184 – Fazenda Boa Vista dos Barbosas

Denominada inicialmente Fazenda Boa Vista, a pesquisa sobre esta propriedade apresentou dificuldades a partir do próprio nome. Enquanto nos registros de terras de 1856 constam três propriedades com o mesmo nome no território da então Vila Leopoldina, nos processos de divisão de propriedades e partilha de bens inventariados, entre 1847 e 1901 foram encontradas treze fazendas Boa Vista, muitas delas sem localização precisa.

Para distingui-las foi fundamental o conjunto de dados coletados pelos autores desta coluna ao longo das pesquisas sobre a história de Leopoldina. Pois conforme ensina a antropologia, a família ou parentesco constituem o elemento fundador da vida social. E só conhecendo minimamente os grupos sociais que habitam uma localidade é possível compreender suas escolhas e decisões. Foi importante, também, lembrar Ruth Cardoso ao discutir armadilhas da pesquisa em antropologia, quando destacou que coletar material não é apenas acumular informações, mas oportunidade para reformular hipóteses de pesquisa. Isto aconteceu, diversas vezes, na pesquisa sobre a ocupação territorial do Feijão Cru e, especialmente, com a Fazenda Boa Vista dos Barbosas.

Ao prestar informações sobre sua propriedade, Francisco da Silva Barbosa declarou que vinte e cinco anos antes (por volta de 1831) havia comprado 250 alqueires de terras, sem indicar o vendedor. Mencionou confrontações com José Thomaz de Aguiar Cabral (fazenda Santa Cruz), Marianna Teresa Pereira Duarte (faz. Recreio), Processo José Corrêa de Lacerda (faz. Tabuleiro), Manoel Jose de Novaes (faz. Saudades, depois Campo Limpo), Manoel Ferreira Brito (faz. São Manoel da Bocaina) e João Baptista de Paula Almeida (faz. Monte Alegre). Outros proprietários citaram divisas com a faz. Boa Vista, com Antonio Carlos da Silva Teles Faião (faz. da Barra das Laranjeiras), além de Joaquim José da Costa Cruz e Joaquim Dias Neto com propriedades à margem do Rio Pomba.

Francisco da Silva Barbosa faleceu no dia 20.09.1860 e seu inventário, em conjunto com o processo de partilha e posteriores tombamentos em 1884 e 1885 trouxeram esclarecimentos importantes. A constituição do grupo familiar foi possível pela análise comparativa do inventário e da partilha de bens, já que alguns membros não foram identificados num ou noutro documento, por terem falecido ou por terem transferido sua legítima para terceiros. Como já mencionado nesta série, a instituição do dote permanecia até o final do século XIX e, muitas vezes, só depois do inventário dos pais é que os bens prometidos aos filhos eram oficialmente transferidos para eles. Por isto, nem sempre todos os filhos vivos eram mencionados no formal de partilha.

No caso da Fazenda Boa Vista, o processo de divisão judicial da propriedade foi requerido por João Gualberto Damasceno Ferreira em duas etapas, sendo a primeira em 06.10.1884 e a segunda, em 06.08.1885, indicou que após a morte de Francisco da Silva Barbosa a propriedade pertencia a oito condôminos:

  • 1) Antonio Francisco Barbosa Neto, filho de Francisco da Silva Barbosa;
  • 2) Domiciano Rodrigues Leite, neto, filho de Ana Francisca;
  • 3) Elias Carlos da Paixão, marido da neta Carolina, filha de Ana Francisca;
  • 4) Francisco da Costa Muniz, marido da neta Vicencia, filha de Ana Francisca;
  • 5) Joaquim Luiz de Santana ou Medeiros, genro, marido de Maria do Rosário Neto;
  • 6) José Francisco Neto, filho;
  • 7) Rita Francisca da Silva, filha; e,
  • 8) Severino José de Santana, genro, marido de Joaquina Francisca de Jesus.

Nos vinte anos seguintes à morte do formador da fazenda, ocorreram muitas subdivisões e vendas. Ao final do processo de medição, em 1885, foram encontrados 72 condôminos e entre eles estão alguns imigrantes que a memória popular informa terem vivido na “Colônia da Serra dos Netos”. Na conferência das operações de compra e venda, o total de condôminos foi ampliado para 81 por dois motivos principais: herança ou compra e venda.

Após a morte do pioneiro, em 1860, a propriedade passou a ser conhecida como fazenda “dos Barbosa” e as escrituras de compra e venda demonstram que nela foram formadas diversas “situações” que, em linguagem atual, significa vários pequenos sítios numa fazenda indivisa.

No alvorecer do século XX a região da Fazenda Boa Vista passou a ser conhecida por Serra dos Netos, numa referência ao sobrenome da família da esposa de Francisco da Silva Barbosa, de descendentes dele ou do formador da fazenda Residência, também de sobrenome Gonçalves Neto.

O requerente da divisão judicial, João Gualberto Damasceno Ferreira, era filho do pioneiro João Gualberto Ferreira Brito de quem herdou a fazenda Fortaleza também próxima da Boa Vista e que foi ampliando seus domínios através de compras diretas ou de Arrematação em Praça dos bens de seus vizinhos, em especial de terras das fazendas Desengano e Boa Vista.

Uma das “situações” adquiridas por João Gualberto Damasceno Ferreira pertencia a João José Rodrigues das Virgens que chegou ao Feijão Cru por volta de 1864 e provavelmente foi um dos primeiros adquirentes de pedaços da Fazenda Boa Vista que teriam sido vendidos depois da morte de Francisco da Silva Barbosa. O comprador instalou a sede de sua propriedade no então sítio das Virgens, referência ao nome de devoção usado como sobrenome pelo antigo proprietário, falecido em 1881. Esta é, pois, a origem do topônimo Serra das Virgens para o qual a imaginação popular inventou mais uma das lendas mirabolantes que povoam a história pátria.

João José Rodrigues das Virgens, casado com Francisca Maria de Paula, teve três filhos:

  • 1) Ezequiel, nascido em 1867;
  • 2) Custódia Maria de Jesus, casada aos 07.01.1893 com Joaquim Honório de Almeida, filho de Francisco Honório de Oliveira e Maria Izabel de São José; e,
  • 3) Vitalina Maria das Virgens, nascida a 08.07.1880, casou-se no dia 14.10.1906 com José Galdino Eugenio, natural de Cataguases.

Aqui o Trem de História faz uma parada. No próximo Jornal a viagem segue com a família do pioneiro Francisco da Silva Barbosa. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 436 no jornal Leopoldinense, setembro de 2022

Fontes Consultadas: 
Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 198 termo 954; lv 02 bat fls 29 termo 264; lv 2 cas fls 79 termo 3 e lv 3 cas fls 346 termo 77. 
Divisão judicial da fazenda dos Barbosa, parte 1, Processo 38404284, 1884 COARPE/TJMG 
Inventário de Francisco da Silva Barbosa, processo 38403431 COARPE - TJMG 
Partilha amigável do espólio requerida por Ana Josefa da Silva, processo 38402712 COARPE/TJMG 
CARDOSO, Ruth C. L. (org.) Aventuras de Antropólogos em campo ou como escapar das armadilhas do método. In: A aventura antropológica. Teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. p.101

183 – Famílias de Manoel Ferreira Brito e Antônio Luiz de Moraes

Hoje o Trem de História aborda as famílias de Manoel Ferreira Brito e Antônio Luiz de Moraes, que viveram na fazenda São Manoel da Bocaina. Manoel era filho de José Ferreira Brito e Maria João Rodrigues. Casou-se[i] na matriz de Bom Jardim de Minas no primeiro dia de junho de 1813 com Maria Josefa da Silva, filha de José Gonçalves Neto e Ana Custódia da Cunha.

Maria Josefa era irmã de Ana Josefa, mulher de Francisco da Silva Barbosa, formador da fazenda Boa Vista dos Barbosa que será abordada nessa série. E, também, irmã de Brígida Joaquina Custódia da Silva, mulher de José Ferreira Brito Júnior, formador[ii] da fazenda Dois Irmãos e irmão de Manoel Ferreira Brito.

Nascido por volta de 1792, Manoel chegou[iii] ao Feijão Cru antes de 1831 e faleceu dia 9 de junho de 1856[iv] e sua esposa passou a administrar[v] a fazenda.

Manoel Ferreira Brito foi o primeiro Juiz de Paz do Feijão Cru, tendo assinado um dos mapas do conjunto denominado Mapa da População do Feijão Cru em 1835.

O casal Manoel-Maria Josefa teve, pelo menos, treze filhos:

  • 1 – Ana Maria de Brito cc Luiz Ignacio de Moraes que pode ter sido irmão de Antonio Luiz de Moraes, condômino da São Manoel da Bocaina que será citado no parágrafo seguinte. Luiz Ignacio foi um dos doadores para a construção da Capela de Nossa Senhora da Soledade, em Leopoldina;
  • 2 – João Damasceno Ferreira cc Rita Joaquina de Jesus, condôminos da fazenda Santa Clara, em Recreio;
  • 3 – José Rodrigues Carneiro Ferreira cc Mariana Esméria de Sene, filha do capitão João Gualberto Ferreira Brito. O casal residiu em Itapiruçu;
  • 4 – Domingos Ferreira Neto cc Rita Firmina de Sene, também filha de João Gualberto Ferreira Brito. Este casal adquiriu partes dos herdeiros da fazenda Fortaleza e formou a fazenda Córrego do Feijão;
  • 5 – Joaquim Ferreira;
  • 6 – Manoel Custódio Ferreira;
  • 7 – Mariana Flausina da Silva cc Ezaú Ferreira Brito, filho de José Ferreira Brito Júnior e Brígida Joaquina Custódia da Silva. Este casal foi condômino da fazenda Santa Clara, em Recreio;
  • 8 – Maria Venância de Gouvêa cc Francisco Ferreira Brito, também filho de José Ferreira Brito Júnior e Brígida Joaquina Custódia da Silva. Este casal foi proprietário de quinhão nas fazendas Sossego, Córrego São Lourenço e Ladeira, todas no arraial de São Lourenço;
  • 9 – Emerenciana, falecida na infância;
  • 10 – Ignacio Ferreira Brito cc Mariana Ozoria de Almeida, filha de Joaquim Cesário de Almeida e Luciana Esméria formadores da fazenda Tesouro. Com autorização do Banco do Brasil, de quem era devedor, Ignacio aforou parte de sua fazenda Laranjeiras para a formação do arraial de Recreio;
  • 11 – Maximiana Custódia da Silva cc Julião Antonio de Moraes, filho de Antonio Luiz de Moraes e Rita de Cássia de Almeida, viveram na fazenda São Manoel da Bocaina;
  • 12 – Francisco Ferreira Neto cc Messias Rodrigues Gomes, filha de Antonio Rodrigues Gomes e Rita Esméria de Almeida, formadores da fazenda Cachoeira do Bagre. Requereu a divisão da fazenda São Manoel da Bocaina, era condômino da fazenda Santa Clara, foi juiz de paz em Conceição da Boa Vista, membro do Club da Lavoura de Conceição da Boa Vista, vereador de Leopoldina, presidente do Conselho Distrital de Recreio, primeiro diretor do Banco de Leopoldina; e,
  • 13 – Antonio Ferreira.

Sobre o pioneiro Antônio Luiz de Moraes pouco ainda se sabe. Provavelmente trata-se do filho de Luiz Francisco de Oliveira e Luiza Ignacia da Conceição batizado aos 25 de agosto de 1802 em Conceição de Ibitipoca. Seria irmão de Luiz Ignacio de Moraes, casado com Ana Maria de Brito, filha mais velha de Manoel Ferreira Brito acima citado. Antônio Luiz morava na fazenda São Manoel da Bocaina quando faleceu, em 1865. E na partilha de seus bens[vi] foi citada a fazenda, embora não se saiba, até o momento, quando e quanto da propriedade original ele adquiriu.

Antonio Luiz era casado com Rita de Cassia de Almeida, nome frequente na família Almeida Ramos procedente da mesma região de onde vieram os Ferreira Brito. O casal teve 11 filhos:

  • 1 – Carlos José de Moraes cc Luiza Ignacia de Jesus filha de Joaquim Ignacio de Moraes e Maria Angela de Jesus. Joaquim Ignacio era filho de Luiz Gonçalves de Moraes e Luiza Ignacia da Conceição que podem ter sido avós paternos de Carlos;
  • 2 – Carlota Balbina de Almeida cc Manoel Inacio de Moraes, irmão de Luiza Ignacia de Jesus;
  • 3 – José Amancio de Moraes cc Ana Umbelina de Almeida que pode ser filha de Francisco de Sales Montes;
  • 4 – Maria Antonia de Jesus cc Severino José Machado, filho de Bernardino José Machado e Maria Rosa de Almeida;
  • 5 – Julião Antonio de Moraes cc Maximiana Custódia da Silva filha de Manoel Ferreira Brito e Maria Josefa da Silva;
  • 6 – José Antonio de Moraes cc Sebastiana Apolinária da Silva filha de Francisco José de Freitas Lima da fazenda Água Limpa e segunda vez com Luiza Marcelina de Freitas Lima ainda não identificada;
  • 7 – Rita Balbina de São José cc Joaquim Antonio Machado. Em 1890 a Fazenda São Manoel da Bocaina era propriedade de Joaquim Antônio por cabeça do casal, já que sua esposa Rita Balbina a herdara na partilha amigável dos bens de seu pai, realizada[vii] em 1866. Joaquim Antonio morreu em Vista Alegre em 1914;
  • 8 – João, que pode ter falecido na infância;
  • 9 – Delfina Ignacia de Moraes cc Ignacio Rodrigues Gomes filho de Antonio Rodrigues Gomes e Rita Esméria de Almeida, formadores da fazenda Cachoeira do Bagre;
  • 10 – Antonio Augusto de Moraes cc Maria Januaria do Espírito Santo, filha de João Gomes de Souza Santos e Maria Venancia da Conceição;
  • 11 – Leopoldino José de Moraes que se casou a primeira vez com Mariana Jesuina da Conceição, filha de Laureano José de Carvalho e Ana Marta de São Joaquim, casal que foi proprietário e/ou residiu nas fazendas Bom Retiro do pai de Ana Marta e, Degredo, ambas em Angaturama. Ana Marta era filha do Felicíssimo Vital de Moraes. Leopoldino casou-se uma segunda vez com Umbelina Candida Rodrigues de quem não se conhece ainda a família.

A próxima viagem do Trem de História trará outro pioneiro de Leopoldina que, com a sua história, contribuirá para trazer à luz mais um pouco do início da ocupação das terras do Feijão Cru. Aguardem!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 435 no jornal Leopoldinense, agosto de 2022


Fontes consultadas: 
[i] Igreja N. S. da Piedade, Barbacena, MG, lv cas 1808-1826 fls 56 
[ii] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 46 
[iii] Arquivo Público Mineiro: CX 07 DOC 07, Termo de Barbacena, Comarca do Rio das Mortes, Mapa da População do Curato de São José do Paraíba - 1831, fam. 86 
[iv] Inventário de Manoel Ferreira Brito, processo 38405636 COARPE/TJMG 
[v] Livro de Arrecadação de Impostos em Conceição da Boa Vista 1858, fls 11verso 
[vi] Partilha Amigável dos bens deixados por Antonio Luiz de Moraes, processo 38401880 COARPE/TJMG 
[vii] Partilha Amigável dos bens deixados por Antonio Luiz de Moraes, processo 38401880 COARPE/TJMG

182 – A Bocaina e os distritos criados na região

Na parte leste da área então conhecida como Sertões do Feijão Cru, em outubro de 1851 foi criado[1] o distrito de Conceição da Boa Vista e determinado que a linha divisória com o então distrito do Feijão Cru começava defronte à barra do ribeirão São João no rio Pomba, local onde hoje se encontra a ponte da BR 116, a 3,5 km ao sul de Laranjal. Seguia pela serra entre as fazendas de Manoel José de Novaes e da Bocaina. Ou seja, entre a fazenda que mais tarde se chamou Campo Limpo e a propriedade de José Ignacio de Souza (Fazenda Bocaina). Depois, a linha alcançava a divisa entre as propriedades de João Batista de Paula Almeida (fazenda Monte Alegre) e de Manoel Ferreira Brito, na altura do Cemitério. Esta última indicação parece ser de um cemitério que teria existido na fazenda São Manoel da Bocaina.

Fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, volume 7

O próximo ponto destacado na lei de criação do distrito de Conceição da Boa Vista foi a propriedade de Joaquim Cesário de Almeida (fazenda Tesouro do Feijão Cru) que divisava com a “Sesmaria dos Vales”, ou seja, com a propriedade formada pelos irmãos Joaquim, Francisco e Salvador Mendes do Vale. Os marcos posteriores do território de Conceição da Boa Vista foram as fazendas Saudade e Santa Úrsula, que permaneceram no Feijão Cru, e o distrito de Madre de Deus do Angu, atual Angustura, com o qual divisava pela “serra da Pedra Branca até embocar no Paraíba e por este abaixo até a barra do Pirapetinga Grande”. Destaque-se, portanto, que o distrito de Conceição da Boa Vista fazia divisa com Santo Antônio de Pádua, província do Rio de Janeiro.

E aqui se abre parênteses para lembrar que esta divisa é uma das causas de propriedades de Conceição da Boa Vista terem sido registradas, em 1856, em livros da Freguesia de Santo Antônio de Pádua, como foi o caso de Jean Claude Robert[2], em cuja fazenda Lealdade passava um córrego da Serra dos Monos e que divisava com um filho de Felicíssimo Vital de Moraes.

Como se sabe, menos de três anos depois o distrito de Conceição da Boa Vista foi novamente incorporado ao Feijão Cru, então como distrito[3] da Vila Leopoldina. E nas décadas seguintes a área que atualmente marca aquela divisa do município de Leopoldina sofreu novas alterações.

No final de 1878 foi criado[4] o distrito de Campo Limpo, atual Ribeiro Junqueira, mantendo a divisa com o distrito de Conceição da Boa Vista cuja área veio a sofrer redução em 1890 com a criação de três novos distritos: Recreio, São Joaquim e Santa Izabel.

O distrito de Recreio, criado[5] em junho daquele ano, teve as divisas determinadas[6] no mês seguinte. Começavam no já então denominado ribeirão de São Manoel da Bocaina onde se localizava a fazenda de mesmo nome que então era propriedade de Joaquim Antônio Machado por cabeça do casal, já que sua esposa Rita Balbina de São José era filha do pioneiro Antonio Luiz de Moraes, cuja partilha amigável dos bens fora realizada[7] em 1866. Seguindo pelo citado ribeirão até sua foz no rio Pomba e daí até a estação de São Joaquim que meses depois se tornaria a sede do distrito de mesmo nome. Os próximos limites do distrito de Recreio eram as propriedades de sucessores nas fazendas São Manoel da Bocaina e Bom Retiro, além da Bom Sucesso, Aurora, Laranjeiras e Serrote. Depois buscava-se o ponto inicial passando pelas fazendas Santa Catarina e Canadá que ficaram para Conceição da Boa Vista, e Passa Tempo que meses depois passou a compor o distrito de Santa Izabel; a fazenda Monte Alegre ficou em Recreio e, seguindo pela serra, iria findar-se nas cabeceiras do ribeirão São Manoel da Bocaina.

O distrito de São Joaquim, atual Angaturama, e o distrito de Santa Izabel, atual Abaíba, foram criados[8] em novembro do mesmo ano.

No estabelecimento das divisas de São Joaquim foram citados sucessores das fazendas Bom Retiro, formada por Felicíssimo Vital de Moraes, e São Manoel da Bocaina, de Manoel Ferreira Brito.

Quanto às divisas de Santa Izabel, importa destacar a parte norte, pelas confrontações com o distrito de Conceição da Boa Vista. No caso, pelas propriedades dos Mendes do Vale, sucessores da fazenda Sesmaria e dos Freitas Lima, sucessores da Água Limpa.

Na próxima viagem virão as famílias dos pioneiros Manoel Ferreira Brito e Antônio Luiz de Moraes. Ambos foram moradores da Fazenda São Manoel da Bocaina e contribuíram para o desenvolvimento da área e pela consolidação do que viria a ser a Vila Leopoldina.

Por hoje o Trem de História fica por aqui!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 434 no jornal Leopoldinense, julho de 2022


Fontes utilizadas: 
[1] Lei nº 533 de 10/10/1851 
[2] Registro de Terras de Santo Antônio de Pádua, RJ (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro), livro 80 fls 19 termo 80 D.1236 
[3] Lei nº 666 de 27 de abril de 1854 
[4] Lei nº 2500 de 12 de novembro de 1878 
[5] Decreto nº 123 de 27 de junho de 1890 
[6] Decreto nº 157 de 30 de julho de 1890 
[7] Partilha Amigável dos bens deixados por Antonio Luiz de Moraes, processo 38401880 COARPE/TJMG 
[8] Decreto nº 241 de 21 de novembro de 1890

181 – Fazendas Bocaina e São Manoel da Bocaina

Depois de muitas tentativas infrutíferas, a pesquisa sobre as fazendas Bocaina e São Manoel da Bocaina trouxe à memória um conceito mencionado pelo historiador Carlo Ginzburg [1] ao citar a “fábula ou conto oriental de três irmãos que, interpretando uma série de indícios, conseguem descrever o aspecto de um animal que nunca viram”. O conto é conhecido pelo título “Peregrinação dos três jovens filhos do rei de Serendip” e fez tanto sucesso que o inglês Horace Walpole cunhou o neologismo “serendipity” para designar as descobertas imprevistas.

Em história, serendipidade corresponde ao paradigma indiciário. Ao interpretar indícios, é possível suprir lacunas através de uma interpretação criteriosa, conjectural. O processo “leva do conhecido ao desconhecido” nas palavras de José Carlos Reis[2] interpretando Ginzburg.

O ofício do pesquisador envolve a coleta de indícios que não necessariamente são compreendidos de imediato. Muitas vezes esses fragmentos ficam guardados até servirem a outro projeto, confirmando o paradigma indiciário.

Foi o que aconteceu no estudo comparativo entre o processo de divisão das terras que compuseram a fazenda de São Manoel da Bocaina, de Manoel Ferreira Brito, com as partilhas de bens de sucessores do primeiro proprietário e o inventário do formador da fazenda Bocaina, José Ignacio de Souza.

Inicialmente acreditava-se que teria existido apenas uma fazenda denominada pelo topônimo bocaina. Como se sabe, bocaina é depressão numa serra, servindo de passagem entre duas partes elevadas, ou passagens estreitas entre duas ilhas ou entre uma ilha e o continente. Uma das conhecidas bocainas, nas divisas em São Paulo e Rio de Janeiro, deu nome à Serra da Bocaina mencionada por Saint-Hilaire[3]. É a serra que batizou o município de Bocaina de Minas onde nasceu Manoel Ferreira Brito quando o lugar ainda era um pequeno arraial pertencente a Aiuruoca que, por sua vez, é terra de origem de várias famílias que migraram para Leopoldina. Daí ser lícito imaginar a existência inicial de apenas uma fazenda do nome e que essa tenha sido a de Manoel Ferreira Brito que a formou ao chegar ao Feijão Cru.

Até então tinha-se como certo que os dois nomes, Fazenda de São Manoel da Bocaina e Fazenda Bocaina, se referiam a uma só propriedade. No entanto, a partir dos estudos comparativos acima citados, observou-se que tal interpretação não se sustenta. As primeiras referências a tais propriedades vieram de registros dos confrontantes, no caso da São Manoel da Bocaina e, em transações de compra e venda de bens de raiz constantes dos primeiros livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista envolvendo os proprietários das duas Bocainas e as propriedades de Antonio Luiz e de Felicíssimo de Moraes.

Para a fazenda São Manoel da Bocaina partiu-se de referências indiretas que foram confrontadas com outras fontes, como compra e venda de bens de raiz envolvendo descendentes do primeiro proprietário, além dos vínculos que se formaram com descendentes das fazendas confrontantes, testamentos e inventários dos nomes envolvidos. Chamou a atenção o fato de que, diferentemente da maior parte das fazendas formadas no Feijão Cru, as duas propriedades com o nome de Bocaina não foram registradas em 1856, o que não chegou a ser tratado como problema, visto que as propriedades de Antonio Luiz de Moraes e Felicíssimo Vital de Moraes também não o foram.

Conforme o já citado Reis[4], “o trabalho do historiador se aproxima do trabalho do policial e do juiz. A necessidade da prova não é uma ilusão positivista. O processamento da documentação é capaz de distinguir o falso.” E assim trabalhando, os autores desta série chegaram ao que se verá a respeito na próxima edição. Antes, porém é necessário situar a região aqui mencionada.

Trata-se da divisa entre o distrito de Ribeiro Junqueira e o município de Recreio, a partir da margem do Rio Pomba até o local onde a estrada de ferro cruza o ponto hoje denominado Alto da Bocaina como se verifica na Carta Topográfica do Município de Leopoldina produzida em 1981.

Até a próxima edição!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 433 no jornal Leopoldinense, junho de 2022

Fontes consultadas:


[1] GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.168 
[2] REIS, José Carlos. Teoria & História: tempo histórico história do pensamento histórico ocidental e pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2012. p.101 
[3]  SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974 
[4] REIS, José Carlos. Obra citada,2012. p.100-101

Arte de Curar em Leopoldina

Para marcar o 168º Aniversário de Emancipação da Cidade o Trem de História faz hoje uma viagem especial pelo antigo Feijão Cru para apresentar aos leitores o cidadão

ANTONIO PEREIRA VALVERDE,

um pioneiro que deve ser visto de forma diferenciada por ter sido, como indicam os seus pertences inventariados, uma pessoa com algum gosto pela leitura e preocupada em conhecer a arte de curar, o que era pouco comum na época.

Isto porque a análise de inventários e testamentos diz muito não apenas sobre a pessoa em si, mas sobre a sociedade da época. E a Descrição de Bens do inventário desse fazendeiro de Leopoldina, aberto em 1849, traz registros interessantes. Nele, além dos objetos em ouro, prata, animais, escravos e bens de raiz, há alguns itens significativos tais como: estojo de navalhas, pedra de afiar, três livros de Chernoviz, dois volumes do Manual do Fazendeiro e um “livro da arte de curar a si mesmo”. Itens que, listados na ordem aqui informada, indicam que eram entendidos pelos avaliadores como pertencentes à mesma classificação ou, seja, eram bens da mesma importância.

A busca de informações sobre esses livros mencionados levou à leitura da dissertação de mestrado[1] de Maria Regina Cotrim Guimarães que descortinou alguns saberes bastante esclarecedores. De modo geral, é comum imaginar que naquela altura do século XIX os moradores do interior não tivessem acesso a médicos nem tampouco ao conhecimento científico da arte de curar. Embora a primeira afirmativa seja correta, já que os profissionais se concentravam nos grandes centros, havia o que Maria Regina chamou de “literatura auto-instrutiva” representada por variada gama de manuais. Ressalta a autora que eram obras sofisticadas, em grossos volumes, dedicadas a informar o público leigo. Tinham grande aceitação e larga difusão entre leigos letrados como boticários, fazendeiros e suas esposas que utilizavam as técnicas ensinadas nos manuais em seu ambiente social.

A mencionada autora destaca o cunho civilizador de tais obras, pois informavam e introduziam noções de medicina que estimulavam os leitores contra o charlatanismo, além de grandes benefícios que resultavam das orientações a respeito da higiene.

CHERNOVIZ

Entre os autores de tais manuais surge, então, o talvez mais popular entre eles: Piotr Czerniewicz, polonês, que se tornou conhecido pelo nome abrasileirado de Pedro Napoleão Chernoviz. Médico chegado ao Brasil em 1840 e que já no ano seguinte publicava artigo na Revista Médica Fluminense. Em 1842 publicou a primeira edição de sua obra mais difundida: Dicionário de Medicina Popular, em dois volumes com uma tirarem de três mil exemplares, o que era inimaginável para a época.

Figura 1- Diccionario de Medicina Popular, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz

Guimarães ressalta, ainda, ser uma obra de grande utilidade doméstica pelo formato de dicionário que facilita a busca pelos termos, como também pelos assuntos escolhidos. Além da descrição dos males e seu tratamento, trazia também indicações de fórmulas para tingir cabelos, para tirar nódoas e tinta para escrever, entre outras.

Chernoviz aconselhava a formação de uma “botica” doméstica, ou seja, uma farmácia, e ensinou a melhor forma de conservação dos elementos que ela deveria conter e que chegavam a 67 diferentes substâncias na terceira edição. Em edições posteriores, a obra passou a ser vendida junto com uma botica portátil. Acredita-se que desde a primeira edição era também sugerido o uso de determinados tipos de navalhas, o que justificaria o ‘estojo de navalhas’ listado entre os bens do fazendeiro leopoldinense inventariado em 1849.

Vale registrar que a obra teve diversas edições, inclusive após o retorno do autor para a Europa com mulher e filhos brasileiros.

ANTONIO PEREIRA VALVERDE, O PROPRIETÁRIO DAS OBRAS

O dono das obras mencionadas foi Antonio Pereira Valverde, cuja mais antiga referência de localização é a Sesmaria do Piau, então pertencente à Freguesia do Engenho da Mata, atual Paula Lima, distrito de Juiz de Fora. Lá ele se casou com Ana Angélica procedente de Remédios. Mais tarde estabeleceu-se na Fazenda Boa Vista da Independência, no território do atual distrito de Piacatuba, onde sua esposa vivia com os filhos até 1877, quando fez testamento[2].

Antonio nasceu por volta de 1794, filho do português José Pereira Valverde e Luiza Francisca da Assunção.  Luiza era natural de Itaverava e falecera na Sesmaria do Piau no dia 16 de junho de 1816, deixando mais dois filhos além de Antonio: Maria Rosa, casada com Manoel Fernandes de Oliveira e Leonardo Pereira Valverde do qual não se tem outras informações.

O pai de Antonio se casou novamente com Aniceta Francisca de Almeida de cujo matrimônio não havia herdeiros vivos quando ele faleceu.

E pela terceira vez José Pereira Valverde se casou com Maria Constança de Jesus, filha de Luiz Coelho Machado e Francisca. Deste consórcio foram os filhos Bárbara casada com Laurindo Pereira da Cunha, Ana Rita casada com Bento José de Matos, outra Maria Rosa casada com Custório Ernesto da Silva e, Clara Maria de Jesus.

José faleceu na Sesmaria do Piau aos 22 de outubro de 1847. Maria Constança, após enviuvar-se casou com Casimino Antonio de Faria, filho de Francisco Antonio de Faria.

Até o momento não há notícia de que os irmãos de Antonio tenham migrado para o Feijão Cru.

Antonio Pereira Valverde e Ana Angélica tiveram 9 filhos, sendo que pelo menos dois deles se casaram com descendentes dos formadores de propriedades vizinhas.

ANTONIO PEREIRA VALVERDE E SEUS VIZINHOS

Na mais antiga representação cartográfica[3] da nossa região estão os nomes dos proprietários aqui estabelecidos em 1847. Embora o desenho seja sofrível, justificável até mesmo pelo tempo decorrido, é possível identificar alguns aspectos.

Transpostos para uma cartografia[4] de 1938, estes aspectos auxiliaram a coleta dos nomes dos três proprietários marcados nas proximidades do Ribeirão Samambaia. Os nomes das propriedades confrontantes, conforme os processos de Divisão Judicial e inventários dos envolvidos entre 1877 e 1904, ajudaram a definir o local provável de cada sede. E assim chegou-se aos pioneiros que se estabeleceram entre o Rio Pardo e o Ribeirão Samambaia:

1 – Francisco Luiz Pereira, fazenda Ribeirão Samambaia, próxima da foz do ribeirão no rio Pardo, depois se chamou fazenda Francisco Luiz e, mais tarde, fazenda Indaiá.

2 – Antonio Pereira Valverde, fazenda Boa Vista da Independência, divisas ao norte com Francisco Luiz e ao sul com os Vitais.

3 – Vital Antônio de Oliveira, fazenda Fortuna, cuja marcação de 1847 não está bem definida, podendo ser na margem direita do Rio Pardo. Esta indefinição ainda carece de mais estudos visto que a localização da fazenda dos Vitais, em 1904, aparece como sendo na margem esquerda.

Um fato curioso a respeito destes três pioneiros é que as propriedades não foram lançadas no Registro de suas Terras, em 1856, em Leopoldina. Mas os três proprietários foram citados nos registros feitos pelos confrontantes.

Muito ainda se tem para contar, inclusive, sobre a descendência de Antonio Pereira Valverde. Mas por hoje esta parte da história de Leopoldina fica por aqui. Até breve!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 432 no jornal Leopoldinense, maio de 2022

Fontes consultadas:


[1] GUIMARÃES, Maria Regina Cotrim. Civilizando as artes de curar: Chernoviz e os manuais de medicina popular no império. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-graduação em História das Ciências da Saúde, Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2003. Atualmente disponível em <https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/6128> 
[2] Inventário e testamento de Ana Angélica da Conceição, processo 38405056. 
[3] TEODORO, João José da Silva, Carta Topográfica dos Termos do Presídio, Pomba e São João Nepomuceno (Acervo da Biblioteca Nacional: 1847) 
[4] Mapa do Município de Leopoldina produzido em obediência ao Decreto Lei nº 311 de 2 de março de 1938, com base em: Commissão Geographica e Geologica de Minas Geraes, Carta Geográfica de Cataguases Folha nº 20 S2 E3 (São Paulo, Cayeiras e Rio: Secção Cartographica da Companhia Melhoramentos (Weisflog Irmãos incorporada), 1926.)

179 – Fazenda Pedro Velho, de Pedro de Oliveira e Silva

O Trem de História de hoje tem como destino a antiga Fazenda Córrego de São Pedro, formada por Pedro de Oliveira e Silva em cerca de 80 alqueires de terras compradas de Francisco José da Silva, conforme registro[1] de 1856.

Tal fazenda confrontava com: 1) Manoel José de Novaes, proprietário do Sítio Saudades / Fazenda Campo Limpo, de quem se falou no  artigo anterior; 2) Francisco Martins de Andrade, que já habitava o território do Feijão Cru desde pelo menos 1843, conforme o censo[2] em que consta como chefe de um fogo onde morava com a esposa Luiza Maria e os filhos Gabriela e Joaquim; 3) Manoel José Pacheco, que pode ser o filho de Mariano José Pacheco listado como contribuinte[3] em Conceição da Boa Vista em 1858; 4) José Casemiro da Costa, casado com Maria Carolina de Jesus, filha de José Ignacio de Souza; 5) Ponciano Rodrigues de Andrade, de quem não se tem informações; e, 6) Manoel Francisco Malta, que registrou[4] duas propriedades em Leopoldina ainda não identificadas.

Pouco se conseguiu apurar sobre Pedro de Oliveira e Silva e sua família. Sabe-se que em 1852 uma filha dele se casou[5] em Piacatuba com Antonio de Sá Rocha. As fontes não esclarecem se nesse ano os pais da noiva já viviam nas margens do Córrego São Pedro onde formaram a fazenda cujo primeiro nome era o do curso d’água.

Além dessa informação, o que mais se tem sobre a fazenda está no processo de divisão[6] requerida quase dez anos depois da morte de Pedro de Oliveira e Silva e no mesmo ano em que faleceu sua esposa. O requerimento foi iniciativa de Antonio José Dias da Paixão, que em algumas fontes é citado como Antonio José Machado Dias da Paixão, e que seria parente de Maria Catarina da Paixão, um dos nomes utilizados pela mulher de Joaquim Dias Neto de quem Antonio José comprou[7] a propriedade em abril de 1871.

Ressalte-se que o objeto dessa compra foi uma morada de casas no arraial de Santana da Mata, em terreno de sessenta palmos com fundos até o rio Pomba, e bem assim uma situação denominada Floresta, de 16 alqueires com benfeitorias, em terras do finado Pedro de Oliveira e Silva conhecidas por Fazenda do Pedro Velho.

Aqui vale o registro de que existiu uma capela de Santana da Mata ao norte da Fazenda Pedro Velho, da qual não foram encontradas referências nos arquivos da Diocese de Leopoldina.

Segundo fontes literárias, no lugar onde se localizava a capela funcionou a Escola Francisco Machado, bem próxima da Fazenda Cachoeira do Pomba que pertenceu a Custódio Machado. O homenageado com o nome da escola seria Francisco Machado Dias Neto nascido[8] a 09 de março de 1860, filho de Joaquim Dias Neto e Maria Catarina, proprietário de 40 alqueires registrados[9] em 1856 sem indicação de nome da propriedade. Custódio Machado, proprietário da Cachoeira do Pomba, era neto de Francisco Machado Dias Neto.

Registre-se que por ocasião da divisão da Fazenda Pedro Velho foram convocados 44 condôminos e mais de 20 confrontantes, incluindo a Câmara Municipal que teria recebido doação do formador da propriedade para constituição do patrimônio de Santana da Mata, no povoado do mesmo nome, à beira do Rio Pomba.

Quanto à família do pioneiro Pedro de Oliveira e Silva, sabe-se que ele e sua esposa Antonia Maria de Jesus foram pais de: 1) Flausina Maria de Jesus casada com Manoel Antonio Martins; 2) Francisco Domingues da Costa; 3) Joaquim Antonio de Oliveira; 4) Manoel Bernardes da Silva que se casou com Maria Joaquina de Jesus e com ela teve filhos nascidos em Piacatuba; 5) Maria Quintiliana de Jesus; e, 6) Rita Maria de Jesus, falecida em Piacatuba em maio de 1854, que foi casada com Antônio de Sá Rocha, filho de Manoel de Sá Rocha e Joana Luzia.

No processo de divisão da fazenda Pedro Velho, há requerimento ao juiz para convocar o interessado Manoel Bernardes da Silva que residia nas Matas do Itabapoana, província do Espírito Santo. Entretanto, na escritura de venda de sua legítima paterna o local de residência[10] de Manoel foi indicado como Batatal, Vila Benevente, que é o atual município capixaba de Anchieta. Não se pode afirmar que dois outros filhos de Pedro de Oliveira e Silva, Francisco e Joaquim, sejam os homônimos referidos em fontes do mesmo município espírito-santense.

O Trem de História fica por aqui. Na próxima edição do Jornal, outro pioneiro de Leopoldina ocupará este espaço. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 431 no jornal Leopoldinense, abril de 2022

Fontes Consultadas:


[1] Registro de Terras de Leopoldina. Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, nº 77 
[2] Arquivo Público Mineiro CX 03 DOC 04, Termo da Vila de São João Nepomuceno, Mapa da População do Feijão Cru, 1843 fls 15 fam 140 
[3] Livro de Arrecadação de Impostos em Conceição da Boa Vista 1858, fls 11 v 
[4] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), s 92 e 93 
[5] Igreja N. S. da Piedade, Piacatuba, Leopoldina, MG, lv 1 cas termo 20 
[6] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 COARPE/TJMG 
[7] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 img 365. 
[8] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 57 termo 301 
[9] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 42 
[10] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 fls 20 e 23.

176 – Fazenda Tabuleiro, de Processo José Corrêa de Lacerda.

Vizinha do Sítio Saudades ou Fazenda Campo Limpo, de Manoel José de Novaes, a Tabuleiro foi fundada por Processo José Corrêa de Lacerda, genro de Manoel José.

Registre-se, de início, que em virtude da homonímia não foi possível estabelecer qual era o vínculo de Processo José com Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, pioneiro que formou a fazenda da Memória[1] nos primeiros tempos do Feijão Cru. Sabe-se, porém, que os Corrêa de Lacerda eram de Bom Jardim de Minas onde moravam também, os Novaes.

Muitos pesquisadores se dedicaram a estudar os vínculos que os casamentos criavam entre as famílias dos noivos. Maria Beatriz Nizza da Silva[2] mencionou o princípio da igualdade social que era estimulado pela Igreja Católica na escolha dos pretendentes, dando surgimento a adágios e provérbios como o de Antonio Delicado: “Se queres casar, casa com teu igual”. A autora citou, também, o padre Manoel Bernardes em sua obra Nova Floresta[3], publicada em 1706, para esclarecer o que se entendia por igualdade entre os noivos. Tratava-se de fazer combinar idades, condições sociais, saúde e a “qualidade” dos pretendentes, ou seja, similaridade etária, social, física e moral. Considerando que os párocos interferiam profundamente nas decisões das famílias e que conheciam bem os seus paroquianos, conclui-se que realizavam casamentos tendo em vista o princípio aqui mencionado. E assim se compreende o casamento de Processo José Corrêa de Lacerda com Maria Vitoria de Novaes pouco tempo antes da transferência para o Feijão Cru.

Processo não declarou de quem comprou os 120 alqueires em que formou a sua fazenda Tabuleiro, registrada[4] em 08.03.1856. Informou divisas com Manoel José de Novaes e Francisco Silva Barboza (fazenda Boa Vista dos Barbosas), e com a fazenda da Bocaina, o que causou mais uma dificuldade no decorrer da pesquisa. Isto porque as fontes consultadas indicam que a propriedade do sogro de Processo estava entre a Tabuleiro e a Bocaina, inviabilizando a indicação de tais divisas.

Conforme mencionado na coluna anterior, Manoel José de Novaes, formador da fazenda Campo Limpo, havia feito a partilha dos bens em vida, passando-os para a administração dos herdeiros, incluindo seu vizinho e genro Processo José Corrêa de Lacerda que faleceu[5] aos 12.05.1888. Daí a partilha dos bens de Processo eventualmente se confundir com a divisão dos bens de seu sogro.

Maria Vitória e seu marido só tomaram posse[6] da integridade dos bens da legítima paterna dela em junho de 1875. Quase dois anos depois, em março de 1877, foi aberto o processo de divisão judicial da fazenda São Pedro, mais tarde conhecida por Pedro Velho, da qual o casal era um dos confrontantes[7] pela parte que lhes coube no inventário de Manoel José de Novaes. Em março de 1882, quando foi julgada a divisão da fazenda Pedro Velho, o casal Processo e Maria Vitória teve regularizada[8] sua posse naquela fazenda, uma área de 7 hectares. Dois meses depois, houve um acréscimo não especificado nesta área porque se descobriu que anos antes, ao vender a parte que julgava possuir na Fazenda Pedro Velho, Manoel José de Novaes informou uma quantidade menor do que realmente possuía. Desta forma, os domínios de Processo José Corrêa de Lacerda passaram a se estender da margem direita do atual Córrego das Virgens até a margem esquerda do Córrego São Pedro que mais tarde passou a se chamar Arizona. A partir desse momento, a propriedade de Processo e Maria Vitória aparece nas fontes como Fazenda Tabuleiro dos Coqueiros.

Com sucessivas vendas e permutas que ocorreram nos anos seguintes, em 1897 as antigas fazendas Tabuleiro e Campo Limpo estavam reduzidas a 317 hectares, sendo que cerca de 65 alqueires sob o nome de Tabuleiro dos Coqueiros que pertencia a 23 condôminos. Boa parte das vendas permitiu a ampliação da área urbana do distrito que então se desenvolvia na esteira do movimento trazido pela Estrada de Ferro.

01) - Generosa Maria de Jesus cc Prudente Balbino de Souza, filho de Candido Balbino de Souza que teria sido vizinho de Manoel José de Novaes; 02) - Manoel Bento de Lacerda cc Laura Maria de Jesus, teria migrado para Laje do Muriaé; 03) - Maria Justina cc Joaquim Izidoro Ferreira, falecida antes de seu pai; 04) - Prudencio Afonso cc Eduviges, sem outras informações; 05) - Gabriel Antonio de Novaes, teria vivido em município vizinho; 06) - Caetano José cc Felizarda Amélia Salustiana, vendeu sua legítima paterna e teria se radicado na sede do distrito; 07) - Porfiria Maria de Jesus cc João Carlos Neto, ele descendente do formador da fazenda Boa Vista dos Barbosa e ela falecida antes do pai; 08) - Gertrudes Maria de Lacerda casou-se com um dos Honórios Ferreira de Lacerda de quem se sabe que fora condômino da fazenda Córrego do Sapateiro, na margem do rio Pomba, e que vendera sua parte a João Gonçalves Neto; 09) - Processo Felix de Novaes cc Maria Carolina de Oliveira, trocou sua legítima na sede do distrito por uma cota da fazenda Tabuleiro dos Coqueiros; 10) - Florisbela Maria de Lacerda cc Francisco José de Oliveira, faleceu em Ribeiro Junqueira no dia 19 de agosto de 1895.

Para completar as informações sobre a parte norte do distrito de Campo Limpo é necessário abordar o antigo Sítio São Pedro que ficou depois conhecido como Fazenda Pedro Velho. Assunto para a próxima viagem do Trem de História.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 428 no jornal Leopoldinense, janeiro de 2022

Fontes Consultadas:[1] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 9

[2] SILVA, Maria Bestriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil Colonial. São Paulo: T.A.Queiroz/USP, 1984. p.66

3] Classificada nas categorias ensaio, estudo e polêmica, Nova Floresta é uma obra em 5 volumes que foi publicada pela editora Oficina de Valentim da Costa Deslandes, Lisboa, Portugal e tem versão digitalizada disponível no site da Universidade Federal de Santa Catarina.

[4] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 4

[5] Inventário de Processo José Corrêa de Lacerda, processo 38402722 COARPE/TJMG img 1

[6] Inventário de Manoel José de Novaes, processo 38405822 COARPE/TJMG img 225

[7] Divisão da Fazenda Pedro Velho, processo 38404535 COARPE/TJMG imgs 2-4.

[8] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 COARPE/TJMG img 186 e 233.

175 – Fazenda Campo Limpo de Manoel José de Novaes

Logomarca Trem de História

Hoje o Trem de História traz, em seu vagão principal, a propriedade da família Novaes que fazia divisa com a Fazenda Recreio abordada na última edição. E assim como o nome da propriedade de Antonio José Dutra e Mariana Teresa Pereira Duarte faz algumas pessoas pensarem no vizinho município de Recreio, também a Fazenda Campo Limpo já causou engano em alguns estudiosos.

Portanto, necessário se faz esclarecer que houve, pelo menos, duas fazendas com o nome Campo Limpo no território de Leopoldina. Uma delas é a citada pelo Cônego Raimundo Trindade e que pertenceu a Felisberto da Silva Gonçalves. Felisberto era sobrinho do alferes Tiradentes. Ele e a esposa receberam duas sesmarias no córrego do Glória em 1813. Esta sua fazenda Campo Limpo ficava localizada entre as fozes dos atuais ribeirões São Bento e Campo Alegre no Rio Pardo e o filho de Felisberto, Antonio Felisberto da Silva Gonçalves, nela residia em 1867.

A outra fazenda Campo Limpo, cuja história hoje se conta, teve sua origem no Sítio Saudades, pertencente a Manoel José de Novaes e sua esposa Ana Francisca Garcia. Propriedade que em 1874 já recebia o nome de Fazenda Campo Limpo e permanecia com os mesmos 300 alqueires citados no Registro em 1856.

O casal formador dessa Campo Limpo chegou ao Feijão Cru entre 1831 e 1835, com seis filhos. Estabeleceram-se às margens do Rio Pomba onde foram vizinhos de Mariana Pereira Duarte [fazenda Recreio], Francisco da Silva Barbosa [Fazenda Boa Vista], Processo José Corrêa de Lacerda [Fazenda Tabuleiro], Pedro Baldoino da Silva [Fazenda Boa Sorte], Pedro de Oliveira e Silva [Fazenda Pedro Velho], além de Pedro Moreira de Souza e Francisco Martins de Andrade cujas propriedades não foram registradas pelo pároco do Feijão Cru.

A propriedade de Pedro Moreira era a legítima paterna de sua esposa, Gertrudes Balbina de São José, que era irmã de Francisca de Paula Reis, esposa de Pedro Baldoino da Silva. Gertrudes e Francisca eram filhas de Maria Felicia dos Reis e José Ignacio de Souza que era natural do Quilombo, atual Bias Fortes, filho de José Mendes de Souza e Ursula Maria. Lá se casou, em 1809, com Maria Felicia dos Reis, nascida em 1792 em Santa Rita de Ibitipoca. Era filha de Miguel Esteves dos Reis e Clara Teodora de Castro. José Ignacio faleceu em Leopoldina em julho de 1844.

José Ignacio e Maria Felicia foram pais de: 01 – Maria Carolina de Jesus cc José Casemiro da Costa e em 1856 vizinhos da fazenda Pedro Velho; 02 – José Simpliciano dos Reis, que em 1856 foi citado como vizinho da fazenda Tabuleiro, era casado com Mariana Constança de Assunção; 03 – Gertrudes Balbina de São José nascida em 1816 no Quilombo, cc Pedro Moreira de Souza; 04 – Candida Ozoria de Rezende se casou com Antonio Garcia de Novaes, filho do formador da fazenda Saudades ou Campo Limpo; 05 – Francisca de Paula Reis cc Pedro Baldoíno da Silva que registrou a fazenda Boa Sorte em 1856; 06 – Cesario José dos Reis, nascido por volta de 1823; e, 07 – Julia nascida por volta de 1838.

Segundo seu inventário, José Ignacio de Souza formou a fazenda Bocaina, provavelmente em terras adquiridas de Manoel Ferreira Brito que teria sido o fundador da Fazenda São Manoel da Bocaina.

Sobre o casal formador da Fazenda Saudade ou Campo Limpo, registre-se que a matriarca Ana Francisca Garcia nasceu em Aiuruoca, filha de José Garcia e Maria do Rosário. Casou-se com Manoel José de Novaes a 22.06.1808, em Bom Jardim de Minas onde ele nasceu, filho de Domingos José de Novaes e Genoveva Maria do Rosário.

Vale observar que pela proximidade de origem com os Ferreira Brito e os Almeida Ramos, é possível que o casal tenha migrado para o Feijão Cru a convite deles.

Ana Francisca faleceu no dia 28.06.1852 e em seu inventário consta uma informação esclarecedora. Segundo declaração do agrimensor, a propriedade da família estendia-se da margem do Rio Pomba até as terras da Bocaina. Indicando, portanto, que a área urbana no arraial depois distrito de Campo Limpo surgiu na confrontação entre as duas fazendas.

Manoel José faleceu no dia em 05.09.1872 e o inventário foi aberto em maio de 1874. Naquele momento, seus bens já se encontravam sob administração dos herdeiros, incluindo seu vizinho e genro, Processo Lacerda.

Manoel José de Novaes e Ana Francisca Garcia foram pais de: 01 – João Batista, nascido por volta de 1817 e falecido em Campo Limpo em 1873, incapaz, foi representado por curador no inventário do pai; 02 – Maria Vitoria, cc Processo José Corrêa de Lacerda de quem se falará na próxima edição; 03 – Sebastião José cc Francisca Maria de Jesus; 04 – Antonio Garcia de Novaes cc Candida Maria de Rezende, filha de José Ignacio de Souza, da fazenda Bocaina; 05 – Francisco José, nascido por volta de 1830 e falecido solteiro logo depois da morte da mãe; e, 06 – Pedro José cc Candida Pompilia Tavares, casal que viveu no distrito de Tebas.

Chegado à estação, o Trem de História irá preparar a carga de outra propriedade que esteve profundamente ligada a Campo Limpo.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 427 no jornal Leopoldinense, dezembro de 2021

Fontes Consultadas: 
Arquivo Público Mineiro PP 1/10 CX 01 DOC 04, Termo de São João Del Rei, Mapa da População de Bom Jardim - 1831, quarteirão 2, fogo 2 e CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba, Mapa da População do Feijão Cru, 1835 fls 21 fam 82; Carta de Sesmaria. SC 352 fls 76 e Coleção Casa dos Contos do APM, cx 87, item3; Seção Colonial, TP 114. Registro de Terras de Leopoldina. nº 56, nº 77 e nº 78 
Igreja N. S. da Piedade, Barbacena, MG, lv bat 1811-1830 fls 128v; lv cas 1795-1812 fls 199; lv cas 1808-1826 fls 1v; lv bat 1788-1798 fls 454 
Inventários de Ana Francisca Garcia, Felisberto da Silva Gonçalves, João Ignacio de Souza e Inventário de Manoel José de Novaes. 
TRINDADE, Cônego Raimundo. Velhos Troncos Mineiros. São Paulo: Gráfica Revista dos Tribunais, 1955. v.2 p.198/199

174 – Fazenda Recreio

Logomarca Trem de História

Entre os atuais córregos das Palmeiras e das Virgens, Antonio José Dutra e Mariana Teresa Pereira Duarte formaram a fazenda a que denominaram Recreio, que foi registrada[1] em 1856 pela então viúva, declarando terem sido comprados 417 alqueires sem declarar data ou vendedor.

Antonio José e Mariana se casaram[2] no dia 11 de novembro de 1822 em Barbacena. Ela foi batizada[3] em Ibertioga aos 03 de junho de 1807, sendo filha de Antonio Pereira da Cunha e Teresa Maria Duarte. Teve como madrinha de batismo a sua meia irmã Joaquina Beralda de Santana, mãe de seu futuro marido Antonio José Dutra. No inventário do pai[4] de Mariana, consta que em solteiro ele teve uma filha de nome Joaquina Beralda de Santana que se casou com Manoel José Dutra.

Em 1831 o casal Antonio José e Mariana residia em Santa Rita de Ibitipoca com as filhas Rita (nascida em 1825), Constança (1826) e Maria, além de uma pessoa de nome Joaquina, viúva, que poderia ser a mãe de Antonio José. Não se sabe, ainda, quando se transferiram para o Feijão Cru, pois não aparecem nas contagens populacionais de 1835 e 1843.

Sabe-se que o casal teve, pelo menos, mais três filhos nascidos no Feijão Cru: Ana Eugênia, José Tomaz e João José.

Também não se sabe quando Antonio José faleceu, podendo-se apenas informar que foi antes de novembro de 1854, data da medição[5] e estabelecimento das divisas entre as fazendas Recreio e Santa Cruz, aquela pertencente a Mariana Teresa Pereira Duarte e esta a José Thomaz de Aquino Cabral.

Quanto à localização dessa fazenda sabe-se que ao registrar sua propriedade, Mariana Duarte declarou divisas com a fazenda Santa Cruz, de José Tomaz de Aquino Cabral, com Francisco da Silva Barbosa (Boa Vista), Manoel José de Novaes (Saudades), Antonio Carlos da Silva Teles Faião (Barra das Laranjeiras) e Bento Rodrigues Gomes (Cachoeira do Bagre). No Retombo assinado pelo agrimensor Antonio Jacinto Muniz, aos 22 de novembro de 1874, a localização foi indicada como tendo[6] “vertentes para os córregos Recreio e João Ides”.

É possível que este João Ides tenha alguma relação com João Ides de Nazareth Filho, cuja segunda esposa era filha do pioneiro Joaquim Ferreira Brito. E pode ter sido ele o vendedor das terras adquiridas por Antônio José Dutra, já que sua primeira esposa era sobrinha dos dois beneficiários com as sesmarias doadas em 1818, os irmãos Fernando e Jerônimo Corrêa de Lacerda.

No dia 10 de março de 1877 foram convocadas 65 pessoas, algumas delas acompanhadas dos respectivos cônjuges, para o julgamento da sentença do Retombo[7] das fazendas Santa Cruz e Recreio. O memorial descritivo esclarece que o processo foi iniciado na divisa da Fazenda Recreio com a Fazenda dos Barbosa (Boa Vista), cujo marco era a “junção do córrego dos Barbosa com o ribeirão do Recreio” e seguiu pelo “caminho que vai ao Laranjal”. Cita confrontações com propriedades menores, oriundas de desmembramentos da fazenda Águas Vertentes do Córrego do Moinho e da fazenda Cachoeira Alta do Bagre, até retornar ao ponto de partida da medição.

Para a finalização do trabalho, os interessados entregaram seus títulos de posse e outros documentos probatórios, como escrituras particulares de venda que os herdeiros fizeram de parte de suas legítimas, e o agrimensor declarou que a divisão e demarcação das fazendas Santa Cruz e Recreio resultaram em dois quinhões de 187 alqueires e 3 quartas para Mariana Tereza Pereira Duarte e igual área para José Tomaz de Aquino Cabral.

Muito provavelmente Mariana faleceu pouco tempo depois de encerrado o processo. Embora não tenha sido encontrado seu inventário, a conclusão advém de novo processo para divisão da mesma propriedade, agora entre os herdeiros. Aos 7 de outubro de 1879 o mesmo agrimensor assinou[8] a Derrota da medição amigável da fazenda, tendo encontrado 92 alqueires, indicação de que os herdeiros já haviam vendido partes de suas legítimas.

Os herdeiros citados foram os irmãos João José, José Tomaz e Ana Eugênia e seus respectivos cônjuges. Entre os confrontantes havia herdeiros da Fazenda Boa Vista dos Barbosas, da Águas Vertentes e da Cachoeira do Bagre. Tais propriedades foram citadas desde a declaração de Mariana em 1856, o que demonstra que as partes vendidas da fazenda ficavam ao sul, especialmente nas divisas com a fazenda Santa Cruz.

Em 1883, o que restava da fazenda Recreio voltou a ser objeto de divisão amigável entre dois condôminos: João José Tomaz Dutra, filho dos formadores da propriedade, e Vicente Rodrigues Ferreira, filho do formador da fazenda Cachoeira do Bagre e casado com uma filha do formador da fazenda Águas Vertentes. Naquela altura a propriedade havia encolhido para 73 alqueires[9] e entre os confrontantes estavam os irmãos de João José, José Tomaz Dutra e Ana Eugênia Duarte, que haviam separado seus quinhões após o retombo de 1880.

Menos de dez anos depois, morreu João José Dutra. Sua viúva, Maria Antonina de Castro, casou-se pela segunda vez com um herdeiro da Fazenda Fortaleza. Mas isto é assunto para uma das futuras viagens do Trem de História porque a próxima terá como destino uma das propriedades vizinhas à Fazenda Recreio. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 426 no jornal Leopoldinense, novembro de 2021

Fontes consultadas: 
[1] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 66. 
[2] Igreja N. S. da Piedade, Barbacena, MG, lv cas 1808-1826 fls 173v 
[3] idem, lv bat 1740-1816 fls 127
[4] Museu Regional de São João del Rei, caixa 43, ordem 20
[5] Divisão amigável das fazendas Recreio e Santa Cruz. Processo 38402027 COARPE - TJMG, img 36.
[6] idem, img 37
[7] Idem, imgs 46-53.
[8] Divisão amigável da fazenda Recreio. Processo 38402779 COARPE – TJMG, img 9
[9] Divisão amigável da fazenda Recreio. Processo 38403387 COARPE - TJMG, img 73

173 – Fazendas Santa Cruz e Natividade

Logomarca Trem de História

A viagem de hoje do Trem de História tem como destino uma fazenda formada em 265 alqueires registrados[1] por José Tomaz de Aquino Cabral, seu filho Carlos Augusto de Aquino Cabral e seu genro Sebastião Gomes Teixeira Jalles. E cujos confrontantes eram João Gualberto Ferreira Brito (fazenda Fortaleza), Antonio Rodrigues Gomes (Águas Vertentes), José Ferreira Brito (Dois Irmãos), Francisco da Silva Barbosa (Boa Vista dos Barbosas) e Mariana Teresa Pereira Duarte (Recreio).

Segundo declaração[2] de Antonio Carlos da Silva Teles Faião, uma de suas propriedades foi comprada de José Tomaz de Aquino Cabral, num total de 140 alqueires, área esta não incluída nos 265 alqueires do registro acima mencionado.

Comparando-se os registros de 1856 com as divisões de propriedades nas décadas seguintes, observa-se que os Aquino Cabral teriam adquirido, inicialmente, terras que se estendiam da margem direita do rio Pomba até o córrego Santa Cruz e que a venda para Teles Faião teria sido da parte norte da propriedade.

Conforme mencionado no texto anterior, a propriedade adquirida dos Aquino Cabral por Teles Faião teve como primeiro nome Barra das Laranjeiras. Mas em 1876, quando Carlos Augusto de Aquino Cabral, marido de Vicencia Antonia filha de Teles Faião, requereu a divisão amigável[3] da Barra das Laranjeiras ela já era denominada Fazenda Natividade.

Registre-se que este processo de divisão esclareceu mais alguns pontos sobre os domínios dos Aquino Cabral e Teles Faião uma vez que a planta[4] da fazenda, desenhada pelo agrimensor Manoel Maximiano de Souza Muniz estabeleceu a localização da propriedade, suas confrontações e a área encontrada que foi de 80 alqueires e meia quarta.

Considerando que naquele momento não havia divisas entre as fazendas Santa Cruz e Natividade, entende-se que a diferença de 60 alqueires corresponde à área entre elas que teria sido vendida a diversos compradores, cujos títulos não foram citados no processo.

Vale lembrar que foram convocados para o julgamento desse processo: João José Dutra, seu irmão José Tomaz e seu cunhado José Joaquim Pires filho (sucessores da fazenda Recreio); Antonio José de Oliveira (sogro de herdeira da Águas Vertentes); Antonio Garcia de Novaes (sucessor da fazenda Saudades); Antonio Manoel de Barros Alvim (sucessor da Santana dos Miranda); e, José Pereira de Melo que parece ter sido o comprador de parte das terras da Barra das Laranjeiras.

O distrito de Campo Limpo, hoje Ribeiro Junqueira, foi criado dois anos depois da abertura do processo. E em 1882 o que restava da fazenda Natividade foi incorporado à área do novo distrito.

Em março de 1891, quando foi criado o distrito de paz[5] denominado Vista Alegre, no município de Leopoldina, a propriedade de Carlos Augusto de Aquino Cabral constou do Decreto como vizinha da unidade administrativa que, ao que se sabe, não teria sido instalada. De todo modo, a informação corrobora a citação do proprietário como um dos proprietários de quinhão da fazenda Santana dos Miranda que foi submetida a um processo de Retombo[6] em 1890.

Ainda quanto à fazenda Santa Cruz, registre-se que após o falecimento do condômino José Tomaz de Aquino Cabral, antes de fevereiro de 1878, seu filho Carlos Augusto vendeu 27 alqueires de sua legítima para Sérgio José Pinheiro. Este comprador pediu a demarcação da propriedade, em março de 1880 e o processo[7] envolveu, além do requerente, cinco condôminos que haviam adquirido partes da fazenda.

Importante observar que, à exceção do comprador Sérgio Pinheiro, de quem não se tinha notícia em Leopoldina até então, os demais envolvidos confirmam a opinião de um sociólogo que se manifestou sobre as práticas sociais no Brasil de meados dos oitocentos, contestando impressão de viajante estrangeiro do início daquele século.

Em viagens pela província mineira, o francês Auguste de Saint-Hilaire havia descrito seus habitantes de forma não muito generosa. Gilberto Freyre a ele se referiu para afirmar que, em meados do século XIX, as Minas não eram mais terra de gente aventureira, mas de uma estável sociedade agrária. E declarou[8] que “A província quase toda passara […] a pacatamente agrícola. Suas condições morais que, ao tempo da febre do ouro haviam sido péssimas, melhoraram com essa nova situação ao mesmo tempo econômica e social.”

Assim o demonstra a composição do condomínio da Fazenda Santa Cruz quarenta anos depois da propriedade ter sido fundada. Um dos quinhões havia sido adquirido por Antonio Ferreira Neto e seu pai João Gonçalves Neto, da fazenda Residência não muito longe dali; outro pertencia a João José Dutra nascido na vizinha fazenda Recreio. Sebastião Gomes Teixeira Jalles, além de sócio da propriedade era também casado com uma filha do sócio falecido. E Josué de Vargas Corrêa já ali vivia há muitos anos, pois sua primeira esposa era sucessora da vizinha fazenda Águas Vertentes. Além deles, os confrontantes da propriedade também reafirmam as palavras de Gilberto Freyre no sentido de que as cidades mineiras não eram mais pouso de aventureiros, mas residência de famílias de agricultores em estabilidade social.

Em 1885 a fazenda Santa Cruz voltou a ser demarcada[9], a requerimento do condômino Sebastião Gomes Teixeira Jalles. Agora com uma área de 189 alqueires, entre seus proprietários já não estava João Gonçalves Neto, mas seu filho Joaquim Eleotério. João José Dutra também não era mais proprietário.

Sebastião Jalles era um português estabelecido com casa comercial no Rio de Janeiro, tinha negócios em São Fidélis (RJ) na época em que se casou com a filha de José Thomaz de Aquino Cabral. Mais tarde levou a família para a então capital do país, onde faleceu em 1895. Sua esposa também faleceu no Rio de Janeiro em 1911. E o que restava da antiga fazenda Santa Cruz foi dividido em diversas pequenas propriedades que continuaram dedicadas à agricultura por muito tempo.

Aqui o Trem de História faz mais uma parada. Retornará na próxima edição, com algumas informações sobre a fazenda Recreio, cujo nome não tem vínculo direto com o município vizinho.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 425 no jornal Leopoldinense, outubro de 2021


Fontes consultadas: 
[1] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 3. 
[2] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 8. 
[3] Divisão da fazenda Natividade. Processo 38404852 – COARPE – TJMG. 
[4] Idem, img 10 
[5] Leis Mineiras, Decreto nº 406. 
[6] Divisão e demarcação de terras da fazenda Santana dos Miranda. Processo 38402032 COARPE/TJMG. img 269 
[7] Divisão da fazenda Santa Cruz. Processo 38403537 COARPE – TJMG. 
[8] FREYRE, Gilberto. Vida social no Brasil nos meados do século XIX. 4.ed. São Paulo: Global, 2008. p.57 
[9] Divisão judicial da fazenda Santa Cruz. Processo 38405655 COARPE – TJMG. img 2-3