126 – O Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru

No meado do século passado, tempo em que os idosos de hoje cursavam o primário, era comum ensinar como sendo “história de Leopoldina” as lendas do Feijão Cru e, a de um tal “Peitudo”, que teria sido proprietário das terras onde surgiu o povoado. Eram estes os marcos iniciais da história do lugar.

Felizmente os tempos mudaram e estudos mais sistematizados e calcados em fontes documentais já conseguem contar um pouco do que aconteceu realmente quando teve início a transformação do que era “mata” em áreas urbanizadas nesta parte do leste mineiro.

O Trem de História, seguindo estes estudos para comemorar os 165 anos de emancipação do que no início foi chamado Feijão Cru, traz hoje mais uma contribuição para clarear a história da cidade.

É sabido que o surgimento de um povoado demandava algumas providências das pessoas que escolhiam aquele lugar para viver. E uma das mais importantes era a escolha de um santo protetor e, mais adiante, a doação de terras para a formação do patrimônio do padroeiro.

Às vezes, a escolha acontecia de forma inversa por uma razão objetiva. Como havia restrições para vender as sesmarias recebidas por doação da administração central, o beneficiário se dispunha a doar uma parte das terras para um santo protetor em troca da autorização para vender o restante.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a formação do patrimônio de Nossa Senhora da Piedade de Piacatuba, conforme se pode verificar no registro da doação em 1844, que se encontra no arquivo do Cartório daquele distrito.

Dos processos de formação de patrimônio surgiram os denominados “doadores de patrimônio” que passaram para a história como fundadores de muitas localidades. A realidade, porém, parece ter sido um pouco diferente.

Após a doação, não necessariamente o sesmeiro participava da formação do povoado e o patrimônio do Feijão Cru não foi formado por um único doador. Pelo que foi possível apurar, o preposto dos beneficiários de duas sesmarias obteve autorização para venda de partes delas, por volta de 1830. Vejam que foi um preposto e não os donos das sesmarias. Isto conforme declararam os compradores, em 1856, por ocasião o Registro de Terras realizado segundo determinou a Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, a chamada Lei de Terras.

Tal preposto, embora seja por vezes citado como “fundador” de Leopoldina, não participou de fato da formação do povoado. E por razões simples e devidamente documentadas. Tão logo ele concluiu a venda das terras doadas a seus tios, seguiu para outras localidades e faleceu no Estado do Rio de Janeiro cerca de cinco anos antes da criação do Distrito de São Sebastião do Feijão Cru.

Como se vê, a falta de pesquisas metodologicamente controladas fez surgir o mito de um fundador que de fato não o foi.

Sobre o Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru, o que se tem são referências literárias sobre uma doação de Maria do Carmo Monteiro de Barros, que formou a Fazenda do Desengano, e um registro existente no arquivo do Fórum de Mar de Espanha sobre doação feita por Joaquim Ferreira Brito, que formou a Fazenda da Cachoeira.

Em 1856, quando foi realizado em Leopoldina o Registro de Terras acima citado, o Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru era composto de “dez alqueires doados por particulares”, cujas divisas foram indicadas pelos nomes dos confrontantes: Álvaro de Souza Werneck, Maria do Carmo Monteiro de Barros, Romão Pinheiro Correia de Lacerda, Antoine Urbain Levasseur, Luiz Botelho Falcão, Padre José Maria Solleiro, Manoel Rodrigues Coelho e José Lopes da Rocha.

Embora não se possa precisar exatamente onde ficavam as divisas dessas terras, o estudo da trajetória dos confrontantes permite uma ideia aproximada quando se atenta para os detalhes a seguir.

Álvaro de Souza Werneck era o filho mais velho e sucessor de Ignacio de Souza Werneck, que viera para o Feijão Cru na década anterior e aqui falecera, tendo formado a Fazenda Benevolência, em terras cortadas pelo Rio Pardo em seu terço final. Maria do Carmo Monteiro de Barros, como foi dito acima, formou a Fazenda do Desengano. Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda formou a Fazenda da Memória cujo registro permite inferir que se estendia da divisa atual do distrito de Providência até os limites da Fazenda da Onça, que então era administrada por dois Lopes da Rocha, familiares do formador da Fazenda, Bernardino José Machado. Levasseur e Botelho Falcão eram dois imigrantes recém-chegados ao Feijão Cru, com pequenas propriedades localizadas na divisa da então área urbana. O Padre Solleiro tinha recebido a doação de Joaquim Ferreira Brito para construir “a casa do Cura”, conforme identificado por pesquisa de Barroso Júnior. Manoel Rodrigues Coelho havia comprado dois alqueires de Joaquim Ferreira Brito, terras que faziam divisa com a dita Fazenda da Cachoeira, com a então área da Vila e com a Fazenda da Onça.

Antiga Sede da Fazenda Desengano – Acervo Próprio

Ao longo dos anos seguintes, parte do Patrimônio de São Sebastião parece ter sido alienado a terceiros, sem que se tenha encontrado os competentes instrumentos de compra e venda. Até que, em 1927, uma lei municipal veio esclarecer a etapa final de transferência das terras. Segundo a Lei nº 417, de 18 de março de 1927, a Câmara Municipal havia autorizado seu Presidente, Carlos Coimbra da Luz, a adquirir os terrenos da Igreja e vendê-los em hasta pública, junto com “o terreno do lixo” que ainda não foi adequadamente identificado, além de lotes da então “rua Thebas, recentemente aberta, e outros terrenos da área urbana” também não identificados.

Parte baixa da atual Rua Presidente Carlos Luz – Acervo Espaço dos Anjos

Importante esclarecer que, naquele momento, as legislações estadual e federal permitiam que as administrações municipais incorporassem patrimônio imobiliário por diversos motivos e através de variados instrumentos legais. Sabe-se, por exemplo, que alguns anos antes a Câmara Municipal havia incorporado o prédio do primeiro Teatro de Leopoldina, vendido em 11 de agosto de 1926 ao negociante Salvador Rodrigues y Rodriguez que o reconstruiu e inaugurou com o nome de Cine-Theatro Alencar no dia 14 de janeiro de 1928.

Primeiro Prédio do Theatro Alencar – Acervo Gazeta de Leopoldina

Na mesma época, a Câmara Municipal de Leopoldina fez outras aquisições que lhe permitiram abrir novas ruas na área urbana e também investir na expansão da rede de fornecimento de energia elétrica para os distritos.

Mas esta já é carga para outra viagem. Não necessariamente a próxima, que retomará o percurso pela imigração italiana até as comemorações, em 2020, dos 110 anos da Colônia Agrícola da Constança e dos 160 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos a Leopoldina.

Parabéns, Leopoldina, pelos 165 anos de emancipação do Feijão Cru!


Fontes de Referência:

Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, nºs 9, 10, 81 e 91.

Lei nº 412 de 16 de março de 1927. Escritura Transcrita na Mensagem do Prefeito de Leopoldina 1928 p. 70-73.

Mensagem do Presidente da Câmara Municipal de Leopoldina (Leopoldina-MG), 1929 p. 70.

BARROSO JÚNIOR. Leopoldina e seus primórdios. Rio Branco, MG: do autor, 1943, p.45.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 379 no jornal Leopoldinense de 27 de abril de 2019

 

Documentário ‘Imigrantes Italianos – a trajetória dos colonos que viveram em Leopoldina’.

SINOPSE:

O historiador e genealogista José Luiz Machado Rodrigues (Luja), fala sobre os resultados dos estudos realizados em conjunto com Nilza Cantoni, explicando detalhes sobre a chegada dos imigrantes no Brasil e no município de Leopoldina, onde foi formada a Colônia Agrícola da Constança. Nestes primeiros episódios, o entrevistado relata como ocorreu a imigração, demonstrando a trajetória que os colonos tiveram até chegar em Leopoldina. Também são esclarecidos detalhes de locais onde funcionaram instituições, fazendas, colônias, lotes, entre outros.

FICHA TÉCNICA:

Produção: Jornal Leopoldinense

Pesquisa: Nilza Cantoni e José Luiz Machado Rodrigues

Diretor: Luiz Otávio Meneghite

Filmagem e edição: João Gabriel Baía Meneghite

Revisão: Luciano Baía Meneghite

Publicidade: Sérgio Barbosa França

PATROCÍNIO:

Energisa

ACIL – Associação Comercial de Leopoldina

Hotel Minas Tower

Semar Assessoria Contábil

Colégio Equipe

Fonte Supermercados

APOIO CULTURAL:

Secretaria Municipal de Cultura de Leopoldina

http://www.cantoni.pro.br

AGRADECIMENTOS:

Nilza Cantoni

José Luiz Machado Rodrigues

Júlio Antonio Carraro Mendonça

José Lindionor Rocha

Pedro Augusto Machado Monteiro

Victor Guilherme Pereira Fernandes

Eduardo Mantovani

Luciana Monteiro

Rodrigo Ramos

Luciano Baía Meneghite

Sérgio Barbosa França

Té Bonin

Geraldo Guedes Couto

Alberto Ramos de Oliveira

Jairo Seoldo

Amanda Almeida

Cristiano Fófano

Jeverson Carelli

Welington Bonin Caetano

Aparecida Tigre

Luzia Tigre

Odilon Rodrigues Machado

REPRODUÇÃO DE IMAGENS

BFI – Film Forever

cantoni.pro.br

Museu da Imigração

Memorial do Imigrante

Arquivo Público Mineiro

Instituto Agrônomico de Campinas

Editora Unesp

Coleção Leopoldino Brasil

Jornal Minas Geraes

Jornal O Leopoldinense

Acervo IMS

Acervo Família Levy

Estadão.

Livro “Immigrants on the land”

Instituto Nacional do Cinema Educativo

TRILHAS SONORAS

‘Mérica, Mérica’, de Angelo Giusti Interprete: Jeverson Carelli Bateria: Diego Spilmann Baixo: Giovani Fistarol Violão: Sandro Pedroni Acordeon: Nelcir Carelli

Audio Library do Youtube

Trieste

St Francis

Spanish Rose

Fresh Fallen Snow

Imigrantes Italianos em Leopoldina

Documentário sobre imigrantes italianos será exibido no dia 22 de fevereiro.

A entrada é franca, no entanto, os interessados devem buscar o seu ingresso na ACIL, instituição que organiza a Festa do Imigrante Italiano.

No dia 22 de fevereiro, serão exibidos no Centro Cultural Mauro de Almeida Pereira os primeiros episódios do documentário sobre a trajetória dos imigrantes italianos que viveram em Leopoldina.

Trata-se de um série documental que será lançada pelo Jornal Leopoldinense, baseada nas pesquisas de Nilza Cantoni e José Luiz Machado Rodrigues, colunistas do periódico onde são publicados artigos sobre o tema há mais de 15 anos.

Devido a capacidade limitada de 80 pessoas por sessão, o filme será exibido em dois horários: às 20:00 e 21:00 horas. A entrada é franca, no entanto, os interessados devem buscar o seu ingresso na Associação Comercial de Leopoldina, instituição que organiza a Festa do Imigrante Italiano.

Sinópse

O historiador e genealogista José Luiz Machado Rodrigues (Luja), fala sobre os resultados dos estudos realizados em conjunto com Nilza Cantoni, explicando detalhes sobre a chegada dos imigrantes no Brasil e no município de Leopoldina, onde foi formada a Colônia Agrícola da Constança.

Nestes primeiros episódios, o entrevistado relata como ocorreu a imigração, demonstrando a trajetória que os colonos tiveram até chegar em Leopoldina. Também são esclarecidos detalhes de locais onde funcionaram instituições, fazendas, colônias, lotes, entre outros.

Mais episódios poderão serão produzidos

O objetivo é produzir mais episódios sobre o tema, devido a extensão da pesquisa. Segundo João Gabriel Baía Meneghite, produtor do documentário, existe um vasto referencial bibliográfico de autoria dos pesquisadores Nilza e José Luiz, que poderão ser transformados em novos episódios.

“Além disso, estamos mantendo contato com algumas famílias para ouvi-las e registrar as histórias de seus antepassados. Num primeiro momento, percebi que grande parte desconhece essas histórias e curiosidades dos seus avós e bisavós. Outros, porém, guardam na memória casos e costumes que podem enriquecer os próximos episódios do documentário. A Festa do Imigrante Italiano vai nos possibilitar estreitar contatos para as próximas entrevistas”, explicou.

Convite: Festa do Imigrante Italiano

No dia 22 de fevereiro de 2019, como parte das comemorações pela passagem do Dia Nacional do Imigrante Italiano, o jornal Leopoldinense lançará o vídeo A Trajetória dos Colonos que viveram em Leopoldina, baseado no trabalho de pesquisa de Luja Machado e Nilza Cantoni.

102 – Escritores Leopoldinenses

Na comemoração dos 164 anos de emancipação administrativa de Leopoldina, um tema pouco comentado é o destaque. Trata-se da produção bibliográfica de autores leopoldinenses, do passado e do presente.

De início vale ressaltar que são considerados como tal, os aqui nascidos e todos os que viveram no município em algum momento de suas vidas.

Talvez alguns leitores se surpreendam ao constatar que mais de uma centena de autores, com pelo menos um livro publicado, dos mais variados gêneros, vive ou viveu em Leopoldina. Sejam poesias, crônicas do cotidiano, romances ou contos, assim como livros técnicos de contabilidade, economia, direito ou livros de memórias. Desde o grande memorialista que foi Francisco de Paula Ferreira de Rezende, que dedicou uma parte do livro “Minhas Recordações” à Vila Leopoldina, para a qual se transferiu nos idos de 1860, mais de uma dezena destes autores publicaram obras que contam, cada uma a seu modo, um pouco da história da nossa terra.

Se os olhos se voltarem para as obras literárias, o número será significativamente maior. Pois aqui viveu não só o poeta Augusto dos Anjos, patrono da Academia Leopoldinense de Letras e Artes, como também o grande poeta português Miguel Torga, que aqui viveu na juventude e, o leopoldinense Dilermando Cruz, que em 1896 publicou “Primeiras Rimas”.

Para a área de direito, dado o grande número de autores foi necessária uma escolha representativa. No caso, Tito Fulgêncio Alves Pereira, por ser autor de uma das mais antigas obras impressas pela Typographia da Empresa Gazeta de Leopoldina.

Também da área técnica é justo lembrar o médico e Agente Executivo Municipal (Prefeito) Joaquim Antonio Dutra, um dos mentores da lei que criou a assistência aos alienados em Minas Gerais e, o professor Juvenal Carneiro, destaque na área da contabilidade.

Mas não se pode deixar de citar um personagem que está, injustamente, entre os mais esquecidos de Leopoldina: Francisco Martins de Almeida. Ou simplesmente, Martins de Almeida, que ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e tantos outros expoentes da literatura nacional, editou “A Revista”, marco do Movimento Modernista, em Belo Horizonte, na década de 1920. Um escritor que foi o representante de Leopoldina na inquietante travessia da literatura brasileira em direção aos novos tempos e que é hoje totalmente desconhecido dos conterrâneos.

Importante lembrar, ainda, o grande incentivador da pesquisa realizada em torno do assunto, Joaquim Custódio Guimarães. O seu livro “Escritores Leopoldinenses” foi o trabalho que serviu de referência para o estudo atual. A ele, portanto, um agradecimento especial por ter sido o primeiro na cidade a valorizar os autores leopoldinenses.

Certamente estiveram na origem do prazer da escrita muitos outros técnicos,  poetas e prosadores da terra do Feijão Cru.

Trazer estes nomes ao conhecimento de todos e homenageá-los é o objetivo da ALLA, que entende ser esta uma maneira de mostrar que o codinome de Athenas da Zona da Mata surgiu do fato concreto de Leopoldina ter contado, sempre, com bons colégios e ter reunido um número expressivo de pessoas preocupadas com a educação e a cultura do lugar.

E na oportunidade da realização da primeira Festa Literária de Leopoldina, que será realizada entre os dias 19 e 26 de maio, lançar o Dicionário de Autores Leopoldinenses tornou-se uma obrigação para os responsáveis por esta coluna. Um sucinto trabalho de resgate histórico que, num universo de mais de uma centena de verbetes, relaciona os esboços biográficos dos autores vinculados a Leopoldina.

É provável que as pesquisas realizadas não tenham esgotado o assunto e é certo que o trabalho não reúne todos os livros publicados pelos nomes elencados. Mas foram resgatadas obras de pessoas velhas e jovens. De autores de primeira obra e de nomes consagrados até internacionalmente. De cidadãos simples ou acadêmicos daqui e de acolá, merecedores da atenção de todos os leitores deste Jornal.

Assim, para encerrar, aqui fica o convite a todos os leitores para assistirem a uma palestra sobre estes escritores, no dia 26 de maio, a partir de 10 horas no Centro Cultural Mauro de Almeida Pereira e, em seguida, participarem do encontro com muitos destes personagens, em tenda montada na Praça Felix Martins, onde ocorrerá alguns lançamentos de livros.

Compareçam! Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 354 no jornal Leopoldinense de 27 de abril de 2018

101 – Pelos 164 anos de emancipação de Leopoldina: as Exportações da Produção do Feijão Cru

O Trem de História mostra hoje um pouco dos diferentes meios e modos de escoamento da produção desde os primórdios do Feijão Cru e da Vila de Leopoldina, passando pelos primeiros tempos da cidade e os dias atuais.

Construção de Ponte sobre o Rio Pomba, entre a estação ferroviária Vista Alegre, município de Leopoldina, e o distrito de Vista Alegre, município de Cataguases.

Quando se pensa em contar a história da exportação de produtos de Leopoldina vem logo a imagem dos vagões de trens abarrotados de café, caminhões pipas transportando leite ou, carrocerias lotadas de cereais e engradados com aves vivas. Se história de um tempo mais recente, com negócios geridos por exportadores versados nos ensinamentos do conterrâneo José Augusto de Castro(1), certamente se imaginarão carretas refrigeradas e caminhões baú.

 Mas houve um tempo no qual a produção partia do Feijão Cru por caminhos bem diferentes. Se a carga era de animais vivos, boiadas principalmente eram tocadas a pé pelas estradas por treinados boiadeiros. Se cargas da lavoura ou dos engenhos, eram geralmente levadas por tropas de muares e carros de bois para o Registro do Porto Novo do Cunha, na atual Além Paraíba ou, para o Registro do Porto da Barra do Pomba, localizado na foz do rio deste nome no Paraíba do Sul, em território hoje pertencente à cidade de Aperibé (RJ). Isto, muito antes da presidência da república ser ocupada por Washington Luís (1926 a 1930), deposto pelo Estado Novo, ter tido como lema de governo o seu célebre “Governar é abrir estradas”.

Porto das Barcas, Aperibé, RJ: neste local funcionava o porto da foz do Rio Pomba no Rio Paraíba do Sul, por onde se escoava a produção do Feijão Cru até 1870.

Entre 1841 e 1880, tais partidas de mercadorias, conforme documentos do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro(2) relativos à exportação de produtos da região de Leopoldina para a Corte, seguiam estes caminhos. Principalmente as mais antigas, de 1841 e 1842, que passaram pelo Registro de Porto Novo do Cunha, em cujo termo de abertura consta a declaração de que o livro serviria ao registro das guias de remessa dos gêneros sujeitos a imposto.

Vale lembrar que de tais guias constam itens como: açúcar, azeite, café, cavalo, feijão, galinha, polvilho, queijo, toucinho e varas de pano (provavelmente tecido grosseiro de algodão). Mas já para o ano de 1859 só foram encontrados mapas da arrecadação de imposto sobre o café exportado através daquele Porto para a Província do Rio de Janeiro, não sendo possível identificar os exportadores e nem mesmo assegurar quais deles eram da então Villa Leopoldina.

A partir de 1860, num livro do Registro do Porto da Barra do Pomba, de Aperibé (RJ), os registros passam a ser mais precisos e já se consegue identificar a propriedade exportadora e o café como principal produto comercializado.

Da Villa Leopoldina, excluídos seus então distritos Angu, Capivara e Laranjal, naquele ano de 1860 os seguintes produtores exportaram café para o porto de São Fidelis-RJ(3), de onde seria revendido para a Corte e outras províncias: Agostinho Luiz de Menezes; Antonio Bittencourt de Castro; Antonio José Rodrigues; Bento Pereira da Cruz; Caetano Pedro de Matos; Carlos Augusto Cabral; Cesário José dos Reis; Diogo Gonçalves de Medeiros; Felicíssimo Vital de Moraes; Francisco Antonio de Lima; Francisco Pereira da Ponte; Jacinto Monteiro de Barros; João Paulo Coutinho; Joaquim Corrêa; Joaquim José da Costa Cruz; Joaquim Machado Neto; Joaquim Manuel; José Ignacio Couto; José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros; José Rodrigues Gomes; José Tavares de Oliveira; José Teixeira Lopes Guimarães; Luiz Manoel de Castro e Silva; Maria Antonia; Maria do Carmo Monteiro de Barros; Mariano Pacheco Couto; Thomaz Furtado Branquinho; e, Vicente Ferreira Monteiro de Barros.

Em 14.10.1864, o capitão Alfredo de Barros e Vasconcellos, Diretor de Obras Públicas da Província de Minas Gerais, e Antonio Rodrigues da Costa, Engenheiro Chefe, cumprindo as ordens de 11 de abril e 6 de maio daquele ano, encaminham à Corte planta e orçamento para o reparo e melhoramento indispensável da estrada que do ponto fronteiro à villa de S. Fidelis segue à Província de Minas Geraes pela margem esquerda dos rios Parahiba e Pomba, passando pela freguesia de Santo Antonio de Padua do mesmo município de S. Fidelis.

Interessante observar que, no mesmo documento, o Capitão Alfredo pondera ser uma obra que excede à verba decretada e informa que na margem fronteira corre paralelamente (até a foz do Pomba) uma outra estrada por planicie soalheira, e que além de dous ramaes que lança para as freguesias de São Sebastião do Alto e Santa Rita do Rio Negro de Cantagallo, por onde desce muito café desta provincia, vai directamente pela margem direita do Parahiba entroncar na estrada de ferro de D. Pedro 2º no Porto Novo do Cunha. Estrada que receberá melhoramentos já orçados a 20 de março de 1862 e que necessariamente teem de ser feitos, podendo ella dispensar a outra.

Chegada a era da Estrada de Ferro, a exportação deixou de ser feita pelo leito dos rios e estradas de acesso a eles e, com isso, os controles ou recebedorias passaram para as estações. A partir daí, no território pertencente a Leopoldina, esse controle passou a ser feito pelas estações inauguradas entre dezembro de 1874 e julho de 1877 – Providência, São Martinho, Santa Isabel (hoje Abaíba), Recreio, Campo Limpo (hoje Ribeiro Junqueira), Vista Alegre e Leopoldina. Na Estação de Campo Limpo, segundo os documentos pesquisados, havia armazém com capacidade para estocar a produção até o momento do embarque. E pelo livro de 1880 dessa estação, o mais antigo existente no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, observa-se que o café permanecia como principal produto de exportação e os produtores eram dos municípios de Leopoldina, São Paulo do Muriaé e Cataguases, não havendo identificação de cada um deles.

Estação ferroviária em Ribeiro Junqueira, Leopoldina, MG

Mas exportação através da linha férrea já é uma outra história para uma futura viagem. Por hoje o Trem de História fica por aqui.


Fontes do consulta:

1 – CASTRO, José Augusto de. Exportação – Aspectos Práticos. 4. ed. São Paulo: Aduaneiras, 2001

2 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Registro do Porto Novo do Cunha 1841-1842 e 1859; Registro da Barra do Pomba, 1860; Fundo Presidência da Provincia do Rio de Janeiro, Notação 439, 1864;  Registro do Campo Limpo, 1880

3 – São Fidelis (RJ) era a cidade de destino do memorialista Francisco de Paula Ferreira Rezende, autor de Minhas Recordações, quando, em 1861, chegou a Leopoldina.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 354 no jornal Leopoldinense de 27 de abril de 2018

Colônia Agrícola da Constança: 108 anos

Lotes da Colônia Agrícola da Constança criada em 12 de abril de 2010

Atualizado em abril 2018

Lote Colono Entrada
1 Paula, João Baptista de Almeida 1 7 1909
2 Passos, Manoel José dos 15 7 1910
2 Pardal, Manoel Gomes 25 11 1911
3 Macedo, Francisco Carneiro de 15 7 1910
4 Lomba, Jesus Salvador 20 7 1910
5 Lorenzi, Demetrio de 26 2 1911
5 Meccariello, Carlo 26 8 1911
6 Campagna, Felice Antonio 21 6 1911
7 Carraro, Vittorio 25 11 1911
8 Fofano, Paschoal Domenico 14 6 1910
9 Meneghetti, Felice 14 6 1910
10 Santos, Augusto 14 6 1910
11 Balbino, Pietro 28 12 1910
12 Colle, Francesco 28 12 1910
13 Pittana, Giuseppe 28 12 1910
14 Sampietro, Giovanni 28 12 1910
15 Pompermayer, Modesto 11 1 1911
16 Montes, Auriel de Rezende 15 7 1910
17 Reiff Júnior,Francisco Antonio 15 7 1910
18 Silva, Jeronymo José da 15 7 1910
19 Carvalho, João Pacheco de 15 7 1910
20 Marcato, Luigi 28 12 1910
21 Buciol, Angelo 28 12 1910
21 Abolis, Francesco 26 10 1911
22 Raipp, João Simão 20 10 1910
22 Rodrigues, Antonio Augusto 4 6 1924
23 Bonin, Fortunato 25 11 1911
24 Travain, Eugenio 11 1 1911
25 Meneghetti, Viúva de Luigi 14 6 1910
26 Gottardo, Giovanni Baptista 14 6 1910
27 Fofano, Carlo Batista 14 6 1910
28 Abolis, Leopoldo 11 1 1911
28 Montan, Antonio 17 1 1911
29 Boller, Giovanni 26 2 1911
30 Miehe, Heinrich 5 10 1910
30 Lupatini, Giovanni ? ? ?
31 Krause, Herman 27 1 1910
31 Boller, Luigi 26 2 1911
32 Troche, Bruno 27 1 1910
32 Boller, Giuseppe 26 2 1911
33 Zessin, Frederick 10 12 1909
34 Stefani, Eugenio 15 6 1910
35 Casadio, Giuseppe 15 6 1910
36 Ferreira, Francisco Dias 15 6 1910
37 Cartacho, Manoel da Cruz 30 1 1910
38 Secanelli, Angelo 30 3 1911
39 Lupatini, Giovanni 10 8 1911
40 Costa, José Manoel da 25 11 1910
41 Mesquita, Augusto 4 12 1909
42 Ferraro, Pasquale 26 2 1911
43
44 Schaden, Franz 27 1 1910
44 Rottemberg, Rudolf 19 10 1910
45 Schill, August 28 11 1909
45 Fischer, Gustav 26 8 1911
46 Ketterer, Franz 28 11 1909
47 Figueiredo, Julio Teixeira 16 6 1910
48 Nejedlo, Franz 8 12 1909
48 Klaiber, João Jorge 19 10 1910
49 Zessin, Wilhelm 28 11 1909
50 Krauger, August 28 11 1909
50 Beatrici, Pietro 26 2 1911
51 Lang, Ernest 27 1 1910
52 Hensel, Mathias 28 11 1909
53 Thier, Carl 8 12 1909
53 Beatrici, Felice 26 2 1911
54 Richter, Hermann 15 1 1910
55 Anzolin, Giovanni Ottavio 11 1 1911
56 Giuliani, Candido 20 7 1910
57 Anzolin, Basilio 11 1 1911
58 Carminati, Giovanni 6 1910
59 Carminati, Giovanni 6 1910
59 Pedroni, Angelo 14 6 1910
60 Sellani, Sante 11 6 1910
60
61 Brando, Biase 31 10 1911
62 Carvalho, Pedro Pacheco de 18 12 1911
63 Pardal, Manoel Gomes 25 11 1911
64 Pardal, Manoel Gomes
65
66 Rodrigues, Antonio Augusto 1920

O estudo sobre a Colônia Agrícola da Constança teve início na década de 1990 e foi concluído em 2010, quando publicamos os resultados em diversas mídias.

Nos últimos oito anos, no desenvolvimento de outros projetos relativos à história de Leopoldina foram encontrados indicadores que nos levaram a novas fontes e, consequentemente, à revisão de algumas informações publicadas. Esta atualização contém alterações nos nomes dos colonos, corrigidos de acordo com as novas fontes a que tivemos acesso.

Abril 2018

Luja Machado e Nilza Cantoni