Cemitério Nossa Senhora do Carmo

Lápide do túmulo do Padre José Maria Solleiro, nascido em 1811 e falecido em 1891.

Inaugurado em agosto de 1880, então com o nome de Cemitério Público da Leopoldina, o atual campo santo da cidade é seguramente o segundo mas pode ter sido o terceiro local escolhido para a morada eterna dos habitantes da cidade.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo

 

 

Por suas alamedas, especialmente no primeiro plano, podemos observar o resultado da obra de tantos artistas, vários deles italianos e seus filhos, que durante muitos anos se dedicaram a construir e reformar os túmulos das famílias de maior poder aquisitivo.

 

Passou a se chamar Cemitério Nossa Senhora do Carmo a partir da lei municipal nº 96, de 18.02.1950.

O túmulo mais famoso é o de Augusto dos Anjos, o poeta paraibano falecido em Leopoldina em 1914.

1880: Novo Cemitério em Leopoldina

O atual Cemitério Nossa Senhora do Carmo, em Leopoldina, começou a ser utilizado em agosto de 1880, conforme o Livro de Sepultamentos considerado como número 1 por não terem sido preservados os anteriores, que ficavam a cargo da Igreja. Segundo a notícia do jornal O Leopoldinense, três meses depois a obra ainda não estava totalmente concluída.

Para este campo santo foi trasladado o corpo do povoador Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, falecido em 1872.

Este foi o único caso encontrado de pioneiro de Leopoldina com restos mortais adequadamente preservados. Dos demais, provavelmente sepultados no cemitério que existiu no entorno da Matriz de São Sebastião, não existem registros nem seus ossos foram trasladados.

1º de Setembro de 1835

Nasceu FRANCISCO, filho de Manoel Ferreira Brito e Maria Josefa da Silva.O menino que mais tarde adotaria o nome de Francisco Ferreira Neto, foi um dos principais artífices da constituição do distrito de Recreio, na penúltima década daquele século.

Foi proprietário da Fazenda Laranjeiras, em sociedade com seu irmão Ignacio Ferreira Brito, além de um sítio desmembrado da Fazenda Serrote, outro sítio que antes fizera parte da Fazenda Boa Vista e de uma parte da Fazenda Bocaina da qual foi herdeiro. Era conhecido como Coronel Chiquinho Ferreira

Em 1851 foi um dos eleitores da Assembléia na qual foram iniciados os procedimentos para a emancipação do Feijão Cru três anos mais tarde. Em 1875 foi eleito Juiz de Paz de Conceição da Boa Vista. No ano seguinte, foi qualificado com um dos moradores elegíveis do mesmo distrito.

Em 1884 tornou-se Membro da Comissão Permanente do Club da Lavoura de Conceição da Boa Vista, sociedade de fins econômicos então criada, e em 1899 foi eleito Presidente do Conselho Distrital de Recreio.

Foi casado com Messias Rodrigues Gomes, filha de Antonio Rodrigues Gomes Filho e Rita Esméria de Almeida, com quem teve os filhos Manoel Ferreira Brito (neto), Eleotéria, Francisco Honório, José Celestino e Antonio Pedro Ferreira Neto.

Faleceu em 1899, tendo sido sepultado no Cemitério de Recreio no dia 25 de setembro.

O patrimônio conta a história

A sepultura seguinte, da família Barbosa da Fonseca, é outro monumento do cemitério de Conceição da Boa Vista.
Manoel Barbosa da Fonseca, falecido em 1901, nasceu em Portugal a 11 de agosto de 1834. Em 1871 comprou terras da Fazenda Belmonte, de Francisco Corrêa Dias. Esta propriedade adquirida em Conceição da Boa Vista, constava de 16,5 alqueires localizados à margem do córrego Belmonte e na divisa com propriedade da família de Lucindo José Carneiro.
Foi agraciado com o título de 1º Visconde de São Manuel, para ele criado pelo rei D. Luiz I de Portugal, por decreto de 24 de março de 1886. Por esta época, o governo liberal de Portugal concedeu muitos novos títulos nobiliárquicos aos cidadãos que haviam prestado relevantes serviços à casa real, ao monarca ou ao país. Infelizmente, porém, nas publicações sobre este titular da Nobreza de Portugal consta que ele era proprietário apenas no Rio de Janeiro, sem citar Conceição da Boa Vista onde, naquele ano, era um dos eleitores.
Sabemos que o Visconde de São Manuel deixou pelo menos um filho chamado Manoel Barbosa da Fonseca Júnior, também eleitor de Conceição da Boa Vista em 1886. Sabemos também que a propriedade da família estava dentro do território que permaneceu no distrito depois da divisão de 1890. Corroborando outras informações, e como já vimos no post de 12 de abril, Theophilo Barbosa da Fonseca Moura contratou imigrantes nos anos de 1895 e 1896 para a sua fazenda Belmonte, sendo informado que o desembarque seria na Estação Recreio.

Recreio, MG: Cemitério de Conceição da Boa Vista

Conforme dissemos no post de 25 de março, os cemitérios foram secularizados a partir do Decreto nº 789 de 27 de setembro de 1890. Mas nas décadas anteriores estavam em andamento as construções dos cemitérios públicos, visto não mais ser permitido o sepultamente dentro das igrejas. Entretanto, suspeitamos que mais tarde algumas pessoas ainda tenham sido enterradas em cemitérios paroquiais, já que os registros respectivos não são encontrados onde deveriam estar, ou seja, nos livros para isto destinados.

Desta forma, consideramos que o início das operações no Cemitério Público de Conceição da Boa Vista tenha ocorrido nas penúltima década do século XIX. Ressaltamos que a existência de jazigos perpétuos naquele cemitério, relativas a falecimentos entre 1873 e 1876, pode significar que tenha havido traslado dos corpos para o novo cemitério cujas etapas de construção podem ser constatadas nos livros do Cartório de 1882 a 1884.

Em visita recente, Pedro Dorigo recolheu imagens de sepulturas de algumas das tradicionais famílias que participaram do movimento de divisão do distrito de Conceição da Boa Vista. Entre as sepulturas mais bem conservadas, foi encontrada esta de Francisco Celidônio Gomes dos Reis, falecido em 1892.

Nascido a 5 de junho de 1846 em São José do Barreiro, SP, era filho de José Celidônio Gomes dos Santos e de Catarina de Jesus Alves, herdeiros da Fazenda do Formoso, em Barreiros. Seu avô paterno, Joaquim Gomes de Siqueira e Mota era parente de José Gomes dos Santos, de quem Francisco Celidônio comprou terras em 1874. Trata-se de uma parte da Fazenda São Luiz, na margem do rio Pomba, ao norte do Arraial Novo. Esclareça-se que o avô do vendedor chamava-se também José Gomes dos Santos e residia em Conceição da Boa Vista desde, pelo menos, 1856, tendo formado a Fazenda São Luiz na qual viveu com seu filho José Gomes dos Santos.

Francisco Celidônio casou-se com Clara Monteiro Lobato Galvão de São Martinho, filha de Antônio Augusto Monteiro de Barros Galvão de São Martinho e de Maria Nazaré Negreiros Saião Lobato. Em virtude da esposa de Francisco ser herdeira da Fazenda Santa Isabel, acreditávamos que o casal residisse naquele distrito. Entretanto, não só o túmulo encontrado em Conceição da Boa Vista, como também a compra de terras e escravos registradas neste distrito, assim como a divisão de quarteirões dos novos distritos, em 1892, veio confirmar que Francisco Celidônio foi morador de Recreio.

Recreio, MG: Suíços ou Franceses?

Em visita ao Cemitério de Conceição da Boa Vista, Pedro Dorigo encontrou o túmulo de João Cláudio Robert, cujo sobrenome chamou a atenção. Seria um dos estrangeiros? Pesquisando antigos documentos, descobrimos tratar-se de Jean Claude Robert, falecido a 09 de dezembro de 1890 com 80 anos. No mesmo túmulo encontram-se os restos mortais de sua esposa, Maria Louise Robert, falecida a 01 de julho de 1885, aos 74 anos.

 Este casal residia em Conceição da Boa Vista desde antes de 1871, época em que aparecem numa transação imobiliária. Trata-se da troca envolvendo uma propriedade que divisava com a Fazenda Santa Maria, com Manoel Antônio da Silva Lima Salema e com Manoel Ferreira da Silva. Nestas terras vivia o genro de Jean Claude, Estevam Rosset de Passicam (ou Pancam) e a esposa Louise Amelie.

O proprietário era, até então, Astolfo Pio da Silva Pinto, que transferiu a propriedade para Jean Claude Robert em troca de outra, no córrego Felipe, cujas divisas eram as propriedades de Manoel Antônio da Silva Lima Salema, Florentino Rodrigues da Costa e a fazenda Serra Bonita que fora de Francisco José de Almeida.

Acreditamos que um outro vizinho da propriedade, Auguste Robert, seria o homem suíço solteiro que aparece no Recenseamento de 1872. Pode ter sido um filho de Jean Claude e Maria Louise. De certo sabemos apenas que morava em terras que divisavam com Estevam, com a fazenda Pedra Bonita e com o sítio Serrote. Caso Estevam tenha ficado viúvo entre agosto de 1871, data da operação imobiliária, e o final de 1872 quando foi realizada a contagem populacional, teríamos aí grandes possibilidades de ter identificado os três homens e a mulher suíça.

Importante lembrar, porém, que o nome J. C. Robert aparece em, pelo menos, dois processos de estrangeiros disponíveis no Arquivo Nacional. Um deles, francês, entrou no Brasil aos 20 anos em 1829, procedente de Buenos Aires. O outro, cuja idade não foi informada, era um artista francês que entrou no Brasil pela Bahia e em 1841 chegou ao porto do Rio de Janeiro.

Apesar da dificuldade causada pelas múltiplas grafias dos nomes e sobrenomes – João Cláudio Roberto, João Gloub Robert, Jan Glaude Robert – a assinatura no registro da troca permitiu que reuníssemos as informações deste personagem que em 1886 foi identificado como “cafelista”, ou seja, proprietário de terras onde plantava café.

Associações de Moradores

A urbanização do Arraial Novo aconteceu sob o influxo do poder imperial, quando não havia ainda a separação entre Estado e Igreja. Desta forma, as associações de moradores registravam seus estatutos e atas em livros paroquiais a este fim destinados. Além deles, os livros dos Cartório de Notas esclarecem um pouco sobre as atividades destes grupos de moradores que se encarregavam dos procedimentos necessários ao franco desenrolar da vida civil.No post anterior citamos a Comissão encarregada pela construção do Cemitério Público em Conceição da Boa Vista. Faltou informar que seus membros faziam parte da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Conceição da Boa Vista, cujo procurador de 1884 era o paroquiano Antônio Caetano de Almeida. Naquele ano, a Irmandade tinha a receber o aporte financeiro de 3 contos 953 mil réis, legado testamentário do capitão Jacintho Manoel Monteiro de Castro para a Igreja e o Cemitério da Paróquia da Conceição da Boa Vista. Para atuar como interveniente credor no inventário, a Irmandade nomeou o advogado Theophilo Domingos Alves Ribeiro, conforme procuração datada de 23 de julho de 1884, registrada no livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista.

Lembramos que as Irmandades surgiram na Idade Média, na Europa. Compostas por leigos, além da difusão religiosa encarregavam-se também da assitência econômica de seus integrantes e tomavam as providências necessárias por ocasião da morte. Vale dizer: missa de corpo presente, acompanhamento do enterro, sepultamento em local digno e demais rituais. Segundo o Dicionário do Brasil Colonial, organizado por Ronaldo Vainfas, em Minas “as irmandades revelaram-se de especial importância para dinamizar a vida religiosa”, especialmente por conta da “precária implantação da rede de paróquias” e porque não foram autorizadas as ordens regulares. Sugerimos aos interessados, além da obra citada, artigo As Irmandades Religiosas, de Cristiano Catarin, no site Historianet http://www.historianet.com.br