179 – Fazenda Pedro Velho, de Pedro de Oliveira e Silva

O Trem de História de hoje tem como destino a antiga Fazenda Córrego de São Pedro, formada por Pedro de Oliveira e Silva em cerca de 80 alqueires de terras compradas de Francisco José da Silva, conforme registro[1] de 1856.

Tal fazenda confrontava com: 1) Manoel José de Novaes, proprietário do Sítio Saudades / Fazenda Campo Limpo, de quem se falou no  artigo anterior; 2) Francisco Martins de Andrade, que já habitava o território do Feijão Cru desde pelo menos 1843, conforme o censo[2] em que consta como chefe de um fogo onde morava com a esposa Luiza Maria e os filhos Gabriela e Joaquim; 3) Manoel José Pacheco, que pode ser o filho de Mariano José Pacheco listado como contribuinte[3] em Conceição da Boa Vista em 1858; 4) José Casemiro da Costa, casado com Maria Carolina de Jesus, filha de José Ignacio de Souza; 5) Ponciano Rodrigues de Andrade, de quem não se tem informações; e, 6) Manoel Francisco Malta, que registrou[4] duas propriedades em Leopoldina ainda não identificadas.

Pouco se conseguiu apurar sobre Pedro de Oliveira e Silva e sua família. Sabe-se que em 1852 uma filha dele se casou[5] em Piacatuba com Antonio de Sá Rocha. As fontes não esclarecem se nesse ano os pais da noiva já viviam nas margens do Córrego São Pedro onde formaram a fazenda cujo primeiro nome era o do curso d’água.

Além dessa informação, o que mais se tem sobre a fazenda está no processo de divisão[6] requerida quase dez anos depois da morte de Pedro de Oliveira e Silva e no mesmo ano em que faleceu sua esposa. O requerimento foi iniciativa de Antonio José Dias da Paixão, que em algumas fontes é citado como Antonio José Machado Dias da Paixão, e que seria parente de Maria Catarina da Paixão, um dos nomes utilizados pela mulher de Joaquim Dias Neto de quem Antonio José comprou[7] a propriedade em abril de 1871.

Ressalte-se que o objeto dessa compra foi uma morada de casas no arraial de Santana da Mata, em terreno de sessenta palmos com fundos até o rio Pomba, e bem assim uma situação denominada Floresta, de 16 alqueires com benfeitorias, em terras do finado Pedro de Oliveira e Silva conhecidas por Fazenda do Pedro Velho.

Aqui vale o registro de que existiu uma capela de Santana da Mata ao norte da Fazenda Pedro Velho, da qual não foram encontradas referências nos arquivos da Diocese de Leopoldina.

Segundo fontes literárias, no lugar onde se localizava a capela funcionou a Escola Francisco Machado, bem próxima da Fazenda Cachoeira do Pomba que pertenceu a Custódio Machado. O homenageado com o nome da escola seria Francisco Machado Dias Neto nascido[8] a 09 de março de 1860, filho de Joaquim Dias Neto e Maria Catarina, proprietário de 40 alqueires registrados[9] em 1856 sem indicação de nome da propriedade. Custódio Machado, proprietário da Cachoeira do Pomba, era neto de Francisco Machado Dias Neto.

Registre-se que por ocasião da divisão da Fazenda Pedro Velho foram convocados 44 condôminos e mais de 20 confrontantes, incluindo a Câmara Municipal que teria recebido doação do formador da propriedade para constituição do patrimônio de Santana da Mata, no povoado do mesmo nome, à beira do Rio Pomba.

Quanto à família do pioneiro Pedro de Oliveira e Silva, sabe-se que ele e sua esposa Antonia Maria de Jesus foram pais de: 1) Flausina Maria de Jesus casada com Manoel Antonio Martins; 2) Francisco Domingues da Costa; 3) Joaquim Antonio de Oliveira; 4) Manoel Bernardes da Silva que se casou com Maria Joaquina de Jesus e com ela teve filhos nascidos em Piacatuba; 5) Maria Quintiliana de Jesus; e, 6) Rita Maria de Jesus, falecida em Piacatuba em maio de 1854, que foi casada com Antônio de Sá Rocha, filho de Manoel de Sá Rocha e Joana Luzia.

No processo de divisão da fazenda Pedro Velho, há requerimento ao juiz para convocar o interessado Manoel Bernardes da Silva que residia nas Matas do Itabapoana, província do Espírito Santo. Entretanto, na escritura de venda de sua legítima paterna o local de residência[10] de Manoel foi indicado como Batatal, Vila Benevente, que é o atual município capixaba de Anchieta. Não se pode afirmar que dois outros filhos de Pedro de Oliveira e Silva, Francisco e Joaquim, sejam os homônimos referidos em fontes do mesmo município espírito-santense.

O Trem de História fica por aqui. Na próxima edição do Jornal, outro pioneiro de Leopoldina ocupará este espaço. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 431 no jornal Leopoldinense, abril de 2022

Fontes Consultadas:


[1] Registro de Terras de Leopoldina. Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, nº 77 
[2] Arquivo Público Mineiro CX 03 DOC 04, Termo da Vila de São João Nepomuceno, Mapa da População do Feijão Cru, 1843 fls 15 fam 140 
[3] Livro de Arrecadação de Impostos em Conceição da Boa Vista 1858, fls 11 v 
[4] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), s 92 e 93 
[5] Igreja N. S. da Piedade, Piacatuba, Leopoldina, MG, lv 1 cas termo 20 
[6] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 COARPE/TJMG 
[7] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 img 365. 
[8] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 57 termo 301 
[9] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 42 
[10] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 fls 20 e 23.

176 – Fazenda Tabuleiro, de Processo José Corrêa de Lacerda.

Vizinha do Sítio Saudades ou Fazenda Campo Limpo, de Manoel José de Novaes, a Tabuleiro foi fundada por Processo José Corrêa de Lacerda, genro de Manoel José.

Registre-se, de início, que em virtude da homonímia não foi possível estabelecer qual era o vínculo de Processo José com Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, pioneiro que formou a fazenda da Memória[1] nos primeiros tempos do Feijão Cru. Sabe-se, porém, que os Corrêa de Lacerda eram de Bom Jardim de Minas onde moravam também, os Novaes.

Muitos pesquisadores se dedicaram a estudar os vínculos que os casamentos criavam entre as famílias dos noivos. Maria Beatriz Nizza da Silva[2] mencionou o princípio da igualdade social que era estimulado pela Igreja Católica na escolha dos pretendentes, dando surgimento a adágios e provérbios como o de Antonio Delicado: “Se queres casar, casa com teu igual”. A autora citou, também, o padre Manoel Bernardes em sua obra Nova Floresta[3], publicada em 1706, para esclarecer o que se entendia por igualdade entre os noivos. Tratava-se de fazer combinar idades, condições sociais, saúde e a “qualidade” dos pretendentes, ou seja, similaridade etária, social, física e moral. Considerando que os párocos interferiam profundamente nas decisões das famílias e que conheciam bem os seus paroquianos, conclui-se que realizavam casamentos tendo em vista o princípio aqui mencionado. E assim se compreende o casamento de Processo José Corrêa de Lacerda com Maria Vitoria de Novaes pouco tempo antes da transferência para o Feijão Cru.

Processo não declarou de quem comprou os 120 alqueires em que formou a sua fazenda Tabuleiro, registrada[4] em 08.03.1856. Informou divisas com Manoel José de Novaes e Francisco Silva Barboza (fazenda Boa Vista dos Barbosas), e com a fazenda da Bocaina, o que causou mais uma dificuldade no decorrer da pesquisa. Isto porque as fontes consultadas indicam que a propriedade do sogro de Processo estava entre a Tabuleiro e a Bocaina, inviabilizando a indicação de tais divisas.

Conforme mencionado na coluna anterior, Manoel José de Novaes, formador da fazenda Campo Limpo, havia feito a partilha dos bens em vida, passando-os para a administração dos herdeiros, incluindo seu vizinho e genro Processo José Corrêa de Lacerda que faleceu[5] aos 12.05.1888. Daí a partilha dos bens de Processo eventualmente se confundir com a divisão dos bens de seu sogro.

Maria Vitória e seu marido só tomaram posse[6] da integridade dos bens da legítima paterna dela em junho de 1875. Quase dois anos depois, em março de 1877, foi aberto o processo de divisão judicial da fazenda São Pedro, mais tarde conhecida por Pedro Velho, da qual o casal era um dos confrontantes[7] pela parte que lhes coube no inventário de Manoel José de Novaes. Em março de 1882, quando foi julgada a divisão da fazenda Pedro Velho, o casal Processo e Maria Vitória teve regularizada[8] sua posse naquela fazenda, uma área de 7 hectares. Dois meses depois, houve um acréscimo não especificado nesta área porque se descobriu que anos antes, ao vender a parte que julgava possuir na Fazenda Pedro Velho, Manoel José de Novaes informou uma quantidade menor do que realmente possuía. Desta forma, os domínios de Processo José Corrêa de Lacerda passaram a se estender da margem direita do atual Córrego das Virgens até a margem esquerda do Córrego São Pedro que mais tarde passou a se chamar Arizona. A partir desse momento, a propriedade de Processo e Maria Vitória aparece nas fontes como Fazenda Tabuleiro dos Coqueiros.

Com sucessivas vendas e permutas que ocorreram nos anos seguintes, em 1897 as antigas fazendas Tabuleiro e Campo Limpo estavam reduzidas a 317 hectares, sendo que cerca de 65 alqueires sob o nome de Tabuleiro dos Coqueiros que pertencia a 23 condôminos. Boa parte das vendas permitiu a ampliação da área urbana do distrito que então se desenvolvia na esteira do movimento trazido pela Estrada de Ferro.

01) - Generosa Maria de Jesus cc Prudente Balbino de Souza, filho de Candido Balbino de Souza que teria sido vizinho de Manoel José de Novaes; 02) - Manoel Bento de Lacerda cc Laura Maria de Jesus, teria migrado para Laje do Muriaé; 03) - Maria Justina cc Joaquim Izidoro Ferreira, falecida antes de seu pai; 04) - Prudencio Afonso cc Eduviges, sem outras informações; 05) - Gabriel Antonio de Novaes, teria vivido em município vizinho; 06) - Caetano José cc Felizarda Amélia Salustiana, vendeu sua legítima paterna e teria se radicado na sede do distrito; 07) - Porfiria Maria de Jesus cc João Carlos Neto, ele descendente do formador da fazenda Boa Vista dos Barbosa e ela falecida antes do pai; 08) - Gertrudes Maria de Lacerda casou-se com um dos Honórios Ferreira de Lacerda de quem se sabe que fora condômino da fazenda Córrego do Sapateiro, na margem do rio Pomba, e que vendera sua parte a João Gonçalves Neto; 09) - Processo Felix de Novaes cc Maria Carolina de Oliveira, trocou sua legítima na sede do distrito por uma cota da fazenda Tabuleiro dos Coqueiros; 10) - Florisbela Maria de Lacerda cc Francisco José de Oliveira, faleceu em Ribeiro Junqueira no dia 19 de agosto de 1895.

Para completar as informações sobre a parte norte do distrito de Campo Limpo é necessário abordar o antigo Sítio São Pedro que ficou depois conhecido como Fazenda Pedro Velho. Assunto para a próxima viagem do Trem de História.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 428 no jornal Leopoldinense, janeiro de 2022

Fontes Consultadas:[1] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 9

[2] SILVA, Maria Bestriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil Colonial. São Paulo: T.A.Queiroz/USP, 1984. p.66

3] Classificada nas categorias ensaio, estudo e polêmica, Nova Floresta é uma obra em 5 volumes que foi publicada pela editora Oficina de Valentim da Costa Deslandes, Lisboa, Portugal e tem versão digitalizada disponível no site da Universidade Federal de Santa Catarina.

[4] Registro de Terras de Leopoldina (Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114), nº 4

[5] Inventário de Processo José Corrêa de Lacerda, processo 38402722 COARPE/TJMG img 1

[6] Inventário de Manoel José de Novaes, processo 38405822 COARPE/TJMG img 225

[7] Divisão da Fazenda Pedro Velho, processo 38404535 COARPE/TJMG imgs 2-4.

[8] Divisão da Fazenda Pedro Velho processo 38404535 COARPE/TJMG img 186 e 233.

175 – Fazenda Campo Limpo de Manoel José de Novaes

Logomarca Trem de História

Hoje o Trem de História traz, em seu vagão principal, a propriedade da família Novaes que fazia divisa com a Fazenda Recreio abordada na última edição. E assim como o nome da propriedade de Antonio José Dutra e Mariana Teresa Pereira Duarte faz algumas pessoas pensarem no vizinho município de Recreio, também a Fazenda Campo Limpo já causou engano em alguns estudiosos.

Portanto, necessário se faz esclarecer que houve, pelo menos, duas fazendas com o nome Campo Limpo no território de Leopoldina. Uma delas é a citada pelo Cônego Raimundo Trindade e que pertenceu a Felisberto da Silva Gonçalves. Felisberto era sobrinho do alferes Tiradentes. Ele e a esposa receberam duas sesmarias no córrego do Glória em 1813. Esta sua fazenda Campo Limpo ficava localizada entre as fozes dos atuais ribeirões São Bento e Campo Alegre no Rio Pardo e o filho de Felisberto, Antonio Felisberto da Silva Gonçalves, nela residia em 1867.

A outra fazenda Campo Limpo, cuja história hoje se conta, teve sua origem no Sítio Saudades, pertencente a Manoel José de Novaes e sua esposa Ana Francisca Garcia. Propriedade que em 1874 já recebia o nome de Fazenda Campo Limpo e permanecia com os mesmos 300 alqueires citados no Registro em 1856.

O casal formador dessa Campo Limpo chegou ao Feijão Cru entre 1831 e 1835, com seis filhos. Estabeleceram-se às margens do Rio Pomba onde foram vizinhos de Mariana Pereira Duarte [fazenda Recreio], Francisco da Silva Barbosa [Fazenda Boa Vista], Processo José Corrêa de Lacerda [Fazenda Tabuleiro], Pedro Baldoino da Silva [Fazenda Boa Sorte], Pedro de Oliveira e Silva [Fazenda Pedro Velho], além de Pedro Moreira de Souza e Francisco Martins de Andrade cujas propriedades não foram registradas pelo pároco do Feijão Cru.

A propriedade de Pedro Moreira era a legítima paterna de sua esposa, Gertrudes Balbina de São José, que era irmã de Francisca de Paula Reis, esposa de Pedro Baldoino da Silva. Gertrudes e Francisca eram filhas de Maria Felicia dos Reis e José Ignacio de Souza que era natural do Quilombo, atual Bias Fortes, filho de José Mendes de Souza e Ursula Maria. Lá se casou, em 1809, com Maria Felicia dos Reis, nascida em 1792 em Santa Rita de Ibitipoca. Era filha de Miguel Esteves dos Reis e Clara Teodora de Castro. José Ignacio faleceu em Leopoldina em julho de 1844.

José Ignacio e Maria Felicia foram pais de: 01 – Maria Carolina de Jesus cc José Casemiro da Costa e em 1856 vizinhos da fazenda Pedro Velho; 02 – José Simpliciano dos Reis, que em 1856 foi citado como vizinho da fazenda Tabuleiro, era casado com Mariana Constança de Assunção; 03 – Gertrudes Balbina de São José nascida em 1816 no Quilombo, cc Pedro Moreira de Souza; 04 – Candida Ozoria de Rezende se casou com Antonio Garcia de Novaes, filho do formador da fazenda Saudades ou Campo Limpo; 05 – Francisca de Paula Reis cc Pedro Baldoíno da Silva que registrou a fazenda Boa Sorte em 1856; 06 – Cesario José dos Reis, nascido por volta de 1823; e, 07 – Julia nascida por volta de 1838.

Segundo seu inventário, José Ignacio de Souza formou a fazenda Bocaina, provavelmente em terras adquiridas de Manoel Ferreira Brito que teria sido o fundador da Fazenda São Manoel da Bocaina.

Sobre o casal formador da Fazenda Saudade ou Campo Limpo, registre-se que a matriarca Ana Francisca Garcia nasceu em Aiuruoca, filha de José Garcia e Maria do Rosário. Casou-se com Manoel José de Novaes a 22.06.1808, em Bom Jardim de Minas onde ele nasceu, filho de Domingos José de Novaes e Genoveva Maria do Rosário.

Vale observar que pela proximidade de origem com os Ferreira Brito e os Almeida Ramos, é possível que o casal tenha migrado para o Feijão Cru a convite deles.

Ana Francisca faleceu no dia 28.06.1852 e em seu inventário consta uma informação esclarecedora. Segundo declaração do agrimensor, a propriedade da família estendia-se da margem do Rio Pomba até as terras da Bocaina. Indicando, portanto, que a área urbana no arraial depois distrito de Campo Limpo surgiu na confrontação entre as duas fazendas.

Manoel José faleceu no dia em 05.09.1872 e o inventário foi aberto em maio de 1874. Naquele momento, seus bens já se encontravam sob administração dos herdeiros, incluindo seu vizinho e genro, Processo Lacerda.

Manoel José de Novaes e Ana Francisca Garcia foram pais de: 01 – João Batista, nascido por volta de 1817 e falecido em Campo Limpo em 1873, incapaz, foi representado por curador no inventário do pai; 02 – Maria Vitoria, cc Processo José Corrêa de Lacerda de quem se falará na próxima edição; 03 – Sebastião José cc Francisca Maria de Jesus; 04 – Antonio Garcia de Novaes cc Candida Maria de Rezende, filha de José Ignacio de Souza, da fazenda Bocaina; 05 – Francisco José, nascido por volta de 1830 e falecido solteiro logo depois da morte da mãe; e, 06 – Pedro José cc Candida Pompilia Tavares, casal que viveu no distrito de Tebas.

Chegado à estação, o Trem de História irá preparar a carga de outra propriedade que esteve profundamente ligada a Campo Limpo.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 427 no jornal Leopoldinense, dezembro de 2021

Fontes Consultadas: 
Arquivo Público Mineiro PP 1/10 CX 01 DOC 04, Termo de São João Del Rei, Mapa da População de Bom Jardim - 1831, quarteirão 2, fogo 2 e CX 03 DOC 06, Termo da Vila da Pomba, Mapa da População do Feijão Cru, 1835 fls 21 fam 82; Carta de Sesmaria. SC 352 fls 76 e Coleção Casa dos Contos do APM, cx 87, item3; Seção Colonial, TP 114. Registro de Terras de Leopoldina. nº 56, nº 77 e nº 78 
Igreja N. S. da Piedade, Barbacena, MG, lv bat 1811-1830 fls 128v; lv cas 1795-1812 fls 199; lv cas 1808-1826 fls 1v; lv bat 1788-1798 fls 454 
Inventários de Ana Francisca Garcia, Felisberto da Silva Gonçalves, João Ignacio de Souza e Inventário de Manoel José de Novaes. 
TRINDADE, Cônego Raimundo. Velhos Troncos Mineiros. São Paulo: Gráfica Revista dos Tribunais, 1955. v.2 p.198/199

159 – Fazenda Feijão Cru

A mais antiga referência sobre esta propriedade é a declaração[1] de Manoel Antonio de Almeida, em 1856. Segundo esta fonte, a fazenda estava localizada no Ribeirão do Feijão Cru, contendo duas sesmarias de terras.

Sua sede ficava na margem direita do ribeirão que lhe empresta o nome, no local onde hoje se encontra o Colégio Estadual Professor Botelho Reis.

Na sede da fazenda passou a funcionar a Farmácia Central, fundada[2] por volta de 1866 pelo farmacêutico Antônio José Alves Ramos, cuja esposa Amélia Carolina Pereira Pinto era parente de Manoel Antônio.

Luiz Eugênio Botelho[3] relembra esta farmácia quando registra que o carnaval de 1898 contou com diversas representações e uma delas foi “a reconstituição de uma das batalhas da guerra russo-japonesa e teve como campo de batalha a praça Visconde do Rio Branco, defronte do sobrado de D. Amélia Ramos (onde está hoje edificado o Colégio Leopoldinense)”.

Em 1895, a Câmara Municipal de Leopoldina autorizou[4] a compra do prédio que na época pertencia aos herdeiros de Antonio José Alves Ramos, pelo poder público. Mas esta transação, ao que parece, não foi concluída imediatamente porque em 1896 a viúva ainda constou como contribuinte do imposto[5] sobre prédio urbano e farmácia.

Segundo informações orais, a venda somente se efetivou em 1902, ano em que a Câmara Municipal o transferiu para o político Ribeiro Junqueira que, juntamente com seus sócios, ali fundou a escola particular então denominada Gymnasio Leopoldinense.

Sobre esta transferência, comenta Estevam de Oliveira[6] que ela se afigurou um “escandaloso e revoltante privilégio” uma vez que o politico “obteve no orçamento elevado subsídio para um instituto de ensino de sua propriedade em Leopoldina”.

Quanto aos vizinhos, é sabido que uma das divisas da Fazenda Feijão Cru, declarada por Manoel Antonio em 1856, era com a Fazenda da Cachoeira. Esta Fazenda da Cachoeira foi formada por Joaquim Ferreira Brito e havia sido dividida no final de 1846, quando os proprietários fizeram a partilha dos bens entre seus herdeiros[7] e uma parte dela foi vendida para Antonio José Monteiro de Barros.

Outra divisa era com a Fazenda da Onça, cujo primeiro proprietário foi Bernardino José Machado, falecido em outubro de 1846. Conforme se verifica em seu inventário[8], as terras da Onça que divisavam com a Fazenda Feijão Cru couberam a dois genros de Bernardino.

Também declarada por Manoel Antonio de Almeida foi a divisa com Manoel Joaquim de Thebas, que hoje se sabe ser Manoel Joaquim Ferreira, formador da Fazenda Monte Alegre em cujas terras surgiu o atual distrito de Tebas.

Manoel Antonio declarou, ainda, ser vizinho de D. Thereza viúva de José Carlos. Este casal é identificado como Tereza Joaquina de Jesus, viúva de José Carlos de Oliveira falecido[9] em julho de 1852, sendo ele filho de Vital Antonio de Oliveira e Maria Narciza de Jesus, formadores da fazenda Rio Pardo que foi dividida em 1849 por ocasião da abertura do inventário[10] de Maria Narciza, que havia falecido em abril de 1843.

Os vizinhos seguintes da Fazenda Feijão Cru eram Carlos de Assis Pereira, Francisco Luiz Pereira e João Ribeiro.

O primeiro era neto de um irmão de Manoel Antonio de Almeida e viera para Leopoldina junto com a mãe, Joaquina Eucheria de Almeida, terceira esposa de João Gualberto Ferreira Brito. Ainda não se sabe o nome e a localização desta sua propriedade.

O segundo era o proprietário da Fazenda Ribeirão da Samambaia que mais tarde ficou conhecida como Fazenda Francisco Luiz, depois como Fazenda Samambaia e Fazenda Indaiá.

O último vizinho da Feijão Cru era João Antonio Ribeiro, proprietário da Fazenda Campo Limpo que se supõe ter sido um desmembramento das sesmarias recebidas por Felisberto da Silva Gonçalves e sua mulher Ana Bernarda da Silveira em 1813. Tal suposição encontra respaldo no Cônego Trindade[11] e em Artur Vieira[12] que indicaram a fazenda Campo Limpo como local de residência do filho do casal, Antonio Felisberto da Silva Gonçalves, em 1850. Esta fazenda Campo Limpo localizava-se a sudoeste da sede municipal, próximo à foz do ribeirão Samambaia no rio Pardo.

O Trem de História fica por aqui. Na próxima viagem, trará informações sobre outros vizinhos da fazenda Feijão Cru, assim como os nomes de seus sucessores. Até a próxima edição!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado na edição 412 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2020

Fontes Consultadas:
[1] Registro de Terras de Leopoldina. Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, termo 18.
[2] Inventário de Manoel Rodrigues Coelho processo 38402233 COARPE/TJMG img 25, nota de venda de remédios.
[3] BOTELHO, Luiz Eugênio. Leopoldina de Outrora. Belo Horizonte: s.n, 1963. p. 43
[4] Lei Municipal nº 54, 22 de fevereiro de 1895.
[5] O Mediador. Leopoldina, MG. 01.11.1896 ed 50 p. 1 col 4.
[6] OLIVEIRA, Estevam de. Notas e Epístolas. Juiz de Fora-MG: Typographia Brasil, 1911. p. 163
[7] Inventário in vitae processo 38404416 COARPE – TJMG
[8] Inventário de Bernardino José Machado processo 38403334 COARPE – TJMG fls 2 img 4.
[9] , Inventário de José Carlos de Oliveira processo 38403280 COARPE – TJMG
[10] Inventário de Maria Narciza de Jesus processo 38404173 COARPE – TJMG
[11] TRINDADE, Cônego Raimundo. Velhos Troncos Mineiros. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1955. v. 2 p. 197.
[12] REZENDE, Arthur Vieira de. Genealogia Mineira. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1937. v. IV p. 271