113 – Entrelaçamentos na família de João Ignacio de Moraes

O Trem de História resgata hoje um pouco da vida e família de João Ignacio de Moraes, outro morador da Serra de Ibitipoca que teve filhos migrados para Leopoldina e descendentes que se entrelaçaram com os Rodrigues, sobrenome do Paulino.

Importante destacar que, conforme foi visto no texto de número 107, os filhos de João Ignacio de Moraes e Anastácia Felisbina de Jesus usaram formação de sobrenome bem variada, o que dificulta sobremaneira a identificação deles. Alguns perpetuaram o sobrenome do pai enquanto outros resgataram o sobrenome do avô materno, hábito bastante frequente na época. Outro aspecto que chama a atenção é o uso de sobrenome de família por duas das filhas mulheres, pois o mais comum era que elas usassem apenas um nome de devoção.

De modo geral, a adoção ou não de sobrenomes tinha relação com a posição econômica da família. Como não se descobriu, até o momento, qual a origem de João Ignacio de Moraes, pode-se apenas destacar a perpetuação do sobrenome Oliveira, entre filhos e netos do casal, numa referência ao pai de Anastácia Felisbina. Batizada(1) aos 13 de julho de 1800, foi a terceira filha de Maria Narciza de Jesus e Vital Antonio de Oliveira, sendo neta materna do português Bernardo da Costa de Mendonça, proprietário na localidade de Ribeirão dos Cavalos, em Santana do Garambéu, e de Maria Tereza de Jesus cuja mãe foi uma das lendárias Três Ilhoas, das quais grande parte dos mineiros é descendente. Ou seja, Anastácia Felisbina era sobrinha de Rita Esméria de Jesus, esposa do “comendador” Manoel Antonio de Almeida, casal que esteve entre os povoadores do Feijão Cru.

Os avós paternos de Anastácia foram Bernardina Caetana do Sacramento e o português José Rodrigues Braga, cujos filhos usaram, principalmente, o mesmo sobrenome Oliveira mantido pelos filhos de Anastácia. Mas entre os tios paternos de Anastácia, alguns usaram também o Rodrigues que parece representar um elo com Manoel Rodrigues da Silva, avô paterno de Paulino Augusto Rodrigues. Pelo menos uma das tias paternas migrou para a nossa região e dos avós paternos de Anastácia descendem alguns usuários do sobrenome “de Bem” em Leopoldina, Recreio e Muriaé.

Verifica-se, portanto, que os filhos de Anastácia Felisbina e João Ignácio de Moraes têm ancestrais comuns aos pioneiros moradores do Feijão Cru e seus descendentes mantiveram tais laços, especialmente na família próxima de Paulino Augusto Rodrigues.

Os filhos do casal foram batizados na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca que, à época, jurisdicionava o território que mais tarde veio a formar o distrito de Quilombo, município de Bias Fortes. É o que se comprova pela localização da propriedade de João Ignacio de Moraes conforme o registro(2) de 1856:

 “(literis) Eu abaixo assignado sou senhor e possuidor de uma sorte de terras de cultura cita na fazenda do Ribeirão de S. João no Distrito do Quilombo, Freguesia de Santa Rita que levará de planta de milho sem alqueires pouco mais ou menos, cujas comfrontão com as segtes. Por lado devidem com Francisco Antônio, Francisco Vilas e José Luiz do Carmo, A Vieira da Rocha e Francisco Moraes meos socios e com a fazenda que foi do Pe. F… por verdade….inverte… da Ley Regulamentar….. que vai por mim c/o m. assignado. Ribeirão de São João 25 de fevereiro de 1856. João Ignacio de Moraes.”

A partilha das terras, ocorrida após a morte de João Ignacio em 1876, corrobora a afirmação da origem dos “Rodrigues” da família do Paulino Augusto na região conhecida como Serra da Ibitipoca, de onde vieram também os Almeida Ramos, os Ferreira Brito e os Gonçalves Neto, povoadores do Feijão Cru.

Dos 13 filhos de João Ignacio de Moraes e Anastácia Felisbina, viveram em Leopoldina os 8 listados a seguir:

|–Mariana Carolina de Oliveira

|   +Justino Marques de Oliveira

|–José Vital de Moraes

|   +Umbelina Cassiano do Carmo

|–Joaquim Candido da Silva

|   +Rita Carolina de Oliveira

|   +Erondina Corrêa Lacerda

|–Antonio Romualdo de Oliveira

|   +Francisca Carolina de Oliveira

|–Delfina Honorata de Jesus

|   +José Alexandre da Costa

|–José Ignacio de Oliveira

|   +Maria Messias de Almeida

|–Maria Luiza de Jesus

|   +Joaquim Antonio de Almeida Ramos

|   +Antonio Joaquim Vilas Boas

|–Rita Ignacia de Moraes

|    +Antonio Rodrigues da Silva

É evidente que a história de Paulino Augusto Rodrigues, seus ascendentes e descendentes não termina aqui. Mas esta série de artigos sobre ele, sim. No próximo Jornal, outro personagem ocupará este espaço, seguindo a ideia inicial dos autores de, com estas viagens do Trem de História, resgatar a história da gente que construiu Leopoldina. Até lá.


Fontes de Referência:

1 – Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Barbacena. lv 02 bat fls 67-verso.

2 – Registro de Terras de Santa Rita de Ibitipoca, termo 27.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 365 no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2018

Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba

Segundo Joaquim Ribeiro Costa, Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

No início de 2000 um visitante do site escreveu pedindo informações sobre Itapiruçu, especialmente sobre a família Vieira Pires. Informei que não tinha estudos sobre famílias da região, embora meu grande interesse pelo antigo distrito do Tapiruçu, terra onde viveram alguns de meus antepassados. Do sobrenome citado eu conhecia apenas um nome: Manoel José Vieira Pires, Solicitador em Palma, por volta de 1890. Não era o nome procurado pelo correspondente. Por conta disso trocamos diversas mensagens até que não mais recebi respostas. Daquele contacto ficou a vontade de conhecer a história do lugar.

Itapiruçu, Palma, MG

Segundo a memória familiar o casal Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez vivia no território do distrito de Itapiruçu desde o nascimento. Antonio Vicente nasceu a 13 de junho de 1862 e foi batizado no dia 21 de junho[iv] do mesmo ano. Ana José nasceu no dia 1º de agosto de 1858 e foi batizada no dia 19 de setembro[v] seguinte. Os pais de ambos procediam da região da Serra da Ibitipoca e migraram para a zona da mata por volta de 1830. Vejamos pois, alguns detalhes sobre estas famílias.

José Rodrigues Carneiro Ferreira, também conhecido por José Rodrigues Carneiro de Bem, descendia de Manoel José de Bem e Tereza Maria de Jesus, ela filha da ilhoa Maria Teresa de Jesus e de Inácio Franco. Migrado para a zona da mata ainda criança, radicou-se no território do que veio a se constituir na Freguesia de Conceição da Boa Vista, onde se casou com Mariana Esméria de Sena, filha de João Gualberto Ferreira Brito e Maria Venância de Almeida. José e Mariana tiveram, pelo menos, 4 filhos batizados no Curato de Conceição da Boa Vista. O segundo destes filhos foi Ana José Rodriguez.

Segundo Joaquim Ribeiro Costa[i], Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação[ii] pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

De fato podemos comprovar que a antiga Capela das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba já é citada em livros paroquiais de Conceição da Boa Vista em data bem anterior à criação do distrito policial. Como exemplo citamos o casamento de Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez, realizado naquela capela no dia 10 de abril de 1875.[iii] Prosseguindo na busca de informações sobre a construção da Igreja de Itapiruçu nos deparamos com dados que podem interessar a todo estudioso da história da região.

Vicente Rodrigues Ferreira era filho de  Bento Rodrigues Gomes e Ana Joaquina de Jesus, tendo migrado de Santana do Garambeo para a zona da mata por volta de 1830. Em Conceição da Boa Vista casou-se com sua prima Luciana Francelina da Anunciação, filha de Antônio Rodrigues Gomes e Mariana Bernardina de São José. O novo casal residia na margem direita do Rio Pomba, a meio caminho entre São Joaquim (hoje Angaturama) e a atual divisa entre Palma e Santo Antônio de Pádua. É ainda a memória familiar que dá notícia da presença de eclesiásticos na fazenda onde residiam, nas diversas visitações realizadas pelo Bispado do Rio de Janeiro àquelas terras. Ainda não localizamos documentos sobre tais visitações, embora alguns autores as mencionem e citem como fonte o Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Entre outras referências, Oswaldo Ribeiro[vi] informa que em 1851 Frei Bento, de Santo Antônio de Pádua, obteve provisão para a Capela de São Francisco da Capivara, atualmente Palma. Parece-nos que para atingir seu destino o padre teria forçosamente que passar por Itapiruçu. E provavelmente também visitasse alguns fazendeiros vizinhos ao casal que, segundo contam, seriam os doadores do patrimônio da Capela de Itapiruçu e dos quais falaremos adiante. Importa registrar ainda que os batismos dos 10 filhos de Vicente e Luciana podem ser encontrados nos livros paroquiais de Miracema, Santo Antônio de Pádua e Conceição da Boa Vista. O sétimo destes filhos foi Antônio Vicente Ferreira.

Analisando os mais diferentes documentos a que tivemos acesso, observamos que o antigo distrito de Tapiruçu pode ter ficado relegado pela autoridades em função das disputas ocorridas entre os Minas e Rio de Janeiro. Ou, hipótese levantada por um de nossos correspondentes, ter sido criado justamente para permitir melhor controle do território disputado. É sabido que não foi sem traumas que o atual município de Palma conseguiu firmar-se, havendo registros de desentendimentos do mais variado calibre com os povoados vizinhos. Entre outros transcrevemos parte de uma ata eleitoral que demonstra a dúvida existente entre os moradores do lugar. [vii]

“… Deu o Presidente conhecimento da Portaria do Governo que em seguida vai transcrita. Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais Ouro Preto em 13 de Agosto de 1866. 1ª Sessão. Declaro a vossamercê para a devida inteligência e publicidade que essa paroquia criada pela Lei nº 1239 de 1864 deve dar na proxima Eleição se a esse tempo já tiver sido Canonicamente provida, três Eleitores para o território de que se compõe abrange cento e setenta e sete votantes e foi desmembrada da Paróquia da Meia Pataca que deu quinze Eleitores na Legislatura que vai findar e qualificou naquele ano novecentos e cinquenta e oito votantes. Conquanto a Lei citada anexa a essa Freguesia do Distrito do Laranjal devem os votantes nele compreendidos concorrer na Eleição na Freguesia da Meia Pataca, visto pertencer esta e o dito distrito ao Bispado de Mariana, e essa nova Freguesia a do Rio de Janeiro. … Joaquim José de Santa’Ana. Snr. Juiz de Paz mais votado da Paróquia do Capivara….”

Cartão de Visitas

Temos tentado levantar documentos sobre a doação do terreno onde foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba, com vistas a confirmar ou não as hipóteses formuladas a partir da memória familiar. Consta que o casal Antonio Vicente e Ana José tinha como vizinhos as famílias Amorim, Felix, Melo, Menezes e Vieira. Curiosamente encontramos, dentro do Breviário da Missa que pertenceu a uma nora de Antonio Vicente e Ana José, o cartão de visitas acima, de Manoel José Vieira Pires.

Verso do Cartão de Visitas

Como se pode observar, no verso do cartão é feito um pedido de cópia da escritura de compra de terras realizada pelo Padre Manoel Martins Lopes, em março de 1890. Sabendo que a Capela existia desde pelo menos 1875, procuramos os livros do Cartório de Notas de Itapiruçu em busca de esclarecimentos. Infelizmente só pudemos encontrar um deles, do qual extraímos as seguintes informações:

–         21.03.1887 o Padre Manoel Lopes Martins compra uma sorte de terras anexas ao Patrimônio de Nossa Senhora das Dores [viii]. Vendedor: Antônio José de Menezes.

–         06.04.1887 o mesmo Padre compra terras no Porto das Madeiras[ix]. Vendedores: Francisco Joaquim dos Reis e sua mulher Virgínia Maria da Conceição.

Os vizinhos das terras compradas em março eram Francisco Joaquim dos Reis, José Francisco do Amorim, herdeiros de Luiz de Souza Melo e herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo. A compra de abril foi de 2,5 alqueires na divisa com Balbino Teixeira Ramos, Rio Pomba, José Francisco de Amorim, Serafim José da Costa e a Fazenda Cachoeira Alegre. Em outra escritura do mesmo livro, folhas 37, vimos que Balbino Teixeira Ramos e sua mulher Vitalina Maria de Jesus haviam comprado terras de Francisco Joaquim dos Reis no Porto das Madeiras, e as revendem em setembro de 1887. Na escritura consta que os vizinhos eram José Francisco de Amorim, o Rio Pomba, herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo e o patrimônio de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.

Portanto, as famílias mencionadas nas memórias familiares estavam realmente presentes no distrito de Itapiruçu na época em que ali viveram Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez. As compras realizadas pelo Padre Manoel Lopes Martins parecem indicar que ele pretendia ampliar as posses da Igreja, deixando claro que já havia um patrimônio regularmente inscrito. Resta-nos encontrar a doação inicial e assim nos aproximarmos da data em que foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.


Fontes:

[i] in Toponímia de Minas Gerais, Editora Itatiaia Ltda, 1993, Belo Horizonte, MG, página 262

[ii] Lei n. 3171 de 18.10.1883

[iii] Primeiro Livro de casamentos da Igreja de Conceição da Boa Vista, folhas 70 verso

[iv] Transcrição do Livro de Batismos de Conceição da Boa Vista no Livro 1 de batismos da Matriz de São Sebastião de Leopoldina, folhas 86, termo 464

[v] idem, folhas 38, termo 201

[vi] in História de Santo Antônio de Pádua, Edição do Autor em 1999, página 23

[vii] in Livro de Atas da Freguesia da Capivara, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 1 e verso

[viii] in Livro de Notas do Distrito de Tapirussu, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 9 verso

[ix] idem, folhas 16 verso

A zona da mata mineira em antigos cartogramas

RECONTOS DE UM RECANTO – 02 – Artigo de José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni publicado na Gazeta de Leopoldina.

Para este artigo de hoje nos valemos, do “Mapa da Capitania de Minas Geraes, com a deviza de suas comarcas”, José Joaquim da Rocha, concluído em 1778; do “Mapa da Província de Minas Gerais,” de 1855, de Friedrich Wagner que, provavelmente, incorporou os levantamentos de João José da Silva Theodoro para as Cartas do Presídio, de São João Nepomuceno e do Pomba; dos Relatórios da Presidência da Província do período entre 1836 e 1855; e, das publicações do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro – Coleção Mineiriana, principalmente os títulos: Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais e a Província Brasileira de Minas Gerais publicada em 1998 e que traz o artigo de Johann Jakob von Tschudi de 1862 que acompanhou o Mapa de 1855.

A terra mineira, na época da viagem de Tschudi, estava dividida em 18 comarcas. Destas, destacaremos duas, a do Paraibuna e a do Muriaé, que são as mais próximas a Leopoldina.

A primeira delas, a do Paraibuna, contava cerca de 58.500 habitantes e abrangia:

Barbacena, composta pela sede de mesmo nome e pelas freguesias de Santa Rita de Ibitipoca e de Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca.  Rio Preto, com seus 7 mil habitantes distribuídos entre a Vila de Nossa Senhora dos Passos do Rio Preto e a Freguesia de São José do Rio Preto. Paraibuna, atual cidade de Juiz de Fora, com cerca de 13 mil habitantes, que incluía as freguesias de Simão Pereira e Engenho do Mato.

Dessa comarca vieram muitos do povoadores do Feijão Cru.

A segunda comarca que nos interessa é a que levava o nome de seu mais importante rio: o Muriaé.

Com 88 mil habitantes distribuídos em 4 municípios (Leopoldina – 23.000 habitantes, Mar de Espanha – 19.000,Ubá – 32.000 e Muriaé – 14.000), não mereceu de Tschudi as referências adequadas provavelmente por falta de conhecimento de seus informantes da “extraordinária expansão do povoamento” da região, em razão do plantio de café e toda a Zona da Mata.  Embora se deva ressaltar que em 1856, por ocasião da aplicação da chamada Lei de Terras (Lei nr.601 de 18.03.1850), o café ainda não aparecia como principal produto de nossa economia. Entre os proprietários de terras da região somente 15% declararam possuir plantações de café. Cerca de 65% mencionaram “planta de milho” e os demais não indicaram o produto de suas roças.

O primeiro município dessa comarca, Leopoldina, abrangia a Vila Leopoldina (3.000 habitantes) e as Freguesias de São José do Paraíba (3.000) e de Santa Rita do Meia Pataca (3.000, incluindo-se aí toda a povoação da margem esquerda do Pomba), além dos Curatos de Conceição da Boa Vista, Nossa Senhora da Piedade, Bom Jesus do Rio Pardo e Madre de Deus do Angu (que somavam 14.000).

O segundo município, Mar de Espanha, que incluía a Vila, a Freguesia do Rio Novo e também os Curatos do Aventureiro e do Espírito Santo do Mar de Espanha.

Ubá aparece como terceiro município dessa comarca e era composto pela Vila e as Freguesias de São João Batista do Presídio, Santa Rita do Turvo e São Sebastião dos Aflitos.

“Mapa da Província de Minas Gerais,” de 1855, de Friedrich Wagner O quarto município da Comarca é o que leva o nome do rio e que só seria elevado à categoria de “cidade” em 1865 como São Paulo do Muriaé. Dele faziam parte a sede e as Freguesias de Nossa Senhora do Glória e Nossa Senhora da Conceição dos Tombos.

Para finalizar transcrevemos o parágrafo de encerramento do artigo de Tschudi, com a tradução que encontramos na obra citada:

“Resta-me apenas acrescentar algumas palavras sobre o mapa anexo. Ele é o resultado de longos anos de trabalho do engenheiro civil Sr. Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, de Juiz de Fora, e do geógrafo da província de Minas Gerais, Sr. Friedrich Wagner, que faleceu no ano passado em sua residência em Ouro Preto. Embora não satisfaça às exigências que se fazem a uma carta geográfica precisa, é, no entanto, a melhor disponível sobre a província de Minas Gerais, e até mesmo a melhor sobre qualquer das províncias do Império. O auxílio pecuniário que foi colocado à disposição dos engenheiros por parte do governo provincial foi insuficiente para cobrir as despesas de medição do território, que tem mais de 16 mil milhas quadradas, e que apresenta tantas dificuldades topográficas. Ainda assim, esse mapa será de grande importância e valia para a futura elaboração de uma carta apoiada em medições trigonométricas, pela qual, porém, teremos certamente de esperar ainda durante muitas décadas.”

Origem dos Povoadores de Leopoldina

Um personagem sempre recorrente na história de Minas, quiçá do Brasil, é o Tropeiro. Escolhemos a descrição de Saint-Hilaire por acreditarmos ser a mais abrangente.

Dá-se o nome de tropeiros aos homens que conduzem as caravanas de burros destinadas a empreender essas viagens e outras semelhantes. As tropas um pouco consideráveis são divididas em lotes de sete animais, e cada um é confiado à guarda de um negro ou mulato que, caminhando na retaguarda dos cargueiros de que está encarregado, os incita e dirige por meio de gritos ou por um assobio bastante brando. Costuma-se carregar cada besta com oito arrobas (cerca de 120 quilos), e para não ferí-los, iguala-se a carga com o maior cuidado. Cada caravana que chega a um rancho aí toma o seu lugar; os animais são logo descarregados; arruma-se as mercadorias com ordem; cada animal recebe sua ração de milho; levam-nos ao pasto; arranjam-se-lhes as albardas, e se desentortam os cravos destinados a ferrá-los. Enquanto isso o mais jovem da tropa vai buscar água e lenha, acende o fogo, arma em redor três bastões que se unem superiormente, amarra-os, e suspende um caldeirão na tripeça, onde põe a cozinhar o feijão preto destinado ao jantar do dia e ao almoço do seguinte. Os tropeiros das diversas caravanas se aproximam uns dos outros, põem-se a conversar, relatam suas viagens e aventuras amorosas, e, às vezes, um deles encanta o trabalho dos vizinhos tocando guitarra e cantando algumas dessas árias brasileiras que tem tanta graça e doçura. Tudo se passa com ordem; raramente discutem, e falam entre si com uma delicadeza desconhecida na Europa entre homens de classe inferior. No dia seguinte, levantam-se bem cedo; dão aos burros nova ração de milho. Deixando o rancho, saúdam os tropeiros que ainda aí ficam; fazem nova caminhada de três a quatro léguas, e chegam a outra estação pelas duas ou três horas da tarde.[1]

Auguste de Saint-Hilaire, cientista francês que viajou pelo interior do Brasil entre 1816 e 1822, deixou-nos preciosas informações sobre o Brasil do início do século XIX. Mário Guimarães Ferri, na introdução do “Segunda Viagem”, nos diz que “seus relatórios de viagens são um manancial riquíssimo de informações. … Sua obra é, com efeito, de valor perene e interessa ao botânico, ao zoólogo, ao geógrafo, ao historiador, ao etnógrafo; interessa, enfim, a todos quantos desejam conhecer algo sobre o Brasil do início do século XIX, de um Brasil que, em geral, já não mais existe.” [2]

Tropeiros na Serra dos Órgãos, por Rugendas, prancha 15 das paisagens em Viagem Pitoresca através do Brasil
Tropeiros na Serra dos Órgãos, por Rugendas, prancha 15 das paisagens em Viagem Pitoresca através do Brasil

De leitura agradabilíssima, os relatos de viagem de Saint-Hilaire nos trazem informações algumas vezes surpreendentes. Um exemplo é a forma como descreve a Inconfidência Mineira no volume dedicado à primeira viagem a Minas. Usando termos como “pretensa conspiração” ele nos indica que ao tempo de sua estada no Brasil o movimento dos mineiros não era visto com as cores negras como nos acostumamos a ler nos livros de história. Aliás, é ainda Saint-Hilaire quem escreve que o Visconde de Barbacena informou ao Vice-Rei, no Rio de Janeiro, sobre o movimento em Minas, pintando-o como “ato de rebelião mais criminoso e terrível” do que na verdade teria sido.

Na época de sua primeira viagem informa o cientista que o governo mineiro isentava por dez anos de impostos aos que se transferissem para as fronteiras da Província. Portanto, este viajante tem muito a nos dizer sobre as Minas daquele início de século, na época em que se intensificaram as migrações em demanda da região hoje conhecida como zona da mata mineira.

Um outro personagem importante para o estudo de nossa região e também mencionado por aquele viajante é o guarda-mor. Algumas vezes temos visto sucederem-se informações sobre dois ou mais personagens, contemporâneos e vivendo na mesma região, a quem um mesmo autor dá o título de Guarda-Mor das Minas e por essa razão tornam-se alvo de contestação de alguns menos estudiosos. Cargo criado em 1679, era inicialmente o administrador a quem competia, entre outras atividades, conceder licença a quem quisesse descobrir minas. Nomeado pelo Administrador Geral ou Provedor das Minas, a este substituía em algumas das inúmeras atividades que lhe eram afetas, especialmente com a intensificação das pesquisas mineirais em terras do Brasil. Ao tempo de sua primeira viagem a Minas, assim se manifestou Saint-Hilaire;

O cargo de guarda-mor geral é hereditário na família de um rico cidadão da Província de São Paulo que mandou abrir à sua custa o caminho do Rio de Janeiro a Vila Rica.

O guarda-mor geral tem o direito privativo de conceder o título de mineração; como, porém, não habita ordinariamente a Província das Minas, seu cargo de reduz a um título, e os guardas-mores substitutos preenchem suas funções. Quando o guarda-mor geral se encontra na capitania, é ele quem nomeia os substitutos; em sua ausência esse direito pertence ao governador. De poucos anos para cá multiplicaram-se extraordinariamente os guarda-mores substitutos, que, na linguagem corrente, se designam simplesmente pelo nome de guarda-mores.[3]

Esclarecemos que o Guarda-Mor Geral citado por Saint-Hilaire era Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias Paes Leme, sobre os quais o viajante inseriu nota no rodapé do texto acima.

A Segunda Viagem de Saint-Hilaire começou a 29 de janeiro de 1822, no Rio de Janeiro. No dia 6 de fevereiro ele entrou em território mineiro. Eis parte de seu relato do dia:

Serve o Rio Preto de fronteira às capitanias do Rio de Janeiro e Minas.

À extremidade de uma ponte fica uma cidadezinha encostada à montanha, composta de uma única rua muito larga e paralela ao rio. Tem a cidade o mesmo nome do rio; depende do distrito de Ibitipoca e só conta uma igreja não colada, servida por um capelão.

As casas de Rio Preto, excetuando-se uma ou duas, são térreas, pequenas, mas possuem um jardinzinho plantado de bananeiras, cuja pitoresca folhagem contribui para o embelezamento da paisagem. [4]

Seis dias depois o cientista estava acomodado em uma granja no “Rancho de Manoel Vieira” e seu relato volta a mencionar características da paisagem. Já tendo passado pela “Serra Negra”, informa que todo o percurso é um subir e descer muito cansativo. Sobre o Rio do Peixe que atravessara “um quarto de légua” antes, diz apenas; “passamos, sobre uma ponte de madeira, o pequeno rio chamado Rio do Peixe e pelo percurso vimos várias fazendas”.

Já no relato de sua primeira viagem o cientista declarou-se impressionado com o que chamou de “misto de desordem e regularidade selvagem”, chamando a atenção sobre as montanhas que se misturam no horizonte e fazem pensar que o rio nasce na elevação posterior à que primeiro se avizinha quando, ao passar posteriormente por ela, constatou que as águas vinham de um ponto bem mais distante. Século e meio depois o grande poeta Carlos Drumond de Andrade nos brindou com suas fortes impressões das montanhas de Minas.

Mais 3 dias da segunda viagem e no dia 15 de fevereiro de 1822 o relato de Saint-Hilaire nos traz informações sobre o acidente geográfico que foi determinante na escolha do local de fixação dos antigos moradores da região – a Serra da Ibitipoca.

A Serra da Ibitipoca não é pico isolado e sim contraforte proeminente de cadeia que atravessei desde o Rio de Janeiro até aqui. Pode ter uma légua de comprimento e apresenta partes mais elevadas, outras menos, vales, penedos, picos e pequenas partes planas. As encostas são raramente muito íngremes. Os pontos altos representam, geralmente, cumes arredondados e os rochedos mostram-se bastante raros. O fundo e barrocas estão geralmente cobertos de arbustos, mas poucos capões se vêem de mato encorpado. Quase toda a montanha está coberta de pastos, sempre excelentes.[5]

No dia 16 de fevereiro de 1822 é a vez de citar a Vila de Ibitipoca que ele mal conhecera na viagem anterior e por isso julgava ser “mais insignificante”.

Fica situada numa colina e se compõe de pequena igreja e meia dúzia de casas que a rodeiam, cuja maioria está abandonada, além de algumas outras, igualmente miseráveis, construídas na encosta de outra colina. Não espanta, pois, que inutilmente haja eu procurado, ontem, nesta pobre aldeia, os gêneros mais necessários à vida. [6]

Nesta ocasião Saint-Hilaire faz comentários sobre o interior de uma casa de fazenda que é semelhante a outras que ele conhecera no Brasil. Informa que na sala existe uma única mesa e um banco e nos quartos as camas são simples armações de madeira. A parada seguinte é Santa Rita de Ibitipoca, mencionada no diário de 17 de fevereiro.

Esta aldeia, situada em agradável posição, na encosta de uma colina, não é senão uma sucursal de Ibitipoca, embora importante. Compõe-se de uma única rua, mas ali se vêem algumas bonitas lojas.[7]

No dia seguinte Saint-Hilaire escreve da Fazenda da Cachoeira, onde pousou após o percurso de 5 léguas desde Santa Rita de Ibitipoca. Esta Fazenda é ponto de análise para quantos se dediquem ao estudo dos povoadores da zona da mata mineira. Mencionada por muitos como tendo sido propriedade desta ou daquela família, acreditamos que no início do século dezenove o nome Fazenda da Cachoeira compreendia inúmeras pequenas propriedades, talvez desmembramentos de uma grande fazenda formada no século anterior. Saint-Hilaire não indica o nome do proprietário, apenas informa que estava em viagem para “buscar algodão no Araxá para levar ao Rio de Janeiro”.

Aqui trouxemos recortes de como foram vistos por Saint-Hilaire as terras onde viviam os povoadores dos Sertões do Leste. Antes de prosseguirmos, transcrevemos mais um trecho da primeira viagem.

O primeiro lugar habitado que se encontra depois do Paraibuna é Rocinha da Negra, onde se vê um rancho e uma venda construídas em um vale à margem de um regato. Pouco mais longe, passa-se diante de uma choça denominada Três Irmãos, e em breve se chega à povoação de Vargem, localizada em um amplo vale rodeado de morros. O nome Vargem, sinônimo da palavra portuguesa várzea, se aplica geralmente a essas espécies de planícies úmidas e rodeadas de elevações que são bastante comuns nas partes montanhosas do Brasil, e diferem um pouco do resto do país pela vegetação.[8]

Em nota do próprio autor ao texto acima ficamos sabendo que ele foi recebido de maneira muito cordial em Vargem e que por isso faz questão de denunciar um outro viajante estrangeiro que teria sido tão bem recebido quanto ele e que, no entanto, depois teria “vilipendiado” o hospedeiro.

Encerramos este capítulo que pretendemos seja esclarecedor quanto à anterior localização dos povoadores de São Sebastião do Feijão Cru, de Bom Jesus do Rio Pardo, de São José do Paraíba, de Madre de Deus do Angu e de Nossa Senhora da Piedade. Localidades que nasceram no alvorecer do século dezenove nas antigas “áreas proibidas” da terra mineira.

1 - SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975. p. 41

2 - SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. p. 7

3 - Viagem pelas Províncias...(idem nota 1), p. 110

4 - Segunda Viagem...(idem nota 2), p. 24

5 - idem, p. 33

6 - idem, p. 35

7 - idem, p. 36

8 - Viagem pelas Províncias...(idem nota 1), p. 49