Conforme pode ser observado na postagem anterior, em que foram listadas as pessoas nascidas em Recreio no ano de 1912, o casal Olimpio Augusto de Lacerda – Rita Ferreira Brito aparece com duas filhas no mesmo ano: Nair, nascida no dia 29 de janeiro e Abigail no dia 12 de abril. Quando encontrei estes assentamentos, imaginei que seriam dois casais homônimos, situação não muito rara na região. Mais tarde, porém, verifiquei que era o mesmo casal. Então, onde está o erro?
A resposta pode ser a mesma para diversos casos de incompatibilidade de datas de nascimento ou casamento, bem como os diferentes nomes para uma só pessoa: registro civil diferente do religioso e/ou realizado muito tempo depois do evento, contando apenas com a memória.
No caso aqui observado temos uma situação mais complexa. No livro 15 de batismos que se encontra arquivado na secretaria paroquial da Igreja Menino Deus em Recreio, na folha 107 verso consta o batismo de Nair no dia 17 de março de 1912 e a informação de que nasceu no dia 29 de janeiro do mesmo ano. Já no livro 4 de nascimentos do Cartório de Registro Civil de Recreio, na folha 122 verso consta o registro de nascimento de Abigail, nascida no dia 12 de abril de 1912. Não foi encontrado o batismo de Abigail nem o registro civil de nascimento de Nair.
Algumas hipóteses possíveis:
a) as crianças nasceram em diferentes anos e houve erro por parte do padre ou do escrivão; ou
b) uma criança nasceu em janeiro e foi batizada em março com o nome de Nair, sendo o registro civil feito no mês seguinte, com o nome de Abigail; ou
c) a criança batizada em março era afilhada e não filha do casal.
Este é apenas um dos muitos casos que encontramos na pesquisa sobre as antigas famílias de Leopoldina. Assim como os outros, serviu de base para afirmarmos que o conceito de fonte primária deve ser olhado com reservas quando se refira a registros civis e assentos paroquiais. Preferimos classificar como fonte original, e não primária, aquela que tenha sido produzida em data mais remota, tendo o cuidado de confirmar se o que se tem em mãos é o original e não uma transcrição.

O acordo estabelecido entre a Estrada de Ferro da Leopoldina e os proprietários da Fazenda das Laranjeiras não contemplou apenas a cessão do terreno por onde passariam os trilhos. Conforme já foi visto, o negociante Julio Moraes Tavares tinha sido autorizado a estabelecer-se em terreno contíguo à Estação do Recreio. Assim como ele, outros personagens surgem da leitura dos livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista. Alguns eram funcionários da estrada de ferro.Um deles foi Miguel Bento Borba, que assinou o contrato de aforamento no dia 10 de abril de 1885, relativo a um terreno com uma casa térrea coberta de telhas. O ferroviário era vizinho, à esquerda, de Julio Moraes Tavares. Na frente de sua casa estava a “pequena rua da Estação” e nos fundos a Fazenda das Laranjeiras. O terreno aforado por Ignacio Ferreira Brito a Miguel Bento Borba media 10 metros e 50 centímetros de frente por 19 metros e 50 centímetros de fundos. O foro anual foi estabelecido em 69.615 réis.