Sociedade Leopoldinense

Artigo publicado em 2003, respondendo mensagens de estudantes que visitaram o site interessados em análise da sociedade leopoldinense do início do século XX. Como não fazemos pesquisas dos anos novecentos, respondemos com uma opinião pessoal, formulada a partir de observações variadas.

Mudanças na forma de cultivar o café, no último quartel do século XIX, determinaram o desaparecimento das culturas de subsistência nas grandes fazendas. Como conseqüência imediata o poder aquisitivo da população caiu vertiginosamente. Até então vivia-se escorado no produto da terra. Dela se extraía todo o necessário: do alimento à madeira com que se fabricavam os móveis, dos remédios aos insumos para as demais necessidades. As grandes fazendas contavam com profissionais de gama variada, seja o escravo mestre em trabalhos de couro, sejam as artesãs do tear.

Ao migrarem para a monocultura cafeeira, os fazendeiros alocaram toda a mão-de-obra disponível naquele mister, passando a depender de terceiros para o suprimento básico. A substituição do trabalho escravo pelo braço livre significou um ganho de qualidade nas técnicas de produção. Os imigrantes trouxeram para o meio rural a experiência de outro modelo de modernização. Um caso típico ocorreu em Astolfo Dutra, conforme nos conta Rosalina Moreira em seu livro sobre os italianos na Colônia Santa Maria. Um comerciante do lugar só conseguiu vender arados para os colonos italianos, já que os fazendeiros alegavam que “aquilo” estragava a terra.

Ao mesmo tempo em que mais e mais proprietários substituíam suas plantações diversificadas pelas “ruas de ouro verde”, crescia a necessidade de reordenamento do espaço urbano para atender o novo público consumidor. Despojadas de seus próprios artesãos, as famílias de posses passam a depender dos prestadores de serviço encontráveis no arraial mais próximo. Imigrantes pouco afeitos ao labor da terra engrossam a camada de profissionais urbanos, abandonando as fazendas e abrindo uma “porta de venda na rua”.

Apesar da crescente queda do poder aquisitivo, já que agora pagam por produtos e serviços antes disponíveis em suas próprias fazendas, os “coronéis” não admitem frear a derrocada com soluções caseiras. Alimentam a ilusão de um retorno às posições perdidas e continuam a sustentar seus filhos longe do amanho da terra. Empenham suas terras nas casas bancárias a troco de moeda que adie a queda final.

Enquanto isso, nos becos e vilas do povoado, sangue estrangeiro remodela a sociedade. No princípio vítimas de xenófobos olhares enviesados, mais adiante encarnações do escárnio mais desbragado, imigrantes ocupam pouco a pouco os mais variados postos de trabalho. Sufocados pelo íntimo pesar da saudade de uma terra distante, sem terem sequer um vocábulo próprio para traduzir tal sentimento, trabalham incessantemente em busca de um sonho: “fare l’america”, juntar dinheiro e voltar ao torrão natal.

Nem uns nem outros atingiram seus objetivos. Se os deserdados das oligarquias rurais não recuperaram antigos cabedais, tampouco a massa d’além mar conseguiu cruzar o Atlântico de volta. Raras as exceções!

E assim, oprimidos pela ordem econômica, aos poucos foram derrubando o muro da intolerância. O homem e a mulher “valem por si mesmos e não pela vaidade de carregarem um nome de antepassado”, já o disseram Olavo Bilac e Manoel Bonfim, em Através do Brasil, a pioneira obra paradidática genuinamente nacional.

Entre 1901 e 1924, quase metade dos casamentos realizados em Leopoldina envolviam imigrantes italianos. Em pesquisa amenos abrangente, pois realizada apenas em três cartórios, observa-se que 3/4 das crianças nascidas entre 1950 e 1954 tinham pelo menos um dos bisavós nascido na pátria de Dante Alighieri. Outras nacionalidades misturam-se ao sangue dos povoadores pioneiros desde que o Feijão Cru teve suas margens ocupadas pelo homem livre.

Se os deserdados do ouro fizeram nascer um povoado nos albores dos anos oitocentos, foram os imigrantes europeus do final do século XIX que modelaram a Leopoldina dos novecentos. As mazelas da cidade não são muito diferentes daquelas que afetam a maioria dos municípios brasileiros. Mas Leopoldina supera qualquer outra num quesito fundamental: a energia que bate em nosso peito é moldada pelos ares leopoldinenses.

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