Sociedade Leopoldinense

Artigo publicado em 2003, respondendo mensagens de estudantes que visitaram o site interessados em análise da sociedade leopoldinense do início do século XX. Como não fazemos pesquisas dos anos novecentos, respondemos com uma opinião pessoal, formulada a partir de observações variadas.

Mudanças na forma de cultivar o café, no último quartel do século XIX, determinaram o desaparecimento das culturas de subsistência nas grandes fazendas. Como conseqüência imediata o poder aquisitivo da população caiu vertiginosamente. Até então vivia-se escorado no produto da terra. Dela se extraía todo o necessário: do alimento à madeira com que se fabricavam os móveis, dos remédios aos insumos para as demais necessidades. As grandes fazendas contavam com profissionais de gama variada, seja o escravo mestre em trabalhos de couro, sejam as artesãs do tear.

Ao migrarem para a monocultura cafeeira, os fazendeiros alocaram toda a mão-de-obra disponível naquele mister, passando a depender de terceiros para o suprimento básico. A substituição do trabalho escravo pelo braço livre significou um ganho de qualidade nas técnicas de produção. Os imigrantes trouxeram para o meio rural a experiência de outro modelo de modernização. Um caso típico ocorreu em Astolfo Dutra, conforme nos conta Rosalina Moreira em seu livro sobre os italianos na Colônia Santa Maria. Um comerciante do lugar só conseguiu vender arados para os colonos italianos, já que os fazendeiros alegavam que “aquilo” estragava a terra.

Ao mesmo tempo em que mais e mais proprietários substituíam suas plantações diversificadas pelas “ruas de ouro verde”, crescia a necessidade de reordenamento do espaço urbano para atender o novo público consumidor. Despojadas de seus próprios artesãos, as famílias de posses passam a depender dos prestadores de serviço encontráveis no arraial mais próximo. Imigrantes pouco afeitos ao labor da terra engrossam a camada de profissionais urbanos, abandonando as fazendas e abrindo uma “porta de venda na rua”.

Apesar da crescente queda do poder aquisitivo, já que agora pagam por produtos e serviços antes disponíveis em suas próprias fazendas, os “coronéis” não admitem frear a derrocada com soluções caseiras. Alimentam a ilusão de um retorno às posições perdidas e continuam a sustentar seus filhos longe do amanho da terra. Empenham suas terras nas casas bancárias a troco de moeda que adie a queda final.

Enquanto isso, nos becos e vilas do povoado, sangue estrangeiro remodela a sociedade. No princípio vítimas de xenófobos olhares enviesados, mais adiante encarnações do escárnio mais desbragado, imigrantes ocupam pouco a pouco os mais variados postos de trabalho. Sufocados pelo íntimo pesar da saudade de uma terra distante, sem terem sequer um vocábulo próprio para traduzir tal sentimento, trabalham incessantemente em busca de um sonho: “fare l’america”, juntar dinheiro e voltar ao torrão natal.

Nem uns nem outros atingiram seus objetivos. Se os deserdados das oligarquias rurais não recuperaram antigos cabedais, tampouco a massa d’além mar conseguiu cruzar o Atlântico de volta. Raras as exceções!

E assim, oprimidos pela ordem econômica, aos poucos foram derrubando o muro da intolerância. O homem e a mulher “valem por si mesmos e não pela vaidade de carregarem um nome de antepassado”, já o disseram Olavo Bilac e Manoel Bonfim, em Através do Brasil, a pioneira obra paradidática genuinamente nacional.

Entre 1901 e 1924, quase metade dos casamentos realizados em Leopoldina envolviam imigrantes italianos. Em pesquisa amenos abrangente, pois realizada apenas em três cartórios, observa-se que 3/4 das crianças nascidas entre 1950 e 1954 tinham pelo menos um dos bisavós nascido na pátria de Dante Alighieri. Outras nacionalidades misturam-se ao sangue dos povoadores pioneiros desde que o Feijão Cru teve suas margens ocupadas pelo homem livre.

Se os deserdados do ouro fizeram nascer um povoado nos albores dos anos oitocentos, foram os imigrantes europeus do final do século XIX que modelaram a Leopoldina dos novecentos. As mazelas da cidade não são muito diferentes daquelas que afetam a maioria dos municípios brasileiros. Mas Leopoldina supera qualquer outra num quesito fundamental: a energia que bate em nosso peito é moldada pelos ares leopoldinenses.

Aspectos da História de Leopoldina

Muitos de nós tivemos as primeiras noções de história através de uma visão idealista. Até bem pouco tempo ensinava-se a história de um determinado lugar baseando-se na trajetória de seus heróis. No antigo sistema de ensino nós, simples ouvintes, assistíamos as aulas como se tudo aquilo fosse um fantástico romance, totalmente distante da nossa própria realidade. Não nos sentíamos como parte do processo. Éramos, simplesmente, espectadores. E espectador não pode interferir no roteiro! Assim nos formamos, ou melhor, perdemos a oportunidade de formar nossa consciência histórica. Achávamos que tudo tinha sido realizado por um semideus e que nós, simples mortais, estávamos aqui só para assistir de camarote ao filme sobre os heróis ou obedecer cegamente ao que autoridades decidiam.

Hoje, quando temos oportunidade de analisar o contexto em que os fatos se deram, deixamos de ver em todo lugar um herói ou semideus. Ao se humanizarem, os heróis passam realmente a nos ensinar alguma coisa. No mínimo nos dão a certeza de que todos nós podemos fazer alguma coisa para mudar o curso da história.

Em comunidades onde não há consciência crítica, o morador não se sente capaz de atuar positivamente. Acho que aqui em Leopoldina isto não acontece. Vocês todos sabem que são cidadãos aptos a mudar o rumo da história. Vocês vivem na certeza de que são os responsáveis por tudo o que acontece na cidade.

A história de vocês foi sempre assim: uma cidade formada por cidadãos conscientes, atuantes, que sabem o que querem e o que podem fazer.

Voltemos ao início de tudo!

Após o período áureo da mineração, a população do centro de Minas passou a buscar alternativas. E o governo da província, preocupado com o contrabando do ouro já muito escasso, tratou de criar mecanismos que evitassem a fuga de divisas. Uma das atitudes foi abrir ao povoamento a nossa região, antes tida como “áreas proibidas”. Até o finalzinho dos setecentos não era permitido ocupar nossas terras.

Até que uma diligência que passou aqui pela mata deixou claro que era muito fácil invadi-la. Depois de inúmeras discussões no alto escalão, o governador da província decidiu liberá-las ao povoamento, considerando que os habitantes serviriam de guardiões das terras e, portanto, uma barreira eficaz contra invasores desqualificados. Mas não era muito fácil convencer os chamados “homens bons”, ou seja, chefes de família com bom respaldo financeiro, a deixarem uma situação estabelecida e se aventurarem a formar fazendas em terras distantes. Para contornar o empecilho, criou-se um atrativo: quem se estabelecesse nas divisas da província ficaria isento de impostos por dez anos.

Precisamos deixar claro que, naquela época, tudo acontecia de forma bem mais lenta. Assim é que os 10 anos de isenção tributária foram necessariamente prorrogados até pouco depois da Independência do Brasil.

Necessário ainda ressaltar uma profissão muito lucrativa da época da mineração: os tropeiros. Laura de Melo e Souza, em seu livro Opulência e Miséria em Minas Gerais, lembra que a riqueza estava, de fato, nas mãos dos comerciantes. Com a extração de ouro não se enriqueceu tanto como quiseram fazer crer os antigos livros de história. Comerciantes e tropeiros sim, estes conseguiram amealhar fortunas. Não com a rapidez com que se imagina o enriquecimento de alguém que extraia uma enorme pepita do mais puro ouro. Não! Eles foram construindo um bom patrimônio aos poucos, rasgando as trilhas em busca dos fregueses de suas mercadorias, bens necessários à sobrevivência nos rincões mais longínquos.

Os tropeiros foram, então, os primeiros “homens bons” a conhecerem a nossa região. A lenda do Feijão Cru tem origem provável naqueles homens destemidos que enfrentavam tudo. E eles, os tropeiros, estiveram entre os primeiros a requisitarem Cartas de Sesmaria e se beneficiarem da isenção tributária. Alguns vieram de fato ocupar as terras recebidas. Muitos jamais pisaram o solo às margens do Feijão Cru.

Vejamos algumas imagens.

Aspectos da História de Leopoldina

Se estivéssemos estudando por algum daqueles livros antigos, na certa encontraríamos algum herói travestido de benfeitor dos índios e solucionador de todos os problemas. Provavelmente o herói seria um homem riquíssimo, cuja riqueza provinha da extração do ouro, e que por puro diletantismo resolveu gastá-la povoando as margens do Feijão Cru. E para continuar com as lendas que povoam nosso imaginário, o herói pegou uma índia a laço e com ela criou numerosa, bela e feliz família.

Talvez eu cause uma decepção em alguém. Sinto muito. Até hoje eu não encontrei nem vestígio de um herói desse tipo em nossas terras. O que eu pude apurar é que um número significativo de pessoas veio povoar a região por terem conseguido terras que já faltavam no centro de Minas.

A história que eu conheço é a seguinte:

Aspectos da História de Leopoldina

Em 1784 e 1786 foram realizadas duas diligências, comandadas pelo sargento-mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho. Entre seus auxiliares diretos encontravam-se o coronel Manoel Rodrigues da Costa e o Alferes Joaquim José da Silva Xavier.

Provavelmente os nomes soaram familiares, não é? Claro, muitos leopoldinenses pertencem às famílias deles.

Este percurso, desenhado a partir de cartas remetidas pelo coronel Rodrigues da Costa ao governador da província, aproxima-se dos locais das primeiras sesmarias concedidas nas até então “áreas proibidas”. Lembremo-nos que, entre outras determinações, ficou estabelecido que apenas 40 “homens bons” poderiam estabelecer-se nas novas terras, com um número de escravos total limitado a 200. Mas as cartas de sesmaria não foram concedidas imediatamente e nem tudo o que foi decidido na época das diligências foi integralmente cumprido.

Para o nosso caso, importa destacar:

1813 – 4 sesmarias concedidas no território hoje pertencente a Argirita. Beneficiários: dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas. Domingos Gonçalves de Carvalho, sua mulher Antônia Rodrigues Chaves, Felisberto da Silva Gonçalves e a mulher deste, Ana Bernarda da Silveira.

1817 – 2 sesmarias concedidas a Fernando Afonso Correia de Lacerda e Jerônimo Pinheiro de Lacerda, citando o Feijão Cru como localização.

1818 – 2 sesmarias vizinhas ao Feijão Cru concedidas aos Coelho e diversas para a família Monteiro de Barros. Antônio Francisco Teixeira Coelho era o sogro de Bernardo José Gonçalves Montes.

1831 – Primeira contagem de habitantes do Feijão Cru.

Os beneficiados com sesmarias deveriam cumprir algumas exigências. Vejamos algumas delas.

a) Dom Manoel de Portugal e Castro, do Conselho de Sua Majestade e do da Sua Real Fazenda, Governador e Capitão Geral da Capitania de Minas Gerais.

Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que, atendendo ao a mim apresentado por sua petição Jerônimo Pinheiro de Lacerda, que em um córrego chamado Feijão Cru que deságua no rio da Pomba no Distrito de Santo Antonio do Porto do Ubá, Termo de Barbacena,

b) e não sendo esta em parte ou todo dela, em árias proibidas, e dentro das confrontações acima mencionadas, fazendo pião onde pertencer; com declaração porém que será obrigado dentro em um ano, que se contará da data desta, a demarcá-la judicialmente, sendo para esse efeito notificados os vizinhos com quem partir, para alegarem o que for a bem de sua justiça; e ele deverá também a povoar, e cultivar a dita meia légua de terra ou parte dela dentro em dois anos, a que não compreenderá a situação, e logradouros de algum…

Pelo menos no que se refere aos prazos, temos certeza de que não foram cumpridos. Os dois irmãos Lacerda, Jerônimo e Fernando, somente mandaram seus sobrinhos para cá uns 10 anos depois. Ainda assim, para uma atividade que não era admitida oficialmente: a venda das terras recebidas gratuitamente.

Da mesma forma o patriarca Monteiro de Barros, que segundo alguns autores recebeu 14 sesmarias, não as ocupou senão mais de 15 anos depois.

O que podemos afirmar é que a partir de 1831 os moradores do Feijão Cru já começam a ser registrados, mas ainda vinculados ao Curato de São José do Paraíba.

Nosso primeiro mapa populacional é de 1835.

População do Feijão Cru em 1838 (gráfico da população: 467 brancos, 225 forros, 602 escravos)

O que eu pude apurar é que um número significativo de pessoas veio povoar as margens do Feijão Cru por terem conseguido terras que já faltavam no centro de Minas. Alguns por terem sido beneficiados com sesmarias, muitos por terem-nas adquirido dos primeiros beneficiários, o certo é que em 1835 foram encontradas 135 moradias no território que constituía o então Curato de São Sebastião do Feijão Cru, sendo 84 delas chefiadas por “homens bons”. Nas demais 51 moradias, chefiadas por pretos livres, em 10 foram encontrados escravos. A média de escravos por habitante não chegava a 1,5%.

Num estudo ainda não concluído, observei que mais da metade das famílias era constituída de parentes até segundo grau. Eram agricultores ou tropeiros. O desenrolar da história daquelas famílias demonstra que viviam em estreito relacionamento.

Observar que a área do Curato era muito mais ampla do que o território que veio a constituir Leopoldina. Mas a nossa história foi construída pelos moradores da parte sul.

Em pouco menos de 20 anos, numa época em que as comunicações eram precárias, a população tinha já se organizado a tal ponto que foi possível requerer a emancipação do distrito. Eram, então, cerca de 4.000 moradores, a maioria vivendo em suas propriedades rurais. Quando da emancipação, várias foram as exigências para a instalação da Vila Leopoldina.

Em nossa região encontramos alguns casos em que os habitantes precisaram de mais de 3 anos para se adequarem à nova situação.

No nosso caso foi diferente.

Em apenas nove meses foram adaptadas locações para os serviços que passaram a existir.

Pergunta: houve um herói que cuidou de tudo rapidamente, que doou seu sangue e recursos para transformar o Feijão Cru em Leopoldina?

Mais uma vez eu acho que vou decepcionar algumas pessoas. Mais uma vez eu digo: sinto muito! O que eu pude apurar é que lideranças políticas surgiram naturalmente. Que personagens diversos aparecem como doadores. Que diferentes pessoas atuaram na organização da sede municipal.

Claro que alguns habitantes daquela época tinham influência política também fora dos limites da cidade, ou não seria possível uma emancipação tão rápida. Mas o que eu quero dizer é que tais lideranças nada teriam conseguido sem a intensa participação dos demais habitantes. Nenhum herói consegue convencer um proprietário a doar parte de suas terras para a municipalidade, se este morador não estiver comungando dos mesmos ideais. Volto a dizer: não houve um personagem que determinasse o que seria feito. Antes, houve um acordo entre as lideranças locais, todos trabalhando pelo crescimento do lugar que escolheram para viver.

Para corroborar essa opinião, sugiro aos interessados que observem os antigos registros de imóveis da cidade. Até o final dos oitocentos não havia propriedade particular, como hoje a entendemos, na área urbana. Todos os terrenos eram da municipalidade, cedidos para quem neles quisesse edificar, seguindo especificações votadas pela Câmara Municipal. E quem doou os terrenos para a municipalidade? Um herói, um benfeitor magnânimo? Não, meus caros. Vários foram os doadores.

Por essa época o café ainda não representava o grosso de nossa economia.

Daí em diante é que surgiram as grandes plantações.

Ao lado da ampliação das fazendas de café, a sanha desenvolvimentista presente em nossos pioneiros fê-los enxergar alternativas que beneficiaram ainda mais a nossa cidade.

Um aspecto importante é a educação. Naquela época, tinha-se no Brasil algo semelhante ao ocorrido na Roma Antiga. Ou seja: as famílias de posses contratavam preceptores que preparavam seus filhos para depois seguirem cursos em escolas das cidades maiores. Em Roma demoraram dois séculos para concluírem que era mais barato fazer doações para criação de escolas locais. Em Leopoldina as famílias se organizaram rapidamente.

O processo de contratação de professores obedecia a um roteiro básico[1]. As comunidades encaminhavam correspondência ao Inspetor Geral de Instrução Pública, indicando um nome para o qual passavam uma espécie de “atestado de bons antecedentes” e detalhando as condições geraisem dentro dos parâmetros exigidos pela inspetoria, o candidato era chamado para a realização de exames de habilitação. Se aprovado, era nomeado. Se não atendesse aos requisitos necessários, a própria Inspetoriacuidava de nomear alguém habilitado.

Já no ano da instalação, a articulação política conseguiu or primeiros professores.

Em algumas cidades vizinhas o processo demorou um pouco mais pela ausência de organização dos moradores, com vistas a criarem condições de funcionamento das “aulas”. Aqui foi diferente. Não só criaram as condições como não permitiram uma outra ocorrência comum em alguns lugares: longos períodos sem professores.

Quando a municipalidade não providenciava um local para o funcionamento das aulas, os professores públicos recebiam, junto ao salário, um abono para o aluguel da sala onde trabalhavam. Em literatura encontramos referências de utilização do abono para o aluguel da casa onde o professor residia. E normalmente o professor destacava um cômodo da casa para trabalhar, nomeando a sala de aula em homenagem ao santo de sua devoção.

Assim é que encontramos diversas referências a colégios com nomes de santos e, num primeiro momento, podemos imaginar tratar-se de escolas  particulares. Uma pesquisa mais apurada demonstra que eram salas de aula dirigidas por professores públicos.

Este é um outro quadro interessante.

Demonstra a preocupação dos habitantes em garantir a continuidade dos estudos na própria cidade. Considerando as exigências legais para a criação das “aulas superiores”, incluindo-se o número mínimo de alunos, observa-se que os leopoldinenses de então trabalhavam com afinco para o progresso local.

A escola pública não é, como erroneamente pensam alguns, uma DOAÇÃO do Estado ao povo. Não! Ela é uma conquista de um povo que se organiza e luta por seus direitos. Nós podemos nos orgulhar de nossos antepassados também nesse aspecto: eles lutaram pela melhoria das condições de vida locais em todos os aspectos. Nós não podemos dizer que “eles fizeram” ou “eles aconteceram”, como se fossem pessoas distintas de nós. Não, foram as nossas famílias que garantiram a continuidade das escolas naqueles longínquos oitocentos. Não fosse assim e as “aulas” teriam sido abolidas como aconteceu em outros locais.

Ressalte-se que, ao lado das escolas providas pelo governo provincial, também o município fez funcionar escolas, pagando professores para os distritos.

No governo de João Pinheiro da Silva foi implantada uma Reforma do Ensino Primário através do Decreto nr. 1960 de 16.12.1906. Significou, entre outras coisas, a reunião das salas de “aulas públicas” em Grupos Escolares. Segundo jornais da época, funcionavam em Leopoldina, na rua Sete de Setembro, duas salas de aula a cargo dos professores Bento Castanheira e sua esposa Maria  Brígida. Ali teria nascido o atual Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, ou seja, a reunião das “aulas públicas” existentes na sede municipal.

E quando o poder público não atendeu à demanda, os leopoldinenses souberam criar alternativas.

1881 – Liceu Leopoldinense – Profissionais liberais residentes em Leopoldina organizaram uma escola particular que, embora não apareça entre as escolas reconhecidas pelo governo provincial, funcionou na década de 80 dos oitocentos[2].

1883 – Temos notícia de uma escola particular em Piacatuba, dirigida por Souza Machado e Symphronio Cardoso, cujos detalhes ainda não conseguimos apurar[3].

1893 – Arcádia Leopoldinense – 86 leopoldinenses criaram uma sociedade por cotas com o objetivo de prover a educação da mocidade.

1906 – Gymnasio Leopoldinense – Tem sua história bastante conhecida.

1909 – A Nova Escola – Provavelmente o embrião do Seminário, fundada pelos padres Júlio Fiorentini e Felix Poinsot.

1918 – Colégio Imaculada Conceição.

Um povo organizado como o leopoldinense, soube muito bem aproveitar outras oportunidades que surgiram.

A história da Estrada de Ferro (1871-1877), a chegada dos imigrantes para a lavoura (1882), a substituição do trabalho escravo bem antes da abolição (1884), o serviço de telefonia já em 1886, a fundação da Sociedade Portuguesa de Beneficência (1889) e o funcionamento da Hospedaria de Imigrantes (1894-1899), são exemplos da atuação brilhante de nossos antepassados em prol do desenvolvimento.

Há mais um século de história pela frente. No entanto, eu fico por aqui.

Tenho certeza de que todos vocês, leopoldinenses de nascimento ou por adoção, continuam trabalhando para que a cidade aproveite todas as oportunidades possíveis. Garanto que vocês todos trabalham em prol da comunidade. Vocês sabem que cada um é importante, que todos precisam participar. Vocês estão fazendo história!


* Apresentação promovida pela FELIZCIDADE, Organização Social Civil de Interesse Público sediada em Leopoldina, MG, tendo sido realizada no auditório do CEFET campus Leopoldina no dia 10 de dezembro de 2003.

[1] GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Processo de profissionalização docente na Província Mineira no período imperial. Belo Horizonte: UFMG, s.d. mono

[2] Américo Lobo Leite Pereira, Eduardo Magalhães, José de Souza Soares Filho, Martiniano Lintz e Teófilo Ribeiro aparecem entre os professores de 1881.

[3] Almanaque Laemmert, 1883, página 153 da seção Provincial.

Reconhecimento de Paternidade

No século dezenove o reconhecimento de paternidade poderia ser feito através de registro em livros paroquiais ou civis.

Apresentamos aqui um exemplo de “Escritura de Perfiliação” realizada por Antonio de Aguiar Vieira, em relação a três filhos tidos com uma escrava, no então distrito de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, município de Leopoldina, MG, em março de 1871.

Perfiliação

 

Transcrição:

Escriptura de Filiação que digo escriptura publica de prifiliação que fas Antonio de Aguiar Vieira, a seus tres Filhos Rita, Manoel, e Antão como abaixo se declara.

Saibão quantos este publico instrumento de escriptura de prifiliação virem que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo, de mil oito centos e Setenta e hum aos vinte sete dias do mes de Março do dito anno, neste Districto de Nossa Sinhora da Conceição da Boa Vista, Termo da Cidade Leopoldina, e Comarca do Pomba, em meu cartório compareceo Antonio de Aguiar Vieira, morador neste Mesmo Districto, reconhecido pelo proprio de mim escrivão, e das duas testemunhas ao diante nominadas e assignadas do que tudo dou fé; e pelo mesmo Antonio de Aguiar Vieira, me foi entregue a carta de prifiliação do thiôr seguinte: - digo eu abaixo assignado Antonio de Aguiar Vieira, morador neste Districto da Conceição da Boa Vista, que tendo tres Filhos com huma escrava que foi minha por nome Maria Ritta, os quaes são os seguintes: - Ritta Parda, idade sete annos, Manoel Pardo, idde ceis annos, Antão Pardo, idade hum anno e sete mezes, os quaes reconheço serem meus Filhos proprios assim como os tenho. E para atodo tempo constar, mandei passar esta carta de Filiação, na qual me assigno em presença das testemunhas Antonio Pedro de Lima Fernandes, e Martinho Pacheco Lima, ambos abaixo assignados. Conceição da Boa Vista – vinte sete de Março de mil oitocentos e setenta e hum, a carta estava sellada – com estampilha de duzentos reis. Antonio de Aguiar Vieira, Antonio Pedro de Lima Fernandes, Martinho Pacheco Lima. Hé o que se continha em a dita carta na qual me reporto. E por nada mais se conter nesta escriptura de prifiliação, e depois de lhe ser lida e achar com forme, assigna em presença das testemunhas Martinho Pacheco Lima, e Martinho José de Oliveira, tão bem abaixo assignadas todas reconhecidas de mim Manoel José do Carmo Brandão escrivão que o escrivi e assigno.

(assinaturas, pela ordem: Antonio de Aguiar Vieira, Martinho Pacheco Lima, Martinho José de Oliveira, Manoel José do Carmo Brandão)

Associações de Moradores

Quando não havia ainda a separação entre Estado e Igreja, as associações de moradores registravam seus estatutos e atas em livros paroquiais a este fim destinados.

Além deles, os livros dos Cartórios de Notas esclarecem um pouco sobre as atividades destes grupos de moradores que se encarregavam dos procedimentos necessários ao franco desenrolar da vida civil.

Em nossos estudos tivemos oportunidade de analisar os atos da Comissão encarregada pela construção do Cemitério Público em Conceição da Boa Vista, cujos membros faziam parte da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Conceição da Boa Vista, em 1884 dirigida pelo procurador Antônio Caetano de Almeida [Gama?]. Naquele ano, a Irmandade tinha a receber o aporte financeiro de 3 contos 953 mil réis, legado testamentário do capitão Jacintho Manoel Monteiro de Castro para a Igreja e o Cemitério da Paróquia da Conceição da Boa Vista. Para atuar como interveniente credor no inventário, a Irmandade nomeou o advogado Theophilo Domingos Alves Ribeiro, conforme procuração datada de 23 de julho de 1884, registrada no livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista.

Lembramos que as Irmandades surgiram na Idade Média, na Europa. Compunham-se de leigos que, além da difusão religiosa, encarregavam-se também da assitência econômica de seus integrantes e tomavam as providências necessárias por ocasião da morte. Vale dizer: missa de corpo presente, acompanhamento do enterro, sepultamento em local digno e demais rituais. Segundo o Dicionário do Brasil Colonial, organizado por Ronaldo Vainfas, em Minas “as irmandades revelaram-se de especial importância para dinamizar a vida religiosa”, especialmente por conta da “precária implantação da rede de paróquias” e porque não foram autorizadas as ordens regulares.


Club da Lavoura

As associações assim denominadas reuniam os lavradores dos distritos com o objetivo de promover a agricultura e o comércio, seguindo orientações do Club Central da Lavoura e Commercio do Rio de Janeiro. Tratava-se, portanto, de um órgão regulador das atividades de produção e escoamento, exercendo certo poder de pressão sobre o poder público. Foram os Clubes da Lavoura que organizaram, por exemplo, o processo de substituição da mão-de-obra escrava pelo braço imigrante.

No ano de 1884 o Club da Lavoura de Conceição da Boa Vista era presidido pelo Barão de Avelar Rezende, tendo como secretário o Padre Modesto Theophilo Alves Ribeiro e sendo membros da Comissão Permanente os fazendeiros Manoel Barbosa da Fonseca, Francisco Ferreira [Brito] Netto, Manoel Lobato Galvão de São Martinho, Lucas Matheus Monteiro de Castro, João Evangelista Teixeira de Barros e Valeriano Coelho dos Santos Monteiro.

Em geral um Club da Lavoura distrital nomeava um procurador para representá-lo nas reuniões do Club Central. Neste cargo surge, então, um outro nome que faz parte da história de Conceição da Boa Vista: Domingos de Andrade Filgueira representou o distrito na reunião do ano de 1884.  Morador da Corte, acreditamos que enviava suas comunicações através da Mala Postal da Estrada de Ferro da Leopoldina.

Atividade do Club da Lavoura

Apresentamos, a seguir, a transcrição de uma ata de reunião dos lavradores de Angustura, no ano de 1887, que bem exemplifica os objetivos e interesses da associação.


Emigração

Ata dos lavradores da freguesia d’Angustura

Aos 28 de Dezembro de 1887, à 1 da tarde, nesta freguesia d’Angustura, reunidos os lavradores: – Barão de S. Geraldo, Militão José de Souza Amêno, Francisco Martins Ferreira, Casimiro Vilela de Andrade, Bernardo Manso Monteiro da Costa Reis, membros da comissão permanente do “Club da lavoura desta freguesia”. Não comparecendo por doente, como oficiou o membro Lucas Soares de Gouvêa, e mais: Gustavo Teófilo Alves Ribeiro, Cipriano Gomes Figueira, Francisco Gomes Figueira, Carlos Gomes Figueira, José Pinto de Andrade Junior, Manoel José de Medeiros, José Cesário de Figueiredo Côrtes, Dr. Francisco Cesário de Figueiredo Côrtes, José Augusto de Figueiredo Côrtes, Manoel Gonçalves de Figueiredo Côrtes, João Cesário de Figueiredo Côrtes, Ricardo Antonio da Silva, José Alexandrino Vilas Boas Côrtes, Antonio Antunes de Siqueira, Gabriel Martins Ferreira, Antonio Manoel Domingues, Domingos Vilela de Andrade, José Vilela de Andrade, José Joaquim de Cerqueira, Manoel Joaquim de Cerqueira, Joaquim Antonio de Cerqueira, José Claudino de Cerqueira Leite, Francisco José de Paula Moutinho, Francisco de Assis Teixeira, João Baptista Celestino Ferreira, Joaquim Garcia de Oliveira Mattos, Manoel Nunes de Moraes Dutra, coronel Joaquim Martins Ferreira, Manoel José Pires de Carvalho, Manoel Rodrigues Pessoa Araújo, Valeriano Manso Monteiro da Costa Reis, Dr. Francisco Rodrigues Seixas, Teófilo Rodrigues Pessoa, Carlos Rodrigues Pessoa, Carlos José Ferreira, Francisco Teixeira Marinho, Romualdo Martins do Couto, Francisco Augusto Teixeira, José Venâncio Godoy Junior, Aureliano Xavier Arruda, Celestino Gonçalves da Silva, Fortunato Alves Vieira, Antonio Teixeira Rezende Junior, Francisco Faria Salgado, Leonardo Teixeira Marinho, José Candido Vilela Andrade, Dias Ferraz, Martins Ferreira & Irmão, Teixeira Leite & Irmãos e Manoel Pereira da Costa & Filho, foi lida pelo presidente da comissão permanente, Barão de S. Geraldo, a exposição do teor seguinte:

EXPOSIÇÃO FEITA PELA COMMISSÃO PERMANENTE DO CLUB DA LAVOURA DA FREGUEZIA D’ANGUSTURA, TERMO DE S. JOSÉ D’ALÉM PARAHYBA, PROVINCIA DE MINAS, NA REUNIÃO DOS LAVRADORES EM 28 DE DEZEMBRO DE 1887.

Introdução

Em 4 de Junho de 1884, reunidos aqui 70 lavradores, formaram um “club ou liga paroquial” e nomearam uma comissão permanente composta dos abaixo assinados.

Foram aprovados os respectivos estatutos.

Então, o principal intuito era formal oposição à projetada reforma da lei de 28 de Setembro de 1871; e, neste sentido, representou-se ao parlamento.

Depois, veio a lei de 28 de Setembro de 1885, reformando e ampliando aquela.

Hoje, aos nossos estatutos teremos um artigo a acrescentar:

Art. 7º O Club da Lavoura, atendendo à urgente necessidade que há de introduzir emigrantes neste freguesia, toma a si todo o empenho em desde já iniciá-la e dar-lhe o máximo desenvolvimento.

É, pois, o principal fim deste reunião tratar-se de tão importante assunto: e, para isso vos convocou a comissão permanente.

Antes de tudo, a comissão entendeu que devia marcar os Salários dos libertos que existissem na freguesia; e para aqueles que o fossem por quaisquer títulos.

É obvia a necessidade de uniformizar esses salários, que a mercê da vontade de cada um poderia dar lugar a uma verdadeira anarquia.

Uniformizados e generalizados, é possível que se possa organizar os serviços dos libertos, rodeando-os dos cuidados que merecem e se deve à gente que não sabe dirigir-se.

Comissão o fez em sua sessão de 26 de Novembro próximo passado pela seguinte forma:

De 16 a 45 anos De 45 a 55 anos De 55 a 63 anos
Homens 100$ anuais 60$ anuais 35$ anuais
Mulheres 80$ anuais 40$ anuais 24$ anuais

com obrigação de alimentá-los, vesti-los, dar-lhes casas para morar e tratamento em suas moléstias, não se descontando até quinze dias de faltas (nesse caso de moléstia).

Exposição do Conselheiro Paulino

A comissão não pode deixar de chamar a vossa atenção para a exposição feita pelo Exmo. Sr. conselheiro Paulino José Soares de Souza, no palácio da presidência do Rio de Janeiro, em reunião solene com o presidente e deputados provinciais, e cujo transunto vem publicado no Jornal do Commercio de 10 do corrente mês.

Essa exposição, sensata como seu autor, deve ser lida; e é uma prova que a província do Rio de Janeiro, com muitos pontos de semelhança à nossa zona cafeeira, pelos terrenos e climas, tem no dito conselheiro, que já subiu às mais elevadas posições que pode aspirar um homem político, um companheiro leal.

Sistema de colonização

O tempo urge.

E esta freguesia tem sempre dado provas do maior tino, pelo trabalho e economia de seus habitantes, tanto que é considerada a mais importante desta província deve hoje, abstraindo-se das fórmulas, adotar um sistema – um modus vivendi em relação à emigração; e uma vez adotado, caprichar por executá-lo à risca.

Da união nasce a força.

E devemos sobretudo ter em vista que se caminharmos sem norte, e a nosso bel prazer, chegaremos a um fim desastrado.

Quando é certo que, se marcharmos todos unidos, com a probidade que sempre caracterizou os habitantes desta freguesia, seremos bem sucedidos; podendo as demais freguesias da província imitar-nos com vantagem.

Desde que tratamos da introdução de emigrantes, em que tantos lavradores tem naufragado, devemos começar todos juntos; e, começando todos juntos, aquilo que um fizer ao emigrante, todos devem fazê-lo, nem mais e nem menos.

Aproveitando os favores da lei geral e os transportes gratuitos da estrada de ferro Leopoldina, podemos ter o emigrante nas Estações, nossas freguesas, sem dispêndio algum.

O Sr. Angelo Fiorita, agente de algumas companhias de navegações, encarrega-se de mandar vir os emigrantes e colocá-los nas estações por nós designadas, sem dispêndio algum.

Para este fim teremos de entregar-lhe uma petição dirigida ao governo imperial, por nós assinada, requerendo e designando o número de famílias que desejamos, e uma procuração para solicitar os favores da lei.

Para isto existem modelos impressos, que pomos à vossa disposição.

Nos parece este o meio mais econômico e prático.

Devemos adotar o Sistema seguinte:

1º fazer ao colono o fornecimento no primeiro ano, por meio de uma caderneta, do que ele precisar para sua manutenção e de sua família, para ser pago no ano seguinte;

2º dar a cada família de colono 6.000 pés de café (novos) no mínimo para ela tratar;

3º fornecer uma casa, com 40 palmos sobre 20, coberta de telhas, com 12 palmos de pé direito e 7 de ponto, com duas portas de 4 ½ palmos de largura sobre 4 ½ de altura, conforme a planta que vos oferecemos.

Essas casas deverão ser barreadas, ficando os revestimentos de cal adiados para ocasião mais oportuna.

Quanto ao sistema de trabalho, abstraindo-nos de citar opiniões de economistas, e só atendendo à prática, temos (quanto à cultura de café),

Sistema de parceria

Em que o colono tem metade do café colhido, entregando-o, depois de seco, ao proprietário que lhe dá o último benefício nos terreiros e em suas máquinas, remete-o para o consignatário, entregando, depois ao colono, metade do líquido produto da conta de venda, que lhe deve ser apresentada, deduzidas as despesas do benefício do terreiro, máquinas e transportes.

O Sr. Antonio Van Erven, na sua colônia de Santa Clara, cobra por este serviço 600 rs. Por cada arroba de café, que devemos adotar: e assim também, 600 rs. Por cada saco de café em coco (quando ele assim é vendido) pelos benefícios do terreiro, ventilação e transportes.

Nesta colônia, composta em sua quase totalidade de “Madeirenses”o sistema seguido é o da parceria e é estilo dar-se a cada família de colono:

  • · uma casa tosca, apenas barreada, de 20 palmos sobre 40, coberta de telhas, junto à lavoura, e 6.000 pés de café novos;

  • · permissão para plantar os cereais, para sua alimentação, no meio dos cafesais (dos 6.000 pés);

  • · para um estreito cercado para ter os porcos do consumo (não passam de dois a três);

  • · para a criação de aves domésticas, não sendo permitido ter gado vacum ou de qualquer outra espécie;

  • · sendo feitos os transportes dos produtos dos colonos para as máquinas ou mercados consumidores nos veículos do proprietário.

Sistema de empreitada

Em S. Paulo, e sobretudo no oeste, é geralmente adotado o seguinte sistema, que denominaremos de empreitada.

A cada família de colono é distribuída uma partida de café, que lá chamam talhão com 10.000 pés.

Tratam dessa partida de café, dando 4 e 5 capinas anuais no mínimo, recebendo por cada 50 litros de café, que colhem e entregam na mesa do carro do proprietário 300 réis.

Além disto, tem casa para morar, com terrenos marcados na frente e nos fundos para hortas, jardins e estábulos; um pasto em comum para ter um animal muar e outro vacum, e terrenos para plantar os cereais que precisam para sua alimentação, e que lhes são designados previamente.

Empreitada mista

Também alguns usam ali o sistema – que denominaremos – empreitada mista, e é o seguinte: pagam ao colono 10$ por cada 1.000 pés de café que capinarem, e por cada 50 litros de café que colherem e entregarem pela mesma forma na mesa do casso 300 réis.

O mais é mesmo que no sistema de empreitada.

Salário

Na colônia “Nova Louzã” do Sr. Monte-Negro, também no oeste de S. Paulo, era usado antigamente sistema de salário.

Pagavam ali 1$ diários aos trabalhadores que eram apontados como geralmente se faz com

homens livres, e trabalhavam em turmas, tendo a alimentação.

Era a única colônia que seguia este sistema, que, hoje não podemos afirmar se sofreu modificações.

Colonos a introduzir

Atualmente só podemos apelar para os da ilha da Madeira ou Italianos, que, pelas condições especiais em que se acham em seus países, desejam emigrar; e, como que há mesmo uma corrente emigratória.

Para os da ilha da Madeira, devemos adotar o sistema da “parceria”, do qual eles não querem afastar-se; e deverá nos servir de tipo – a colônia de Santa Clara – do Sr. Antonio Van Erven.

Para os italianos (devemos exclusivamente preferir os do norte – lombardos em primeiro lugar) os sistemas por eles preferidos, e que devemos adotar, como se faz em S. Paulo, são os da empreitada e empreitada mista.

As casas dever ser construídas, como lá, juntas, ou com pouco espaço, formando viletas.

Na empreitada mista nós não podemos pagar pelas capinas de 1.000 pés de cafés – 10$000 – como em S. Paulo, onde o cafezal é alinhado 6, 20, 22 palmos quadrados quando o nosso aqui o é a 10, 12 e 14 no máximo.

Nos parece que deve regular – metade – ou 5$000 por 1.000 pés.

Colonos nacionais

Não devemos perder de vista que é preciso utilizar os braços nacionais; e, que, portanto devemos fazer aos nossos patrícios o que fazemos aos estrangeiros.

EMPREITADAS PARA PLANTAÇÕES DE CAFÉ

Sistema seguido na colônia Santa Clara

Dá-se o mato para derrubar, plantar de café, desfrutar por 5 anos, pagando-se depois 100 rs. por cada pé de café.

Sistema seguido em S. Paulo

O empreiteiro derruba, planta e cuida do arbusto do café, até completar quatro anos; e então recebe entre 400 e 500 rs. por cada pé de café.

Sistema que deve ser seguido

Nos parece que devemos adotar o sistema seguido na colônia Santa Clara, que está mais em relação com os nossos terrenos.

Cultura de cana

Não parece fora de propósito, desde que temos essa cultura na freguesia e Engenhos Centrais, e quea estrada de ferro Leopoldina, por módicos preços, se presta aos transportes de cana, de qualquer ponto de sua linha, estabelecer algumas bases para os colonos que quiserem empregar-se nessa lavoura.

Sistema seguido na colônia Santa Clara

Meação completa em açúcar e aguardente. Fabrico pelo colono. Transportes de cana pelo proprietário.

Sistema seguido no Engenho Central Pureza

Esse engenho, que possui muitas terras, dá-las ao colono – em matas – ou não para plantar cana, e, para 4$ por cada tonelada de cana que recebe nos vagões de sua linha férrea.

E, como para o plantador de cana em terras do engenho, o preço da cana – é de 6$ por tonelada, segue-se que o colono tem dois terços do preço da cana por tonelada.

É permitido ao colono plantar cereais para seu consumo – no meio dos canaviais – ou fora, em terrenos designados previamente, sem ônus algum.

Quanto às casas – o engenho ajuda a fazê-las, dando a madeira e telhas; mas, não indeniza ao colono cousa alguma quando ele se retira, ficando a casa sua propriedade.

Também há ali indivíduos que tomam maior espaço de terreno, e plantam a cana com trabalhadores assalariados a 20$ e 25$ mensais, alimentado-os.

Conclusão

A comissão permanente julgou de seu dever fazer a presente convocação e exposição, e espera que tomeis a resolução que mais convier aos vossos interesses.

Mas, vos dirá.

Urge, e urge quanto antes, tratar da imigração nesta freguesia.

Angustura, 28 de Dezembro de 1887.

Barão de S. Geraldo, presidente

Militão José de Souza Amêno, vice-presidente

Francisco Martins Ferreira, secretário

Bernardo Manso Monteiro da Costa Reis, tesoureiro

Custódio Pereira da Costa

Casimiro Vilela de Andrade.

Posta em discussão a exposição: pelo Sr. coronel Joaquim Martins Ferreira foi dito, que concordava com as idéias expostas pela comissão permanente e que, quanto aos sistemas de parceria, empreitada – e empreitada mista para a cultura de café – que mais nos interessava devem ser adotados – com a seguinte modificação.

No sistema de empreitada em vez de 500 rs. por cada 50 litros de café, 600 rs. e na empreitada mista em vez de 10$ por 1.000 pés – como em S. Paulo, ou 5$ como propunha a comissão – se dê ao colono 8$ por 1.000 pés – e, que em quaisquer dos três sistemas a que estivesse sujeito o colono – ele deveria dar três capinas anuais nos cafesais – que eram muito suficientes – e replantar os cafesais.

Diz mais que acha bons os tipos das casas – propostos pela comissão, e constantes da planta, – e que se dê ao colono – só cafesais novos – como se propõe (6.000 pés a cada família).

Quanto às casas já mandou fazer algumas casas para seis famílias de Italianos Lombardos que mandou vir: mas elas têm 35 palmos sobre 25 sem divisão alguma, pouco diferindo, ou no fundo nada diferindo do tipo adotado pela comissão.

Em seguida o Sr. Barão de S. Geraldo diz que devem ser adotadas as modificações propostas pelo Sr. Martins Ferreira e por isso propunha que se adotassem para a cultura do café, nos três sistemas: parceria, empreitada e empreitada mista, com as modificações propostas pelo mesmo senhor, ficando entendido que em quaisquer dos sistemas só se daria ao colono cafesais novos (6.000 pés, no mínimo, a cada família) e as casas, do tipo, e planta apresentados pela comissão, e mais que cada lavrador ficava obrigado a fornecer ao colono, por meio de uma caderneta, o que lhe fosse preciso para sua manutenção, e de sua família, para ser pago no ano seguinte ao de sua instalação.

O que foi aprovado unânimente.

Foi dito mais pelo Sr. Barão de S. Geraldo, que, quanto ao sistema dos salários, a comissão limitou-se a expor o que era usado em S. Paulo; mas, em um sistema que pode variar tanto, não quis logo propor cois aalguma de definitivo.

Sabe que nesta freguesia o agricultor Pacheco tem trabalhadores portugueses em sua situação para a cultura de café, a 20$ e 25$ mensais, sujeitando-os ao regime de trabalho geralmente usado em nossas fazendas com os trabalhadores servis, dando alimentação.

Na visinha freguesia de Pirapetinga, o Dr. Júlio Barbosa em sua fazenda e, também, para a cultura de café, tem uma turma de trabalhadores italianos a 1$ diários, a qual dá alimentação.

Foi resolvido mais que se consignasse nesta ata – que os colonos que se encaminhassem para esta freguesia não deviam contar com pastos para criação de gado de qualquer espécie – visto como os há em muito pequena escala – e só para os misteres das lavouras.

Foi aprovada a tabela dos salários dos libertos.

Nada mais havendo a tratar-se, pelo Sr. Barão de S. Geraldo foram convidados os lavradores a assinar os pedidos das famílias de colonos que precisassem para as suas lavouras – e, assim mais os requerimentos ao governo; -e que devíamos ter em vista pedir as famílias – as quais pudéssemos dar as casas correspondentes (conforme a planta) em suas chegadas à freguesia, que devia regular de três a quatro meses.

O Sr. Eugênnio P. Sigaud, oficiou não poder comparecer por doente, e declarou precisar de seis famílias.

Foram logo assinados pedidos para 78 famílias, sendo 1 alemã, 5 da Ilha de S. Miguel e 72 da Ilha da Madeira.

E, como muitos lavradores não compareceram, ficou a lista dos pedidos na freguesia para as respectivas assinaturas.

E como nada mais havia a tratar, levantou-se a sessão às 4 horas da tarde. Eu Francisco Martins Ferreira, secretário, lavrei esta ata, que assino com os membros da comissão permanente.

Barão de S. Geraldo – Militão José de Souza Ameno – Francisco Martins Ferreira – Bernardo Manso Monteiro da Costa Reis – Casimiro Vilela de Andrade – Custódio Pereira da Costa.

Os Cafelistas de Leopoldina

De forma geral é costume dizer que a ocupação do solo de Leopoldina se deu pelos plantadores de café. Discordo bastante desta posição.

Segundo o Registro de Terras de 1856, dos 95 proprietários apenas um, Bernardo José Gonçalves Montes, declarou dedicar-se ao plantio de café. Outros 58 declaram atividade como lavoura em geral e 12 plantavam especialmente milho. Os demais 27 não declararam a quais atividades se dedicavam. Dentre estes já identificamos 13 proprietários de pequenas chácaras, localizadas na área urbana. É possível que alguns dos demais 14 fossem também chacareiros, mas pode ser que entre eles houvesse quem se dedicasse ao plantio do café, embora em propriedades de extensão diminuta.

Nos livros de arrecadação fiscal do período subseqüente, o café começa a ser mencionado ainda de forma esporádica. Segundo o Almanaque Administrativo de Minas Gerais para o ano de 1864, 60 fazendeiros de Angustura dedicavam-se ao cultivo do café. Infelizmente não houve remessa do mapa relativo à cidade de Leopoldina como um todo e, por conta disso, não sabemos quantos fazendeiros haviam se tornado agricultores.

É no período seguinte, 1865 a 1874, que o cultivo de café desponta como a principal atividade agrícola na região de Leopoldina. De acordo com os livros de arrecadação fiscal encontrados, comparados com o publicado no almanaque Administrativo de Minas Gerais para o ano de 1875, eram os seguintes os plantadores de café em Leopoldina e Piacatuba:

  • Américo Antonio de Castro Lacerda
  • Anselmo Alves Ferreira
  • Antonio Augusto de Almeida
  • Antonio Bernardino Machado
  • Antonio de Almeida Ramos
  • Antonio de Deus Barros
  • Antonio de Souza Almada
  • Antonio de Souza Almada Júnior
  • Antonio Ferreira Neto
  • Antonio Francisco Barbosa Neto
  • Antonio Joaquim Teixeira
  • Antonio José de Almeida Ramos
  • Antonio Lopes Ferreira
  • Antonio Mauricio Barbosa
  • Antonio Pereira da Silva
  • Antonio Pereira de Medeiros
  • Antonio Pereira Valverde
  • Antonio Prudente de Almeida
  • Antonio Rodrigues Gomes
  • Antonio Rodrigues Montes
  • Antonio Romualdo de Oliveira
  • Belisário Alves Ferreira
  • Bernardo Rodrigues Gomes
  • Bernardo Rodrigues Montes
  • Camilo Alves Ferreira
  • Carlos Augusto de Aquino Cabral
  • Carlos de Assis Pereira
  • Cassiano José do Carmo
  • Claudino Vieira da Silva
  • Cláudio José de Miranda
  • David Alves Ferreira
  • Domingos Ferreira Neto
  • Domingos Henriques de Gusmão
  • Domingos José da Silva
  • Domingos Marques de Oliveira
  • Evencio Fabricio da Fonseca
  • Ezaú Antonio Corrêa de Lacerda
  • Francisco Alves de Lacerda
  • Francisco Antonio de Brito
  • Francisco Antonio de Brito Júnior
  • Francisco Bernardino Machado
  • Francisco da Costa e Souza
  • Francisco de Paula Machado
  • Francisco de Paula Monteiro da Silva
  • Francisco Dias Ferraz
  • Francisco Esmério de Paiva Campos
  • Francisco Ferreira Brito
  • Francisco Gonçalves Neto
  • Francisco Henriques Pereira
  • Francisco Joaquim de Almeida e Gama
  • Francisco José Barbosa de Miranda
  • Francisco José de Freitas Lima
  • Francisco Mendes do Vale
  • Francisco Rodrigues de Almeida
  • Francisco Soares Valente Vieira
  • Jerônimo José de Mesquita
  • João Antonio da Costa Coimbra
  • João Antonio da Silva
  • João Antonio de Araújo Porto
  • João Basilio de Almeida
  • João Batista da Silva
  • João Batista de Almeida
  • João Batista Martins Guerra
  • João Damasceno Ferreira Brito
  • João Dutra Nicácio
  • João Evangelista Coimbra
  • João Francisco Coelho
  • João Gonçalves Nto
  • João Gualberto Ferreira Brito
  • João Pereira Valverde
  • João Rodrigues Ferreira Brito
  • João Vidal Leite Ribeiro
  • João Vieira da Silva
  • Joaquim Antonio de Almeida Gama
  • Joaquim Antonio de Almeida Ramos
  • Joaquim da Silva Tavares
  • Joaquim de Souza Werneck
  • Joaquim Francisco de Assis
  • Joaquim Honório de Campos
  • Joaquim Inacio de Oliveira
  • Joaquim José da Costa Cruz
  • Joaquim Machado Neto
  • Joaquim Pinheiro de Faria
  • José Alves Ferreira
  • José Antonio de Moraes
  • José Bernardino Machado
  • José Dias Moreira
  • José Evangelista do Carmo
  • José Fajardo de Melo
  • José Francisco de Paiva Campos
  • José Furtado de Mendonça
  • José Henriques da Mata
  • José Joaquim Pereira
  • José Maria da Penha
  • José Maria Gonçalves Coelho
  • José Martins Pacheco
  • José Ovídio Gomes de Aguiar
  • José Teixeira Lopes Guimarães
  • José Tomaz de Aquino Cabral
  • José Tomaz Dutra
  • Josué de Vargas Corrêa
  • Justino Marques de Oliveira
  • Justino Marques de Oliveira
  • Leopoldo de Vargas Corrêa
  • Manoel Antonio de Almeida
  • Manoel Benedito de Freitas
  • Manoel da Silva Miranda
  • Manoel Dias Ferraz
  • Manoel Ferreira Ribeiro
  • Manoel Francisco Coelho
  • Manoel Jacinto de Oliveira
  • Manoel Joaquim Pereira
  • Manoel José de Novaes
  • Manoel José Ferraz
  • Manoel José Monteiro da Silva
  • Manoel Rodrigues da Silva
  • Manoel Rodrigues do Nascimento
  • Maria do Carmo Monteiro da Silva
  • Maria Luiza de Miranda
  • Mariana de Jesus
  • Maxima Ferreira Braga
  • Miguel de Faria Coutinho
  • Narciso Marques Braz
  • Nicolau Alves Ferreira
  • Pedro Antonio Furtado de Mendonça
  • Pedro Baldoíno da Silva
  • Pedro Moreira de Souza
  • Processo José Corrêa de Lacerda
  • Rafael Teixeira de Souza
  • Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda
  • Silvano José da Cruz Nogueira
  • Venâncio José de Almeida Costa
  • Vicente Ferreira Monteiro de Barros
  • Vicente Rodrigues Gama
  • Vital Inacio de Moraes
  • Vital Rodrigues de Oliveira
  • Wenceslau Rodrigues Martins Pacheco

De Minas para o Espírito Santo

Desde nosso primeiro contato, em dezembro de 2001, um tema é freqüente nas conversas que tenho mantido com Zélia Cassa: o motivo que trouxe os Alves Araújo, Ribeiro Soares e demais parentes para os sertões do rio Pardo.

Sempre concluímos que serão necessários mais alguns anos de pesquisa para encontrarmos a resposta. Por essa razão, a Zélia pediu-me para abordar a proto-história da região, pois os motivos de seus parentes podem ter sido os mesmos que levaram outros homens livres a habitar aquela região.

Falar dos primórdios implica, necessariamente, voltar ao século anterior ao do início do seu povoamento. De modo geral, os leitores menos avisados remetem a história de toda a Minas Gerais para o século do ouro, esquecendo-se que o metal deixou de apresentar-se, em grande escala, poucos anos depois de iniciada a “corrida do ouro”. Uma autora que bem sintetizou a realidade mineira do século XVIII foi a Professora Laura de Mello e Souza, em “Opulência e Miséria das Minas Gerais”, 1981, pela Editora Brasiliense. Diz a autora, nas páginas 47 e 48:

“As Minas do século XVIII foram uma capitania pobre. Constituíram exceção alguns senhores opulentos de lavras…

…a maioria das grandes fortunas devia sua opulência mais ao comércio do que à atividade mineradora.

[…] O comércio de muares e cavalares, que articulava os núcleos mineradores com os campos distantes do sul da Colônia…também deu origem a fortunas consideráveis, o tropeiro tornando-se, assim, um elemento de destaque no cenário social e econômico das Minas. Não era, pois, o dono da botica ou do pequeno armazém que conseguia uma vida farta e desprovida de preocupações em torno da sobrevivência, mas os grandes atravessadores de gêneros, ou, como são mais comumente chamados em nossos dias, os intermediários”.

A origem do topônimo Feijão Cru é creditada a tropeiros que estariam às margens de um córrego, sem, contudo, se fixarem datas ou mais algum detalhe que permitisse apurar melhor o fato. Pela análise de dados posteriores, acreditamos que tais tropeiros, eternizados pela lenda, estariam classificados em uma categoria um tanto distinta daqueles abonados intermediários de gêneros. É ainda a Professora Laura de Mello e Souza que nos apresenta uma descrição que muito se aproxima do que temos apurado em nossas pesquisas. Diz ela na página 54, da obra citada:

“…quando muito pouco restava do ouro aluvional…entrou em cena a pequena empresa, a faiscagem que se arrastou por mais de um século, a figura do mineiro pobre sendo parte integrante da paisagem de Minas”.

Este morador das Minas constituiu, em grande parte, o efetivo das tropas que desbravaram as então “áreas proibidas”. Quando o Governador Luiz da Cunha Menezes – “o fanfarrão minésio” das “Cartas Chilenas” – expediu os bandos exploratórios para os Sertões do Leste, abriu oportunidade de trabalho para muitos homens nas tropas que acompanharam Pedro Afonso Galvão de São Martinho em suas duas investidas por aquela área, até então de acesso proibido.

Por ocasião da segunda diligência, São Martinho escreve carta ao Governador, em que fica claro ter havido um plano de ocupação daqueles sertões. É Celso Fallabela quem nos traz o conteúdo parcial da carta, em “Os Sertões do Leste – Achegas para a história da Zona da Mata”, página 28, da segunda edição particular do autor, 2001:

“…no primeiro ano de ocupação apenas quarenta pessoas haveriam de acomodar-se nas novas terras, afora duzentos escravos. As terras seriam divididas entre aqueles que quisessem explorá-las”.

Acrescente-se, ainda, que no decorrer da ocupação e com vistas a melhor proteção contra invasores, o Governo mineiro instituiu ainda um incentivo para os moradores do Centro de Minas, que se fixassem nos extremos de seu território: seriam dispensados de tributação por um período de até 10 anos.

Este conjunto de fatores foi o móvel para as inúmeras Cartas de Sesmarias, expedidas nos últimos anos do século XVIII e primeiros dos oitocentos. Temos tido oportunidade de analisar a trajetória de alguns daqueles beneficiados, concluindo que, não raras vezes, o sesmeiro jamais ocupou as terras recebidas. Pelo contrário, muitos dividiram suas posses e as revenderam para outros moradores, seus vizinhos, até então radicados nas Comarcas de Rio das Mortes e de Vila Rica.

A queda do poder econômico nas Minas, que já havia se acentuado desde meados do século anterior, levou a população a viver de forma quase inconcebível. Em “Os Sertões do Leste – Áreas Proibidas”, obra de Paulo Mercadante pela Zahar Editores, de 1973, encontramos, na página 24, um depoimento relativo ao estado de uma granja que fora de média importância, revisitada nos primeiros vinte anos do século XIX:

“A casa era uma barraca miserável, com muros de taipa de barro, sem vidraça, roída pelo tempo e mal defendida contra as chuvas. O chão era a terra úmida e negra, sem ladrilhos nem sobrado, saturada de imundícies e endurecida pelo perpassar dos moradores, homens e cevados, que viviam numa promiscuidade repugnante. Por camas, enxergas duras para os amos, um couro ou uma esteira sobre o chão para os servos. A ninhada das crianças alegrava-se seminua, esfarrapada e descalça, as mulheres enfezadas e pobremente vestidas, e o chefe da casa, indolentemente embrulhado na capa, com os socos nos pés, vigiava o trabalho dos negros, lavando o cascalhinho com a sempre mantida esperança da descoberta de um depósito abundante de ouro”.

Algumas pessoas poderão surpreender-se com tal descrição, por terem se acostumado a ler/ouvir apenas a versão dourada ou cor-de-rosa da história de Minas Gerais. Em nossas pesquisas, de há muito concluímos que a vida na Província era extremamente difícil, facilitando para aquelas famílias a decisão de enfrentar a mata com todos os seus perigos. Aparentemente qualquer coisa seria melhor do que deixar-se levar pela degeneração que atingia fazendas e fazendeiros, faiscadores ou comerciantes. Jovens solteiros empregavam-se, com alguma freqüência, em tropas que demandavam o interior das Gerais, no comércio de gêneros de subsistência. Chefes de família também o faziam, muitas vezes, por verem na tropa o único trabalho que garantiria o sustento de sua prole miúda. E quando um parente distante os vinha visitar, propagando maravilhas das terras que estavam à venda nas “áreas proibidas”, muitos fazendeiros incorporavam-se em alguma tropa que fosse trilhar aquelas paragens. Durante alguns meses vasculhavam o território, analisavam as condições e realizavam a compra. Voltavam, então, ao seu lugar de origem, vendiam os bens impossíveis de serem transportados e empreendiam nova jornada acompanhados da família, escravaria e alguns pertences. Tivemos oportunidade de ler um relato sobre umas dessas jornadas que, infelizmente, não trazia indicação que nos permitisse saber quem foi seu autor e para qual região da mata levou a família. A exemplo de muitos outros registrados em livros de história, aquele grupo se deslocava durante 6 horas por dia, em média, quando então procurava local adequado para “assentar pouso”. Inexistindo algum povoado nas proximidades, os homens montavam frágeis barracas que lhes serviriam de abrigo, por uma noite apenas, e as mulheres cuidavam da alimentação de todos. Dia seguinte recomeçavam a jornada, sempre um pouco antes do nascer do Sol. Algumas vezes desviavam-se do roteiro que nos pareceria mais curto, para encontrarem abrigo em casa de algum parente que tivesse migrado anteriormente. Temos visto casos em que, nestas paradas, acertaram casamento de algum filho com alguém da casa que os hospedava.

Parece-nos que foi essa a trajetória de um dos povoadores de Leopoldina. Até onde nos foi possível apurar, em 1826 ou 27 o “Comendador” Manoel Antônio de Almeida acompanhou uma tropa através da hoje conhecida Zona da Mata Mineira. E, nas margens do Feijão Cru, adquiriu as terras onde formou a Fazenda do Feijão Cru Pequeno.

Em setembro de 1828 Manoel Antônio de Almeida levou a família para a nova morada. Parece-nos que, em viagem, teria passado pelo atual município de Astolfo Dutra onde ficou um de seus filhos. Também consta sua assinatura, como testemunha, na Escritura de doação do patrimônio de Santa Rita do Meia Pataca, em maio de 1828, significando, pois, que ele ali estivera no período em que acompanhou a tropa ou que estava organizando a moradia para ir buscar a família. O fato é que, conforme registram alguns historiadores antigos, a vinda dos Almeidas, dos Britos e dos Netos para o Feijão Cru desencadeou uma grande movimentação de parentes, até então radicados na Serra da Ibitipoca. Entre o momento da aquisição das terras e o Primeiro Registro de Terras Públicas – 1856, inúmeras foram as divisões de propriedades realizadas por aqueles primeiros moradores.

O primeiro documento a se referir aos habitantes do Feijão Cru é o Mapa de Habitantes de 1831. Nessa época os Alves de Araújo e os Ribeiro Soares ainda não são identificados por ali. Acreditamos mesmo que os patriarcas destes ramos ainda residiam com suas famílias na região de Ibitipoca, conforme demonstramos para a Zélia, através do Mapa de Habitantes da então Capela da Senhora das Dores do Quilombo, Termo da Vila de Barbacena. Da mesma forma não os pudemos encontrar nos Mapas de Habitantes de 1838 e de 1843, que se referem ao atual território dos municípios de Além Paraíba, Argirita, Cataguases, Guarará, Leopoldina, Mar de Espanha e Santo Antônio do Aventureiro, bem como uma parte de São João Nepomuceno. Ainda estamos analisando as famílias que residiam no distrito da Santíssima Trindade do Descoberto, em 1839, pendente ainda de confirmação de alguns sobrenomes.

Para a década de 50 dos oitocentos, quando a oralidade familiar informa que já viviam no território do Feijão Cru, estamos comparando os Registros de Terras da Zona da Mata com os da Serra da Ibitipoca, sem ter ainda encontrado alguns deles. Apesar dos livros paroquiais de grande parte da região já terem sido por nós pesquisados, pretendemos fazer uma nova consulta aos que se encontram na Igreja Matriz de Mar de Espanha. Sem determinar o período em que migraram para a região, seria irresponsabilidade nossa manifestar opinião sobre o motivo que os trouxe. Em nossos estudos, temos por hábito analisar a história antiga de Leopoldina dividindo-a em três etapas. Do início do povoamento a 1850, temos a chegada do homem livre e a organização social baseada na empresa familiar, com desmatamento e agricultura diversificada para subsistência. A partir daí e até 1880, observamos o crescimento acelerado da mão-de-obra escrava, na maioria dos casos, em fazendas dedicadas ao plantio do café. No período seguinte, limitando-se à virada para o século XX, a monocultura do café vai sendo paulatinamente substituída por outras atividades produtivas, no mais das vezes, em função do melhor conhecimento demonstrado pelo imigrante no trato com a terra, já que aqueles últimos anos do século XIX veriam aumentar enormemente a população de origem européia na região.

Dessa forma, acreditamos que os ancestrais de nossa amiga Zélia tenham migrado para o Rio Pardo no segundo período, aquele em que a economia do lugar estava em franco crescimento. Não tendo encontrado ali o pouso ideal, continuaram a marcha em busca de lugar mais adequado, encontrando, no sul do Espírito Santo, a conjugação de fatores que os atraiu e os fixou.

Zélia está preparando um livro contando a saga de sua família. Estamos colaborando com dados históricos e genealógicos sobre os que viveram em nosso território. São dois grupos interligados que viveram no Rio Pardo:

1 – João Alves de Araújo casado com Inácia Cândida de Jesus, pais de:

Joaquim Marques de Araújo

Cândido Alves de Araújo

João Alves de Araújo Júnior

João Batista Alves de Araújo nascido por volta de 1852 em Argirita, MG

2 – Antonia Maria de Jesus viúva de José Ribeiro Soares, filhos:

José Ribeiro Soares, filho

Manoel Ribeiro Soares

Vicente Ribeiro Soares

Procuração de um casal de italianos

Documento extraído do Livro do Cartório de Notas de Pirapetinga, MG, relativo ao período 12.1879 a 07.1880, folhas 29 verso e 30.

Procuração de Giuseppe Vincenzo Mercadante e sua mulher, Marina Dause, para que Miguel Delvick os represente na Italia, autorizando o casamento de seu filho Antonio Mercadante.

Procuração de um casal italiano em Pirapetinga

Transcrição:

Procuração bastante que fazem José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause como abaixo se declara. Saibão quantos este publico instrumento de Procuração bastante virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e oitenta aos dose dias do mes de Março do dito anno, nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga, termo de Leopoldina Provincia de Minas em meu cartorio perante mim escrivão de Paz deste Freguesia comparecerão como Outhorgantes José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause moradores deste Freguesia e reconhecidos de mim Escrivão e das duas testemunhas ao diante assignadas ao que dou fé; perante ao quaes por elles me foi dito que nomeavão seu bastante Procurador na Italia a Mighel Detrick para por elles Outhorgantes passar e assignar conseção e licença que elles Outhorgantes consedem para seu filho Antonio Mercadante casar-se com Dona Rosa Demark filha de Vicente Dimak e Francisca Ragaon por ser muito de suas vontades para que lhe consede os poderes que forem precisos. Assim o disserão ao que dou fé; e me pedirão este instrumento que lhe li aceitarão e por elles Outhorgantes não saberem escrever pedirão a Antonio Botelho de Lima que a seus rogos asssignasse com as testemunhas presentes e abaixo assignadas, deste Freguesia e reconhecidas de mim José Victor Ramos, escrivão que a escrevi e assigno em publico e raso. Em ttº de verd. José Victor Ramos Antonio Botelho de Lima Testª Serafim Alves da Costa Francisco Jose Pires

Acrescente-se que o novo casal posteriormente passou ao Brasil, residindo no distrito de Itapiruçu, por volta de 1887, conforme se vê no livro de Notas do Cartório daquele distrito relativo ao ano de 1886, folhas 7 e verso, quando passam procuração para serem representados em batismo a ser realizado em São Paulo.

Além disso, conforme o Alistamento Eleitoral de Leopoldina de 1892, o casal continuava residindo no município. Por este documento apuramos que o nome completo do pai de Antonio Mercadante era Giuseppe Vicenzo Mercadante.

FONTE: Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina

  Carta de Liberdade

Passada no Cartório de Notas de Pirapetinga por Vicente Ferreira da Silva a 21.05.1872, concedendo liberdade ao filho de sua escrava Silvana, na época com 8 meses e 4 dias.

6º livro de Notas do Cartório de Paz de Pirapetinga, códice 30 do Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 38.

Carta de Liberdade

Saibão quantos este publico instrumento virem, que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e setenta e dous, aos vinte e hum dias de Maio do dito nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga Termo da Leopoldina Comarca do Rio Novo e Provincia de Minas, em meo Cartorio compareceo perante mim escrivão, O cidadão Vicente Ferreira da Silva morador nesta Freguesia do meo conhecimento e das testemunhas abaixo assignados perante as quaes por elle foi dito que é Senhor, e possuidor de hum escravinho de nome Pedro, de idade de oito meses e quatro dias, filho de sua escrava Silvana, ao qual concede plena liberdade como se nassesse de ventre livre, isto de muito sua livre e espontanea vontade, e de como assim o disse me pedio este instrumento em meo livro de nottas para a todo o tempo constarem o qual assigna com as testemunhas, com migo Manoel Jose de Magalhaens, escrivão que escrevi e assigno em publico e razo.

Acidentes Geográficos e Antigas Fazendas de Argirita

Localizar as antigas propriedades de uma região é tarefa um tanto espinhosa. A documentação existente abrange um vasto território e poucas são as referências que nos permitem identificar os acidentes geográficos que serviram de limites para as antigas fazendas.

Exemplo disso foi a pesquisa que realizamos a partir das declarações dos proprietários em 1856 do Distrito de Bom Jesus do Rio Pardo. Utilizando e comparando-as com a cartografia disponível, acrescentando referências de livros cartoriais e Leis de criação de distritos, chega-se ao seguinte esquema.

RIO PARDO – É o mais importante do município de Argirita e seu nome é mencionado desde a primeira metade do século dezenove. Embora alguns de seus tributários tenham sido considerados, em épocas distintas, como tendo o mesmo nome, utilizamos para este trabalho o percurso que serviu de referência na criação do Curato em 1839. Ou seja, nasce ao sul do município e o atravessa no sentido sul/norte indo desaguar no rio Pomba depois de passar pelo distrito de Piacatuba. Pela esquerda eram conhecidos o córrego Tijucal, o ribeirão São Bento do sul, o córrego da Prata, o antigo córrego Boa Vista hoje chamado Azul, o córrego Lustosa e outros já no distrito de Piacatuba. À direita eram mencionados o córrego Santa Maria, e o Monte Redondo cuja foz marca a atual divisa com Piacatuba e Tebas.

Muitos foram os desbravadores dos sertões do rio Pardo que formaram fazendas às suas margens. Alguns serão citados pelo nome da fazenda. Os demais, dos quais não conseguimos descobrir nomes de propriedades, foram os seguintes: Antonio de Souza Lima, Antonio Lopes de Oliveira, Antonio Luiz de Souza Rosa, Damazo Franco de Azevedo, Domingos Ferreira de Souza, Domingos Marcelino da Silva, Eduardo de Souza Lima, Feliciano José Barbosa, Felisberto de Souza Monteiro, Florentino José Martins, Francisco André de Vasconcelos, Francisco José de Brito, Francisco José Furtado, Francisco José Gonçalves da Veiga, Francisco José Teixeira, Francisco Nunes de Moraes, Jeronimo José Nogueira, João Eduardo Rodrigues Vale, João Lopes de Arruda, Joaquim Antonio dos Santos, Joaquim Fortunato Lemos, Joaquim José de Oliveira, José Alves do Vale, José Custódio de Souza, José Fernandes de Souza, José Lopes de Oliveira, José Mariano de Siqueira, José Mendes Ferreira, Luiz Antonio de Souza, Manoel Gomes Pinto Braga, Manoel José Gonçalves, Manoel José Teixeira, Manoel José Teixeira Júnior, Manoel Ribeiro Soares, Margarida Francisca de Souza, Miguel da Costa Ferreira, Pedro Alves do Vale, Pedro da Silva Cintra, Rita Ferreira Leite, Rita Guilhermina do Vale, Rita Guilhermina do Vale, Romualdo Pereira Santiago, Rosa Maria, Serafim Rodrigues Ferreira, Severino José Medina, Tereza Clara de Jesus, Vicente Joaquim de Paula.

Sabemos que alguns destes nomes são de moradores dos atuais distritos de Tebas e Piacatuba e foram aqui relacionados por estarem subordinados ao Distrito de Bom Jesus do Rio Pardo até 1856.

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Área central do território de Argirita

 

RIBEIRÃO SÃO BENTO – Encontramos três cursos d’água de mesmo nome. O primeiro localizado à leste da área urbana de Argirita, dentro de seu território permanece pois que deságua no Monte Redondo. O segundo nasce próximo ao primeiro, na divisa entre Argirita e Tebas, estando integralmente em território daquele distrito. Entre as fazendas encontradas à margem deste segundo ribeirão de São Bento destacam-se a Santiago e a Concórdia, ambas já existentes em 1856. O terceiro ribeirão São Bento nasce na divisa entre Argirita e Maripá e toma o rumo norte para desaguar no Rio Pardo bem próximo da área urbana de Argirita. Para este trabalho é identificado com São Bento do Sul.

RIBEIRÃO SÃO JOÃO – Na Carta de 1981 recebe este nome o ribeirão que nasce na divisa entre o atual Município de Maripá e o distrito de Taruaçu e segue paralelo à Serra da Prata, continuando depois rumo ao norte, passando pelo território de Ituí, atravessando Piacatuba, agora em direção oeste, para deságuar no rio Novo. Na Carta de 1977 este mesmo ribeirão só recebe o nome de São João ao entrar em território de Piacatuba, tendo antes o nome de Jatobá. A Lei 947 de 08.06.1858, que trata da criação do Distrito de Taruaçu, informa que é o Ribeirão São João o marco divisório entre aquele distrito e o de Bom Jesus do Rio Pardo, ficando para o antigo Dores do Monte Alegre todas as suas vertentes.

Nas cabeceiras deste ribeirão Ana Maria de Jesus, viúva de Manoel Alves do Vale e cunhada de Domingos Alves do Vale, conservava para si e seus filhos uma pequena propriedade que em 1863 estava dentro dos limites do Distrito de Dores. Outros antigos proprietários foram Antonio Nunes de Moraes, Antonio Pinto de Faria, Francisco Alves Moreira, Francisco Gomes da Silva, Francisco José Teixeira, Francisco Manoel Pereira, Joana Maria de Jesus, João Rodrigues de Souza, João Soares de Almeida, Joaquim Francisco da Silva, Joaquim Gomes Curcino, Joaquim Gomes da Silva, José Gomes da Silva, José Joaquim Barbosa, José Manoel Pereira, José Nunes de Moraes, José Vieira da Silva, Manoel Gonçalves de Castro, Manoel Ribeiro dos Santos. A maioria incluída entre os moradores do Distrito de Dores do Monte Alegre na época de sua criação.

RIBEIRÃO TAMBOR – Na Carta de 1981 aparece como Córrego deste nome apenas entre a nascente na divisa de Maripá com Taruaçu, seguindo rumo norte e passando dentro da área urbana de Taruaçu, daí em diante recebendo o nome de Córrego Grande com o qual permanece até deságuar no rio Novo, após atravessar o povoado de Ituí. Na Carta de 1977 tem o nome Tambor da nascente até a foz e marca a divisa oeste do distrito de Taruaçu. A Lei 947 de 08.06.1858 nomeia como ribeirão do Tombador este marco divisório de Taruaçu, informando que ao distrito pertencem todas as suas vertentes, da nascente no ribeirão Espírito Santo no lugar chamado Contendas até a foz no rio Novo.

Entre as fazendas nele localizadas, citamos como antiga a propriedade de nome Grota dos Nunes que pertenceu aos Nunes de Moraes. Em suas margens localizavam-se ainda as propriedades de Custódio Gomes da Silva, Florentino José Martins, Joaquim Pereira de Almeida, Luiz Antônio de Oliveira Lopes e Marcelino Nunes Ferreira. Outros prováveis fazendeiros das margens do Tambor foram Manoel Gregório do Nascimento e seu filho Marciano Gregório do Nascimento.

CÓRREGO DA PRATA – Paralelo à Serra de mesmo nome onde nasce, pertence integralmente ao território de Argirita, desaguando no Rio Pardo dentro da área urbana do município. Provavelmente existiu um outro córrego de mesmo nome e que cortava a sesmaria de Antônio José Gonçalves, localizada próximo à atual divisa entre Argirita, Maripá e Senador Côrtes.

CÓRREGO PEDRAS BRANCAS – Nasce na divisa entre Argirita, Taruaçu e Maripá, caminhando rumo sul para desaguar no Córrego das Contendas também pertencente ao município de Maripá. Ali foram proprietários Antônio Lourenço da Trindade e Manoel Inácio da Costa.

CÓRREGO TIJUCAL – Descrevendo curvas diversas ao sul de Argirita, pertence integralmente a este município e tem vertentes próximas ao ribeirão do Angu, na região de Senador Cortes e Santo Antônio do Aventureiro. Às suas margens foram proprietários: Floriano Lopes, Francisco Moreira da Silva, João Lopes dos Santos, Manoel Ignacio de Abreu, Manoel Lopes Laurindo, Antonio Lopes Monteiro,  Manoel Francisco Martins e Mateus Antônio de Lima.

CÓRREGO VARGEM GRANDE – Nasce na divisa entre Aventureiro e Argirita e toma o rumo noroeste para desaguar em ribeiros no Monte Redondo, dentro do território de Argirita.

MONTE REDONDO – Acidente geográfico citado pela primeira vez em documento de 1829, ainda conserva o nome. Aparece como referência para o registro das terras de José Lopes Soares e Luiz Antônio da Silveira em 1856. Nomeia também o córrego que recebe as águas do São Bento e do Vargem Grande, indo desaguar no rio Pardo já na divisa entre Piacatuba, Tebas e Argirita.


ANTIGAS FAZENDAS

BOA ESPERANÇA – Grande propriedade que estava dividida entre diversos fazendeiros em 1856, entre eles Antônio da Silva Cunha, João José Barbosa e José Domingos dos Santos, Localizava-se próximo à atual divisa de Ituí e Piacatuba.

BOA VISTA – Nome citado por Cândida Francelina, Francisco Teixeira Braga, José Alves do Vale, Manoel Rodrigues de Oliveira e Maria Francelina. Trata-se de sesmaria que pertenceu a Domingos Alves do Vale e estava bastante dividida em 1856, sendo território do atual distrito de Taruaçu.

BOM SUCESSO – Outra antiga sesmaria ao sul do antigo Curato de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre, dividida pelo menos entre José Alves de Souza, Manoel Furtado de Mendonça e Miguel de Souza Monteiro.

CABECEIRAS DO PREPETINGA – Duas pequenas propriedades com este nome, localizadas na nascente do rio Pirapetinga, pertenceiam a José Lourenço do Carmo e Maria Antônia de Jesus.

CABECEIRAS DO RIO PARDO – Nome escolhido por Francisco Nunes de Moraes e Tomaz de Aquino Corrêa, proprietários de 17 e 20 alqueires respectivamente, localizados à sudeste do arraial do Bom Jesus do Rio Pardo.

CABECEIRAS DO SÃO BENTO – Sítio às margens do Córrego São Bento, oriundo da sesmaria concedida a Felisberto da Silva Gonçalves em 1813, passou a seu parente Joaquim Gomes da Silva Flores por volta de 1840.

CACHOEIRA DO RIO PARDO – Este era o nome da propriedade de  200 alqueires que pertencia a Gonçalo de Souza Lima até 1857, vizinha ao Tijucal.

CAMPO ALEGRE – Joaquim Manoel de Coimbra declarou em 1856 possuir uma sesmaria com este nome, localizada a leste do povoado do Rio Pardo.

CHÁCARA RIO PARDO – Propriedade de um alqueire que pertenceu a Francisco Lopes Grugel, entre o arraial e a fazenda Salvação.

CHICANA – Nome da propriedade de Joaquim José Barbosa de Miranda em meados do século XIX. Seus vizinhos de leste tiveram suas propriedades transferidas do Rio Pardo para Tebas quando da criação deste distrito.

CONCÓRDIA – Fazenda ainda lembrada no distrito de Tebas, pertenceu a José Cesário de Toledo Lima e Francisco Leocádio de Toledo.

CÓRREGO DOS MACACOS – Propriedade de Joaquim Gomes da Silva, localizada em um pequeno curso d’água que formava a nascente do Córrego São Bento.

FORTALEZA – Nome dado à sesmaria do Alferes Cândido Antônio da Silveira, a leste do Monte Redondo.

FORTALEZA DE SANTANA – Grande propriedade de Firmino Antônio de Lima, sua localização gera controvérsias. Enquanto o registro de 1856 aponta para a região a leste do povoado, outros documentos indicam um córrego com este nome mais ou norte, paralelo ao Rio Pardo, próximo à atual divisa entre Piacatuba, Argirita e Tebas.

MONTE ALEGRE – Duas propriedades com este nome, de Ana Maria de Jesus e José Antonio Teixeira, localizavam-se em região próxima à estrada entre Argirita e Tebas.

MONTE CLARO – Nome da fazenda que Antônio Custódio Nogueira comprou de José Paradelas por volta de 1840, localizava-se próximo ao Monte Redondo.

PINHEIRO – Fazenda localizada dentro do atual distrito de Tebas, pertenceu a Manoel da Silva Ramos, Paulino da Silva Ramos e Valeriano da Silva Ramos.

POUSO ALTO – Propriedade de 70 alqueires que pertenceu a Antônio de Souza Lima, na divisa com as terras de seu pai Gonçalo de Souza Lima, na região do Tijucal.

RECREIO – Fazenda adquirida por José Joaquim Barbosa em 1847, para seu filho Antônio Maurício Barbosa. Pertence a Piacatuba.

RETIRO – Pertenceu a Ana Maria de Assunção e seus filhos Elias e Marciano Antunes Vieira, Felicidade Perpétua de Jesus e Custódia Angélica até a migração da família para o estado do Espírito Santo por volta de 1870. Localizava-se em território vizinho ao hoje distrito de Tebas.

SALVAÇÃO – Pertenceu a Emygdio José de Barros. Localiza-se a sudeste da área urbana de Argirita.

SANTA CLARA – Antônio Vicente Ferreira, Celestino Antônio Ferreira, Joaquim Antônio Dias e Maria Inácia de Oliveira foram proprietários de partes desta fazenda em meados dos oitocentos. Localizava-se nas proximidades do Monte Redondo.

SANTA ISABEL – Fazenda de Albino Silvino de Souza Melo, nas proximidades da divisa com o distrito de Dores do Monte Alegre.

SANTA MARIA – Antonia Maria de Jesus e Domingos Moreira de Souza eram alguns dos proprietários desta fazenda, que divisava ao sul com a Salvação e ao norte com a Fazenda São Bento, de Felisberto da Silva Gonçalves.

SANTA MÔNICA – Localizada na margem do ribeirão Tambor, pertenceu a José Furtado de Mendonça.

SANTA RITA – Propriedade de Rita Maria da Conceição em território hoje pertencente a Piacatuba.

SANTANA DO RIO PARDO – Pertenceu a Jacob Dornelas da Costa e estava localizada em território hoje pertencente a Taruaçu.

SANTO ANTONIO – Ana Maria de Assunção, Francisco Gonçalves Almeida, Jerônimo Gonçalves de Almeida, Joaquim Gonçalves de Almeida, José Gonçalves de Almeida e Manoel Lourenço da Trindade eram proprietários das partes em que foi dividida esta fazenda, nas proximidades do Monte Redondo.

SÃO BENTO – Foi provavelmente a primeira fazenda a ser formada em terras que vieram a constituir o Curato do Senhor Bom Jesus do Rio Pardo. Pertenceu a Felisberto da Silva Gonçalves entre 1813 e 1863, daí em diante passando ao filho Antônio Felisberto. Localizava-se entre o Monte Redondo e o ribeirão São Bento.

SÃO DOMINGOS – Fazenda de Joaquim Pereira Santiago, no atual distrito de Tebas.

SÃO FRANCISCO – Inácio Nunes de Moraes e João Lopes de Faria eram alguns de seus proprietários. Sua localização parece ter sido a mesma das terras que foram doadas aos Paradelas mais de vinte anos antes do território ser desmembrado do Curato do Espírito Santo.

SÃO FRANCISCO DE PAULA – O proprietário José de Souza Amaral declarou, em 1856, que sua fazenda tinha como vizinhos alguns proprietários da região do Tijucal.

SÃO JOAQUIM – Certamente em território hoje de Taruaçu, pertenceu a Antônio Bernardes de Carvalho e a seu enteado Felisberto Pereira Brandão, que além de ser filho de sua segunda esposa foi também casado com uma filha de Antônio Bernardes de nome Maria Antônia de Jesus.

SÃO LUIZ – Fazenda da região próxima a Piacatuba, pertenceu a Tristão Dias do Amaral e hoje é território de Taruaçu.

SAPÉ – Embora atualmente haja outra referência ao nome, trata-se da fazenda de Manoel Francisco de Souza, em território de Taruaçu, próximo da divisa com Piacatuba.

SÍTIO DA CACHOEIRA – Pequena propriedade localizada às margens do ribeirão São Bento, pertenceu a Manoel Pereira da Silva.

TRÊS BARRAS – Pertenceu a Joaquim Pereira Santiago Júnior e estava localizada no território do atual distrito de Ituí.

VARGEM GRANDE – Provavelmente José Antônio de Lima escolheu para sua propriedade o nome do córrego que por ela passava, a leste da área urbana de Argirita.

Para finalizar citamos os proprietários Joaquim Teixeira Meireles e José Policiano da Silva cujas fazendas pertenceram a Argirita até 1883, daí em diante passando ao distrito de Tebas.

Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba

Segundo Joaquim Ribeiro Costa, Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

No início de 2000 um visitante do site escreveu pedindo informações sobre Itapiruçu, especialmente sobre a família Vieira Pires. Informei que não tinha estudos sobre famílias da região, embora meu grande interesse pelo antigo distrito do Tapiruçu, terra onde viveram alguns de meus antepassados. Do sobrenome citado eu conhecia apenas um nome: Manoel José Vieira Pires, Solicitador em Palma, por volta de 1890. Não era o nome procurado pelo correspondente. Por conta disso trocamos diversas mensagens até que não mais recebi respostas. Daquele contacto ficou a vontade de conhecer a história do lugar.

Itapiruçu, Palma, MG

Segundo a memória familiar o casal Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez vivia no território do distrito de Itapiruçu desde o nascimento. Antonio Vicente nasceu a 13 de junho de 1862 e foi batizado no dia 21 de junho[iv] do mesmo ano. Ana José nasceu no dia 1º de agosto de 1858 e foi batizada no dia 19 de setembro[v] seguinte. Os pais de ambos procediam da região da Serra da Ibitipoca e migraram para a zona da mata por volta de 1830. Vejamos pois, alguns detalhes sobre estas famílias.

José Rodrigues Carneiro Ferreira, também conhecido por José Rodrigues Carneiro de Bem, descendia de Manoel José de Bem e Tereza Maria de Jesus, ela filha da ilhoa Maria Teresa de Jesus e de Inácio Franco. Migrado para a zona da mata ainda criança, radicou-se no território do que veio a se constituir na Freguesia de Conceição da Boa Vista, onde se casou com Mariana Esméria de Sena, filha de João Gualberto Ferreira Brito e Maria Venância de Almeida. José e Mariana tiveram, pelo menos, 4 filhos batizados no Curato de Conceição da Boa Vista. O segundo destes filhos foi Ana José Rodriguez.

Segundo Joaquim Ribeiro Costa[i], Itapiruçu significa “a grande pedra elevada ou empinada”, resultado da aglutinação de “itá-apira”, ou pedra empinada e “açu”, grande. O “distrito policial de Tapirussú” conforme consta em sua lei de criação[ii] pertencia ao município de Leopoldina e permaneceria com as “actuaes divisas”. Ou seja, em 1883 já existia um povoado com o nome de Tapirussú.

De fato podemos comprovar que a antiga Capela das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba já é citada em livros paroquiais de Conceição da Boa Vista em data bem anterior à criação do distrito policial. Como exemplo citamos o casamento de Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez, realizado naquela capela no dia 10 de abril de 1875.[iii] Prosseguindo na busca de informações sobre a construção da Igreja de Itapiruçu nos deparamos com dados que podem interessar a todo estudioso da história da região.

Vicente Rodrigues Ferreira era filho de  Bento Rodrigues Gomes e Ana Joaquina de Jesus, tendo migrado de Santana do Garambeo para a zona da mata por volta de 1830. Em Conceição da Boa Vista casou-se com sua prima Luciana Francelina da Anunciação, filha de Antônio Rodrigues Gomes e Mariana Bernardina de São José. O novo casal residia na margem direita do Rio Pomba, a meio caminho entre São Joaquim (hoje Angaturama) e a atual divisa entre Palma e Santo Antônio de Pádua. É ainda a memória familiar que dá notícia da presença de eclesiásticos na fazenda onde residiam, nas diversas visitações realizadas pelo Bispado do Rio de Janeiro àquelas terras. Ainda não localizamos documentos sobre tais visitações, embora alguns autores as mencionem e citem como fonte o Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Entre outras referências, Oswaldo Ribeiro[vi] informa que em 1851 Frei Bento, de Santo Antônio de Pádua, obteve provisão para a Capela de São Francisco da Capivara, atualmente Palma. Parece-nos que para atingir seu destino o padre teria forçosamente que passar por Itapiruçu. E provavelmente também visitasse alguns fazendeiros vizinhos ao casal que, segundo contam, seriam os doadores do patrimônio da Capela de Itapiruçu e dos quais falaremos adiante. Importa registrar ainda que os batismos dos 10 filhos de Vicente e Luciana podem ser encontrados nos livros paroquiais de Miracema, Santo Antônio de Pádua e Conceição da Boa Vista. O sétimo destes filhos foi Antônio Vicente Ferreira.

Analisando os mais diferentes documentos a que tivemos acesso, observamos que o antigo distrito de Tapiruçu pode ter ficado relegado pela autoridades em função das disputas ocorridas entre os Minas e Rio de Janeiro. Ou, hipótese levantada por um de nossos correspondentes, ter sido criado justamente para permitir melhor controle do território disputado. É sabido que não foi sem traumas que o atual município de Palma conseguiu firmar-se, havendo registros de desentendimentos do mais variado calibre com os povoados vizinhos. Entre outros transcrevemos parte de uma ata eleitoral que demonstra a dúvida existente entre os moradores do lugar. [vii]

“… Deu o Presidente conhecimento da Portaria do Governo que em seguida vai transcrita. Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais Ouro Preto em 13 de Agosto de 1866. 1ª Sessão. Declaro a vossamercê para a devida inteligência e publicidade que essa paroquia criada pela Lei nº 1239 de 1864 deve dar na proxima Eleição se a esse tempo já tiver sido Canonicamente provida, três Eleitores para o território de que se compõe abrange cento e setenta e sete votantes e foi desmembrada da Paróquia da Meia Pataca que deu quinze Eleitores na Legislatura que vai findar e qualificou naquele ano novecentos e cinquenta e oito votantes. Conquanto a Lei citada anexa a essa Freguesia do Distrito do Laranjal devem os votantes nele compreendidos concorrer na Eleição na Freguesia da Meia Pataca, visto pertencer esta e o dito distrito ao Bispado de Mariana, e essa nova Freguesia a do Rio de Janeiro. … Joaquim José de Santa’Ana. Snr. Juiz de Paz mais votado da Paróquia do Capivara….”

Cartão de Visitas

Temos tentado levantar documentos sobre a doação do terreno onde foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba, com vistas a confirmar ou não as hipóteses formuladas a partir da memória familiar. Consta que o casal Antonio Vicente e Ana José tinha como vizinhos as famílias Amorim, Felix, Melo, Menezes e Vieira. Curiosamente encontramos, dentro do Breviário da Missa que pertenceu a uma nora de Antonio Vicente e Ana José, o cartão de visitas acima, de Manoel José Vieira Pires.

Verso do Cartão de Visitas

Como se pode observar, no verso do cartão é feito um pedido de cópia da escritura de compra de terras realizada pelo Padre Manoel Martins Lopes, em março de 1890. Sabendo que a Capela existia desde pelo menos 1875, procuramos os livros do Cartório de Notas de Itapiruçu em busca de esclarecimentos. Infelizmente só pudemos encontrar um deles, do qual extraímos as seguintes informações:

–         21.03.1887 o Padre Manoel Lopes Martins compra uma sorte de terras anexas ao Patrimônio de Nossa Senhora das Dores [viii]. Vendedor: Antônio José de Menezes.

–         06.04.1887 o mesmo Padre compra terras no Porto das Madeiras[ix]. Vendedores: Francisco Joaquim dos Reis e sua mulher Virgínia Maria da Conceição.

Os vizinhos das terras compradas em março eram Francisco Joaquim dos Reis, José Francisco do Amorim, herdeiros de Luiz de Souza Melo e herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo. A compra de abril foi de 2,5 alqueires na divisa com Balbino Teixeira Ramos, Rio Pomba, José Francisco de Amorim, Serafim José da Costa e a Fazenda Cachoeira Alegre. Em outra escritura do mesmo livro, folhas 37, vimos que Balbino Teixeira Ramos e sua mulher Vitalina Maria de Jesus haviam comprado terras de Francisco Joaquim dos Reis no Porto das Madeiras, e as revendem em setembro de 1887. Na escritura consta que os vizinhos eram José Francisco de Amorim, o Rio Pomba, herdeiros de Nicolau Antonio Lombardo e o patrimônio de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.

Portanto, as famílias mencionadas nas memórias familiares estavam realmente presentes no distrito de Itapiruçu na época em que ali viveram Antonio Vicente Ferreira e Ana José Rodriguez. As compras realizadas pelo Padre Manoel Lopes Martins parecem indicar que ele pretendia ampliar as posses da Igreja, deixando claro que já havia um patrimônio regularmente inscrito. Resta-nos encontrar a doação inicial e assim nos aproximarmos da data em que foi construída a primeira Capela de Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre do Rio Pomba.


Fontes:

[i] in Toponímia de Minas Gerais, Editora Itatiaia Ltda, 1993, Belo Horizonte, MG, página 262

[ii] Lei n. 3171 de 18.10.1883

[iii] Primeiro Livro de casamentos da Igreja de Conceição da Boa Vista, folhas 70 verso

[iv] Transcrição do Livro de Batismos de Conceição da Boa Vista no Livro 1 de batismos da Matriz de São Sebastião de Leopoldina, folhas 86, termo 464

[v] idem, folhas 38, termo 201

[vi] in História de Santo Antônio de Pádua, Edição do Autor em 1999, página 23

[vii] in Livro de Atas da Freguesia da Capivara, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 1 e verso

[viii] in Livro de Notas do Distrito de Tapirussu, Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, folhas 9 verso

[ix] idem, folhas 16 verso