O Comércio de Recreio em Publicações Esparsas

Na edição especial da Revista Acaiaca de Leopoldina, de março de 1954, encontram-se anúncios comerciais daquela cidade e de municípios vizinhos. Comemorava-se o 1º Centenário da elevação do Feijão Cru à categoria de Vila e Cidade da Leopoldina. Em estilo simples e direto, encontramos na segunda página da revista dois anúncios de comerciantes de Recreio.

HUMBERTO TOMASCO

Máquinas de beneficiar arroz

Exportação de arroz por atacado

RUA ESTEFÂNIO, 73 – FONE, 23 – RECREIOMINAS

JOSÉ DE CASTRO LACERDA

Atacadista de BebidasDepositário de CimentoCal

– Querozene e SalDistribuidor de Cerveja Brahma

RUA GOVERNADOR VALADARES – RECREIOMINAS

Anúncios pequenos e simples, em quadros de 10,5 cm de largura por 2 cm de altura. A folha seguinte, ao contrário, era ocupada inteiramente pela seguinte mensagem:

INDUSTRIAL ESTEFÂNIO DOS SANTOS LDTA.

FUNDADOR- ESTEFÂNIO DOS SANTOS

JOSÉ DOS SANTOS

JOÃO DOS SANTOS

FRANCISCO DOS SANTOS e

D. INÁCIA ROSSIGNOLI DOS SANTOS

Levam os seus cumprimentos ao progressista povo e administradores de LEOPOLDINA, por motivo das festividades do CENTENÁRIO da cidade.

Fabricação de Manilhas e seus

Pertences

RUA SÃO JOAQUIM, 135

RECREIOMINAS GERAIS

Parece-nos que estes anunciantes seriam os mesmos que apoiavam o periódico de Recreio, onde também foi publicado o texto de Mauro de Almeida Pereira que se encontra na página 42 da edição da Acaiaca a que estamos nos referindo. Trata-se de uma versão extremamente reduzida da história do surgimento da cidade, conforme a tradição oral que circulava naquela época.

Antigos Hotéis de Recreio, MG

No post publicado no dia 1º de janeiro de 2007, informamos que o Arraial Novo contava com dois locais de hospedagem, conforme se depreende da análise do livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista 1884-1885, folhas 124 a 127. Comentando tal informação, escreve Pedro Dorigo:

“Quando criança, lembro-me de dois hotéis, em Recreio: Hotel Pinho, de propriedade (ou arrendamento) de Sebastião (Zim) Teixeira de Castro [filho de José Teixeira de Castro e Francisca de Almeida]; Hotel Recreio, do Sr. José Moreira. Mas é claro que houve outros proprietários. Sei que o Hotel Recreio, talvez nas primeiras décadas de 1900, pertenceu ou foi arrendado por Serafim Coimbra e que o Hotel Pinho pertenceu à mesma família proprietária do Bazar Pinho [antigo Empório Tomasco], pais de Guilhermino Martins.”

Aproveitamos este comentário para lembrar que, com o novo destino dado a uma parte da Fazenda Laranjeiras, foi necessário atender a demandas específicas do espaço urbano. Entre elas, locais de hospedagem e um comércio mais diversificado como o representado pelo Empório Tomasco, depois Bazar Pinho, abaixo em fotografias que farão parte de uma exposição programada para julho deste ano de 2007. Acrescentamos, para melhor esclarecimento dos leitores, que Guilhermino Martins era genro, e não filho dos proprietários do Hotel Pinho, conforme informou sua bisneta Mercês Martins Simão.

Esta fotografia foi tomada, provavelmente, na primeira década do século XX. A localização do prédio é a esquina diagonal oposta à do extinto casarão dos Melido.
Nesta outra imagem a casa comercial já está com o nome Bazar Pinho. A data no alto do prédio, pouco abaixo do telhado, é 1912 ou 1914. Atualmente o prédio pertence a Arcelino de Oliveira Simão (genro de Guilhermino Martins, antigo proprietário, e filho de Américo Simão),cuja praça, em frente, leva o nome de seu pai.

O Caminho Novo e o Comércio das Minas 1700-1818

O professor Ângelo Carrara iniciou agradecendo o convite e declarou que “este tipo de reunião, que ocorre fora dos meios acadêmicos, tem a faculdade de produzir mais efeitos concretos e objetivos a curto prazo do que as que acontecem no meio acadêmico. Nós fazemos nossos eventos acadêmicos mas em termos práticos… quando isso que nós dissemos vai chegar ao aluno?”

Informou que este foi o segundo evento do tipo do qual participou este ano e percebeu que todos ali estavam envolvidos de forma sincera, interessada. Assim, após ouvir as comunicações que ocorreram ao longo do dia, decidiu modificá-la.  


A seguir, trechos do que falou Carrara.

“O Caminho Novo é um caminho. Se eu for abordar o tema de comércio, eu não vou sair disso: 85% de toda a importação de mercadoria passou pelo Caminho, da mesma forma que 98% do ouro produzido em Minas Gerais. E pronto!

Só que esse Caminho Novo é tratado como caminho, como rota. E o que está em volta do caminho? Pessoas circulavam pelo Caminho Novo. E é essa a ideia! É nisso que eu mudei! Ao invés de tratar o caminho como … mercadorias e ouro, quero chamar a atenção para o entorno dele. E para a personalidade histórica dele. Então, eu não preciso trazer aqui números. 

[…] Nós estamos num lugar muito especial. Minas é muito especial! O mineiro tem um profundo orgulho de ter nascido aqui. É o melhor estado do mundo!

[…] Eu posso afirmar que não havia Império. [Naquele momento] o que há é um império de rotas comerciais dominadas por portugueses. Mas o império no sentido territorial… Então eu pergunto: o que é o Brasil até 1696?

O Brasil é um punhado de gente vivendo em pontos da costa brasileira. A estatística que nós tínhamos até muito recentemente nos dava um total de 300 mil pessoas. Isto é um absurdo! Por que?

Este ano, conversando com um colega que está trabalhando com demografia, descobrimos que este cálculo é fruto de um palpite, de um despautério sem fim. Quantos habitantes tinha Salvador em 1681?

Três mil pessoas! Era a capital do Brasil e tinha 50% da população brasileira. E 50% da economia brasileira estava concentrada em Salvador e seu recôncavo. Então, por aí vocês tiram as conclusões.

O Brasil é um conjunto de pontos. O ouro detona o processo de migração maciça, de Portugal, do Brasil todo, num movimento demográfico que não consegue ser estancado. Enquanto os países europeus perdiam população ano após ano.

E para onde ia essa gente? Para Minas Gerais. Eles não estão indo para Salvador, para Pernambuco, não! Eles estão vindo prá cá. 

[…] O ponto nevrálgico desse ‘agora’ no Império Português é uma questão de território. É Minas, é Mato Grosso, é Goiás. Isso é território! O vale do São Francisco…

[…] A razão principal do ouro é entrar em circulação. De 1724 a 1735 nós tivemos uma casa da moeda em Ouro Preto. Esta casa da moeda, durante seus 10 anos de vida, cunhou três vezes mais moeda do que suas equivalentes de Lisboa e Rio de Janeiro juntas. Então, imaginem. Enquanto a rotina da Casa da Moeda em Lisboa era uma, em Minas a produção era muito maior. Claro que os melhores servidores da Coroa estavam onde estava a riqueza.  Em Minas Gerais! Porque aqui estava a galinha dos ovos de ouro.

O grande desafio nosso, na minha perspectiva, é fugir dessa história que enaltece determinados indivíduos.


A pergunta que eu faço é o que esta história tem de utilidade para as pessoas comuns?

O fato é que essa movimentação toda de gente pelo Caminho Novo… As pessoas se levantam e perguntam: o que eu faço agora? Me alimento como? Como é o dia a dia? Não é a história de grandes personagens, de fatos heróicos, mas a nossa história. Mas não é uma história da vida privada [como perguntou alguém da platéia]. É uma história de todos, pública. É o dia a dia.

A pergunta que devemos fazer é: o que é viver aqui? O que foi viver no século XVIII e no século XIX aqui? Devemos perguntar que tipo de esforço estes indivíduos faziam para poder manter suas vidas. Porque não se pode esquecer que essa gente trabalha.

Dá-se a impressão de que o passado era um brilho só. Na realidade, o que talvez tenha mais impacto sobre as pessoas [seja]… há 300 anos, quando eu me sentava à mesa, o que eu tinha?

Percebem o desafio que temos à frente?

[…] Já avançamos muito. Em 10 anos, eu sou testemunha disso, crescemos absurdamente no campo da preservação da documentação. Nós temos acervos monumentais, um acervo que precisa ser preservado. Um outro desafio, diretamente relacionado, é a propagação da educação patrimonial, que é fundamental. Aquilo que as secretarias de educação incorporam nos seus currículos, uma disciplina de educação patrimonial que não vai tratar de enaltecer grandes nomes. Ao contrário, é cuidar de um patrimônio que muitas vezes é imaterial. Os queijos, a cultura mineira…

Este é um desafio para o historiador de ofício. Escrever esta história de Minas. Esta reunião está acontecendo em Barbacena. O que nos deve interessar é a história de Barbacena.

Existe uma coisa que eu chamo de personalidade histórica. Vou explicar. O meu objetivo aqui é dar serviço. [risos]

As identidades originais de Minas Gerais… Exemplo: nos centros mineradores, o que existiu ali é diferente de uma outra sociedade que é vizinha [mas que tem uma] identidade curraleira.

Em Minas temos quatro [identidades]. Saindo de Ouro Preto até Itabirito, é a do ouro. Pitangui não foi uma região mineradora importante. Pitangui… tinha a segunda maior produção de gado de todo o século XVIII.

Outras identidades, ao longo do século XVIII, vão se formando. A zona curraleira… margem esquerda do São Francisco… no extremo noroeste de Minas Gerais que não conversa com Minas Gerais. Eles não produziram gado ali para vender em Minas. É uma identidade particular de Minas Gerais.

Outra identidade é do vale dos rios Verde e Verde Grande. Produção agrícola que conversa com Minas Novas ou Itacambira. É outra formação.

Eu estou falando da identidade que se forma por vínculos familiares, por parentesco, por pessoas circulando diariamente, semanalmente… 

O mesmo se dá em Diamantina, que não pode ser entendida só como Distrito Diamantino. Diamantina é ao mesmo tempo Diamantina e Curvelo. Porque o gado que abastece Diamantina é o gado de Curvelo. Ou seja, Diamantina é muito curraleira apesar da produção de diamantes.

Percebem-se as diferenças no sotaque. O historiador tem que ter parâmetros para saber ouvir o sotaque. O de Diamantina é o mesmo de Curvelo … é só ir para a rodoviária e identificar as linhas de ônibus mais comuns.

Então, na região das minas, eu acho que fica claro que há um quadrilátero muito facilmente identificado por todos, formado por Ouro Preto, Mariana, Caeté e Sabará.

[…] A alimentação na área curraleira é diferente da área mineradora.

Essa região aqui, de Barbacena, que hoje se chama de Vertentes, mas que no período colonial se chamava O Campo, por isso que aqui é a Borda do Campo, termina lá nas Congonhas do Campo. O Campo é Campo por quê? Porque isso aqui é uma região diferente das demais, a mais fértil de todas, com uma rede hidrográfica fantástica e é isso que explica o vigor da agricultura nessa região.

Só que a identidade de Barbacena, de Santana do Garambéu, de Prados que, apesar de ser área de mineração comunga muito com a identidade de Barbacena, Entre Rio de Minas, Carijós, até Congonhas, guarda uma homogeneidade muito forte.

Primeiro o estilo de fazenda. As descrições rudimentares que eu vou encontrar, do século XVIII, vão dizer que o perfil preferencial é uma concentração de terras, [uma concentração] fundiária, de propriedades médias, de produção média. Toda essa região do Campo, antes de cair no espinhaço em direção a Ouro Preto, fechando essa região aqui nas Congonhas, tem uma concentração de terras distinta da região do Caminho Novo indo para Juiz de Fora. O padrão aqui é menos concentrador do que em Juiz de Fora. A produção agrícola aqui é baseada em propriedades médias e não em grandes.

Se eu for para Juiz de Fora? 1750 – quantas pessoas produzem alimentos? Dezenove. De Paraíba do Sul no Rio de Janeiro, até o pé da serra aqui em Santos Dumont. Dessas 19, 10 produzem 85% do total. Isso é concentração!

Concentração fundiária é o melhor identificador da ‘personalidade’ de uma região. Quanto mais concentrada a propriedade rural, mais concentração de renda. Quanto melhor distribuída a propriedade da terra, melhor o padrão dessa sociedade.

As pessoas que vivem na roça… a forma como elas acessam o principal meio de vida é fundamental… Numa região em que o padrão de concentração é mais equilibrado, a sociedade é diferente.

Então, esse Caminho Novo não é uma identidade. Na verdade nós temos que ultrapassar isso. O Caminho Novo é uma rota. O que importa é verificar a região. Esse é o grande desafio. 

Fontes para isso? Um problema que nós não temos em Minas Gerais. Todos os outros estados tem problemas com fontes. Nosso problema é o inverso. Nós temos excesso de fontes. Nós temos que ir a um arquivo rezando para não encontrar documentos. Experiência própria. Ali abre um livro e surge mais um questionamento.

Existe uma fonte que é um verdadeiro cadastro em Minas Gerais. Ela me dá o nome, a propriedade rural, o endereço, a produção agrícola. Isso desde 1750. Eu tenho como fazer uma história dessa propriedade rural, história da produção econômica, desde 1750 até 1835. É um tipo de registro muito particular, todo organizado. A partir desse período eu consigo rastrear, com a documentação que ainda não conhecemos e da qual ainda não temos inventário. Mas que em breve teremos. É a nossa caixa preta da História do Brasil. É a Coleção Casa dos Contos de Ouro Preto, com duzentos e tantos mil itens. Sabemos que tem coisas preciosas mas… não tem inventário. No momento em que tivermos inventário, poderemos fazer a história que quisermos. Quer fazer História da Medicina? Pode. Quer acompanhar o receituário? Tem. Porque lá estão os registros dos hospitais militares. Para cada doença tem o medicamento que foi adotado.

Tem ali documentação que vocês não podem imaginar. Documentação sobre todas as obras artísticas…. Aleijadinho foi um. Há dezenas de outros artistas. O altar da Igreja, como é que foi feito…

O que na verdade eu gostaria de chamar a atenção é para a necessidade que nós temos, é a responsabilidade que a academia tem de produzir esse tipo de investigação. Uma responsabilidade que ela tem como instituição pública.

Uma outra responsabilidade que a Prefeitura tem, dentro das suas possibilidades, é de produzir material didático capaz de sensibilizar a sociedade, atingir a sociedade. Fazer isso é elevar o nível de cidadania, aqui entendido como a capacidade de entender direitos e deveres. É ter consciência das transformações…

Diferentemente de outras áreas de conhecimento, o objeto da história não está dado. É complicadíssimo. Nós não lidamos com um único indivíduo. Nós lidamos com todos. E o que é mais complicado: o ser humano muda. E o historiador tem que encontrar o padrão da mudança. Porque as coisas não são colocadas [e] nós não vivemos no caos. Nos vivemos dentro de uma visão de como o mundo funciona. Existe um padrão de mudança que precisamos identificar.

Então, nos aproximarmos desse tipo de história que tem a capacidade de nos informar, com maior segurança, os padrões que essa sociedade adquire ao longo do tempo, é o grande desafio. É isso que me chamou a atenção para este evento. É o primeiro e precisa se repetir. Barbacena tem uma responsabilidade enorme por conta do equipamento urbano que tem, diante de outros municípios. Barbacena tem um fator de liderança diante de outros municípios.

A responsabilidade é das prefeituras de mobilizar seus professores em torno dessa ideia de construção de material didático. O impacto disso no médio prazo é profundamente transformador .

Meu papel aqui foi mais dizer o que fazer. Material a academia tem. Mas há uma necessidade cada vez maior de aproximação entre a universidade e as necessidades efetivas da sociedade. Produção histórica que tenha um impacto mais imediato sobre a sociedade.

Ângelo Carrara, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, encerrou sua participação dizendo que seu papel foi o de saudar esse tipo de iniciativa e chamar a atenção daqueles que têm alguma responsabilidade sobre esse tipo de projeto.