151 – As decisões do governo Cunha Menezes

Seguindo viagem com os pioneiros, o Trem de História hoje passeia um pouco pelo acontecido antes da ocupação oficial, pelo homem livre, da região que abrange o território que constitui o município de Leopoldina. Um tempo em que todo o leste da província das Minas era extensa “zona proibida”, a mata fechada à ocupação para evitar desvios do ouro.

Ressalte-se de início, que muitos autores se debruçaram sobre o assunto, permitindo que se tornassem mais ou menos conhecidas as estratégias utilizadas no processo de abertura de novas fronteiras agrícolas na Mata Mineira.

Mas no caso particular de Leopoldina, é imperativo conhecer as decisões administrativas do governo da Capitania na segunda metade do século XVIII para compreender o ocorrido. Afinal de contas, foi nesta época que a região hoje conhecida como zona da mata sul foi oficialmente aberta ao povoamento, impulsionada principalmente por decisões do governador Cunha Menezes.

Segundo Xavier da Veiga[1], Luís da Cunha Menezes foi o 9º governador efetivo da Capitania de Minas Gerais e em seu governo “fez toda a sorte de alicantinas[2] e desmandos”. E o mesmo autor ainda registra que foi da época de seu governo o recebimento de dois alvarás bastante incisivos. Um datado de 10.01.1785, ordenando ao Governador de Minas Gerais “atacar contrabandistas em Macacu” (RJ). E o outro, de 26.01.1785, dando ordem “para abolir pela brandura ou por violência” as fábricas, manufaturas etc nesta Capitania.[3] O que dá mostra do nível dos problemas que teve que enfrentar.

Mas, conforme declarou Celso Falabella[4], por mais arbitrário e confuso que tenha sido Luís da Cunha Menezes, que governou a Capitania entre 1783 e 1788, foram dele as ordens para a realização de duas importantes diligências que, de fato, abriram os sertões do leste ao homem livre.

Por outro lado, é necessário fazer um esforço de abstração para abandonar a realidade atual e mergulhar num tempo em que a mão humana contava com poucos equipamentos que lhe facilitassem a jornada por estas terras só conhecidas pelos nativos. Num tempo em que não era fácil sair de um lugar conhecido, com alguma estrutura disponível, e embrenhar-se literalmente na mata em busca de um futuro incerto, como fizeram as pessoas que primeiro entraram na região do Feijão Cru. Pessoas que sonharam com melhores condições de sobrevivência e, movidos pela confiança na própria capacidade de progredir e estimulados por narrativas que sempre chegaram aos mais longínquos rincões, jogaram seus pertences nas costas, em carroças ou carro de bois e saíram caminhando em busca de um hipotético pote de ouro que estaria além do arco-íris. Trilhando por onde os caminhos eram raros; rios navegáveis, poucos; e, informações seguras, quase nenhuma. De real e concreto, restava-lhes apenas a alternativa de seguir a “picada” aberta por tropeiros ou as inúmeras trilhas que os indígenas sempre abriram nas florestas.

E sobre estas trilhas, aqui vale uma observação. A história tradicional costumava incensar alguns personagens, dando-lhes a autoria deste ou daquele caminho. Atualmente, isto já não se faz. Graças a pesquisas cuidadosas, hoje se sabe que vias como o nosso muito conhecido Caminho Novo foram formadas ao longo de centenas de anos em que os naturais da terra, coletores por natureza, se movimentavam em busca da safra disponível nas diferentes épocas do ano. Assim também ocorreu com as vértebras ou, vicinais do Caminho Novo que se ramificaram pela zona da mata. E não só em Minas, como se constata em Sérgio Buarque de Holanda ao declarar[5] que “mesmo antes da colonização europeia, algumas trilhas de índios [não eram] mais do que picadas incultas e intratáveis”.

A história dos Pioneiros de Leopoldina continua, mas por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima edição virão as diligências de Pedro Afonso Galvão de São Martinho e seu grupo. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 404 no jornal Leopoldinense de 15 de maio de 2020

Fontes consultadas:

[1] VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras 1664-1897. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998. p.885.

[2] Antigo termo jurídico, alicantina significa ardil, trapaça.

[3] VEIGA, José Pedro Xavier da. Efemérides Mineiras 1664-1897. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998. p.139.

[4] Castro, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões do leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987. p.18-19

[5] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções e Capítulos de expansão paulista. 4. ed. São Paulo: Companhia daLuiz da Cunha fala Letras, 2014. p.44

149 – A terra e as atividades laborativas

No último dia 12 de abril a Colônia Agrícola da Constança completou os seus 110 anos de fundação. Uma data importante para a imigração italiana em Leopoldina pelo muito que esta Colônia representou para a cidade.

O Trem de História de hoje retroage um pouco e começa contando que, antes de se estabelecer por conta própria, antes de adquirir lote na Colônia ou em algum outro núcleo, o imigrante agricultor que veio para Leopoldina trabalhou em alguma fazenda do município. Isto porque a regra era o fazendeiro contratar o imigrante para cuidar dos cafezais.

É bem verdade que do contrato geralmente constava a permissão para o imigrante cultivar os cereais necessários à alimentação da família, no meio do cafezal. E os depoimentos colhidos mencionam, com certa frequência, exemplos de colonos que iam mais além e faziam com que esta produção de mantimentos suprisse as necessidades próprias e ainda sobrasse uma parte para ser vendida. Muitas das vezes vendida para o próprio fazendeiro.

Com esta prática ocorria que, à remuneração advinda da venda do café colhido, o colono somava esta renda auferida com o excedente da colheita dos outros cereais produzidos entre os pés de café. Somando-se a este valor as eventuais “diárias” por trabalhos extraordinários, o colono tinha uma certa folga e passava a alimentar os sonhos. Isto porque, como já foi dito anteriormente, a família imigrante tinha por objetivo adquirir seu próprio pedaço de terra.

Vale reforçar que o pagamento por aquilo que cultivavam, além dos cafezais, era independente e não era a única renda adicional dos imigrantes. Eles contavam, também, com recebimentos por um sem número de tarefas outras que executavam para o fazendeiro, tais como a feitura de telhas e tijolos, serviços de carpintaria, tarefas como pedreiros, carreteiros, podadores, ferreiros e outros serviços, em geral contratados sob a forma de empreitada, conforme relatos de descendentes.

Somava-se a isto o fato de que o pagamento pelo trato do cafezal não sofria interferências no caso de condições naturais adversas, o que fazia desse ganho a fonte para abastecer as despesas ordinárias, permitindo que praticamente todas as receitas extras se direcionassem para os “colchões” e demais formas utilizadas para guardar o dinheiro que sobrava.

É certo que a grande maioria dos imigrantes amealhou poupança suficiente para a compra da propriedade que almejava, ainda que de início fosse apenas um pequeno lote de terras bastante exauridas pelas lavouras dos seus antigos donos.

Na Colônia Constança estes lotes mediam aproximadamente cinco alqueires ou, 25 hectares de terras. Nas colônias particulares eram geralmente concedidas áreas menores para o colono explorar como desejasse. Mas dois exemplos a seguir comprovam que, por vezes, estas áreas chegavam a ser bem maiores. Um imigrante que viveu em fazenda do distrito de Ribeiro Junqueira adquiriu, depois de alguns anos, o lote onde residia desde que chegara a Leopoldina. Segundo o registro dessa propriedade, ela contava com “4.356 ares ou 9 alqueires e ficava na Fazenda da Piedade”. Do inventário de outro imigrante constou uma propriedade medindo “7.260 ares ou 15 alqueires”.

Quanto ao que se produzia nestas terras, sabe-se, através de Relatório[1] da Colônia Agrícola da Constança, que ali se cultivava “milho, arroz, feijão, hortaliças e arvores fructiferas” e que os lotes eram ocupados pelos compradores e também por “os aggregados por meiação, em virtude de contracto com os ex-proprietários das fazendas”. É possível que nas colônias particulares, ou seja, nas fazendas do município, a produção fosse menos diversificada, dado o interesse dos fazendeiros no plantio quase exclusivo do café. Entretanto, desde 1888 a Inspetoria Geral de Imigração em Minas Gerais se empenhava na “regeneração do trabalho agrícola”, conforme declarou o Inspetor Geral Diogo de Vasconcelos[2]. Isto significava, basicamente, estímulo à diversificação da produção. E como o governo subsidiava a vinda dos imigrantes, os fazendeiros precisavam cumprir suas determinações, entre elas a do plantio de alimentos.

Registre-se que, diversificada ou não a produção, um percentual dela era destinado à liquidação de empréstimos dos colonos, principalmente os relativos à aquisição da terra. Na Colônia Constança o financiamento dos lotes era amortizado pela entrega de 20% da colheita. Já na fazenda onde trabalharam os ancestrais de um declarante, 20% da colheita que faziam na pequena área que lhes era concedida eram entregues ao proprietário a título de pagamento de despesas.

Embora a mecanização da lavoura fosse quase desconhecida na região, é bom lembrar que nas colônias oficiais o estado fornecia algumas máquinas e equipamentos, além de sementes. Já nas colônias particulares, nem sempre os imigrantes podiam contar com tal suporte. Nos depoimentos obtidos foram comuns apenas as menções a carro de bois, carroças, arados e ferramentas menores, algumas trazidas da terra natal. Já os moinhos de fubá e monjolos, geralmente movidos a água, existiam não só na Constança como também em propriedades particulares.

O Trem de História de hoje fica por aqui. Na próxima viagem um novo tema será abordado. Até lá!

[1] Relatório da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização de Minas Gerais, 1909, disponível no Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte.

[2] O Mar de Espanha (Mar de Espanha, MG), 18 nov 1888, ed 141, p.1-2-col.4, 1-2.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 402 no jornal Leopoldinense de 16 de abril de 2020

148 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Trabalho, religião e lazer

Em artigos anteriores do Trem de História já ficou dito que os imigrantes italianos eram afeitos e dedicados ao trabalho. E as entrevistas realizadas com muitos deles permitiram observar, inclusive, uma boa divisão de tarefas, comum na maioria dos lotes.

Eram reservados aos homens principalmente os trabalhos mais pesados e os mais distantes da casa, tais como: a derrubada de árvores para o aproveitamento da madeira, o destocar as áreas a serem cultivadas e o preparo dos brejos e alagados para o plantio do arroz. Aos homens também estavam reservados os trabalhos de confecção de móveis e utensílios e a construção de casas, fazendo surgir no município a oferta de excelentes profissionais marceneiros, carpinteiros, “carapinas”, serradores (hábeis no manejo do golpeão, ou “gurpião”), pedreiros e mestres de obras.

Um dos entrevistados informou que seu avô era um bom artesão em latoaria, fazendo tachas e demais utensílios de uso cotidiano.

Mas se cabia aos homens todas essas tarefas, às mulheres competiam os muitos afazeres da casa e do terreiro, além de cuidar dos filhos. Bordavam pouco, costuravam o necessário para atender a toda a família e cozinhavam muito e, via de regra, bem. Além da cozinha e do cuidado com a casa, eram ainda responsáveis pela horta, jardim, galinheiro, chiqueiro, limpeza do terreiro (em geral com enormes vassouras de ramos ou de galhadas de bambu) e pelo ‘retiro’, ou seja, pela ordenha das vacas. Isto sem falar nos muitos casos de mulheres que dividiam, em igualdade de condições com os seus maridos e filhos, todas as tarefas que surgiam na propriedade.

Cumpridas as rotinas de trabalho e muitas vezes até mesmo durante estas, os imigrantes italianos demonstravam sua religiosidade. Confirmavam que muitos deles trouxeram da Itália uma forte influência religiosa cristã.

E na Colônia Agrícola da Constança este fato materializou-se de forma muito clara quando, dois anos após a criação da Colônia, um grupo de oriundi se organizou para a aquisição do terreno para construção de uma Capela em honra de Santo Antônio de Pádua ou, Padova. Que três anos mais tarde, em 1915, estava concluída, principalmente pelas mãos desses imigrantes, aquela que ainda hoje é mais conhecida pelo carinhoso apelido de “Igrejinha da Onça”.

E além da religiosidade propriamente dita, comum também em outros núcleos de imigrantes italianos formados em fazendas dos distritos de Piacatuba, Providência, Tebas e Ribeiro Junqueira, onde se reuniam frequentemente nas igrejas ou capelas próximas, esta Capela de Santo Antônio, em especial, muito representou na vida dos imigrantes que se instalaram na Colônia Agrícola da Constança e redondezas. Principalmente porque era em torno dela que se realizavam quase todas as festividades das quais participavam esses imigrantes. Era ali que eles se divertiam nas festas religiosas e nos encontros com parentes, vizinhos e conterrâneos. Era ali que participavam da festa do padroeiro, “a Festa de Santo Antônio” também conhecida como a “Festa da Onça” e de eventuais casamentos e batizados.

Aqui vale um comentário sobre um tema que vez por outra ressurge.

Frequentemente encontram-se referências a valores que os imigrantes remetiam para a Itália. E existem diferentes publicações que mencionam os diversos motivos por trás dessas remessas que os imigrantes faziam: desde o pagamento de um empréstimo obtido com a própria família, passando pela promessa que fizeram de continuar ajudando-os, até as doações para a paróquia na qual nasceram.

Em Leopoldina podem ser citados, a título de exemplo, dois casos de colonos da Fazenda Paraíso, que fizeram uma pequena remessa[1] para a Itália alguns meses antes do destinatário vir para o Brasil, o que leva a crer ter sido uma ajuda para a viagem.

Mas outras hipóteses de motivação para estas transferências podem ter existido. Provavelmente a “tenacidade com que os emigrados permanecem ligados às tradições italianas”, citada por Ianni[2] em Relatório de um parlamentar em 1911, tenha sido praticada aqui através das festas religiosas. E é possível, por exemplo, que a devoção dos emigrados tenha se transferido para o padroeiro local, como parece indicar a compra do terreno e a construção da Igreja de Santo Antonio de Pádua, do bairro da Onça.

Passados os compromissos com o trabalho e a religião surgia, então, o tempo para o lazer. E o pouco lazer que tinham, além dos encontros familiares e dos festejos religiosos, se limitava aos jogos de malha, esporte no qual até a bem pouco tempo Leopoldina se destacou; o futebol, praticado nos terreiros e nas várzeas onde se demarcavam campos; e, às chamadas mesas de carteados, montadas nas “vendas” ou, na casa de amigos.

Alguns apreciavam as caçadas ao tatu e à paca, geralmente realizadas nas noites de lua cheia, assim como a apreensão de passarinhos como o canário da terra, o coleiro, o pintassilgo, o melro e o curió, apreciados pela beleza da plumagem e pelo canto.

Quanto ao futebol, há notícias de equipes formadas em diversos núcleos que vez por outra disputavam torneios entre elas. Na Colônia Constança, durante muito tempo existiu o time de futebol denominado Boa Sorte Futebol Clube, que chegou a disputar campeonatos amadores na cidade. Durante muitos anos o Boa Sorte foi mantido e comandado por João Bonin. E ainda hoje seus herdeiros, muitos dos quais ex-jogadores do time, ainda preservam os troféus e objetos do Clube.

O Trem de História precisa fazer mais uma pausa. Até a próxima edição!

Em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 401 no jornal Leopoldinense de 1 de abril de 2020


Fontes Consultadas:

[1] Comprovantes do Banco Comercial do Porto incluídos na Coleção Kenneth Light, disponível no Arquivo Histórico do Museu Imperial, Petrópolis, RJ. Tombos 1920/97 e 1921/97.

[2] IANNI, Constantino. Homens Sem Paz. São Paulo: Civilização Brasileira, 1972. p. 127.

150 – A ocupação do território que constitui o município

Há quase três anos os autores do Trem de História publicaram o resultado de um estudo sob o título “200 anos do Registro Civil do Feijão Cru”[1] para marcar o aniversário de batismo do curso d’água que deu nome ao arraial mais tarde emancipado com o nome de Villa Leopoldina. Naquele outubro de 2017, o tema foi a concessão de duas sesmarias em cujas cartas, datadas de 13 e 14 de outubro de 1817, pela primeira vez foi mencionado o nome “Córrego do Feijão Cru”, mais tarde renomeado como Ribeirão do Feijão Cru.

Hoje o Trem de História retoma o assunto para que, nesta edição do jornal Leopoldinense em que se comemoram os 166 anos de emancipação administrativa, possam os autores tratar de um tema que lhes é muito caro: a ocupação do território que constitui o município de Leopoldina, nas terras do antigo Feijão Cru. E com este retorno ao tema, dar início a uma nova série de artigos sobre “Os pioneiros de Leopoldina”.

A pesquisa

Como se sabe, uma pesquisa sempre começa por uma questão que desperta o interesse e a curiosidade do pesquisador. No caso em pauta, melhor expressá-la em três ou quatro perguntas. Por onde chegaram os homens livres que ocuparam as terras indígenas neste sertão? Quando começaram a chegar? Onde se estabeleceram? Do quê se ocupavam?

Foi a partir de uma leitura mais atenta da história tradicional, na década de 1960, que os autores começaram a buscar respostas para estas questões. No início, de forma desorganizada. Mas ao longo do tempo o projeto de pesquisa foi esboçado em bases mais sólidas e as buscas começaram a dar frutos.

Um destes frutos decorreu de leituras despertadas pelo capítulo 4 do livro “Os Sertões do Leste”, de Celso Falabella publicado em 1987.

Tratando da ‘segunda diligência’ empreendida por Pedro Afonso Galvão de São Martinho, o autor cita trecho de uma carta do então Governador da Capitania de Minas, Luiz da Cunha Menezes, que se tornou conhecido pela alcunha de “Fanfarrão Minézio” como a ele se referiu o poeta Tomás Antonio Gonzaga na famosa obra “Cartas Chilenas”.

Vale relembrar que em 1784 e 1786 foram realizadas duas diligências com o objetivo de estancar o desvio do ouro pelas então mencionadas ‘zonas proibidas’, denominação que remete ao fato de que não era permitido ao homem livre se estabelecer nesta região da zona da mata. Ambas comandadas por Galvão de São Martinho e, entre seus membros, figurava o militar Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

As concessões de sesmarias

Antes da segunda diligência, Cunha Menezes escreveu a carta a Galvão de São Martinho na qual procurou divulgar a informação de que permitiria o estabelecimento de quarenta pessoas e duzentos escravos na região trilhada pela tropa, e que se estendia desde a cidade de Rio Pomba até o Porto do Cunha, registro criado em 1784.

Oficializada ou não a disposição escrita pelo Governador, o fato é que na última década do século XVIII foram concedidas algumas sesmarias no início do percurso e em 1810 tais concessões já chegavam às margens do Rio Novo. Alguns dos beneficiários eram parentes dos membros da tropa comandada por Galvão de São Martinho. Entre eles, dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas foram beneficiados com quatro sesmarias concedidas em novembro de 1813. Duas delas, concedidas a Felisberto da Silva Gonçalves e sua esposa Ana Bernarda da Silveira, estão na origem da Fazenda do Glória em território que mais tarde marcaria a divisa do Curato do Feijão Cru com o distrito de Bom Jesus do Rio Pardo.

Registre-se que o Córrego do Glória, cuja denominação inicial se perdeu na história, margeava o Monte Redondo, conforme referência de 1842 na folha 27 do primeiro livro do Cartório de Notas de Bom Jesus do Rio Pardo.

Mas não só os parentes de Tiradentes se estabeleceram por aqui. Também os de Pedro Afonso Galvão de São Martinho foram beneficiados com sesmarias ao longo do percurso daquelas diligências. Segundo Francisco de Paula Ferreira de Rezende, citado como exagero por Celso Falabella[2], os Monteiro de Barros teriam requerido sesmarias até para uma filha que ainda não nascera[3].

Do que foi até agora possível apurar, as sesmarias concedidas aos Monteiro de Barros, descendentes de Galvão de São Martinho, tiveram suas cartas datadas entre março e maio de 1818.

A última sesmaria concedida em território que comprovadamente fez parte do Distrito do Feijão Cru foi concedida em setembro de 1821.

Efetiva ocupação das terras

Estas terras foram concedidas, mas a ocupação nem sempre ocorreu na mesma data. Foi esta a conclusão a que se chegou na comparação entre as datas das Cartas de Sesmaria, os denominados Mapas de Habitantes e os poucos registros paroquiais das duas primeiras décadas do século XIX que já foram identificados.

De um lado, observou-se que Felisberto da Silva Gonçalves, sobrinho de Tiradentes, juntamente com a esposa, parece ter se estabelecido no Monte Redondo quase dez anos antes de fazer o requerimento que resultou na concessão das duas sesmarias ao casal. No outro extremo, as sesmarias concedidas aos Monteiro de Barros em 1818 não estavam ocupadas até 1831, quando foi feita a contagem dos habitantes do território.

Já as sesmarias doadas aos sogros de Bernardo José Gonçalves Montes em março de 1818 teriam sido ocupadas por ele em 1822.

Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda receberam sesmarias em 1817 e, ao que parece, não residiram nestas terras. Encarregaram o sobrinho Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda de vendê-las. E consta que ele só se estabeleceu em terras do Feijão Cru em 1828, como agregado na propriedade de seu sogro Joaquim Ferreira Brito, a quem havia vendido parte de uma das ditas sesmarias doadas a seus tios.

Uma correção da história

Neste ponto um registro importante se faz necessário repetir para que se corrija um desvio da história de Leopoldina.

Conforme já foi dito em outros textos desta coluna Trem de História, Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda, inúmeras vezes citado pela história tradicional como fundador de Leopoldina, não o foi. Também não foi o primeiro a chegar às terras do Feijão Cru, como se vê acima. E nem estava mais aqui quando o arraial se tornou o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru. Em verdade ele foi, tão somente, o emissário de seus tios, Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda, na venda das terras que eles ganharam[4] em 1817. E, tão logo concluiu essa venda, seguiu o curso do Rio Pomba e se estabeleceu próximo à foz no Paraíba do Sul, onde veio a falecer[5] antes mesmo do Curato do Feijão Cru ter seus limites territoriais estabelecidos.

Mapa de Habitantes

Após identificar o período em que foram concedidas sesmarias do Termo de Barbacena que viriam a formar o território do Arraial do Feijão Cru, o passo seguinte foi analisar os moradores que aqui estavam em 1831, conforme apurado no Mapa de Habitantes daquele ano.

Naquela época, os mapas eram uma espécie de recenseamento que tinha como um dos objetivos a arrecadação de tributos.

Ressalte-se que só eram computados os moradores livres e seus cativos, sem qualquer registro ou notícia dos naturais da terra.

Outro objetivo da contagem populacional era demonstrar ao poder central que a localidade já atingira o número suficiente de habitantes para ser alçada ao patamar de comunidade organizada, ou seja, em condição de se tornar distrito.

O distrito do Feijão Cru

Naquele ano de 1831, o distrito do Feijão Cru ainda não existia e os primeiros moradores daqui passaram a compor o distrito então criado: São José do Paraíba, que deu origem ao atual município de Além Paraíba.

A cronologia documentada diz que em meados da década de 1820, a área onde está o atual município de Leopoldina deixou de fazer parte do Termo de Barbacena.

Em 1829 a capela de São João Nepomuceno, à qual o Feijão Cru pertencia, era filial da Freguesia do Mártir de São Manoel, que se tornou[6] a Vila de São Manuel do Pomba em 1831.

Sinval Santiago[7] registra que o Decreto Imperial de 11 de setembro de 1830, que autorizava as Câmaras Municipais a criar distritos e eleger seus Juízes de Paz, vigorou até 1834 e sob ele o Distrito do Feijão Cru teria sido criado.

Entretanto, a mais antiga referência ao Distrito do Feijão Cru é posterior à Carta de Lei de 12 de agosto de 1834 que transferiu para a presidência da província a prerrogativa da criação de distritos. Mais especificamente, o Distrito do Feijão Cru teria sido criado após 29 de novembro de 1835, quando Manoel Ferreira Brito assinou[8] o “mapa dos indivíduos” moradores no “Novo Curato de São Sebastião do Feijão Cru”.

Por outro lado, o mais antigo documento oficial a citar a denominação Distrito de São Sebastião do Feijão Cru foi assinado[9] por João Ferreira da Silva a 7 de setembro de 1838. Este documento encapava uma lista de habitantes distribuídos em 135 fogos[10], número superior ao mínimo necessário para criação de um distrito.

Reafirma-se, portanto, que o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru foi criado entre novembro de 1835 e setembro de 1838.

O distrito fazia divisa com a Aldeia da Pedra (Itaocara) ao norte, distante 10 léguas; ao sul com o Espírito Santo (Guarará), distante 6 léguas; com São José do Paraíba (Além Paraíba) a 4 léguas e com Santa Rita do Meia Pataca (Cataguases) a 3 léguas.

Conclusão

Como se vê, a história de Leopoldina começou a ser desenhada no alvorecer do século XIX. Ao final da década de 1830 foi criado o Distrito de São Sebastião do Feijão Cru que foi emancipado[11] como Vila Leopoldina em abril de 1854.

Naquela primeira metade do século o homem livre chegou, ocupou as margens de córregos, ribeirões e rios, e formou fazendas que no final da década de 1850 entraram num novo patamar: as lavouras de milho foram substituídas pelas de café.

No final dos anos de 1800, ao lado da ocupação territorial, o emprego da mão de obra disponível na época gerou a necessidade de se recorrer à imigração, um dos temas que ocupou muitos vagões e viagens do Trem de História.

E assim, cada nova fonte trazia uma surpresa e despertava novas questões.

Questões como, por exemplo, a descoberta recente de que, entre as bacias do Rio Pardo e do Ribeirão do Feijão Cru, existiu um curso d’água com águas vertentes do Quilombo, denominação assumida por uma propriedade rural assim identificada em 1862. Um tema que, considerando que o termo ‘quilombo’ remete a um local de moradia e esconderijo de pessoas escravizadas que teriam fugido da servidão, pode ser indício de que ali tenha habitado algum grupo de resistência.

Questões que deixam a certeza de que há, ainda, muita história a ser contada. Muitas questões em aberto. E a certeza de que Leopoldina merece ter seu passado conhecido e preservado. Leopoldina merece cultivar a Lenda do Feijão Cru, sabendo que é lenda, mas conhecendo a sua história.

No próximo Jornal o Trem de História seguirá viagem, a partir de agora, percorrendo as sesmarias que se transformaram em propriedades ocupadas pelos pioneiros de Leopoldina. Até lá!

Fontes Consultadas:

[1] CANTONI, Nilza e MACHADO, Luja. 200 Anos do Registro Civil do Feijão Cru. Disponível em <https://www.academia.edu/34989583/200_ANOS_DO_REGISTRO_CIVIL_DO_FEIJ%C3%83O_CRU>

[2] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: Achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987, p.70.

[3] REZENDE, Francisco de Paula. Minhas Recordaões. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1944, p.369.

[4] Arquivo Público Mineiro, Secretaria de Governo da Capitania, seção Colonial. SC-363 fls 190v e 192v.

[5] Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – COARPE – TJMG. Inventario in vitae dos sogros, processo 38404416 fls 4 img 7

[6] Decreto Imperial de 13 de outubro de 1831

[7] SANTIAGO, Sinval. Município de Rio Pomba - Síntese Histórica. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991. p.480-481

[8] Arquivo Público Mineiro. Mapa da População do Feijão Cru CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba fl.1

[9] Arquivo Público Mineiro. Ofício ao Presidente da Província de Minas. CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba fl.23

[10] Fogos eram unidades habitacionais que poderiam ser compostas por uma ou mais casas de moradia.

[11] Lei Mineira nº 66 de 27 de abril de 1854.


Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 403 no jornal Leopoldinense de 30 de abril de 2020

147 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Escolas e escolaridade

O Trem de História de hoje vai transitar pelos caminhos trilhados por muitos descendentes dos imigrantes: – a Escola.

Vale lembrar que no início dos estudos sobre os imigrantes foi surpreendente encontrar indicadores de que muitos deles se preocupavam em não deixar seus filhos sem escolarização. E foi a partir daí que se buscou, então, conhecer o panorama da época quanto à educação formal para entender melhor esta questão e descobriu-se o que se segue.

Em Minas Gerais, até 1906, quatro anos antes da criação da Colônia Agrícola da Constança, persistia o sistema vigente no Império[1], em que o ensino era baseado nas chamadas salas de “aulas públicas” que ficavam a cargo de um único profissional cujo ofício era ensinar “as primeiras letras” e “as quatro contas” a alunos dos diversos níveis. Salas que eram ditas públicas, mas que muitas vezes cobravam mensalidade dos alunos.

A partir de 1906[2] o governo mineiro tomou a decisão de reunir estas salas no que se convencionou chamar de “Grupo Escolar”, onde os alunos passaram a ser alocados conforme seus níveis de conhecimento.

Análise realizada em registros da Escola Distrital de Tebas[3], entre 1896 e 1900, indica o funcionamento de uma sala de “aulas públicas” para o sexo masculino, a cargo do professor João Alves de Souza. Nesse período, ali estiveram matriculadas algumas crianças das famílias Bertoldi, Malacchini e Meneghetti. Esta informação tornou-se importante para a análise de entrevistas, permitindo questionar a generalizada ideia de que os italianos não eram alfabetizados e não matriculavam seus filhos em nossas escolas.

Outra fonte de análise foram os requerimentos de Registro de Estrangeiros[4] de 1942 encontrados no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e alguns que faziam parte do acervo do Espaço dos Anjos, em Leopoldina. Estes documentos permitiram reunir informações sobre 157 imigrantes que viveram na cidade. Verificou-se que 44% declaram-se incapazes de ler e assinar o requerimento. Entretanto, entre estes estavam alguns que haviam perdido a visão, como é o caso de Maria Zanetti, esposa de Giovanni Lupatini e, Luigi Maimeri, casado com Carolina Rancan.

A partir destas informações pode-se então concluir que a maioria era alfabetizada. Além disso, informes sobre a frequência escolar dos imigrantes, anteriores à passagem ao Brasil, dão conta de que um número grande deles estudou em sua terra natal.

É sabido que as crianças de oito famílias pesquisadas, todas maiores de 7 anos de idade, foram alunas de escolas paroquiais na Itália. Isto é, já chegaram alfabetizadas ao Brasil.

Segundo um pesquisador italiano que colaborou com dados de famílias procedentes de Padova e Venezia, no final do século XIX as crianças italianas, mesmo as residentes em áreas rurais, aprendiam a ler e a escrever na escola paroquial ou nas salas destinadas pelas associações de trabalhadores para a educação formal delas. Esta opinião encontra suporte nas palavras de Emilia Franzina[5] quando declara que, no fim do século XIX, em quase todas as famílias camponesas encontravam-se pessoas alfabetizadas.

Pelas cartas pessoais fornecidas por alguns descendentes, constata-se que os textos escritos por eles eram perfeitamente legíveis. E, muitas vezes, apenas misturavam na mesma frase algumas palavras da língua portuguesa com uma ou outra da língua natal.

Por outro lado, é bom ressaltar que o discurso do Presidente da Província de Minas Gerais, de 1898, informa que a Lei nº 150, de 20.06.1896, autorizava a “concessão de favores aos particulares” que quisessem fundar, em suas propriedades, núcleos coloniais. E colocava como condição o fornecimento ao colono de uma casa, terreno para cultivo de subsistência e instrução gratuita para os filhos.

Neste discurso, o então Presidente abordou a necessidade de se ensinar a língua portuguesa para os filhos dos imigrantes, ombreando com a prática dos governos estrangeiros que procuravam perpetuar entre eles o idioma da pátria de seus pais.

Nesta mesma linha de preocupação também estava Rodolpho Miranda[6] que declarou, em relatório de 1910, estar empenhado em prover todos os núcleos coloniais de

“escolas dotadas de material pedagogico moderno, funccionando em predios que reunam condições de capacidade e de higiene e servidas por professores capazes, dedicados ao magisterio e podendo exercel-o com methodo e proficiência”.

Em Minas Gerais, ficou determinado que não haveria frequência obrigatória nem seria exigido que os colonos matriculassem seus filhos. Entretanto, foi ressaltada a necessidade de oferecer os meios possíveis para que as crianças aprendessem o português, independente de continuarem usando a língua de seus pais.

Dentro da Colônia Agrícola da Constança funcionavam, em 1918, duas salas de aulas de primeiras letras. Uma na sede da Colônia, na Boa Sorte, e outra junto à sede da antiga Fazenda Constança. Na fazenda Paraíso, vizinha da Constança, a escola começou a funcionar antes de 1920 e, na época, alguns empregados vinham procurando emprego em outros lugares exatamente porque “os filhos precisavam estudar”.

Termina aqui a viagem de hoje. *** Mas não sem antes repetir o lembrete de que em 17 de maio de 2020 acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina, para o qual todos estão convidados.*** No próximo Trem de História ainda virão outros assuntos relativos aos imigrantes italianos. Até lá.


[1] ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Instrução Pública no Brasil 1500-1889 História e Legislação. São Paulo: Educ, 2000.

[2] Relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, 1908. Disponível em <http://www.crl.edu/content/

brazil/mina.htm> Acesso em 23 mar 1999.

[3] Livro de Matrículas da Escola Distrital de Tebas, 1896, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina.

[4] Instituído pelo Decreto 3010 de 1938, determinava a obrigatoriedade de todo estrangeiro, residente em território nacional, comparecer a uma Delegacia de Polícia para prestar informações pessoais.

[5] FRANZINA, Emilio. A Grande Emigração: o êxodo dos italianos do Veneto para o Brasil. Campinas: Unicamp, 2006. p. 342

[6] Relatório do Ministro da Agricultura Rodolpho Nogueira da Rocha Miranda, 1909-1910 – Volume 1 p. 48

 Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 400 no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2020

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17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

146 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Cozinha, despensa, paiol e tulha

Como foi dito anteriormente, os colonos se alimentavam principalmente do que produziam. Do armazém ou “venda de secos e molhados” como se dizia, vinha pouca coisa além do querosene, sal e uma ou outra necessidade. Era da terra que tiravam o sustento da família.

Na Colônia Agrícola da Constança e nas pequenas propriedades da região, via de regra estes alimentos chegavam à mesa do colono por meios e caminhos mais ou menos semelhantes.

Do campo de plantio ou, do roçado, eram colhidos pelos trabalhadores, transportados em balaios e cestos de taquara, nos ombros, em lombo de animais ou, por vezes, em carro de bois. Eram levados geralmente para um terreiro próximo da casa, onde recebiam uma derradeira secagem ao sol, antes de serem estocados em paiol, tulha ou despensa, nomes dos locais onde se guardava a produção das lavouras.

O milho em espigas, por exemplo, era guardado no paiol, um cômodo geralmente coberto com sapé ou telha do tipo canal, com paredes e assoalho de bambu, pau roliço ou ripa de madeira lavrada, com frestas que facilitavam a ventilação e evitava a proliferação do caruncho. De modo geral, era construído junto à casa do colono e, em alguns casos, debaixo dele ficava o chiqueiro onde se engordava o porco.

A tulha era um cômodo mais protegido, com paredes vedadas, geralmente de tijolos, onde se guardavam produtos estocados em grãos como o café, o arroz e outros alimentos que exigiam melhor proteção contra as correntes de ar e/ou predadores.

A despensa geralmente era um pequeno cômodo da casa, próximo à cozinha, onde se estocavam os alimentos mais sensíveis ou de utilização mais imediata como o fubá, o açúcar mascavo, carnes, queijos, conservas, etc.

Era no paiol que se retirava a palha da espiga e se debulhava o milho, ou seja, retirava-se o caroço do sabugo. Depois, os grãos eram soprados e selecionados em peneiras de taquara e ensacados para serem levados para moagem. Alguns colonos utilizavam o pilão para socar e transformar o milho em canjiquinha. O mais comum, porém, era a utilização de moinhos de pedra movidos a água, que existiam pelas redondezas, onde o colono entregava o milho e recebia o fubá, descontando-se um percentual do peso que era deixado como pagamento ao proprietário do moinho pelo beneficiamento produto.

A palha do milho também era aproveitada. Uma parte, deixada de molho na água pura por algum tempo, depois era colocada para cozinhar com banha de boi e soda cáustica, até formar uma pasta homogênea. Esta pasta, despejada em superfície lisa, depois de fria era cortada em barras, dando origem ao sabão utilizado na limpeza em geral.

Outra parte era rasgada em tiras e se transformava no enchimento dos colchões para os catres (camas) da família e dos travesseiros, conhecidos pelos imigrantes italianos como “gancilão”, talvez por uma forma dialetal de “guanciale”, ou seja, almofada.

Limpa e trabalhada pelo canivete ou faca do apreciador, servia como suporte para o fumo de rolo ou o fumo desfiado, na confecção dos cigarros. Era o cigarro de palha que ainda hoje se presta a caracterizar o homem do campo. E se nenhuma dessas utilizações a consumia, a palha era então jogada para o gado que dela se deliciava, principalmente na época da seca.

Era também no paiol que a meninada buscava o sabugo, outro subproduto do milho, para a confecção de brinquedos como juntas-de-bois para os seus carrinhos. Nas manhãs mais úmidas, o sabugo facilitava o acender do fogão à lenha, por ser de combustão fácil e estar quase sempre guardado ao abrigo da umidade.

Ao lado do milho, outros produtos faziam parte dos “roçados” dos colonos. Um deles, o tomate, ingrediente que não podia faltar no preparo final da massa. E para que pudesse ser utilizado o ano todo, o comum era guardá-lo desidratado. Colhido quando começava a amadurecer, era partido ao meio e colocado ao sol para secar. Posteriormente era guardado em potes. No momento de sua utilização era imerso em água morna para reidratação.

Os entrevistados mencionaram, também, o café que estava sempre no canto do fogão ou levado para a roça em garrafas de vidro arrolhadas com sabugo de milho. Seu preparo era todo doméstico. Colhido e seco, o grão era levado ao pilão para a retirada da casca. Depois de peneirado para limpar as impurezas, era torrado em panelas de ferro. Posteriormente, os grãos torrados eram passados em peneiras de taquara que os transformava em pó. Chama a atenção nos depoimentos o fato de não ter sido mencionada a utilização de moinhos de café, geralmente encontrados em boa parte das casas da zona rural.

O almoço e o jantar eram compostos pelo tradicional arroz com feijão, uma ou outra verdura da horta, batata doce, mandioca, ovos e alguma carne de porco, boi ou caça, geralmente conservada em grandes latas ou panelas cheias de gordura (banha) de porco. Algumas conservas à base de frutas também faziam parte da despensa da casa.

O Trem de História chega a mais uma parada. Mas a série sobre os imigrantes italianos em Leopoldina continuará *** pelo menos até 17 de maio de 2020 quando acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina. *** Aguardem!

 Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 399 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2020

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17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

145 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Alimentação dos colonos

Para lembrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, comemorado no próximo dia 21 de fevereiro, nada melhor do que uma boa mesa. Daí a ideia do Trem de História de hoje tratar do tema “alimentação dos colonos” às vésperas da comemoração.

Antes, porém, um rápido parêntese para lembrar que o Brasil, possuidor de uma das maiores populações de sangue italiano fora da Itália, instituiu esta data pela lei nº 11687, de 02.06.08, para homenagear a expedição de Pietro Tabacchi que chegou ao Espírito Santo no dia 21.02.1874, marcando o início da imigração italiana para as lavouras brasileiras.

É comum falar de mesa farta, suculentos pratos de massas regados a molhos variados e canecos com os melhores vinhos quando se pensa em alimentação dos italianos. E da culinária italiana dos atuais restaurantes especializados, com seus pratos variados à disposição de todos.

Mas os depoimentos colhidos de pessoas mais velhas, descendentes diretos ou, próximos dos imigrantes que se fixaram na Colônia Agrícola da Constança e nos demais roçados de Leopoldina, apontam para um quadro um pouco diferente.

Antes mesmo de passarem ao Brasil, os colonos que vieram para cá tinham hábitos alimentares concernentes à possibilidade de produção na região em que viviam.

No que se refere ao Veneto, por exemplo, de onde vieram 27,3% dos imigrantes italianos de Leopoldina catalogados até agora, Emilio Franzina[1] relata que a agricultura era ali praticada no sistema de “cultura mista, centrada na tríade produtiva de vinho, trigo e milho”. Segundo esse autor, os proprietários das terras dividiam-nas em três campos, sendo um para milho e dois para trigo, entremeados por fileiras de videiras. Desta forma, tinham assegurada a polenta e a lenha para cozinhá-la.

Já para Renzo Grosseli[2], o pão e a polenta eram indispensáveis na alimentação dos colonos trentinos (1,7%) e lombardos (9,9%) que se estabeleceram no Espírito Santo. A batata, muito cultivada na região em que se estabeleceram, era utilizada pelos italianos para alimentar os porcos. Especialmente os trentinos, informa o autor, procuraram desenvolver a cultura de cereais como o milho e o trigo, além de legumes e hortaliças.

Do que foi apurado em Leopoldina, pelo menos nas gerações mais antigas o vinho e o macarrão não frequentavam as mesas diárias dos colonos. Mesas que, na maioria das vezes, eram montadas na própria cozinha e geralmente rodeadas de bancos de madeira.

Tampouco havia macarrão nos caldeirões levados com o trabalhador para o local do trabalho. Vinhos e massas eram comuns apenas quando o almoço era servido na mesa da sala em dias de visitas, nos “jantarados” dos finais de semana e nas comemorações de algum acontecimento significativo.

E são compreensíveis as razões para esta prática.

O clima quente de Leopoldina não se prestava ao plantio do trigo e da uva. Faltavam os mais elementares recursos para o seu cultivo e preparo nas terras montanhosas da região. Por outro lado, nem sempre estava ao alcance daqueles colonos a aquisição dos produtos deles derivados. Não só pelo preço, mas também pela dificuldade em encontrá-los no armazém próximo ou, se deslocar da roça para a cidade e fazer a compra. Assim, tornou-se muito mais fácil ao colono imigrante adaptar-se à realidade dos que por aqui viviam e aderir aos costumes vigentes.

Outro fator importante ressaltou de alguns depoimentos ao mencionarem que os imigrantes já haviam substituído a massa de suas mesas ainda na Itália, onde o trigo escasseava e atingia altas cotações.

Para estas pessoas, o talharim, os rissoles e pães, ainda na Itália já haviam perdido a concorrência para a polenta (salgada ou doce), os bolos, as broas, as cavacas (bolachas endurecidas), o cubu, o milho cozido ou assado e demais derivados desse grão de cultivo e manejo mais fácil e de mercado bem mais simples.

Decorre daí o hábito, bastante comum na região, de substituir o pão e outros alimentos por fubá cozido em água e sal. Seja no caldeirão do almoço ou, depois de frio, cortado em pedaços para acompanhar o jantar, o café da manhã ou, a merenda vespertina. Assim, também, muito apreciado era o angu com melado de cana.

Substituindo-se o sal por açúcar mascavo (açúcar preto), obtinha-se um angu doce que era despejado em porções na chapa do fogão à lenha e consumido com diferentes acompanhamentos, dependendo do tempo em que permanecia assando. Ainda mole, num prato de ágata, com leite; mais consistente, transformava-se em bolachas muito apreciadas; e, mais endurecido, tomava a forma conhecida como “cavaca”, uma broa que substituía o pão.

Ao ser retirado da panela, o angu ainda deixava uma grossa camada que se denominava ‘raspa’ e que era consumida com leite nas refeições intermediárias. Fatiada e um pouco mais tostada, a raspa era consumida ao estilo de petiscos. E salpicada com açúcar, era saboreada como biscoitos.

Mas não há como falar de alimentação de italianos sem um comentário sobre as massas. Um entrevistado informou que sua mãe

“preparava a massa de talharim, esticava-a na mesa da cozinha e cortava as fitas com uma faca, cozinhando-as em água com sal e preparando o molho à parte. Quando a massa cozida era jogada no molho, o cheiro forte atraía a todos, principalmente as crianças”.

Outro informante lembrou que a massa era colocada a secar numa peneira forrada com um pano e mais tarde era enrolada como um rocambole e cortada em fatias para serem cozidas em água quente temperada com gordura de porco.

O assunto pede um pouco mais de espaço. Mas o Trem de História faz uma pausa nesta viagem de hoje prometendo que na próxima edição do Jornal trará o restante da carga. E não deixará de trazer a lembrança de que, em 17 de maio de 2020 acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina. Até lá.


[1] FRANZINA, Emilio. A Grande Emigração: o êxodo dos italianos do Veneto para o Brasil. Campinas: Unicamp, 2006. p. 140.

[2] GROSELLI, Renzo. Colônias imperiais na terra do café: camponeses trentinos (vênetos e lombardos) nas florestas brasileiras, Espírito Santo, 1874-1900. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008. p. 33-34.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 398 no jornal Leopoldinense de 14 de fevereiro de 2020

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17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

144 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – Regiões de origem

Foi dito, no texto número 124 desta série do Trem de História, publicado na edição 377, de 01.04.19, que os imigrantes italianos que viveram em Leopoldina procediam de 18 das 20 regiões administrativas em que a Itália está dividida.

É um dado novo em relação ao que havia sido publicado por ocasião das comemorações do Centenário da Colônia Agrícola da Constança, em abril de 2010, porque naquela época não eram conhecidos todos os imigrantes que em 2019 se encontravam catalogados.

Estas variações dos dados demonstram que entre 2010 e 2019 o trabalho de pesquisa continuou. Ver e rever documentos para melhor escrever a história da cidade é um trabalho constante e infinito.

Hoje se tem certeza de que os números ainda poderão ser modificados se forem encontradas novas fontes sobre a origem dos 57% de imigrantes sobre os quais só se sabe, até agora, que nasceram na Itália. Difícil é prever quando e se isto irá de fato acontecer. Difícil, também, é dizer qual ou, quais regiões estavam mais representadas entre os imigrantes que viveram em Leopoldina.

Considerando-se que o grande fluxo ocorreu em período próximo ao da reunificação da Itália, ocorrida nos anos de 1860, não se pode determinar um perfil dos que vieram para Leopoldina nem informar de qual região foi a influência predominante. Até porque, dentro da própria Itália as coisas ainda não estavam totalmente organizadas quando os imigrantes vieram para cá.

Depois do Congresso de Viena em 1815, a península itálica passou a sediar o Reino Sardo-Piemontês, o Reino Lombardo-Veneziano, os Ducados de Parma, Módena e Tosaca, os Estados Pontifícios e o Reino das Duas Sicílias. No início da década de 1860, quando muitos chefes das famílias que vieram para cá eram ainda jovens, uma parte do atual território italiano estava unificado sob o Reino da Itália. Mas ainda faltava conquistar Veneza e Roma, cujo processo só se concluiu em 1870.

As chamadas Guerras de Unificação são conhecidas dos brasileiros especialmente pela participação de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a catarinense que se casou com Giuseppe Garibaldi, patriota italiano que recebeu o epíteto de “herói de dois mundos” pela participação em conflitos na Europa e na América do Sul.

Mas pouco se comenta sobre as diferenças culturais que dividiam os habitantes que viveram tanto tempo em territórios separados pela subordinação administrativa. Não só falavam dialetos diferentes como eram dirigidos por diferentes sistemas que os tornavam quase estrangeiros em relação uns aos outros.

Além de ser muito comum, a prática dos deslocamentos já mencionada em outros artigos tem no caso dos Anzolin um bom exemplo.

Giovanni e seu irmão Basílio nasceram em Portogruaro, província de Venezia, região do Veneto. A família residiu em diferentes comuni[1] do Veneto antes de se transferir para Cinto Caomaggiore, também província de Venezia, onde Giovanni se casou. Algum tempo depois os Anzolin estavam em Pravisdómini, província Pordenone, bem próximo da divisa do Veneto com o Friuli-Venezia Giulia. Em 1910, quando o passaporte foi concedido, estes Anzolin residiam em Pordenone. Ocorre que o Friuli-Venezia Giulia só foi incorporado à Itália em 1919, após a Primeira Guerra Mundial. Mesmo tão próximo, não só a língua era diferente como as práticas culturais.

Considerando-se o total de imigrantes que viveram em Leopoldina até aqui identificados, no mapa a seguir estão os percentuais que eles representam. Valle d’Aosta e Molise, como se pode verificar, são as duas regiões das quais não se tem registro de que tenha naturais vindos para Leopoldina.

O Trem de História de hoje fica por aqui. Mas permanece a promessa de seguir viagem com os imigrantes italianos em Leopoldina, *** até 17 de maio de 2020, quando acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina.*** No próximo Jornal o assunto será a alimentação. Aguardem!

[1] Plural de Comune, unidade básica administrativa que se aproxima da noção de município do Brasil.

 

Atenção: ***

17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina // Suspenso

17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

143 – A Fazenda Constança do final do século XIX

O Trem de História traz hoje um retrato da Constança no meado dos anos de 1890. E começa registrando que, em 1896, 9,75 hectares da Fazenda[1] foram vendidos por Gustavo Augusto de Almeida Gama e sua mulher Carolina Rosa França para Octaviano Nicomedes Barbosa. Tal propriedade fazia divisa por seus diversos lados com os herdeiros de Manoel Rodrigues da Silva; com João Baptista de Almeida; João Fonseca ou Francisco Guimarães; e, com a Fazenda do Feijão Cru. Formando uma área distinta, mas incorporada à Constança, também estavam 10 alqueires de terras desmembradas do Sítio Pury, parte esta que tinha como confrontantes: a fazenda do Coronel José Joaquim (Fazenda Boa Sorte); a fazenda Constança; Antonio Bernardino Machado; Domiciano Ferreira Monteiro de Castro (ou, Domiciano Ferreira Monteiro de Barros, administrador da Paraíso); herdeiros de Dona Messias (esposa de Custódio de Vargas Corrêa) e outros.

Dentro destes limites estava a casa sede[2] da fazenda, uma construção assobradada, com escada de madeira por fora, tendo na frente 3 janelas e um portão em baixo. Em cima, 8 janelas e uma porta no centro e divisões que formavam 3 salas, 10 quartos e 1 varanda. Esta, com porta e 4 janelas para o quadrado interno.

Em continuação era ligada por uma varanda a uma segunda casa contendo porta e 5 janelas para a frente. Esta segunda casa era dividida em sala e corredor com 4 quartos voltados para uma mesma varanda, uma dispensa e 1 quarto. Seguia outra varanda para o quadrado, que terminava numa cozinha com fogão econômico e em seguida 2 quartos.

No fim da varanda existia uma coberta de telhas (meia água), onde tinha um forno. No quadrado existia uma cocheira para animais e um quarto para empregados.

Existia, ainda, uma casa de sobrado, caiada, assoalhada e coberta de telhas, engenho de café com todo o maquinismo para preparo do mesmo e moinho para fubá, tocado por máquina a vapor. Engenho de serra e outras benfeitorias.

Mais adiante, outra casa com 2 portas e 7 janelas, sendo 1 porta e 2 janelas de morada e 1 porta e 5 janelas de armazém, com armação e balcão para negócio.

Além destas construções, existiam ainda as 44 casas mencionadas na coluna anterior, cujas indicações embasam a conclusão de que mais tarde se tornaram casas dos adquirentes dos lotes da Colônia Agrícola da Constança.

Com tantas casas, empregados, meeiros e mais as dificuldades vividas pelos lavradores da ocasião era natural que alguns desencontros pudessem se tornar mais sérios. Um deles, de 1899, chegou às páginas do jornal Minas Gerais[3] que o registrou na forma seguinte: “Na fazenda Constança deu-se no dia 22 de maio ultimo um grave conflito entre o proprietário da fazenda sr. Octaviano Barbosa e outros de um lado e o meeiro da fazenda Bartholomeu Mello e pessoas de sua família, do outro lado.”

Superando estes e outros contratempos, a Fazenda ainda sobreviveu como tal durante aproximadamente uma década até que o Relatório[4] assinado por Guilherme Prates a 20.03.1910 informou que a Colônia Agrícola da Constança foi “fundada em terras das fazendas annexadas e denominadas Constança, Sobradinho, Boa Sorte, Onça e o sitio Puris, que o Estado adquiriu”.

A partir daí, com a implantação da Colônia Agrícola da Constança, cuja administração foi instalada na sede da Fazenda da Boa Sorte, a casa sede da Fazenda Constança se tornou subsede da Colônia e residência do auxiliar do administrador, o sr. João Ventura Gonçalves Neto. Suas terras foram divididas para dar origem a muitos dos lotes vendidos aos colonos que deram início à bela história dos imigrantes que ali se fixaram.

Hoje, fruto do descaso para com a história, a casa sede da Constança, que ficava na margem direita da BR 267, na altura do km 2 desta rodovia, não existe mais. Para marcar o lugar, estão lá algumas palmeiras e os vestígios do que foi uma escola municipal, num terreno que ainda hoje pertence ao poder público.

Com este artigo o Trem de História encerra a série destinada ao resgate do que foi a Fazenda que emprestou seu nome à Colônia Agrícola da Constança e acolheu muitos dos imigrantes italianos que vieram para Leopoldina. Certamente a história não termina aqui. *** E até 17 de maio de 2020, quando acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina, muita novidade ainda pode surgir. *** Até a próxima!


Fontes de Referência:

[1] Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – COARPE – TJMG. Extrato de Confrontações da Fazenda Constança – Processo códice 38405781

[2] idem

[3] Jornal Minas Geraes, Ouro Preto (MG), 07.06.1899, Ed. 146 p. 2, col.3.

[4] Arquivo Público Mineiro. Relatório da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização de Minas Gerais, 1909.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 396 no jornal Leopoldinense de 16 de janeiro de 2020

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17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.