Atividades desenvolvidas na Colônia Agrícola da Constança

A atividade agrícola na colônia foi assim discriminada no Relatório de 1911: culturas de café, arroz, feijão, mandioca, cana de açúcar, milho, amendoim e fumo, com a seguinte produção: 2.585 kilos de café, 60.880 kilos de arroz, 48.215 litros de feijão, 197.750 litros de milho, 225 de amendoim. Não foi mencionado o resultado da colheita da mandioca, da cana de açúcar e do fumo.
Quanto à atividade pastoril, ficou registrado: 444 leitões, 80 bovinos, 59 cavalos, 79 cabritos, 2.703 galináceos e 51 patos.
Os colonos entregavam 20% de suas colheitas como parte do pagamento de suas dívidas. No ano de 1911, o valor arrecadado em cereais foi de 5:221$836. Além disto, os colonos entregaram 1:998$750 em dinheiro. Ao final do exercício de 1911 o total dos débitos dos colonos montava a 61:210$767

Incêndio na Prefeitura Municipal de Leopoldina

Notícias sobre o incêndio que destruiu o anexo da Prefeitura Municipal de Leopoldina, ameaçando parte do acervo de documentos históricos.

População da Colônia Agrícola da Constança em 1910-1911

O RELATÓRIO DA DIRETORIA DA AGRICULTURA, TERRAS E COLONIZAÇÃO, ano de 1911, permite analisar os dados populacionais da Colônia Constança no seu primeiro ano de efetiva existência.
A sua população era então de 386 indivíduos, sendo 183 do sexo masculino e 203 do feminino, distribuídos pelas seguintes nacionalidades: brasileira 53, italiana 164, portugueza 58, alemã 49, espanhola 2, austríaca 6 e turca 4. Ressaltamos que nem todos os habitantes da colônia eram proprietários de lotes. Pelo contrário, um número expressivo era composto de agregados às famílias dos colonos, imigrantes que não haviam se adaptado ao regime de trabalho imposto pelos fazendeiros da região e que, em alguns casos, estavam há quase vinte anos morando provisoriamente nos mais diferentes lugares. Muitas vezes também, o proprietário do lote era apenas aquele que conseguira aprovação ao seu projeto de financiamento. Mas o trabalho era realizado por diversas famílias que seriam meeiras do colono registrado.
Segundo o Relatório acima citado, no exercício de 1911 estavam localizadas no núcleo 18 famílias, com o total de 93 indivíduos, mas uma a abandonou no mesmo ano. No entanto, é preciso observar que o relatório não se refere ao ano civil, mas ao ano decorrido desde o relatório anterior, baseado em mapas de janeiro de 1910.
Quanto aos que abandonaram a colônia, foram 9 famílias com 50 indivíduos, chefiadas por: Angelo Bucciol, August Krauger, August Schill, Bruno Troche, Franz Negedlo, Franz Schaden, Herman Krause, Karl Thier e Demetrio de Lorenzi. Este último instalou-se na Colônia no dia 26.02.1911 e três meses depois a abandonou, tendo sua saída sido registrada a 30.05.1911. O montante da dívida destes colonos era então de 2:821$398.

Entre a chegada ao Brasil e a compra do lote

Através dos Fofano, observamos mais um caso de colonos que foram instalados na Colônia Agrícola da Constança, em Leopoldina, muito tempo depois de terem vindo para o Brasil. Isto ocorreu porque muitos imigrantes foram contratados pela Província de Minas Gerais entre os anos de 1887 e 1894, com o objetivo de substituir a mão de obra escrava. Desembarcados no Porto do Rio, eram encaminhados para Hospedarias de Imigrantes de onde saiam sob contrato com algum fazendeiro ou mesmo alguma câmara municipal.
No caso de Leopoldina, já encontramos famílias que desembarcaram no Rio em 1894, ficaram alguns dias na Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora e foram contratados pela Câmara Municipal de Leopoldina que os encaminhou para fazendas do município. Muitos desses imigrantes, quando da criação da Colônia, ali adquiriram lotes e passaram a cuidar da sua própria terra.

Enrico Giovanni dal Canton

Muitos pesquisadores acreditam que a família Cantoni é a mesma “dal Canton’. Até o momento não foi encontrada ligação entre as duas. Os imigrantes de sobrenome “dal Canton” que viveram em Leopoldina procediam de outra região italiana.

O Registro de Terras em Leopoldina

O Registro de Terras, documento elaborado a partir da regulamentação da Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, é a mais segura e antiga fonte para estudarmos a distribuição das propriedades no século XIX*.

E segundo Lígia Osorio Silva[1], “as relações entre os proprietários de terras e o Estado constituem um aspecto fundamental para a compreensão da dinâmica da sociedade brasileira”. A mesma autora ressalta que a chamada Lei de Terras de 1850, tinha “a intenção de demarcar as terras devolutas e normalizar o acesso à terra por parte dos particulares, daquela data em diante”[2].

De modo geral, partimos de informações sobre as doações de sesmarias quando estudamos a ocupação do nosso território. Entretanto, estudá-las isoladamente traz uma visão distante da realidade, especialmente porque sabemos que muitos beneficiados jamais tomaram posse efetiva das terras com que foram agraciados. Em lugar disso, trataram de lotear e vender suas posses para aqueles personagens que foram os reais povoadores de muitas regiões.

Outro aspecto que devemos considerar, ainda no que se refere a sesmarias, é a questão do tamanho das propriedades. Ao final do século XVIII e início do XIX, as cartas concessórias informam que uma sesmaria media meia légua em quadra, o que equivale a 10.890.000 metros quadrados. Convertendo para a medida habitual na região de Leopoldina, ou seja, considerando que aqui era usado o alqueire de 48.400 metros quadrados, temos que uma sesmaria equivalia a 225 alqueires.

Mas como eram feitas estas medições? Valemo-nos ainda de Ligia Osorio da Silva que, citando Ulisses Lins, informa que “o medidor enchia o cachimbo, acendia-o e montava a cavalo, deixando que o animal marchasse a passo; quando o cachimbo se apagava, acabado o fumo, marcava uma légua”[3].

Portanto, ressalvando a impossibilidade de considerar rigorosamente os tamanhos das antigas fazendas, abordamos o registro das mais antigas propriedades de Leopoldina a partir do já citado Registro de Terras. Este instrumento foi normatizado pelo Decreto nº 1318 de 30 de janeiro de 1854 e é geralmente referido como Regulamento da Lei de Terras. Sabemos que demorou a ser aplicado em algumas localidades brasileiras mas, em Leopoldina, no dia 18 de fevereiro de 1856 o vigário José Maria Solleiro fazia a abertura do respectivo livro com o seguinte registro: “Tem de servir este Livro para o lanzam.to do Registro das terras desta freguezia de S. Sebastião da Villa Leopoldina o qual vai por mim, numerado, e rubricado com o appellido de = Solleiro = de que uso, e leva no fim inserramento.”[4]

Foram feitos 95 assentamentos, aparentemente pela ordem em que o padre Solleiro atendia cada proprietário que o procurava, ou, mais provavelmente, pela ordem em que ele próprio visitava os moradores do território de Leopoldina.

*Este artigo foi escrito em 2006 e reformulado em 2012 para divulgação na Revista Eletrônica de Leopoldina.


PROPRIETÁRIOS DE 1856

Listagem alfabética dos proprietários que registraram suas terras na Paróquia de São Sebastião da Leopoldina.

Nr.

Proprietário

Nome ou localização da Propriedade

5

Albina Joaquina de Lacerda

Benevolência

47

Álvaro de Souza Werneck

Grama

80

Ambrosio José de Souza

Santa Cruz

10

Antonio Albino Levasseur

31

Antonio Bernardino Machado

Cachoeira

8

Antonio Carlos da Silva Teles Fayão

Das vertentes até a barra do Ribeirão Recreio

29

Antonio Carlos da Silva Teles Fayão

Conceição

90

Antonio Ferreira Pinheiro

Córrego D. Bárbara

45

Antonio Gomes Moreira

No Rio Pardo

38

Antonio Joaquim Teixeira

Ribeirão do Bagre

28

Antonio José de Almeida e Gama

Benevolência

64

Antonio José Monteiro de Barros

Paraíso

41

Antonio José Pinto de Almeida

Cachoeira

17

Antonio Prudente d’Almeida

São Luiz

37

Antonio Rodrigues Gomes

Águas Vertentes do Córrego do Moinho

59

Bento Rodrigues Gomes

Cachoeira do Bagre

12

Bernardo José Gonçalves Montes

Sossego

88

Casemiro das Neves

44

Custodio de Vargas Corrêa

Boa Esperança

23

Domiciano José da Silva

Palmital

73

Domingos Dias Tostes

Barra

39

Felisberto Antonio de Souza

Sitio

67

Fidelles da Costa

Botelhos

15

Francisco Antonio d’Almeida e Gama e Caetano José de Almeida e Gama

Circuito

16

Francisco Antonio de Almeida e Gama

Bom Retiro

74

Francisco Bernardino Machado

Circuito

66

Francisco da Silva Barboza

Boa Vista

84

Francisco de Paula Machado e José Joaquim Pereira

Córrego

32

Francisco Joaquim de Almeida Gama

Benevolência

13

Francisco José de Freitas Lima

Água Limpa

86

Francisco Pereira Pontes

Grama

36

Francisco Rodrigues de Mattos

São Lourenço

79

Gabriel Narcizo ou Patrício Norberto

Na margem do Rio Pomba

48

Genoveva Maria de Jesus

Santa Anna do Rio Pomba

25

Henriques Delfim e Silva

Benevolência

63

herdeiros de José Joaquim Monteiro de Barros

Socorro

49

Ignácio Barboza de Souza

Referendo

61

Jacinto Manuel Monteiro de Castro

21

João Antonio Ribeiro

No ribeirão Feijão Cru

35

João Baptista de Almeida

Monte Alegre

85

João Evangelista da Silva

Benevolência

58

João Evangelista da Silva e Francisco de Paula Machado e José Joaquim Pereira

Na margem do Rio Pomba

95

João Francisco da Cruz e Filho

33

João Gonçalves Neto

Residência

22

João Gualberto Ferreira Brito

Fortaleza

43

João Lourenço Ferreira de Lacerda

Benevolência

62

João Vidal Leite Ribeiro

Independência

87

Joaquim Albino de Santana

6

Joaquim Antonio de Almeida e Gama

Floresta

42

Joaquim Dias Neto

24

Joaquim José da Costa Cruz

Nas vertentes do Rio Pomba

27

Joaquim José Monteiro

Benevolência

53

Joaquim Lopes da Rocha

Cachoeira

7

Joaquim Machado Neto

Boa Vista

30

Joaquim Mendes do Valle, Francisco Mendes do Valle, Salvador Mendes do Valle, João Mendes do Valle e Francisco Baptista de Paula

Sesmaria

57

Joaquim Pereira da Silva Porto Monte Negro e Antonio Gomes Moreira

Ponte do Rio Pardo

70

José Augusto Monteiro de Barros

Constancia

71

José Augusto Monteiro de Barros

Saudades

68

José Bernardino Machado

50

José de Egito de Sousa

Novo Descoberto

46

José Ferreira Britto

Dois Irmãos

69

José Ignácio de Bem e Domingos Rodrigues Carneiro

Novo Descoberto

83

José Ignácio do Bem

Caridade

19

José Joaquim Cordeiro

No Córrego São Lourenço

26

José Maria Pinha

Benevolência

82

José Maria Solleiro

3

José Thomaz de Aquino Cabral, Carlos Augusto de Aquino Cabral e Sebastião Gomes Teixeira

Santa Cruz

20

José Zeferino de Almeida

São Lourenço

55

Justino de Azevedo Ramos

Santana da Pedra

40

Luciana Francelina de Jesus

Tesouro

14

Luiza Teodora de Jesus

Vargem Grande

18

Manoel Antonio d’Almeida

Feijão Cru

94

Manoel Dias d’Aguiar

92

Manoel Francisco Mata

Na margem do Rio Pomba

93

Manoel Francisco Mata

Na margem do Rio Pomba

89

Manoel Joaquim da Silva

51

Manoel Joaquim Pereira

Glória

56

Manoel José de Novais

Saudades

75

Manoel José Monteiro de Barros

Cachoeira

Morro Alto

Providência

Santa Izabel

Santa Úrsula

Soledade

União

65

Manoel José Monteiro de Castro

União

52

Manoel Lopes da Rocha e José Lopes da Rocha

Onça

81

Manoel Rodrigues Coelho

54

Manoel Rodrigues da Silva

Purys

76

Manoel Thomaz Alves de Aquino

Barra do Rio Pardo

1

Maria do Carmo Monteiro de Barros

Desengano

2

Maria Vidal de Souza

Saudade

11

Mariana Pereira Duarte

Recreio

60

órfãos de Ana Rosa Machado

Sitio

78

Pedro Baldoíno da Silva

Boa Sorte

77

Pedro de Oliveira e Silva

Córrego de São Pedro

4

Processo José Correia de Lacerda

Taboleiro

34

Proprietário não identificado

Recanto

72

Querino Ribeiro de Avelar Rezende

Pedra

9

Romão Pinheiro Correia de Lacerda

Memória

91

São Sebastião

 

Transcrevemos o último registro acima, de número 91, mantendo a ortografia do documento:

São Sebastião possue as terras de seu Patrimonio na Villa Leopoldina regulando dez alqueires dados por particulares ao mesmo Santo e devidem por um lado com Alvaro de Souza Verneke por outro com D. Maria do Carmo Monteiro de Barros e seus Herdeiros e Romão Pinheiro Correia de Lacerda e por outro lado com Antonio Albino Levasseur e Luiz Botelho Falcão por outro lado com o Pe. Jose Maria Solleiro, Manoel Rodrigues Coelho e Jose Lopes da Rocha. Villa Leopoldina 20 de Abril de 1856. Procurador Francisco Jose de Freitas Lima. O vig.º José Mª Solleiro.

Embora não informe os nomes dos doadores do patrimônio de São Sebastião, fontes documentais localizadas no Arquivo da Câmara Municipal de Mar de Espanha citam o casal Joaquim Ferreira Brito e Joana Maria de Macedo em duas doações realizadas no ano de 1831.

Por outro lado, estes doadores não aparecem na lista de proprietários porque, como se verifica em outros assentamentos, Joaquim Ferreira Brito já havia falecido quando foi realizado o Registro de Terras, tendo sua propriedade sido dividida entre os herdeiros e partes vendidas a outros pioneiros do Feijão Cru.

Outra situação a ser destacada, que se repete em diversas descrições das propriedades registradas, é a citação de um vizinho que não consta da listagem com registro próprio. No caso, trata-se de Luiz Botelho Falcão como um dos vizinhos do patrimônio de São Sebastião embora seu nome não figure entre os proprietários. Pelo que pudemos apurar, até 1851 este personagem não constou das listas de moradores do Feijão Cru. Também nos assentos paroquiais, não encontramos referências a Luiz Botelho Falcão relativas a período anterior à elevação do Feijão Cru a Vila e Cidade em 1854. Donde levantamos a hipótese de ter sido citado como vizinho, ainda que não fosse proprietário de fato, pelas relações sociais estabelecidas assim que se estabeleceu em Leopoldina.


Localização Provável

Estabelecer onde se situavam as antigas propriedades é tarefa espinhosa. A documentação existente abrange um vasto território, a toponímia mudou muito e poucas referências permitem identificar os acidentes geográficos.

Comparando o Registro de Terras de 1856 e as propriedades existentes em 1924, indicamos localizações possíveis em recortes de Cartografia da Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais, publicada pela Seção Cartográfica da Companhia Melhoramentos de São Paulo em 1926, folha 20 S 2 E 3.

Localização de algumas propriedades em Leopoldina


Localização de algumas propriedades em Leopoldina


Localização de algumas propriedades em Leopoldina


 


[1] SILVA, Lígia Osorio. Terras Devolutas e Latifúndio: Efeitos da lei de 1850. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1996 – p.13

[2] Idem, p. 14

[3] Idem, p. 45

[4] O original deste documento encontra-se no Arquivo Público Mineiro, sob o código TP114, Fundo Repartição Especial das Terras Públicas

Escola em Piacatuba

A Lei Mineira nº 2020, de 4 de dezembro de 1873, trata da criação de escolas de instrução primária em algumas localidades, incluindo uma escola masculina para Piacatuba. Parece tratar-se da primeira instituição de ensino criada no então distrito da Piedade. Segundo os relatórios da Presidência da Província de Minas Gerais para o ano de 1876, no ano anterior os moradores da localidade doaram, ao governo provincial, prédios para instalação de salas de aulas.

Segundo o Almanaque Laemmert, de 1883, naquele ano funcionava na Piedade uma escola particular, dirigida por Souza Machado e Symphonio Cardoso.

Não se sabe, ainda, quais teriam sido as “aulas públicas” da Piedade que se transformaram, já no século XX, no Grupo Escolar Pompílio Guimarães das imagens abaixo.

Tia Aline, educadora leopoldinense

Homenagem a uma professora que deixou saudades.

Em nosso trabalho Nossas Ruas, Nossa Gente, publicado pela Felizcidade, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público sediada em Leopoldina, um dos verbetes é o da rua Aline Monteiro Gomes, localizada no bairro Dona Euzébia, e que recebeu este nome através da lei nº 3.391, de 26.12.2001.

A tia Aline, como era carinhosamente conhecida, era filha de José Gonçalves Gomes e Francisca Monteiro Lobo. Por sua atuação à frente do Jardim de Infância que em tantos leopoldinenses mirins despertou a sensibilidade e a criatividade, foi uma professora dinâmica e inovadora. Entre manifestações de antigos alunos da tia Aline, destacamos um trecho da entrevista concedida por Maria Georgina Albuquerque a Vânia Diniz[i]

Você nasceu em Leopoldina. Guarda alguma lembrança da sua cidade?

R – Realmente nasci em Leopoldina, Vânia, uma pequena cidade da Zona da Mata Mineira. Apesar da minha pouca idade na época em que ali vivi, as recordações são inúmeras e claras. Trago comigo o cheiro de terra molhada após o prazer da chuva, o canto das cigarras e um esplêndido arco-íris embelezando o céu.

A minha mãe era muito católica, daí a lembrança dos cânticos religiosos e a chegada da imagem de Nossa Senhora em minha casa pra novena do mês de maio. Havia muita alegria na família, com inúmeras visitas e a diversidade de influências dos irmãos mais velhos, cada um com a sua peculiaridade. Aos meus quatro ou cinco anos, minha família mudou-se para o Rio de Janeiro. Como sete dos seus nove filhos já haviam concluído o colegial, meu pai optou por uma cidade maior, com Universidades e possibilidades profissionais que melhor lhes atendessem. Além dos meus avós maternos, tínhamos alguns tios que já moravam no Rio, o que tornou a coisa mais agradável.

Algum fato marcou nitidamente sua infância?

R – Chegando ao Rio, o ingresso no Colégio Assunção representou um divisor de águas. Estava acostumada ao microcosmo da cidade interiorana e embora este se situasse no tranqüilo bairro de Santa Tereza, onde fomos morar, um novo mundo descortinou-se. O espaço físico era excessivo e o refeitório acessado por um elevador panorâmico. Da imensa quadra de vôlei, avistava-se toda a cidade minimizada abaixo, o mar estendendo-se pelo horizonte como num belo cartão postal. Para completar, exigia-se o regime de semi-internato, com o relativo afastamento da minha família sendo compensado pela disciplina dos horários de estudo, biblioteca, aulas de música e esportes. Foi, portanto, uma mudança um tanto drástica, embora não me tenha absolutamente causado danos e perceba hoje o quanto me beneficiou.

Quando descobriu a literatura?

R-A escolinha em que estudava em Minas, já na época era bastante inovadora. Lembro-me muito bem da Tia Aline, professora e proprietária do pequeno estabelecimento. A proposta pedagógica do seu Jardim de Infância, por incrível que pareça, era muito mais avançada que a do tradicional Colégio Assunção, no Rio. Os pequenos alunos eram bastante estimulados e sem que percebêssemos ou tomássemos a aprendizagem como uma exigência a ser cumprida, desenvolvíamos uma imensa curiosidade pelo que havia em volta. A criatividade era incentivada através do vasto material que cobria as enormes mesas da escola e, ao lado das tintas e lápis coloridos, várias estantes repletas de livros faziam a festa dos alunos. Ao chegar no Rio já sabia ler  e a minha mãe, também professora, passou a incentivar o meu hábito de leitura, presenteando-me constantemente com livros infantis. Os irmãos mais velhos também enriqueceram muito essa experiência.

Tia Aline mantinha o seu Jardim de Infância no mesmo endereço onde residia, na rua Custódio Junqueira, junto de suas irmãs Corina e Ondina.

Outra de suas irmãs, Sebastiana Monteiro Gomes (apelido Babá), foi casada com o farmacêutico Guanahyro Fraga Mota. Dos irmãos de tia Aline temos ainda a informação de que em 1938 o João residia em Caratinga, MG e que o Osmar era farmacêutico. De Rita temos apenas o nome citado na Genealogia Mineira.[ii]

O pai da tia Aline, José Gonçalves Gomes, foi hoteleiro em Leopoldina. A mãe da tia Aline, Dona Francisca pertencia à tradicional família Monteiro Lobo que já foi objeto de nossos estudos. Casada a primeira vez com seu primo José Augusto Monteiro da Silva Filho, de cujo consórcio não houve descendência, Dona Francisca era filha de Marcos Monteiro da Silva e Maria da Conceição Lobo, cuja ascendência encontra-se no citado estudo


[i] Maria Georgina Albuquerque, psicóloga, radicada em Brasília, nascida em Leopoldina, filha de Wilson Albuquerque e Odívia Carrano. Textos publicados na Usina de Letras onde também se encontram textos de seu irmão, Pedro Wilson Carrano Albuquerque. Entrevista a Vânia Moreira Diniz.

[ii] REZENDE, Arthur Vieira de, Genealogia Mineira,  (Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1937), volume 2 – 2ª parte – fls 119 e seguintes.

Disputas de limites entre Rio e Minas

Pelo Alvará de 9 de março de 1814, criando a Vila de Cantagalo, ficou estabelecido que as divisas entre Rio de Janeiro e Minas Gerais seriam marcadas pelo rio Paraíba do Sul.

Conta-nos Xavier da Veiga[i] que não havia disputa entre as províncias até que, em 1833, surgiu um questionamento sobre as divisas entre autoridades de Aldeia da Pedra e do distrito de Santa Rita do Meia Pataca (atual Cataguases). Em 1836 voltaram a ocorrer disputas, agora entre as câmaras de Campos dos Goytacazes e do Pomba. Três anos depois, os juizes de paz de Aldeia da Pedra e Feijão Cru (hoje Leopoldina) enfrentaram-se sobre o mesmo tema, passando o ano de 1839 a marcar o início de uma série de desordens que se estenderam até 1842.

A solução do problema veio através do Decreto Imperial nº 297 de 19 de maio de 1843, que estabelecia, em seu Artigo 1º:

os limites entre a Província do Rio de Janeiro e de Minas Gerais ficam provisoriamente fixados da maneira seguinte: começando pela foz do Riacho Prepetinga no Parahyba, subindo pelo dito Prepetinga acima até o ponto fronteiro à barra do ribeirão de Santo Antônio no Pomba, e dahi por uma linha recta à dita barra de Santo Antonio, correndo pelo ribeirão acima até a serra denominada Santo Antonio e dahi a um logar do rio Muriahé, chamado Poço Fundo, correndo pela serra do Gavião até a cachoeira dos Tombos do rio Carangola, e seguindo a serra do Carangola até encontrar a província do Espírito Santo.

Divisas Rio-Minas

 

No alto, à esquerda, destacada em vermelho a linha divisória entre Rio e Minas segundo cartografia de 1856, e a localização de Leopoldina, antigo Feijão Cru.

Ocorre que, em de outubro de 1842, Honório Hermeto Carneiro Leão (depois Marquês do Paraná) como Presidente da Província do Rio de Janeiro havia lavrado uma Portaria alterando os limites estabelecidos em 1814. Esta atitude gerou inúmeros protestos, tanto de autoridades mineiras como fluminenses. Logo depois Carneiro Leão deixou a presidência e assumiu a pasta da Justiça. No cargo de Ministro do Império foi-lhe fácil obter a promulgação do Decreto Imperial nº 297 que abonava a Portaria que ele, Carneiro Leão, havia definido inadequadamente, já que como presidente de província não tinha poderes para alterar as divisas. Nem assim o agora Ministro conseguiu aplacar os ânimos.

Ainda em outubro de 1843 foi requerido o levantamento topográfico dos municípios do Presídio (Visconde do Rio Branco), Pomba e São João Nepomuceno. No decorrer do processo de revisão dos limites foram confirmadas as divisas estabelecidas pelo Decreto 297 que, desta forma, deixaram de ser provisórias. No que concerne a Leopoldina, então Curato de São Sebastião do Feijão Cru, seus limites com a província do Rio de Janeiro “tanto no civil como no eclesiástico” ficaram assim definidos: “começando da barra do rio Pomba no Parahyba, e por este acima até o riacho Perapetinga, abrangendo todas as suas vertentes”.

Entretanto, autoridades fluminenses questionaram o direito de Minas legislar sobre o Curato do Feijão Cru, por estar subordinado ao Bispado do Rio de Janeiro. Mas não encontraram respaldo no governo central e ficou definido que o limite entre Rio e Minas, naquela região, começaria na foz do Pirapetinga no rio Paraíba do Sul, subiria pelo Pirapetinga até encontrar o ponto fronteiro à barra do ribeirão Santo Antônio do Pomba, seguindo daí em diante o curso do Santo Antônio até o ponto do rio Muriaé chamado Poço Fundo, em seguida correndo pela serra do Gavião até a cachoeira dos Tombos, no rio Carangola, e seguindo a serra do Carangola até chegar na divisa com o Espírito Santo.

Portanto, não restaram dúvidas de que o Curato do Feijão Cru, elevado a Vila e Cidade da Leopoldina pouco tempo depois, pertencia à província de Minas Gerais. Diferentemente do que aconteceu em Patrocínio do Muriaé e localidades adjacentes, com os moradores recusando-se ao alistamento[ii] por acharem-se sujeitos ao Rio de Janeiro, em Leopoldina não houve nenhum problema desta natureza. Quando começaram as disputas entre fluminenses e mineiros em 1882, o território reclamado já estava desmembrado de Leopoldina há mais de uma década. Diga-se, a bem da verdade, que os litígios do final do século XIX atingiam região que só esteve subordinado a Leopoldina entre 1854 e 1871.

Entre 1843 e 1897 porém, o território do antigo Curato do Feijão Cru esteve subordinado civilmente a Minas Gerais e suas igrejas vinculadas ao Bispado do Rio de Janeiro. Pelo que se pode observar na documentação remanescente[iii], a mudança para o Bispado de Mariana ocorreu sem conflitos.

Segundo certidão do Bispado de Mariana, extraída de registro do Cartório Eclesiástico de Mariana em 21 de janeiro de 1852, a dúvida a respeito dos limites entre os Bispados de Mariana e Rio de Janeiro teria origem na dificuldade de interpretar a Bula Condor Lucis Eterna, de 6 de dezembro de 1746, na qual o Papa Bento XIV criou o Bispado de Mariana, desmembrado do Bispado do Rio de Janeiro. O Cônego Luiz Antônio dos Santos foi encarregado de resolver a pendência em 1852, tendo confrontado os termos da citada Bula com o testemunho “dos homens mais antigos daqueles lugares”, como informa o registro do processo. Os limites foram assim definidos:

  • 1 – Desde a foz do Kagado até suas cabeceiras na serra de Domingos Ferreira, ficando a direita para o Bispado do Rio de Janeiro: Curato do Espírito Santo.

  • 2 – Por todo o espigão da dita serra até tocar no rio Pomba, perto do Meia Pataca, sendo do Bispado do Rio as Dores do Rabicho e todo o território cujas águas vertem para os rios Novo e Pomba.

  • 3 – Pelo rio Pomba abaixo até o espigão que divide as águas do rio Baraúna das águas do rio Capivara, sendo de Mariana o território cujas águas vertem para o Baraúna e do Rio de Janeiro o território cujas águas vertem para o Capivara.

  • 4 – Continuando pelo dito espigão até que as águas vertam para o rio São João e Capivara, e subindo até o espigão que divide as águas do Pomba das águas do Muriaé.

  • 5 – Subindo por este espigão para o Nascente até encontrar com a linha que divide as duas Províncias do Rio e Minas provisoriamente, e seguindo-a até o Poço Fundo do rio Muriaé.

  • 6 – Subindo do Poço Fundo ao território do Arraial dos Tombos, sendo de Mariana todas as famílias descendentes de Antônio Rodrigues dos Santos, fazendas de José de Lana, José Custódio e Lopes, e as mais que atualmente dão obediência a Mariana.

  • 7 – Dos Tombos subindo a serra, que divide as águas do Carangola das águas do rio Preto até a serra que fica à esquerda do rio Veado.

  • 8 – Da dita subindo a serra dos Pilões até a Província do Espírito Santo.

Desta forma, em 1855 pertenciam ao Bispado do Rio de Janeiro:

– Freguesia de Mar de Espanha com os curatos do Espírito Santo do Mar de Espanha (Guarará) e Santo Antônio do Aventureiro;

– Freguesia de São Sebastião da Leopoldina com os curatos de Madre de Deus do Angu (Angustura), Nossa Senhora da Piedade (Piacatuba), Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, São José do Além Paraíba e Bom Jesus do Rio Pardo (Argirita).

Nos anos subseqüentes alguns curatos foram elevados a freguesias e outros foram criados. Na década de 1860 aparecem também, nos domínios do Bispado do Rio de Janeiro, o Curato Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre que corresponde ao atual distrito de Taruaçu, município de São João Nepomuceno; Santo Antônio do Mar de Espanha (Chiador), e São Francisco de Assis da Capivara, correspondente ao atual município de Palma.

A transferência que faria coincidir a subordinação civil com a paroquial veio com o Decreto Pontifício de 16 de julho de 1897. Depreende-se da leitura de Raimundo Trindade[iv] que neste Decreto Pontifício a Igreja antecipou-se ao governo civil, resolvendo também a disputa pelo território de Miracema alguns meses antes do Acordo civil de 4 de setembro de 1897.

© cantoni 2005

Fontes:


[i] VEIGA, João Pedro Xavier da. Notícias Histórica da Questão de Limites entre os Estados de Minas Geraes e Rio de Janeiro. Revista do Arquivo Público Mineiro, Ouro Preto, v. 4, p.332-376, 1899.

[ii] Por alistamento entenda-se o procedimento de identificar os moradores com vistas ao lançamento de tributos, à qualificação eleitoral e convocações militares.

[iii] DOCUMENTOS Eclesiásticos sobre as divisas do Bispado de Mariana. Revista do ArquivoPúblico Mineiro, Ouro Preto, v. 11, p.433-446, 1906.

[iv] TRINDADE, Raimundo da. Archidiocese de Mariana: subsídios para a sua história. São Paulo: SPLCJ, 1928-29, 3 volumes

Nossas Ruas, Nossa Gente

Centro da Cidade de Leopoldina, MG

Lançado no último dia 4 de agosto de 2004, o livro Nossas ruas Nossa Gente pode ser lido neste endereço.