Processo José Correia de Lacerda

Concluímos nossos comentários sobre os antigos moradores, referidos nos Mapas de População, com este membro da família Lacerda. Sua esposa é algumas vezes referida como Maria Teodora e em outras como Maria Vitória. O casal procedia da região de Bom Jardim de Minas.

Na propriedade denominada Taboleiro, vizinha de Manoel José de Novaes, Francisco da Silva Barbosa e da fazenda da Bocaina, Processo e Maria viveram com os filhos Generosa, Manoel, Maria, e Processo.

O nome deste morador é encontrado nos documentos eleitorais de 1851, 1872 e 1873, sempre vinculado ao então distrito de Conceição da Boa Vista. No Almanaque da Província de Minas Gerais de 1875, aparece como fazendeiro de café.

Março de 1899: crime em Conceição da Boa Vista

Na edição do dia 12 de março de 1899 do jornal O Arame, página 3, encontramos a divulgação de um telegrama enviado pelo sacristão de Conceição da Boa Vista para o Vigário, em Leopoldina, informando que o Padre Prudêncio fora envenenado e que teria sido pelo vinho na missa do dia.
Na edição seguinte, número 16 do dia 19 de março do mesmo ano, na página 2 encontra-se o relato do crime em coluna com o título Mostruoso Crime.
“Na ocasião da missa, tendo bebido o vinho, o Padre Prudencio sentiu-se mal; fazendo um esforço, conseguiu terminar o ofício divino, caindo nessa ocasião, com todos os sintomas de envenenamento.
Amparado por algumas pessoas presentes, foi chamado logo u medico – o Dr. Octaviano Costa – que não teve dificuldades em constatar o envenenamento pela estricnina, não só pelos simtomas que apresentavo o doente, como porque examinando o cálice, ainda encontrou parte da substância venenosa não dissolvida. 
Por alguma providencial circunstância, pela precipitação talvez, falhou a obra da perversidade. Socorrido com prontidão e energia, o digno sacerdote, depois de algumas horas de sofrimentos, foi considerado livre do perigo.
O Dr. Octaviano Costa – secundado por dois outros distintos clínicos, fez logo experiências com o tal vinho, procedendo a infeções em um coleho e um cachorro, sendo estes animais vitimados com os sintomas de envenenamento pela estricnina.
Segundo consta, em Conceição e Recreio a voz pública indigita claramente o nome do autor deste monstruoso crime, pessoa que – aliás – até aquela data gozava de alguma simpatia entre a população.
Quanto a nós, o que sabemos e que tem respondido no inquérito feito pelo digno sr. delegado de Polícia, o padre Cetrangulo, que até há pouco exercia o lugar de vigário daquela paróquia, do qual foi demitido pelo Revdmo. Pastor desta diocese.
Sabemos também que já tem deposto no inquérito algumas testemunhas, porém não nos consta que tenha sido expedida nenhuma ordem de prisão.
É o que podemos informar.”
A próxima e última notícia que encontramos sobre o episódio foi a do número 17 do mesmo jornal, edição do dia 30 de março de 1899:

“na noite do dia em que fora publicada a notícia acima, o padre Miguel Angelo Cetrangulo, alvo já da opinião pública que o apontava ocmo autor do repulsivo delito, e contra quem a autoridade policial já havia colhido provas no inquérito, tentou escapar-se planejando uma viagem à meia noite.

A autoridade policial, porém, estava alerta e quando o fugitivo ia a montar a calo, foi preso e recolhido à cadeia desta cidade, sendo contra ele lavrada ordem de prisão preventiva, concedida pelo digno Juiz Substituto”.
O que terá acontecido com o Padre Cetrangulo? Se alguém souber alguma coisa a respeito, por favor, escreva-nos.
Em 2019 descobrimos que o Padre Cetrangulo assumiu a paróquia de Tombos, onde atuava na primeira década de 1900.

Os Melido

No momento em que estamos falando das antigas famílias de Recreio, tivemos o prazer de receber um presente de Pedro Dorigo, que está organizando uma exposição fotográfica na cidade. Entre as antigas imagens que  gentilmente nos ofereceu, encontra-se a fotografia abaixo, do imóvel conhecido como Casarão dos Melido
Diz-nos Pedro Dorigo que a fotografia foi feita provavelmente em torno de 1944, retratanto o casarão construído nas últimas décadas de 1800, por um dos patriarcas de Recreio: Sr. Francisco Ferreira Brito Netto. O que nos leva de volta à família Ferreira Brito para lembrar que Francisco Melido casou-se com Ana Ferreira, filha de Antônio Eleotério Ferreira Neto e Tereza Flauzina Ferreira Brito, sendo neta materna de Ignacio Ferreira Brito e Mariana Ozória de Almeida. Acrescentamos que a esposa de Francisco Melido também descendia dos Ferreira Brito pelo lado paterno, sendo bisneta de Joaquim Ferreira Brito, tio-avô de Ignacio Ferreira Brito.
Sabemos ainda que dois familiares de Francisco Melido eram negociantes em Conceição da Boa Vista na época em que se deu a formação do Arraial Novo. Em agosto de 1883, Rafael Antonio Melido liquidou dívidas com a firma Silvestre Melido & Leoncio Fortunato através da transferência de créditos que detinha junto a Samuel Ferreira de Mattos, José Amâncio de Moraes e Manoel Querino de Moraes. Através de outros documentos registrados no Cartório de Conceição da Boa Vista, soubemos que o primeiro nome da firma referia-se a Francisco Silvestre Melido, homem de negócios que algumas vezes atuou como procurador de moradores de Recreio junto à justiça da Corte, ou seja, no Rio de Janeiro.
Pelo que se depreende da análise do livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista, relativo aos anos de 1883 e 1884, os Melido eram “Financistas”, qualificação profissional daqueles que emprestavam dinheiro a juros. Provavelmente, além da filha de Ignacio Ferreira Brito serão encontrados outros casamentos ligando a família deste pioneiro aos Melido. No momento, porém, restringimos nossos comentários em torno da hipótese do imóvel conhecido como Casarão dos Melido ter passado para esta família como fruto de herança de descendentes de Ignacio Ferreira Brito.

João Batista de Paula Almeida

Com o objetivo de falar dos antigos moradores de Conceição da Boa Vista, trazemos mais um nome encontrado nos Mapas de População. Aproveitamos para responder à consulta de um visitante a respeito destas listagens nominais de habitantes. Esclarecemos que os chamados “maços de população” foram implantados por ordem do Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, para fins de arrecadação de impostos e alistamento militar.

Em 1832 João Baptista de Paula Almeida comprou, de Pedro Teixeira de Carvalho, 200 alqueires de terras no lugar denominado Monte Alegre. Unidas à propriedade que herdou de seus pais, formou a Fazenda do Monte Alegre que fazia divisa com Francisco José de Freitas Lima, com a Fazenda do Recreio, com Francisco da Silva Barboza, com Manoel Ferreira Britto e com as terras dos Mendes.

Família Barbosa

Assim como diversas outras antigas famílias da região, também os Barbosa representam uma dificuldade para nossas pesquisas, já que ainda não pudemos definir, com segurança, se todos os usuários do sobrenome pertenciam à mesma família. Nossos estudos têm confirmado a observação de Sheila de Castro Faria que, no artigo História da Família e Demografia Histórica, publicado em Domínios da História (Cardoso e Vainfas, 1997), ressalta esta característica da sociedade brasileira: diversidade de sobrenomes de pessoas da mesma família consangüínea.

            Considerando, porém, que os Barbosa se inscrevem entre os antigos moradores de Recreio, trazemos uma segunda informação sobre eles.

            Em 1883 a Sra. Maria Madalena Barbosa compareceu ao Cartório de Conceição da Boa Vista para requerer seu reconhecimento como tutora de seus filhos menores: José, Geraldo e Antônio (ou Teotônio). Na mesma oportunidade, outros de seus filhos ali estavam para tratar da partilha de bens de seu pai, Vicente Gomes Leal, no processo de inventário do pai deste, Francisco Gomes Leal. Estes filhos foram Vicente Gomes Barbosa, Severino Gomes Barbosa e Ana Gomes Barbosa que se apresentou acompanhada do marido, José de Oliveira Sarandi.

            Sendo assim, temos mais um grupo de pessoas que vivia no então distrito de Conceição da Boa Vista na época em que se organizava o Arraial Novo que mais tarde tornou-se o distrito de Recreio.

Conceição da Boa Vista, Recreio, MG

Atendendo ao pedido de um visitante do blog, interrompemos os comentários sobre os antigos moradores do território onde foi fundada a cidade de Recreio para ajudá-lo a localizar a região que estamos mencionando. Começamos pela imagem atual da área urbana de Conceição da Boa Vista, obtida com o Google Earth.

Por volta de 1830 a região foi ocupada por famílias provenientes, em sua maioria, da Serra da Ibitipoca. A Lei nº 533, de 10 de Outubro de 1851, em seu artigo primeiro determinou:
Art. 1º Ficão elevados da Districtos de Paz: […] Art. 6º O novo Districto de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista do Município do Mar de Hespanha divide com o do Feijão Crú defronte da barra do Ribeirão de S. João no Rio Pomba, seguindo pelo espigão acima entre as fazendas de Manoel de Novaes, e da Bocaina, a ganhar a serra, seguindo por esta até a diviza do Alferes João Baptista com Manoel Ferreira no Cemiterio, e d’ahi a encontrar o rumo da sesmaria dos Mendes, que dividem com o mesmo Manoel Ferreira; e seguindo pelo mesmo atravessando a serra, a encontrar com o rumo da sesmaria de Joaquim Cezario, que divide com os Valins; e no fim do referido rumo em direcção às fazendas da Soledade, e Santa Ursula, ficando estas pertencendo ao Districto do Feijão Crú; e com o Districto da Madre de Deos, fica dividido pela serra da Pedra Branca até embocar no Parahyba, e por este abaixo até a Barra da Parapetinga Grande, ficando as mais divizas taes quaes actualmente se achão estabelecidas.
Já a Lei nº 1902, de 19 de Julho de 1872, declarou
Que eleva à cathegoria de Parochia o curato de N. S. da Conceição da Bôa Vista do municipio da Leopoldina. […] Art. unico. Fica elevado à cathegoria de parochia o curato de N. S. da Conceição da Bôa Vista do municipio da Leopoldina, e conservará as mesmas divisas; revogadas as disposições em contrario.
Posteriormente, com a dificuldade de levar a Estrada de Ferro Leopoldina até o distrito, por conta de problemas com proprietários de terras localizadas entre a estação de Abaíba e o distrito de Conceição da Boa Vista, o traçado foi revisto e criou-se a Estação do Recreio, conforme já explicado neste blog.
O decreto nº 123, de 27 de junho de 1890, criou o distrito de Recreio, que foi elevado a município e cidade pelo Decreto-Lei nº 148 de 17 de dezembro de 1938. A partir desta data, Conceição da Boa Vista deixou de ser subordinada administrativamente a Leopoldina, passando a fazer parte do novo município.
A seguir pode-se observar cartografia publicada na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, nos anos de 1950, contendo o traçado da ferrovia.

 

Empregados da Estrada de Ferro

Como não podia deixar de ser, entre os ocupantes dos terrenos próximos à Estação do Recreio encontravam-se alguns empregados da empresa concessionária. Entre eles, CANDIDO NEVES foi o primeiro a assinar a escritura de aforamento de 191 metros quadrados. Era o dia 8 de abril de 1885, mesma data em que outras escrituras de aforamento estavam sendo registradas pelo escrivão do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista.O terreno ocupado por Candido Neves, com autorização dos proprietários-outorgantes, tinha “19 metros e um decimetro de frente” e nele existia uma casa assoalhada e coberta de telhas, com duas portas e uma janela para os fundos, confrontando pela direita e esquerda com outras casas dos outorgantes, e na frente com uma pequena rua junto da Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina. Nos fundos da casa ocupada por Candido Neves passavam os trilhos da linha férrea Alto Muriahé.

A estrada de ferro Alto-Muriaé

Outro fator a acelerar a urbanização do então Arraial Novo foi a estrada de Ferro Alto-Muriaé. Segundo o relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, de 4 de maio de 1881 o presidente da Companhia Estrada de Ferro Alto Muriaé, Dr. Custódio José da Costa Cruz, informou que no dia 5 de janeiro daquele ano a Companhia foi instalada, com o fim de executar o contrato assinado com a Província em 11 de agosto de 1879. Trata-se do contrato para construção de uma linha férrea entre a Estação do Recreio e o povoado de São Francisco do Glória.

Observa-se que decorreram dois anos entre a assinatura do contrato de concessão e a organização da companhia construtora. A partir de então, e segundo o mesmo documento, entre janeiro e abril de 1881 foram “explorados e estudados 6 (seis) quilômetros da nova estrada, entre a Estação do Recreio e o Capivara”. Parece claro que construção da estrada só teria sido iniciada posteriormente, já que no relatório seguinte, de 12 de dezembro de 1881, o presidente da Província informa que aprovou os estudos sobre os primeiros 29 quilômetros da ferrovia Alto-Muriaé.

Confirmando tais informações, o relatório da Presidência da Província, de 1 de agosto de 1882, informa que naquele ano foram iniciados os trabalhos de construção dos 29 quilômetros da estrada, a partir da Estação do Recreio. Acrescente-se que somente em 1885, por ocasião da urbanização das terras da Fazenda Laranjeiras no Arraial Novo, surgem referências sobre esta ferrovia nos livros cartoriais de Conceição da Boa Vista.

Escola em Conceição da Boa Vista

Com o título Professores, a postagem do dia 8 de abril de 2007 informava que Antonio Maximiano Oliveira Leite era professor no distrito de Conceição da Boa Vista em 1875 e que em janeiro de 1885 foi nomeado um outro professor para o distrito: João Batista Nunes Júnior.
A análise sobre a educação tinha sido iniciada no dia anterior, quando informamos que a contagem populacional de 1872 indicava que 47% dos moradores livres eram alfabetizados. Mencionamos, também, que a partir de 1906 as então salas de Aulas Públicas foram reunidas em Grupo Escolar.
Ainda não se sabe a localização das Aulas Públicas que funcionaram em Conceição da Boa Vista. Tampouco temos o endereço completo do primeiro Grupo Escolar, cuja fotografia ao acima foi obtida junto ao Arquivo Público Mineiro.

Imigrantes em Recreio

Temos recebido muitas consultas sobre imigrantes que viveram em Recreio, provavelmente em função do projeto que desenvolvemos para recuperar a história da imigração em Leopoldina.
Na época da Grande Imigração, ou seja, entre 1880 e 1900, o território do atual município de Recreio estava subordinado a Leopoldina. Para recordar: o mais antigo distrito, anterior mesmo a Recreio, é Conceição da Boa Vista, criado em 1851. Em 1854, com a autonomia administrativa do antigo Feijão Cru com o nome de Leopoldina, Conceição da Boa Vista passou a subordinar-se a este município. A instalação do distrito de Recreio em 1890 não modificou o vínculo de Conceição da Boa Vista, o que só veio a acontecer em 1938, com a elevação de Recreio a município.
Como estamos falando de período anterior a 1930, quando foram modificadas as normas para registro civil em atraso, pesquisas sobre os imigrantes devem ser realizadas prioritariamente nos livros paroquiais. Por esta razão é importante lembrar que a Capela Menino Deus, atual Matriz de Recreio, foi criada como filial da então Freguesia de Conceição da Boa Vista. O mesmo ocorreu com a criação da capela no antigo distrito de São Joaquim, hoje Angaturama. Ou seja: os registros paroquiais eram realizados nos livros da então Matriz de Conceição da Boa Vista, que atualmente se encontram na secretaria paroquial da Matriz do Menino Deus, em Recreio.
Para os leitores que quiserem pesquisar sobre seus antepassados imigrantes, indicamos os livros paroquiais de Conceição da Boa Vista, hoje sob a guarda da Matriz do Menino Deus, em Recreio.
Já para os registros civis, lembramos que todos os distritos de Leopoldina criados antes de 1889 contavam com Cartório de Notas. Em fevereiro de 1889 foram instalados os Cartórios de Registro Civil, muitos deles simplesmente sucedendo os de Notas. Os documentos anteriores à instalação deveriam ter sido transferidos, naquela data, para o Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina. Entretanto, sabemos que em alguns casos não foi o que aconteceu. Donde será necessária uma busca mais detalhada, consultando as próprias unidades de Registro Civil.
Lembramos ainda que, de modo geral, os imigrantes buscavam a regularização de nascimentos e casamentos junto à Igreja e poucos fizeram o registro civil. Em nossas pesquisas, não foram raros os casos em que encontramos registro de nascimento incompatível com o batismo, bem como casamento civil diferente do religioso. Dois exemplos clássicos: data de batismo anterior à data de nascimento no registro civil; data de casamento civil posterior em muitos anos à do casamento religioso.