130 – Primeiros impactos: a chegada do Trem e o desenvolvimento

O Trem de História hoje vai falar do Trem real e dos impactos provocados com a sua chegada.

É evidente que o braço escravo contribuiu muito para o desenvolvimento das fazendas da região. Mas é certo, também, que na década de 1870 começaram a ocorrer modificações estruturais importantes no processo de urbanização da região, desencadeadas com a abertura da Estrada de Ferro Leopoldina.

Segundo o Recenseamento de 1872[1], no município de Leopoldina, que na época incluía Angustura e os atuais municípios de Argirita, Cataguases, Laranjal, Miraí, Pirapetinga e Recreio, existiam 4.853 propriedades rurais com uma população total de 46.900 pessoas. Entre as freguesias que compunham o município, São Sebastião da Leopoldina tinha a maior área territorial, a maior população e fontes[2] de 1856 mostram que era também onde se encontrava o maior número de grandes propriedades.

É bom lembrar que os trilhos da Estrada de Ferro começaram a chegar pelas estações ferroviárias de Porto Novo (Além Paraíba), Pântano (depois Antônio Carlos e atual Fernando Lobo), Volta Grande, São Luiz (Trimonte) e Providência, em 1874; São Martinho, em 1875; Santa Isabel (Abaíba), Recreio e Campo Limpo (Ribeiro Junqueira), em 1876; Vista Alegre, Leopoldina e Cataguases, em 1877; São Joaquim (Angaturama), Aliança (Cisneiros) e Palma, em 1883; Banco Verde, em 1884; e, Morro Alto (Barão de Monte Alto), em 1885. E foi a partir daí que chegaram a essas comunidades urbanas os serviços de água encanada, esgoto e energia elétrica, o que provocou grandes mudanças.

Com o trem começou, também, a chegar a nova força de trabalho, representada pelos imigrantes, o que modificou profundamente a economia local. No início, através do sistema de colonato implantado nas fazendas, com a circulação de mercadorias ainda sob o poder dos mesmos comerciantes do período escravista que logo tiveram que mudar de postura, forçados pela demanda do imigrante que chegara com outros valores e outra socialização.

A partir de então, não era mais somente o feitor que se dirigia ao ponto de venda em busca dos suprimentos que mantivessem em funcionamento a fazenda. Com trabalhadores remunerados, os fazendeiros não podiam mais determinar a aquisição de certos produtos de fornecedores previamente acordados, porque o imigrante passou a decidir onde e quando comprar. E em sua ânsia de fare l’America, impunha todo tipo de sacrifício para sua família, tendo por catecismo a necessidade de poupar sempre. E se o preço cobrado ou as condições do negócio lhe pareciam inadequadas, era o imigrante que decretava o fim do consumo daquele produto, o que obrigava o comerciante e rever seus conceitos.

Outra novidade que trouxe grande contribuição para a rápida mudança do panorama foi o sistema de contratação. Os trabalhadores realizavam um sem número de tarefas extras, sempre remuneradas à parte. Por vezes o chefe da família imigrante alugava sua própria força de trabalho para atividades extraordinárias como a derrubada da mata, o fabrico de móveis ou a construção de casas, enquanto a esposa e os filhos cuidavam da manutenção das “ruas de café” pelas quais assumira compromisso com o proprietário da fazenda.

Além disto, ao ser contratado o colono passava a ter direito a um pedaço de terra onde podia plantar os víveres de que necessitasse, o que possibilitava vender o excedente.

A forma de encarar o trabalho e a ferrenha vontade de vencer do imigrante modificaram substancialmente a economia do município. Mudanças com reflexos evidentes, principalmente no modo de produção e nas relações de trabalho e consumo que resultaram, nos anos seguintes, em profunda alteração na vida sócio-econômica de Leopoldina e, acredita-se, de todas as cidades que receberam grande número de trabalhadores livres naqueles últimos anos do século XIX.

No final dos oitocentos, em Leopoldina alguns imigrantes já não trabalhavam em propriedades particulares, mas numa colônia organizada pela Câmara Municipal[3]. Se no início eram colonos lavradores, logo passaram a atuar como pequenos artesãos e comerciantes de verduras, legumes e frutas. A consequência desta modificação no sistema de produção parece ter se refletido na cidade, abrindo novos mercados de trabalho e oportunidades para o estabelecimento de uma relação de emprego e renda que influenciou diretamente a economia local.

Não são poucas as obras que abordam o crescimento das periferias, promovido pela migração interna conhecida como êxodo rural. A família que deixa a área rural vai residir em áreas no entorno do núcleo do povoado e passa a atender às necessidades dos moradores locais, exercendo atividades tão variadas quanto a construção de pequenos artefatos em madeira, o plantio e venda de frutas e verduras, atividades da construção civil etc.

Tais práticas indicam a junção de vários fatores que promoveram, no caso de Leopoldina, o crescimento de áreas como o bairro Ventania ou, Quinta Residência, que surgiu às margens do antigo leito da Rio-Bahia, desenvolveu-se com a instalação da Residência do DER-MG e transformou-se num bairro bastante populoso, embora antes mesmo da abertura da antiga rodovia ali já estivessem residindo diversas famílias de imigrantes.

A história não para, mas o Trem precisa fazer uma pausa. Ele volta com nova carga no próximo número do Jornal. Aguardem!


Fontes de referência:

1 – Recenseamento do Brasil em 1872. Segunda Parte: Província de Minas Gerais. Publicação do Serviço Nacional de Estatística.

2 – Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, Registros de Terras TP 97, 114, 120, 121, 151 e  155 ; Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro,  Registro de Terras da Paróquia de Santo Antônio de Pádua.

3 – Os livros contábeis da Câmara Municipal de Leopoldina, relativos ao último decênio do século XIX, registram pagamentos de víveres e objetos adquiridos de imigrantes da Colônia Santo Antônio.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 383 no jornal Leopoldinense de 28 de junho de 2019

 

116 – Alfredo Funchal Garcia, o irmão engenheiro

Até aqui não se sabia que o terceiro filho de Alfredo Garcia Ribeiro e Mariana dos Prazeres Funchal, nascido[1] em Leopoldina no dia 02 de janeiro de 1885, tinha trabalhado[2] nas instalações telefônicas de Paranaguá e Rio Negro, no Paraná. Hoje se conhece isto e um pouco mais.

Alfredo era Engenheiro eletricista, em 1912 foi contratado pela Fernandes & Co, de propriedade de Paulino Fernandes, Aurélia Tanneg e Ignacio D. de Carvalho, para dirigir os trabalhos de instalação do serviço telefônico em Cataguases, Muriaé e Palma, em Minas Gerais, assim como em Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio.

Em 1922 era chefe[3] da secção de eletricidade da Secretaria de Agricultura do Espírito Santo, cargo que o levou a constantes viagens dentro do estado e também para o Rio de Janeiro.

É de se destacar, ainda, um relato[4] publicado em jornal de Conselheiro Lafaiete que se transcreve com a ortografia da época:

“De há muito que se tornou assumpto obrigatório em rodas de inteligentes a discussão sobre a radiographia e a radiophonia. Entretanto, até há poucos dias, o assumpto não era de nosso pleno conhecimento, pois, se bem que já houvéssemos lido muito e muito escutado sobre o assumpto, não nos tinha sido proporcionada a ocasião de ver um desses aparelhos e ver o seu funcionamento, se bem que já houvéssemos tido ocasião de ouvir, por uma gentileza dos Srs. João Hallais de Oliveira e Brandimarte do Valle, algo cantado no Rio, por intermédio do aparelho que o primeiro desses senhores tem funcionando em Buarque[5], mas pela linha da Comp. Telephonica de Queluz, cuja ligação nos permitiu amavelmente o segundo. Só há bem pouco, no ‘Meridional-Hotel’, conseguimos ver um desses apparelhos funcionar, quando ali se encontrava hospedado o Sr. Alfredo Funchal Garcia, residente no Rio à rua Maris e Barros n. 294, atencioso representante da Red-Corporation, com sede no Rio de Janeiro, e da General Eletric, também com sede no Rio, á Avenida Rio Branco ns. 60 a 64.

[…]Agora, porém, o nosso Municipio já possue diversos aparelhos radiophonicos. Tem o do Sr. João de Oliveira, em Buarque. Outro existe na Comp Santa Mathilde, o qual, segundo nos asseveraram, ainda não conseguiu funcionar perfeitamente.

Em Congonhas do Campo formou-se uma sociedade, que adquiriu um desses modernos aparelhos, que, nos informam com segurança, está funcionando perfeitamente. O Dr. Victorino dos Santos Ribeiro, ainda é informação que temos, vae colocar um desses aparelhos em sua residência. Para o Meridional-Hotel, o Sr. Leonidio Dias também já adquiriu um magnifico aparelho, dos mais modernos e potentes, o qual está funcionando regularmente.”

Como se vê, o leopoldinense Alfredo Funchal Garcia participou da difusão de um meio de comunicação que representou, para a época, o equivalente ao que a rede mundial de computadores passou a representar nos últimos vinte anos. E não foi só isso. Em 1926, Alfredo estudava[6] a implantação de uma usina hidroelétrica em Conselheiro Lafaiete (MG), para fornecer força e luz ao distrito de Morro do Chapéu daquele município.

Em 1938, era professor[7] do Gymnasio de Porto Novo do Cunha, da cidade de Além Paraíba, onde se tornou sócio fundador[8] do Aero-Clube local, em junho de 1943, fazendo parte da primeira diretoria com o cargo de diretor de material.

A história de Alfredo fica por aqui. Mas a dos irmãos Funchal Garcia continuará na próxima edição, quando o Trem de História trará o caçula, João Funchal Garcia, que se destacou noutra atividade. Até lá.


Fontes consultadas e nota:

1 – Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 128 termo 1214.

2 – A Imprensa. Rio de Janeiro, 27 jun. 1912, ed 1638, p. 7, coluna 1

3 – Diário da Manhã. Vitória, ES, 23 mar. 1922 ed 183 p. 3 coluna 2.

4 – Correio da Semana. Queluz de Minas, MG, 26 de março de 1925 ed 517 p. 4 colunas 2/3.

5 – Buarque é a forma simplificada de Buarque de Macedo, distrito de Conselheiro Lafaiete (MG).

6 – O Jornal. Rio de Janeiro, RJ, 14 nov. 1926 ed 2433 p. 10 coluna 8.

7 – Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, RJ, 17 jul. 1938 ed 167 p. 8 coluna 5.

8 – O Jornal. Rio de Janeiro, RJ, 29 ju.1943 ed 7373 p. 2 coluna 2.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 368 no jornal Leopoldinense de 1 de dezembro de 2018

98 – Costa Cruz – Cecília, Francisco e Ana Tereza Martins da Costa Cruz

Este vagão do Trem de História traz algumas informações de mais três filhos de Joaquim José e Ana Joaquina. Lembrando que ainda permanecem, quanto a alguns dos filhos do casal, lacunas que se espera sejam preenchidas com o caminhar das pesquisas. Mas para que não se percam os dados apurados, ficam aqui registrados.

Cecília Martins da Costa Cruz, a sexta filha do casal nasceu em 1859, em Leopoldina[1]. Casou-se com Luiz Bueno e, após enviuvar-se, em segundas núpcias, em 13.01.1883, casou-se com Luiz de França Viana[2], filho de Felicíssimo de Souza Viana e Maria.

Sobre ela pouco se conseguiu reunir além de uma história triste, contada por Mário de Freitas no seu livro “Leopoldina do Meu Tempo”, páginas 41 e 42. Conforme o autor, no segundo casamento Cecília teve uma filha de nome Anita que morava no Rio de Janeiro e teria cometido suicídio, em decorrência de problemas no casamento com um médico da Marinha. Quando a avó, Cecília, foi buscar os netos, filhos de Anita, encontrou os dois deitados ao lado do corpo da mãe e um deles estava morto, provavelmente por falta de alimentação já que o pai estava foragido.

Ana Tereza Martins da Costa Cruz é o nome da sétima filha do casal Joaquim José e Ana Joaquina, indicada por diversos pesquisadores como tendo nascido em Leopoldina na década de 1860. Seu batismo não foi localizado, nem tampouco o casamento com seu primo Joaquim Martins da Costa Cruz. Desta forma, não foi possível identificar qual dos sobrinhos de Joaquim José teria sido, também, seu genro.

Francisco Martins da Costa Cruz, o oitavo filho do casal Joaquim José e Ana Joaquina, nasceu em Leopoldina[3] em 1862. Em julho de 1889 foi nomeado[4] 2º suplente de delegado de sua terra natal. Em 1892 era eleitor em Leopoldina e três anos depois se transferiu para Cataguases[5]. Em Leopoldina do Meu Tempo, página 42, Mário de Freitas a ele se refere como Nhô Chico.

Vale ressaltar que as terras da família Costa Cruz eram às margens do Rio Pomba, próximas de Cataguases, razão pela qual parte da família naturalmente acabou por fixar residência na cidade vizinha. Da mesma forma que os habitantes de Vista Alegre, que estão do outro lado do rio, em função do ramal da estrada de ferro e a menor distância, em boa parte se ligaram a Leopoldina.

Francisco Martins casou-se com Olímpia Figueira com quem teve os filhos:

1 – Joaquim, nascido[6] em Leopoldina em 1884, foi casado com Maria da Glória Martins dos Santos e em segundas núpcias com Zenar Macedo. Joaquim estudou em Ouro Preto[7] e foi promotor público em Cataguases[8].

2 – Placidina nasceu[9] em Leopoldina em 1885 e faleceu[10] em 1970. Segundo Pedro Vidigal, casou-se com Edelberto Figueira nascido em Valença, RJ e falecido em Além Paraíba, MG. Ele era filho de Francisco Bernardo da Figueira e de Brígida Maria. O casal foi pai de Emília Costa Cruz Figueira, nascida[11] em 1909 e que se casou João Moojen de Oliveira. Ele, nascido em 1904 em Leopoldina e falecido em 1985 no Rio de Janeiro, era filho de Luiz Carlos de Oliveira e Julieta Moojen. Segundo Fernando Dias Ávila Pires, no texto Personagens e Pioneiros da Universidade Federal de Viçosa, João Moojen, que não usava o sobrenome de Oliveira e dispensava o título de Professor Doutor, foi figura marcante na zoologia brasileira do século XX. O autor informa, ainda, que o cientista J. M. Oliveira deixou quatro filhos, nascidos em Leopoldina, doze netos e dois bisnetos.

3 – Dalila (n.1892)[12], casou-se com José Ribeiro Viana.

4 – Nadia (n.1895)[13], casou-se com João Batista de Souza Lima.

5 – Francisco (n1901)[14], casou-se com Maria Leitão de Sá.

6 – Angelo (n.1903)[15], casou-se com Maria Helena Ladeira Campos.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. No próximo número virão os dois últimos filhos de Joaquim José e Ana Joaquina. Até lá.


Fontes Consultadas:

[1] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 01 bat fls 44 termo 235.

[2] idem, lv 1 cas fls 79 termo 225.

[3] idem, lv 01 bat fls 92 termo 498

[4] Irradiação (Leopoldina, MG), 24 julho1889, ed 74 p 3.

[5] Alistamento Eleitoral de Leopoldina século XIX, Atas de Eleição.

[6] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 115 termo 1088.

[7] O Pharol (Juiz de Fora), 4 jan 1903 ed 465 p 1.

[8] VIDIGAL, Pedro Maciel. Os Antepassados. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979 e 1980. v 2 tomo 2 1ª parte p 941.

[9] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 02 bat fls 156v termo 1500.

[10] VIDIGAL, obra citada, v 2 tomo 2 1ª parte p 943

[11] idem, v 2 tomo 2 1ª parte p 943

[12] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 04 bat fls 79 termo 937.

[13] idem, lv 05 bat fls 79v termo 323.

[14] VIDIGAL, obra citada, v 2 tomo 2 1ª parte p 949

[15] Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 10 bat fls 6v termo 59.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 351 no jornal Leopoldinense de 15 de março de 2018

97 – Costa Cruz – Dilermando, vida e obra

Pensando nas ideias progressistas que buscavam soluções para o fim da escravidão e na ideia inovadora dos engenhos centrais que surgiram nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, e que chegou a Leopoldina com a criação do Engenho Central Aracaty, o Trem de História remexe o material dos baús que superlotam os vagões e destaca para a viagem de hoje o notável jornalista, escritor e poeta Dilermando Martins da Costa Cruz.

Assim, hoje se vai recordar um pouco sobre sua família e abordar a sua trajetória como o homem de letras que foi.

Dilermando nasceu em Leopoldina em 1879 e faleceu em 1935, em Juiz de Fora. Era filho de Custódio José Martins da Costa Cruz e Gabriela Augusta de Souza Lima da Costa Cruz. Neto paterno de Joaquim José da Costa Cruz c.c. Ana Joaquina Martins da Costa e, materno, de João José de Souza Lima c.c Carlota Raquel de Souza Barroso. Ainda por parte de mãe, era bisneto de Euzébia Joaquina de São José, falecida em Leopoldina, e que foi proprietária de fazenda que deu origem ao atual município de Dona Euzébia.

Dilermando casou-se com Maria Antonieta Lobato da Costa Cruz a quem dedicou o seu livro POESIAS:

“Santa – que minha vida fazes calma

E tão cheia de encantos e alegrias;

A ti, querida, e aos filhos de noss’alma.”[1]

 Era pai, dentre outros, do médico, prefeito de Juiz de Fora, deputado estadual e federal, secretário de Viação e Obras Públicas de Minas Gerais e juiz-forano, Dilermando Martins da Costa Cruz Filho [2].

Dilermando fez os primeiros estudos na sua terra natal. Estudou também em Ouro Preto e Barbacena. Moço formado, voltou para Leopoldina e iniciou sua carreira jornalística escrevendo para a Gazeta de Leopoldina e para a Folha de Leste. Aos vinte anos tornou-se empresário ao inaugurar [3] o Externato de Instrução Primária e Secundária e um Curso Noturno para adultos. Nesta mesma época, foi nomeado suplente de Inspetor Escolar Municipal [4], seu livro “Primeiras Rimas” já circulava e o segundo, “Diaphanas”, já estava à venda [5].

Em novembro de 1900, foi nomeado Promotor de Justiça [6] de Leopoldina. Dois anos depois, tornou-se Secretário de Comissão do Partido Republicano [7]. Fixando-se em Juiz de Fora, foi redator-chefe do Correio da Tarde [8], jornal que circulou algum tempo na “Manchester Mineira”, onde trabalhava em 1907.

Poeta brilhante, conforme cita o Dr. Joaquim Custódio Guimarães, na palestra Escritores Leopoldinenses, em 1986, publicou os livros: Primeiras Rimas, em 1896; Diáfanas, em 1898; Poesias, em 1909; e, Bernardo Guimarães, em 1910. Em prosa, deu a lume um caderno, que intitulou Palestras Literárias. Na época em que se verificaram as chamadas conferências de salão, espécie de jornal falado, foi notável. Estudou diversos temas – “O Belo”, “Saudades”, “Fontes”, “Caridade”, “Árvores” e vários outros, todos enfeixados em volume. Deixou um romance O Anacoreta, infelizmente inédito. Usou os pseudônimos: D.C., Diler e Celso Dinarte. Deixou obras literárias publicadas nos jornais mineiros: A Folha e Cidade de Barbacena; Gazeta de Cataguazes; Jornal do Commercio (de Juiz de Fora); Gazeta de Leopoldina, Mediador, Leopoldinense e Reação (de Leopoldina). Na imprensa carioca: Jornal do Brasil, O Paiz e Gazeta de Notícias [9].

Nelson Sodré lembra que [10], para Silvio Romero, “no Brasil […] a literatura conduz ao jornalismo e este à política”. Dilermando Martins da Costa Cruz é um exemplo clássico desta conclusão. Tipógrafo na Gazeta de Leopoldina, em seus primeiros anos publicou vários de seus poemas neste jornal. Foi uma vida de poeta, escritor e jornalista bastante intensa.

Por outro lado, sua atuação política transparece desde o início de sua carreira jornalística, em Leopoldina, bem como a de Estevam de Oliveira que fundou na mesma cidade o jornal O Povo em 1885. Ela se acentua em julho de 1907, conforme nota na edição 171 d’O Pharol, página 2, quando os dois literatos levantaram, em seus respectivos jornais Correio da Tarde e Correio de Minas, a candidatura à reeleição como presidente da Câmara do Dr. Duarte de Abreu, candidato de oposição ao governo local. Um exemplo entre os inúmeros outros que podem ser encontrados nos jornais da época, demonstrando a atividade político partidária destes dois representantes da imprensa leopoldinense.

Dilermando Martins da Costa Cruz foi um dos fundadores da Academia Mineira de Letras e, em 2010, foi escolhido Patrono da Cadeira nº 15 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA, ocupada por Natania Nogueira.

Por uma questão de espaço faz-se necessária mais uma interrupção. Uma parada para reabastecimento. Mas no próximo número a história dos Costa Cruz continuará. Aguardem.


Fontes Consultadas:

1 – CRUZ, Dilermando Cruz. Obras Completas. Rio de Janeiro: Typ. Jornal do Commercio, 1926. v. I, p. 161

2 – FGV/CPDOC. Disponível em <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/dilermano-martins-da-costa-cruz-filho&gt;. Acesso em 16.12.17.

3 – Gazeta de Leopoldina, 22 jan 1899 ed 41 p 1.

4 – idem, 4 junho 1899 4 junho ed 8 pag 1.

5 – idem, 9 abr 1899 ed 52 pag 1.

6 – O Pharol (Juiz de Fora), 6 nov 1900 ed 48 p 1.

7 – idem, 11 nov 1902 ed 419 p 2.

8 – idem, 10 out 1907.

9 – BARBOSA, Leila Maria Fonseca e RODRIGUES, Marisa Timponi Pereira (orgs.). Notícias da Imprensa sobre a Academia Mineira de Letras. Juiz de Fora, FUNALFA, 2009. p.23

10 – SODRÉ, Nelson Werneck. A História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, p. 212

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 350 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2018

95 – Joaquim José da COSTA CRUZ: Onde tudo começou

O nome de Vista Alegre, além de recordar os versos e música do Serginho do Rock “se você está triste, Vista Alegre!…” remete, também, ao trem de verdade, à Maria Fumaça que trazia e levava o progresso pelos trilhos da inesquecível Estrada de Ferro da Leopoldina. E para aproveitar estas lembranças gostosas, o Trem de História começa hoje uma viagem pela família COSTA CRUZ e o Engenho Central Aracaty que a ela pertenceu, vizinhos da hoje abandonada Estação Ferroviária de Vista Alegre.

Para isto promete trazer, nos próximos vagões, um pouco da genealogia e do passado desta família, seus vínculos com o lugar e com as terras das duas margens do Rio Pomba, nos municípios de Leopoldina e Cataguases. Promete recordar o Engenho Central Aracaty, que parece ter emprestado seu nome ao atual distrito vizinho, Aracati.

O Aracaty foi um dos poucos Engenhos Centrais criados em solo mineiro e fazia parte de política do governo para melhorar a qualidade e alavancar a exportação do açúcar brasileiro, segundo Roberta Meira. Além de trazer informações sobre o empreendimento, a série que ora se inicia promete trazer para os dias de hoje o nome, a obra e a história do leopoldinense Dilermando Martins da Costa Cruz. Um esquecido professor, empresário, promotor de justiça, poeta brilhante, jornalista e escritor. Um dos fundadores da Academia Mineira de Letras e, hoje, patrono da Cadeira nº 15 da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes.

Pois a viagem com a família “COSTA CRUZ” começa com Joaquim José da Costa Cruz, nascido por volta de 1816 e falecido em 24.06.1881, em Leopoldina. A mais antiga referência a ele encontrada em Leopoldina é o batismo de um filho de escravos seus, ocorrido em maio de 1855.

Sabe-se que Joaquim José era casado com Ana Joaquina Martins da Costa, filha de Manoel Martins da Costa Neto e Teresa Maria de Jesus, neta paterna de Manoel Martins da Costa Filho e Maria do Carmo Ferreira Cabral.

Em 1856, Joaquim declarou ser proprietário de aproximadamente 180 alqueires de terras nas vertentes do Rio Pomba, em Leopoldina, tendo como vizinhos: Albina Joaquina de Lacerda (Fazenda Benevolência); João Gualberto Ferreira Brito (Fazenda Fortaleza); e, terras dos Barbosa, possivelmente localizadas mais para os lados da Vargem Linda (Piacatuba).

Joaquim José e Ana Joaquina foram pais de: 1 – Teresa; 2 – Maria do Carmo; 3 – Rita; 4 -Custódio José; 5 – Manoel; 6 – Cecilia; 7 – Ana Tereza; 8 – Francisco; 9 -; 10 – Armando; e, 11 – Antonio Martins da Costa Cruz.

A primeira filha, Teresa Martins da Costa Cruz c/c João Batista Martins Guerra, filho de Quintiliano Martins da Costa e Maria Perpétua Rodrigues Guerra, que chegou a ser nomeado Juiz Municipal em 1873. O casal, Tereza e João teve, pelo menos, os filhos nascidos em Leopoldina: Armando matriculado no Colégio Caraça em 1878; Joaquim Martins Guerra, (n.1867) que se casou com a prima Cornélia Martins da Costa Cruz, filha de Antonio Martins da Costa Cruz e Carlota Rodrigues; Laura, (n.1868); Cecilia, (n.1879); Quintiliano que residia em Leopoldina em 1891; e, Laudelina c.c. Manoel Olimpio da Costa Cruz, filho de tio Antonio e Carlota, tios de Laudelina. Do casal Laudelina e Manoel são os filhos Eduardo e Joaquim. Este último, (n. 1898) em Leopoldina, foi prefeito de Cataguases.

A segunda, Maria do Carmo Martins da Costa Cruz, casou-se com Antonio José de Lima Castello Branco e com ele teve onze filhos, conforme indicado por Pedro Maciel Vidigal e dos quais foram identificados apenas os quatro a seguir, nascidos em Leopoldina: 1 – Aristides, (n.1867), c/c com Alice Spinelli com quem teve o filho Antonio. Numa segunda união, com Judith Cunha, teve os filhos Elisiário e, Judith da Cunha Castelo Branco que se casou com seu primo Luciano Jacques de Moraes; 2 – Alfredo, (n.1869), c/c Elvira Ferreira da Fonseca. Pais de Candida c/c Alfredo João Mayall; Antonio c/c Beatriz Saldanha da Gama Frota; Clotilde c/c Eugênio Pirajá Esquerdo Curty; Enéas c/c Ana da Rocha Ribas; Marcelo c/c Maria de Lourdes de Souza Lima; Sofia c/c Manoel Iberê Esquerdo Curty; Elvira, homônima da mãe, foi uma das esposas de seu primo Luciano Jacques de Moraes acima citado. 3 – Acacio, (n.1873) c/c Clotilde Ferreira da Fonseca Cortes e em segundas núpcias, com Maria Lucila de Almeida Magalhães; e, 4 – Ana, (n.1884) de quem não se tem outras informações.

Aqui é necessário que se faça uma pausa. Na próxima edição a história dos descendentes do Joaquim José da Costa Cruz continuará. Aguardem!


Fontes Consultadas:

Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv orig misto fls 9 e lv 01 bat fls 19 termo 98, fls 194 termo 932, fls 210 termo 1008, fls 233 termo 1116, fls 266 termo 1275; lv 02 bat fls 23 termo 202, fls 166v termo 1572

Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, nr 24.

Cemitério Público de Leopoldina, MG Livro 1880-1887, folhas 5 sepultura 118.

Colégio do Caraça, Livro de Matrículas, nr. 1164

Gazeta de Leste Leopoldina, MG), 17 jan 1891 ed 16 pag 3.

MEIRA, Roberta Barros. Os louvores ao açúcar nas terras do café: o crescimento da produção açucareira paulista e fluminente entre 1875-1889. Revista Territórios e Fronteiras. Campo Grande-MT, v.2 n.1, p.6-26, Jan/Jun 2009. p.8

VIDIGAL, Pedro Maciel. Os Antepassados. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1979 e 1980,. v 2 tomo 2 1ª parte p 804.

PORTO, Elisa de Moraes Sobrino. Frondosas Árvores Raízes da Mineiridade. Rio de Janeiro: Razão Cultural, 1998. p. 249.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 348 no jornal Leopoldinense de 1 de fevereiro de 2018

Posturas Municipais de Leopoldina para Cataguases

Conforme mencionado na postagem de 20 de abril último, as Posturas Municipais de Leopoldina foram adotadas em Cataguases a pedido da Câmara Municipal do município vizinho. A nota abaixo saiu na Seção Governo Provincial do jornal Liberal Mineiro, relativa ao extrato do expediente da Secretaria de Governo do dia 4 de maio.

Câmara Municipal de Cataguases pede para adotar as Posturas Municipais de LeopoldinaDestaque-se que, embora a nota mencione o caráter provisório, na realidade o Código de Posturas Municipais de Leopoldina, aprovado em 1856, foi adotado definitivamente pela Câmara Municipal de Cataguases. Posteriormente publicaremos estas normas e algumas das alterações posteriores.