, da Câmara de Leopoldina, que informações complementares surgiram. Num deles, dos primeiros anos após a emancipação do Feijão Cru, há referência a uma autorização para construção de barca para transposição do Rio Pomba. A Lei nº 734, de 24.05.1855, oficializou a decisão da Câmara da Villa Leopoldina de autorizar a construção de barca e a cobrança de taxas de acordo com a Lei nº 140. Até aqui, não se encontrou informação sobre o barqueiro nem tampouco sobre o local de aportamento de tal barca.

Ao consultar livros de controle fiscal do armazém da Estrada de Ferro Leopoldina em Campo Limpo (Ribeiro Junqueira), observa-se que no ano de 1880 aquele entreposto recebia produtos vindos de fazendas localizadas no outro lado do Rio Pomba, no então distrito de Laranjal, município de Cataguases. Pesquisando os livros do Registro de Porto Novo do Cunha, para o período 1841-1859, constata-se, ainda, que desde então mercadorias atravessavam o Rio Pomba para serem embarcadas em tropas na margem direita que as levariam até o Porto das Barcas, no Rio Paraíba do Sul, no atual município de Aperibé, RJ.

Sabendo-se, através dos nomes dos fazendeiros, que a produção de Leopoldina e arredores era embarcada[3] no Porto das Barcas até 1870, restava identificar o ponto em que as tropas coletavam estas mercadorias, antes da construção da ferrovia.

A continuação das pesquisas, por referências esparsas, indica como o local possível desta coleta o porto da Barca do Miranda.

O distrito de Vista Alegre

Quanto à criação do distrito de Vista Alegre, no município de Cataguases, Arthur Vieira informa que o distrito policial é de outubro de 1883. Mas Ribeiro Costa[4] deu uma interpretação diferente ao levantar a hipótese de que o distrito não teria sido instalado após a Lei nº 3171 em virtude de sua elevação a distrito policial e de paz ter sido determinada pelo Decreto nº 150 de 21 de julho de 1890.

Segundo Waldemar Barbosa[5], o Decreto nº 406 de 06 de março de 1891 criou o distrito de paz na povoação de Vista Alegre, no município de Leopoldina, localidade por ele não identificada. Já Ribeiro Costa se refere ao mesmo Decreto nº 406 para informar que o distrito no município de Leopoldina não teria sido instalado. Mas é curioso observar que a estação ferroviária de Vista Alegre, no município de Leopoldina, na margem direita do Rio Pomba, é de 1877. O distrito criado no município de Cataguases, na margem esquerda do mesmo rio, é de 1890. E o Decreto nº 406, que trata da criação de um distrito de mesmo nome no município de Leopoldina, é de 1891.

Ficou, então, a dúvida sobre a criação e eventual existência de um distrito de paz no município de Leopoldina com o nome de Vista Alegre. A busca da resposta para esta questão passou por consulta não só à legislação como também a processos judiciais, já que era também antiga a dúvida a respeito da existência de um Engenho Central Aracaty na margem direita o Rio Pomba.

Oras, sabendo-se que o nome remete ao povoado de Aracati, município de Cataguases, natural era entender que tal Engenho tenha funcionado na margem esquerda.

Mas através da análise das divisões e sucessões em propriedades rurais localizadas entre a foz do Rio Pardo no Pomba e a estação de Vista Alegre, foi encontrada resposta para a primeira questão. Sim, o Engenho Central Aracaty foi criado no município de Leopoldina em 1879 e o nome remetia ao município cearense, Aracaty, onde nasceu um dos sócios fundadores do engenho, Teófilo Domingos Alves Ribeiro, casado com Rita, irmã do sócio Custódio Martins da Costa Cruz.

Registre-se que na margem direita do Rio Pomba, na área denominada Circuito, a família de Joaquim José da Costa Cruz se instalara na década de 1850, em terras adquiridas dos herdeiros da fazenda Benevolência e outros confrontantes. Em 1880, promoveram a divisão e demarcação dos então denominados sítios Porangaba e Aracaty, e neste último funcionou o mencionado Engenho Central, contando até mesmo com um pequeno trecho de trilhos para levar a produção até a Estação de Vista Alegre.

Naquele período não foram poucas as referências ao distrito de Vista Alegre, inicialmente entendidas como sendo no município de Cataguases. Até que, em outros processos judiciais de Leopoldina foram encontradas algumas citações como, por exemplo, “sorte de terras em capoeira e matta virgem situadas em Vista Alegre desta Freguesia e comarca”, aqui transcrita como encontrada nos originais. Na década de 1880 Cataguases já havia se emancipado e não mais pertencia à Freguesia nem à Comarca de Leopoldina. Como se justificaria, então, a expressão “Vista Alegre desta Freguesia e comarca” utilizada por escrivães e oficiais de justiça até, pelo menos, 1893?

Como pode deduzir o leitor, a pesquisa continuará. Mas por hoje o Trem de História termina aqui. Na próxima edição ele trará outros Pioneiros de Leopoldina. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado na edição 410 no jornal Leopoldinense de 1 de setembro de 2020

Fontes consultadas:
[1] Antônio Sérgio Lima Freire (Serginho do Rock) nasceu no dia 26.10.1940, na chácara dos avós paternos, em Leopoldina-MG. Filho de Antônio Bastos Freire (Tonico Bastos) e de Marília de Lima Freire (Sinhazinha). Hoje Serginho do Rock é patrono da cadeira nº 9 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA.
[2] SILVA, Arthur Vieira de Resende O Município de Cataguazes. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, v. 13, 641-1028, ano 1908. p. 905
[3] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Registro do Porto Novo do Cunha 1841-1842 e 1859; Registro da Barra do Pomba, 1860; Fundo Presidência da Província do Rio de Janeiro, Notação 439, 1864; Registro do Campo Limpo, 1880.
[4] COSTA, Joaquim Ribeiro. Toponímia de Minas Gerais. Belo Horizonte, Itatiaia, 1993. p.424
[5] BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia,1995.

Programação do 10º Seminário da Imigração Italiana em Minas Gerais

Cultura, Economia e Trajetórias Familiares

Mediação: Stanley Savoretti de Souza
• Descendentes de Italianos na Economia de Leopoldina. Nilza Cantoni
• Encontro com uma Itália sentimental: a origem italiana do escritor Fernando
Sabino. Cristina Souza.
• Imigração italiana em Leopoldina – MG e região: a Familia Naccari.
Beatriz Leandra Monerat Viana, Mariana Mendes de Souza, Nicole Karoline
Gomes Lozi.
• Fotografia e infância rural: a Colônia José Teodoro pela lente de João da Costa (São João del Rei, 1960-1970). Virginia Aparecida Ambrosio, Christianni Cardoso Morais.

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Família Dalto/Dalton Fiorenzano

Agradecemos pela colaboração de Magali de Freitas que nos trouxe informações sobre seu ramo familiar, confirmando informações orais de parentes colaterais e ampliando o conhecimento sobre o grupo mencionado na postagem “Em Busca da família Dalto/Dalton”.

Isabel era filha do italiano Nicolao Dalto e de Edwiges de Souza Reis. Biaggio era filho de Pasquale Fiorenzano e Tereza Schettino que se casaram em Maratea, província de Potenza, onde Biaggio nasceu. Era neto paterno de Gaetano Fiorenzano e Maria Brando e neto materno de Giuseppe Schettino e Maria Rosa Lamarca.

Os sobrenomes Fiorenzano, Schettino e Lamarca são representados em Leopoldina por descendentes dos imigrantes que viveram no município entre o final do século XIX e as primeiras décadas dos novecentos.

156 – Fazenda Santana do Rio Pomba e a família Miranda

 

O Trem de História começa, agora, uma longa viagem para transportar informações sobre as mais antigas fazendas de Leopoldina. E escolheu como primeira uma propriedade pouco comentada na história tradicional, a fazenda Santana do Rio Pomba, também conhecida como fazenda Santana dos Miranda.

A história desta fazenda está intimamente ligada à do atual distrito de Vista Alegre, como se verá adiante. Ela estava localizada nas duas margens do Rio Pomba, com a sede no local onde mais tarde foi construída a estação ferroviária de Vista Alegre, na freguesia da Leopoldina.

Teria sido formada por Genoveva Maria de Jesus e seu primeiro marido, Francisco Manoel de Assis. Isto, antes de 1835, uma vez que nesse ano Genoveva já residia[1] no Feijão Cru com o seu segundo marido, José Fermino da Fraga e os filhos do primeiro casamento.

Em “O município de Cataguases”, Arthur Vieira[2] declara que o primeiro nome do distrito de Vista Alegre “foi o de Barca do Miranda porque Manoel da Silva Miranda aí fazia o serviço de transporte numa barca, lugar em que mais tarde se construiu a ponte que ligou o arraial à estação”.

Esta informação foi republicada por outros autores, incluindo Waldemar Barbosa de quem é o registro de que “a estação de Vista Alegre foi inaugurada em julho de 1877 e, como é natural, a denominação dela se estendeu ao arraial”.

É do mesmo Arthur Vieira a referência de que o patrimônio do padroeiro de Vista Alegre foi doado por “Antonio Manoel e sua mulher D. Jeronyma Maria do Sacramento e, Manoel da Silva Miranda e sua mulher, por pedido especial de sua fallecida mãe e sogra D. Jeronyma Maria de Jesus, por escriptura de 13 de agosto de 1876, especialmente para erigir uma capella, sob a invocação de S. Francisco de Paula”.

Conclusão esta que, segundo o processo de divisão[3] da Fazenda Santana dos Miranda merece um esclarecimento porque a oficialização da doação de 24.200 m2 (meio alqueire) para constituição do Patrimônio de São Francisco de Paula foi de fato feita por Genoveva Maria de Jesus, embora o registro tenha sido efetivado por seus filhos Antonio Manoel e Manoel da Silva Miranda, após a morte da mãe.

Vale ressaltar que, após a doação, a família Miranda ainda permaneceu proprietária de 363.000 m2 (aproximados 7,5 alqueires) na margem esquerda do Pomba e de uma propriedade maior, na margem direita, em território do município de Leopoldina, contando com 713.900 m2 (aproximados 15 alqueires).

A família Miranda

Embora o estudo sobre esta família ainda mereça ser aprofundado, pela importância que teve na formação do distrito de Vista Alegre e no escoamento da produção de vasta região dos municípios de Cataguases e Leopoldina, registra-se aqui o que foi possível apurar até o momento.

Genoveva Maria de Jesus e seu primeiro marido, Francisco Manoel de Assis, foram pais de: Manoel da Silva Miranda c.c. Maria Antonia ou, Maria Angélica de Jesus; Antonio Manoel de Barros Alvim Filho c.c. Jeronyma Maria do Sacramento; Francisco Manoel de Assis c.c. Teodora ou Teodosia Maria de Jesus; Joaquina Francisca de Jesus c.c. Joaquim Firmino de Almeida; e, Cândida Maria de Jesus de quem não se tem outras informações.

Em 1843 Genoveva já estava viúva do segundo marido, cuidando da fazenda e provavelmente do meio de transporte para atravessar o Rio Pomba.

Este transporte parece ter ficado sob a responsabilidade de seu filho mais velho, Manoel da Silva Miranda, que exercia também a profissão de ferreiro, e do genro Joaquim Firmino de Almeida, que era carpinteiro, profissão complementar à do cunhado Manoel no trato da embarcação e das tropas.

Outro filho, Francisco Manoel, era lavrador e se transferiu para o sul do Espírito Santo na década de 1870, sendo substituído pelo irmão Antonio Manoel no trabalho com a terra da família. Manoel da Silva Miranda continuou morando na sede da Fazenda Santana dos Miranda.

Pelo que se depreende da partilha dos bens de Genoveva[4], inventariados em 1876, Joaquina e seu marido Joaquim Firmino de Almeida ficaram com a propriedade na margem esquerda do Pomba, município de Cataguases.

O estudo desta família trouxe um exemplo do que prega a História Cultural no sentido de não vitimizar os oprimidos, mas valorizar a resistência. Segundo consta nos Censos[5] populacionais de 1835 e 1843, esta era uma família de pretos, característica sempre vinculada aos oprimidos e espoliados. A trajetória destes Miranda demonstra que, debalde as condições sociais da época, eles alteraram a identidade herdada de um sistema cruel, construindo nova imagem de si mesmos e transitando para outro lugar na hierarquia social.

Uma pausa se faz necessária. Na próxima edição ainda virá um pouco mais sobre esta fazenda e o distrito de Vista Alegre. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 409 no jornal Leopoldinense de 1 de agosto de 2020


Fontes consultadas:

[1] Arquivo Público Mineiro 1835 CX 03 DOC 06, Mapa da População do Feijão Cru, família 95

[2] SILVA, Arthur Vieira de Resende O Município de Cataguazes. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, v. 13, 641-1028, ano 1908. p. 905

[3] Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Divisão da Fazenda Santana dos Miranda. Processo COARPE/TJMG 38402032.

[4] Primeira Secretaria do Fórum de Leopoldina. Partilha Amigável dos bens de Genoveva Maria de Jesus. Processo 38404723.

[5] Arquivo Público Mineiro. Mapa da População do Feijão Cru 1835 CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba e 1843 CX 03 DOC 04, Termo da Vila de São João Nepomuceno.

155 – Antigas Unidades e Instrumentos de Medida

Como ficou dito no Trem de História anterior, é preciso conhecer e compreender as unidades de medida e os instrumentos utilizados na demarcação das sesmarias para se interpretar corretamente todos os documentos relativos às concessões.

Em relação às unidades de medida, constantes causadoras de confusões sobre o real tamanho das propriedades, é vasta a bibliografia disponível[1]. E com base nela foi montado o seguinte resumo.

Alqueire = 10.000 braças quadradas = 48.400 m2

Are = 100 m2

Braça = 2 varas = 10 palmos = 2,20

Braça quadrada = 100 palmos quadrados = 4,84 m2

Centiare = 1 m2

Corda = 15 braças = 33 m

Hectare (ha) = 10.000 m2

Légua de sesmaria = 3.000 braças = 6.600 m

Meia Légua em quadra = 1.500 braças2 = 3.300m2 = 10.890.000m2

Palmo = 0,22 m

Prato de terras = 225 braças quadradas = 10,89 ares = 1.089 m2

Quarta de terras = 8 pratos = 0,87 há = 8.712 m2

Selamin = 2 pratos = 0,22 ha = 2.178 m2

Vara = 1,10m

Sesmaria no último período = 225 alqueires = 10.890.000m2

Quanto aos instrumentos utilizados é preciso alongar um pouco mais a história para melhor entendimento. Numa das medições realizadas em 1818, em Leopoldina, foi citado o instrumento “agulhão” sobre o qual constam apenas declarações de que estava certo ou reto e sem cavidade.

Em 1885, na medição de fazenda do município[2], há o registro de que os instrumentos apresentados para exame foram: Bússola Eclimetro de Casella, composta de agulhão imantado, frisas e óculo; uma corrente de dez metros aferida pelo padrão da Câmara Municipal; e, dez “fixas”.

A primeira explicação é sobre a palavra bússola que tem origem na língua italiana e significa caixa. Popularmente esta caixa acabou se confundindo com o equipamento vulgarmente conhecido como bússola. Embora a “caixa”, quando usada em embarcação seja chamada de “agulha de marear”, em tempos idos este aparelho usado pelo Piloto[3] era referido como “agulhão”.

“Frisas e óculo”, citados no documento de 1885, seriam as partes que compõem o instrumento. As frisas são as marcações na base onde se instala a agulha. Óculo, é o vidro (lente) que funciona como tampa da caixa da agulha. Já o Eclimetro de Casella era o instrumento que determinava diferenças de nível do terreno. Instrumento ainda hoje fabricado pela empresa Casella, de Londres, especializada em equipamentos de topografia. As “fixas” eram os fixadores para prender a corrente ao solo, de modo a permitir que o Piloto calculasse a distância de um ponto a outro.

Outro termo que surgiu na leitura de processos de inventário e demarcações de propriedades foi “vallo”, por vezes relacionado a valim, valusi ou vallusi, que por algum tempo se considerou uma palavra estranha. Hoje, é sabido que, antes das atuais cercas de arame nas divisas, usava-se abrir valetas no solo. Assim, tornou-se compreensível o uso dos termos valim, valusi ou vallusi para designar a função exercida pela pessoa que construía os valos ou, valetas.

Registre-se que num processo[4] de divisão de propriedade foram listados “jornaes[5] pagos a trabalhadores que cuidaram da marcação das divisas dos quinhões”[6], sendo um deles o conhecido imigrante italiano Nicola Savino. E entre os primeiros moradores do Feijão Cru havia uma pessoa de sobrenome Valim, que seria familiar de membro de uma das expedições de Galvão de São Martinho, que aqui chegou com a função de marcar limites ou divisas.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima viagem virão antigas propriedades rurais formadas no Feijão Cru. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 408 no jornal Leopoldinense de 15 de junho de 2020


Fontes consultadas:

[1] BRITTO, José Gabriel de Lemos. Pontos de partida para a História Econômica do Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934; SAUER, Arthur. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro para 1897. Rio de Janeiro: Laemmert, 1896. p. 34; O Imperio do Brazil na exposição universal de 1876 em Philadelphia. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1875. p.286-287; e, Tabela de medidas agrárias não decimais do Serviço de Estatística da Produção, Ministério da Agricultura - set/1946.

[2] Divisão da Fazenda São Manoel da Bocaina requerida por Francisco Ferreira Neto e outros. Processo 38404617 COARPE/TJMG fls 63 img 108-111

[3] Piloto era o encarregado de medições e demarcações. O Decreto nº 3198, de 16.12. 1863, estabeleceu regras para a função e o profissional passou a ser denominado Agrimensor.

[4] Divisão da Fazenda Sossego requerida por Silvano José da Cruz Nogueira, processo 38403636 COARPE/MG, fls 154v img 266.

[5] Jornal (jornada) significa o pagamento pela diária do trabalhador.

[6] Quinhão era a parte que cabia a cada condômino de uma propriedade ainda não dividida.

154 – Sesmarias até para filhos ainda não nascidos

Em artigo anterior o Trem de História trouxe a informação de que alguns dos beneficiários das primeiras sesmarias concedidas na região foram parentes dos membros da tropa comandada por Pedro Afonso Galvão de São Martinho. E citou o exemplo de dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas, beneficiados com quatro sesmarias em 1813. Duas delas na divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo (atual Argirita).

Hoje a viagem parte de um estudo iniciado após a leitura em Francisco de Paula Ferreira de Rezende[1] e Celso Falabella de Figueiredo Castro[2] que registram o fato de que uma das famílias povoadoras do Feijão Cru teria obtido “sesmarias até para filhos ainda não nascidos”.

Buscando compreender o assunto, foram consultadas inúmeras obras, encontrando informação semelhante em Lígia Osorio Silva[3], quando a autora afirma que: até o século XVIII […] houve casos de várias sesmarias concedidas a um mesmo indivíduo, e casos de indivíduos que as requeriam em nome “das mulheres, dos filhos e filhas, de crianças que estavam no berço e das que ainda estavam por nascer”.

Na verdade, a autora se referia a texto de Nadir Domingues Mendonça[4] que replicou informação de Alcides Lima[5] em História Popular do Rio Grande do Sul, que falava a respeito do ocorrido em outros pontos do Brasil.

Restava, então, saber se Rezende e Falabella também replicaram outros autores ou se, de fato, isto aconteceu em nossa região. Concluiu-se daí que a busca precisava continuar.

E para sustentar teoricamente a pesquisa, era necessário ler um pouco mais a respeito da legislação sobre concessão de sesmarias, iniciando-se pelos Anais do VIII Simpósio Nacional de Professores de História, de 1976, complementados por artigos de NOZOE (2006)[6] e mais recentemente revisado com a leitura de ALVEAL (2015)[7].

Numa segunda etapa a busca consistiu em selecionar, na Revista do Arquivo Público Mineiro de 1988, os sesmeiros que obtiveram Carta de Sesmaria no Termo de Barbacena, indicando local próximo ao Sertão do Feijão Cru.

Mas o exaustivo levantamento realizado no arquivo mineiro apenas ampliou de 6.642 para 7.985 as sesmarias com que até então trabalhavam os historiadores, nada acrescentando no sentido de esclarecer a tal concessão a filhos não nascidos.

No caso de Leopoldina sabe-se que, embora iniciada no final da década de 1990, esta listagem continua em atualização constante, seja pela descoberta de nomes não identificados anteriormente entre os povoadores ou, por ser encontrada uma referência topográfica antes não observada.

Com o seguir dos estudos, outras fontes de informação a respeito da ocupação do território onde se formou o arraial do Feijão Cru passaram a ser utilizadas e permanecem no horizonte da pesquisa como, por exemplo, os registros de terras de 1856, inventários, testamentos e processos de divisão de propriedades. Só que, para compreendê-los, é necessário agregar outra fonte que veio comprovar a necessidade de um trabalho multidisciplinar quando se pretende escrever história. Além do conhecimento das já mencionadas mudanças de legislação, é preciso conhecer e compreender as unidades de medida e os instrumentos utilizados nas demarcações ao longo do tempo, o que será assunto do próximo Trem de História.

Quanto à resposta definitiva sobre a existência, em Leopoldina, de sesmaria concedida à pessoa ainda não nascida, continua, por enquanto, um tema em aberto.

Nos próximos textos desta série, serão trazidas informações sobre as antigas propriedades formadas no território que em 1854 constituiu a Villa Leopoldina. Antes, porém, será necessário abordar as unidades de medida e instrumentos de demarcação da época.

O Trem de História faz uma parada para carregar a bagagem da próxima viagem. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 407 no jornal Leopoldinense de 1 de julho de 2020


Fontes consultadas:

[1] REZENDE, Francisco de Paula Ferreira de. Minhas Recordações. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988. p. 347.

[2] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: achegas para a história da zona da mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. p.66

[3] SILVA, Lígia Osorio. Terras Devolutas e Latifúndio: Efeitos da Lei de 1850. Campinas, SP: UNICAMP,1996. p. 45.

[4] MENDONÇA, Nadir Domingues Mendonça. A propriedade rural. In: Anais do VIII Simpósio Nacional de Professores de História, São Paulo, 1976, p. 852.

[5] LIMA, Alcides. História popular do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Barcelos, Bertaso & Cia, 1935.

[6] NOZOE, Nelson. Sesmarias e Apossamento de Terras no Brasil Colônia. Economia, Brasília, v. 7, n. 3, p. 587-605, set-dez 2006

[7] ALVEAL, Carmen Margarida Oliveira. Transformações na legislação sesmarial, processo de demarcação e manutenção de privilégios nas terras das capitanias do norte do Estado do Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 28, nº 56, p. 247-263, julho-dezembro 2015.

153 – Caminhos percorridos pelo homem livre

Conforme prometido no Trem de História anterior, os caminhos percorridos pelo homem livre formam a “bagagem” para a viagem de hoje.

Quando se fala em antigos caminhos é comum se pensar em rios como estradas. Mas é preciso observar que nem sempre estes cursos d’água se prestavam a isto, simplesmente porque muitas das vezes não eram navegáveis.

Na verdade, os caminhantes seguiam os rios, nos dois sentidos, muito mais como forma segura de orientação para avançar pelas matas, já que as águas correntes não retornam ao ponto de onde vieram e porque lhes dava a certeza da direção a seguir no retorno.

Agora, mergulhem num tempo em que a mão humana contava com poucos equipamentos que lhe facilitassem a jornada. Esqueçam o GPS – Global Position System, e se imaginem no meio de uma floresta. Imaginem quantas vezes estas pessoas terão seguido um curso d’água que seria afluente do que acabaram de deixar para trás? Esta era a realidade.

E saiba que estas observações se referem aos primeiros entrantes e não às famílias que viriam mais tarde se estabelecer na Mata Mineira. É lícito supor que os primeiros homens livres que exploraram a região chegaram a pé, por picadas muitas vezes abertas pelos nativos, porque não existiam estradas carroçáveis.

Conforme lembrou Sérgio Buarque de Holanda[1], mesmo para transporte de cargas os cavalos foram “de escasso préstimo, preferindo-se os carros de bois sempre que houvesse estrada capaz”. Embora o autor se referisse aos sertões de São Paulo no século XVIII, a situação na capitania mineira nos primeiros anos do século seguinte não era diferente. Somente quanto da mudança da “família estendida”[2] para o novo endereço, quando já havia caminho que o permitisse, eram utilizados carros de bois para o transporte da carga. E mesmo aí, as pessoas continuavam viajando a pé.

É ainda de Sérgio Buarque a indicação de que, em alguns casos, eram contratados indígenas, mamelucos ou escravos de carga. O que não justifica as histórias contadas de que os fazendeiros possuíam numerosa escravaria, contada às centenas.

Até porque pelo que foi apurado nas contagens populacionais de 1831, 1834 e 1843 do Feijão Cru, a média de escravos por unidade era de 4,45 nos dois primeiros censos e, no terceiro, por terem aumentado as famílias sem escravos, a média diminuiu para 2,91 escravos por fogo[3].

Numa visita à cidade de Descoberto (MG), na década de 1990, foi entrevistado um antigo morador, descendente de militar da tropa que encontrou o então denominado “Descoberto do Rio Novo”. Declarou ele que a tropa saiu do Rio Pomba na Cachoeira Alta, entrando por um riacho que nasce na Serra do Descoberto. Do sopé da Serra eles teriam seguido o córrego Pouso Alegre, afluente do Ribeirão do Descoberto que deságua no Rio Novo. Seu antepassado teria sido designado para ficar de guarda no Arraial do Descoberto.

No Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo[4] de 2014, o pesquisador Geraldo Barroso apresentou uma comunicação sobre rotas a leste do Caminho Novo. Segundo ele, “os tropeiros do lado oriental do Caminho Novo enfrentavam dificuldades em suas viagens e tiveram que abrir novos caminhos que ficaram conhecidos por Caminhos de Dentro”. Um deles, que passa por Cipotânea, segue em direção a Mercês, depois vai aos municípios de Rio Pomba e Rio Novo de onde busca a cidade de Mar de Espanha.

Tropeiros do Caminho de Dentro

O pesquisador apresentou fotos de tropeiros do início do século XX que continuavam a fazer o mesmo trajeto, ressaltando que, apesar de mais tortuoso, desviava da trilha montanhosa e passava por várias localidades onde eles vendiam, compravam e trocavam produtos, reabasteciam e evitavam a exaustão de seus animais.

Os dois relatos indicam percurso que coincide, em parte, com o trajeto da primeira diligência chefiada por Galvão de São Martinho. A diferença básica é que depois de Roça Grande a diligência caminhou e tomou a direção do Terra Corrida, descendo pelo Ribeirão Aventureiro e atingindo o Paraíba do Sul.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Mas a viagem com Pioneiros de Leopoldina continuará na próxima edição do Jornal. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 406 no jornal Leopoldinense de 16 de junho de 2020

Fontes consultadas:

[1] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos do Sertão. In: Revista de História, São Paulo, v. 28 n. 57, pp-59-111, 1964. p.73

[2] O significado mais usual para ‘família estendida’ é grupo composto por pais, filhos, irmãos e outros parentes próximos.

[3] Fogo era o nome dado a cada unidade habitacional que podia ser composta de uma ou mais moradias.

[4] BARROSO, Geraldo. Caminhos de Dentro. In V Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, Juiz de Fora, junho 2014.

152 – As diligências de São Martinho

Quando o militar Pedro Afonso Galvão de São Martinho atendeu à ordem do Governador da Capitania para assumir como chefe a diligência de 1784, é certo que ele estruturou a empreitada valendo-se do conhecimento de outros militares que lhe antecederam na região. Como, por exemplo, Manoel Rodrigues da Costa, um dos primeiros a serem convocados por Cunha Menezes, que já conhecia uma boa parte dos então temíveis Sertões do Leste. Como, também, Tiradentes, que há muito se achava na ocupação de ronda do mato. E, certamente, com a experiência de muitos outros membros da sua diligência.

Pelas cartas trocadas entre os militares e o governador, é possível verificar que no dia 12 de maio de 1784, o grupo estava em São Manoel do Pomba, povoado que se iniciou oficialmente com a missa celebrada pelo Padre Manoel de Jesus Maria em dezembro de 1767. E num tempo relativamente curto, no dia 22 do mesmo mês, conforme registrou em carta Galvão de São Martinho, a diligência já estava nas margens do Rio Paraíba do Sul.

Segundo Falabella[1], nesta primeira entrada o grupo chefiado por São Martinho, após deixar para trás o povoado de São Manoel do Pomba, “marchou para Roça Grande, atravessando o rio Pardo, Serra Feia, Terra Corrida, despontando à margem do Paraíba”.

Registre-se que a mais antiga referência ao topônimo Terra Corrida é do período das diligências ordenadas por Cunha Menezes. O Porto do Cunha, nomeado em homenagem a este governador da Capitania, foi criado entre 22 de maio e 5 de junho de 1784 como se depreende das cartas de Galvão de São Martinho para Cunha Menezes. Já os topônimos Roça Grande e Serra Feia só aparecem a partir das Cartas de Sesmarias concedidas na década de 1810.

Oficialmente as duas diligências, de 1784 e 1786, tinham como objetivo estancar o desvio do ouro pelas então ‘zonas proibidas’, denominação que remete ao fato de que não era permitido ao homem livre se estabelecer nesta região da zona da mata. Embora se saiba, conforme afirma Clélio Erthal [2], que

“depois que São Martinho abriu o caminho da Mata nos sertões de leste, o tráfico ilegal por ali se intensificou bastante, dele participando ostensivamente até militares e civis ligados ao governo de Minas. O cabo José de Deus Lopes e o anspeçada Bernardo dos Reis, das Guardas do Cunha e do Louriçal, por exemplo, mantiveram com os invasores estreitas relações”

Mas é certo que antes da segunda diligência, Cunha Menezes escreveu uma carta na qual procurou divulgar a informação de que permitiria o estabelecimento de quarenta pessoas e duzentos escravos na região trilhada pela tropa, que se estendia desde a cidade de Rio Pomba até o Porto do Cunha.

Paisagem do Porto Velho do Cunha

Se dúvidas existem ainda hoje quanto a serem ou não oficiais essas ocupações, o fato é que na última década do século XVIII foram concedidas algumas sesmarias no início do percurso da diligência e, em 1810, tais concessões já chegavam às margens do Rio Novo. E é certo, também, que alguns dos beneficiários eram parentes dos membros da tropa comandada por Galvão de São Martinho. Entre eles, dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas, beneficiados com quatro sesmarias em 1813. Duas delas em território que mais tarde marcaria a divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo (atual Argirita).

As diligências de 1784 e 1786 contribuíram para a fixação de pontos de passagem que mais tarde serviriam para indicar a localização de terras requeridas em sesmaria. Interessante observar que, através de informações de viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil no início do século XIX, especialmente de Eschwege[3] e Langsdorf[4], foi possível identificar e/ou confirmar alguns pontos do trajeto destas diligências. Porque estes viajantes que estiveram nas Minas colheram informações e passaram pelos mesmos trechos que os militares haviam fiscalizado.

O assunto não esgotou, mas o Trem de História precisa fazer uma parada. Fica a promessa de que na próxima viagem falará sobre os caminhos do homem livre na Mata Mineira. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 405 no jornal Leopoldinense de 30 de maio de 2020

Fontes consultadas:

[1] Castro, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões do leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

[2] ERTHAL, Clélio. Cantagalo: da miragem do ouro ao esplendor do café. Niterói; do autor, 2008, p.46.

[3]ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Jornal do Brasil. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2012

[4] SILVA, Danuzio Gil Bernardino da (org). Os Diários de Langsdorff - 3 volumes. Rio de Janeiro: Fiocruz. 2012

X Seminário da Imigração Italiana em Minas Gerais

A Comissão organizadora do X SEMINÁRIO DA IMIGRAÇÃO ITALIANA EM MINAS GERAIS – que será realizado na modalidade virtual, entre os dias 06 e 10 de Outubro de 2020 – informa que estão abertas as inscrições para a submissão de trabalhos acadêmicos e não acadêmicos, elaborados a partir de pesquisas concluídas ou em andamento, que versem sobre o tema: A Influência Italiana no Desenvolvimento, Cultura e Esportes em Minas Gerais” e as seguintes linhas temáticas .
• O desenvolvimento econômico e social na diversidade regional mineira;
• A formação cultural e identitária em suas manifestações materiais e imateriais;
• A difusão, organização e popularização dos esportes em Minas Gerais.

Prazo para envio de trabalhos: 15 de agosto.
Acesse ao EDITAL: https://bit.ly/3gRMgDw