155 – Antigas Unidades e Instrumentos de Medida

Como ficou dito no Trem de História anterior, é preciso conhecer e compreender as unidades de medida e os instrumentos utilizados na demarcação das sesmarias para se interpretar corretamente todos os documentos relativos às concessões.

Em relação às unidades de medida, constantes causadoras de confusões sobre o real tamanho das propriedades, é vasta a bibliografia disponível[1]. E com base nela foi montado o seguinte resumo.

Alqueire = 10.000 braças quadradas = 48.400 m2

Are = 100 m2

Braça = 2 varas = 10 palmos = 2,20

Braça quadrada = 100 palmos quadrados = 4,84 m2

Centiare = 1 m2

Corda = 15 braças = 33 m

Hectare (ha) = 10.000 m2

Légua de sesmaria = 3.000 braças = 6.600 m

Meia Légua em quadra = 1.500 braças2 = 3.300m2 = 10.890.000m2

Palmo = 0,22 m

Prato de terras = 225 braças quadradas = 10,89 ares = 1.089 m2

Quarta de terras = 8 pratos = 0,87 há = 8.712 m2

Selamin = 2 pratos = 0,22 ha = 2.178 m2

Vara = 1,10m

Sesmaria no último período = 225 alqueires = 10.890.000m2

Quanto aos instrumentos utilizados é preciso alongar um pouco mais a história para melhor entendimento. Numa das medições realizadas em 1818, em Leopoldina, foi citado o instrumento “agulhão” sobre o qual constam apenas declarações de que estava certo ou reto e sem cavidade.

Em 1885, na medição de fazenda do município[2], há o registro de que os instrumentos apresentados para exame foram: Bússola Eclimetro de Casella, composta de agulhão imantado, frisas e óculo; uma corrente de dez metros aferida pelo padrão da Câmara Municipal; e, dez “fixas”.

A primeira explicação é sobre a palavra bússola que tem origem na língua italiana e significa caixa. Popularmente esta caixa acabou se confundindo com o equipamento vulgarmente conhecido como bússola. Embora a “caixa”, quando usada em embarcação seja chamada de “agulha de marear”, em tempos idos este aparelho usado pelo Piloto[3] era referido como “agulhão”.

“Frisas e óculo”, citados no documento de 1885, seriam as partes que compõem o instrumento. As frisas são as marcações na base onde se instala a agulha. Óculo, é o vidro (lente) que funciona como tampa da caixa da agulha. Já o Eclimetro de Casella era o instrumento que determinava diferenças de nível do terreno. Instrumento ainda hoje fabricado pela empresa Casella, de Londres, especializada em equipamentos de topografia. As “fixas” eram os fixadores para prender a corrente ao solo, de modo a permitir que o Piloto calculasse a distância de um ponto a outro.

Outro termo que surgiu na leitura de processos de inventário e demarcações de propriedades foi “vallo”, por vezes relacionado a valim, valusi ou vallusi, que por algum tempo se considerou uma palavra estranha. Hoje, é sabido que, antes das atuais cercas de arame nas divisas, usava-se abrir valetas no solo. Assim, tornou-se compreensível o uso dos termos valim, valusi ou vallusi para designar a função exercida pela pessoa que construía os valos ou, valetas.

Registre-se que num processo[4] de divisão de propriedade foram listados “jornaes[5] pagos a trabalhadores que cuidaram da marcação das divisas dos quinhões”[6], sendo um deles o conhecido imigrante italiano Nicola Savino. E entre os primeiros moradores do Feijão Cru havia uma pessoa de sobrenome Valim, que seria familiar de membro de uma das expedições de Galvão de São Martinho, que aqui chegou com a função de marcar limites ou divisas.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima viagem virão antigas propriedades rurais formadas no Feijão Cru. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 408 no jornal Leopoldinense de 15 de junho de 2020


Fontes consultadas:

[1] BRITTO, José Gabriel de Lemos. Pontos de partida para a História Econômica do Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934; SAUER, Arthur. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro para 1897. Rio de Janeiro: Laemmert, 1896. p. 34; O Imperio do Brazil na exposição universal de 1876 em Philadelphia. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1875. p.286-287; e, Tabela de medidas agrárias não decimais do Serviço de Estatística da Produção, Ministério da Agricultura - set/1946.

[2] Divisão da Fazenda São Manoel da Bocaina requerida por Francisco Ferreira Neto e outros. Processo 38404617 COARPE/TJMG fls 63 img 108-111

[3] Piloto era o encarregado de medições e demarcações. O Decreto nº 3198, de 16.12. 1863, estabeleceu regras para a função e o profissional passou a ser denominado Agrimensor.

[4] Divisão da Fazenda Sossego requerida por Silvano José da Cruz Nogueira, processo 38403636 COARPE/MG, fls 154v img 266.

[5] Jornal (jornada) significa o pagamento pela diária do trabalhador.

[6] Quinhão era a parte que cabia a cada condômino de uma propriedade ainda não dividida.

154 – Sesmarias até para filhos ainda não nascidos

Em artigo anterior o Trem de História trouxe a informação de que alguns dos beneficiários das primeiras sesmarias concedidas na região foram parentes dos membros da tropa comandada por Pedro Afonso Galvão de São Martinho. E citou o exemplo de dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas, beneficiados com quatro sesmarias em 1813. Duas delas na divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo (atual Argirita).

Hoje a viagem parte de um estudo iniciado após a leitura em Francisco de Paula Ferreira de Rezende[1] e Celso Falabella de Figueiredo Castro[2] que registram o fato de que uma das famílias povoadoras do Feijão Cru teria obtido “sesmarias até para filhos ainda não nascidos”.

Buscando compreender o assunto, foram consultadas inúmeras obras, encontrando informação semelhante em Lígia Osorio Silva[3], quando a autora afirma que: até o século XVIII […] houve casos de várias sesmarias concedidas a um mesmo indivíduo, e casos de indivíduos que as requeriam em nome “das mulheres, dos filhos e filhas, de crianças que estavam no berço e das que ainda estavam por nascer”.

Na verdade, a autora se referia a texto de Nadir Domingues Mendonça[4] que replicou informação de Alcides Lima[5] em História Popular do Rio Grande do Sul, que falava a respeito do ocorrido em outros pontos do Brasil.

Restava, então, saber se Rezende e Falabella também replicaram outros autores ou se, de fato, isto aconteceu em nossa região. Concluiu-se daí que a busca precisava continuar.

E para sustentar teoricamente a pesquisa, era necessário ler um pouco mais a respeito da legislação sobre concessão de sesmarias, iniciando-se pelos Anais do VIII Simpósio Nacional de Professores de História, de 1976, complementados por artigos de NOZOE (2006)[6] e mais recentemente revisado com a leitura de ALVEAL (2015)[7].

Numa segunda etapa a busca consistiu em selecionar, na Revista do Arquivo Público Mineiro de 1988, os sesmeiros que obtiveram Carta de Sesmaria no Termo de Barbacena, indicando local próximo ao Sertão do Feijão Cru.

Mas o exaustivo levantamento realizado no arquivo mineiro apenas ampliou de 6.642 para 7.985 as sesmarias com que até então trabalhavam os historiadores, nada acrescentando no sentido de esclarecer a tal concessão a filhos não nascidos.

No caso de Leopoldina sabe-se que, embora iniciada no final da década de 1990, esta listagem continua em atualização constante, seja pela descoberta de nomes não identificados anteriormente entre os povoadores ou, por ser encontrada uma referência topográfica antes não observada.

Com o seguir dos estudos, outras fontes de informação a respeito da ocupação do território onde se formou o arraial do Feijão Cru passaram a ser utilizadas e permanecem no horizonte da pesquisa como, por exemplo, os registros de terras de 1856, inventários, testamentos e processos de divisão de propriedades. Só que, para compreendê-los, é necessário agregar outra fonte que veio comprovar a necessidade de um trabalho multidisciplinar quando se pretende escrever história. Além do conhecimento das já mencionadas mudanças de legislação, é preciso conhecer e compreender as unidades de medida e os instrumentos utilizados nas demarcações ao longo do tempo, o que será assunto do próximo Trem de História.

Quanto à resposta definitiva sobre a existência, em Leopoldina, de sesmaria concedida à pessoa ainda não nascida, continua, por enquanto, um tema em aberto.

Nos próximos textos desta série, serão trazidas informações sobre as antigas propriedades formadas no território que em 1854 constituiu a Villa Leopoldina. Antes, porém, será necessário abordar as unidades de medida e instrumentos de demarcação da época.

O Trem de História faz uma parada para carregar a bagagem da próxima viagem. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 407 no jornal Leopoldinense de 1 de julho de 2020


Fontes consultadas:

[1] REZENDE, Francisco de Paula Ferreira de. Minhas Recordações. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988. p. 347.

[2] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: achegas para a história da zona da mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. p.66

[3] SILVA, Lígia Osorio. Terras Devolutas e Latifúndio: Efeitos da Lei de 1850. Campinas, SP: UNICAMP,1996. p. 45.

[4] MENDONÇA, Nadir Domingues Mendonça. A propriedade rural. In: Anais do VIII Simpósio Nacional de Professores de História, São Paulo, 1976, p. 852.

[5] LIMA, Alcides. História popular do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Barcelos, Bertaso & Cia, 1935.

[6] NOZOE, Nelson. Sesmarias e Apossamento de Terras no Brasil Colônia. Economia, Brasília, v. 7, n. 3, p. 587-605, set-dez 2006

[7] ALVEAL, Carmen Margarida Oliveira. Transformações na legislação sesmarial, processo de demarcação e manutenção de privilégios nas terras das capitanias do norte do Estado do Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 28, nº 56, p. 247-263, julho-dezembro 2015.

153 – Caminhos percorridos pelo homem livre

Conforme prometido no Trem de História anterior, os caminhos percorridos pelo homem livre formam a “bagagem” para a viagem de hoje.

Quando se fala em antigos caminhos é comum se pensar em rios como estradas. Mas é preciso observar que nem sempre estes cursos d’água se prestavam a isto, simplesmente porque muitas das vezes não eram navegáveis.

Na verdade, os caminhantes seguiam os rios, nos dois sentidos, muito mais como forma segura de orientação para avançar pelas matas, já que as águas correntes não retornam ao ponto de onde vieram e porque lhes dava a certeza da direção a seguir no retorno.

Agora, mergulhem num tempo em que a mão humana contava com poucos equipamentos que lhe facilitassem a jornada. Esqueçam o GPS – Global Position System, e se imaginem no meio de uma floresta. Imaginem quantas vezes estas pessoas terão seguido um curso d’água que seria afluente do que acabaram de deixar para trás? Esta era a realidade.

E saiba que estas observações se referem aos primeiros entrantes e não às famílias que viriam mais tarde se estabelecer na Mata Mineira. É lícito supor que os primeiros homens livres que exploraram a região chegaram a pé, por picadas muitas vezes abertas pelos nativos, porque não existiam estradas carroçáveis.

Conforme lembrou Sérgio Buarque de Holanda[1], mesmo para transporte de cargas os cavalos foram “de escasso préstimo, preferindo-se os carros de bois sempre que houvesse estrada capaz”. Embora o autor se referisse aos sertões de São Paulo no século XVIII, a situação na capitania mineira nos primeiros anos do século seguinte não era diferente. Somente quanto da mudança da “família estendida”[2] para o novo endereço, quando já havia caminho que o permitisse, eram utilizados carros de bois para o transporte da carga. E mesmo aí, as pessoas continuavam viajando a pé.

É ainda de Sérgio Buarque a indicação de que, em alguns casos, eram contratados indígenas, mamelucos ou escravos de carga. O que não justifica as histórias contadas de que os fazendeiros possuíam numerosa escravaria, contada às centenas.

Até porque pelo que foi apurado nas contagens populacionais de 1831, 1834 e 1843 do Feijão Cru, a média de escravos por unidade era de 4,45 nos dois primeiros censos e, no terceiro, por terem aumentado as famílias sem escravos, a média diminuiu para 2,91 escravos por fogo[3].

Numa visita à cidade de Descoberto (MG), na década de 1990, foi entrevistado um antigo morador, descendente de militar da tropa que encontrou o então denominado “Descoberto do Rio Novo”. Declarou ele que a tropa saiu do Rio Pomba na Cachoeira Alta, entrando por um riacho que nasce na Serra do Descoberto. Do sopé da Serra eles teriam seguido o córrego Pouso Alegre, afluente do Ribeirão do Descoberto que deságua no Rio Novo. Seu antepassado teria sido designado para ficar de guarda no Arraial do Descoberto.

No Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo[4] de 2014, o pesquisador Geraldo Barroso apresentou uma comunicação sobre rotas a leste do Caminho Novo. Segundo ele, “os tropeiros do lado oriental do Caminho Novo enfrentavam dificuldades em suas viagens e tiveram que abrir novos caminhos que ficaram conhecidos por Caminhos de Dentro”. Um deles, que passa por Cipotânea, segue em direção a Mercês, depois vai aos municípios de Rio Pomba e Rio Novo de onde busca a cidade de Mar de Espanha.

Tropeiros do Caminho de Dentro

O pesquisador apresentou fotos de tropeiros do início do século XX que continuavam a fazer o mesmo trajeto, ressaltando que, apesar de mais tortuoso, desviava da trilha montanhosa e passava por várias localidades onde eles vendiam, compravam e trocavam produtos, reabasteciam e evitavam a exaustão de seus animais.

Os dois relatos indicam percurso que coincide, em parte, com o trajeto da primeira diligência chefiada por Galvão de São Martinho. A diferença básica é que depois de Roça Grande a diligência caminhou e tomou a direção do Terra Corrida, descendo pelo Ribeirão Aventureiro e atingindo o Paraíba do Sul.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Mas a viagem com Pioneiros de Leopoldina continuará na próxima edição do Jornal. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 406 no jornal Leopoldinense de 16 de junho de 2020

Fontes consultadas:

[1] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos do Sertão. In: Revista de História, São Paulo, v. 28 n. 57, pp-59-111, 1964. p.73

[2] O significado mais usual para ‘família estendida’ é grupo composto por pais, filhos, irmãos e outros parentes próximos.

[3] Fogo era o nome dado a cada unidade habitacional que podia ser composta de uma ou mais moradias.

[4] BARROSO, Geraldo. Caminhos de Dentro. In V Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, Juiz de Fora, junho 2014.

152 – As diligências de São Martinho

Quando o militar Pedro Afonso Galvão de São Martinho atendeu à ordem do Governador da Capitania para assumir como chefe a diligência de 1784, é certo que ele estruturou a empreitada valendo-se do conhecimento de outros militares que lhe antecederam na região. Como, por exemplo, Manoel Rodrigues da Costa, um dos primeiros a serem convocados por Cunha Menezes, que já conhecia uma boa parte dos então temíveis Sertões do Leste. Como, também, Tiradentes, que há muito se achava na ocupação de ronda do mato. E, certamente, com a experiência de muitos outros membros da sua diligência.

Pelas cartas trocadas entre os militares e o governador, é possível verificar que no dia 12 de maio de 1784, o grupo estava em São Manoel do Pomba, povoado que se iniciou oficialmente com a missa celebrada pelo Padre Manoel de Jesus Maria em dezembro de 1767. E num tempo relativamente curto, no dia 22 do mesmo mês, conforme registrou em carta Galvão de São Martinho, a diligência já estava nas margens do Rio Paraíba do Sul.

Segundo Falabella[1], nesta primeira entrada o grupo chefiado por São Martinho, após deixar para trás o povoado de São Manoel do Pomba, “marchou para Roça Grande, atravessando o rio Pardo, Serra Feia, Terra Corrida, despontando à margem do Paraíba”.

Registre-se que a mais antiga referência ao topônimo Terra Corrida é do período das diligências ordenadas por Cunha Menezes. O Porto do Cunha, nomeado em homenagem a este governador da Capitania, foi criado entre 22 de maio e 5 de junho de 1784 como se depreende das cartas de Galvão de São Martinho para Cunha Menezes. Já os topônimos Roça Grande e Serra Feia só aparecem a partir das Cartas de Sesmarias concedidas na década de 1810.

Oficialmente as duas diligências, de 1784 e 1786, tinham como objetivo estancar o desvio do ouro pelas então ‘zonas proibidas’, denominação que remete ao fato de que não era permitido ao homem livre se estabelecer nesta região da zona da mata. Embora se saiba, conforme afirma Clélio Erthal [2], que

“depois que São Martinho abriu o caminho da Mata nos sertões de leste, o tráfico ilegal por ali se intensificou bastante, dele participando ostensivamente até militares e civis ligados ao governo de Minas. O cabo José de Deus Lopes e o anspeçada Bernardo dos Reis, das Guardas do Cunha e do Louriçal, por exemplo, mantiveram com os invasores estreitas relações”

Mas é certo que antes da segunda diligência, Cunha Menezes escreveu uma carta na qual procurou divulgar a informação de que permitiria o estabelecimento de quarenta pessoas e duzentos escravos na região trilhada pela tropa, que se estendia desde a cidade de Rio Pomba até o Porto do Cunha.

Paisagem do Porto Velho do Cunha

Se dúvidas existem ainda hoje quanto a serem ou não oficiais essas ocupações, o fato é que na última década do século XVIII foram concedidas algumas sesmarias no início do percurso da diligência e, em 1810, tais concessões já chegavam às margens do Rio Novo. E é certo, também, que alguns dos beneficiários eram parentes dos membros da tropa comandada por Galvão de São Martinho. Entre eles, dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas, beneficiados com quatro sesmarias em 1813. Duas delas em território que mais tarde marcaria a divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo (atual Argirita).

As diligências de 1784 e 1786 contribuíram para a fixação de pontos de passagem que mais tarde serviriam para indicar a localização de terras requeridas em sesmaria. Interessante observar que, através de informações de viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil no início do século XIX, especialmente de Eschwege[3] e Langsdorf[4], foi possível identificar e/ou confirmar alguns pontos do trajeto destas diligências. Porque estes viajantes que estiveram nas Minas colheram informações e passaram pelos mesmos trechos que os militares haviam fiscalizado.

O assunto não esgotou, mas o Trem de História precisa fazer uma parada. Fica a promessa de que na próxima viagem falará sobre os caminhos do homem livre na Mata Mineira. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 405 no jornal Leopoldinense de 30 de maio de 2020

Fontes consultadas:

[1] Castro, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões do leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

[2] ERTHAL, Clélio. Cantagalo: da miragem do ouro ao esplendor do café. Niterói; do autor, 2008, p.46.

[3]ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Jornal do Brasil. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2012

[4] SILVA, Danuzio Gil Bernardino da (org). Os Diários de Langsdorff - 3 volumes. Rio de Janeiro: Fiocruz. 2012

X Seminário da Imigração Italiana em Minas Gerais

A Comissão organizadora do X SEMINÁRIO DA IMIGRAÇÃO ITALIANA EM MINAS GERAIS – que será realizado na modalidade virtual, entre os dias 06 e 10 de Outubro de 2020 – informa que estão abertas as inscrições para a submissão de trabalhos acadêmicos e não acadêmicos, elaborados a partir de pesquisas concluídas ou em andamento, que versem sobre o tema: A Influência Italiana no Desenvolvimento, Cultura e Esportes em Minas Gerais” e as seguintes linhas temáticas .
• O desenvolvimento econômico e social na diversidade regional mineira;
• A formação cultural e identitária em suas manifestações materiais e imateriais;
• A difusão, organização e popularização dos esportes em Minas Gerais.

Prazo para envio de trabalhos: 15 de agosto.
Acesse ao EDITAL: https://bit.ly/3gRMgDw

151 – As decisões do governo Cunha Menezes

Seguindo viagem com os pioneiros, o Trem de História hoje passeia um pouco pelo acontecido antes da ocupação oficial, pelo homem livre, da região que abrange o território que constitui o município de Leopoldina. Um tempo em que todo o leste da província das Minas era extensa “zona proibida”, a mata fechada à ocupação para evitar desvios do ouro.

Ressalte-se de início, que muitos autores se debruçaram sobre o assunto, permitindo que se tornassem mais ou menos conhecidas as estratégias utilizadas no processo de abertura de novas fronteiras agrícolas na Mata Mineira.

Mas no caso particular de Leopoldina, é imperativo conhecer as decisões administrativas do governo da Capitania na segunda metade do século XVIII para compreender o ocorrido. Afinal de contas, foi nesta época que a região hoje conhecida como zona da mata sul foi oficialmente aberta ao povoamento, impulsionada principalmente por decisões do governador Cunha Menezes.

Segundo Xavier da Veiga[1], Luís da Cunha Menezes foi o 9º governador efetivo da Capitania de Minas Gerais e em seu governo “fez toda a sorte de alicantinas[2] e desmandos”. E o mesmo autor ainda registra que foi da época de seu governo o recebimento de dois alvarás bastante incisivos. Um datado de 10.01.1785, ordenando ao Governador de Minas Gerais “atacar contrabandistas em Macacu” (RJ). E o outro, de 26.01.1785, dando ordem “para abolir pela brandura ou por violência” as fábricas, manufaturas etc nesta Capitania.[3] O que dá mostra do nível dos problemas que teve que enfrentar.

Mas, conforme declarou Celso Falabella[4], por mais arbitrário e confuso que tenha sido Luís da Cunha Menezes, que governou a Capitania entre 1783 e 1788, foram dele as ordens para a realização de duas importantes diligências que, de fato, abriram os sertões do leste ao homem livre.

Por outro lado, é necessário fazer um esforço de abstração para abandonar a realidade atual e mergulhar num tempo em que a mão humana contava com poucos equipamentos que lhe facilitassem a jornada por estas terras só conhecidas pelos nativos. Num tempo em que não era fácil sair de um lugar conhecido, com alguma estrutura disponível, e embrenhar-se literalmente na mata em busca de um futuro incerto, como fizeram as pessoas que primeiro entraram na região do Feijão Cru. Pessoas que sonharam com melhores condições de sobrevivência e, movidos pela confiança na própria capacidade de progredir e estimulados por narrativas que sempre chegaram aos mais longínquos rincões, jogaram seus pertences nas costas, em carroças ou carro de bois e saíram caminhando em busca de um hipotético pote de ouro que estaria além do arco-íris. Trilhando por onde os caminhos eram raros; rios navegáveis, poucos; e, informações seguras, quase nenhuma. De real e concreto, restava-lhes apenas a alternativa de seguir a “picada” aberta por tropeiros ou as inúmeras trilhas que os indígenas sempre abriram nas florestas.

E sobre estas trilhas, aqui vale uma observação. A história tradicional costumava incensar alguns personagens, dando-lhes a autoria deste ou daquele caminho. Atualmente, isto já não se faz. Graças a pesquisas cuidadosas, hoje se sabe que vias como o nosso muito conhecido Caminho Novo foram formadas ao longo de centenas de anos em que os naturais da terra, coletores por natureza, se movimentavam em busca da safra disponível nas diferentes épocas do ano. Assim também ocorreu com as vértebras ou, vicinais do Caminho Novo que se ramificaram pela zona da mata. E não só em Minas, como se constata em Sérgio Buarque de Holanda ao declarar[5] que “mesmo antes da colonização europeia, algumas trilhas de índios [não eram] mais do que picadas incultas e intratáveis”.

A história dos Pioneiros de Leopoldina continua, mas por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima edição virão as diligências de Pedro Afonso Galvão de São Martinho e seu grupo. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 404 no jornal Leopoldinense de 15 de maio de 2020

Fontes consultadas:

[1] VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras 1664-1897. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998. p.885.

[2] Antigo termo jurídico, alicantina significa ardil, trapaça.

[3] VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras 1664-1897. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998. p.139.

[4] Castro, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões do leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. p.18-19

[5] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções e Capítulos de expansão paulista. 4. ed. São Paulo: Companhia daLuiz da Cunha fala Letras, 2014. p.44

A origem italiana de Fernando Sabino

“Está disponível no canal IHGMG Virtual mais uma palestra da série Arquivos do IHGMG. Nessa semana, poderemos relembrar e aprender mais com a palestra “Savino: de Ispani para Leopoldina. A origem italiana de Fernando Sabino, da pesquisadora Nilza Cantoni.

Proferida em 18/11/2017, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais-IHGMG, durante o ‘I Seminário Mineiro de Genealogia’, a palestra ‘Savino: de Ispani para Leopoldina.’

149 – A terra e as atividades laborativas

No último dia 12 de abril a Colônia Agrícola da Constança completou os seus 110 anos de fundação. Uma data importante para a imigração italiana em Leopoldina pelo muito que esta Colônia representou para a cidade.

O Trem de História de hoje retroage um pouco e começa contando que, antes de se estabelecer por conta própria, antes de adquirir lote na Colônia ou em algum outro núcleo, o imigrante agricultor que veio para Leopoldina trabalhou em alguma fazenda do município. Isto porque a regra era o fazendeiro contratar o imigrante para cuidar dos cafezais.

É bem verdade que do contrato geralmente constava a permissão para o imigrante cultivar os cereais necessários à alimentação da família, no meio do cafezal. E os depoimentos colhidos mencionam, com certa frequência, exemplos de colonos que iam mais além e faziam com que esta produção de mantimentos suprisse as necessidades próprias e ainda sobrasse uma parte para ser vendida. Muitas das vezes vendida para o próprio fazendeiro.

Com esta prática ocorria que, à remuneração advinda da venda do café colhido, o colono somava esta renda auferida com o excedente da colheita dos outros cereais produzidos entre os pés de café. Somando-se a este valor as eventuais “diárias” por trabalhos extraordinários, o colono tinha uma certa folga e passava a alimentar os sonhos. Isto porque, como já foi dito anteriormente, a família imigrante tinha por objetivo adquirir seu próprio pedaço de terra.

Vale reforçar que o pagamento por aquilo que cultivavam, além dos cafezais, era independente e não era a única renda adicional dos imigrantes. Eles contavam, também, com recebimentos por um sem número de tarefas outras que executavam para o fazendeiro, tais como a feitura de telhas e tijolos, serviços de carpintaria, tarefas como pedreiros, carreteiros, podadores, ferreiros e outros serviços, em geral contratados sob a forma de empreitada, conforme relatos de descendentes.

Somava-se a isto o fato de que o pagamento pelo trato do cafezal não sofria interferências no caso de condições naturais adversas, o que fazia desse ganho a fonte para abastecer as despesas ordinárias, permitindo que praticamente todas as receitas extras se direcionassem para os “colchões” e demais formas utilizadas para guardar o dinheiro que sobrava.

É certo que a grande maioria dos imigrantes amealhou poupança suficiente para a compra da propriedade que almejava, ainda que de início fosse apenas um pequeno lote de terras bastante exauridas pelas lavouras dos seus antigos donos.

Na Colônia Constança estes lotes mediam aproximadamente cinco alqueires ou, 25 hectares de terras. Nas colônias particulares eram geralmente concedidas áreas menores para o colono explorar como desejasse. Mas dois exemplos a seguir comprovam que, por vezes, estas áreas chegavam a ser bem maiores. Um imigrante que viveu em fazenda do distrito de Ribeiro Junqueira adquiriu, depois de alguns anos, o lote onde residia desde que chegara a Leopoldina. Segundo o registro dessa propriedade, ela contava com “4.356 ares ou 9 alqueires e ficava na Fazenda da Piedade”. Do inventário de outro imigrante constou uma propriedade medindo “7.260 ares ou 15 alqueires”.

Quanto ao que se produzia nestas terras, sabe-se, através de Relatório[1] da Colônia Agrícola da Constança, que ali se cultivava “milho, arroz, feijão, hortaliças e arvores fructiferas” e que os lotes eram ocupados pelos compradores e também por “os aggregados por meiação, em virtude de contracto com os ex-proprietários das fazendas”. É possível que nas colônias particulares, ou seja, nas fazendas do município, a produção fosse menos diversificada, dado o interesse dos fazendeiros no plantio quase exclusivo do café. Entretanto, desde 1888 a Inspetoria Geral de Imigração em Minas Gerais se empenhava na “regeneração do trabalho agrícola”, conforme declarou o Inspetor Geral Diogo de Vasconcelos[2]. Isto significava, basicamente, estímulo à diversificação da produção. E como o governo subsidiava a vinda dos imigrantes, os fazendeiros precisavam cumprir suas determinações, entre elas a do plantio de alimentos.

Registre-se que, diversificada ou não a produção, um percentual dela era destinado à liquidação de empréstimos dos colonos, principalmente os relativos à aquisição da terra. Na Colônia Constança o financiamento dos lotes era amortizado pela entrega de 20% da colheita. Já na fazenda onde trabalharam os ancestrais de um declarante, 20% da colheita que faziam na pequena área que lhes era concedida eram entregues ao proprietário a título de pagamento de despesas.

Embora a mecanização da lavoura fosse quase desconhecida na região, é bom lembrar que nas colônias oficiais o estado fornecia algumas máquinas e equipamentos, além de sementes. Já nas colônias particulares, nem sempre os imigrantes podiam contar com tal suporte. Nos depoimentos obtidos foram comuns apenas as menções a carro de bois, carroças, arados e ferramentas menores, algumas trazidas da terra natal. Já os moinhos de fubá e monjolos, geralmente movidos a água, existiam não só na Constança como também em propriedades particulares.

O Trem de História de hoje fica por aqui. Na próxima viagem um novo tema será abordado. Até lá!

[1] Relatório da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização de Minas Gerais, 1909, disponível no Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte.

[2] O Mar de Espanha (Mar de Espanha, MG), 18 nov 1888, ed 141, p.1-2-col.4, 1-2.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 402 no jornal Leopoldinense de 16 de abril de 2020

148 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Trabalho, religião e lazer

Em artigos anteriores do Trem de História já ficou dito que os imigrantes italianos eram afeitos e dedicados ao trabalho. E as entrevistas realizadas com muitos deles permitiram observar, inclusive, uma boa divisão de tarefas, comum na maioria dos lotes.

Eram reservados aos homens principalmente os trabalhos mais pesados e os mais distantes da casa, tais como: a derrubada de árvores para o aproveitamento da madeira, o destocar as áreas a serem cultivadas e o preparo dos brejos e alagados para o plantio do arroz. Aos homens também estavam reservados os trabalhos de confecção de móveis e utensílios e a construção de casas, fazendo surgir no município a oferta de excelentes profissionais marceneiros, carpinteiros, “carapinas”, serradores (hábeis no manejo do golpeão, ou “gurpião”), pedreiros e mestres de obras.

Um dos entrevistados informou que seu avô era um bom artesão em latoaria, fazendo tachas e demais utensílios de uso cotidiano.

Mas se cabia aos homens todas essas tarefas, às mulheres competiam os muitos afazeres da casa e do terreiro, além de cuidar dos filhos. Bordavam pouco, costuravam o necessário para atender a toda a família e cozinhavam muito e, via de regra, bem. Além da cozinha e do cuidado com a casa, eram ainda responsáveis pela horta, jardim, galinheiro, chiqueiro, limpeza do terreiro (em geral com enormes vassouras de ramos ou de galhadas de bambu) e pelo ‘retiro’, ou seja, pela ordenha das vacas. Isto sem falar nos muitos casos de mulheres que dividiam, em igualdade de condições com os seus maridos e filhos, todas as tarefas que surgiam na propriedade.

Cumpridas as rotinas de trabalho e muitas vezes até mesmo durante estas, os imigrantes italianos demonstravam sua religiosidade. Confirmavam que muitos deles trouxeram da Itália uma forte influência religiosa cristã.

E na Colônia Agrícola da Constança este fato materializou-se de forma muito clara quando, dois anos após a criação da Colônia, um grupo de oriundi se organizou para a aquisição do terreno para construção de uma Capela em honra de Santo Antônio de Pádua ou, Padova. Que três anos mais tarde, em 1915, estava concluída, principalmente pelas mãos desses imigrantes, aquela que ainda hoje é mais conhecida pelo carinhoso apelido de “Igrejinha da Onça”.

E além da religiosidade propriamente dita, comum também em outros núcleos de imigrantes italianos formados em fazendas dos distritos de Piacatuba, Providência, Tebas e Ribeiro Junqueira, onde se reuniam frequentemente nas igrejas ou capelas próximas, esta Capela de Santo Antônio, em especial, muito representou na vida dos imigrantes que se instalaram na Colônia Agrícola da Constança e redondezas. Principalmente porque era em torno dela que se realizavam quase todas as festividades das quais participavam esses imigrantes. Era ali que eles se divertiam nas festas religiosas e nos encontros com parentes, vizinhos e conterrâneos. Era ali que participavam da festa do padroeiro, “a Festa de Santo Antônio” também conhecida como a “Festa da Onça” e de eventuais casamentos e batizados.

Aqui vale um comentário sobre um tema que vez por outra ressurge.

Frequentemente encontram-se referências a valores que os imigrantes remetiam para a Itália. E existem diferentes publicações que mencionam os diversos motivos por trás dessas remessas que os imigrantes faziam: desde o pagamento de um empréstimo obtido com a própria família, passando pela promessa que fizeram de continuar ajudando-os, até as doações para a paróquia na qual nasceram.

Em Leopoldina podem ser citados, a título de exemplo, dois casos de colonos da Fazenda Paraíso, que fizeram uma pequena remessa[1] para a Itália alguns meses antes do destinatário vir para o Brasil, o que leva a crer ter sido uma ajuda para a viagem.

Mas outras hipóteses de motivação para estas transferências podem ter existido. Provavelmente a “tenacidade com que os emigrados permanecem ligados às tradições italianas”, citada por Ianni[2] em Relatório de um parlamentar em 1911, tenha sido praticada aqui através das festas religiosas. E é possível, por exemplo, que a devoção dos emigrados tenha se transferido para o padroeiro local, como parece indicar a compra do terreno e a construção da Igreja de Santo Antonio de Pádua, do bairro da Onça.

Passados os compromissos com o trabalho e a religião surgia, então, o tempo para o lazer. E o pouco lazer que tinham, além dos encontros familiares e dos festejos religiosos, se limitava aos jogos de malha, esporte no qual até a bem pouco tempo Leopoldina se destacou; o futebol, praticado nos terreiros e nas várzeas onde se demarcavam campos; e, às chamadas mesas de carteados, montadas nas “vendas” ou, na casa de amigos.

Alguns apreciavam as caçadas ao tatu e à paca, geralmente realizadas nas noites de lua cheia, assim como a apreensão de passarinhos como o canário da terra, o coleiro, o pintassilgo, o melro e o curió, apreciados pela beleza da plumagem e pelo canto.

Quanto ao futebol, há notícias de equipes formadas em diversos núcleos que vez por outra disputavam torneios entre elas. Na Colônia Constança, durante muito tempo existiu o time de futebol denominado Boa Sorte Futebol Clube, que chegou a disputar campeonatos amadores na cidade. Durante muitos anos o Boa Sorte foi mantido e comandado por João Bonin. E ainda hoje seus herdeiros, muitos dos quais ex-jogadores do time, ainda preservam os troféus e objetos do Clube.

O Trem de História precisa fazer mais uma pausa. Até a próxima edição!

Em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 401 no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2020


Fontes Consultadas:

[1] Comprovantes do Banco Comercial do Porto incluídos na Coleção Kenneth Light, disponível no Arquivo Histórico do Museu Imperial, Petrópolis, RJ. Tombos 1920/97 e 1921/97.

[2] IANNI, Constantino. Homens Sem Paz. São Paulo: Civilização Brasileira, 1972. p. 127.

150 – A ocupação do território que constitui o município

Há quase três anos os autores do Trem de História publicaram o resultado de um estudo sob o título “200 anos do Registro Civil do Feijão Cru”[1] para marcar o aniversário de batismo do curso d’água que deu nome ao arraial mais tarde emancipado com o nome de Villa Leopoldina. Naquele outubro de 2017, o tema foi a concessão de duas sesmarias em cujas cartas, datadas de 13 e 14 de outubro de 1817, pela primeira vez foi mencionado o nome “Córrego do Feijão Cru”, mais tarde renomeado como Ribeirão do Feijão Cru.

Hoje o Trem de História retoma o assunto para que, nesta edição do jornal Leopoldinense em que se comemoram os 166 anos de emancipação administrativa, possam os autores tratar de um tema que lhes é muito caro: a ocupação do território que constitui o município de Leopoldina, nas terras do antigo Feijão Cru. E com este retorno ao tema, dar início a uma nova série de artigos sobre “Os pioneiros de Leopoldina”.

A pesquisa

Como se sabe, uma pesquisa sempre começa por uma questão que desperta o interesse e a curiosidade do pesquisador. No caso em pauta, melhor expressá-la em três ou quatro perguntas. Por onde chegaram os homens livres que ocuparam as terras indígenas neste sertão? Quando começaram a chegar? Onde se estabeleceram? Do quê se ocupavam?

Foi a partir de uma leitura mais atenta da história tradicional, na década de 1960, que os autores começaram a buscar respostas para estas questões. No início, de forma desorganizada. Mas ao longo do tempo o projeto de pesquisa foi esboçado em bases mais sólidas e as buscas começaram a dar frutos.

Um destes frutos decorreu de leituras despertadas pelo capítulo 4 do livro “Os Sertões do Leste”, de Celso Falabella publicado em 1987.

Tratando da ‘segunda diligência’ empreendida por Pedro Afonso Galvão de São Martinho, o autor cita trecho de uma carta do então Governador da Capitania de Minas, Luiz da Cunha Menezes, que se tornou conhecido pela alcunha de “Fanfarrão Minézio” como a ele se referiu o poeta Tomás Antonio Gonzaga na famosa obra “Cartas Chilenas”.

Vale relembrar que em 1784 e 1786 foram realizadas duas diligências com o objetivo de estancar o desvio do ouro pelas então mencionadas ‘zonas proibidas’, denominação que remete ao fato de que não era permitido ao homem livre se estabelecer nesta região da zona da mata. Ambas comandadas por Galvão de São Martinho e, entre seus membros, figurava o militar Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

As concessões de sesmarias

Antes da segunda diligência, Cunha Menezes escreveu a carta a Galvão de São Martinho na qual procurou divulgar a informação de que permitiria o estabelecimento de quarenta pessoas e duzentos escravos na região trilhada pela tropa, e que se estendia desde a cidade de Rio Pomba até o Porto do Cunha, registro criado em 1784.

Oficializada ou não a disposição escrita pelo Governador, o fato é que na última década do século XVIII foram concedidas algumas sesmarias no início do percurso e em 1810 tais concessões já chegavam às margens do Rio Novo. Alguns dos beneficiários eram parentes dos membros da tropa comandada por Galvão de São Martinho. Entre eles, dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas foram beneficiados com quatro sesmarias concedidas em novembro de 1813. Duas delas, concedidas a Felisberto da Silva Gonçalves e sua esposa Ana Bernarda da Silveira, estão na origem da Fazenda do Glória em território que mais tarde marcaria a divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo.

Registre-se que o Córrego do Glória, cuja denominação inicial se perdeu na história, margeava o Monte Redondo, conforme referência de 1842 na folha 27 do primeiro livro do Cartório de Notas de Bom Jesus do Rio Pardo.

Mas não só os parentes de Tiradentes se estabeleceram por aqui. Também os de Pedro Afonso Galvão de São Martinho foram beneficiados com sesmarias ao longo do percurso daquelas diligências. Segundo Francisco de Paula Ferreira de Rezende, citado como exagero por Celso Falabella[2], os Monteiro de Barros teriam requerido sesmarias até para uma filha que ainda não nascera[3].

Do que foi até agora possível apurar, as sesmarias concedidas aos Monteiro de Barros, descendentes de Galvão de São Martinho, tiveram suas cartas datadas entre março e maio de 1818.

A última sesmaria concedida em território que comprovadamente fez parte do Distrito do Feijão Cru foi concedida em setembro de 1821.

Efetiva ocupação das terras

Estas terras foram concedidas, mas a ocupação nem sempre ocorreu na mesma data. Foi esta a conclusão a que se chegou na comparação entre as datas das Cartas de Sesmaria, os denominados Mapas de Habitantes e os poucos registros paroquiais das duas primeiras décadas do século XIX que já foram identificados.

De um lado, observou-se que Felisberto da Silva Gonçalves, sobrinho de Tiradentes, juntamente com a esposa, parece ter se estabelecido no Monte Redondo quase dez anos antes de fazer o requerimento que resultou na concessão das duas sesmarias ao casal. No outro extremo, as sesmarias concedidas aos Monteiro de Barros em 1818 não estavam ocupadas até 1831, quando foi feita a contagem dos habitantes do território.

Já as sesmarias doadas aos sogros de Bernardo José Gonçalves Montes em março de 1818 teriam sido ocupadas por ele em 1822.

Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda receberam sesmarias em 1817 e, ao que parece, não residiram nestas terras. Encarregaram o sobrinho Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda de vendê-las. E consta que ele só se estabeleceu em terras do Feijão Cru em 1828, como agregado na propriedade de seu sogro Joaquim Ferreira Brito, a quem havia vendido parte de uma das ditas sesmarias doadas a seus tios.

Uma correção da história

Neste ponto um registro importante se faz necessário repetir para que se corrija um desvio da história de Leopoldina.

Conforme já foi dito em outros textos desta coluna Trem de História, Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda, inúmeras vezes citado pela história tradicional como fundador de Leopoldina, não o foi. Também não foi o primeiro a chegar às terras do Feijão Cru, como se vê acima. E nem estava mais aqui quando o arraial se tornou o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru. Em verdade ele foi, tão somente, o emissário de seus tios, Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda, na venda das terras que eles ganharam[4] em 1817. E, tão logo concluiu essa venda, seguiu o curso do Rio Pomba e se estabeleceu próximo à foz no Paraíba do Sul, onde veio a falecer[5] antes mesmo do Curato do Feijão Cru ter seus limites territoriais estabelecidos.

Mapa de Habitantes

Após identificar o período em que foram concedidas sesmarias do Termo de Barbacena que viriam a formar o território do Arraial do Feijão Cru, o passo seguinte foi analisar os moradores que aqui estavam em 1831, conforme apurado no Mapa de Habitantes daquele ano.

Naquela época, os mapas eram uma espécie de recenseamento que tinha como um dos objetivos a arrecadação de tributos.

Ressalte-se que só eram computados os moradores livres e seus cativos, sem qualquer registro ou notícia dos naturais da terra.

Outro objetivo da contagem populacional era demonstrar ao poder central que a localidade já atingira o número suficiente de habitantes para ser alçada ao patamar de comunidade organizada, ou seja, em condição de se tornar distrito.

O distrito do Feijão Cru

Naquele ano de 1831, o distrito do Feijão Cru ainda não existia e os primeiros moradores daqui passaram a compor o distrito então criado: São José do Paraíba, que deu origem ao atual município de Além Paraíba.

A cronologia documentada diz que em meados da década de 1820, a área onde está o atual município de Leopoldina deixou de fazer parte do Termo de Barbacena.

Em 1829 a capela de São João Nepomuceno, à qual o Feijão Cru pertencia, era filial da Freguesia do Mártir de São Manoel, que se tornou[6] a Vila de São Manuel do Pomba em 1831.

Sinval Santiago[7] registra que o Decreto Imperial de 11 de setembro de 1830, que autorizava as Câmaras Municipais a criar distritos e eleger seus Juízes de Paz, vigorou até 1834 e sob ele o Distrito do Feijão Cru teria sido criado.

Entretanto, a mais antiga referência ao Distrito do Feijão Cru é posterior à Carta de Lei de 12 de agosto de 1834 que transferiu para a presidência da província a prerrogativa da criação de distritos. Mais especificamente, o Distrito do Feijão Cru teria sido criado após 29 de novembro de 1835, quando Manoel Ferreira Brito assinou[8] o “mapa dos indivíduos” moradores no “Novo Curato de São Sebastião do Feijão Cru”.

Por outro lado, o mais antigo documento oficial a citar a denominação Distrito de São Sebastião do Feijão Cru foi assinado[9] por João Ferreira da Silva a 7 de setembro de 1838. Este documento encapava uma lista de habitantes distribuídos em 135 fogos[10], número superior ao mínimo necessário para criação de um distrito.

Reafirma-se, portanto, que o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru foi criado entre novembro de 1835 e setembro de 1838.

O distrito fazia divisa com a Aldeia da Pedra (Itaocara) ao norte, distante 10 léguas; ao sul com o Espírito Santo (Guarará), distante 6 léguas; com São José do Paraíba (Além Paraíba) a 4 léguas e com Santa Rita do Meia Pataca (Cataguases) a 3 léguas.

Conclusão

Como se vê, a história de Leopoldina começou a ser desenhada no alvorecer do século XIX. Ao final da década de 1830 foi criado o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru que foi emancipado[11] como Vila Leopoldina em abril de 1854.

Naquela primeira metade do século o homem livre chegou, ocupou as margens de córregos, ribeirões e rios, e formou fazendas que no final da década de 1850 entraram num novo patamar: as lavouras de milho foram substituídas pelas de café.

No final dos anos de 1800, ao lado da ocupação territorial, o emprego da mão de obra disponível na época gerou a necessidade de se recorrer à imigração, um dos temas que ocupou muitos vagões e viagens do Trem de História.

E assim, cada nova fonte trazia uma surpresa e despertava novas questões.

Questões como, por exemplo, a descoberta recente de que, entre as bacias do Rio Pardo e do Ribeirão do Feijão Cru, existiu um curso d’água com águas vertentes do Quilombo, denominação assumida por uma propriedade rural assim identificada em 1862. Um tema que, considerando que o termo ‘quilombo’ remete a um local de moradia e esconderijo de pessoas escravizadas que teriam fugido da servidão, pode ser indício de que ali tenha habitado algum grupo de resistência.

Questões que deixam a certeza de que há, ainda, muita história a ser contada. Muitas questões em aberto. E a certeza de que Leopoldina merece ter seu passado conhecido e preservado. Leopoldina merece cultivar a Lenda do Feijão Cru, sabendo que é lenda, mas conhecendo a sua história.

No próximo Jornal o Trem de História seguirá viagem, a partir de agora, percorrendo as sesmarias que se transformaram em propriedades ocupadas pelos pioneiros de Leopoldina. Até lá!

Fontes Consultadas:

[1] CANTONI, Nilza e MACHADO, Luja. 200 Anos do Registro Civil do Feijão Cru. Disponível em <https://www.academia.edu/34989583/200_ANOS_DO_REGISTRO_CIVIL_DO_FEIJ%C3%83O_CRU>

[2] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: Achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987, p.70.

[3] REZENDE, Francisco de Paula. Minhas Recordaões. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1944, p.369.

[4] Arquivo Público Mineiro, Secretaria de Governo da Capitania, seção Colonial. SC-363 fls 190v e 192v.

[5] Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – COARPE – TJMG. Inventario in vitae dos sogros, processo 38404416 fls 4 img 7

[6] Decreto Imperial de 13 de outubro de 1831

[7] SANTIAGO, Sinval. Município de Rio Pomba - Síntese Histórica. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991. p.480-481

[8] Arquivo Público Mineiro. Mapa da População do Feijão Cru CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba fl.1

[9] Arquivo Público Mineiro. Ofício ao Presidente da Província de Minas. CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba fl.23

[10] Fogos eram unidades habitacionais que poderiam ser compostas por uma ou mais casas de moradia.

[11] Lei Mineira nº 66 de 27 de abril de 1854.


Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 403 no jornal Leopoldinense de 30 de abril de 2020