Registro de Terras

No dia 18 de fevereiro de 1856 foi aberto o livro que serviu para registrar as propriedades existentes na então Vila Leopoldina. Foram listadas 95 unidades urbanas e rurais e o último assentamento foi realizado no dia 20 de abril do mesmo ano. Esta é uma das fontes de grande importância para o estudo da história de Leopoldina, podendo ser consultada no Arquivo Público Mineiro.

Através dos registros descobre-se, por exemplo, que apenas um proprietário declarou possuir lavoura de café. Quando os demais citaram a atividade desenvolvida em suas terras, informaram plantar milho. Isto já se observara no levantamento populacional de 1831, demonstrando que, além da agricultura de subsistência, as fazendas tinham no milho a principal atividade econômica até o final da década de 1850.

Muitas outras análises podem ser feitas a partir do Registro de Terras determinado pela Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850. Embora as declarações não apresentem todos os dados prescritos, é possível encontrar nomes de propriedades, localização e data de aquisição. E uma curiosidade: diversos proprietários de Leopoldina fizeram o registro em municípios vizinhos, inclusive em Santo Antônio de Pádua. Neste caso, trata-se das fazendas que estavam localizadas nas proximidades da divisa com a província do Rio, ou seja, no então distrito de Conceição da Boa Vista.

Para saber um pouco mais sobre a questão dos limites entre as províncias, naquela região, leia o artigo abaixo.

Café, Ferrovia e Recreio pós-municipalização

Leia um o artigo produzido pelos historiadores Cynthia Cristina de Mello Carvalho e Leonardo Ribeiro da Silva, em que apresentam uma breve narrativa sobre o começo da cidade de ‘Recreio’. Trata-se de um relato sobre os nativos existentes na Zona da Mata mineira e de sua colonização no século XVIII, que foi propiciada pela construção do Caminho Novo. Após a apresentação é abordada a chegada da estrada de ferro e a formação urbana do então Arraial Novo que em momentos tardios irá ser nomeado distrito e mais tarde será conhecido como ‘Recreio’. Com a análise do jornal O Verbo, são identificados os percalços que a administração municipal teve em seu momento inicial do então município.

A Imigração na história de Leopoldina

Palestra proferida por José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni em evento promovido pela Academia Leopoldinense de Letras e Artes em abril de 2008.

Capela da sede da Colônia Agrícola da Constança

Estamos aqui, atendendo convite desta Academia para falarmos sobre a história de Leopoldina. Para nós este convite é uma feliz demonstração de que a Instituição se propõe a abraçar a luta pela preservação da memória da cidade.

Como pessoas que se dedicam à pesquisa do tema há vários anos, ficamos felizes e lisonjeados pelo convite. É uma oportunidade de contribuirmos para evitar que no futuro volte a se repetir o fato ocorrido no carnaval deste ano no Rio de Janeiro, quando se premiou com a nota máxima um samba que trazia na sua letra, escrita à moda do saudoso Stanislaw Ponte Preta, uma “confusão histórica” envolvendo o nome de Leopoldina. Dizia a tal letra que a Estrada de Ferro Leopoldina recebeu este nome em homenagem à Imperatriz Leopoldina, mãe de Dom Pedro II, falecida em 1826.

Como sabemos, a cidade de Leopoldina tem este nome em homenagem a uma filha do Imperador Pedro II, nascida em 1847. A estrada de ferro, por sua vez, cuja construção foi iniciada na década de 1870, herdou da cidade o seu nome porque aqui nasceu a construtora do primeiro trecho da ferrovia e porque saíram daqui os primeiros recursos para a formação da Companhia que posteriormente espalhou seus trilhos por boa parte da região sudeste.

Julgamos importante a preservação da memória cultural da cidade e temos pensado nisso com mais freqüência a partir de entrevistas com descendentes dos imigrantes que modificaram a face de Leopoldina desde as últimas décadas do século XIX. Acreditamos que, a partir da idéia de comemorarmos o Centenário da Colônia Agrícola da Constança, foi aberta uma grande oportunidade para valorização daquele sentimento que todos nós desenvolvemos desde a infância: o orgulho de sermos leopoldinenses.

Tenham a certeza de que este é o principal motivo para estarmos aqui.

Dentro da história da cidade hoje pretendemos abordar mais especificamente a imigração.

Mas como seria impossível começarmos pelo capítulo 8, vamos voltar um pouco no tempo e recordarmos o início da história.


O INÍCIO DA HISTÓRIA

A partir de 1500 começaram a surgir povoações de “homens brancos” na orla marítima. Os tempos foram passando e vieram as “entradas e bandeiras”, a busca por minérios e outras riquezas no interior do Brasil.

Quando, no final do século XVII foram descobertas as “minas de ouro”, tratou o governo de controlar a evasão de impostos. Um dos controles utilizados se valia da mãe natureza. Era a barreira natural das montanhas e florestas que margeavam o caminho que seguia do Rio de Janeiro para a região central das Minas. Toda a faixa de terras do leste mineiro, localizada à direita do Caminho Novo que subia para a região do ouro, até o final dos anos de 1700 era ocupada apenas por matas e pelos “primeiros habitantes” – Puris, Coroados e Coropós, constituindo um obstáculo natural de grande valia.

Estabeleceu o governo central, então, que esta parte das Minas hoje conhecida como Zona da Mata era uma área que não deveria ser habitada nem transitada, uma “área proibida”, para assim evitar que por ela fossem criadas rotas de contrabando do ouro para eventuais portos clandestinos nos litorais fluminense e capixaba.

Daí decorre o fato de a Zona da Mata ter permanecido por um longo período sem a presença de colonizadores.

Salvo uma ou outra informação esparsa, e por vezes não confirmada em documentos oficiais, poucas são as notícias sobre a presença do homem branco pela região. Sabe-se, apenas, das diligências chefiadas pelo sargento-mor do Regimento de Cavalaria de Minas Gerais, Pedro Afonso Galvão de São Martinho, das quais teria feito parte o Tiradentes, em 1784 e 1786, com a missão de fazer levantamento da região e perseguir contrabandistas e malfeitores “facinorosos” que desviavam riquezas por caminhos que chegavam a Cantagalo no estado do Rio de Janeiro.

SOBRE A CIDADE

Centremos o foco, agora, na região onde está Leopoldina.

Pelo que se localizou até aqui, a mais antiga evidência da existência de um povoado no Feijão Cru é de Sinval Santiago, em “Município de Rio Pomba”, informando que a Câmara Municipal do Pomba criou o distrito do Feijão Cru com base no Decreto Imperial de 11 de setembro de 1830. Este decreto foi revogado em agosto de 1834 e a partir dessa época a criação de distritos passou a ser da alçada do Presidente da Província. Considerando que o município do Pomba foi instalado em agosto de 1832, acreditamos que o distrito do Feijão Cru tenha sido criado entre agosto de 1832 e agosto de 1834.

Segundo a legislação da época, para ser criado o distrito era necessário já existir um arraial e uma igreja funcionando em patrimônio próprio. Sendo assim, acreditamos que a doação realizada por Joaquim Ferreira Brito e sua mulher Joana Maria de Macedo, no dia 01.06.1831, deve ter sido feita para atender às normas para se requerer a criação do distrito. A segunda doação do casal, em novembro do mesmo ano, parece-nos indicar que se tratava de terreno para a construção da Casa do Cura, o que viria corroborar a existência de um arraial.

Em 1834 o Feijão Cru já contava com 135 famílias em 82 propriedades. Mas é bom lembrar que algumas destas famílias estavam localizadas em território posteriormente desmembrado.

É a partir do ano de 1843 que podemos melhor observar a existência de moradias dentro do patrimônio de São Sebastião. Nesse ano, o território de São Sebastião contava com 2.171 moradores. Em 1851 a população do Feijão Cru atingia um número significativamente maior, quase 4.000 habitantes, num arraial agora elevado à condição de Freguesia. E chegamos finalmente a 1854 com a realização do sonho dos povoadores de não mais ficarmos na dependência de Barbacena, Rio Pomba, São João Nepomuceno ou Mar de Espanha, as anteriores sedes administrativas a que se subordinou o arraial e distrito. Em abril de 1854 foi promulgada a Lei nº. 666 e, em janeiro de 1855, era instalada a câmara municipal da cidade e vila Leopoldina.


O CAFÉ

Não se pode falar da história de Leopoldina sem se referir ao café.

Não resta dúvida de que ao lado da estrada de ferro e do escravo, o café teve grande importância no desenvolvimento da região.

Permitimo-nos, no entanto, discordar da afirmação mais ou menos geral de que unicamente o plantio da rubiácea foi responsável pelo progresso do município.

Noutras ocasiões já dissemos e repetimos aqui, que esta afirmativa é uma simplificação perigosa, uma vez que o café não foi o único produto das fazendas. Até porque, segundo fontes documentais, nem todas as propriedades dedicavam-se exclusivamente aos cafezais quando os imigrantes aqui chegaram. Sabe-se, por fontes seguras, que muitas delas contavam com extensos plantéis de gado bovino, por exemplo.

Claro que nosso questionamento se refere a algumas interpretações apressadas, que dão conta de que todos os braços e todo o capital disponível destinava-se exclusivamente ao plantio e manutenção dos cafezais. Insistimos que Leopoldina não produzia APENAS café.

Até porque, ao admitirmos por hipótese esta idéia, estaríamos obrigados a acreditar que teria ocorrido uma brusca mudança para a produção leiteira, o que todos sabemos não ser verdade.

Depoimentos de descendentes dos colonos imigrantes nos mostraram que existiam outros tipos de produção nas fazendas onde trabalharam e que essa diversidade de funções foi, inclusive, uma das grandes responsáveis pela inserção desses estrangeiros na sociedade local. Foi este grande número de atividades, muitas delas ligadas à agricultura e à pecuária, que facilitou a integração dos profissionais imigrantes e modificou totalmente o “retrato da região”.

Além do café alguns outros temas relativos à história da cidade mereceriam atenção de nossa parte. Assim, por exemplo, poderíamos falar agora, sobre a história da educação que legou à cidade o codinome de “Atenas da Mata Mineira”, das grandes e importantes fazendas do município, das famílias fundadoras, das ruas e logradouros da cidade, etc.

Mas optamos falar sobre a imigração.

IMIGRAÇÃO

A partir do momento em que os fazendeiros entenderam que chegava ao final o período escravagista no Brasil, iniciaram-se as buscas por alternativas para suprir as lavouras e fazendas com a mão de obra necessária.

Muito embora o maior fluxo tenha ocorrido a partir de 1888, para efeito de nossos estudos fixamos 1881 como o início da imigração de colonos agricultores.

E falamos em imigrantes italianos porque, entre os europeus que por aqui se instalaram, a predominância numérica foi de nascidos na Itália.

Mas é bom lembrar que nem todos os imigrantes que passaram ao Brasil no século XIX eram agricultores, muito embora quase todos tenham sido contratados para substituir a mão-de-obra escrava. Exemplo disso é a Colônia Imperial de Petrópolis, formada em 1845 com imigrantes alemães, cujo objetivo era construir obras públicas. Quando as principais obras da cidade estavam concluídas, muitos daqueles imigrantes foram para outras construções, inclusive para a província mineira. É o caso, por exemplo, dos imigrantes que trabalharam na abertura da Estrada de Rodagem União Indústria e na Estrada de Ferro Dom Pedro II.

No início da década de 1870 encontramos, vivendo em Mar de Espanha, alemães que inicialmente trabalharam em Petrópolis. Em meados da mesma década, alguns deles haviam se transferido para Leopoldina. Sabemos que em Mar de Espanha eles trabalhavam nas obras da Estrada de Ferro Pedro II. Mas, e em Leopoldina? Qual o motivo pelo qual vieram para cá?

Uma das hipóteses é a de que tenham sido contratados para os trabalhos de abertura da Estrada de Ferro Leopoldina. A primeira concessão para construção dessa estrada, no trecho Porto Novo – Leopoldina é de 1871, mas segundo pudemos apurar, somente após a concessão de 1872 é que os trabalhos realmente tiveram início. E uma das condições impostas pelo capital inglês, que assumira a companhia construtora, era não utilizar mão-de-obra escrava. Donde concluímos que a chegada dos imigrantes alemães esteja vinculada à abertura do ramal da Leopoldina que ligaria a Estrada de Ferro Dom Pedro II às cidades de Leopoldina e Cataguases. Já o grande fluxo de italianos teria na origem a substituição da mão-de-obra escrava na lavoura.

O SENTIMENTO DE NACIONALIDADE ITALIANA

Antes de continuarmos a falar sobre os imigrantes queremos abrir parênteses para um comentário interessante.

Segundo Bertonha1, o sentimento de nacionalidade italiana estava em início de construção quando se deu o grande movimento de travessia do Atlântico. Isto porque a Itália, recém-unificada, vinha de longos séculos de fragmentação política e cultural que não permitiam às classes populares a percepção de algo que unisse genoveses, venezianos, romanos e sicilianos sob um mesmo arco cultural.

Esta fragmentação cultural está na origem, entre outras conseqüências, das diferenças lingüísticas que resultaram em italianos julgarem-se austríacos ou alemães, embora todos fossem provenientes de território abaixo do “passo de Brenner”, marco geográfico que separa a Itália dos países alpinos.

O mesmo autor ressalta também que a “incapacidade do protestantismo em se estabelecer no território italiano aumentou ainda mais a força do catolicismo no ser italiano”2. Em outro momento da mesma obra, Bertonha lembra que a cúpula da Igreja Católica preferia que os imigrantes viessem para a América do Sul porque aqui encontrariam solo fértil para a prática de sua fé religiosa. Mas cabe aqui uma observação curiosa: em Leopoldina só se lembraram de alocar um padre italiano quando a paróquia foi transferida para o Bispado de Mariana, em 1896.


NOSSAS PESQUISAS

A falta de acesso à documentação das antigas fazendas de Leopoldina dificulta o estudo mais detalhado sobre a vida dos imigrantes dos primeiros tempos.

No nosso caso, superamos um pouco desta dificuldade a partir de 1998, quando publicamos uma série de artigos comemorativos dos 90 anos da Colônia Agrícola da Constança. Com isto nossos leitores nos enviaram muitas mensagens, abrindo oportunidade para trocarmos informações com descendentes que guardam as memórias familiares.

E foram estas conversas que nos permitiram, por exemplo, vislumbrar alguns aspectos que orientaram a vida senão de todos, mas de grande parte dos que viveram por aqui e que mudaram o curso da história de Leopoldina.

Hoje, por exemplo, é sabido que para os imigrantes, principalmente os italianos, ter terra era sinônimo de liberdade. Por isto muitos levavam uma vida difícil e modesta, trabalhavam muito, controlavam suas economias e até abriam mão de pequenas coisas em prol de juntar dinheiro para a realização do sonho maior que era o de adquirir um pedaço de terra. E, via de regra, quando já haviam adquirido o primeiro lote o sonho se expandia no sentido de conquistar outros, preferencialmente nas proximidades, para acolher os descendentes e demais agregados.

Razão, inclusive, de muitos deles, num espaço de tempo relativamente curto, se transformarem de simples colonos em lavradores independentes e passarem a formar a nova classe de pequenos e médios proprietários até então praticamente desconhecida na cidade.

Esses imigrantes, que chegaram como simples força de trabalho para a lavoura que perdera o braço escravo, tornaram-se sitiantes. Quem chegou como empregado da fazenda, logo se tornou meeiro e depois proprietário.

E um dos locais onde ocorreu uma concentração maior dessa transformação de empregado em sitiante, foi exatamente na Colônia Agrícola da Constança, foco das nossas pesquisas.

COLÔNIAS AGRÍCOLAS EM MINAS GERAIS

Aqui vale a pena fazermos alguns comentários para que se possa entender melhor o curso dessa história.

A organização de colônias agrícolas em Minas Gerais, entre outros motivos, foi determinada pela necessidade de se oferecer atrativos que fixassem os imigrantes no estado.

O caminho encontrado pelos nossos dirigentes foi, então, criar e incentivar a criação de colônias agrícolas em terras devolutas e no entorno das estradas que se abriam, inclusive a ferrovia.

A criação da Colônia Agrícola da Constança tinha por objetivo desenvolver a agricultura, aproveitando o braço imigrante e as facilidades para o escoamento da produção através dos trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina.

Importante reafirmar que desde a década de 1880 havia uma intensa movimentação política no sentido de facilitar a entrada de estrangeiros, de modo a atender a falta de braços para a lavoura.

Assim, quando da criação da Colônia, Leopoldina contava com um bom número de imigrantes espalhados por diversas fazendas, algumas em decadência, o que levou o povoamento inicial da Constança a ser constituído principalmente por imigrantes chegados antes da sua criação, ocorrida em 12.04.1910, pelo Decreto Estadual nº. 2801.

Ressalte-se que o relatório da administração da Colônia, relativo ao ano de 1909, informa que em março daquele ano o governo adquiriu as primeiras terras para formação da Colônia Agrícola da Constança. Diz ainda o relatório que ela foi “fundada em terras das fazendas annexadas e denominadas Constança, Sobradinho, Boa Sorte, Onça e sítio Puri”3.

OS IMIGRANTES COMO PROPRIETÁRIOS

Interessante observar que esses imigrantes, como proprietários de pequenas glebas de terra, de algum lote na Colônia Agrícola da Constança ou em outro lugar por onde foram surgindo as pequenas propriedades e verdadeiras comunidades (Palmeiras, Macuco, Piacatuba e outras), passaram a fazer parte da própria dinâmica da economia do município.

E um fato que não deve ser esquecido, por ser de justiça, é que muitas dessas propriedades eram verdadeiros “retalhos de terras esgotadas” vendidos pelos fazendeiros que viam nessa prática uma forma de o imigrante ver realizado o seu sonho de se tornar sitiante e, ao mesmo tempo, a fazenda garantir uma reserva de mão-de-obra nas suas proximidades. Apesar de não serem exatamente lotes de boa qualidade, aquelas terras se tornaram produtivas unicamente pela formidável capacidade de trabalho do imigrante e pela grande prole da maioria deles.

Encerrando esta nossa conversa, queremos destacar dois fatos que não podem ser esquecidos. O primeiro deles, o de que é evidente que a produção das lavouras, pomares, terreiros, moinhos, engenhos de cana e olarias da Colônia foi importante para o progresso da cidade. Esta produção fez movimentar muita riqueza pelas estradas de chão batido da Colônia e pelos trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina.

Mas o que talvez mereça um destaque ainda maior, a ser proclamado com muita ênfase, é a nossa crença em que a grande contribuição da Colônia e dos imigrantes para Leopoldina não está somente no aspecto econômico. Está muito mais na mistura de etnias e nos belos exemplos de trabalho e dedicação deixados por esses imigrantes. Trabalho e dedicação, inclusive, que nos permitiram sem grandes traumas, por exemplo, fecharmos o ciclo do coronelismo e iniciarmos o de um desenvolvimento mais igualitário. Um novo ciclo onde a riqueza deixou de estar apenas nas mãos de uns poucos e abastados fazendeiros para se espalhar pelos diversos sobrenomes italianos que hoje se destacam no comércio, na indústria, na prestação de serviços, na agro-pecuária e nas demais atividades produtivas desta nossa Leopoldina.

Mas isto já é assunto para uma outra oportunidade.

NOTAS

1- BERTONHA, João Fábio. Os Italianos. 2ª edição, São Paulo: Contexto, 2005

2 – idem, página 35

3 – Os Relatórios da Colônia encontram-se no Aquivo Público Mineiro, fundo Secretaria de Agricultura.

Sociedade Leopoldinense

Artigo publicado em 2003, respondendo mensagens de estudantes que visitaram o site interessados em análise da sociedade leopoldinense do início do século XX. Como não fazemos pesquisas dos anos novecentos, respondemos com uma opinião pessoal, formulada a partir de observações variadas.

Mudanças na forma de cultivar o café, no último quartel do século XIX, determinaram o desaparecimento das culturas de subsistência nas grandes fazendas. Como conseqüência imediata o poder aquisitivo da população caiu vertiginosamente. Até então vivia-se escorado no produto da terra. Dela se extraía todo o necessário: do alimento à madeira com que se fabricavam os móveis, dos remédios aos insumos para as demais necessidades. As grandes fazendas contavam com profissionais de gama variada, seja o escravo mestre em trabalhos de couro, sejam as artesãs do tear.

Ao migrarem para a monocultura cafeeira, os fazendeiros alocaram toda a mão-de-obra disponível naquele mister, passando a depender de terceiros para o suprimento básico. A substituição do trabalho escravo pelo braço livre significou um ganho de qualidade nas técnicas de produção. Os imigrantes trouxeram para o meio rural a experiência de outro modelo de modernização. Um caso típico ocorreu em Astolfo Dutra, conforme nos conta Rosalina Moreira em seu livro sobre os italianos na Colônia Santa Maria. Um comerciante do lugar só conseguiu vender arados para os colonos italianos, já que os fazendeiros alegavam que “aquilo” estragava a terra.

Ao mesmo tempo em que mais e mais proprietários substituíam suas plantações diversificadas pelas “ruas de ouro verde”, crescia a necessidade de reordenamento do espaço urbano para atender o novo público consumidor. Despojadas de seus próprios artesãos, as famílias de posses passam a depender dos prestadores de serviço encontráveis no arraial mais próximo. Imigrantes pouco afeitos ao labor da terra engrossam a camada de profissionais urbanos, abandonando as fazendas e abrindo uma “porta de venda na rua”.

Apesar da crescente queda do poder aquisitivo, já que agora pagam por produtos e serviços antes disponíveis em suas próprias fazendas, os “coronéis” não admitem frear a derrocada com soluções caseiras. Alimentam a ilusão de um retorno às posições perdidas e continuam a sustentar seus filhos longe do amanho da terra. Empenham suas terras nas casas bancárias a troco de moeda que adie a queda final.

Enquanto isso, nos becos e vilas do povoado, sangue estrangeiro remodela a sociedade. No princípio vítimas de xenófobos olhares enviesados, mais adiante encarnações do escárnio mais desbragado, imigrantes ocupam pouco a pouco os mais variados postos de trabalho. Sufocados pelo íntimo pesar da saudade de uma terra distante, sem terem sequer um vocábulo próprio para traduzir tal sentimento, trabalham incessantemente em busca de um sonho: “fare l’america”, juntar dinheiro e voltar ao torrão natal.

Nem uns nem outros atingiram seus objetivos. Se os deserdados das oligarquias rurais não recuperaram antigos cabedais, tampouco a massa d’além mar conseguiu cruzar o Atlântico de volta. Raras as exceções!

E assim, oprimidos pela ordem econômica, aos poucos foram derrubando o muro da intolerância. O homem e a mulher “valem por si mesmos e não pela vaidade de carregarem um nome de antepassado”, já o disseram Olavo Bilac e Manoel Bonfim, em Através do Brasil, a pioneira obra paradidática genuinamente nacional.

Entre 1901 e 1924, quase metade dos casamentos realizados em Leopoldina envolviam imigrantes italianos. Em pesquisa amenos abrangente, pois realizada apenas em três cartórios, observa-se que 3/4 das crianças nascidas entre 1950 e 1954 tinham pelo menos um dos bisavós nascido na pátria de Dante Alighieri. Outras nacionalidades misturam-se ao sangue dos povoadores pioneiros desde que o Feijão Cru teve suas margens ocupadas pelo homem livre.

Se os deserdados do ouro fizeram nascer um povoado nos albores dos anos oitocentos, foram os imigrantes europeus do final do século XIX que modelaram a Leopoldina dos novecentos. As mazelas da cidade não são muito diferentes daquelas que afetam a maioria dos municípios brasileiros. Mas Leopoldina supera qualquer outra num quesito fundamental: a energia que bate em nosso peito é moldada pelos ares leopoldinenses.

Aspectos da História de Leopoldina

Muitos de nós tivemos as primeiras noções de história através de uma visão idealista. Até bem pouco tempo ensinava-se a história de um determinado lugar baseando-se na trajetória de seus heróis. No antigo sistema de ensino nós, simples ouvintes, assistíamos as aulas como se tudo aquilo fosse um fantástico romance, totalmente distante da nossa própria realidade. Não nos sentíamos como parte do processo. Éramos, simplesmente, espectadores. E espectador não pode interferir no roteiro! Assim nos formamos, ou melhor, perdemos a oportunidade de formar nossa consciência histórica. Achávamos que tudo tinha sido realizado por um semideus e que nós, simples mortais, estávamos aqui só para assistir de camarote ao filme sobre os heróis ou obedecer cegamente ao que autoridades decidiam.

Hoje, quando temos oportunidade de analisar o contexto em que os fatos se deram, deixamos de ver em todo lugar um herói ou semideus. Ao se humanizarem, os heróis passam realmente a nos ensinar alguma coisa. No mínimo nos dão a certeza de que todos nós podemos fazer alguma coisa para mudar o curso da história.

Em comunidades onde não há consciência crítica, o morador não se sente capaz de atuar positivamente. Acho que aqui em Leopoldina isto não acontece. Vocês todos sabem que são cidadãos aptos a mudar o rumo da história. Vocês vivem na certeza de que são os responsáveis por tudo o que acontece na cidade.

A história de vocês foi sempre assim: uma cidade formada por cidadãos conscientes, atuantes, que sabem o que querem e o que podem fazer.

Voltemos ao início de tudo!

Após o período áureo da mineração, a população do centro de Minas passou a buscar alternativas. E o governo da província, preocupado com o contrabando do ouro já muito escasso, tratou de criar mecanismos que evitassem a fuga de divisas. Uma das atitudes foi abrir ao povoamento a nossa região, antes tida como “áreas proibidas”. Até o finalzinho dos setecentos não era permitido ocupar nossas terras.

Até que uma diligência que passou aqui pela mata deixou claro que era muito fácil invadi-la. Depois de inúmeras discussões no alto escalão, o governador da província decidiu liberá-las ao povoamento, considerando que os habitantes serviriam de guardiões das terras e, portanto, uma barreira eficaz contra invasores desqualificados. Mas não era muito fácil convencer os chamados “homens bons”, ou seja, chefes de família com bom respaldo financeiro, a deixarem uma situação estabelecida e se aventurarem a formar fazendas em terras distantes. Para contornar o empecilho, criou-se um atrativo: quem se estabelecesse nas divisas da província ficaria isento de impostos por dez anos.

Precisamos deixar claro que, naquela época, tudo acontecia de forma bem mais lenta. Assim é que os 10 anos de isenção tributária foram necessariamente prorrogados até pouco depois da Independência do Brasil.

Necessário ainda ressaltar uma profissão muito lucrativa da época da mineração: os tropeiros. Laura de Melo e Souza, em seu livro Opulência e Miséria em Minas Gerais, lembra que a riqueza estava, de fato, nas mãos dos comerciantes. Com a extração de ouro não se enriqueceu tanto como quiseram fazer crer os antigos livros de história. Comerciantes e tropeiros sim, estes conseguiram amealhar fortunas. Não com a rapidez com que se imagina o enriquecimento de alguém que extraia uma enorme pepita do mais puro ouro. Não! Eles foram construindo um bom patrimônio aos poucos, rasgando as trilhas em busca dos fregueses de suas mercadorias, bens necessários à sobrevivência nos rincões mais longínquos.

Os tropeiros foram, então, os primeiros “homens bons” a conhecerem a nossa região. A lenda do Feijão Cru tem origem provável naqueles homens destemidos que enfrentavam tudo. E eles, os tropeiros, estiveram entre os primeiros a requisitarem Cartas de Sesmaria e se beneficiarem da isenção tributária. Alguns vieram de fato ocupar as terras recebidas. Muitos jamais pisaram o solo às margens do Feijão Cru.

Vejamos algumas imagens.

Se estivéssemos estudando por algum daqueles livros antigos, na certa encontraríamos algum herói travestido de benfeitor dos índios e solucionador de todos os problemas. Provavelmente o herói seria um homem riquíssimo, cuja riqueza provinha da extração do ouro, e que por puro diletantismo resolveu gastá-la povoando as margens do Feijão Cru. E para continuar com as lendas que povoam nosso imaginário, o herói pegou uma índia a laço e com ela criou numerosa, bela e feliz família.

Talvez eu cause uma decepção em alguém. Sinto muito. Até hoje eu não encontrei nem vestígio de um herói desse tipo em nossas terras. O que eu pude apurar é que um número significativo de pessoas veio povoar a região por terem conseguido terras que já faltavam no centro de Minas.

A história que eu conheço é a seguinte:

Em 1784 e 1786 foram realizadas duas diligências, comandadas pelo sargento-mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho. Entre seus auxiliares diretos encontravam-se o coronel Manoel Rodrigues da Costa e o Alferes Joaquim José da Silva Xavier.

Provavelmente os nomes soaram familiares, não é? Claro, muitos leopoldinenses pertencem às famílias deles.

Este percurso, desenhado a partir de cartas remetidas pelo coronel Rodrigues da Costa ao governador da província, aproxima-se dos locais das primeiras sesmarias concedidas nas até então “áreas proibidas”. Lembremo-nos que, entre outras determinações, ficou estabelecido que apenas 40 “homens bons” poderiam estabelecer-se nas novas terras, com um número de escravos total limitado a 200. Mas as cartas de sesmaria não foram concedidas imediatamente e nem tudo o que foi decidido na época das diligências foi integralmente cumprido.

Para o nosso caso, importa destacar:

1813 – 4 sesmarias concedidas no território hoje pertencente a Argirita. Beneficiários: dois sobrinhos de Tiradentes e suas respectivas esposas. Domingos Gonçalves de Carvalho, sua mulher Antônia Rodrigues Chaves, Felisberto da Silva Gonçalves e a mulher deste, Ana Bernarda da Silveira.

1817 – 2 sesmarias concedidas a Fernando Afonso Correia de Lacerda e Jerônimo Pinheiro de Lacerda, citando o Feijão Cru como localização.

1818 – 2 sesmarias vizinhas ao Feijão Cru concedidas aos Coelho e diversas para a família Monteiro de Barros. Antônio Francisco Teixeira Coelho era o sogro de Bernardo José Gonçalves Montes.

1831 – Primeira contagem de habitantes do Feijão Cru.

Os beneficiados com sesmarias deveriam cumprir algumas exigências. Vejamos algumas delas.

a) Dom Manoel de Portugal e Castro, do Conselho de Sua Majestade e do da Sua Real Fazenda, Governador e Capitão Geral da Capitania de Minas Gerais.

Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que, atendendo ao a mim apresentado por sua petição Jerônimo Pinheiro de Lacerda, que em um córrego chamado Feijão Cru que deságua no rio da Pomba no Distrito de Santo Antonio do Porto do Ubá, Termo de Barbacena,

b) e não sendo esta em parte ou todo dela, em árias proibidas, e dentro das confrontações acima mencionadas, fazendo pião onde pertencer; com declaração porém que será obrigado dentro em um ano, que se contará da data desta, a demarcá-la judicialmente, sendo para esse efeito notificados os vizinhos com quem partir, para alegarem o que for a bem de sua justiça; e ele deverá também a povoar, e cultivar a dita meia légua de terra ou parte dela dentro em dois anos, a que não compreenderá a situação, e logradouros de algum…

Pelo menos no que se refere aos prazos, temos certeza de que não foram cumpridos. Os dois irmãos Lacerda, Jerônimo e Fernando, somente mandaram seus sobrinhos para cá uns 10 anos depois. Ainda assim, para uma atividade que não era admitida oficialmente: a venda das terras recebidas gratuitamente.

Da mesma forma o patriarca Monteiro de Barros, que segundo alguns autores recebeu 14 sesmarias, não as ocupou senão mais de 15 anos depois.

O que podemos afirmar é que a partir de 1831 os moradores do Feijão Cru já começam a ser registrados, mas ainda vinculados ao Curato de São José do Paraíba.

Nosso primeiro mapa populacional é de 1838.

População do Feijão Cru em 1838 (gráfico da população: 467 brancos, 225 forros, 602 escravos)

O que eu pude apurar é que um número significativo de pessoas veio povoar as margens do Feijão Cru por terem conseguido terras que já faltavam no centro de Minas. Alguns por terem sido beneficiados com sesmarias, muitos por terem-nas adquirido dos primeiros beneficiários, o certo é que em 1838 foram encontradas 135 moradias no território que constituía o então Curato de São Sebastião do Feijão Cru, sendo 84 delas chefiadas por “homens bons”. Nas demais 51 moradias, chefiadas por pretos livres, em 10 foram encontrados escravos. A média de escravos por habitante não chegava a 1,5%.

Num estudo ainda não concluído, observei que mais da metade das famílias era constituída de parentes até segundo grau. Eram agricultores ou tropeiros. O desenrolar da história daquelas famílias demonstra que viviam em estreito relacionamento.

Observar que a área do Curato era muito mais ampla do que o território que veio a constituir Leopoldina. Mas a nossa história foi construída pelos moradores da parte sul.

Em pouco menos de 20 anos, numa época em que as comunicações eram precárias, a população tinha já se organizado a tal ponto que foi possível requerer a emancipação do distrito. Eram, então, cerca de 4.000 moradores, a maioria vivendo em suas propriedades rurais. Quando da emancipação, várias foram as exigências para a instalação da Vila Leopoldina.

Em nossa região encontramos alguns casos em que os habitantes precisaram de mais de 3 anos para se adequarem à nova situação.

No nosso caso foi diferente.

Em apenas nove meses foram adaptadas locações para os serviços que passaram a existir.

Pergunta: houve um herói que cuidou de tudo rapidamente, que doou seu sangue e recursos para transformar o Feijão Cru em Leopoldina?

Mais uma vez eu acho que vou decepcionar algumas pessoas. Mais uma vez eu digo: sinto muito! O que eu pude apurar é que lideranças políticas surgiram naturalmente. Que personagens diversos aparecem como doadores. Que diferentes pessoas atuaram na organização da sede municipal.

Claro que alguns habitantes daquela época tinham influência política também fora dos limites da cidade, ou não seria possível uma emancipação tão rápida. Mas o que eu quero dizer é que tais lideranças nada teriam conseguido sem a intensa participação dos demais habitantes. Nenhum herói consegue convencer um proprietário a doar parte de suas terras para a municipalidade, se este morador não estiver comungando dos mesmos ideais. Volto a dizer: não houve um personagem que determinasse o que seria feito. Antes, houve um acordo entre as lideranças locais, todos trabalhando pelo crescimento do lugar que escolheram para viver.

Para corroborar essa opinião, sugiro aos interessados que observem os antigos registros de imóveis da cidade. Até o final dos oitocentos não havia propriedade particular, como hoje a entendemos, na área urbana. Todos os terrenos eram da municipalidade, cedidos para quem neles quisesse edificar, seguindo especificações votadas pela Câmara Municipal. E quem doou os terrenos para a municipalidade? Um herói, um benfeitor magnânimo? Não, meus caros. Vários foram os doadores.

Por essa época o café ainda não representava o grosso de nossa economia.

Daí em diante é que surgiram as grandes plantações.

Ao lado da ampliação das fazendas de café, a sanha desenvolvimentista presente em nossos pioneiros fê-los enxergar alternativas que beneficiaram ainda mais a nossa cidade.

Um aspecto importante é a educação. Naquela época, tinha-se no Brasil algo semelhante ao ocorrido na Roma Antiga. Ou seja: as famílias de posses contratavam preceptores que preparavam seus filhos para depois seguirem cursos em escolas das cidades maiores. Em Roma demoraram dois séculos para concluírem que era mais barato fazer doações para criação de escolas locais. Em Leopoldina as famílias se organizaram rapidamente.

O processo de contratação de professores obedecia a um roteiro básico[1]. As comunidades encaminhavam correspondência ao Inspetor Geral de Instrução Pública, indicando um nome para o qual passavam uma espécie de “atestado de bons antecedentes” e detalhando as condições geraisem dentro dos parâmetros exigidos pela inspetoria, o candidato era chamado para a realização de exames de habilitação. Se aprovado, era nomeado. Se não atendesse aos requisitos necessários, a própria Inspetoriacuidava de nomear alguém habilitado.

Já no ano da instalação, a articulação política conseguiu or primeiros professores.

Em algumas cidades vizinhas o processo demorou um pouco mais pela ausência de organização dos moradores, com vistas a criarem condições de funcionamento das “aulas”. Aqui foi diferente. Não só criaram as condições como não permitiram uma outra ocorrência comum em alguns lugares: longos períodos sem professores.

Quando a municipalidade não providenciava um local para o funcionamento das aulas, os professores públicos recebiam, junto ao salário, um abono para o aluguel da sala onde trabalhavam. Em literatura encontramos referências de utilização do abono para o aluguel da casa onde o professor residia. E normalmente o professor destacava um cômodo da casa para trabalhar, nomeando a sala de aula em homenagem ao santo de sua devoção.

Assim é que encontramos diversas referências a colégios com nomes de santos e, num primeiro momento, podemos imaginar tratar-se de escolas  particulares. Uma pesquisa mais apurada demonstra que eram salas de aula dirigidas por professores públicos.

Este é um outro quadro interessante.

Demonstra a preocupação dos habitantes em garantir a continuidade dos estudos na própria cidade. Considerando as exigências legais para a criação das “aulas superiores”, incluindo-se o número mínimo de alunos, observa-se que os leopoldinenses de então trabalhavam com afinco para o progresso local.

A escola pública não é, como erroneamente pensam alguns, uma DOAÇÃO do Estado ao povo. Não! Ela é uma conquista de um povo que se organiza e luta por seus direitos. Nós podemos nos orgulhar de nossos antepassados também nesse aspecto: eles lutaram pela melhoria das condições de vida locais em todos os aspectos. Nós não podemos dizer que “eles fizeram” ou “eles aconteceram”, como se fossem pessoas distintas de nós. Não, foram as nossas famílias que garantiram a continuidade das escolas naqueles longínquos oitocentos. Não fosse assim e as “aulas” teriam sido abolidas como aconteceu em outros locais.

Ressalte-se que, ao lado das escolas providas pelo governo provincial, também o município fez funcionar escolas, pagando professores para os distritos.

No governo de João Pinheiro da Silva foi implantada uma Reforma do Ensino Primário através do Decreto nr. 1960 de 16.12.1906. Significou, entre outras coisas, a reunião das salas de “aulas públicas” em Grupos Escolares. Segundo jornais da época, funcionavam em Leopoldina, na rua Sete de Setembro, duas salas de aula a cargo dos professores Bento Castanheira e sua esposa Maria  Brígida. Ali teria nascido o atual Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, ou seja, a reunião das “aulas públicas” existentes na sede municipal.

E quando o poder público não atendeu à demanda, os leopoldinenses souberam criar alternativas.

1881 – Liceu Leopoldinense – Profissionais liberais residentes em Leopoldina organizaram uma escola particular que, embora não apareça entre as escolas reconhecidas pelo governo provincial, funcionou na década de 80 dos oitocentos[2].

1883 – Temos notícia de uma escola particular em Piacatuba, dirigida por Souza Machado e Symphronio Cardoso, cujos detalhes ainda não conseguimos apurar[3].

1893 – Arcádia Leopoldinense – 86 leopoldinenses criaram uma sociedade por cotas com o objetivo de prover a educação da mocidade.

1906 – Gymnasio Leopoldinense – Tem sua história bastante conhecida.

1909 – A Nova Escola – Provavelmente o embrião do Seminário, fundada pelos padres Júlio Fiorentini e Felix Poinsot.

1918 – Colégio Imaculada Conceição.

Um povo organizado como o leopoldinense, soube muito bem aproveitar outras oportunidades que surgiram.

A história da Estrada de Ferro (1871-1877), a chegada dos imigrantes para a lavoura (1882), a substituição do trabalho escravo bem antes da abolição (1884), o serviço de telefonia já em 1886, a fundação da Sociedade Portuguesa de Beneficência (1889) e o funcionamento da Hospedaria de Imigrantes (1894-1899), são exemplos da atuação brilhante de nossos antepassados em prol do desenvolvimento.

Há mais um século de história pela frente. No entanto, eu fico por aqui.

Tenho certeza de que todos vocês, leopoldinenses de nascimento ou por adoção, continuam trabalhando para que a cidade aproveite todas as oportunidades possíveis. Garanto que vocês todos trabalham em prol da comunidade. Vocês sabem que cada um é importante, que todos precisam participar. Vocês estão fazendo história!


* Apresentação promovida pela FELIZCIDADE, Organização Social Civil de Interesse Público sediada em Leopoldina, MG, tendo sido realizada no auditório do CEFET campus Leopoldina no dia 10 de dezembro de 2003.

[1] GOUVÊA, Maria Cristina Soares de. Processo de profissionalização docente na Província Mineira no período imperial. Belo Horizonte: UFMG, s.d. mono

[2] Américo Lobo Leite Pereira, Eduardo Magalhães, José de Souza Soares Filho, Martiniano Lintz e Teófilo Ribeiro aparecem entre os professores de 1881.

[3] Almanaque Laemmert, 1883, página 153 da seção Provincial.