70 – Martins de Almeida – Carta de Mário de Andrade

O Trem de História encerra com este número a parte da viagem com Francisco Martins de Almeida no que se refere à sua obra. A partir do próximo Jornal se conhecerá a família deste leopoldinense que estava totalmente esquecido pela cidade.

Lembremos então a opinião de Drummond de Andrade(1), para quem o grupo modernista mineiro atingiu rapidamente notoriedade no restante do país e fiquemos com a carta de Mário de Andrade a Martins de Almeida, datada de São Paulo (SP), em 19.03.26.

“Ah! Martins de Almeida, tenho recebido tudo o que você mandou, cartas e A Revista… Mas você não pode imaginar que vida apertada ando vivendo. Só por isso não tenho respondido. Escrevo artigo sobre artigo. É A Manhã do Rio (quero que você leia o meu artigo de ontem “Contrabando de passadismo” que define minha posição social, é Terra Roxa aqui, é o São Paulo Jornal onde estou como crítico musical e tenho trabalho quase diário e inda por cima um curso de estética geral para moças com conferências semanais. E como tenho péssima faculdade de falar de improviso, sou obrigado a escrever essas conferências! Imagine a trabalheira! Contando ainda com meus cursos no Conservatório e particulares. Não tenho vida mais. Estou reduzido a uma máquina pra sustentar os outros. Miséria miserável que me faz sofrer. Não leio nada. Não escrevo nada de aproveitável. Meus livros todos parados. Não escrevo pra nenhum amigo quase. Até o Manu [Manuel Bandeira] que é o do coração nem sei dele. Hei de reagir mas não pode ser tão já. Estava carecido de ganhar um pouco mais pra me enroupar, comprar uns livros e umas músicas. Talvez pelo fim do ano readquira minha vida se Deus quiser. A Revista está excelente. Não tanto pela colaboração de fora como por você. Até por isso que acho o nº- 2 melhor que o 3. Acabo de falar isso mesmo pra Nava. E você? Quando nos manda um artigo pra Terra Roxa? Me esqueci de insistir com o Nava também. Insista você por favor. E com o João Alphonsus. E com o Emílio Moura. Mas mandem prosa que é melhor. Prosa é mais legível e estamos vendo se conseguimos fazer o jornaleco se sustentar. […] Você está sem o Drummond aí e o meu primeiro movimento, o mais sincero, foi me felicitar por causa disso. Depois corrigi pra maior nobreza e lamento sinceramente mas espiritualmente essa separação. Eu adoro o Carlos. Foi a inveja que me fez de primeiro ter um movimentinho de alegria de vê-lo sequestrado de Belo Horizonte. Tenho por ele uma afeição admirada muito quentinha que me faz quando penso nele me sentir bem. A impressão que tenho dele é dessas que grudam como cheiro de laranja azeda. Não sai mais. É de vocês todos o que me dá mais a sensação, a comoção igual à que tive com certas paisagens mineiras, sobretudo uma tarde maravilhosa em Carmo da Mata. Que gostosura! que boniteza pura! que silêncio caricioso e cheio de amor ardendo dentro! E uma força de terra virgem atrás, cheia de ouro, cheia de vegetal e de minério rico. Isso é o Carlos pra mim. A impressão que ele dá pros que o veem pouco é de secura… Eu amoleci essa secura… Pra mim ele é um amigo verdadeiro, nunca esqueço a inteligência extraordinária e o lirismo incansável que ele é. O adoro. Queria o Carlos juntinho de mim… Não pode ser! Lá está em Itabira do Mato Dentro, que é dos nomes mais maravilhosos que conheço… Carecemos agora de agasalhá-lo ainda mais nos nossos carinhos e esperanças, Martins de Almeida. A terra, assim meio virgem pra onde ele foi, é boa mas traiçoeira. Faz a gente se esquecer da cabeça. A terra ama por demais, chupa a gente… Bom, até logo. Não se esqueça de continuar me escrevendo. Invente assunto pra discutirmos. Andamos tão concordes e cheios de notícias!… Ciao. Mário”

Também nós dizemos “tchau” ou, “ciao” como o mestre Mário de Andrade. Mas numa despedida apenas quanto à obra de Martins de Almeida. Porque, na próxima edição continuaremos com a sua família. Aguardem.


Referência:

1 – Drummond, Testemunho da Experiência Humana. Disponível em: <http://zip.net/bstsJ1&gt; Acesso em 17 nov. 2015

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 325 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2017

68 – Martins de Almeida – Jornalista e Escritor

O Trem de História traz agora um pouco sobre a obra deste modernista leopoldinense. E começa recordando Fernando Correia Dias([i]) que registra “o momento de decolagem” daquele grupo de jovens futuristas com o lançamento de A Revista, uma publicação que foi saudada pelo jornal O Diário de Minas.

Dias informa que Martins de Almeida e Carlos Drummond de Andrade eram seus diretores, e Emilio Moura e Gregoriano Canedo eram os redatores. O editorial do primeiro número seria de Martins de Almeida. Mas como o autor não é citado, podemos apenas informar que A Revista é apresentada ao público num texto sob o título “Para os Céticos” do qual destacamos:

“Supõe-se que ainda não estamos suficientemente aparelhados para manter uma revista de cultura, ou mesmo um simples semanário de bonecos cinematográficos: falta-nos desde a tipografia até o leitor. Quanto a escritores, oh! Isso temos de sobra.([ii])

Neste mesmo número encontra-se o artigo “À margem de Pascal”, de autoria de Martins de Almeida. Já no segundo número([iii]) o editorial é um convite “Para os espíritos criadores” do qual destacamos:

“Não queremos atirar pedras ao passado. O nosso verdadeiro objetivo é esculpir o futuro. Aí estão problemas essenciais da nacionalidade exigindo uma solução imediata. Pretendemos realizar, ao mesmo tempo, uma obra de criação e de crítica. […] Na verdade, um dos nossos fins principais é solidificar o fio das nossas tradições. Somos tradicionalistas no bom sentido. […] Se adotamos a reforma estética, é justamente para multiplicar e valorizar o diminuto capital artístico que nos legaram as gerações passadas.”

O artigo de Martins de Almeida vem, desta vez, na página 19, sob o título “Crítica psicológica: a propósito de Manuel Bandeira.”

É um exercício interessante analisar os propósitos da ‘rapaziada’ como foram chamados por Werneck([iv]), expressos nos editoriais de A Revista, e a forma como cada um deles se expressou naqueles únicos três números da publicação. No artigo do segundo número, Martins de Almeida declara ser “a maior parte das nossas obras de arte formada de impressões que se cristalizam à flor da pele” e que, por conta disto, “a nossa arte é constituída, quase toda, de preconceitos, artificialismos e cópias”. Em seguida faz algumas avaliações sobre a obra de Manoel Bandeira, comentando que o poeta modificou sua forma de expressão dando um verdadeiro salto entre “Cinzas das Horas” e “Carnaval”. Nesta, Bandeira([v]) “desalinhou a simetria forçada do ritmo e pôs dissonâncias na música plan-rataplan do antigo verso.”

O terceiro e último número de A Revista([vi]), que embora datado de setembro de 1925 só foi publicado em 1926, é aberto com Poética, de Manuel Bandeira, seguido de Sambinha, de Mário de Andrade, depois Pijama, de Guilherme de Almeida e Broadway, de Ronald de Carvalho.

Naquela época, em que os denominados “passadistas” não aceitavam o abandono dos rigores da técnica, a opção dos diretores e redatores pode ter representado um forte chamamento a novos valores estéticos. Os quatro poemas foram seguidos pelo texto Malazarte, em que Martins de Almeida([vii]) analisa a peça homônima de Graça Aranha, romancista que aderiu ao Modernismo e seu rompimento com os tradicionalistas causou escândalo no meio literário da época.

Além dos trabalhos para A Revista, Martins de Almeida publicou o livro Brasil Errado, pela Editora de Augusto Frederico Schmidt, cuja segunda edição([viii]) saiu em 1953. Colaborou com Terra Roxa, veículo dos modernistas de São Paulo, com a Revista do Brasil e com os jornais A Noite, Correio da Manhã, Diário de Notícias, O País, O Mundo e com o Suplemento Literário do Jornal Estado de Minas([ix]). “O Avesso dos Maridos Enganados ou, A Sociedade dos Cornos Livres”, de 1976, é o título de uma peça teatral que chegou a ser traduzida para o francês e da qual companheiros do autor dão notícia, sem contudo sabermos se foi realmente publicada.

Mas o assunto não termina aqui. O Trem de História continua a sua viagem. No próximo número virão mais alguns comentários de críticos e amigos do modernista leopoldinense. Até lá.


[i] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38

[ii] A Revista. Ano 1, número 1, Belo Horizonte, julho de 1925, p.11

[iii] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.11

[iv] WERNECK, Humberto. O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais (1920-1970). 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

[v] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.21

[vi] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, setembro de 1925, p.11

[vii] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.17

[viii] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

[ix] NAVA, Pedro. Beira-Mar Memórias/4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p.218.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 323 no jornal Leopoldinense de 16  de janeiro de 2017