Outro ferroviário: José Vaz da Silva

Em sua obra Formação de Cidades no Brasil Colonial, Paulo Santos lembra que a maioria das cidades brasileiras surgiu de maneira espontânea: “Não se cogitou de fundá-las. Simplesmente nasceram”. (2001, p. 49). Mais adiante, ao tratar das cidades brasileiras do século XV ao XIX, o autor lista algumas causas para o nascimento de nossas áreas urbanas, como “cidades de conquista do interior, do café, da borracha, da indústria”, etc.

Recreio nasceu nos anos finais do Império do Brasil e talvez seja adequado dizer que foi uma “cidade da ferrovia”. Não teria havido uma intenção direta em sua fundação. Ela foi formada a partir de uma estação da estrada de ferro construída para escoar a produção agrícola. Cremos não ser adequado defini-la como “cidade do café” porque, ao tempo em que a estrada passou a operar efetivamente, um outro objetivo tinha sido agregado à ferrovia: transportar os imigrantes que vinham substituir o braço escravo.

De todo modo, nada nos é lícito afirmar sobre as intenções de Ignacio Ferreira Brito ao conceder o direito de uso das terras de sua Fazenda Laranjeiras aos primeiros moradores do que se denominou Arraial Novo. Entre eles, JOSÉ VAZ DA SILVA, empregado da Estrada de Ferro da Leopoldina, ocupava “uma casa térrea coberta de telhas que devide pela frente com a Estação, pela direita e esquerda com terrenos dos outorgantes, e pelos fundos com cafezais dos outorgantes”. O terreno com 10 metros e 70 centímetros por 10 metros de fundos, assim como a casa nele construída por Ignacio Ferreira Brito, foi aforado no dia 9 de abril de 1885 por 36.380 réis anuais.

Pesquisando Antepassados

POSTAGEM REPUBLICADA

A metodologia de pesquisa é uma das colocações mais recorrentes entre os leitores deste blog. Na maioria das vezes nós recebemos perguntas sobre a maneira de localizar informações de propriedades, atividades profissionais e locais de moradia de antepassados. Se fizermos uma tabulação e categorizarmos os comentários por temas, provavelmente concluiremos que o interesse pela história de Recreio nasce no momento em que se descobre um ascendente que viveu no município.
Uma pequena parcela de nossos leitores demonstra ter expectativa de encontrar todas as respostas na rede mundial de computadores. Um outro grupo pede indicação de literatura publicada onde encontrem “tudo sobre fulano de tal”. Aos primeiros nossa resposta é que a internet é um veículo muito novo e que pouca coisa já está disponível na rede. Para os outros temos tentado explicar que autores constróem textos a partir da própria visão de mundo e que nem tudo já foi estudado ou compilado. E sempre deixamos o convite para fazerem a própria pesquisa.
Para os que nos pedem indicações de como fazer, reiteramos que todas as fontes podem ser úteis desde que tenhamos um projeto bem delineado. Isto evita que nos percamos no meio do caminho. É fundamental termos bem claro o objetivo da busca, bem como nos informarmos sobre o tema através da literatura disponível. É muito difícil, por exemplo, tentar localizar uma fazenda pelo nome que o avô mencionou, sem conhecermos os dados básicos sobre o município onde tal propriedade se localizava.
Muitas vezes não será possível prosseguir sem visitar centros de documentação da região. E quando se trata de localizar informações sobre pessoas nascidas antes de 1930, a sugestão é fazer um levantamento minucioso dos assentos paroquiais relativos ao período de interesse. Assim, além de anotar datas, locais, padrinhos e grafias, vamos nos aproximando das redes de afinidade do personagem de nosso interesse e conhecendo um pouco da sociedade na qual esteve inserido.
A distância impede a pesquisa? Nem sempre ou não integralmente. Sabendo exatamente o que se quer, é possível pedir cópias de documentos telefonando para o órgão competente. Donde voltamos ao segundo parágrafo deste texto para informar que a internet e os livros publicados são extremamente úteis para nos aproximarmos do objeto de estudo. E até mesmo para sabermos se é possível atingir o objetivo planejado.

O ferroviário Ignacio Fernandes

Empregado da linha férrea, o morador de São José do Alem Parahyba Ignacio Fernandes ocupava, com autorização dos proprietários da Fazenda Laranjeiras, um pequeno lote de terras que media 3 metros e 80 centímetros de frente por 7 metros e cinquenta centímetros de fundos. Segundo o registro, no terreno existia “uma casa terrea coberta de telhas, que devide pela direita com a casa de Julio de Moraes Tavares, pela esquerda com terrenos dos outorgantes, pela frente com a rua fronteira à Estação e pelos fundos com os trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina”. O contrato foi estabelecido através da contrapartida de um foro anual de 4.845 réis.

Conforme se observa, os terrenos variavam bastante de tamanho. Provavelmente não foi planejado um loteamento no entorno da Estação e as ocupações teriam sido autorizadas na medida da necessidade de acomodar os operários da construção da ferrovia e os prestadores dos serviços essenciais.

Empregados da Estrada de Ferro

Como não podia deixar de ser, entre os ocupantes dos terrenos próximos à Estação do Recreio encontravam-se alguns empregados da empresa concessionária. Entre eles, CANDIDO NEVES foi o primeiro a assinar a escritura de aforamento de 191 metros quadrados. Era o dia 8 de abril de 1885, mesma data em que outras escrituras de aforamento estavam sendo registradas pelo escrivão do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista.O terreno ocupado por Candido Neves, com autorização dos proprietários-outorgantes, tinha “19 metros e um decimetro de frente” e nele existia uma casa assoalhada e coberta de telhas, com duas portas e uma janela para os fundos, confrontando pela direita e esquerda com outras casas dos outorgantes, e na frente com uma pequena rua junto da Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina. Nos fundos da casa ocupada por Candido Neves passavam os trilhos da linha férrea Alto Muriahé.

A Imprensa em Minas Gerais

POSTAGEM REPUBLICADA

Na Revista do Arquivo Público Mineiro, volume 1, páginas 169 a 239, encontra-se um artigo sem indicação de autoria, historiando os primeiros tempos deste meio de comunicação em terras mineiras. Na primeira página o autor informa tratar-se de uma “refusão” de monografia publicada em 1894 e atualizada para aquele número da Revista. A revisão foi concluída em dezembro de 1897.
Através deste artigo ficamos sabendo que o primeiro órgão de imprensa, denominado Abelha do Itaculumy, circulou em Ouro Preto e era impresso na Officina Patricio de Barbosa & Comp. O primeiro número saiu no dia 14 de janeiro de 1824 e, a partir daí, era publicado três vezes por semana.
A segunda localidade a contar com um órgão de imprensa foi São João d’El Rei, onde a 20 de novembro de 1827 apareceu a folha Astro de Minas. Ressalta o autor que, no final da primeira década após o surgimento do Abelha do Itaculumy, apenas dez localidades mineiras haviam criado e desenvolvido o jornalismo. Já no final de 1878 haviam sido fundados 69 órgãos de imprensa no estado, sendo que alguns tiveram vida curta seja por terem encerrado as atividades ou por terem sido substituídos por periódicos com outra denominação.
Em Leopoldina e municípios vizinhos as folhas mais antigas foram:
1 – O Operário, 19 de maio de 1877 em Além Paraíba;
2 – O Leopoldinense, 1879 em Leopoldina;
3 – O Tentamen, 1882 em Mar de Espanha;
4 – A Folha de Minas, 9 de novembro de 1884 em Cataguases;
5 – O Municipio, 1887 em São João Nepomuceno;
6 – O Guarará, 15 de maio de 1892 em Guarará; e,
7 – Correio da Palma, 29 de maio de 1892 em Palma.
Quando fez a revisão de sua monografia, o autor constatou que, entre estes pioneiros locais, apenas os jornais O Leopoldinense (de Leopoldina), O Guarará (de Guarará) e Correio da Palma (de Palma) continuavam circulando. Os demais deixaram de existir, sendo substituídos por outras folhas. Entretanto, haviam sido criados novos órgãos informativos que são apresentadas pela data de lançamento. Para o município de Leopoldina, foram registrados os seguintes:
1 – O Leopoldinense – 1879
2 – O Princípio da Vida – 1885
3 – O Povo – Campo Limpo, 18 de novembro de 1885
4 – O Passaro – 1886
5 – Estrela de Minas – 29 de julho 1887
6 – A Ideia Nova – 1887
7 – Irradiação – 25 de fevereiro de 1888
8 – Gazeta do Leste – 1890
9 – A Voz Mineira – Na Estação do Recreio, 1890
10 – A Leopoldina – 1892
11 – Voz de Thebas – No arraial desse nome, 1894
12 – A Phalena – 1894
13 – Correio da Leopoldina – 1895
14 – Gazeta da Leopoldina – 1895
15 – Mediador – 1895
16 – Tiradentes – No arraial de Vista Alegre, 1897
Na conclusão do trabalho consta que:
Como se vê, dos 123 municípios do Estado de Minas […] 68 têm imprensa periodica, com 119 orgãos […]
Entre esses municipios contão-se treze que tem orgãos de imprensa nas respectivas sedes e também em simples arraiaes ou povoados.[…]
Registramos o facto porque elle revela que até em localidades pequenas ou de categoria administrativa secundaria, já é a imprensa apreciada como elemento de progresso e indiscutivel necessidade social.
Temos, assim, mais uma fonte de informação para o surgimento da imprensa em Recreio no ano de 1890. Acreditamos, entretanto, que o autor do artigo seja o mesmo Xavier da Veiga que organizou o Efemérides Mineiras, obra na qual nos baseamos em postagens anteriores sobre a imprensa em Recreio.

Leopoldinenses nascidos em janeiro de 1912

NASCIMENTO
PAI
MÃE
Liberalina
12 Janeiro
Francisco Marques Dideco
Amelia Rezende Viveiros
Nicoleta
15 Janeiro
José Antonio Ferreira
Olivia Ormezinda Vieira
Eugenia Maimeri
28 Janeiro
Luigi Maimeri
Carolina Rancan
Milton
31 Janeiro
Antonio Carlos de Almeida Ramos
Etelvina de Freitas

Igreja, Estado e o Direito de Padroado nas Minas Setecentistas através das Cartas Pastorais

Patrícia Ferreira dos Santos

RESUMO:
O objetivo do presente artigo é estudar as relações conflituosas entre Igreja e Estado na diocese mineira, através da documentação eclesiástica – cartas pastorais do seu primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz –, confrontadas às correspondências administrativas, encaminhadas ao Rei de Portugal durante seu governo episcopal (17481764), através do Conselho Ultramarino.

Leia Mais.

Jornais mineiros do século XIX: um projeto de digitalização

Marina Camisasca e Renato Venâncio

Resumo
O presente artigo tem por objetivo apresentar o projeto Jornais Mineiros do Século XIX: digitalização, indexação e acesso, desenvolvido pelo Arquivo Público Mineiro, em parceria com a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa/Hemeroteca Histórica. O texto retrata as peculiaridades da formação e da guarda desse acervo, além de apontar possibilidades de pesquisa a partir dos jornais veiculados em Minas Gerais no século XIX. Procura-se também fazer uma reflexão sobre a importância do jornal como fonte para a pesquisa histórica.

Leia mais.

Em busca de outro personagem: José Fernandes Júnior

Segundo Michael Pollak em Memória, Esquecimento e Silêncio, “a referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos” e defender “as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, incluídos o território e os personagensque construíram a história do próprio grupo. Em outro texto, discorrendo sobre a identidade individual e social o mesmo autor lembra que a memória tem papel preponderante na (re)construção da identidade, sendo “constituída por pessoas, personagens, acontecimentos e lugares”.

Baseando-nos neste sociólogo austríaco, não podemos deixar de lembrar que é dele o conceito de personagens freqüentadas portabela”, ou seja, aqueles que nós não conhecemos pessoalmente por não pertencerem ao nosso “espaço-tempo”. Entretanto, ao sermos informados sobre suas trajetórias, transformamos estes personagens em partícipes de nossa identidade social. E é assim, com o objetivo de recuperar para a memória coletiva os seus componentes fundamentais, é que seguimos falando dos acontecimentos, dos lugares e dos personagens que escreveram os primeiroscapítulos da história de Recreio.

Nos primórdios do então Arraial Novo, a casa de Miguel Bento Borba avizinhava-se, pela direita, com benfeitorias do morador José Fernandes Júnior, outro foreiro das terras da Fazenda Laranjeiras. Da mesma forma que os demais moradores, no aforamento consta que ele ocupava, com autorização de Ignacio Ferreira Brito, um terreno junto da Estação.

José Fernandes Júnior vivia em uma “casa térrea, coberta de telhas, que divide e confronta pela frente com a pequena rua queacesso à Estação e pelos fundos com a linha férrea do Alto-Muriahé”. Segundo o registro, o terreno media 29 metros e 70 centímetros por 19 metros e 50 centímetros, resultando num foro anual de 196.911 réis, calculado na base de 340 réis por metro quadrado.

Memória e identidade regional: historiografia, arquivos e museus em Minas Gerais

Artigo de Álvaro de Araujo Antunes e Marco Antonio Silveira

Resumo
O presente artigo tem por objetivo analisar algumas das relações estabelecidas entre a produção historiográfica, as práticas de pesquisa e as instituições museológicas tomando como referência o caso de Minas Gerais na primeira metade do século XX. Para isso, são recuperados aspectos concernentes ao debate historiográfico do período e à criação de instituições como o Arquivo Público Mineiro (1895) e o Museu da Inconfidência (1944). Por fim, são propostas algumas considerações sobre a constituição da memória nos dias de hoje.

Leia mais…