71 – Martins de Almeida – Seus antepassados – I

Como prometido no artigo anterior, a viagem continua pela família de Martins de Almeida. Hoje, para lembrar os seus antepassados.

Conforme já foi dito anteriormente, Francisco Martins de Almeida era filho do magistrado Dr. Antonio Francisco de Almeida e de Georgina Martins de Almeida, e nasceu em Leopoldina em 07 de janeiro de 1903. A partir do convite para o seu sepultamento[1] no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro (RJ), no dia 30 de julho de 1983, é de se supor que tenha falecido na condição de solteiro. E considerando que a missa de 7º dia foi celebrada na Matriz de N. S. de Copacabana, provavelmente continuava morando na Rua Hilário de Gouvêa, endereço citado nas atas da Comasa – Construtora Martins de Almeida, empresa de engenharia da qual participava com irmãos e outros familiares.

Embora não se tenha encontrado o registro de casamento dos pais de Martins de Almeida – Georgina e Antonio Francisco, uma notícia publicada[2] em 1899 faz crer que o noivado do casal teria sido breve e o casamento se realizara em fevereiro daquele ano. Dois anos depois, o nome do marido aparece ao lado do nome do pai de Georgina na lista de acionistas do Banco de Leopoldina.

Mas a homonímia não nos permite afirmar que Antonio Francisco tenha sido o jovem que recebeu o grau[3] de bacharel em ciências jurídicas e sociais em 1894 e que no ano seguinte foi nomeado[4] promotor de justiça da comarca de Ouro Preto. Entretanto esta informação respalda a notícia do noivado dando conta de que ele era Secretário de Polícia em 1898 e posteriormente foi nomeado para substituir o promotor Francisco de Castro Rodrigues Campos que esteve lotado em Leopoldina até por volta de 1900 sem ter assumido efetivamente o cargo.

O fato é que Georgina Martins Ferreira e Antônio Francisco de Almeida passaram a residir na Fazenda Araribá onde nasceram, pelo menos, dois de seus filhos: Félix Martins de Almeida em 20 de fevereiro de 1902 e Francisco Martins de Almeida em 07 de janeiro de 1903, ambos registrados no Cartório de Providência. E é possível que um filho mais velho, homônimo do pai, também tenha nascido em Providência, da mesma forma que outros quatro: José (1904), Maria Eugênia (1905), Heloisa (1906) e Elza (1907). Poderíamos acrescentar, ainda, Liana Martins de Almeida que aparece em convites fúnebres da família, publicados em jornais do Rio de Janeiro na década de 1980.

Registre-se que o problema para a identificação correta desse grupo familiar advém das diversas mudanças de localização da família. Se na primeira década dos novecentos encontramos referências no Registro Civil do distrito de Providência, em Leopoldina, na década seguinte um dos filhos, Félix, estudava[5] em Barbacena, MG, mas não sabemos se toda a família ali residia. Já nos anos de 1920, a filha Elza estudava[6] no Colégio Granbery, em Juiz de Fora, e em 1924 o endereço[7] da família era Muzambinho, MG.

Depois da passagem por Belo Horizonte, fomos encontrar Francisco Martins de Almeida no Rio de Janeiro, como advogado e sócio fundador da COMASA – Construtora Martins de Almeida, constituída[8] em 25 de fevereiro de 1946 pelos irmãos, com a participação de cunhados e alguns outros parentes.

Esta viagem se tornou exaustiva em razão destas seguidas mudanças, o que obriga o Trem de História a fazer mais uma parada. Mas, fique tranquilo o leitor. Na próxima edição ela prosseguirá com a família Martins de Almeida. Até lá!


Fontes Consultadas:

[1] Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 30 jul 1983, ed 113 p.14.

[2] Gazeta de Leopoldina, Leopoldina, MG, 14 fev 1899 p.3

[3] O Estado de Minas Geraes, Ouro Preto, MG, 15 jul 1894 ed 403, p.1.

[4] O Estado de Minas Geraes, Ouro Preto, MG, 6 mar 1896 ed 426 p.3.

[5] O Pharol, Juiz de Fora, MG, 28 abr 1914 ed 98 p.2.

[6] O Pharol, Juiz de Fora, MG, 11 nov 1925 ed 1064, página 4.

[7] Correio da Semana, Queluz [Conselheiro Lafaiete], MG, 25 set 1924 ed 492 p.3.

[8] Correio da Manhã, Rio de Janeiro, RJ, 29 mar 1946 ed. 15767 p.6.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 326 no jornal Leopoldinense de 1 de março  de 2017

D. Leopoldina: a história não contada

Em comemoração aos 200 anos da chegada da arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo ao Brasil, e ao seu posterior casamento com o Príncipe Dom Pedro de Alcântara e Bragança, o escritor Paulo Rezzutti lança o livro D. Leopoldina: a história não contada.

Foi em homenagem à Imperatriz Leopoldina que seu filho, o Imperador Pedro II, deu o nome à segunda filha, Princesa Dona Leopoldina que, por sua vez, é a homenageada com o nome da cidade de Leopoldina, MG.

70 – Martins de Almeida – Carta de Mário de Andrade

O Trem de História encerra com este número a parte da viagem com Francisco Martins de Almeida no que se refere à sua obra. A partir do próximo Jornal se conhecerá a família deste leopoldinense que estava totalmente esquecido pela cidade.

Lembremos então a opinião de Drummond de Andrade(1), para quem o grupo modernista mineiro atingiu rapidamente notoriedade no restante do país e fiquemos com a carta de Mário de Andrade a Martins de Almeida, datada de São Paulo (SP), em 19.03.26.

“Ah! Martins de Almeida, tenho recebido tudo o que você mandou, cartas e A Revista… Mas você não pode imaginar que vida apertada ando vivendo. Só por isso não tenho respondido. Escrevo artigo sobre artigo. É A Manhã do Rio (quero que você leia o meu artigo de ontem “Contrabando de passadismo” que define minha posição social, é Terra Roxa aqui, é o São Paulo Jornal onde estou como crítico musical e tenho trabalho quase diário e inda por cima um curso de estética geral para moças com conferências semanais. E como tenho péssima faculdade de falar de improviso, sou obrigado a escrever essas conferências! Imagine a trabalheira! Contando ainda com meus cursos no Conservatório e particulares. Não tenho vida mais. Estou reduzido a uma máquina pra sustentar os outros. Miséria miserável que me faz sofrer. Não leio nada. Não escrevo nada de aproveitável. Meus livros todos parados. Não escrevo pra nenhum amigo quase. Até o Manu [Manuel Bandeira] que é o do coração nem sei dele. Hei de reagir mas não pode ser tão já. Estava carecido de ganhar um pouco mais pra me enroupar, comprar uns livros e umas músicas. Talvez pelo fim do ano readquira minha vida se Deus quiser. A Revista está excelente. Não tanto pela colaboração de fora como por você. Até por isso que acho o nº- 2 melhor que o 3. Acabo de falar isso mesmo pra Nava. E você? Quando nos manda um artigo pra Terra Roxa? Me esqueci de insistir com o Nava também. Insista você por favor. E com o João Alphonsus. E com o Emílio Moura. Mas mandem prosa que é melhor. Prosa é mais legível e estamos vendo se conseguimos fazer o jornaleco se sustentar. […] Você está sem o Drummond aí e o meu primeiro movimento, o mais sincero, foi me felicitar por causa disso. Depois corrigi pra maior nobreza e lamento sinceramente mas espiritualmente essa separação. Eu adoro o Carlos. Foi a inveja que me fez de primeiro ter um movimentinho de alegria de vê-lo sequestrado de Belo Horizonte. Tenho por ele uma afeição admirada muito quentinha que me faz quando penso nele me sentir bem. A impressão que tenho dele é dessas que grudam como cheiro de laranja azeda. Não sai mais. É de vocês todos o que me dá mais a sensação, a comoção igual à que tive com certas paisagens mineiras, sobretudo uma tarde maravilhosa em Carmo da Mata. Que gostosura! que boniteza pura! que silêncio caricioso e cheio de amor ardendo dentro! E uma força de terra virgem atrás, cheia de ouro, cheia de vegetal e de minério rico. Isso é o Carlos pra mim. A impressão que ele dá pros que o veem pouco é de secura… Eu amoleci essa secura… Pra mim ele é um amigo verdadeiro, nunca esqueço a inteligência extraordinária e o lirismo incansável que ele é. O adoro. Queria o Carlos juntinho de mim… Não pode ser! Lá está em Itabira do Mato Dentro, que é dos nomes mais maravilhosos que conheço… Carecemos agora de agasalhá-lo ainda mais nos nossos carinhos e esperanças, Martins de Almeida. A terra, assim meio virgem pra onde ele foi, é boa mas traiçoeira. Faz a gente se esquecer da cabeça. A terra ama por demais, chupa a gente… Bom, até logo. Não se esqueça de continuar me escrevendo. Invente assunto pra discutirmos. Andamos tão concordes e cheios de notícias!… Ciao. Mário”

Também nós dizemos “tchau” ou, “ciao” como o mestre Mário de Andrade. Mas numa despedida apenas quanto à obra de Martins de Almeida. Porque, na próxima edição continuaremos com a sua família. Aguardem.


Referência:

1 – Drummond, Testemunho da Experiência Humana. Disponível em: <http://zip.net/bstsJ1&gt; Acesso em 17 nov. 2015

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 325 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2017

Centenário de Nascimento

Nascidos no município de Leopoldina

01 mar 1917

Maria

Pai:                          Francisco Ferreira de Almeida

Mãe:                        Julieta Magdalena de Moraes


06 mar 1917

Maria

Pai:                          José Claudino da Silva

Mãe:                        Rosa Moraes Lima

João

Pai:                          Braz Schettino de Souza

Mãe:                        Maria Ramos de Melo

José Fanni

Pai:                          Giuseppino Fanni

Mãe:                        Maria Antonia de Jesus


08 mar 1917

Idalina Fofano

Pai:                          Paschoal Domenico Fofano

Mãe:                        Oliva Meneghetti


10 mar 1917

Iramira Machado de Almeida

Pai:                          João Antonio de Almeida

Mãe:                        Vitalina Machado da Silva


11 mar 1917

Antenor Lomba

Pai:                          Romão Lomba

Mãe:                        Eugenia Baqueca


13 mar 1917

José

Pai:                          Aniceto Teixeira Gomes

Mãe:                        Otilia Nogueira


14 mar 1917

Maria Aparecida

Pai:                          Julio Figueiredo Sabino Damasceno

Mãe:                        Francisca Antunes Barbosa


26 mar 1917

José Ermini

Pai:                          Agostino Ermini

Mãe:                        Luigia Giuliani


27 mar 1917

Maria Bonin

Pai:                          Valentino Bonin

Mãe:                        Lucia Mantuani

Olga Lammoglia

Pai:                          Francisco Alves Lammoglia

Mãe:     Luiza Guerzoni

69 – Martins de Almeida na visão de terceiros

O Trem de História segue sua viagem com os comentários dos críticos e amigos do modernista leopoldinense, como se verá a seguir.

Na década de 1930, já morando no Rio de Janeiro, Martins de Almeida foi diversas vezes citado em matérias sobre “Alguma Poesia”, obra que Carlos Drummond de Andrade havia lançado. Eram comentários e impressões de intelectuais da época, muitos deles estendidos a todo o grupo mineiro.

Augusto Frederico Schmidt publicou em O Jornal, em 1929, um artigo sob o título Os novos de Minas. Tristão de Ataíde, pseudônimo de Alceu de Amoroso Lima, além de comentar a obra de Martins de Almeida em janeiro([1]) de 1931, voltou ao assunto quando abordou “Os novos de 1927” – como ficou conhecido o grupo modernista – em seu Estudo publicado em livro em 1934. Afonso Arinos (sobrinho) teceu elogios à obra em junho([2]) de 1930, Agripino Grieco([3]) em fevereiro de 1931 e Raul Floriano em junho de 1931([4]).

Para Fernando Correia Dias([5]), nessa época a “literatura era vivida em profundidade, era amplamente participada”. Baseia esta sua interpretação no já citado artigo de Martins de Almeida publicado em 1930 em O Jornal, do qual recolhemos um trecho significativo([6]):

“Nós outros, companheiros de vida literária ou antes, de vida vivida (Emílio Moura, João Alphonsus, Pedro Nava e eu) temos de emprestar um caráter particularíssimo às poesias de Carlos Drummond. Vemos que muitas delas não param nelas mesmas, continuando infinitamente para além do próprio autor. Cada um de nós tem a sua parte em várias daquelas poesias.”

Em Galo das Trevas Pedro Nava informa que o nosso biografado escreveu([7]), também, “Amigado com a vida – inédito, conhecido só dos que receberam do autor suas cópias xerografadas”. E diz considerá-lo um ensaísta de primeira e um dos melhores espíritos críticos da sua geração. “Um conversador admirável, o que justificaria plenamente o apelido que lhe dava Emílio Moura de: o nosso Rivarol[8]”.

Para Ribeiro Couto([9]), em carta dirigida ao próprio Martins de Almeida, ele foi “um crítico de mão cheia que devia cultivar essa veia”.

Agripino Grieco([10]), em artigo publicado na Gazeta de Notícias se refere a Martins de Almeida como um: “escritor de uma sobriedade elegante, pensador e esteta, inimigo da vulgaridade e sempre desejoso da beleza”.

Uma rápida passagem por uma das principais obras de Martins de Almeida, a publicação denominada “A Revista”, se faz necessária. E para isto nos valemos da opinião de Ronald de Carvalho([11]) em carta a Carlos Drummond de Andrade, em 01.09.25. Diz ele:

“Que bonita fogueira estão vocês fazendo com A Revista. Precisamos dessas queimadas para a nossa literatura de gravetos, espetos, paus e palitos de Ovar. Você e Martins de Almeida, que inteligentíssimos diabos para sapecar essas pereiras, pessegueiros e oliveiras do nosso mato acadêmico!”

Para Dias([12]), o grupo mineiro decolara, impusera-se como coletividade estruturada, através de um instrumento eficaz de afirmação: uma revista fugaz, porém marcante.

Como é sabido, A Revista contou apenas com três edições e seu fim não tem explicação definitiva. Para uns, deveu-se a dificuldades econômico-financeiras. Para outros, a saída de Belo Horizonte daqueles jovens que foram buscar novos horizontes depois da formatura foi o real motivo para o fim de A Revista.

Os comentários sobre o movimento modernista de Belo Horizonte não se esgotam aqui. Mas o espaço do Jornal impõe que o Trem de História encerre por hoje. No próximo número ele volta com a carta de Mário de Andrade para Martins de Almeida. Até lá.


[1] O Jornal, Rio de Janeiro, 18 jan 1931, ed 3739 Primeiro Caderno p. 4.
[2] idem, 15 jun 1930, ed 3554 Primeiro Caderno p. 2.
[3] idem, 22 fev 1931, ed 3769 Segunda Seção p. 2.
[4] idem, 17 jun 1931, ed 3867 Segunda Seção p. 21.
[5] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.114
[6] O Jornal, Rio de Janeiro, 10 ago 1930, ed 3602, Segunda Seção, p. 2
[7] NAVA, Pedro. Galo-das-Trevas: As Doze Velas Imperfeitas: memórias, 5. Rio de Janeiro: José Olumpio, 1981. Nota p. 319
[8] Referência ao escritor e polemista Antoine de Rivarol, nascido na França em 1753 e falecido na Alemanha em 1801
[9] A Revista. Reimpressão fac-similar de José Mindlin, Patrocínio da Metal Leve S.A, São Paulo,1978. p.87.
[10] idem, p.86.
[11] idem, p.85.
[12] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.43

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 324 no jornal Leopoldinense de 1  de fevereiro de 2017

 

68 – Martins de Almeida – Jornalista e Escritor

O Trem de História traz agora um pouco sobre a obra deste modernista leopoldinense. E começa recordando Fernando Correia Dias([i]) que registra “o momento de decolagem” daquele grupo de jovens futuristas com o lançamento de A Revista, uma publicação que foi saudada pelo jornal O Diário de Minas.

Dias informa que Martins de Almeida e Carlos Drummond de Andrade eram seus diretores, e Emilio Moura e Gregoriano Canedo eram os redatores. O editorial do primeiro número seria de Martins de Almeida. Mas como o autor não é citado, podemos apenas informar que A Revista é apresentada ao público num texto sob o título “Para os Céticos” do qual destacamos:

“Supõe-se que ainda não estamos suficientemente aparelhados para manter uma revista de cultura, ou mesmo um simples semanário de bonecos cinematográficos: falta-nos desde a tipografia até o leitor. Quanto a escritores, oh! Isso temos de sobra.([ii])

Neste mesmo número encontra-se o artigo “À margem de Pascal”, de autoria de Martins de Almeida. Já no segundo número([iii]) o editorial é um convite “Para os espíritos criadores” do qual destacamos:

“Não queremos atirar pedras ao passado. O nosso verdadeiro objetivo é esculpir o futuro. Aí estão problemas essenciais da nacionalidade exigindo uma solução imediata. Pretendemos realizar, ao mesmo tempo, uma obra de criação e de crítica. […] Na verdade, um dos nossos fins principais é solidificar o fio das nossas tradições. Somos tradicionalistas no bom sentido. […] Se adotamos a reforma estética, é justamente para multiplicar e valorizar o diminuto capital artístico que nos legaram as gerações passadas.”

O artigo de Martins de Almeida vem, desta vez, na página 19, sob o título “Crítica psicológica: a propósito de Manuel Bandeira.”

É um exercício interessante analisar os propósitos da ‘rapaziada’ como foram chamados por Werneck([iv]), expressos nos editoriais de A Revista, e a forma como cada um deles se expressou naqueles únicos três números da publicação. No artigo do segundo número, Martins de Almeida declara ser “a maior parte das nossas obras de arte formada de impressões que se cristalizam à flor da pele” e que, por conta disto, “a nossa arte é constituída, quase toda, de preconceitos, artificialismos e cópias”. Em seguida faz algumas avaliações sobre a obra de Manoel Bandeira, comentando que o poeta modificou sua forma de expressão dando um verdadeiro salto entre “Cinzas das Horas” e “Carnaval”. Nesta, Bandeira([v]) “desalinhou a simetria forçada do ritmo e pôs dissonâncias na música plan-rataplan do antigo verso.”

O terceiro e último número de A Revista([vi]), que embora datado de setembro de 1925 só foi publicado em 1926, é aberto com Poética, de Manuel Bandeira, seguido de Sambinha, de Mário de Andrade, depois Pijama, de Guilherme de Almeida e Broadway, de Ronald de Carvalho.

Naquela época, em que os denominados “passadistas” não aceitavam o abandono dos rigores da técnica, a opção dos diretores e redatores pode ter representado um forte chamamento a novos valores estéticos. Os quatro poemas foram seguidos pelo texto Malazarte, em que Martins de Almeida([vii]) analisa a peça homônima de Graça Aranha, romancista que aderiu ao Modernismo e seu rompimento com os tradicionalistas causou escândalo no meio literário da época.

Além dos trabalhos para A Revista, Martins de Almeida publicou o livro Brasil Errado, pela Editora de Augusto Frederico Schmidt, cuja segunda edição([viii]) saiu em 1953. Colaborou com Terra Roxa, veículo dos modernistas de São Paulo, com a Revista do Brasil e com os jornais A Noite, Correio da Manhã, Diário de Notícias, O País, O Mundo e com o Suplemento Literário do Jornal Estado de Minas([ix]). “O Avesso dos Maridos Enganados ou, A Sociedade dos Cornos Livres”, de 1976, é o título de uma peça teatral que chegou a ser traduzida para o francês e da qual companheiros do autor dão notícia, sem contudo sabermos se foi realmente publicada.

Mas o assunto não termina aqui. O Trem de História continua a sua viagem. No próximo número virão mais alguns comentários de críticos e amigos do modernista leopoldinense. Até lá.


[i] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38

[ii] A Revista. Ano 1, número 1, Belo Horizonte, julho de 1925, p.11

[iii] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.11

[iv] WERNECK, Humberto. O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais (1920-1970). 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

[v] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.21

[vi] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, setembro de 1925, p.11

[vii] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.17

[viii] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

[ix] NAVA, Pedro. Beira-Mar Memórias/4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p.218.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 323 no jornal Leopoldinense de 16  de janeiro de 2017

 

67 – Martins de Almeida – Um modernista nascido em Leopoldina

“Às vezes, sou invadido pela dúvida de que não 

fiz mais do que sonhar às avessas dos outros.”

Martins de Almeida([i])

A partir de hoje o Trem de História empreenderá viagem pela obra e vida de Martins de Almeida, um modernista nascido em Leopoldina. Um importante personagem que se pretende retirar da gaveta dos esquecidos.

De início é justo registrar que a busca pelas suas origens foi estimulada por Glória Barroso e José Gabriel Barbosa que, sabedores de nossos estudos sobre as antigas famílias leopoldinenses, perguntaram a quem pertencia este nome citado por Pedro Nava como tendo nascido em Leopoldina. Uma pergunta que nos intrigou e para a qual não tínhamos resposta naquele momento.

Iniciadas as buscas a partir das informações de Pedro Nava e de outros modernistas, descobrimos o nome completo do personagem e de seu pai, embora não existisse menção alguma a eles em nosso banco de dados.

A luz no final do túnel surgiu quando a Hemeroteca Nacional se tornou disponível na rede mundial de computadores e permitiu que, através de uma busca pelos nomes, se chegasse ao anúncio do noivado([1]) de Georgina, filha de Félix Martins Ferreira [neto] e de Heliodora Pinheiro Correia de Lacerda com o então Secretário da Polícia de Ouro Preto, Dr. Antonio Francisco de Almeida.

Descobriu-se, então, que Francisco Martins de Almeida, o até então desconhecido modernista, nasceu([2]) em Leopoldina em 07 de janeiro de 1903 e faleceu([3]) no Rio de Janeiro (RJ) no dia 29 de julho 1983. Era filho do magistrado Dr. Antonio Francisco de Almeida e de Georgina Martins de Almeida. Teria sido aluno do Colégio Granbery, em Juiz de Fora, segundo informações de um membro da família. E soube-se que em 1920 ele já estava em Belo Horizonte onde, segundo o poeta Drummond de Andrade, teria aberto “a caixa com os primeiros livros de Proust a chegarem na cidade”([4]). Na capital mineira era acadêmico de direito([5]) em 1923 e participava do Grupo Estrela, com rapazes que “decompunham e recompunham o espetáculo humano e preparavam materiais de cultura”, conforme declarou Drummond([6]).

Fernando Correia Dias([7]) informa que pouco tempo depois nosso biografado estava residindo no interior do estado, na cidade de Oliveira, para onde havia sido nomeado promotor. O que não o impediu de continuar em contato com os companheiros, inclusive no debate que se seguiu a algumas opiniões. Fato que se confirma pelas páginas do jornal Diário de Minas, citado por Dias em sua obra, onde Martins de Almeida contestou a entrevista de João Alphonsus, outro nome da literatura mineira naquele momento.

Para concluir a carga deste vagão de hoje, destacamos que no posfácio de seu livro “Brasil Errado” o autor fala de si mesmo, numa espécie de autobiografia do seu fazer intelectual que se transcreve([8]):

“É muito comum deixarmos abandonadas nossas ideias no meio do caminho por onde enveredamos, um pouco distante do ponto terminal do nosso percurso espiritual. Propositadamente nem sempre chegamos ao extremo de nossos pensamentos. Talvez por pudor intelectual, receando o desapontamento de um efeito excessivo. Não sei bem, mas raramente atingimos as últimas conclusões de nossas ideias. Falo a respeito dos nossos pensamentos claros e frios, sem qualquer envoltório simbólico, que param de repente sem querer chegar às suas derradeiras consequências. O meu espírito vai muito além do que escrevi. De fato, os meus trabalhos estão quase todos por acabar”.

E acabar é a ação imposta a este texto, por razão de espaço. Mas fica a promessa de que na próxima edição o Trem de História continuará com Martins de Almeida. Aguardem!


[i] ALMEIDA, Francisco Martins de. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p. 144.

[1] Minas Geraes. Belo Horizonte, MG, 2 abr 1898, ed 89 p.5

[2] Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Providência, Leopoldina, MG, matricula: 0371430155 1903 1 00003 053 0000003 81.

[3]Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 30 jul 1983, ed 113 p.14

[4] Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, RJ, 26 out 1977, ed. 8589 p.9.

[5] O Pharol, Juiz de Fora,MG, 29 jul 1923, ed 366 p. 1.

[6] ANDRADE, Carlos Drummond de. Recordação de Alberto Campos. In: Confissões de Minas. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p.50

[7] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38

[8] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p.143

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 322 no jornal Leopoldinense de 1  de janeiro de 2017

 

Centenário de Nascimento

Nascidos no município de Leopoldina

02 fev 1917

Maria Antonia Rodrigues Vargas

Pai: Antonio Vargas Ferreira

Mãe: Olivia Rodrigues da Silva


04 fev 1917

Maria Sebastiana Cucco

Pai:                          Giuseppino Cucco

Mãe:                        Carolina Farinazzo


08 fev 1917

Albina

Pai:                          Francisco José Botelho Falcão

Mãe:                        Ana Maria de Oliveira Ramos

Geraldo

Pai:                          Pedro José de Moraes

Mãe:                        Joana Maria de Jesus


09 fev 1917

Eleonor Veronica Anzolin

Pai:                          Giovanni Ottavio Anzolin

Mãe:                        Rosa Pasianot

José Bolzoni

Pai:                          Pietro Bolzoni

Mãe:                        Tereza Stievano


11 fev 1917

Ruy Tavares Rodrigues

Pai:                          Antonio Germano Rodrigues

Mãe:                        Maria Dietz Tavares


12 fev 1917

Ana de Angelis

Pai:                          Otavio de Angelis

Mãe:                        Amalia Calzavara

Noêmia Almeida

Pai:                          Francisco Rodrigues de Almeida

Mãe:                        Dionízia de Moraes Lima


16 fev 1917

Isolina Meneghetti

Pai:                          Agostino Meneghetti

Mãe:                        Camila Stefani


19 fev 1917

Maria Ana Sangalli

Pai:                          Angelo Giulio Sangalli

Mãe:                        Carolina Sangirolami


24 fev 1917

Sebastião Matos

Pai:                          José de Matos

Mãe:                        Maria Carolina Ferreira do Couto


26 fev 1917

Wilson

Pai:                          Abdon Saraiva Carvalho

Mãe:                        Filomena Gonçalves


27 fev 1917

Antonio Casadio

Pai:                          Giuseppe Casadio

Mãe:     Carlota Maria da Conceição

Há 100 anos

Em Leopoldina, MG, no dia 10 de janeiro de 1917, Josué de Vargas Ferreira filho de Antonio José de Vargas Corrêa e de Maria Venancia Ferreira casou-se com Maria de Almeida Lacerda filha de Honório Rodrigues Lacerda e de Marieta Rodrigues de Almeida

O noivo era neto paterno de Josué de Vargas Corrêa e Joaquina Euqueria de Jesus, sendo esta filha de Antonio Rodrigues Gomes, um dos primeiros moradores do Feijão Cru, que formou a Fazenda Águas Vertentes cujo nome deriva da proximidade com a nascente do Córrego do Moinho. Josué era neto materno de Antonio Venâncio de Almeida Brio, o qual era filho do “capitão” João Gualberto Ferreira Brito e de Inácia Maria de Santo Inácio que, por sua vez, era filha de Antonio Prudente de Almeida.

A noiva, também natural de Leopoldina, era neta paterna de Ezaú Antônio Corrêa de Lacerda, filho de José Ferreira Brito e de Mariana Paz de Lacerda. E era neta materna de Francisco Martins de Almeida, filho de Antônio de Almeida Ramos que, por sua vez, era filho do “comendador Manoel Antônio de Almeida, um dos povoadores de Leopoldina.

No mesmo dia 10 de janeiro, Francisco Marçal Ferreira de Rezende filho de Pedro Marçal Ferreira e de Ignez de Castro Rezende, casou-se com Maria do Carmo Rezende filha de Francisco Rezende e de Francisca de Paula Rezende.

E Pedro da Cruz Nogueira filho de Pedro José da Cruz Nogueira e de Maria Marques da Silva, casou-se com Carolina Maria Cazzarini filha de Luigi Cazzarini e de Luigia Maimeri.

66 – Eugênio Botelho Falcão

O personagem de hoje é Eugênio Botelho Falcão, filho de Luiz Botelho Falcão III e de Ana Cecília. Irmão, portanto, do Luiz Botelho Falcão IV, de cuja família o Trem de História se ocupou nos três últimos artigos publicados.

Documentos diversos registram que Eugênio era Alferes do 37º Batalhão da Guarda Nacional em 1880 e 1881. No ano seguinte foi nomeado 2º suplente de delegado. Em 1883, tomou posse como vereador. Três anos mais tarde aparece como representante de “Venâncio dos Santos Pereira & C, Comissarios de Café e mais generos do Paiz”, estabelecimento sediado no Rio de Janeiro. Continuava como negociante em 1892 e foi acionista da Sociedade Educacional Arcádia Leopoldina, fundada em setembro de 1893. E em setembro de 1898 foi nomeado 3º suplente de delegado.

Segundo o sobrinho Luiz Rousseau, residia num sobrado na Rua Tiradentes, embora informe, no mesmo livro, que seu tio morava no Largo Félix Martins. Ao se referir ao sobrado da Rua Tiradentes, Luiz Rousseau esclarece que tal residência ficava na esquina com a Rua Sete de Setembro e que no andar térreo funcionava a carpintaria de Ricardo de Oliveira e a agência dos Correios, cujo agente era o próprio Eugênio.

Registre-se que esta informação encontra respaldo no órgão oficial da província de 1893, informando que Luiz Botelho Falcão (sic) e José Bastos foram nomeados estafetas ambulantes entre Cataguases, Santana de Cataguases, Vista Alegre e Leopoldina.

Sabe-se que Eugênio Botelho Falcão se casou com Maria Amélia, com quem teve dez filhos: Luiza Rosa; Luiz (1881); Luiza Eugênia; Luiz (1886); Luiz (1888); Luiza (1891); Luiza (1892); Luiz (1895); Luiza (1897); e, Luiza (1901). De apenas duas filhas, Luiza Rosa e Luiza Eugênia, obtivemos algumas informações.

Luiza Rosa foi, provavelmente, a filha nascida em 1879, que se casou em 1902 com Ovídio Rocha e teve pelo menos dois filhos: Eugênio (1903) e Euclides (1905). Seu marido Ovídio era filho de Honório Fideles Ferreira e Joaquina Eucheria de Jesus e, irmão de Clotilde Eucheria de Jesus que se casou com o açoriano Jerônimo Botelho Falcão, filho de Francisco Botelho Falcão Sobrinho e Rosa Emilia já citados neste ensaio. Ovídio foi o criador do combativo periódico O Arame, de oposição aos Ribeiro Junqueira. Por conta de sua posição política foi vítima de um processo difamatório através das páginas da Gazeta de Leopoldina, jornal de propriedade de seu desafeto.

Luiza Eugênia foi provavelmente a filha que nasceu em 1883. Casou-se com Francisco d’Almeida, nascido em 1881, filho de Lino José de Almeida e Antonia Carolina Pereira Pinto, descendente dos Almeida Ramos povoadores de Leopoldina.

Chichico, como era conhecido, foi editor de uma folha denominada O Cafageste (sic), que passou para J. Siqueira em 1898. Segundo Mauro de Almeida Pereira, Francisco d’Almeida mudou-se para Recreio quando foi nomeado Escrivão de Paz e oficial do Registro Civil de Recreio. Desde jovem ele trabalhava no Cartório Judicial de Notas de Leopoldina. Em Recreio, que na época era distrito de Leopoldina, foi presidente da Banda de Música 1º de Maio, do Clube dos Baetas e de outras agremiações esportivas. Além disto, substituiu Luiz Soares na direção do jornal O Verbo e foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Recreio.

Em Leopoldina foram batizados os dois filhos de Luiza Eugenia e Francisco d’Almeida: Edson (1903) e Maria, nascida e falecida em junho de 1905. Em consequência deste segundo parto, Luiza Eugênia Botelho faleceu no dia 26.06.1905. Viúvo, Chichico contraiu segundas núpcias em 1908, com Francisca Ferreira Damasceno, filha de Antonio Sabino Damasceno Ferreira e Porcina Padilha Figueiredo, sendo neta paterna de Zeferina de Jesus e João Gualberto Damasceno Brito. Por este ramo, bisneta do Capitão João Gualberto Ferreira Brito, personagem conhecido na história de Leopoldina por sua carreira política e por sua atuação como Chefe do Partido Conservador.

Edson Botelho de Almeida, o filho de Luiza Eugênia, foi então criado pelo pai e sua segunda esposa em Recreio, onde se casou e teve quatro filhos com a descendente de imigrantes italianos Virgínia Artuza Conti.

Encerra-se aqui a série de nove textos sobre os “Botelho Falcão” de Leopoldina. Virão outros personagens nas próximas viagens desse Trem de História. A galeria dos conterrâneos esquecidos é grande e nosso objetivo é resgatar a história de Leopoldina através da construção de “peças” para a salutar brincadeira de montar um imaginário quebra-cabeça mostrando a cidade e seus construtores.

Até a próxima ou, o próximo número do Jornal, caro leitor.


Fontes consultadas:

Barroso Júnior. O centenário da Cidade de Leopoldina, em Minas Geraes. Rio de Janeiro: Revista Eu Sei Tudo, Abril 1932. p.11.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 7 sep 2 – 1º plano e fls 8 sep. 82 3º plano

Gazeta de Leopoldina 1898 19 junho ed 10 p.4 e 5 de novembro de 1899, página 2.

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 02 bat fls 6 termo 30, fls 46 termo 433,.fls 55v termo 527, fls 103v termo 969 e fls 156 termo 1491; lv 03 bat fls 61v termo ordem 587 e fls 189 termo 120; lv 04 bat fls 75v termo 900; lv 05 bat fls 78 termo 313; lv 07 bat fls 45 termo 1238; lv 10 bat fls 26 termos 252 e 253, fls 30 termo 295 e fls 88 termo 137; lv 3 cas fls 163  termos 40 e 41; lv 5 cas fls 19.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 321 no jornal Leopoldinense de 16  de dezembro de 2016