Entre a chegada ao Brasil e a compra do lote
No caso de Leopoldina, já encontramos famílias que desembarcaram no Rio em 1894, ficaram alguns dias na Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora e foram contratados pela Câmara Municipal de Leopoldina que os encaminhou para fazendas do município. Muitos desses imigrantes, quando da criação da Colônia, ali adquiriram lotes e passaram a cuidar da sua própria terra.
Enrico Giovanni dal Canton
Muitos pesquisadores acreditam que a família Cantoni é a mesma “dal Canton’. Até o momento não foi encontrada ligação entre as duas. Os imigrantes de sobrenome “dal Canton” que viveram em Leopoldina procediam de outra região italiana.

O Registro de Terras em Leopoldina
O Registro de Terras, documento elaborado a partir da regulamentação da Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, é a mais segura e antiga fonte para estudarmos a distribuição das propriedades no século XIX*.
E segundo Lígia Osorio Silva[1], “as relações entre os proprietários de terras e o Estado constituem um aspecto fundamental para a compreensão da dinâmica da sociedade brasileira”. A mesma autora ressalta que a chamada Lei de Terras de 1850, tinha “a intenção de demarcar as terras devolutas e normalizar o acesso à terra por parte dos particulares, daquela data em diante”[2].
De modo geral, partimos de informações sobre as doações de sesmarias quando estudamos a ocupação do nosso território. Entretanto, estudá-las isoladamente traz uma visão distante da realidade, especialmente porque sabemos que muitos beneficiados jamais tomaram posse efetiva das terras com que foram agraciados. Em lugar disso, trataram de lotear e vender suas posses para aqueles personagens que foram os reais povoadores de muitas regiões.
Outro aspecto que devemos considerar, ainda no que se refere a sesmarias, é a questão do tamanho das propriedades. Ao final do século XVIII e início do XIX, as cartas concessórias informam que uma sesmaria media meia légua em quadra, o que equivale a 10.890.000 metros quadrados. Convertendo para a medida habitual na região de Leopoldina, ou seja, considerando que aqui era usado o alqueire de 48.400 metros quadrados, temos que uma sesmaria equivalia a 225 alqueires.
Mas como eram feitas estas medições? Valemo-nos ainda de Ligia Osorio da Silva que, citando Ulisses Lins, informa que “o medidor enchia o cachimbo, acendia-o e montava a cavalo, deixando que o animal marchasse a passo; quando o cachimbo se apagava, acabado o fumo, marcava uma légua”[3].
Portanto, ressalvando a impossibilidade de considerar rigorosamente os tamanhos das antigas fazendas, abordamos o registro das mais antigas propriedades de Leopoldina a partir do já citado Registro de Terras. Este instrumento foi normatizado pelo Decreto nº 1318 de 30 de janeiro de 1854 e é geralmente referido como Regulamento da Lei de Terras. Sabemos que demorou a ser aplicado em algumas localidades brasileiras mas, em Leopoldina, no dia 18 de fevereiro de 1856 o vigário José Maria Solleiro fazia a abertura do respectivo livro com o seguinte registro: “Tem de servir este Livro para o lanzam.to do Registro das terras desta freguezia de S. Sebastião da Villa Leopoldina o qual vai por mim, numerado, e rubricado com o appellido de = Solleiro = de que uso, e leva no fim inserramento.”[4]
Foram feitos 95 assentamentos, aparentemente pela ordem em que o padre Solleiro atendia cada proprietário que o procurava, ou, mais provavelmente, pela ordem em que ele próprio visitava os moradores do território de Leopoldina.
*Este artigo foi escrito em 2006 e reformulado em 2012 para divulgação na Revista Eletrônica de Leopoldina.
PROPRIETÁRIOS DE 1856
Listagem alfabética dos proprietários que registraram suas terras na Paróquia de São Sebastião da Leopoldina.
|
Nr. |
Proprietário |
Nome ou localização da Propriedade |
|
5 |
Albina Joaquina de Lacerda |
Benevolência |
|
47 |
Álvaro de Souza Werneck |
Grama |
|
80 |
Ambrosio José de Souza |
Santa Cruz |
|
10 |
Antonio Albino Levasseur |
|
|
31 |
Antonio Bernardino Machado |
Cachoeira |
|
8 |
Antonio Carlos da Silva Teles Fayão |
Das vertentes até a barra do Ribeirão Recreio |
|
29 |
Antonio Carlos da Silva Teles Fayão |
Conceição |
|
90 |
Antonio Ferreira Pinheiro |
Córrego D. Bárbara |
|
45 |
Antonio Gomes Moreira |
No Rio Pardo |
|
38 |
Antonio Joaquim Teixeira |
Ribeirão do Bagre |
|
28 |
Antonio José de Almeida e Gama |
Benevolência |
|
64 |
Antonio José Monteiro de Barros |
Paraíso |
|
41 |
Antonio José Pinto de Almeida |
Cachoeira |
|
17 |
Antonio Prudente d’Almeida |
São Luiz |
|
37 |
Antonio Rodrigues Gomes |
Águas Vertentes do Córrego do Moinho |
|
59 |
Bento Rodrigues Gomes |
Cachoeira do Bagre |
|
12 |
Bernardo José Gonçalves Montes |
Sossego |
|
88 |
Casemiro das Neves |
|
|
44 |
Custodio de Vargas Corrêa |
Boa Esperança |
|
23 |
Domiciano José da Silva |
Palmital |
|
73 |
Domingos Dias Tostes |
Barra |
|
39 |
Felisberto Antonio de Souza |
Sitio |
|
67 |
Fidelles da Costa |
Botelhos |
|
15 |
Francisco Antonio d’Almeida e Gama e Caetano José de Almeida e Gama |
Circuito |
|
16 |
Francisco Antonio de Almeida e Gama |
Bom Retiro |
|
74 |
Francisco Bernardino Machado |
Circuito |
|
66 |
Francisco da Silva Barboza |
Boa Vista |
|
84 |
Francisco de Paula Machado e José Joaquim Pereira |
Córrego |
|
32 |
Francisco Joaquim de Almeida Gama |
Benevolência |
|
13 |
Francisco José de Freitas Lima |
Água Limpa |
|
86 |
Francisco Pereira Pontes |
Grama |
|
36 |
Francisco Rodrigues de Mattos |
São Lourenço |
|
79 |
Gabriel Narcizo ou Patrício Norberto |
Na margem do Rio Pomba |
|
48 |
Genoveva Maria de Jesus |
Santa Anna do Rio Pomba |
|
25 |
Henriques Delfim e Silva |
Benevolência |
|
63 |
herdeiros de José Joaquim Monteiro de Barros |
Socorro |
|
49 |
Ignácio Barboza de Souza |
Referendo |
|
61 |
Jacinto Manuel Monteiro de Castro |
|
|
21 |
João Antonio Ribeiro |
No ribeirão Feijão Cru |
|
35 |
João Baptista de Almeida |
Monte Alegre |
|
85 |
João Evangelista da Silva |
Benevolência |
|
58 |
João Evangelista da Silva e Francisco de Paula Machado e José Joaquim Pereira |
Na margem do Rio Pomba |
|
95 |
João Francisco da Cruz e Filho |
|
|
33 |
João Gonçalves Neto |
Residência |
|
22 |
João Gualberto Ferreira Brito |
Fortaleza |
|
43 |
João Lourenço Ferreira de Lacerda |
Benevolência |
|
62 |
João Vidal Leite Ribeiro |
Independência |
|
87 |
Joaquim Albino de Santana |
|
|
6 |
Joaquim Antonio de Almeida e Gama |
Floresta |
|
42 |
Joaquim Dias Neto |
|
|
24 |
Joaquim José da Costa Cruz |
Nas vertentes do Rio Pomba |
|
27 |
Joaquim José Monteiro |
Benevolência |
|
53 |
Joaquim Lopes da Rocha |
Cachoeira |
|
7 |
Joaquim Machado Neto |
Boa Vista |
|
30 |
Joaquim Mendes do Valle, Francisco Mendes do Valle, Salvador Mendes do Valle, João Mendes do Valle e Francisco Baptista de Paula |
Sesmaria |
|
57 |
Joaquim Pereira da Silva Porto Monte Negro e Antonio Gomes Moreira |
Ponte do Rio Pardo |
|
70 |
José Augusto Monteiro de Barros |
Constancia |
|
71 |
José Augusto Monteiro de Barros |
Saudades |
|
68 |
José Bernardino Machado |
|
|
50 |
José de Egito de Sousa |
Novo Descoberto |
|
46 |
José Ferreira Britto |
Dois Irmãos |
|
69 |
José Ignácio de Bem e Domingos Rodrigues Carneiro |
Novo Descoberto |
|
83 |
José Ignácio do Bem |
Caridade |
|
19 |
José Joaquim Cordeiro |
No Córrego São Lourenço |
|
26 |
José Maria Pinha |
Benevolência |
|
82 |
José Maria Solleiro |
|
|
3 |
José Thomaz de Aquino Cabral, Carlos Augusto de Aquino Cabral e Sebastião Gomes Teixeira |
Santa Cruz |
|
20 |
José Zeferino de Almeida |
São Lourenço |
|
55 |
Justino de Azevedo Ramos |
Santana da Pedra |
|
40 |
Luciana Francelina de Jesus |
Tesouro |
|
14 |
Luiza Teodora de Jesus |
Vargem Grande |
|
18 |
Manoel Antonio d’Almeida |
Feijão Cru |
|
94 |
Manoel Dias d’Aguiar |
|
|
92 |
Manoel Francisco Mata |
Na margem do Rio Pomba |
|
93 |
Manoel Francisco Mata |
Na margem do Rio Pomba |
|
89 |
Manoel Joaquim da Silva |
|
|
51 |
Manoel Joaquim Pereira |
Glória |
|
56 |
Manoel José de Novais |
Saudades |
|
75 |
Manoel José Monteiro de Barros |
Cachoeira Morro Alto Providência Santa Izabel Santa Úrsula Soledade União |
|
65 |
Manoel José Monteiro de Castro |
União |
|
52 |
Manoel Lopes da Rocha e José Lopes da Rocha |
Onça |
|
81 |
Manoel Rodrigues Coelho |
|
|
54 |
Manoel Rodrigues da Silva |
Purys |
|
76 |
Manoel Thomaz Alves de Aquino |
Barra do Rio Pardo |
|
1 |
Maria do Carmo Monteiro de Barros |
Desengano |
|
2 |
Maria Vidal de Souza |
Saudade |
|
11 |
Mariana Pereira Duarte |
Recreio |
|
60 |
órfãos de Ana Rosa Machado |
Sitio |
|
78 |
Pedro Baldoíno da Silva |
Boa Sorte |
|
77 |
Pedro de Oliveira e Silva |
Córrego de São Pedro |
|
4 |
Processo José Correia de Lacerda |
Taboleiro |
|
34 |
Proprietário não identificado |
Recanto |
|
72 |
Querino Ribeiro de Avelar Rezende |
Pedra |
|
9 |
Romão Pinheiro Correia de Lacerda |
Memória |
|
91 |
São Sebastião |
|
Transcrevemos o último registro acima, de número 91, mantendo a ortografia do documento:
São Sebastião possue as terras de seu Patrimonio na Villa Leopoldina regulando dez alqueires dados por particulares ao mesmo Santo e devidem por um lado com Alvaro de Souza Verneke por outro com D. Maria do Carmo Monteiro de Barros e seus Herdeiros e Romão Pinheiro Correia de Lacerda e por outro lado com Antonio Albino Levasseur e Luiz Botelho Falcão por outro lado com o Pe. Jose Maria Solleiro, Manoel Rodrigues Coelho e Jose Lopes da Rocha. Villa Leopoldina 20 de Abril de 1856. Procurador Francisco Jose de Freitas Lima. O vig.º José Mª Solleiro.
Embora não informe os nomes dos doadores do patrimônio de São Sebastião, fontes documentais localizadas no Arquivo da Câmara Municipal de Mar de Espanha citam o casal Joaquim Ferreira Brito e Joana Maria de Macedo em duas doações realizadas no ano de 1831.
Por outro lado, estes doadores não aparecem na lista de proprietários porque, como se verifica em outros assentamentos, Joaquim Ferreira Brito já havia falecido quando foi realizado o Registro de Terras, tendo sua propriedade sido dividida entre os herdeiros e partes vendidas a outros pioneiros do Feijão Cru.
Outra situação a ser destacada, que se repete em diversas descrições das propriedades registradas, é a citação de um vizinho que não consta da listagem com registro próprio. No caso, trata-se de Luiz Botelho Falcão como um dos vizinhos do patrimônio de São Sebastião embora seu nome não figure entre os proprietários. Pelo que pudemos apurar, até 1851 este personagem não constou das listas de moradores do Feijão Cru. Também nos assentos paroquiais, não encontramos referências a Luiz Botelho Falcão relativas a período anterior à elevação do Feijão Cru a Vila e Cidade em 1854. Donde levantamos a hipótese de ter sido citado como vizinho, ainda que não fosse proprietário de fato, pelas relações sociais estabelecidas assim que se estabeleceu em Leopoldina.
Localização Provável
Estabelecer onde se situavam as antigas propriedades é tarefa espinhosa. A documentação existente abrange um vasto território, a toponímia mudou muito e poucas referências permitem identificar os acidentes geográficos.
Comparando o Registro de Terras de 1856 e as propriedades existentes em 1924, indicamos localizações possíveis em recortes de Cartografia da Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais, publicada pela Seção Cartográfica da Companhia Melhoramentos de São Paulo em 1926, folha 20 S 2 E 3.



[1] SILVA, Lígia Osorio. Terras Devolutas e Latifúndio: Efeitos da lei de 1850. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1996 – p.13
[2] Idem, p. 14
[3] Idem, p. 45
[4] O original deste documento encontra-se no Arquivo Público Mineiro, sob o código TP114, Fundo Repartição Especial das Terras Públicas
Escola em Piacatuba
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A Lei Mineira nº 2020, de 4 de dezembro de 1873, trata da criação de escolas de instrução primária em algumas localidades, incluindo uma escola masculina para Piacatuba. Parece tratar-se da primeira instituição de ensino criada no então distrito da Piedade. Segundo os relatórios da Presidência da Província de Minas Gerais para o ano de 1876, no ano anterior os moradores da localidade doaram, ao governo provincial, prédios para instalação de salas de aulas. Segundo o Almanaque Laemmert, de 1883, naquele ano funcionava na Piedade uma escola particular, dirigida por Souza Machado e Symphonio Cardoso. Não se sabe, ainda, quais teriam sido as “aulas públicas” da Piedade que se transformaram, já no século XX, no Grupo Escolar Pompílio Guimarães das imagens abaixo.
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Tia Aline, educadora leopoldinense
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Homenagem a uma professora que deixou saudades. Em nosso trabalho Nossas Ruas, Nossa Gente, publicado pela Felizcidade, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público sediada em Leopoldina, um dos verbetes é o da rua Aline Monteiro Gomes, localizada no bairro Dona Euzébia, e que recebeu este nome através da lei nº 3.391, de 26.12.2001. A tia Aline, como era carinhosamente conhecida, era filha de José Gonçalves Gomes e Francisca Monteiro Lobo. Por sua atuação à frente do Jardim de Infância que em tantos leopoldinenses mirins despertou a sensibilidade e a criatividade, foi uma professora dinâmica e inovadora. Entre manifestações de antigos alunos da tia Aline, destacamos um trecho da entrevista concedida por Maria Georgina Albuquerque a Vânia Diniz[i]
Tia Aline mantinha o seu Jardim de Infância no mesmo endereço onde residia, na rua Custódio Junqueira, junto de suas irmãs Corina e Ondina. Outra de suas irmãs, Sebastiana Monteiro Gomes (apelido Babá), foi casada com o farmacêutico Guanahyro Fraga Mota. Dos irmãos de tia Aline temos ainda a informação de que em 1938 o João residia em Caratinga, MG e que o Osmar era farmacêutico. De Rita temos apenas o nome citado na Genealogia Mineira.[ii] O pai da tia Aline, José Gonçalves Gomes, foi hoteleiro em Leopoldina. A mãe da tia Aline, Dona Francisca pertencia à tradicional família Monteiro Lobo que já foi objeto de nossos estudos. Casada a primeira vez com seu primo José Augusto Monteiro da Silva Filho, de cujo consórcio não houve descendência, Dona Francisca era filha de Marcos Monteiro da Silva e Maria da Conceição Lobo, cuja ascendência encontra-se no citado estudo [i] Maria Georgina Albuquerque, psicóloga, radicada em Brasília, nascida em Leopoldina, filha de Wilson Albuquerque e Odívia Carrano. Textos publicados na Usina de Letras onde também se encontram textos de seu irmão, Pedro Wilson Carrano Albuquerque. Entrevista a Vânia Moreira Diniz. [ii] REZENDE, Arthur Vieira de, Genealogia Mineira, (Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1937), volume 2 – 2ª parte – fls 119 e seguintes. |
Disputas de limites entre Rio e Minas
|
Pelo Alvará de 9 de março de 1814, criando a Vila de Cantagalo, ficou estabelecido que as divisas entre Rio de Janeiro e Minas Gerais seriam marcadas pelo rio Paraíba do Sul. Conta-nos Xavier da Veiga[i] que não havia disputa entre as províncias até que, em 1833, surgiu um questionamento sobre as divisas entre autoridades de Aldeia da Pedra e do distrito de Santa Rita do Meia Pataca (atual Cataguases). Em 1836 voltaram a ocorrer disputas, agora entre as câmaras de Campos dos Goytacazes e do Pomba. Três anos depois, os juizes de paz de Aldeia da Pedra e Feijão Cru (hoje Leopoldina) enfrentaram-se sobre o mesmo tema, passando o ano de 1839 a marcar o início de uma série de desordens que se estenderam até 1842. A solução do problema veio através do Decreto Imperial nº 297 de 19 de maio de 1843, que estabelecia, em seu Artigo 1º:
No alto, à esquerda, destacada em vermelho a linha divisória entre Rio e Minas segundo cartografia de 1856, e a localização de Leopoldina, antigo Feijão Cru. Ocorre que, em de outubro de 1842, Honório Hermeto Carneiro Leão (depois Marquês do Paraná) como Presidente da Província do Rio de Janeiro havia lavrado uma Portaria alterando os limites estabelecidos em 1814. Esta atitude gerou inúmeros protestos, tanto de autoridades mineiras como fluminenses. Logo depois Carneiro Leão deixou a presidência e assumiu a pasta da Justiça. No cargo de Ministro do Império foi-lhe fácil obter a promulgação do Decreto Imperial nº 297 que abonava a Portaria que ele, Carneiro Leão, havia definido inadequadamente, já que como presidente de província não tinha poderes para alterar as divisas. Nem assim o agora Ministro conseguiu aplacar os ânimos. Ainda em outubro de 1843 foi requerido o levantamento topográfico dos municípios do Presídio (Visconde do Rio Branco), Pomba e São João Nepomuceno. No decorrer do processo de revisão dos limites foram confirmadas as divisas estabelecidas pelo Decreto 297 que, desta forma, deixaram de ser provisórias. No que concerne a Leopoldina, então Curato de São Sebastião do Feijão Cru, seus limites com a província do Rio de Janeiro “tanto no civil como no eclesiástico” ficaram assim definidos: “começando da barra do rio Pomba no Parahyba, e por este acima até o riacho Perapetinga, abrangendo todas as suas vertentes”. Entretanto, autoridades fluminenses questionaram o direito de Minas legislar sobre o Curato do Feijão Cru, por estar subordinado ao Bispado do Rio de Janeiro. Mas não encontraram respaldo no governo central e ficou definido que o limite entre Rio e Minas, naquela região, começaria na foz do Pirapetinga no rio Paraíba do Sul, subiria pelo Pirapetinga até encontrar o ponto fronteiro à barra do ribeirão Santo Antônio do Pomba, seguindo daí em diante o curso do Santo Antônio até o ponto do rio Muriaé chamado Poço Fundo, em seguida correndo pela serra do Gavião até a cachoeira dos Tombos, no rio Carangola, e seguindo a serra do Carangola até chegar na divisa com o Espírito Santo. Portanto, não restaram dúvidas de que o Curato do Feijão Cru, elevado a Vila e Cidade da Leopoldina pouco tempo depois, pertencia à província de Minas Gerais. Diferentemente do que aconteceu em Patrocínio do Muriaé e localidades adjacentes, com os moradores recusando-se ao alistamento[ii] por acharem-se sujeitos ao Rio de Janeiro, em Leopoldina não houve nenhum problema desta natureza. Quando começaram as disputas entre fluminenses e mineiros em 1882, o território reclamado já estava desmembrado de Leopoldina há mais de uma década. Diga-se, a bem da verdade, que os litígios do final do século XIX atingiam região que só esteve subordinado a Leopoldina entre 1854 e 1871. Entre 1843 e 1897 porém, o território do antigo Curato do Feijão Cru esteve subordinado civilmente a Minas Gerais e suas igrejas vinculadas ao Bispado do Rio de Janeiro. Pelo que se pode observar na documentação remanescente[iii], a mudança para o Bispado de Mariana ocorreu sem conflitos. Segundo certidão do Bispado de Mariana, extraída de registro do Cartório Eclesiástico de Mariana em 21 de janeiro de 1852, a dúvida a respeito dos limites entre os Bispados de Mariana e Rio de Janeiro teria origem na dificuldade de interpretar a Bula Condor Lucis Eterna, de 6 de dezembro de 1746, na qual o Papa Bento XIV criou o Bispado de Mariana, desmembrado do Bispado do Rio de Janeiro. O Cônego Luiz Antônio dos Santos foi encarregado de resolver a pendência em 1852, tendo confrontado os termos da citada Bula com o testemunho “dos homens mais antigos daqueles lugares”, como informa o registro do processo. Os limites foram assim definidos:
Desta forma, em 1855 pertenciam ao Bispado do Rio de Janeiro: – Freguesia de Mar de Espanha com os curatos do Espírito Santo do Mar de Espanha (Guarará) e Santo Antônio do Aventureiro; – Freguesia de São Sebastião da Leopoldina com os curatos de Madre de Deus do Angu (Angustura), Nossa Senhora da Piedade (Piacatuba), Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, São José do Além Paraíba e Bom Jesus do Rio Pardo (Argirita). Nos anos subseqüentes alguns curatos foram elevados a freguesias e outros foram criados. Na década de 1860 aparecem também, nos domínios do Bispado do Rio de Janeiro, o Curato Nossa Senhora das Dores do Monte Alegre que corresponde ao atual distrito de Taruaçu, município de São João Nepomuceno; Santo Antônio do Mar de Espanha (Chiador), e São Francisco de Assis da Capivara, correspondente ao atual município de Palma. A transferência que faria coincidir a subordinação civil com a paroquial veio com o Decreto Pontifício de 16 de julho de 1897. Depreende-se da leitura de Raimundo Trindade[iv] que neste Decreto Pontifício a Igreja antecipou-se ao governo civil, resolvendo também a disputa pelo território de Miracema alguns meses antes do Acordo civil de 4 de setembro de 1897. © cantoni 2005 Fontes: [i] VEIGA, João Pedro Xavier da. Notícias Histórica da Questão de Limites entre os Estados de Minas Geraes e Rio de Janeiro. Revista do Arquivo Público Mineiro, Ouro Preto, v. 4, p.332-376, 1899. [ii] Por alistamento entenda-se o procedimento de identificar os moradores com vistas ao lançamento de tributos, à qualificação eleitoral e convocações militares. [iii] DOCUMENTOS Eclesiásticos sobre as divisas do Bispado de Mariana. Revista do ArquivoPúblico Mineiro, Ouro Preto, v. 11, p.433-446, 1906. [iv] TRINDADE, Raimundo da. Archidiocese de Mariana: subsídios para a sua história. São Paulo: SPLCJ, 1928-29, 3 volumes |
Nossas Ruas, Nossa Gente

Lançado no último dia 4 de agosto de 2004, o livro Nossas ruas Nossa Gente pode ser lido neste endereço.
Contagem Populacional: recenseamentos realizados em Leopoldina
O recenseamento realizado no Brasil em 1872, por ordem de Dom Pedro II, encontrou 3.184.099 habitantes na província de Minas Gerais.
O levantamento foi realizado de acordo com o Lei nr 1829, de 9 de setembro de 1870, que estabeleceu, em seu Art. 1º:
“De dez em dez annos proceder-se-ha ao recenseamento da população do Imperio”.
Em Minas Gerais, conforme se observa no recorte abaixo, a contagem só foi iniciada em 1 de agosto de 1873.
Em Leopoldina, a organização dos serviços esteve a cargo do Vigário José Francisco dos Santos Durães e de Francisco José de Freitas Lima que, conforme se verifica na nota abaixo, substituíram os primeiros nomeados por não residirem na Paróquia.

No Relatório apresentado pelo vice-presidente da província à Assembleia Legislativa em 1874, foram informados os seguintes dados de Leopoldina:

Nos quadros acima estão incluídos todos os distritos que então pertenciam a Leopoldina, quais sejam: Madre de Deus do Angu (hoje pertencente a Além Paraíba); Meia Pataca (hoje o município de Cataguases); Laranjal (hoje município); Pirapetinga (hoje município); Conceição da Boa Vista (atualmente distrito de Recreio); e, Bom Jesus do Rio Pardo (atual município de Argirita).
Na Paróquia de São Sebastião da Leopoldina o resultado foi o seguinte:
|
LIVRES |
BRANCOS |
% |
CABOCLOS |
% |
OUTROS |
% |
|
4.835 |
2.747 |
56,8 |
68 |
1,4 |
2.020 |
41,8 |
O quadro caboclos refere-se a índios, independente de serem filhos de índios com brancos ou só de índios.
|
LIVRES |
BRASILEIROS |
% |
ESTRANGEIROS |
% |
|
4.835 |
4.636 |
95,8 |
199 |
4,2 |
Entre os estrangeiros, destacamos:
8 alemães, sendo 2 homens casados, 3 homens solteiros, 1 mulher casada, 1 mulher solteira e 1 mulher viúva;
6 espanhóis, sendo 1 homem casado, 4 homens solteiros e 1 homem viúvo;
26 italianos, sendo 14 homens casados, 10 homens solteiros, 1 homem viúvo, 1 mulher casada.
Os demais 159 estrangeiros são de outras nacionalidades, especialmente portugueses.
|
LIVRES |
HOMENS |
% |
MULHERES |
% |
|
4.835 |
2.587 |
53,5 |
2.248 |
46,5 |
|
ANALFABETOS |
HOMENS |
% |
MULHERES |
% |
|
3.386 |
1.724 |
50,9 |
1.662 |
49,1 |
|
ESTUDANTES |
HOMENS |
% |
MULHERES |
% |
|
160 |
97 |
60,6 |
63 |
39,4 |
Entre a população livre, foram encontrados:
5 homens e 3 mulheres cegas, 2 homens e 1 mulher surdos-mudos, 15 homens e 9 mulheres aleijados, 2 homens e 1 mulher demente e 1 homem alienado, o que representa 0,8% do total de pessoas livres.
|
ESCRAVOS |
BRASILEIROS |
ESTRANGEIROS |
HOMENS |
MULHERES |
|
3.100 |
2.864 |
236 |
1.649 |
1.451 |
Todos os escravos se declararam analfabetos. E entre eles foram encontrados:
2 homens e 1 mulher cega, e 1 mulher surda-muda, 7 homens e 3 mulheres aleijados, 2 homens dementes e 1 homem alienado, representando 0,5% do total de escravos.
À exceção dos estrangeiros de origem germânica, todos os demais se declararam católicos.
Foram encontradas 481 casas, sendo 477 habitadas e 4 desabitadas.
CENSO REALIZADO EM 31.12.1890
Distribuição Populacional:
|
HABITANTES |
ESTRANGEIROS |
||
|
Homens |
Mulheres |
||
|
BRASIL |
14.333.915 |
231.731 |
119.581 |
|
MINAS GERAIS |
3.184.099 |
31.135 |
15.652 |
|
LOCAL |
HABITANTES |
ESTRANGEIROS |
ANALFABETOS |
||
|
H |
M | T | |||
|
São Sebastião de Leopoldina |
13.942 |
285 | 146 | 431 |
11.356 |
|
Nossa Senhora da Piedade |
4.344 |
4 |
3 |
7 |
3.385 |
|
Santo Antônio de Tebas |
2.226 |
61 |
42 |
103 |
1.824 |
|
N.S.Conceição da Boa Vista |
10.178 |
223 |
53 |
276 |
8.580 |
|
Bom Jesus do Rio Pardo |
4.841 |
45 |
28 |
73 |
4.157 |
|
TOTAL DE LEOPOLDINA |
35.531 |
618 |
272 |
890 |
29.302 |
ANALFABETISMO
|
SABEM LER E ESCREVER |
||||||
|
BRASILEIROS |
ESTRANGEIROS |
|||||
|
HOMENS |
MULHERES |
TOTAL |
HOMENS |
MULHERES |
TOTAL |
|
| BRASIL |
1.237.494 |
684.482 |
1.921.976 |
148.360 |
50.223 |
198.583 |
| MINAS |
220.975 |
100.428 |
321.403 |
8.619 |
1.382 |
10.001 |
| S.SEBASTIÃO |
1.485 |
835 |
2.320 |
223 |
43 |
266 |
| N.S.PIEDADE |
610 |
336 |
946 |
* 12 |
* 1 |
* 13 |
| S.A.TEBAS |
244 |
153 |
397 |
5 |
0 |
5 |
| BOA VISTA |
1.070 |
417 |
1.487 |
103 |
8 |
111 |
| RIO PARDO |
430 |
200 |
630 |
50 |
4 |
54 |
| Total Município |
3.839 |
1.941 |
5.780 |
393 |
56 |
449 |
* Há um erro flagrante, pois a população estrangeira no distrito era de 4 homens e 3 mulheres, conforme quadro anterior.
|
NÃO SABEM LER E ESCREVER |
|||||
|
BRASILEIROS E ESTRANGEIROS |
POPULAÇÃO |
||||
|
HOMENS |
MULHERES |
TOTAL |
TOTAL |
% ANALFABETOS |
|
| BRASIL |
5.852.078 |
6.361.278 |
12.213.356 |
14.333.915 |
85,2 |
| MINAS |
1.397.867 |
1.454.828 |
2.852.695 |
3.184.099 |
89,6 |
| S.SEBASTIÃO |
5.779 |
5.577 |
11.356 |
13.942 |
81,5 |
| N.S.PIEDADE |
1.718 |
1.667 |
3.385 |
4.344 |
77,9 |
| S.A.TEBAS |
912 |
912 |
1.824 |
2.226 |
81,9 |
| BOA VISTA |
4.408 |
4.172 |
8.580 |
10.178 |
84,3 |
| RIO PARDO |
2.135 |
2.022 |
4.157 |
4.841 |
85,8 |
| Total Município |
14.952 |
14.350 |
29.302 |
35.531 |
82,5 |
ANALFABETISMO ENTRE OS ESTRANGEIROS
|
LOCAL |
POPULAÇÃO |
ALFABETIZADOS |
ANALFABETOS |
|||||||||
|
H |
M | T | H | M | T | H | M | T | % | |||
|
S.Sebastião |
285 |
146 |
431 |
223 |
43 |
266 |
62 |
103 |
165 |
38,2 |
||
|
N. S.Piedade * |
4 |
3 |
7 |
12 |
1 |
13 |
8 |
2 |
10 |
142,8 |
||
|
S. A.Tebas |
61 |
42 |
103 |
5 |
0 |
5 |
56 |
42 |
98 |
95,1 |
||
|
N.S.C.Boa Vista |
223 |
53 |
276 |
103 |
8 |
111 |
120 |
45 |
165 |
59,8 |
||
|
B.J.Rio Pardo |
45 |
28 |
73 |
50 |
4 |
54 |
5 |
24 |
29 |
39,7 |
||
|
LEOPOLDINA |
618 |
272 |
890 |
225 |
216 |
441 |
49,5 |
|||||
* Conforme dito acima, há um erro flagrante no mapa do IBGE quanto ao número de estrangeiros alfabetizados.
FILIAÇÃO
|
LEGÍTIMOS |
ILEGÍTIMOS |
LEGITIMADOS |
EXPOSTOS |
TOTAIS |
|
| BRASIL |
11.656.431 |
2.603.489 |
61.730 |
12.265 |
14.333.915 |
| MINAS |
2.703.227 |
470.817 |
7.907 |
2.148 |
3.184.099 |
| S.SEBASTIÃO |
10.835 |
3.033 |
54 |
20 |
13.942 |
| N.S.PIEDADE |
3.696 |
646 |
2 |
0 |
4.344 |
| S.A.TEBAS |
1.761 |
463 |
2 |
0 |
2.226 |
| BOA VISTA |
7.722 |
2.437 |
17 |
2 |
10.178 |
| RIO PARDO |
3.490 |
1.333 |
11 |
7 |
4.841 |
| Total Município |
27.504 |
7.912 |
86 |
29 |
35.531 |
CULTO
|
BRASIL |
MINAS |
LEOPOLDINA |
||
|
CATÓLICOS |
ROMANOS |
14.179.615 |
3.180.526 |
35.471 |
|
ORTODOXOS |
1.673 |
88 |
0 |
|
|
PROTESTANTES |
EVANGÉLICOS |
19.957 |
368 |
0 |
|
PRESBITERIANOS |
1.317 |
92 |
0 |
|
|
OUTROS |
122.469 |
2.705 |
49 |
|
|
ISLAMITAS |
300 |
5 |
0 |
|
|
POSITIVISTAS |
1.327 |
105 |
10 |
|
|
SEM CULTO |
7.257 |
210 |
1 |
|
|
TOTAIS |
14.333.915 |
3.184.099 |
35.531 |
Alistamento Militar de 1875
|
O antigo Curato de Santana do Pirapetinga foi elevado à categoria de distrito através da Lei nº 1.240 de 29 de agosto de 1864, em território desmembrado do distrito de Conceição da Boa Vista, município de Leopoldina. Na época as divisas foram definidas a partir do rio Pirapetinga pelas fazendas de José Joaquim Ferreira Monteiro de Barros, Mateus Herculano Monteiro de Castro e Jacinto Manoel Monteiro de Castro, até atingir as divisas do distrito de Angustura que também estava subordinado a Leopoldina. No mesmo mês de agosto de 1864 a freguesia de São José do Paraíba, hoje Além Paraíba, foi desmembrada de Leopoldina e incorporada a Mar de Espanha, aí permanecendo até novembro de 1880 quando, através da Lei nº 2678, foi emancipada. Para a formação do novo município, Leopoldina perdeu o distrito de Pirapetinga. No Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina podem ser encontrados alguns documentos sobre Pirapetinga relativos ao período de 16 anos de subordinação. Entre eles, o Alistamento Militar de 1875, do qual foram extraídas as informações abaixo.
* – E = Excluído * – I = Incluído Fonte: Livro de Alistamento Militar do arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina |
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