62 – Como e porquê os restos mortais do poeta permanecem em Leopoldina

O personagem de hoje é conhecido de todos e se faz presente para que não fique esquecida a sua data de morte há 102 anos e o Jubileu de Prata do Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos era filho de Córdula de Carvalho e de Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho, o pernambucano que perambulou pelo nordeste como promotor público em Granja (CE), Aracahú (Aracati?) (CE), em Atalaya (AL), Pedra de Fogo (PB) e, como Juiz Municipal em Ipú (CE).

Um menino que nasceu a 20 de abril de 1884 no Engenho do Pau D’Arco, no interior da Paraíba e foi batizado no dia 27 de fevereiro de 1885 na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu, PB, na zona canavieira do vale do Rio Una.

Um homem que se casou em João Pessoa (PB) e um dia abandonou o nordeste para fixar residência no Rio de Janeiro (RJ), onde trabalhou o quanto e no que pode para sustentar a si e aos seus.

Augusto dos Anjos, que estudou em Recife e tendo muitas outras cidades como referência, um dia foi indicado para dirigir uma escola no final de um ramal ferroviário no interior de Minas Gerais. Juntou a família e embarcou nesse Trem. Nesta nova terra continuou fazendo versos que ainda hoje encantam e granjeou admiradores que lhe teceram elogios mil.

Moacyr Carneiro[1] afirma em entrevista que Augusto, ao ser indagado sobre sua poesia ser triste, respondeu:

“Meu filho, o meu poema vem como o meu espírito o dita. É isto. O mundo, meu caro aluno, é o pior lugar do mundo. A desilusão ocorre em todos os níveis. Eu já nasci desiludido de tudo e de todos.”

Augusto dos Anjos criou discípulos, angariou amigos e construiu uma bela História de amor à terra que adotou. A doença lhe corroeu as entranhas e lhe tirou a vida ainda jovem, mas ele desejou permanecer na terra que o acolheu. Augusto dos Anjos faleceu em Leopoldina (MG) no dia 12 de novembro de 1914.

Na previsão emocionada de José Oiticica, segundo Fausto Cunha[2], a morte de Augusto dos Anjos só se comparava à morte prematura de Castro Alves: “Poucos o compreenderão hoje […] No futuro será, sem possível dúvida, o mais assinalado poeta brasileiro de seu tempo.”

Júlio Ferreira Caboclo foi um grande divulgador e incentivador do culto à obra do poeta em aulas e matérias publicadas. E de tal modo o fez, que se tornou uma figura indissociável da trajetória de Augusto dos Anjos entre a juventude leopoldinense. Os textos que produziu sobre o “rapaz de cérebro de ouro”[3] o confirmam.

Além disto, no dia 25 de junho de 1925, Júlio ajudou a fundar o Grêmio Lítero-Artístico Augusto dos Anjos[4], do qual foi o primeiro presidente. E foi com o apoio dele que, para comemorar o décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, em 1926, o Grêmio promoveu uma romaria ao túmulo e uma sessão solene que incluiu a denominada Missa de Arte, na qual falaram vários oradores.

Passado algum tempo começaram a surgir movimentos com o objetivo de levar os restos mortais de Augusto dos Anjos de volta à Paraíba. No final da década de 1940 estava sendo idealizada a construção, em João Pessoa, de um monumento a Augusto dos Anjos. Entre as diversas notícias a respeito, uma delas, de 1947, acrescentava[5] que os restos mortais do poeta seriam trasladados de Minas Gerais para a capital paraibana. No ano seguinte o mesmo periódico[6] informava que os jornalistas do estado natal de Augusto dos Anjos estavam “trabalhando junto ao governo para fazer a trasladação das cinzas do poeta” de Leopoldina para João Pessoa. Por outro lado, um jornalista recifense declarou que “os descendentes de Augusto dos Anjos nunca se mostraram desejosos das trasladações”.

Nesta época circularam rumores a respeito do túmulo do poeta em Leopoldina e em 1952 Henrique Gonzalez ressaltou[7] que os leopoldinenses ignoravam ter hospedado “um dos maiores poetas brasileiros” e ilustrou sua matéria com uma foto “do tosco túmulo cento e quarenta e nove”.

Gonzalez não estava totalmente enganado porque, a despeito de Julio Caboclo e Barroso Júnior terem publicado na imprensa do Rio de Janeiro vários artigos sobre Augusto dos Anjos, havia algum desconhecimento por parte dos moradores da cidade. Fato que se observou ao entrevistar pessoas que estudaram no Grupo Escolar Ribeiro Junqueira em meados da década de 1930, quais quais pouco sabiam sobre o poeta que foi diretor daquela instituição e acreditavam que o túmulo estaria vazio, que os ossos teriam sido levados embora.

Mas o poeta não estava esquecido! Esforços variados resultaram na construção do Mausoléu de Augusto dos Anjos, inaugurado no dia 11 de janeiro de 1964 quando a cidade recebeu[8] a então denominada Caravana da Cultura, patrocinada pela Rádio MEC, composta pela Diretora da Rádio, pelo Ministro da Educação Pascoal Carlos Magno e pelo escritor Francisco Assis Barbosa, biógrafo do poeta, e com a presença dos filhos de Augusto dos Anjos.

Entretanto, a intenção de trasladar os restos mortais voltou a ser divulgada mais tarde, resultando na atitude dos dois filhos do poeta, Glória e Guilherme, de registrarem no Cartório do 15º Ofício de Notas da rua da Assembleia, 36, Rio de Janeiro, RJ, no dia 15 de setembro de 1977, uma declaração tornando público o “propósito irrevogável de não consentirmos sejam trasladadas do cemitério dessa cidade [de Leopoldina] as cinzas de nosso glorioso pai, que ali jazem, sob o túmulo nº 149 desde o ano de 1914”.

O documento foi encaminhado para registro pelo Oficial do Registro de Títulos e Documentos da Comarca de Leopoldina, Mauro de Almeida Pereira, que o transcreveu no Livro de Registro Integral de Títulos e Documentos nº B-4, fls 598 a 599, número de ordem 2438. Na mensagem, os filhos do poeta declaram

“plena convicção de estarmos cumprindo fielmente recomendação deixada, a tal respeito, por nossa inesquecível genitora, Esther Fialho Rodrigues dos Anjos” e que transmitiriam a orientação “aos netos e bisnetos de Augusto dos Anjos, ao abrigo do que dispõe o Código Civil Brasileiro em matéria de Direito de Família […] no sentido de que permaneçam, no Campo Santo de Leopoldina, MG, os restos mortais do referido vate. [e reiteram] ao povo leopoldinense o profundo sentimento de gratidão pela veneração, pura e sincera, sempre devotada à memória de Augusto dos Anjos a quem nos derradeiros meses de sua vida, jamais deixou de dar inequívocas provas de solidariedade, que se estenderam, após a sua morte, à viúva e aos seus dois filhos, ao longo de muitos anos [tendo recebido] expressões de estima e decisivo apoio moral em momentos difíceis”.

Segundo Orlandino Rocha[9] em matéria publicada em 1980, o mausoléu de Augusto dos Anjos, no cemitério de Leopoldina, “já se converteu, inclusive, em atração turística. Ir a Leopoldina e não visitar o túmulo de Augusto é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa”.

De resto, conferindo a bagagem do viajante deste Trem de História se constata que Augusto dos Anjos teria deixado João Pessoa aborrecido com fato ocorrido em sua vida profissional naquela cidade. Rumou para o Rio de Janeiro em busca de melhores dias, mas não obteve o sucesso esperado. Recebeu um convite para vir para Leopoldina e aqui encontrou emprego, carinho, vida social e cultural. Fez amigos e deixou saudades, material suficiente para a sua permanência entre nós. Até hoje seu nome e obra merecem o respeito de todos os leopoldinenses. A cidade o homenageia com o Museu Espaço dos Anjos, na casa onde viveu seus últimos dias, e com a Escola Estadual Augusto dos Anjos. A Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA o escolheu como patrono. E este ano, realiza-se o 25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos, criado em 1992 pela equipe da Biblioteca Municipal Luiz Eugênio Botelho capitaneada pela professora Maria Helena Vieira.

Ele se disse “aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do caminho, a poesia de tudo quanto é morto[10]”. Mas está, em Leopoldina, rodeado de admiradores.


Fontes Utilizadas:

MACHADO, Luja e CANTONI, Nilza. Augusto dos Anjos visto por alguns biógrafos e pensadores. Ensaio. Leopoldina, 2014, 37f, Centenário de Morte de Augusto dos Anjos.

[1] Gazeta de Leopoldina, 30 nov 1979, p. 6

[2] Jornal do Brasil, 20 abr 1974, Caderno Livro, p.2

[3] Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro, 30 out 1926, seção Caixilhos

[4] Revista Brasil Progresso, Rio de Janeiro, setembro 1925

[5] Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, agosto 1947, ed 148 p. 37

[6] Idem, abril 1948, ed 156, p. 37

[7] O Malhor, Rio de Janeiro, julho 1952, ed 150 p. 18

[8] A Noite, Rio de Janeiro, 10 jan 1964, ed 17513 p. 8

[9] O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 15 jan 1980, ed 10 p. 71

[10] ANJOS, Augusto dos. O Poeta do Hediondo. In: Eu e Outras Poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p 65

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 01 de novembro de 2016

 

XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos

Estão abertas as inscrições para o 25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos. As inscrições estarão abertas até 2 de setembro de 2016 e a Cerimônia de Premiação será realizada no dia 11 de novembro de 2016, no Museu Espaço dos Anjos, em Leopoldina, MG.

O Edital encontra-se disponível neste endereço

A Ficha de Inscrição deve ser preenchida aqui.

53 – Barroso Júnior: o Cidadão

O Trem de História vez por outra circula, desde o início da sua viagem, por ramais diversos. Percorreu a Imprensa Leopoldinense do fim do século XX. Numa linha diferente, passou pelo Centenário do poeta Augusto dos Anjos e por lá encontrou o professor Júlio Caboclo.

Trouxe para os dias atuais a vida dos Expedicionários Leopoldinenses, numa justa homenagem pelos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Em seguida retornou ao assunto inicial para fechar aquele ciclo de pesquisa sobre os periódicos de 1879 a 1899.

Partiu, então, em busca de outros personagens que fizeram a história da cidade, alguns deles verdadeiros “ilustres desconhecidos”, relegados ao esquecimento muitas das vezes por questões políticas ou, por terem sido vítimas de imaginária “chave de desvio de trilhos” que os obrigou a percorrer caminho distante dos holofotes das suas épocas.

Por vezes pessoas simples, mas que deixaram marcas e contribuições que os tornaram merecedores de destaque na sociedade ou, proles avantajadas que se multiplicaram em progressão e se entrelaçaram com outros núcleos familiares para formar o povo leopoldinense.

É por esta linha que o Trem de História transitou nos últimos seis artigos falando do primeiro historiador da cidade, Joaquim Antonio de Almeida Gama, e segue agora com Barroso Júnior, o autor que possibilitou a descoberta do nome de Joaquim Antonio.

Barroso Júnior, o cidadão

João Barroso Pereira Junior, o Barrosinho, segundo Mário de Freitas(1) ou, Barroso Júnior como assinava suas obras, nasceu no dia 05.02.1903, em Queluz, SP(2). Era filho do português, João Barrozo Pereira e de Carolina Barrozo Pereira, natural de Vassouras, RJ(3).  Neto paterno de Antonio Barrozo Pereira e Maria Affonso Pereira e, materno, de Joaquim José Teixeira Filho e Ephigênia Bernarda Teixeira, conforme sua certidão de nascimento. Segundo consta, teria estudado em Lavrinhas, então município de Lorena, SP. Alistou-se em 1924 no município de Queluz, SP(4).

No ano seguinte ele já apareceu em Leopoldina como um dos sócios fundadores do Grêmio Lítero-Artístico Augusto dos Anjos, fundado (5) em 25.06.1925, ocupando os cargos de 2º Orador e 2º Secretário.

Barroso Júnior era professor. Durante bom tempo foi funcionário público e por um curto período, empresário, proprietário de um colégio em Visconde do Rio Branco, MG. Sobre esta empreitada José Barroso Junqueira(6), acadêmico da ALLA e sobrinho de Barroso Junior, conta que trabalhou nesse colégio no começo da década de 40 quando o tio adquiriu o Ginásio Rio Branco que, “na oportunidade, lutava com dificuldades para sobreviver, em se tratando de iniciativa particular”.

O vagão completou a carga de hoje. Na próxima viagem ele trará mais informações sobre Barroso Júnior. Até lá.


Fontes consultadas:

(1) FREITAS, Mário de. Leopoldina do Meu Tempo. Belo Horizonte: Página, 1985. p 244.

(2) Histórico de Cidades pelo IBGE. Disponível em: <http://zip.net/bqs8CM >. Acesso 27 jun. 15

(3) Certidão matrícula 122622 01 55 1903 1 00006 196 0000411 72.

(4) Certificado de reservista nº 926442, de 3ª categoria, 2ª Região Militar, 4ª C. R., São Paulo, 28 dez 1944.

(5) Brasil Progresso. Rio de Janeiro: L.A. Babo Júnior, 1925, set nr 9 pag 3.

(6) Discurso de posse na Academia Leopoldinense de Letras e Artes, em maio de 2009, sobre seu patrono.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 22 de julho de 2016

Cemitério Nossa Senhora do Carmo

Lápide do túmulo do Padre José Maria Solleiro, nascido em 1811 e falecido em 1891.

Inaugurado em agosto de 1880, então com o nome de Cemitério Público da Leopoldina, o atual campo santo da cidade é seguramente o segundo mas pode ter sido o terceiro local escolhido para a morada eterna dos habitantes da cidade.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo

 

 

Por suas alamedas, especialmente no primeiro plano, podemos observar o resultado da obra de tantos artistas, vários deles italianos e seus filhos, que durante muitos anos se dedicaram a construir e reformar os túmulos das famílias de maior poder aquisitivo.

 

Passou a se chamar Cemitério Nossa Senhora do Carmo a partir da lei municipal nº 96, de 18.02.1950.

O túmulo mais famoso é o de Augusto dos Anjos, o poeta paraibano falecido em Leopoldina em 1914.

Augusto dos Anjos por Júlio Caboclo

O Trem de História continua nos trilhos das Homenagens pelo Centenário da Morte de Augusto dos Anjos. Hoje, trazendo no vagão mais um pouco da história e a visão de um dos maiores divulgadores e grande incentivador do culto à obra do poeta paraibano: o professor e poeta Júlio Ferreira Caboclo, em suas aulas no Ginásio Leopoldinense e nas matérias publicadas em diversos jornais e revistas.

De início é bom lembrar que a história de Júlio Caboclo como professor, embora ainda incompleta, parece ter tido início quando desembarcou no Rio de Janeiro, com aproximadamente vinte anos em busca de “uma colocação”, conforme declarou à Polícia Política de Minas Gerais anos mais tarde.

Ainda conforme declarado à Polícia, poucos meses depois conseguiu emprego de professor no Colégio Ítalo-Brasileiro, de Santo Antônio de Pádua, RJ e por volta de 1922 passou a lecionar no então Ginásio Leopoldinense.

E em Leopoldina Júlio Caboclo passou a estimular o culto à obra e à pessoa de Augusto dos Anjos. De tal modo o fez, que se tornou uma figura indissociável da trajetória de Augusto dos Anjos entre a juventude leopoldinense. Os textos que produziu sobre o “rapaz de cérebro de ouro” conforme escreveu na seção Caixilhos, da Fon-Fon de 30 de outubro de 1926, o confirmam.

Além disto, no ano anterior, mais precisamente no dia 25 de junho de 1925, foi Júlio quem ajudou a fundar o Grêmio Lítero-Artístico Augusto dos Anjos, segundo a Revista Brasil Progresso, do Rio de Janeiro, edição de setembro 1925, do qual foi o primeiro presidente. E foi com o apoio dele que, para comemorar o décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, em 1926, o Grêmio promoveu uma romaria ao túmulo e uma sessão solene que incluiu a denominada Missa de Arte, na qual falaram vários oradores, entre os quais Erymá Carneiro (então acadêmico de Direito), Gerardo Majella Bijos, Antônio Pedro Braga, Francisco Eufrosino dos Santos e outros estudantes do Curso de Farmácia do Ginásio Leopoldinense.

Vale recordar que, naquela época, algumas pessoas do grupo acima citado lançaram a ideia de transferir as cinzas de Augusto dos Anjos para a sua terra natal, na Paraíba. Mas esta ideia não recebeu apoio da maioria, ficando sem efeito a proposta de buscar ajuda política para realizar o intento. Tal atitude, entretanto, parece ter sido estimulante no sentido de fazer nascer entre os leopoldinenses um maior apreço pelo poeta que tão pouco tempo viveu na cidade, mas que se tornou parte integrante da nossa história.

Fato curioso é que a notícia sobre as homenagens pelo décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, que saiu no jornal O Brasil, de 17 de outubro de 1926, traz alguma semelhança com os diversos eventos que foram realizados em vários novembros desde que o poeta passou para outra esfera. A própria celebração de missa com acompanhamento de cânticos sacros, organizada em 1926, tendo à frente Júlio Caboclo, foi uma ideia que se tentou reviver com a Missa em Latim deste ano do centenário de morte.

Antes, em 1924, em homenagem ao décimo ano de falecimento, segundo o periódico O Brasil, do Rio de Janeiro, edição de 22 de novembro de 1924, Júlio Ferreira Caboclo fizera publicar um texto que permanece desconhecido por especialistas da atualidade em função de ter saído com um erro de impressão no nome do autor, corrigido em nota da edição seguinte, onde afirmava:

“Augusto dos Anjos pertencia ao número dessas naturezas singulares cuja imperfeição procede de uma posse incompleta de si mesmas, mas pela razão de que nelas essa posse se torna mais difícil e tardia dos que nos casos mais comuns. Elas são o inédito propriamente dito; para se revelarem passam por todas as torturas e incertezas, todos os erros e descaminhos dos que vêm para descobrir um novo mundo.”

Palavras que nos trazem um pouco da dimensão que o poeta do EU deixou em Júlio Ferreira Caboclo que, por sua vez, impressionou não só os alunos em quem estimulou o culto da obra de Augusto dos Anjos como a nós, que quase cem anos depois nos debruçamos sobre os textos que escreveu e nos sentimos como Miguel Torga tão bem expressou: “Embora de carne e osso, parecia-nos mitológico”.

O Trem de História precisa terminar por aqui. E com ele encerrar a série de artigos em comemoração ao centenário da morte do poeta paraibano. Mas se for do interesse do leitor conhecer um pouco mais sobre o Poeta da Morte e sobre o seu grande divulgador, fica a sugestão para uma visita ao Museu Espaço dos Anjos, ali na Rua Cotegipe, onde morou Augusto dos Anjos. Porque ali se pode compulsar o material disponível sobre Augusto dos Anjos e Júlio Ferreira Caboclo e conhecê-los ainda melhor. No próximo Jornal o Trem de História retornará aos trilhos da Imprensa em Leopoldina e espera continuar contando com a atenção de seus leitores. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de dezembro de 2014

Júlio Caboclo, o divulgador do poeta.

O Trem de História de hoje continua correndo os trilhos do Centenário de Augusto dos Anjos. Agora para falar um pouco sobre o professor Júlio Ferreira Caboclo, um dos grandes divulgadores e incentivadores do culto à obra de Augusto dos Anjos, seja em sala de aula ou escrevendo matérias para jornais e revistas.

Júlio Ferreira Caboclo que, segundo seu título de eleitor nasceu em 25.09.1901 em Manaus, AM, era filho de José Liberato Ferreira Caboclo e Maria Eliza Ferreira e sua história começa a ficar mais conhecida a partir do momento em que foi admitido como professor em Santo Antônio de Pádua, RJ.

De Pádua ele se transferiu para Leopoldina, por volta de 1922, onde passou a lecionar português, francês, geografia e história no então Ginásio Leopoldinense e foi descrito por Miguel Torga, poeta e médico português que foi seu aluno no Ginásio Leopoldinense, como sendo: “todo teso, pequenino, a ensinar os verbos franceses, metido no colarinho engomado, com as entradas do cabelo mais subidas ainda”.

Foi um dos fundadores e presidente do Grêmio Litero-Artístico Augusto dos Anjos, em 23.06.25, em Leopoldina, segundo o jornal O Paiz de 20 de agosto e a Revista Brasil Progresso na edição de setembro do mesmo ano, ambas as publicações do Rio de Janeiro.

Em Leopoldina Caboclo conheceu Esther Fialho, viúva de Augusto dos Anjos e com ela se casou em 16 de agosto de 1923, em Leopoldina.

Vale lembrar que, ao se casar com Júlio, Esther Fialho tinha um casal de filhos, Glória e Guilherme Augusto, do seu casamento com Augusto dos Anjos. Com Júlio teve as filhas: Selma, nascida em 1924 e Elida em 1925, ambas nascidas em Leopoldina e, Maria Elisa, em São João Nepomuceno, nascida em 21.05.31 e falecida em 06.06.31, quatro dias depois da morte de Esther Fialho.

Viúvo, com duas filhas menores e dois enteados do primeiro casamento de Esther, Júlio casou-se segunda vez com Lygia de Macedo Cerqueira em 21.06.33 em São João Nepomuceno, e com ela teve as filhas Guaynubi em 1934 e Apalaís em 1936, nascidas em Nova Friburgo, e o filho Júlio César Cerqueira Caboclo nascido em São João Nepomuceno em 1943.

Em 1938, em carta resposta enviada de São Paulo ao amigo Blair de Abreu, residente em São João Nepomuceno, Júlio Caboclo se mostra um homem angustiado, acossado, com saudades da mulher e das filhas e se declara uma pessoa “incontentável, que nasceu fora da época ou, noutros intermúndios”. Na mesma carta declara ainda ter ido “à missa pela manhã” e completa: “Reconciliei-me com a igreja. Estou feliz e satisfeito com a consciência. Posso lançar o brado para a grande batalha. Numa das mãos o sigma. Na outra a Cruz de Cristo”.

Membro da Ação Integralista Brasileira, cujas atividades foram proibidas pelo Decreto-Lei nº 37, no rastro dos efeitos da Constituição Brasileira conhecida como Polaca, promulgada a 10.11.37, Júlio Ferreira Caboclo era um verdadeiro soldado sempre pronto para a batalha. Foi preso e perseguido político.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de novembro de 2014

Centenário de Morte de Augusto dos Anjos – II

A FAMÍLIA DO POETA

Trilhando ainda pelas terras da Paraíba, o Trem de História recolhe os retalhos de um imaginário proclama do casamento realizado a 04 de junho de 1910, na residência da mãe da noiva, em João Pessoa (PB), na Rua Duque de Caxias, onde se uniram Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho, e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos com a senhorita Esther Fialho, que adotou o nome de Esther Fialho Rodrigues dos Anjos, filha de Agnello Candido Lins Fialho e Michelina Amelia Monteiro Fialho, conforme certidão extraída do livro 9, casamentos, fls. 310-312, termo 1412, do Cartório de Registro Civil de João Pessoa (PB).

Ele nascido a 20 de abril de 1884 no Engenho do Pau D’Arco, e batizado no dia 27 de fevereiro de 1885 na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu, PB e ela nascida no dia 21 de novembro de 1887 e batizada aos 22 de fevereiro de 1888 em João Pessoa (PB).

Foram testemunhas do casamento civil: Arthur de Carvalho Rodrigues dos Anjos (29 anos), promotor público e irmão do noivo; Rômulo de Magalhães Pacheco (27 anos) e sua esposa Olga Fialho Pacheco, irmã da noiva; Orestes de Azevedo Cunha (54 anos); Joaquina Monteiro da Cunha; e, Maria José Fernandes dos Anjos.

Assinaram, também, Francisco Xavier Júnior; Aprigio de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo; Alfredo de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo e que veio a ser Juiz Municipal em Carmo do Paranaíba (MG); José Antonio de Figueiredo; Carlos de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo; e, Brazilino Pereira Luiz Wanderley Filho.

Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho nasceu em 09.05.1850 no Recife (PE) e faleceu 13.01.1905, segundo o Jornal A Província de 17.01.1905, página 2. Era filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e Francisca Augusta Xavier Camello Pessoa. Casou-se com Córdula Fernandes de Carvalho, nascida em 25.08.1855 e falecida em 04.08.1933, em João Pessoa (PB), filha de João Antonio Fernandes de Carvalho e Juliana Ludugério no dia 09.10.1875 no Recife (PE). Alexandre Filho bacharelou-se em direito, no Recife, em 1872. Segundo o obituário publicado no jornal A Província, do Recife, “logo que se formou exerceu os cargos de promotor público em Granja (CE), depois, em Aracahú (Aracati?) (CE), em Atalaya (AL), em Pedra de Fogo (PB) e, Juiz Municipal em Ipú (CE)”. Todos estes cargos desempenhados com proficiência e honestidade. Posteriormente deixou a magistratura e passou a dedicar-se à vida de agricultor. Sua esposa, Córdula, em 1899 era proprietária de Engenho de Açúcar, na Paraíba.

Augusto e Esther geraram três filhos. O primeiro deles morreu prematuro, aos sete meses. A segunda, Glória, nascida no Rio de Janeiro (RJ) e falecida em 10.10.1977 na mesma cidade. Foi casada com Antonio Cruz e o casal não deixou descendentes.

O terceiro, Guilherme, segundo o Arquivo da Diocese de Leopoldina, livro de batismos no 15, fls. 55, termo 5, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 12 de junho de 1912 e foi batizado em Leopoldina (MG), no dia 05 de janeiro de 1915. Casou-se com Carmen Pena.

Ainda conforme o Arquivo da Diocese de Leopoldina, os padrinhos de Guilherme foram o senhor Joel Esdras Lins Fialho representado pelo Dr. Rômulo de Magalhães Pacheco e Michelina Amélia Monteiro Fialho, avó materna. Registre-se que o batizado de Guilherme ocorreu após a morte do pai e que o seu padrinho foi representado pelo marido da tia materna, Olga Fialho.

Augusto dos Anjos, como é bem sabido, faleceu em Leopoldina (MG) no dia 12 de novembro de 1914. Quase nove anos após enviuvar, Esther se casou com o professor Júlio Ferreira Caboclo no dia 16 de agosto de 1923, em Leopoldina. Deste segundo casamento teve três filhas: Selma, Elisa e Maria Elisa que faleceu com 15 dias de idade.

Mas a continuação do assunto virá em outra viagem do Trem de História.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2014