125 – Viagem com os sobrenomes de imigrantes italianos

Hoje o Trem vem carregado de história e memória. Carga um pouco diferente, com jeito de festa para lembrar alguns sobrenomes e os trilhos imaginários que teriam percorrido em terras leopoldinenses. Uma viagem com os sobrenomes de imigrantes que estiveram por aqui plantando lavouras e costumes, cultivando terras, amizades e amores. E para recordar, também, onde muitos deles se encontravam para vender a colheita, comprar o indispensável, se divertirem no jogo de malha ou de futebol e, se alegrarem nas festas sociais e religiosas da Capela de Santo Antônio, no Bairro da Onça.

Mesmo sabendo que nem todos fizeram exatamente os roteiros traçados a seguir, vale-se do artifício de citá-los para resgatar sobrenomes e lembrar que muitos certamente transitaram pelo agora oficial “Caminho do Imigrante”. Caminho que ideias recentes sugerem que seja estendido pela Boa Sorte para, por uma das opções de estrada já existente, chegar ao distrito de Tebas. Num roteiro que necessariamente passará por terras que pertenceram ou foram trabalhadas, dentre outros, pelos conhecidos sobrenomes: Bonin, Carraro, Colle (Coli), Fófano, Gottardo do Giovanni Battista casado com Constantina Meneghetti (Meneghite), Marinato, Zangirolani que reúne a família do pracinha da FEB, João Zangirolani, que lutou na Itália e ganhou medalhas, mas na Guerra, infelizmente, perdeu parte da sua capacidade laboral.

Tebas, distrito que foi sede do município por um curto período e que acolheu os sobrenomes Albertoni, da senhora Virgínia, esposa de Giuseppe e o Moroni, da senhora Maria que se casou com Domenico, ambos da mesma família Sampieri (Zampier) que até hoje se liga ao lugar.

Tebas de onde partia o ônibus do Marcatto que da memória não se afasta. Sobrenome que ali chegou com o casal Luigi Marcatto e Anna Maria Ceoldo.

Que se registre por ser vero, ônibus às vezes preterido pelo menino da roça quando o tempo permitia aguardar uma carona gratuita num dos “caminhões de leite” dos irmãos Lupatini.

E falando em ônibus, vem à memória a paixão e profissão de outro descendente, Bartoli, senhor José, dono dos ônibus urbanos da cidade conhecidos popularmente, desde então, como “catanique” porque a passagem se pagava com moeda de níquel.

Na linha de Tebas, que passava pelas terras das antigas fazendas Constança, Puri e Onça, viviam descendentes do casal Otavio de Angelis e Amalia Calzavara e de Emílio Isidoro Carraro e Maria Farinazzo. O sobrenome Anzolin, da família do combatente José Luiz Anzolin que trouxe das trincheiras geladas da Itália, na Segunda Guerra Mundial, medalhas e sequelas nunca esquecidas. O Bedin e o Bolzoni, este, artesão que fabricava balaios, esteiras e peneiras de taquara, indispensáveis na lida diária da roça. O Marinato e o Meneghetti do Agostino) e do Felice, sobrenome encontrado com grafias várias. Cosini, Stievano, Gruppi e o Montan, que saiu da fazenda Paraíso desceu a Serra da Vileta e foi trabalhar em terras da Constança, Água Espalhada e Bairro da Onça, juntamente com Bronzato, Campana, Campagna, Lomba, Longordo, Togni, Sangalli (Zangali) e Zachini (Zaquine) que hoje empresta o sobrenome à rua do bairro Caiçara e recepciona os motoristas que chegam à cidade pelas avenidas Jehú Pinto de Faria e Getúlio Vargas, com suas lojas de autopeças e serviços.

Todos estes sobrenomes familiares aos que conheceram a Casa Timbira – o entreposto da Colônia, os campos de futebol, as raias de malha e as festas na Capela da Onça.

Mas além destes, outros mais também frequentaram estes mesmos pontos de convergência dos imigrantes italianos de Leopoldina.

Por vezes, para um imaginário torneio no campo do Boa Sorte podiam chegar, vindo dos lados de Abaíba, talvez trazidos por este mesmo ônibus antigo que ainda “serve” ao distrito, sobrenomes como Algeri, Bettelli e Bellini que entra na defesa deste time pelo seu possível parentesco com grande capitão da seleção brasileira de futebol campeã do mundo em 1958. Na linha média, Cappai, Rocchi e Pinna. Na frente, Fanni, Finotti, Marangoni, Meneghelli e Sacchetto. Na reserva: Vaccari, Venturini e Salis. No socorro mecânico, Benati, que pode ter algum parentesco com a pessoa maravilhosa do Perseu Benati que há mais de meio século cuida da sua loja de peças. Bozza, por ser sobrenome de médicos no Rio de Janeiro, fica no banco para eventual aplicação de spray e bandagens. E o Scolari, com este sobrenome, é o treinador.

O “escrete” de Providência, numericamente o maior de todos, formado por Gatti cujo nome já diz ser bom para o posto. Antonelli (Antonio no plural) e Boesso (mercador de bois) que talvez possa ter algum parentesco com os irmãos Orlando e Miguel Baeso, os primeiros a praticar o futebol em Maripá de Minas, por volta de 1917. Bianchi, Casarotti e De Vito na linha média. No ataque, um ponta veloz, Ferrari. Um meia direita experiente, Franzoni. Um centroavante desbravador, Fortini. Um lançador perfeito e de jogadas limpas, Zamagna e, na ponta esquerda, para consertar todo o time, um experiente Magnani, talvez descendente do mais antigo da família no lugar, o Giacomo Magnani. Para as providências de custeio das despesas, Mantega; para o apoio espiritual, Capella ou, Padovani, nome que tem origem na cidade de Padova do Santo Antônio da Capela do Onça; e, para o caso de comemoração ou, festa, um Adriani, para lembrar o cantor da jovem guarda, Jerry.

Para torneios imaginários, para os jogos de confraternização e para as festas na Igrejinha de Santo Antônio, também não faltavam sobrenomes de imigrantes vindos da cidade e de outros pontos do município. Como, por exemplo, das Palmeiras, terra de Seoldo; de São Lourenço dos Ambri, Gallito, Gottardo, Maragna, Marinato, Mori, Stievano e Zenobi; e, do Arrasta Couro, dos Bartoli.

De Argirita, hoje cidade independente, vinham Cappai, Carminati, Curcio, Gondolo, Nannini e Vitoi, que tomavam lá as suas providências ou, o ônibus da Viação Mineira e chegavam para a festa.

De Piacatuba, o mais antigo distrito da cidade, selavam seus cavalos ou, aprontavam suas “conduções”: Baldan, Bedin, Bertulli, Bogonhe, Bullado, Carmelim,  Fofano, Lazzaroni, Marcatto, Pesarini, Righetto, Sacchetti. Sangirolami e Stefani, seguidos de Lorenzeto e outros habitantes da Vargem Linda que buscando caminhos pelas margens dos tributários do Ribeirão do Banco, passando pela região do Taquaril, chegavam bem dispostos.

Caminhando no sentido contrário ao das águas do córrego Jacareacanga, vinham outros tantos sobrenomes, pisando os dormentes da linha férrea como se degraus fossem ou, utilizando os vagões do ramal da Leopoldina – Vista Alegre. Ferrovia que foi a razão de ter existido a Hospedaria Jacareacanga e a própria Colônia Agrícola da Constança, criada após acordo do governo com as empresas ferroviárias.

Do vizinho distrito de Campo Limpo, hoje Ribeiro Junqueira, o Trem de sobrenomes trazia Bellan, Bigleiro, Binalti, Cattozzi e Crepaldi, Dorigo, Mondin, Pezzolato e Tambasco. E mais Bellavia, Biasucci, Panzavolta e Pellicani, de Recreio, possivelmente embarcados no mesmo trem que trazia o pessoal da estação anterior, São Martinho, de onde vinham Beccari, Beltrani, Borghi, Bortolotti, Facchini, Ferretti, Ropa e Tonelli.

Brincadeiras à parte, posto que são utilizadas apenas para tornar mais agradável a leitura, o que se pretende aqui é lembrar que todos estes e muitos outros sobrenomes italianos povoaram a coluna Trem de História e as que a antecederam nos 20 anos de publicações sobre a história da cidade. E estão aqui, mais uma vez, para lembrar a quantidade e a importância dos imigrantes italianos que viveram em Leopoldina.

E para mostrar que são 6.084 italianos ligados direta ou indiretamente a Leopoldina e que destes, 3.939 possuem vínculo com a cidade devidamente documentado.

São 1.166 sobrenomes italianos, muitos deles perdidos nos seguidos casamentos dos descendentes, mas todos, com certeza, presentes pelo sangue em mais da metade da população da cidade. Motivo de sobra para merecerem uma homenagem, neste mês, quando se comemora os 159 anos do início dessa imigração e desejar a todos que 2019 seja o ano dos preparativos para a festa dos 110 anos da Colônia Agrícola da Constança e os 160 anos da Imigração Italiana para Leopoldina, em abril de 2020.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 378 no jornal Leopoldinense de 16 de abril de 2019

Fazendas de Leopoldina

O município de Leopoldina estendia-se por um território muito vasto e até hoje, apesar de muitos desmembramentos, sua área ainda é uma das maiores na região sul da zona da mata, num total de 942,31 km² conforme o site da Prefeitura Municipal.

Inúmeras foram as fazendas formadas no decorrer do século XIX. Muitas já não existem mais, quer por terem sido divididas em propriedades menores que por terem se tornado área urbana. Algumas delas foram analisadas e localizadas no texto “Antigas Cartas de Leopoldina” apresentado em Seminário realizado em 2004.