Os Caminhos do Povoamento e a Origem da Vila Leopoldina

Aspecto ainda não estudado da história de Leopoldina, os Caminhos do Povoamento da zona da mata mineira estão sendo pesquisados em parceria por Nilza Cantoni e Joana Capella e deste trabalho foi extraído o material utilizado em palestra realizada no Cefet, campus Leopoldina, na abertura do II Festival de Arte e Cultura, neste ano de 2012.

O convite para encontrar-me com os profissionais da Educação que atuam em Leopoldina foi um grande presente. Ao longo do tempo eu venho colhendo dados e buscando interpretá-los à luz do conhecimento produzido pelos especialistas de diversas áreas, tendo chegado a algumas conclusões que gostaria de dividir com vocês. Hoje falarei sobre um estudo inédito que acredito ser importante para ampliar o conhecimento sobre a então Vila Leopoldina.

Localização de Leopoldina pela Google Maps

Neste recorte do Google Maps, destaquei os pontos importantes para o assunto de hoje: a localização de Ouro Preto, Mariana, Barbacena, Cataguases, Leopoldina, Cantagalo, Campos dos Goitacazes e Rio de Janeiro.

Agora viajaremos para 1847.

Cartografia produzida por João José da Silva Teodoro, concluída em 1847.

Esta cartografia[1] foi produzida por João José da Silva Teodoro e concluída em 1847. O original encontra-se na Biblioteca Nacional. Fazendo um recorte no mapa, verifica-se que a cartografia detalha os termos do Pomba, Presídio de São João Batista (atual Visconde do Rio Branco) e São João Nepomuceno:

termos do Pomba, Presídio de São João Batista (atual Visconde do Rio Branco) e São João Nepomuceno

Agora, vamos especificar um pouquinho mais.

No território do Termo de São João Nepomuceno, o distrito do Feijão Cru em destaque

No território do Termo de São João Nepomuceno encontra-se em destaque o distrito do Feijão Cru.

Procurando saber quem foram as pessoas que se estabeleceram no Feijão Cru[2], verifiquei que, à exceção de uma das primeiras famílias que aqui se fixaram, todas as que consegui identificar procediam de região agrícola. Donde se derruba um dos mais arraigados mitos da história de Leopoldina, ou seja, de que os povoadores eram deserdados do ouro.

Voltemos ao mapa completo de João José da Silva Teodoro.

Rio Paraíba do Sul na zona da mata mineira

Rio Paraíba do Sul

Rios Paraíba do Sul e Polmba na zona da mata mineira

Agora, o Rio Pomba.

Rio Novo na zona da mata mineira

Acrescentado o Rio Novo.

Rios da zona da mata mineira

Agora, o Rio Xopotó.

Rios da zona da mata mineira e o Caminho Novo

E o Caminho Novo.

rios Paraíba do Sul, Pomba, Novo e Xopotó, além do Caminho Novo à esquerda e das localidades de Ouro Preto, Presídio, Campos dos Goitacazes e Cantagalo.

Além dos rios Paraíba do Sul, Pomba, Novo e Xopotó, e do Caminho Novo à esquerda, acima destacamos as localidades de Ouro Preto, Presídio, Campos dos Goitacazes e Cantagalo.

Em lilás, o Caminho do CantagaloAcrescentado o provável percurso do Caminho do Cantagalo, mencionado em diversas Cartas de Sesmaria[3] e aberto pelas tropas de Pedro Afonso Galvão de São Martinho nas investidas de 1784[4] e 1786[5]. Pelo que nos foi dado apurar, o Caminho do Cantagalo foi o trajeto utilizado pela maioria dos povoadores do Feijão Cru e serviu de base para uma estrada de rodagem de São João del Rei a Cantagalo[6].

Em verde a Estrada Presídio-Campos

Prosseguindo, temos agora a Estrada Presídio – Campos dos Goitacazes[7], aberta por volta de 1812[8]. O trajeto desta estrada foi definido a partir de anotações colhidas em correspondência de Guido Marliére, referências em Cartas de Sesmarias[9], em Spix & Martius[10] e em Burmeister[11].

Feijão Cru e Meia Pataca

Localização dos arraiais do Feijão Cru e do Meia Pataca.

Rios, Caminhos e principais Trilhas.

Ampliando mais um pouco temos os rios, caminhos e principais trilhas do Feijão Cru.

Segundo Helena Guimarães Campos[12],

O estudo dos caminhos é determinante para a compreensão dos processos históricos, pois eles estão associados à exploração, ocupação e povoamento dos territórios […] A existência, a inexistência ou as condições dos caminhos traçam os rumos dos limites e das possibilidades da história dos povos, que tem ou não seus territórios articulados com outros.

Abordando as pesquisas realizadas sobre o Caminho Novo, o professor Ângelo Alves Carrara[13] informou que os Diários de Viagem dos Soldados Dragões demonstram que havia um caminho “vertebrador” e uma boa quantidade de variantes, sendo de notar que os soldados eventualmente faziam o percurso de ida por um trecho e na volta utilizavam outra variante, dando notícia precisa da distância entre cada parada que faziam.

Embora não tenhamos “diários de viagem” sobre os nossos caminhos, as referências encontradas na cartografia que pesquisamos indicam que o Caminho do Cantagalo e a Estrada Presídio-Campos dos Goitacazes também não eram uma via de percurso único. No caso do acesso a Cantagalo, temos referências sobre alternativas existentes em 1858, quando a viajante Ida Pffeifer o atingiu na altura da Aldeia da Pedra, hoje Itaocara[14].

Trilhando e abrindo novos caminhos, os povoadores do Feijão Cru foram ampliando sua área de influência, conforme podemos verificar no mapa seguinte.

Leopoldina, segundo os engenheiros Halfeld e Tschudi

Aí está um trecho de cartografia produzida pelos engenheiros Halfeld e Tschudi[15] e publicada em 1855, no qual destaquei o território que formou a Vila Leopoldina em 1854.

Pensar os nossos antigos caminhos é fundamental para compreendermos a nossa história. Por esta razão eu convido a todos para refletirem sobre a ocupação das áreas cortadas pelo Caminho do Cantagalo e pela Estrada Presídio-Campos dos Goitacazes. De onde vieram as pessoas que implantaram em nossa terra a lógica colonial? Quais eram as suas práticas culturais? Como se alimentavam? Como supriam as necessidades básicas de suas famílias? Por onde escoavam a produção? De que forma produziam riqueza?

Voltando o olhar para estes aspectos, as informações acumuladas nos fizeram chegar à imagem seguinte, montada a partir de topografia disponível no Arquivo Público Mineiro[16].

Território da Vila Leopoldina em 1854

Segundo Bloch[17], “textos ou documentos […] não falam senão quando sabemos interrogá-los”. Para Le Goff[18] a “memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”. Nosso trabalho tem tido como objetivo resgatar textos e documentos sobre a história de Leopoldina, analisando-os e divulgando-os para que todos tenham acesso.

a) Nilza Cantoni

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

[1] TEODORO, João José da Silva. Carta Topographica dos Termos do Presidio, Pomba e S. João Nepomuceno. 1847. Disponível na Biblioteca Nacional, Seção de Mapas, 2617.

[2] CANTONI, Nilza. Povoadores do Feijão Cru. In: História Social através da Genealogia. Comunicação apresentada no 2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. São João del Rei: 21 agosto 2011.

[3] Carta de sesmaria consultada no Arquivo Histórico Municipal Professor Altair Savassi, de Barbacena: MACHADO, José Joaquim Machado, Fundo PJ, Grupo 1SVC, Série AC. Caixa 42, Ordem 12.

Sesmarias consultadas no Arquivo Público Mineiro: Códice SC 275 [BRANDÃO, Manoel Carvalho / p. 164]; Códice SC. 352 [CARVALHO, Domingos Gonçalves de/ p. 73 v; MATTOS, Marcelino Pereira de/ p. 74 v; NICACIO, Antonio Dutra/ p. 78 v]; Códice SC. 377 [ANNA Margarida/p. 119; AZEVEDO, Manoel Ferreira de/p. 95; BAPTISTA, Joanna/p. 123; BARROS, Francisco Xavier de/p. 5; CARNEIRO, João Nepumuceno – sac/p. 136; CASTRO, Antonio José de/p. 93; CASTRO, Clara Maria de Sá e/p. 106; CASTRO, Jacintho Manoel de/p. 126; CASTRO, Maria do Carmo de/p. 121; CONCEIÇÃO, Maria Joanna da/p. 97; CONSTANCIA, Francisca/p. 107; CORREA, Je. Joaquim – sgt mor/p. 48; FERREIRA, José Lopes/p. 149; FIGUEIREDO, Luiza Alexandrina da Mota e/p. 80; GAMA, Francisco Xavier Monteiro da/p. 125; GAMA, Maria Balbina Monteiro da/p. 108; JOZÉ, Maria/p. 103; MARGARIDA, Eufrásia/p. 96; MATTOS, Matheus Herculano Monteiro da Cunha e/p. 124; MONTEIRO, Francisca de Assis/p. 129; MONTEIRO, José Maria/p. 105; MONTEIRO, Lucas Antonio/p. 92; MONTEIRO, Miguel Antonio/p. 102; MOTTA, José Luiz da/p. 81; OLIVEIRA, João José/p. 138; PAULA, Barbara Marcelina de/p. 47; PIMENTEL, Alexandre Pereira/p. 43; PIMENTEL, João Pereira alf./p. 42; SÁ, Ana Maria de/p. 120; SILVA, Francisco Antunes da/p. 140; SILVA, Joaquim José da (tem.)/p. 137; SOARES, João Teixeira/p. 139; SOUZA, Fernando José de Almeida e/p. 41].

[4] CARTAS do sargento-mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho para Luiz da Cunha Meneses, de São Manuel do Pomba, 12 de maio e 7 de agosto de 1784; da Margem do Paraíba, 22 de maio e 10 de junho de 1784; do Porto Novo do Cunha,  5 e 18 de junho de 1784; do Sertão do Rio Novo, 24 de junho de 1784. Disponíveis no Arquivo Público Mineiro, Coleção Casa dos Contos, caixa 13, item 10266; caixa 3, itens 10060, 10061, 10071, 10072.

[5] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: achegas para a história da zona da mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

[6] PLANTA da Estrada de Automóvel São João del Rei a Canta Galo, 1928. Disponível no Arquivo Público Mineiro, Fundo Secretaria de Agricultura, SA – 263(10) e MAPA de saída dos gêneros alimentícios de Cantagalo para Baependi, Sabará, Tamanduá, Barbacena, Pitangui, São João, Jacuí, Vila Rica, Caeté, Vila do Príncipe e Campanha, 30 de setembro de 1819, Coleção Casa de Contos, caixa 37, item 30094.

[7] PINTO, A. P. Mapa Topográfico do Povoamento da Ex-Vila do Presídio. 1854. Disponível no Arquivo Público Mineiro, Fundo Presidência da Província, PP 012.

[8] Em correspondência. ao Presidente do Conselho da Província, datada de 07.01.1826, Revista APM, vol. XI, pag 123, Guido Tomaz Marlière declara, sobre a Estrada de Minas aos Campos de Goytacazes: “Esta utilissima Estrada desde que se abrio em 1812, pela authoridade do Exmo. Governador e Capitão General Conde de Palma, não vio o menor concerto […] desde a Serra da Onça, no Prezidio de S. João Baptista, até o Registro da Pomba nossa fronteira em hua extenção de 33 leguas.” Afirma ainda que a estrada era utilizada pelos tropeiros para aprovisionar colonos dosTermos de Mariana, Barbacena e Caeté.

[9] Sesmarias consultadas: Códice 352 [ARAUJO, Manoel (Marçal) José de/p. 39; CABRAL. Francisco de Assis Ferreira/p. 60; CANDIDO, Antonio Gomes/p. 62; CANDIDO, Francisco de Paulo/p. 61; COSTA, Antonio Pereira da/p. 43 v; COSTA, Salvador Pereira da/p. 44 v; FRANCISCO, Antonio/p. 63; GODOY, Anna Joaquina de/p. 41 v; JARDIM, Manoel Roiz – sac./p. 39 v; MACHADO, Antonio da Cruz/p. 55; MELLO, Manoel Ignacio de/p. 33 v; MONTEIRO, Francisco de Assis Lopes/p. 34 v; MONTEIRO, João Procópio Lopes/p. 36; PICADO, José Marinho Lopes/p. 57 v; PINTO, Luiz Maria da Silva/p. 38; RIBEIRO, Diogenia Pereira (Izabel Dioguina Ribeiro Pereira de Vasconcelos)/p. 46; RIBEIRO, Joaquim José Lopes Mendes – padre/p. 35; ROCHA, Candido Joaquim da – sac./p. 32 v; SACRAMENTO, Joanna Umbelina Clara do/p. 37; UMBELINA, Anna Roza/p. 62 v; VASCONCELLOS, Fernando Pereira de/p. 49; VASCONCELLOS, Joanna Jacintha Pereira Ribeiro de Vasconcellos/p. 42 v; VELASCO, Francisco José Pereira de/p. 56]; Códice SC 363 [ARAUJO, Lucas José de/p. 114; COSTA, Joaquim Marques da/p. 137 v; FONSECA, Manoel Escorcia da/p. 9 v; GOMES, Antonio José/p. 15; MOREIRA, Antonio Marques/p. 178; MOREIRA, Francisco Antunes/p. 76 v; PIRES, Joaquim Correa/p. 73; VASCONCELLOS, Antonio Francisco/p. 8]; Códice SC 377 [ALMEIDA, Manoel Carlos de/p.202; COURA, Manoel Barbosa/p.85; FERREIRA, Joaquim de Freitas/p.165 ]. Disponíveis no Arquivo Público Mineiro.

[10] SPIX, Johann Baptista von e MARTIUS, Carl Friedrich von . Viagem pelo Brasil: 1817-1826. São Paulo: Melhoramentos, 1976

[11] BURMEISTER, Herman. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980

[12] CAMPOS, Helena Guimarães. Caminhos da História: Estradas Reais e Ferrovias. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012. p. 15

[13] CARRARA, Ângelo Alves. O Caminho Novo em 3D. Comunicação apresentada no 3º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. Conselheiro Lafaiete: 30 jun 2012

[14] LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e a Serra. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. p. 223

[15] HALFELD, Henrique Guilherme Fernando e TSCHUDI, Johann Jakob von. A Província Brasileira de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998

[16] Cartas Topográficas das cidades de Cataguases, Além Paraíba e Ubá, produzidas pela Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais, publicadas pela Seção Cartográfica da Companhia Melhoramentos, de São Paulo, em 1926 e 1927, folhas 18, 19, 20, 22 e 23.

[17] BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 79-80, 102-104

[18] LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2003. p. 471Os Caminhos do Povoamento e a Origem da Vila Leopoldina

Ordenamento Urbano

Na pesquisa realizada para o livro Nossas Ruas Nossa Gente, publicado em 2004, José Luiz Machado Rodrigues e eu analisamos diversos documentos administrativos do século XIX que nos permitiram chegar a algumas conclusões. Entre elas, destacamos um trecho do título Plano Urbanístico, página 13 da obra citada:

Pelo que se observa nos livros de Atas da Câmara de Leopoldina, entre 1876 e 1881 existia uma espécie de lei de uso do solo da cidade (citada nos livros simplesmente como Posturas Municipais) que previa a concessão de terras a quem nelas quisesse edificar, sob certas condições. Assim, as terras da área urbana que pertenciam à municipalidade não eram vendidas.  O requerente pagava apenas o direito de uso então chamado de “commisso” e que corresponderia ao laudêmio ainda hoje cobrado em diversas cidades brasileiras.

A 17.04.1880, conforme livro 7 fls 35 verso, o vereador Chagas Lobato propõe que o Fiscal providencie para que se saiba quais os terrenos concedidos a particulares para edificação não receberam ainda nenhuma construção e que sejam todos intimados a cumprir o acordo de cessão no prazo de seis meses, findos os quais os terrenos poderão ser concedidos a outros que os requererem. A proposta foi aprovada e foi decidido que seria publicada por editais.

Entre outras, encontramos referências a tais concessões na rua do Buraco, rua do Rosário, Harmonia, Concórdia e num local que acreditamos ser as Taboquinhas. O que nos leva a concluir que em toda a cidade, ou melhor, na área pertencente à municipalidade, as primeiras construções urbanas foram feitas em terrenos cedidos, sem direito de posse. E, por semelhança com um processo corrido contra um beneficiado do Arraial do Rio Pardo (Argirita), supomos que o “alvará” fosse renovado a cada três anos.

Observamos também que parte dos terrenos da municipalidade eram oriundos de uma doação feita por João Gualberto Ferreira Brito, de sua propriedade na fazenda da Grama, a qual veio juntar-se às doações de seu pai, Joaquim Ferreira Brito.

Outra fonte de consulta foi a Divisão de Quarteirões definida pelo então Subdelegado de Polícia Francisco Fortes de Bustamante, publicada na Gazeta de Leste de 11 de outubro de 1890, página 3. Sem guardar relação com os quarteirões definidos na década de 1830, que serviram de balizamento para a contagem populacional realizada no então Curato do Feijão Cru, a decisão do agente da ordem em Leopoldina estabelecia que a área urbana seria dividida em nove quarteirões que correspondem, aproximadamente, ao mapa a seguir:

Mapa dos Quarteirões de Leopoldina em 1890.

Em 1895, quando Lucas Augusto Monteiro de Barros era Agente Executivo Municipal , saiu a seguinte matéria no jornal O Leopoldinense, edição número 59, 28 de julho de 1895, página 2:

MELHORAMENTOS LOCAIS

Mais uma ocasião se nos oferece azada para aplaudirmos francamente a administração municipal.

Os nossos leitores terão visto na secção – Câmara Municipal, expediente do dia 15, publicada no nosso número passado, a resolução do digno Agente Executivo recomendando ao distinto Engenheiro Municipal o levantamento de planta e orçamento para demarcação de ruas e praças no morro que circunda a nova caixa d’ água, visto a Câmara ter de resolver sobre o assunto na próxima sessão ordinária.

Esta notícia é de molde a encher-nos da mais viva alegria. Com efeito, por pouco que se reflita sobre a topografia da nossa cidade e a colocação que teve a zona povoada, não pode deixar de concordar que a ideia que presidiu as primordiais edificações foi – se assim podemos exprimir-nos – uma espécie de obstrucionismo. Toda a preocupação dos antigos edificadores consistia em tapar os lugares por onde se poderiam estender as edificações – parece ter sido o propósito de opor uma barreira no desenvolvimento material da cidade, confinando-a no estreito brejal que se estendia do atual largo da Estação até a subida do cemitério.

E senão vejamos: – Na vargem do João Lourenço foi oposto um óbice à expansão da cidade, não se estudando previamente um projeto de arruamento que aproveitasse a belíssima situação onde se acha o Prado; mesmo assim, por esse lado possuímos a melhor rua que atualmente existe e com magníficas proporções para ser prolongada.

Do lado central da cidade não se aproveitou o vale que se estende desde as fraldas do morro da Forca até a subida do cemitério, passando pela atual chácara do Sr. João Izidoro. De outro lado deixou-se também sem proveito a extensa vargem do sítio do Padre Solleiro.

Uma rua, que, segundo consta-nos existiu há uns 15 ou 20 anos, que ligava os terrenos, onde hoje se acha a estação vindo sair no centro da cidade na rua Tiradentes, em frente à casa do Sr. Noronha, essa rua, nesse tempo, imperfeita estrada, mas que hoje poderia ser a nossa rua do Ouvidor, com grande vantagem para a Câmara, para o público e para os posseiros e foreiros dos terrenos que nem para pasto tem até hoje servido, essa rua dizemos nós – foi também vítima do obstrucionismo, foi tapada.

Supomos que nesses remotos tempos tinham o receio de ver espalhar-se o comércio e cada qual ia plantando cercas e obstáculos que obrigassem a escassa freguesia a vir lhe passar à porta.

Assim pensando, imaginem os leitores com que aplausos recebemos a ideia do Sr. Agente Executivo e com que afã esperamos que nossa Câmara Municipal se dedique a esses estudos.

Por sua parte os particulares, animados por essa iniciativa, começarão a compreender o quanto tem a lucrar com esse movimento. A expansão natural da cidade para a vargem do Desengano é ideia vencedora, e agora que a Câmara realiza o esgotamento do pantanal que ali existe, esses terrenos vêm oferecer um vasto campo de trabalho e talvez de operativas empresas aos seus proprietários.

Não nos julgamos maus profetas augurando um rápido progresso na povoação que se estabelecer no antigo morro da Forca; uma visita a esse local a qualquer pessoa convencerá de que ele está destinado a ser em futuro próximo o bairro mais apetecido da nossa cidade.

Terminando por hoje estas ligeiras, se bem que extensas considerações, pedimos permissão para lembrar um nome para substituir a designação com que é conhecido o morro.

Não vai nisto precipitação, pois que, – mesmo independente de realizar-se a abertura de ruas e praças de que agora se inicia o projeto, aquele local, dotado da magnífica caixa d’ água cujos trabalhos preliminares já o público conhece, tornar-se-á um ponto atrativo de frequência.

Lembramos, pois, que seja chamada – Monte Lucanio – toda a extensa colina, limitada pela estrada que vai da estação para os lados de Vista Alegre, rua das Tabocas e fundos das casas das ruas Tiradentes e Cotegipe.

Proponho este nome, que fica uma designação sonora e distinta, e ligando a um bairro da cidade o nome do seu atual administrador, o fazemos com o intuito de que fique consignado nas recordações populares um período de renascimento, de melhoramentos no nosso município, e porque essa designação, em vez de tornar-se uma recordação pessoal, simbolizará perfeitamente toda a corporação municipal que tem funcionado neste período e fará lembrados ao povo o nome de todos aqueles que com seus votos, seus estudos, seus esforços, capitais e trabalho houverem concorrido para tão importantes melhoramentos; ele simbolizará perfeitamente uma época de trabalho e progresso.

O Morro dos Pirineus não passou a chamar-se Monte Lucanio como queria o articulista. O nome do administrador municipal foi perpetuado na rua que liga a Praça Professor Botelho Reis à Alameda Dom Delfim Ribeiro Guedes.

Procuração de Imigrantes

Aqui está mais um documento do Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, que infelizmente ainda não se encontra disponível para consulta. Trata-se de uma procuração passada no Cartório de Notas de Pirapetinga, MG por Giuseppe Vincenzo Mercadante e sua mulher Marina Dause.

Transcrição:

Procuração bastante que fazem José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause como abaixo se declara. Saibão quantos este publico instrumento de Procuração bastante virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e oitenta aos dose dias do mes de Março do dito anno, nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga, termo de Leopoldina Provincia de Minas em meu cartorio perante mim escrivão de Paz deste Freguesia comparecerão como Outhorgantes José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause moradores deste Freguesia e reconhecidos de mim Escrivão e das duas testemunhas ao diante assignadas ao que dou fé; perante ao quaes por elles me foi dito que nomeavão seu bastante Procurador na Italia a Mighel Detrick para por elles Outhorgantes passar e assignar conseção e licença que elles Outhorgantes consedem para seu filho Antonio Mercadante casar-se com Dona Rosa Demark filha de Vicente Dimak e Francisca Ragaon por ser muito de suas vontades para que lhe consede os poderes que forem precisos. Assim o disserão ao que dou fé; e me pedirão este instrumento que lhe li aceitarão e por elles Outhorgantes não saberem escrever pedirão a Antonio Botelho de Lima que a seus rogos asssignasse com as testemunhas presentes e abaixo assignadas, deste Freguesia e reconhecidas de mim José Victor Ramos, escrivão que a escrevi e assigno em publico e raso. Em ttº de verd. José Victor Ramos Antonio Botelho de Lima Testª Serafim Alves da Costa Francisco Jose Pires

Livro do Cartório de Notas de Pirapetinga, MG, relativo ao período 12.1879 a 07.1880, folhas 29 verso e 30

Alistamento Militar em Pirapetinga

No Arquivo do Câmara Municipal de Leopoldina encontramos um Livro de Alistamento Militar relativo a moradores de Pirapetinga em 1875.

Fizemos a coleta de nomes e demais dados ali disponíveis, para auxiliar os pesquisadores que, mesmo indo até a cidade, teriam dificuldades para localizar este documento, uma vez que até então não foi organizado o citado Arquivo.

Esperamos que brevemente as autoridades municipais de Leopoldina decidam, finalmente, criar o Arquivo. Enquanto isso, convidamos os interessados a conhecer o conteúdo do documento.

Antigos Eleitores de Leopoldina

Uma fonte muito procurada por pesquisadores é o Alistamento Eleitoral. No caso de Leopoldina, tenho sido consultada sobre a localização de tal documento e ainda não posso indicar o Arquivo Público pelo simples fato de que, apesar de inúmeras tentativas, os administradores ainda não decidiram organizá-lo.
Nele se encontram os eleitores presentes à Assembléia de 06.11.1859, do 18º distrito Eleitoral da Província de Minas Gerais, realizada na sede do distrito, a cidade de Leopoldina, Minas Gerais.
Compunham o colégio eleitoral os cidadãos com renda superior a 200$000 anuais, moradores das seguintes localidades:
Vilas Leopoldina e Mar de Espanha;
Freguesias da Meia Pataca, Conceição da Boa Vista, São José do Paraíba, Santo Antonio do Aventureiro, Rio Novo e São Paulo do Muriaé;
Distritos: Espírito Santo, Bom Jesus do Rio Pardo, Madre de Deus do Angu, Nossa Senhora da Piedade, Capivara e Laranjal.