Expedicionários Leopoldinenses – Adilon Machado

A relação dos expedicionários leopoldinenses, conforme ficou dito na edição anterior, reúne os que participaram da Segunda Guerra Mundial, seja nos campos da Itália ou no patrulhamento da costa brasileira onde morreram mais brasileiros do que nos campos europeus.

O Trem de História de hoje começa a contar um pouco sobre a vida de alguns combatentes sem qualquer pretensão de fazer apologia à Guerra ou, julgar se ela foi justa ou injusta. Pretende, unicamente, falar do cidadão que foi uniformizado e mandado para a frente de defesa ou ataque. E que em muitos casos não voltou ou trouxe consigo as mazelas de uma guerra. Este cidadão que perdeu parte de sua juventude lutando contra um inimigo que não era seu, mas de seu país, é o foco da pesquisa.

Quando nada para que as gerações futuras possam contar aos mais novos, sem amarras ideológicas, que um dia o Brasil, num determinado contexto político e governamental, se envolveu num conflito mundial e, sem grandes recursos e prática (1), juntou civis e militares para criar a Força Expedicionária Brasileira que cuidaria de defender o território nacional. Nas unidades militares então formadas estavam 2947 mineiros (2) e destes, pelo menos mais de três dezenas eram leopoldinenses. Conterrâneos que num passado não muito distante lutaram e alguns morreram pelo país e, hoje, setenta anos depois, a cidade pouco se lembra deles.

Foram inicialmente considerados os nomes citados por Kléber Pinto de Almeida (3), os constantes no monumento existente na Avenida dos Expedicionários, no Bairro Bela Vista, em Leopoldina, e os pesquisados por alunos da Escola Estadual Luiz Salgado Lima (4).

A partir destas três listagens foram consultadas outras fontes, sendo fundamentais as informações colhidas na imprensa periódica da época do conflito, bem como nos arquivos da Associação dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – ANVFEB, unidade de Juiz de Fora, MG e em alguns arquivos de familiares.

O primeiro da relação é ADILON MACHADO.

Um nome que aparece na relação do monumento na Avenida dos Expedicionários como Odilon Machado. No trabalho dos alunos da Escola Estadual Luiz Salgado Lima (4) ele consta como sendo Adilson Machado.

Adilon nasceu a 23.05.1919 e faleceu no dia 26.10.2001, em Leopoldina. Era filho de Francisco Custódio Machado e Rita Morais Machado e casou-se com Odete (5) Werneck de Souza, natural de Dona Euzébia (MG), filha de Américo Werneck de Souza e Maria Madalena Pinto. Adilon e Odete foram pais de Francisco de Assis, Lúcia Maria, Adilson, Rita Maria, Antonio Carlos, Sebastião Celso, Alchindar, Edilson e José Renê.

Por certidão (6) de 30.07.85 verifica-se que Adilon foi incorporado ao Exército em 01.03.41 e excluído em 22 de novembro do mesmo ano. Foi reincluído por convocação de 10.04.43 e atuou na proteção da costa brasileira a bordo do navio Itaquera, entre o porto do Rio de Janeiro e Caravelas, na Bahia, tendo participado efetivamente de operações bélicas até 21.10.43. Em 15.03.92 recebeu o diploma da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, em Juiz de Fora (MG).

Segundo informe da Prefeitura (7) Adilon Machado empresta seu nome ao Centro Municipal de Educação Infantil – CEMEI no distrito de Ribeiro Junqueira, onde foi produtor rural e residiu durante toda a sua vida.

Notas

(1) MIRANDA, Francisco. 70 Anos da Tomada de Monte Castelo. A Batalha que Euclides da Cunha não viu. Disponível em <https://chicomiranda.wordpress.com/tag/soldados-brasileiros&gt;. Acesso em 01 jan. 2015.

(2) MORAES, J. B. Mascarenhas de. A FEB pelo seu Comandante. 2.ed. Rio de Janeiro: Bibliex, 1960. p. 401.

(3) ALMEIDA, Kléber Pinto de. Leopoldina de todos os tempos. Belo Horizonte: s.n., 2002. p.101

(4) PEREIRA, Rodolfo. Leopoldinenses na FEB (1943-1945). Publicado em 20 nov. 2013. Disponível em <http://www.acropolemg.blogspot.com.br/search/label/FEB&gt;. Acesso em 08 mar. 15.

(5) PAMPLONA, Nelson V. A Família Werneck. Rio de Janeiro, particular, 2010. p.122

(6) Ministério do Exército, Certidão do Departamento Geral do Pessoal, Diretoria de Cadastro e Avaliação.

(7) OLIVEIRA, Paloma Rezende de. História das Escolas – Leopoldina – Trajetórias e memórias das instituições escolares de Leopoldina/MG. Disponível em <http://historia-das-escolas-de-leopoldi.webnode.com/products/cemei-adilon-machado/&gt;. Acesso em 08 mar. 15.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de junho de 2015

Expedicionários Leopoldinenses: o início

O Brasil participou da Segunda Guerra Mundial (1) a partir de agosto de 1942, quando efetivamente reconheceu o estado de beligerância, até 08 de maio de 1945, considerado o Dia da Vitória. Contam, os que registraram os acontecimentos da época, que as tropas foram reunidas no Rio de Janeiro de onde embarcaram com destino ao Teatro de Operações na Itália ou, aos destinos indicados para proteção da costa brasileira.

Vale explicar que, para formar a Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária (2), juntaram-se as unidades já existentes no Exército Brasileiro na forma seguinte:

– Infantaria: 1º R.I (Regimento Sampaio) do Rio de Janeiro (RJ); 6º R.I. (Regimento Ipiranga) de Caçapava (SP); 11º R.I. (Regimento Tiradentes) de São João Del Rei (MG).

– Artilharia: 1º Grupo do Regimento de Obuzes Auto-Rebocado, criado no Rio de Janeiro (RJ); 1º Grupo do 2º Regimento de Obuzes Auto-Rebocado, constituído com elementos do 6º Grupo de Artilharia de Dorso, de Quitauna (SP); 2º Grupo de Artilharia de Dorso, do Rio de Janeiro (RJ); Grupo Escola do Rio de Janeiro (RJ) que, motorizado, se transformou em Grupo de 155 Auto-Rebocado. – Engenharia: 9º Batalhão de Engenharia de Aquidauana (MT).

– Cavalaria: Esquadrão de Reconhecimento do Rio de Janeiro (RJ), organizado pelo 2º Regimento Moto-Mecanizado.

– Saúde: 1º Batalhão de Saúde, criado em Valença (RJ).

– Tropa Especial: Companhia do Quartel General, Companhia de Transmissões, Companhia de Manutenção e Companhia de Intendência, todas do Rio de Janeiro (RJ).

– Órgãos não Divisionários: Um Depósito de Pessoal.

Com estas unidades reunidas, formou-se o contingente enviado para a Itália no total de mais de 25 mil militares e civis e um número ainda desconhecido de brasileiros que foi empregado na proteção da costa brasileira, em razão da sua extensão e da necessidade de manter minimamente operando o comércio com o resto do mundo. Nesta operação de guerra, seja na Itália ou no patrulhamento do Atlântico, mais de três dezenas de leopoldinenses estiveram diretamente envolvidos. Estes combatentes são conhecidos como Expedicionários por terem feito parte da Divisão de Infantaria Expedicionária Brasileira.

Importante esclarecer que se entende por Expedicionário todo militar que atuou nos campos da Itália ou na guarnição da nossa costa. Visão que se apoia na literatura pesquisada e em histórias contadas como as do livro das jornalistas Belisa Monteiro, Dérika Kyara e Letícia Santana (3), esclarecendo a convocação de militares e civis para defesa do litoral brasileiro, mostrando que suas tensões foram semelhantes às vividas pelos que cruzaram o Atlântico. Além do que, muitos dos que ficaram no Atlântico pertenciam a unidades existentes no Exército Brasileiro antes da Guerra, as quais foram reunidas para formar a Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária (4). Isto é, faziam parte do mesmo Exército.

Segundo Palhares (2), na costa brasileira foram bombardeados 32 navios nacionais entre janeiro de 1942 e julho de 1944, tendo chegado a 1081 o número dos mortos nas atividades costeiras, enquanto 457 perderam a vida nos campos da Itália(4).

Hoje o Trem de História inicia uma série de artigos que pretende contar um pouco sobre os leopoldinenses que estiveram nestas missões, como forma de homenageá-los pela passagem do 70º aniversário do fim daquele conflito. Do que conseguimos apurar até o momento, foram eles: 01 – Adilon Machado; 02 – Aloísio Soares Fajardo; 03 – Antonio de Castro Medina; 04 – Antonio Nunes de Morais; 05 – Antônio Vargas Ferreira Filho; 06 – Aristides José da Silva; 07 – Celso Botelho Capdeville; 08 – Derneval Vargas; 09 – Eloi Ferreira da Silva Filho; 10 – Euber Geraldo de Queiroz; 11 – Expedito Ferraz; 12 – Felício Meneghite; 13 – Geraldo Gomes de Araújo Porto; 14 – Geraldo Rodrigues de Oliveira; 15 – Itamar José Tavares; 16 – Jair Vilela Ruback; 17 – João Esteves Furtado; 18 – João Vassali; 19 – João Venâncio Filho; 20 – João Zangirolani; 21 – José Ernesto; 22 – José Luiz Anzolin; 23 – Lair dos Reis Junqueira; 24 – Lourenço Nogueira; 25 – Mário Castório [Castorino] Fontes Britto; 26 – Moacir Jurandir Barbosa Rodrigues; 27 – Nelson Pinto de Almeida; 28 – Orlando Pereira Tavares; 29 – Oscar Nunes Cirino; 30 – Paulo Monteiro de Castro; 31 – Pedro Medeiros; 32 – Pedro Rezende de Andrade; 33 – Pedro Silva Santos; 34 – Wenceslau Werneck.

Hoje, ficamos por aqui. Na próxima edição a história continua.

Notas:

(1) BENTO, Claudio Moreira. A Participação das Forças Armadas e da Marinha Mercante do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1942-1945). Volta Redonda, RJ: Gazetilha, 1995. Disponível em <http://www.ahimtb.org.br/FAMM2GM.htm&gt;. Acesso em 03 fev. 15.

(2) PALHARES, Gentil Palhares. De São João Del Rei ao Vale do Pó. Rio de Janeiro: Bibliex, 1957. p.456.

(3) BELÉM, Euler de França. Livro resgata história de pracinhas goianos que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Jornal Opção, Goiânia, GO, ed 1984, 14 jul. 2013. Disponível em <http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/livro-resgata-historia-de-pracinhas-goianos-que-lutaram-na-segunda-guerra-mundial&gt;. Acesso em 31 dez. 14.

(4) BARROS, Aluízio de.  Expedicionários Sacrificados na Campanha da Itália. Rio de Janeiro: Bruno Buccini, 1955. p. 403.

Luja Machado – Membro da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 16  de maio  de 2015

Luigi Maragna

Há 100 anos, no dia 8 de maio de 1915, faleceu em Leopoldina o italiano Luigi Maragna. Nascido por volta de 1845, pode ser o passageiro registrado como Luigi Maragni que desembarcou no Rio em outubro de 1888, com a esposa Erminia, tendo sido contratado para trabalhar em Rio Novo. Entretanto, nos registros encontrado em Leopoldina o nome da esposa é Tereza Falavigna.

Em Leopoldina encontramos referências aos seguintes filhos de Luigi Maragna: Cirilo, Silvio, Clemente, Higino, Alexandrina, Rosa e Artur. Os mais velhos nasceram em Verona, na Itália.

Aí está Minas: a mineiridade.

Neste texto de João Guimarães Rosa, publicado no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, em novembro de 1967,   v. 2, n. 65, p. 3, encontramos aquela famosa definição:

Sobre o que, em seu território, ela ajunta de tudo, os extremos, delimita, aproxima, propõe transição, une ou mistura: no clima, na flora, na fauna, nos costumes, na geografia, lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil. Seu orbe é uma pequena síntese, uma encruzilhada; pois Minas Gerais é muitas. São, pelo menos, várias Minas.

Leia o texto na íntegra

Leopoldinenses nascidos em maio de 1915

1 maio

  • Maria, filha de David de Oliveira e Silva e de Regina Odilia Barbosa

5 maio

  • Maria, filha de Olimpio Machado de Almeida e de Maria da Conceição Almeida

6 maio

  • Zelia, filha de Álvaro Bastos de Faria Freire e de Januária Nogueira

14 maio

  • Maria Meneghetti, filha de Agostino Meneghetti e de Camila Stefani

17 maio

  • Francisco, filho de Peregrino Lopes da Rocha e de Cecilia Francisca de Oliveira Ramos

18 maio

  • Elvira Noronha, filha de Prudenciano da Costa Noronha e de Rita Eduarda do Espírito Santo

22 maio

  • Helena Zamagna, filha de Giuseppe Zamagna e de Giudetta Battisaco

23 maio

  • Mario, filho de Manoel Francisco da Silva e de Francisca Rodrigues de Souza

Gênio dos Puris

Monolito gigante adormecido

Que desde priscas eras seculares

Jaz ao solo preso, convertido

Em atalaia sagrada d’estes lares.

 

Sobre teu dorso, Pedra, em tempo ido,

Veloz a jacutinga abriu os ares

Rumando além para o sertão perdido.

O Puri arisco os lindos mares.

 

De tuas selvas intérminas e densas

Correu dominador os seus arcanos,

Rei e senhor de florações extensas.

 

Testemunhaste sempre nossa sina

Através das idades e dos anos

Que és hoje o coração de Leopoldina!

 

Soneto de Barroso Júnior dedicado à Pedra do Cruzeiro, Leopoldina, Minas Gerais. Publicado na Revista Eu Sei Tudo de Abril de 1932, ano 15, nr 11, página 14.

 

 

O poder da escrita

Alberto Manguel, escritor, tradutor e ensaísta argentino, reflete sobre o grande poder da escrita, a capacidade de ultrapassar aqueles que considera as duas maiores fronteiras da humanidade: o tempo e o espaço. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2014.

“Através da literatura, através da escrita, o tempo não era um obstaculo, nem o espaço era um obstáculo.”

Fazenda Paraíso e uma das lendas que a envolvem

Há cerca de cinquenta anos circula em Leopoldina, MG, uma versão romântica sobre a libertação dos escravos da Fazenda Paraíso. Dizem alguns que a lenda nasceu da pena de um professor leopoldinense que a teria ouvido de antigos moradores da cidade. Parece que desde então vem sendo repetida por diversos escritores sem que, aparentemente, tenham buscado avaliar a (in)coerência dos fatos.

Um dos “parágrafos” da lenda cita uma hipotética doação da propriedade para José Jerônimo de Mesquita, feita por seu avô como presente de casamento.  Nada mais insustentável à vista da documentação que compõe a Coleção Kenneth Light, pertencente ao Arquivo Histórico do Museu Imperial, Petrópolis (RJ). Importante esclarecer que o organizador da Coleção foi o memorialista Kenneth Ernest Hansen Light, autor da monografia Ligeiros Traços Biográficos, que também faz parte da Coleção. O Senhor Light era inglês e faleceu em Petrópolis em 1987. Era casado com Stella Lynch, filha de Edmund Lionel Lynch e de Francisca de Paula de Mesquita, sendo esta a segunda filha de José Jerônimo de Mesquita.

Alguns dos repetidores da lenda sequer se deram ao trabalho de identificar adequadamente os personagens envolvidos, o que faremos aqui pela menção dos nomes completos e do mais alto título nobiliárquico alcançado por cada um, ainda que em data posterior ao fato relatado, porque a homonímia parcial sugere usar o título para melhor distingui-los.

José Francisco de Mesquita, elevado a Marquês de Bonfim em 1872, em um dos quatro consórcios maritais teve o filho Jerônimo José de Mesquita, elevado a Conde de Mesquita em 1885.

Jerônimo José, em um de seus cinco consórcios maritais, teve o filho Jerônimo Roberto de Mesquita, Segundo Barão de Mesquita, e de outro consórcio teve o filho José Jerônimo de Mesquita, Segundo Barão de Bonfim.

Um texto sobre a família, que inclui a lenda e circula no território livre da internet desde 2007, dá os títulos de Segundo Barão de Mesquita e Segundo Barão de Bonfim para a mesma pessoa. O autor não observou que, além de serem filhos de mães diferentes, José Jerônimo nasceu em 1856 e Jerônimo Roberto em 1858.

Em outras versões, a lenda diz que o Marquês de Bonfim teria dado a Fazenda Paraíso para o Segundo Barão de Bonfim, confirmando que teria sido presente de casamento. Mas como, se o Marquês morreu em 1872 e o neto se casou apenas em 1879?

Para descredenciar ainda mais a versão romântica, a Fazenda Paraíso foi propriedade do Conde de Mesquita e não do Marquês de Bonfim, sendo que o Formal de Partilha dos bens do Conde de Mesquita só foi devidamente concluído em janeiro de 1889, quase dez anos após o casamento do Segundo Barão de Bonfim.

O futuro Conde de Mesquita tomou posse da Fazenda Paraíso por ela lhe ter sido hipotecada por seu então proprietário, Antônio José Monteiro de Barros. Segundo os documentos consultados, a dívida de Antônio José fora contraída antes de 23 de setembro de 1857, data de um segundo empréstimo para o qual foram hipotecados os escravos da propriedade. Em 1858, fazenda e escravos pertenciam ao então Comendador Mesquita.

Tendo iniciado a vida profissional como “caixeiro de terceira”, algo equivalente a menor aprendiz, o Conde de Mesquita tornou-se um dos grandes capitalistas do final do século XIX, em grande parte pela herança recebida de seu pai, o maior negociante de escravos para Minas Gerais segundo documentos constantes nos Códices 421 e 424 do Arquivo Nacional.

A análise do Formal de Partilha deste capitalista desmonta outra lenda: a de que todos os seus herdeiros teriam sido beneficiados com altas somas, joias e propriedades. Alguns de seus herdeiros nada receberam, nem tampouco as mães que ainda estavam vivas.

Outro aspecto, desconsiderado pelos criadores das diversas lendas sobre a Fazenda Paraíso, diz respeito à fantasia de que o Segundo Barão de Bonfim teria libertado seus escravos por magnanimidade. José Jerônimo não foi o inventariante de seu pai, pouco comparece nas chamadas descritas no inventário e foi sua irmã e inventariante quem decidiu libertar os escravos que ainda existiam na fazenda, poucos meses antes de maio de 1888. Diga-se, a propósito, que a decisão foi sugerida pelos advogados da família, provavelmente para evitar o pagamento dos tributos devidos na transmissão de bens, já que naquela altura todos esperavam pela assinatura da lei que encerraria oficialmente o regime escravocrata.

Para aqueles que gostam de uma boa novela, vai aqui mais uma informação. No testamento do Marquês de Bonfim, publicado no Jornal do Commercio um ano após a sua morte, consta que quatro filhos do Conde de Mesquita foram beneficiados. O Segundo Barão de Bonfim recebeu uma chácara na rua Hadock Lobo, Tijuca, Rio de Janeiro. Sabe-se lá por quais razões o criador da lenda trocou esta chácara pela Fazenda Paraíso.

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[1] Texto de Nilza Cantoni publicado no jornal Leopoldinense, edição 278 comemorativa do aniversário de Leopoldina em 2015, 24 abril 2015, página 4.

[2] A autora é Especialista em História Cultural, membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes e pesquisadora da História de Leopoldina.

Por conta do aniversário de emancipação de Leopoldina

Maurício de Almeida Abreu, no artigo Sobre a Memória das Cidades, ressalta que memória é a capacidade de armazenagem e conservação de informações, elemento essencial da identidade de um lugar. Para ele, a memória de uma cidade é coletiva, compartilhada.

E a memória coletiva é também uma corrente de pensamento contínuo, que retém do passado somente aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência de um grupo. Ela está sempre se transformando porque os grupos que dela guardavam a lembrança vão desaparecendo. E quando isto acontece e não se quer perder uma lembrança, é comum e aconselhável que seja registrada, transformando-se então em memória histórica. Isto porque as memórias coletivas se eternizam muito mais em registros e documentos do que em outras formas materiais.

Lembramos, ainda, conforme nos ensinou Jacques Le Goff em História e Memória, que “o documento é monumento” porque é um registro feito pelo homem e que representará, para a sociedade que lhe suceder, uma visão de como funcionava à época em que foi produzido. O mesmo autor nos ensina que um documento é uma “roupagem, uma aparência, uma montagem” em torno de determinado acontecimento. Portanto, a memória histórica é construída e realimentada pelos registros e documentos que constituem os monumentos da história, os quais preservam a memória das cidades.

Esta é nossa intenção. Auxiliar na preservação da memória da cidade de Leopoldina através do registro no Jornal daquilo que pesquisamos. Por isto, hoje o Trem de História segue pelos trilhos das comemorações da emancipação do Feijão Cru em 27 de abril de 1854, relembrando um pouco do que se passou. E o faz pelo prazer de preservar a memória de uma cidade que desde 1877 tem o Trem na sua história, empresta o seu nome à história do Trem no Brasil e não pretende perder o Trem da História.

Tocando em frente, é necessário registrar que a mais antiga evidência da existência do povoado que deu origem a Leopoldina está no livro Município de Rio Pomba, de Sinval Santiago, na página 480, que se refere à criação do distrito do Feijão Cru pela Câmara Municipal do Pomba em 1831. Mas é bom lembrar que o Município do Pomba só foi instalado em 25 de agosto de 1832, o que contraria a informação de que a sua Câmara teria criado o Distrito do Feijão Cruz no ano anterior.

A favor de 1831 como indicativo da existência de um povoado no Feijão Cru temos as duas doações realizadas por Joaquim Ferreira Brito e sua mulher Joana Maria de Macedo, nos dias 01.06 e 20.11.1831. Por elas pode-se imaginar terem sido feitas para atender às normas para o requerimento de criação do distrito. A segunda delas, a doação de um terreno para a construção da Casa do Cura, reforçaria a suposição da existência de um arraial que procurava se organizar para a criação do distrito.

O que se tem como certo é que em 1843 já eram 213 as famílias (2.171 moradores) no distrito de São Sebastião do Feijão Cru. Muitas delas constituídas por filhos dos primeiros moradores, então já casados. E é a partir deste momento que se pode observar a provável existência de moradias dentro do território que foi doado para constituir o patrimônio de São Sebastião.

Em 1851 a população do Feijão Cru, um arraial elevado à condição de Freguesia, atingia quase 4.000 habitantes. Esta freguesia chega a 1854 com a realização do sonho de alguns antigos povoadores: consegue se libertar da subordinação, a que esteve sujeita até então, às sedes administrativas de Barbacena depois Rio Pomba, São João Nepomuceno e Mar de Espanha. Em 27 de abril daquele ano foi promulgada a Lei de Emancipação e em janeiro de 1855 foi instalada a Câmara Municipal da Vila Leopoldina.

Aqui é válido abrir parênteses para alguns comentários pertinentes.

Em Portugal, Vila ainda é um aglomerado urbano intermediário entre aldeia e cidade. No Brasil colonial, povoações eram elevadas a vilas, e essas a cidades, de acordo com o sistema português. Quando o arraial se tornava vila, passava a contar com uma câmara de vereadores, com direito de cobrar impostos e baixar posturas municipais. Recebia um juiz e instalava-se uma cadeia pública. Ao tempo da criação da Vila Leopoldina, já no Império, era este o sistema que funcionava no Brasil.

O título de Cidade era mais honorífico e pouco acrescentava em termos de organização política e administrativa. Em função disto, ensina Maurício de Abreu, muitos municípios criados no império e na colônia comemoram o dia da sua fundação como sendo o dia em que foram elevados a cidade, o que não é correto. Na verdade, eles alcançaram autonomia política no dia da criação da Vila. No caso de Leopoldina, o título de Cidade foi concedido pela Lei Mineira 1.116, de 16 de outubro de 1861, ano que está inscrito no atual Brasão do município para lembrar este fato.

Brasão do Município de Leopoldina, MG

A partir da emancipação e instalação da câmara municipal de Leopoldina, surgiram os primeiros arruamentos nas imediações da Igreja do Rosário. Possivelmente com as ruas Riachuelo – atual Joaquim Ferreira Brito; Direita – atual Rua Gabriel Magalhães; e, Rosário – atual Rua Tiradentes.

Trinta anos depois a Maria Fumaça da Estrada de Ferro da Leopoldina começou a espalhar trilhos e seu nome por boa parte do País. E hoje, dois memorialistas registram alguns fatos que fizeram a sua história.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 24 de abril de 2015

Vulgarização: outra história para a História

A Revista Expedições: Teoria da História e Historiografia, volume 4, 2014, traz um artigo com este título, de Mary del Priore, que despertou a lembrança de outras discussões sobre o assunto. Apresentado como “uma pensata sobre as origens e a difusão da ‘divulgação científica’ e sua presença no Brasil do século XIX aos dias de hoje” o texto passeia por vários momentos do processo de vulgarização, antes de abordar a o conhecimento histórico propriamente dita.

Convidamos nossos leitores para esta leitura em que a autora nos lembra que “a história possui uma função social: a da manutenção da memória de uma nação ou de um grupo”. E ressalta:

“…os historiadores têm uma missão que é a construção da consciência histórica. Para tal, eles devem enfrentar duas tarefas contraditórias: por um lado, desmistificar os mitos consolidados pela memória coletiva, inscritos nos documentos, nos textos oficiais e na língua falada, enfim, nas construções sociais que, a sua volta, constituem a consciência comum. E por outro, participar à construção mesma desta mesma memória, ao produzir um saber que serve de referência e forma a consciência histórica dos seus contemporâneos…”

Leia o texto na íntegra, aqui.