139 – Pelos Caminhos da Colônia

O Trem de História convida o leitor para uma viagem imaginária pela Colônia Agrícola da Constança. Inicialmente em busca de compreender o motivo pelo qual ela herdou o nome da fazenda Constança e teve sua sede instalada na fazenda Boa Sorte.

Importante compreender que eram outras as estradas ou, os caminhos que serviam às duas fazendas vizinhas, cujas sedes eram relativamente próximas, se consideradas as alternativas de deslocamento daquela época.

Ressalte-se, ainda, o fato de que da estação ferroviária de Leopoldina se chegava com muito mais facilidade à Boa Sorte do que à Constança, antes da abertura da Rio-Bahia na década de 1930.

Até então era difícil a transposição do vale dos Puris, por onde desce o Córrego da Onça que hoje cruza a BR-116 no km 771. Como também era difícil vencer as escarpas do estreito por onde passa o Córrego Água Espalhada, local que os imigrantes italianos e os tebanos mais antigos chamavam de Buraco do Cubu[1]. E não menos problemático era, após vencer estes obstáculos, construir uma estrada transitável durante o período de chuvas sobre o alagadiço que deu nome ao Córrego Água Espalhada, no km 773 da mesma rodovia, no local onde está o “Restaurante Seta”.

Por outro lado, pela estrada da Boa Sorte se chegava primeiro e com menor esforço, às terras da Constança.

Outro fato que merece explicação é o que se refere à localização de alguns lotes. A visão do traçado da Colônia, a partir da realidade das novas rodovias, é também um dos complicadores para se entender a localização dos lotes que hoje são de difícil acesso. Ocorre que muitos deles, quando foram demarcados, eram servidos por estrada de trânsito normal ou até intenso, que posteriormente foram abandonadas em função de novas opções e interesses.

Outro fato que hoje parece estranho, mas que pode ser explicado com facilidade, é o número de colonos da fazenda Paraíso que adquiriram lotes na Colônia Agrícola da Constança.

Já se falou noutros artigos que muitas propriedades foram vendidas por outros fazendeiros aos colonos porque eles viam nessa prática uma forma de o imigrante realizar o sonho de se tornar sitiante, ao mesmo tempo em que a fazenda garantia uma reserva de mão de obra nas suas proximidades. O que deu origem a muitos dos núcleos de imigrantes existentes no município.

Os lotes da Colônia Agrícola da Constança não se encaixam exatamente nesse perfil de venda. Entretanto, na aquisição de partes de fazendas para formar o território da Colônia, ficou determinado que ela abrigaria, também, colonos oriundos dessas propriedades adquiridas.

Além disto, considerando o caminho hoje inexistente, que descia da Paraíso nas imediações da “Água Espalhada”, a distância entre a Colônia e a sede da citada fazenda não era grande, ainda mais para os padrões daquela época.

Para compreender o acesso à Colônia, não se pode esquecer da Capela de Santo Antônio, na Onça, construída entre 1912 e 1915, estrategicamente localizada no percurso natural do imigrante, viesse ele da Boa Sorte ou da Constança em direção à cidade ou, simplesmente para orar ao seu Santo Protetor.

É bom registrar que no fundo do galpão de leilões, ao lado da Igrejinha, existia no ano de 1943 uma escola rural. Na segunda metade dos anos de 1950, com a instalação em Leopoldina do projeto piloto que propunha a erradicação do analfabetismo no Brasil, foi construído um prédio no pátio fronteiro à Igrejinha, ali passando a funcionar a Escola Singular Rural que a Lei Municipal nº 936, de 17.10.1973, deu o nome de “Carlos de Almeida” em homenagem a este ruralista que, em conjunto com os imigrantes que então habitavam a Colônia, trabalhou na construção da Igreja.

Recorde-se que o trânsito da produção da Colônia trazida para a cidade era realizado por antiga via que teve alguns de seus trechos aproveitados no traçado da BR 116, a Rio-Bahia, construída no final dos anos de 1930.

Neste percurso, numa remodelação da rodovia em meados do século XX, alguns trechos da velha estrada de terra permaneceram com menor utilização. Dentre eles está a ligação entre a Igreja de Santo Antônio e o ponto em que a estrada da Boa Sorte encontra-se com a BR 116. Hoje esse trecho se tornou uma via importante, é o Caminho do Imigrante, usado pelos moradores do local, por pedestres, ciclistas e cavaleiros que, procedentes da Boa Sorte dirigem-se à Igreja, à cidade e ao ponto final do ônibus urbano, no Posto Puris.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima viagem virá o histórico da fazenda que emprestou o nome à Colônia. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 392 no jornal Leopoldinense de 16 de novembro de 2019

Nota:

1 - Cubu é um bolo ou broa de fubá assado no formato do pão de cachorro quente.

138 – Colônias em Minas Gerais e migrações entre elas

O Trem de História de hoje faz uma viagem um pouco mais abrangente para trazer para este espaço um pouco sobre as colônias criadas em todo o estado.

E começa lembrando que a organização de colônias agrícolas em Minas Gerais foi determinada pela necessidade de oferecer atrativos que fixassem os imigrantes no estado. O caminho encontrado pelos dirigentes foi, então, criar e incentivar a criação de núcleos agrícolas em terras devolutas e no entorno das estradas que se abriam, inclusive da ferrovia.

A partir de 1880, há referências esparsas a colônias criadas pelas municipalidades, como foi o caso da Colônia Santo Antônio que existiu em Leopoldina, conforme se depreende das contratações de imigrantes realizadas pela Câmara Municipal.

No final daquela década funcionavam o núcleo de São João del Rei, a Colônia Maria Custódia em Sabará e a Colônia Rodrigo Silva em Barbacena, todos transferidos da União para o Governo de Minas em 1892.

Já entre 1893 e 1930, o governo de Minas Gerais criou os seguintes núcleos coloniais: em 1893 a Colônia Francisco Sales, em Pouso Alegre; 1899 a Colônia Carlos Prates, Américo Werneck, Afonso Pena, Bias Fortes e Adalberto Ferraz, no subúrbio da capital; em 1900 a Colônia Nova Baden, em Lambari; em 1907 as Colônias Vargem Grande na capital e Itajubá no município de mesmo nome; em 1908 a Colônia João Pinheiro, criada em conjunto com o governo federal em Sete Lagoas; em 1910 as Colônias Constança em Leopoldina, Santa Maria em Astolfo Dutra, Barão de Ayuruoca em Mar de Espanha e, em conjunto com o governo federal, Colônia Inconfidentes em Ouro Fino; em 1911 as Colônias Major Vieira em Cataguases e Rio Doce em Ponte Nova; em 1912 as Colônias Wenceslau Braz em Sete Lagoas e Pedro Toledo em Carangola; em 1913 a Colônia Guidoval em São Domingos da Prata; em 1914 a Colônia Joaquim Delfino, em Cristina; em 1915 a Colônia Vaz de Melo em Viçosa; em 1920 a Colônia Álvaro da Silveira, em Pitangui; em 1921 a Colônias David Campista em Bom Despacho, Júlio Bueno Brandão em Peçanha e Francisco Sá em Teófilo Otoni; em 1923 a Colônia Padre José Bento, em Pouso Alegre; em 1924 a Colônia Brucutu, em Santa Bárbara; em 1926 a Colônia Raul Soares, em Pará de Minas; e, em 1927 a Colônia Mucuri, em Teófilo Otoni.

Desse grupo de colônias há informações nos relatórios disponíveis no Arquivo Público Mineiro, através dos quais foram identificadas algumas migrações entre as localidades.

É o caso da família de Andreas Stievano que chegou ao Brasil em 1888 e foi para Itajubá. Pouco depois da criação do núcleo colonial naquele município, não tendo conseguido adquirir o lote, os Stievano migraram para Leopoldina. O mesmo aconteceu com alguns Scantamburlo que foram para Chiador e os Magiollo que foram para Soledade, distrito de Mar de Espanha e, não conseguindo lote na colônia criada em Mar de Espanha em 1910, migraram para Leopoldina. Houve relato semelhante envolvendo os sobrenomes Bellan, Calloni, Conti, Pighi, Precisvale e Vetorello que foram inicialmente para Ponte Nova. Entretanto, o núcleo daquele município foi criado após o de Leopoldina e as famílias mencionadas já haviam migrado alguns anos antes.

Esclareça-se, a propósito, que não foi apenas a organização de um núcleo colonial, com venda de lotes a imigrantes, a causa das migrações. Tome-se, por exemplo, os municípios de Juiz de Fora e Muriaé, nos quais não existiu colônia nos moldes da nossa Constança. Foi grande o número de imigrantes italianos que se estabeleceram nos dois municípios e que migraram posteriormente dentro da própria zona da mata ou para outras regiões.

Vale a pena registrar que em 1911, um ano após sua fundação, a Constança ocupava a 7ª posição em número de habitantes, superando 4 núcleos mais antigos. Em 1912 já era a 2ª, tendo à frente a Rodrigo Silva, de Barbacena. No ano seguinte a Santa Maria, de Astolfo Dutra, alcançou a segunda posição e a Constança ficou em 3º lugar no número de habitantes e na produtividade. Nos anos subsequentes a Rodrigo Silva manteve-se como a de maior número de habitantes mas sua produção foi caindo, cedendo a posição para a Constança e a Santa Maria alternadamente. A partir de 1915 a Constança manteve-se como a segunda maior colônia do estado em número de habitantes.

Digno de registro, também, é o fato de que, ao serem emancipadas, estas colônias agrícolas sofriam pequena mudança administrativa, especialmente no que se refere ao fornecimento de equipamentos e sementes. Mas de acordo com a mensagem do presidente Fernando de Mello Vianna em 14 de julho de 1926, “apesar de emancipadas e com vida autonoma, permaneciam subordinadas ás leis geraes do Estado e do paiz”.

E para encerrar é bom lembrar que as despesas de manutenção da estrutura dessas colônias foram mantidas até a extinção de cada uma delas, não tendo havido um prazo previamente determinado para que fossem dispensados os funcionários administrativos e vendido o lote reservado pelo estado para moradia do administrador e funcionamento do serviço burocrático. Em diversas mensagens presidenciais, foram mencionadas despesas de manutenção das casas-sede, limpeza de córregos, reparo de pontes e outros serviços nas estradas internas dos núcleos por longo tempo após a emancipação. Tudo levando a crer que tais serviços eram realizados pelos próprios colonos, representando uma renda adicional para além do cultivo da terra. Analisando as falas anuais do dirigente estadual até 1930, é possível supor que a extinção só ocorria após todos os lotes terem sido quitados e emitidos todos os títulos definitivos de posse.

O Trem de História, neste final da viagem de hoje, lembra aos eventuais interessados neste estudo sobre a história pública da cidade que a emancipação da Colônia Agrícola da Constança ocorreu em março de 1921, mas as datas de emissão dos títulos definitivos estão em poder do Cartório de Registro de Imóveis de Leopoldina e infelizmente, por razões burocráticas, não foi possível acessá-los para completar esta lacuna.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 391 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2019


Fontes de referência:

MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas 1889-1930. Belo Horizonte: Itatiaia, 1994. p. 189

Relatórios da Presidência da Província / Governo do Estado de Minas Gerais 1837-1930.

Decretos 4194 de 30.05.19146430 de 15.12.1923, 11.874 de 12.01.1916, 5597 de 03.03.1921, 5598 de 03.03.1921, 3207 de 01.07.1911, 6614 de 20.07.1923, 5596 de 03.03.1921, 6631 de 10.09.1923, 6624 de 16.06.1924, 8145 de 13.01.1928 e 6613 de 20.07.1923.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 391 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2019

137 – Propriedades pequenas e produtivas

 

Antes de tratar das propriedades vendidas aos imigrantes aqui no Brasil, é bom que se tenha uma ideia de como eram as propriedades, na época, na Itália.

Segundo a investigação agrária realizada por de Jacini[1], na segunda metade do século XIX as pequenas propriedades eram mais comuns do que o latifúndio na Emilia-Romagna. Em algumas partes da região encontravam-se unidades de 10 a 30 hectares, sendo o tamanho mais frequente em torno de 9 hectares ou, um pouco menos de dois alqueires mineiros.

Emilio Franzina[2] caracteriza como sendo mito a ideia sobre uma divisão de terras que teria ocorrido no Veneto, informando que nos arredores de Rovigo, Vicenza, Padova e Treviso as propriedades mediam entre 20 e 30 hectares.

Num extrato sobre o trabalho de Jacini, Giulio Gatti conclui que a propaganda da emigração comparava a diminuta extensão das propriedades rurais na Itália com a possibilidade de adquirir grandes fazendas no Brasil.

Tomando por base o tamanho dos lotes da Colônia Agrícola da Constança, com 25 hectares em média, verifica-se que a realidade encontrada aqui no Brasil estava longe de confirmar a propaganda que atraíra aqueles imigrantes. E se torna mais grave quando é sabido que antes do estabelecimento daquele núcleo colonial os imigrantes raramente tiveram oportunidade de adquirir uma boa propriedade que permitisse o rendimento necessário para o sustento de família numerosa.

Ressalte-se que as bases sobre as quais se assentou a nova sociedade brasileira fundada no trabalho livre incluíram modalidades diversas de relações sociais, não havendo um padrão único seguido por todos os fazendeiros e colonos. Pelo menos duas modalidades dessas relações são encontradas nas fazendas leopoldinenses. Na primeira delas estão os imigrantes que foram explorados nas fazendas, presas fáceis da marginalização e da miséria, mas que tomando atitudes muitas vezes impensadas, conseguiram se livrar do jugo dos fazendeiros que os contrataram na hospedaria e encontraram o caminho para o sucesso. Na segunda modalidade que se deduz de vários depoimentos colhidos de descendentes, está um grupo de imigrantes que contou com melhor sorte. Este teria tido ascensão econômica e n’alguns casos também a social porque contou com a ajuda dos fazendeiros contratantes. Neste caso ocorreu que os fazendeiros, grandes beneficiários do sistema de importação de mão de obra livre, sentiram necessidade de estabelecerem vínculos trabalhistas mais favoráveis aos colonos, a fim de evitar perderem aqueles novos braços que passaram a sustentar as suas lavouras. Sentiram que a falta dos imigrantes poderia trazer de volta aqueles tempos terríveis após a libertação dos cativos, quando a produção de muitas lavouras se perdeu no mato por falta de mão de obra para a colheita.

O mais comum, antes da criação das colônias, era que os imigrantes raramente tinham oportunidade de realizar o sonho de adquirir uma boa propriedade. Foi o caso, por exemplo, da família Casadio. Com a esposa Luigia Martinelli e pelo menos dois filhos, em 1897 Giuseppe Casadio foi contratado para uma fazenda no então distrito de Leopoldina chamado Rio Pardo, hoje o município de Argirita. Em 1910, o filho Giovanni Casadio adquiriu o lote número 35 da Constança, no qual também viveram seus pais. Outros imigrantes da mesma região, como os Minelli, de Bologna, que se radicaram no distrito de Ribeiro Junqueira e os Conti, de Marzabotto, que se tornaram proprietários na localidade de São Lourenço, também no município de Leopoldina, parecem ter percorrido caminho semelhante.

Na verdade, a propriedade de um pedaço de terra era uma das condições a que se impuseram os imigrantes para atingirem a igualdade e, ao mesmo tempo, a liberdade sonhada com a vinda para a América. Óbvio que para isto ainda precisavam reorganizar suas vidas na nova terra e resolver os problemas das dívidas eventualmente contraídas na viagem e nos primeiros anos junto ao armazém da fazenda.

Segundo levantamentos parciais nos registros existentes, num período de 8 a 12 anos trabalhando nas fazendas a maioria dos imigrantes se tornou proprietária. O que se traduz num feito extraordinário se consideradas as condições em que chegaram da Itália.

Basta lembrar que os desafios eram muitos. Começavam no embarque no porto italiano e não terminavam com a chegada a um lugar desconhecido chamado Leopoldina. Eram problemas de toda ordem: falta de recursos financeiros, exploração de intermediários, viagens cansativas, muitos casos de doença e até de perda de familiares ou separação nas hospedarias onde o fazendeiro escolhia as pessoas que lhe interessavam.

Superados ou absorvidos todos estes problemas, restava ainda, como muitos casos relatados pelos descendentes, o grande obstáculo oferecido na chegada, onde a língua e a cultura dessa nova pátria eram totalmente estranhas.

Os imigrantes venceram todas as dificuldades. Na medida do possível, procurando fixar-se junto a seus conterrâneos de modo a se sentirem mais confiantes e buscando a ajuda mútua para o amparo e para o aumento dos rendimentos. Ao evitar se dispersarem, em muitos casos surgiram parcerias entre famílias imigrantes que começaram no amanho da terra e se prolongaram em casamentos entre os filhos. E, acima de tudo, trabalhando muito.

Não se deve descartar a hipótese de algum imigrante ter vindo por influência de uma propaganda enganosa de que seria fazendeiro no Brasil, mas é inegável que estes numerosos colonos transformaram, assim que puderam, pequenos lotes em exemplos de produtividade e foram bastante operosos, conseguindo boa condição de vida para suas famílias.

Por hoje a conversa fica por aqui. Até a próxima edição!


Fontes consultadas:

1 – JACINI, Stefano. Inchiesta Agraria. Roma: s.n., 1884.

2 – FRANZINA, Emilio. A Grande Emigração: o êxodo dos italianos do Veneto para o Brasil. Campinas: Unicamp, 2006. p. 142-144

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 390 no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2019

 

136 – Imigrantes e a Hospedaria Jacareacanga

 

Na última edição o Trem de História se referiu ao engenheiro Eugenio Jordan como contratante de imigrantes na hospedaria de Juiz de Fora, informando como destino a localidade de Vista Alegre, no município de Leopoldina.

Este engenheiro, em 1896, recebeu ordem do presidente da província tratar da construção de um ramal férreo entre a estação Mariano Procópio e a hospedaria dos imigrantes, em Juiz de Fora. Neste mesmo ano ele fazia parte, do Corpo Consultivo das Estradas de Ferro e ainda em 1896, Jordan apresentou, Memória sobre as vantagens da tração elétrica em Minas e no ano seguinte foi dispensado do cargo de encarregado das obras das hospedarias do Estado. Registre-se que em 1896 a hospedaria de Leopoldina, na estação de Vista Alegre, posteriormente denominada Jacareacanga, estava em construção, segundo a mensagem do presidente Bias Fortes.

Segundo os registros da hospedaria de Juiz de Fora, o engenheiro Eugenio Jordan contratou, entre agosto e setembro de 1896, 29 famílias e, talvez até outras mais, provavelmente para as obras de organização da hospedaria Jacareacanga, em Leopoldina.

Alguns membros dessas famílias são mencionados, posteriormente, em assentos de batismos e casamentos nos livros paroquiais de Leopoldina, o que comprova que viveram no município.

Dentre elas estariam:

1) Calogero Sbrazzato, nascido em 1857 em Grotte, Agrigento, Sicilia, que chegou em agosto de 1896 com a esposa Michela Infantino, nascida em 1858 e os filhos Angela (1879), Lorenza (1881), Mario (1882), Gaetana (1884) e Francesco (1889). Em julho de 1897 a filha mais velha, Angela, casou-se em Leopoldina com Michele de Vito, natural de Fóggia, na Puglia, que havia chegado em julho de 1896 e fora trabalhar em fazenda do distrito de Providência. Em 1905, Calogero e Michela foram padrinhos de batismo de Maria, filha de Daniele Congiu e Teresa Fanni, casal procedente de San Vito, Cagliari, Sardegna, que havia chegado em abril de 1897 e fora trabalhar em Providência, mas já havia se transferido para o arraial de São Lourenço, onde foi realizado o batismo. Calogero Sbrazzato e outros imigrantes que vieram de Grotte para Leopoldina, eram profissionalmente identificados como ‘zalfataro’, grafia siciliana para ‘salfataro’, que significa mina de enxofre. A extração de enxofre era a principal atividade econômica na província de Agrigento, que atualmente é importante ponto turístico.

2) Calogero Arnone e a esposa Maria Antonia Bellavia foram padrinhos de batismo de Concettina, filha de Domenico Bonnano e provavelmente pais de criança batizada em Leopoldina mas com os nomes muito alterados que impedem afirmação;

3) Domenico Bonanno e Palma Gaetana Ruggeri tiveram pelo menos a filha Concettina nascida em Leopoldina;

4) Calogero Busuito e a esposa Pietra Arnone, que chegou grávida do filho Antonino que nasceu e foi batizado em Leopoldina;

5) Calogero Nicolini e Calogera Caltigirone, que tiveram, pelo menos, o filho Jeronimo nascido em Leopoldina.

Além das acima citadas, foram identificadas nos livros paroquiais duas outras contratadas por Eugenio Jordan. A primeira era composta por

6) Gaetano Armaroli que chegou com a esposa Giuseppina e os filhos Enrico e Ercole. Provavelmente trata-se de família proveniente da província de Modena, Emilia-Romagna, que se transferiu para o estado de São Paulo por volta de 1910.

A outra família era chefiada por

7) Luigi Zannini que chegou acompanhado pelo filho Nazzareno Zannini com a esposa Albina e os filhos Giovanni e Guerino. Segundo informação de descendente, Luigi faleceu no distrito de Abaíba em data desconhecida.

Na mesma época chegou um provável parente de Luigi Zannini,

8) Celso ou Cesare Zannini e a esposa Maria que foram trabalhar em São Martinho. Procediam de Marzabotto, província de Bologna, Emilia-Romagna.

Há, também, nos livros paroquiais, menção ao sobrenome Brucculeri e variadas grafias, mas que não foi possível identificar uma vez que todos adotaram o Calogero como prenome, sendo que o nome e o sobrenome eram muito frequentes no Agrigento no período pesquisado.

Um registro importante a ser feito é o de que o número de imigrantes que chegou a Leopoldina a partir de 1900, vindo diretamente da Europa, é bem pequeno. O último livro da hospedaria Horta Barbosa que foi preservado confirma a informação de Norma de Góes Monteiro a respeito de só se encontrarem na instituição pessoas procedentes do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco.

Como curiosidade vale registrar algumas situações encontráveis em alguns grupos que viveram em Leopoldina. A primeira delas, é o fato de mudarem de trabalho com certa frequência, como é o caso dos Sbrazzato, que inicialmente estiveram em Vista Alegre, em seguida teriam se transferido para Providência, onde a filha Angela conheceu e se casou com Michele, um imigrante de outra região da Itália que ali chegara no mesmo ano de 1896. Angela e Michele não viajaram no mesmo vapor, não chegaram juntos a Leopoldina nem se estabeleceram na mesma localidade. Um exemplo de que, ao contrário do que o senso comum acredita, os casamentos entre imigrantes não significavam que fossem do mesmo lugar nem que tivessem viajado juntos. Da mesma forma, o apadrinhamento em 1905 se dá entre famílias que não procediam da mesma localidade, não viajaram juntas nem se estabeleceram inicialmente no mesmo lugar.

A carga de hoje do Trem de História termina aqui. Na próxima viagem, seguirá por outro rumo. Aguardem!


Fontes de referência:

Correio de Minas, Juiz de Fora, 07.06.1896, p. 1; Estado de Minas Geraes, 5 jul 1896, ed. 468, p. 1 e 6 maio 1897, ed. 484, p. 4; La Rivitalizzazione di alcune comunità della valle del fiume Alcantara in Sicilia, Italia. Projeto da Vitaurbis, abril 2005, por Robero Ruschel; Livros da Hospedaria Horta Barbosa (Arquivo Público Mineiro), SA-910 p.7 e seguintes; Mensagem do presidente do estado Chrispim Jacques Bias Fortes, 15.07.1896. p. 31; MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas 1889-1930. Belo Horizonte: Itatiaia, 1994. p.111 e Revista Industrial de Minas Gerais, edição nº 18, de 1896, p. 40.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 389 no jornal Leopoldinense de 1 de outubro de 2019

 

135 – Hospedaria Jacareacanga

O Trem de História já citou uma hospedaria que permanece meio encoberta pela poeira do descaso. É a Hospedaria Jacareacanga, que parece ter funcionado às margens do ribeirão que lhe empresta o nome, nas proximidades da estação ferroviária de Vista Alegre.

Para ela foram encaminhados imigrantes que se destinavam a Leopoldina.  Mas antes de tratar da Hospedaria Jacareacanga, dois pontos importantes a respeito da imigração para Minas Gerais merecem ser lembrados.

O primeiro deles é o fato de que, segundo o Decreto nº 644, de 09 de setembro de 1893, o governo mineiro teria firmado convênio com o estado do Espírito Santo para que os imigrantes que chegassem naquele período, com viagem subvencionada por Minas Gerais, fossem recebidos na hospedaria da capital daquele estado.

O segundo ponto que merece registro se refere ao fato pouco conhecido de que alguns dos imigrantes que se instalaram em Leopoldina não vieram diretamente do país de origem. Um bom número esteve em outros núcleos de colonização, da mesma forma que colonos ‘leopoldinenses’ foram tentar a vida noutras localidades, num deslocamento que terminou por provocar, inclusive, a separação e o distanciamento de ramos familiares. O que não desautoriza a afirmação de que a regra geral era passarem por uma hospedaria e de lá saírem contratados por fazendeiros ou, estimulados por alguma razão especial, partirem para um endereço certo.

Sobre a Jacareacanga, especificamente, pouco se sabe e raros são os documentos preservados referentes a ela, acessíveis ao público. Dentre estes poucos está a mensagem de Bias Fortes, de julho de 1896, declarando que:

“Inutil seria todo nosso esforço em bem do desenvolvimento da corrente immigratoria, si o recebimento de immigrantes no Estado não fosse feito com todo o cuidado e com a maior somma de conforto para elles. Convicto disso, o governo tem procurado fazer cercar de todo o agasalho e conforto o immigrante recem-chegado. Para esse fim, mandou executar diversas obras na hospedaria de Juiz de Fora, de modo a dotar este edificio de todos os melhoramentos indispensaveis á commodidade do immigrante e ao serviço de hyginene da hospedaria. Providenciou tambem para que sejam estabelecidas diversas hospedarias nos centros das mais importantes zonas agricolas, o que facilitará a localisação e a distribuição dos immigrantes.”

Nesta mesma mensagem o Presidente do Estado informa que estava em construção uma hospedaria na nova capital, Belo Horizonte e tinham sido iniciados os trabalhos para instalação de duas outras: uma em Leopoldina, na Estação de Vista Alegre, e outra na Estrada Sapucahy, em Soledade, hoje município de Pouso Alegre (MG).

Vale lembrar que o Decreto nº 406, de 1891, criou

um distrito de paz na povoação denominada – Vista Alegre – município de Leopoldina, cujas divisas serão: pela ponte do Rio Pomba, em Vista Alegre, descendo rio abaixo até a fazenda de Carlos Augusto de Aquino Cabral (divisa com Campo Limpo); daí subindo o ribeirão do Recreio até a fazenda do mesmo nome, pertencente à d. Maria Antonina Dutra, passando pela fazenda de José Dutra da Silveira, voltando depois, em linha reta, apanhando as fazendas dos Srs. Custódio Ferreira de Lacerda, herdeiros de Antônio Ferreira Netto, João Rodrigues Martins, João Evangelista de Castro Gama, capitão Francisco de Paula e Silva Santa Maria, Dr. Custódio José da Costa Cruz, fazenda do Aracati Velho; voltando, passará, em linha reta, pela fazenda dos Brittos, chegando ao Rio Pomba, apanhando a fazenda do capitão Caetano José de Almeida Gama, desce rio abaixo até a ponte da Vista Alegre, de onde partiu o primeiro ponto.”

É fato documentado que em meados da década de 1890 o engenheiro Eugenio Jordan constou como contratante de imigrantes na hospedaria de Juiz de Fora, informando como destino a localidade de Vista Alegre, no município de Leopoldina, que tanto pode ser o distrito criado pelo decreto nº 406 quanto referir-se à estação ferroviária de Vista Alegre.

Sobre a hospedaria sabe-se, também, que em 1898 foi feito um aporte financeiro pela presidência do Estado para conclusão do processo de extinção da Jacareacanga e que, no ano seguinte, foram extintas as hospedarias de Soledade e de Leopoldina.

Os estudos até o momento desenvolvidos levam a pensar na hipótese de que a hospedaria de Leopoldina já existisse desde a época da construção da Estrada de Ferro, na década de 1870. Isto porque, através da Lei nº 32, de 18 de julho de 1892, foi permitido às Câmaras Municipais cuidarem da introdução de trabalhadores, inclusive imigrantes. E por esta época, funcionava a Colônia Santo Antonio, instalada pela Câmara Municipal na fazenda da Onça, de sua propriedade.

Assim, reunindo diversas informações e comparando-as com depoimentos de descendentes de imigrantes, observa-se que pode ter existido um prédio, à margem do ramal que ligava a estação de Vista Alegre à do centro da cidade de Leopoldina, destinado a acolher inicialmente os trabalhadores da ferrovia.

Descendente de imigrante alemão informou que seus antepassados trabalhavam na construção da Estrada de Ferro Pedro II e se transferiram para Leopoldina, para trabalharem nas obras do ramal de Vista Alegre. Acrescentou que a família residiu inicialmente nas proximidades da Estação de Vista Alegre até que a Câmara de Leopoldina promoveu a venda de lotes na fazenda da Onça.

Outra indicação para confirmar a existência da hospedaria Jacareacanga vem de entrevista com descendente de imigrante italiano que trabalhou na fazenda Paraíso. Neste caso, a informação é de que ficaram numa hospedaria perto da Estação de Vista Alegre, até chegar a bagagem e então serem transferidos para a fazenda de destino.

Esta situação se confirma com a leitura da carta de Costa Manso & Cia, do Rio de Janeiro, datada de 28 de agosto de 1889 e enviada para a fazenda Paraíso, na qual se informa que o emissário Frederico Dausckivardt contratara diversos colonos no Porto do Rio.

Pelo que se depreende desse documento, pertencente à coleção de documentos da fazenda Paraíso, os imigrantes haviam seguido viagem com destino à Estação de Vista Alegre e a bagagem não tinha seguido junto porque “o vapor chegou às 3 horas” e não foi possível contratar “a catraia para fazer seguir para o trapiche da Gamboa, onde será despachada amanhã”.

Aqui é preciso fazer mais uma pausa. O Trem de História retorna na próxima edição para falar de imigrantes que estiveram na Jacareacanga. Até lá.


Fontes de referência:

Mensagens dos presidentes do Estado de 1888 e 1899; Mensagem do Presidente Chrispim Jacques Bias Fortes, 15.07.1896, p. 31; Livros da Hospedaria Horta Barbosa (Arquivo Público Mineiro), SA-910 p.7 e seguintes; Documento da Coleção Kenneth Light, disponível no Arquivo Histórico do Museu Imperial, Petrópolis, RJ. Tombo 1954/97.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 388 no jornal Leopoldinense de 16 de setembro de 2019

134 – O Ribeirão Jacareacanga

Em oportunidade anterior, quando se tratou do Ribeirão do Feijão Cru, foi dito que ali não se ocupava tempo e paciência de eventual leitor por ser um grande curso d’água ou, um curso de águas límpidas. Ocupava-se porque ele emprestou o seu nome ao povoado que deu origem à cidade e porque a sua bacia hidrográfica estava integralmente dentro dos limites do município de Leopoldina. Porque o Feijão Cru é da cidade e a sua vida se confunde com a vida dos que aqui vivem.

Recorde-se que o povoado surgiu nas imediações da Igreja do Rosário e cresceu pela margem direita do Feijão Cru, expandindo-se pelas encostas dos Pirineus, Tabocas e pelo vale por onde passam as ruas Cotegipe e Presidente Carlos Luz que margeavam antigo córrego, escoadouro das águas nascidas em mina existente na Praça General Osório que desaguavam no Feijão Cru, nas proximidades do Colégio Estadual Botelho Reis (Ginásio). Com o tempo o casario subiu o morro da Catedral, aproveitou o estreito que formou a Rua do Buraco (das Flores) e foi juntar-se ao Bairro da Grama, que também está na mesma margem direita do Feijão Cru. Muito depois é que os habitantes saltaram o Ribeirão e povoaram a Fábrica, a Praça da Bandeira e subiram o Alto da Ventania.

Mas hoje o que se pretende é falar das águas que vertem ou, correm para o outro lado do morro dos Pirineus, da elevação que forma o bairro da Meia Laranja e do lado norte da Volta da Cobra, onde nasce, do lado sul, o Feijão Cru. São águas que formam outros córregos e outro importante ribeirão por onde escoam as águas de chuva que caem no atual centro da cidade.

O que se quer contar é um pouco da história do Ribeirão Jacareacanga, irmão do Feijão Cru, porque nascem na mesma serra da subida da Volta da Cobra. Um à direita e o outro à esquerda da estrada que segue para o Arraial dos Montes / São Lourenço e Abaíba. O Jacareacanga, na região da Serra dos Netos, nasce no alto do morro e por entre pedras e árvores desce a encosta por um dos vales e vai recolhendo as águas de pequenas nascentes. Quando chega à parte plana, em terras que formavam a antiga fazenda Fortaleza, antes de cruzar a BR-116 recebe pela margem direita o Córrego Fortaleza. Logo depois, na outra margem da rodovia, pelo lado esquerdo recebe a contribuição do Córrego Três Cruzes, que lhe traz as águas das encostas da região do Brasília Country Club. Segue seu curso e, na Fazenda Estrela, recebe o córrego Bela Vista e o Pau Cascado, afluentes da margem esquerda.

O Córrego Bela Vista é o que recolhe as águas do bairro de mesmo nome e as que descem pelos fundos da Rodoviária, do CEFET e pelo lado norte da Meia Laranja. E mais ou menos paralelo à Avenida dos Expedicionários, marca a divisa entre os bairros Bela Vista e São Cristóvão.

É bom que se observe que entre estes dois bairros passa o Córrego Bela Vista, diferentemente do que afirmam algumas pessoas que consideram ser ali o Jacareacanga.

Voltando ao curso do Ribeirão, depois que passa pela Fazenda Estrela ele segue mais ou menos o leito do ramal da antiga linha férrea.

No jornal O Leopoldinense, edição 65, 08.09.1885, p. 3, nota intitulada “Serviço de Immigração” informa que “até 2ª ou 3ª o fiscal adquirirá, por conta do Estado, o Sítio Jacareacanga, onde vai ser montada uma hospedaria com capacidade para receber 1200 imigrantes.” Na folha 20 S2 E3 da cartografia da Comissão Geographica e Geologica de Minas Gerais de 1926, consta que no terço final do Ribeirão localizava-se a Fazenda Jacareacanga.

Registre-se que em 1896 a hospedaria de Leopoldina, na estação de Vista Alegre, posteriormente denominada Hospedaria Jacareacanga, estava em construção, segundo a mensagem do presidente do estado Chrispim Jacques Bias Fortes, de 15.07.1896. p. 31.

Aproximando-se de sua foz, o Ribeirão Jacareacanga recebe o Córrego Santana e a seguir mais dois afluentes, os córregos do Bagre e o São Luiz, todos pela margem esquerda.

Logo depois, deságua no Rio Pomba, bem perto da estação donde partia o TREM que ligava a Estrada de Ferro da Leopoldina ao centro da cidade que lhe emprestou o nome. Um TREM de verdade que fez história transportando imigrantes e riquezas da região. Um TREM que ficou na história e, inspirou este TREM DE HISTÓRIA que hoje conta as muitas histórias que ocuparam e ainda ocuparão este espaço do Jornal. Histórias que não acabam, porque a vida e a viagem deste imaginário TREM continuam na próxima edição. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 387 no jornal Leopoldinense de 1 de setembro de 2019

133 – As Hospedarias

O Trem de História visita, nesta viagem, casas onde pernoitaram alguns dos imigrantes italianos que viveram em Leopoldina, as chamadas hospedarias. E começa contando um pouco da história da mais citada nas entrevistas realizadas: a hospedaria da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro.

Sabe-se que a propriedade onde se instalou aquela hospedaria foi adquirida em 1882 e, no ano seguinte, procedeu-se à instalação de alojamentos compostos de dormitórios coletivos, salas para enfermaria, consultório médico, escritórios, quartos para os empregados e sala de arrecadação.

Segundo o relatório de 1883, a hospedaria começou a receber imigrantes no dia 01 de maio daquele ano, num total de 7.402 indivíduos, sendo que 987 foram encaminhados para Minas Gerais.

Em 1884 foram realizadas obras de melhoramento, assim como em 1885, 1886 e 1888.

Ilha das Flores, é bom que se diga, era uma hospedaria sob a responsabilidade da União. Mas logo no seu início o Governo sentiu necessidade de cobrar das províncias a manutenção de suas próprias hospedarias, de modo a que os imigrantes fossem encaminhados por linha férrea diretamente para elas, tão logo liberados pela Agência Nacional dos Portos, ou seja, pelo Serviço de Imigração.

Informação importante, que merece registro, é a de que, embora muitos descendentes se refiram à Ilha das Flores como local em que obrigatoriamente ficaram seus antepassados, nem todos eles passaram por ali. Muitos dos destinados à Mata Mineira aqui chegaram vindos da hospedaria provincial de Ubá (MG), conforme atestam alguns processos de registro de estrangeiros, nos quais os imigrantes declararam ter passado por tal instituição. Além disso, no início do funcionamento da hospedaria provincial de Juiz de Fora, em 1888, Relatório da Presidência da Província informa que para ali foram transferidos os imigrantes que se encontravam na hospedaria de Ubá.

A Hospedaria Provincial de Juiz de Fora, posteriormente denominada Hospedaria Horta Barbosa, de acordo com documentos relativos à Divisão de Terras e Colonização, de 1888, estava sendo construída naquele ano. Norma de Góes Monteiro ressalta que essa hospedaria foi inaugurada em maio de 1889 e praticamente abandonada seis meses depois, com a Proclamação da República.

Entretanto, pelo que foi apurado em seus livros de registro, a hospedaria mineira esteve em pleno funcionamento entre o segundo semestre de 1888 e junho de 1889, quando teve as atividades suspensas por conta das más condições denunciadas à presidência da província. Segundo os livros preservados, somente em 1892 voltou a funcionar normalmente.

Uma análise comparativa entre os livros de matrícula na hospedaria da Ilha das Flores e os registros na hospedaria de Juiz de Fora demonstra que entre junho de 1888 e maio de 1889, os imigrantes destinados à região não passaram pela Ilha das Flores. Os destinados a Minas Gerais, que chegaram entre agosto e novembro de 1893, também foram encaminhados diretamente para a Horta Barbosa.

Em dezembro daquele ano, informa o Ministro da Agricultura, uma epidemia desenvolveu-se no Vale do Paraíba, determinando a suspensão do tráfego na Estrada de Ferro Central e por este motivo, a pedido do governo de Minas, os imigrantes que se destinavam Minas foram recolhidos na Ilha das Flores entre 11 e 25 de dezembro de 1893. Logo depois, 630 deles foram encaminhados para a Hospedaria do Pinheiro, localizada na atual cidade de Pinheiral (RJ). Por conta dessa epidemia que se alastrou pela congênere mineira, os fazendeiros passaram a não contratar colonos que poderiam infectar-se na instituição de Juiz de Fora.

No final de 1894, o encaminhamento dos imigrantes contratados pela província mineira teria voltado a funcionar como no período anterior, ou seja, do porto eram encaminhados para a estação ferroviária, sendo embarcados no trem para Juiz de Fora.

Registre-se que esta volta ao curso normal de imigrantes para Juiz de Fora pode ter sido um reflexo do Decreto nº 752, de 03 de agosto de 1894, que reestruturou a Horta Barbosa ou, ter sido em função do término da ocupação da Ilha das Flores pelas forças militares, na Revolta da Armada naquele ano, mencionada no Relatório do Ministro da Agricultura, em 1894.

Em junho de 1894 a hospedaria da Ilha das Flores voltou a receber imigrantes. Mas, segundo determinou o Decreto nº 612, de 06 de março de 1893, foi criado no Rio de Janeiro um ponto de desembarque dos passageiros destinados a Minas Gerais. E, pelo que foi possível apurar, esta agência fiscal esteve localizada no próprio porto do Rio, não sendo necessário hospedar os imigrantes na Ilha das Flores.

Entretanto, o ministro Antonio Olinto dos Santos Pires declarou que no ano de 1895 a hospedaria do Pinheiro ainda recebeu imigrantes provenientes de Juiz de Fora, em função de epidemia que ali se desenvolveu.

Segundo mensagem do presidente Francisco Antonio de Sales, em virtude da paralisação do serviço de imigração a partir de 1897, os funcionários da Horta Barbosa foram dispensados através de decretos assinados a 10 de outubro de 1902 e 23 de janeiro de 1903.

O Trem de História faz uma pausa para recolher a carga da próxima edição. Aguardem!


Fontes de referência:

Relatório apresentado pelo Ministro Affonso Augusto Moreira Penna à Assembleia Geral, 1883, p.216; pelo Ministro da Agricultura Antonio Olyntho dos Santos Pires, 1895, p. 56 e 1896, p. 77; Mensagem do Presidente do Estado de Minas, 1903. p.34-35.

MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas 1889-1930. Belo Horizonte: Itatiaia, 1994. p.102-103.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 386 no jornal Leopoldinense de 16 de agosto de 2019