Diário do Vale: Governo decreta que ‘volta redonda’ do Paraíba não existia

“Embora conhecida antes de 1800 e fotografada antes de 1864, a famosa linha curva do Rio Paraíba que deu nome a Volta Redonda não existia antes de 1867, segundo decisão da Superintendência de Patrimônio da União (SPU). Pior: não existiu até que fosse feito o aterro no bairro conhecido como Aterrado, o que ocorreu cem anos depois, em 1967. Durante todo este tempo, segundo o mapa traçado pela SPU, o rio tinha não o formato de uma ‘volta redonda’, mas sim o formato de um “camelo”. 

Leiam a matéria completa:
Diário do Vale: Governo decreta que ‘volta redonda’ do Paraíba não existia

Livraria do Senado

Uma boa forma de encontrar obras importantes para estudos históricos é a Livraria do Senado. Entre outras, recomendamos a série O Brasil visto por Estrangeiros.

Memória Ferroviária

No momento em que tantos se unem em prol do resgate da memória ferroviária, é com muita tristeza que leio a postagem de Ralph Mennucci Giesbrecht: Anta Perde seu Trem.
Todos nós, que nos interessamos pela fase da Grande Imigração, nos sentimos afetados com a notícia. Na zona da mata mineira é conhecida a opinião sobre a região dever seu desenvolvimento ao braço escravo, ao café e à ferrovia. Pelos trilhos chegaram os imigrantes que substituíram a mão de obra cativa. O café perdeu o lugar de principal ícone da economia. E a ferrovia, marco de uma época, desaparece da memória.

Família Bartoli

Recebemos o convite de Thais Bartoli para conhecer o trabalho que fez sobre sua família. A todos que se interessam pelas famílias leopoldinenses, repasso o convite para visitarem o site da Família Bartoli.

Igreja do Divino Espírito Santo

Sob a invocação do Divino Espírito Santo, em meados dos anos 1800, foi construída a primeira capela de pau-a-pique e, certamente em torno dela, surgiu o arraial do Empoçado, hoje Cataguarino.

Em 6 de novembro de 1869, quando ainda pertencia ao município de Leopoldina, o povoado foi elevado a Distrito de Paz pela Lei 1.623, com a denominação de Espírito Santo do Empoçado, passando a Paróquia em 1º de dezembro de 1873.

Matriz antiga de Cataguarino

Uma bela Igreja, em estilo colonial, foi construída no mesmo local da primeira capela, sendo capelão do distrito, em 1874, o Reverendo Padre Mariano.Nesta época, aqui já residiam as famílias Pereira de Souza, Teixeira de Siqueira, Souza Lima, Afonso Rodrigues, Cardoso Abranches, Silva Spíndola, Gomes de Santana, Andrade, Silva Pinto,  Fialho Garcia, Lopes Nascimento, Henriques, Assis, Gomes de Barros, Moreira da Silva, Azevedo, Pinto, Cardoso, Medeiros, Marlière, Oliveira Brasil, Alves Ferreira, Ferreira dos Santos, Miranda, Ribeiro da Silva, Fernandes Vieira, Barros, Soares, Ribeiro do Vale, Lopes de Faria, Barroso, Serrotinho, Vieira, Souza Reis, Barroso, Esteves dos Santos, Fonseca Viana, Rodrigues Nascimento, Pereira, Rodrigues, Silva, Marques de Oliveira, Ferreira, Vieira de Souza, os italianos Aliano e Spina, dentre outras.

A Comissão Eclesiástica, encarregada das obras, era composta pelos Srs. José Joaquim de Oliveira, comerciante, Antonio Carlos de Mello e Antonio José Pinto, ambos fazendeiros, todos residentes no distrito.

A Assembléia da Província de Minas Gerais, sediada em Ouro Preto, fez a doação de 2.500$000 (dois contos e quinhentos mil réis) para a conclusão das obras, valor equivalente, na época, a 52 alqueires de terras na região.

Com esta verba, o oficial Antonio Fernandes Ramos, residente no distrito de Meia Pataca, hoje Cataguases, foi contratado para construir o altar, conforme a escritura pública de contrato, assinada em 23 de outubro de 1874, que previa:

“fazer um altar mor lizo porem com alguma talha no Sacrario, Tarja e capulus, colunnas xatas e degraus do trono lizo e guarnecido, e levantar o lugar do biobiterio e formar escada de entrada, e forrar o tecto da capella mór, e uma semalha por dentro abacho do fôrro ”

Das matas virgens então existentes no distrito do Empoçado, sairam, por certo, as madeiras para a construção, madeiras estas que já se achavamtiradas e lavradas, e parte serradas”, conforme cita o referido contrato.

Sob este altar foram enterrados os corpos de João José de Souza Lima, fazendeiro, falecido em 27 de abril de 1874; de Carlota Rachel de Souza Lima, viúva de João José, fazendeira, falecida aos 54 anos, em 06 de dezembro de 1894, e o de José Fabiano de Souza, o comerciante e vereador Zeca Fabiano, falecido em 19 de outubro de 1904.

As primeiras cerimônias realizadas na nova Igreja, até agora conhecidas, são:

  • o batismo de João, filho de João Lourenço da Silva e Rita Maria de Jesus, realizado em 09 de julho de 1876 pelo padre Antonio Augusto da Silva Lagoa, cujos padrinhos foram os avós maternos Candido José Coelho e Germana Pereira de Souza;

  • o casamento do português Manoel José dos Santos com Carlota de Souza, em 02 de fevereiro de 1880, celebrado pelo padre Luiz Pereira Gonçalves Araújo, sendo a noiva filha de João Antonio Henriques e de Carolina Maria Joaquina, esta da família Pereira de Souza. O noivo era filho de Agostinho José dos Santos e Maria Isabel de Jesus.

A celebração de batizados e casamentos em oratórios particulares, prática comum na época, justifica estes registros tardios.

A bela igreja colonial serviu à comunidade de Cataguarino até 1965, quando foi demolida para a construção de uma outra, no mesmo local.

O majestoso altar foi guardado, por quarenta anos, no porão da casa do então Coordenador da igreja, Sr. Sebastião Rodrigues Pinto, e sua esposa,  Maria Nascimento Rodrigues, até que, em outubro de 2005, a partir das informações de Marcelino Abritta Pinto, que primeiramente identificou as peças, e da professora Célia Abritta, esta por muitos anos dedicada catequista, o altar foi localizado por Maria Joana Neto Capella e a comunidade, então, conhecedora do fato, se mobilizou para que o mesmo fosse recuperado, de forma que retornasse à Igreja.

Antigo altar da Igreja de Cataguarino

 

De destacar a orientação e o apoio recebidos do Padre Antonio Luiz da Silva, na época Pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, à qual está subordinada a Igreja do Divino Espírito Santo, possibilitando a volta do antigo e belo altar ao seu lugar de origem para orgulho da comunidade de Cataguarino.

Para tanto, foi formada  a Comissão de Restauração, encarregada de coordenar os trabalhos e buscar os recursos necessários à obra, composta por Diorcélio da Silva, João do Carmo Rodrigues, Marlene Aparecida de Paula Pinto, Maria Aparecida Abritta, Marcos Antonio Henriques Teixeira, Maria Joana Neto Capella e Seleste Gonçalves de Barros Rodrigues.

Além do altar, foram restauradas a centenária Pia Batismal, em pedra sabão, e a imagem, em madeira, do Padroeiro, o Divino Espírito Santo. Com a colaboração e apoio do Conselho da Igreja, presidido por Marcos Antonio Henriques Teixeira, dos moradores de Cataguarino e, sobretudo, de pessoas, famílias, empresas, institutos e fundações de Cataguases, sua restauração foi realizada sob a orientação da renomada restauradora Laiz de Assis Teixeira, do Rio de Janeiro.

O trabalho de marcenaria, que utilizou madeiras de lei (cedro e vinhático) para recompor as peças danificadas, coube às seguintes empresas:

– Fábrica de Móveis Duarte, dirigida pelos irmãos Manoel Pereira Boia e Welington Pereira Boia, sendo os serviços executados pelos competentes artesãos Milton Gomes de Oliveira e João Batista de Oliveira;

– Nagimerito Móveis e Esquadrias, de propriedade de Márcio José Duarte, cuja execução ficou a cargo de sua equipe, composta dos habilidosos profissionais Aloísio Cláudio Rios Rodrigues, Luis Alvino Fontoura e Leandro de Souza Andrade.

A instalação foi um trabalho de arte dos marceneiros Alexandre da Costa Martins e Célio de Souza Landes, gentilmente cedidos pela Prefeitura Municipal de Cataguases.

O trabalho de base da pintura foi de José Luiz Eugênio Monteiro e Gérson Bento Rodrigues.

A pintura de arte e sua delicada douração, na forma original, foram realizadas por Laiz de Assis Teixeira e o acabamento na douração da mesa e dos vasos foi um trabalho gracioso de Maria Antonia Rodrigues Correia.

O projeto de ambientação, de forma que a Igreja ficasse mais condizente com o altar restaurado, foi graciosamente realizado pela conceituada decoradora cataguasense, Maria Heliana Lourenço Machado, atualmente radicada em Belo Horizonte.

As obras do piso ficaram a cargo de João Batista Justino e seu ajudante, Joel Gonçalves Marques.

O projeto de reforma do telhado para a instalação do altar, cuja altura excedia à do antigo telhado, foi elaborado pela equipe do Programa de Arquitetura Pública, sob a coordenação do arquiteto Paulo Henrique Alonso, através do convênio entre a Universidade Federal de Minas Gerais, Prefeitura Municipal de Cataguases e o Instituto Cidade de Cataguases.

A execução da obra coube à empresa Empreendimentos CATAUÁ Ltda, sob a direção de César Ferreira da Cruz.

Hoje, 136 anos após o início de sua construção, sob as bençãos do Bispo Dom Dario Campos, do atual pároco Monsenhor Alexandre dos Santos Ferraz, do Padre Antonio Luiz da Silva e do Padre José Carlos Ferreira Leite, o imponente altar, novamente instalado, constitui o  patrimônio cultural  maior da  comunidade de Cataguarino.

Nosso profundo agradecimento a todos que trabalharam neste projeto, bem como àqueles que, de alguma forma, contribuíram para a sua realização.

a) Comissão de Restauração.

Cataguarino, 30 de outubro de 2010.

Altar atual da Matriz de Cataguarino

Pesquisa de Maria Joana Neto Capella

Revisão: Dilson Martins de Freitas

Fontes Textuais:

Livros de Notas 1870 a 1910, distrito de Espírito Santo do Empoçado.

Livros Paroquiais 1875  a 1895,  Matriz de Santa Rita de Cataguases.

MARTINS, Antonio de Assis. Almanaque Administrativo, Civil e Industrial da Província de  Minas Gerais – 1875. Ouro Preto: Imprensa Oficial, 1864-1875.

Fontes Iconográficas:

Acervo de Teócrito Abritta

Acervo de Célia Abritta.

Laiz de Assis Teixeira

Maria Joana Neto Capela

Ascendência de Wander Barbosa Ladeira

Estudo Provisório de Nilza Cantoni publicado a pedido do descendente. A partir da 8ª geração as informações tem origem exclusivamente em literatura publicada.

Conversa de Botequim homenageia Clara Nunes

Tributo a Clara Nunes em Leopoldina, dia 13 de novembro.

“Tributo a Mineira Clara Nunes

Clara Nunes, mineira e filha de violeiro e cantador de folia de reis, considerada uma das maiores interpretes do país, marcou seu nome na história da música popular brasileira cantando samba e reverenciando a cultura popular negra e seu folclore. Suas músicas contam, ao seu modo, um pouco da história dos negros no Brasil, sua vinda da África e suas influências na cultura popular. Informam sobre religiões afro-brasileiras com suas principais divindades, as práticas mágicas, locais míticos, comidas de Santos e ritmos da música religiosa. Em 2008, no teatro do CEFET em Leopoldina-MG a reunião entre músicos de gêneros distintos desta cidade e de Cataguases resultou no emocionante show Tributo à Clara Nunes – A Guerreira da Utopia.

Em resposta ao apelo do público, a homenagem será repetida, agora em um novo formato. Dois anos depois, com releituras de clássicos gravados por essa grande artista brasileira, este show homenageará também compositores gravados por ela, como Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Candeia, Edil Pacheco, João Nogueira, Chico Buarque, Ataulfo Alves, Romildo Bastos, Toninho Nascimento entre tantos outros representantes da música popular brasileira.

O Tributo a Clara Nunes é parte da Agenda Cultural do Projeto Conversa de Botequim que será no dia 13 de novembro (sábado) no quintal da Casa de Leitura Lya Maria Botelho às 20:00 horas.

Apresentando Thaylis Carneiro e Banda Guerreiros da Utopia.

Produção de Rosane Marques.

Mesas e ingressos à venda pelo tel: 32 8855-6567 (Rosane Marques)”

Teatro em Leopoldina

A partir de uma informação de Natania Nogueira, surgiu uma questão sobre o ator Manuel del Valle Alonso que teria vivido em Leopoldina. Agradeço à Natania por ter levantado o assunto e à Joana Capella que, com suas leituras do jornal O Leopoldinense, levou-me a procurar um texto antigo que ainda não havia publicado pela internet.
O Cine Theatro Alencar, cujo prédio ainda pode ser visto na rua Cotegipe, é tido como a primeira casa de espetáculos existente em Leopoldina. Entretanto, parece que não é bem assim.

No livro O Rio Antigo – Pitoresco & Musical, de C. Carlos J. Wehrs, à página 177 encontramos:

“O teatro, o  prédio, eu o sempre olhava com certo receio, porque não acreditava na sua estabilidade. Era uma imensa casa de pau-a-pique, dividida em galerias e camarotes em torno da platéia, e, embaixo, constituída de cadeiras e bancos.” 

O autor está descrevendo o período que passou em Leopoldina, entre setembro e novembro de 1886.  Estaria se referindo ao primeiro prédio, posteriormente substituído pelo que ainda subsiste?

Segundo memórias familiares,  o prédio da rua Cotegipe teria sido construído pelo imigrante espanhol Salvador Rodrigues Y Rodriguez por volta de 1927 e as poltronas teriam sido obra do irmão de Salvador, Raphael Rodrigues Y Rodriguez. Portanto, não poderia ser o mesmo prédio objeto de menção no livro de Atas da Câmara de Leopoldina, relativo ao período de 1879 a 1881, em cuja folha 29 verso consta que no dia 16 de abril de 1880 foi lido um oficio de João Patricio de Moura e Silva, comunicando que renunciava ao direito, posse e domínio sobre o terreno que lhe pertencia, e que localizava-se entre Pereira Lopes & Guimarães e Luiza Ambrosia, para nele se construir um Theatro.

Se Moura e Silva falava em construir um Teatro em abril de 1880, estaria se referindo ao prédio mencionado em novembro do mesmo ano, conforme anúncio do jornal O Leopoldinense lembrado por Joana Capella?

Segundo esta divulgação, na página 3 da edição de 1 de novembro de 1880, João Manoel Ferreira Brandão levaria à cena, pela primeira vez em Leopoldina, a peça Helena. O endereço do Theatro Brandão: rua Sete de Setembro.

O diretor da companhia nasceu por volta de 1852, filho de Domiciano Ferreira Brandão e Francisca Angélica da Conceição, tendo vivido em Leopoldina até seu falecimento em 1895. Seu pai aparece no alistamento eleitoral do município a partir de 1874 e ele, João Manoel, foi alistado em 1892, conforme livros de Alistamento Eleitoral de Leopoldina para o período.

A irmã do diretor, Belmira Maria da Conceição, nasceu em Piacatuba e em janeiro de 1878 casou-se, em Leopoldina, com José Vitor de Oliveira e Maria Teresa de Jesus.

Interessante lembrar que a rua Sete de Setembo, que liga as praças Gama Cerqueira e Professor Botelho Reis, é uma das mais antigas da cidade e a única que permanece com o nome original. Nela residiram o Dr. Carvalho de Rezende e o advogado Francisco Pinheiro de Lacerda Werneck, conforme apuramos na pesquisa para o livro Nossas ruas, nossa gente: ruas, praças e logradouros de Leopoldina, publicado em 2004. Na esquina desta rua com a Tiradentes, existiu a casa de negócio de Pedro Barra. Na outra esquina, também faceando com a rua Tiradentes no percurso em que se dirige para o Largo do Rosário, foi instalado o primeiro Grupo Escolar que reunia as “aulas públicas” então existentes. Esta instituição de ensino posteriormente passou a chamar-se Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e em 1914 o poeta Augusto dos Anjos foi nomeado seu diretor.

Parece que o Teatro Brandão não teria sido o único em funcionamento naquele ano de 1880. Na mesma página d’O Leopoldinense encontramos o seguinte anúncio:

Em outras edições dos periódicos locais foram publicados anúncios de óperas, confirmando informações obtidas junto a antigos moradores entrevistados, os quais mencionaram que suas famílias frequentavam o teatro.

Acreditamos, portanto, que Leopoldina contava com programação teatral frequente, resultando em que, 20 anos após o sepultamento do ator espanhol Manoel Del Valle em 1906, foi concedido privilégio perpétuo do túmulo, conforme descobriu a professora Natania Nogueira em pesquisa realizada num livro que transcreve os atos da Câmara Municipal de Leopoldina em 1926. Observamos, pois, que a presença do ator em Leopoldina não foi excepcional, já que antes dele a cidade contou com outros artistas do gênero.

O Caminho Novo e o Comércio das Minas 1700-1818

O professor Ângelo Carrara iniciou agradecendo o convite e declarou que “este tipo de reunião, que ocorre fora dos meios acadêmicos, tem a faculdade de produzir mais efeitos concretos e objetivos a curto prazo do que as que acontecem no meio acadêmico. Nós fazemos nossos eventos acadêmicos mas em termos práticos… quando isso que nós dissemos vai chegar ao aluno?”

Informou que este foi o segundo evento do tipo do qual participou este ano e percebeu que todos ali estavam envolvidos de forma sincera, interessada. Assim, após ouvir as comunicações que ocorreram ao longo do dia, decidiu modificá-la.  


A seguir, trechos do que falou Carrara.

“O Caminho Novo é um caminho. Se eu for abordar o tema de comércio, eu não vou sair disso: 85% de toda a importação de mercadoria passou pelo Caminho, da mesma forma que 98% do ouro produzido em Minas Gerais. E pronto!

Só que esse Caminho Novo é tratado como caminho, como rota. E o que está em volta do caminho? Pessoas circulavam pelo Caminho Novo. E é essa a ideia! É nisso que eu mudei! Ao invés de tratar o caminho como … mercadorias e ouro, quero chamar a atenção para o entorno dele. E para a personalidade histórica dele. Então, eu não preciso trazer aqui números. 

[…] Nós estamos num lugar muito especial. Minas é muito especial! O mineiro tem um profundo orgulho de ter nascido aqui. É o melhor estado do mundo!

[…] Eu posso afirmar que não havia Império. [Naquele momento] o que há é um império de rotas comerciais dominadas por portugueses. Mas o império no sentido territorial… Então eu pergunto: o que é o Brasil até 1696?

O Brasil é um punhado de gente vivendo em pontos da costa brasileira. A estatística que nós tínhamos até muito recentemente nos dava um total de 300 mil pessoas. Isto é um absurdo! Por que?

Este ano, conversando com um colega que está trabalhando com demografia, descobrimos que este cálculo é fruto de um palpite, de um despautério sem fim. Quantos habitantes tinha Salvador em 1681?

Três mil pessoas! Era a capital do Brasil e tinha 50% da população brasileira. E 50% da economia brasileira estava concentrada em Salvador e seu recôncavo. Então, por aí vocês tiram as conclusões.

O Brasil é um conjunto de pontos. O ouro detona o processo de migração maciça, de Portugal, do Brasil todo, num movimento demográfico que não consegue ser estancado. Enquanto os países europeus perdiam população ano após ano.

E para onde ia essa gente? Para Minas Gerais. Eles não estão indo para Salvador, para Pernambuco, não! Eles estão vindo prá cá. 

[…] O ponto nevrálgico desse ‘agora’ no Império Português é uma questão de território. É Minas, é Mato Grosso, é Goiás. Isso é território! O vale do São Francisco…

[…] A razão principal do ouro é entrar em circulação. De 1724 a 1735 nós tivemos uma casa da moeda em Ouro Preto. Esta casa da moeda, durante seus 10 anos de vida, cunhou três vezes mais moeda do que suas equivalentes de Lisboa e Rio de Janeiro juntas. Então, imaginem. Enquanto a rotina da Casa da Moeda em Lisboa era uma, em Minas a produção era muito maior. Claro que os melhores servidores da Coroa estavam onde estava a riqueza.  Em Minas Gerais! Porque aqui estava a galinha dos ovos de ouro.

O grande desafio nosso, na minha perspectiva, é fugir dessa história que enaltece determinados indivíduos.


A pergunta que eu faço é o que esta história tem de utilidade para as pessoas comuns?

O fato é que essa movimentação toda de gente pelo Caminho Novo… As pessoas se levantam e perguntam: o que eu faço agora? Me alimento como? Como é o dia a dia? Não é a história de grandes personagens, de fatos heróicos, mas a nossa história. Mas não é uma história da vida privada [como perguntou alguém da platéia]. É uma história de todos, pública. É o dia a dia.

A pergunta que devemos fazer é: o que é viver aqui? O que foi viver no século XVIII e no século XIX aqui? Devemos perguntar que tipo de esforço estes indivíduos faziam para poder manter suas vidas. Porque não se pode esquecer que essa gente trabalha.

Dá-se a impressão de que o passado era um brilho só. Na realidade, o que talvez tenha mais impacto sobre as pessoas [seja]… há 300 anos, quando eu me sentava à mesa, o que eu tinha?

Percebem o desafio que temos à frente?

[…] Já avançamos muito. Em 10 anos, eu sou testemunha disso, crescemos absurdamente no campo da preservação da documentação. Nós temos acervos monumentais, um acervo que precisa ser preservado. Um outro desafio, diretamente relacionado, é a propagação da educação patrimonial, que é fundamental. Aquilo que as secretarias de educação incorporam nos seus currículos, uma disciplina de educação patrimonial que não vai tratar de enaltecer grandes nomes. Ao contrário, é cuidar de um patrimônio que muitas vezes é imaterial. Os queijos, a cultura mineira…

Este é um desafio para o historiador de ofício. Escrever esta história de Minas. Esta reunião está acontecendo em Barbacena. O que nos deve interessar é a história de Barbacena.

Existe uma coisa que eu chamo de personalidade histórica. Vou explicar. O meu objetivo aqui é dar serviço. [risos]

As identidades originais de Minas Gerais… Exemplo: nos centros mineradores, o que existiu ali é diferente de uma outra sociedade que é vizinha [mas que tem uma] identidade curraleira.

Em Minas temos quatro [identidades]. Saindo de Ouro Preto até Itabirito, é a do ouro. Pitangui não foi uma região mineradora importante. Pitangui… tinha a segunda maior produção de gado de todo o século XVIII.

Outras identidades, ao longo do século XVIII, vão se formando. A zona curraleira… margem esquerda do São Francisco… no extremo noroeste de Minas Gerais que não conversa com Minas Gerais. Eles não produziram gado ali para vender em Minas. É uma identidade particular de Minas Gerais.

Outra identidade é do vale dos rios Verde e Verde Grande. Produção agrícola que conversa com Minas Novas ou Itacambira. É outra formação.

Eu estou falando da identidade que se forma por vínculos familiares, por parentesco, por pessoas circulando diariamente, semanalmente… 

O mesmo se dá em Diamantina, que não pode ser entendida só como Distrito Diamantino. Diamantina é ao mesmo tempo Diamantina e Curvelo. Porque o gado que abastece Diamantina é o gado de Curvelo. Ou seja, Diamantina é muito curraleira apesar da produção de diamantes.

Percebem-se as diferenças no sotaque. O historiador tem que ter parâmetros para saber ouvir o sotaque. O de Diamantina é o mesmo de Curvelo … é só ir para a rodoviária e identificar as linhas de ônibus mais comuns.

Então, na região das minas, eu acho que fica claro que há um quadrilátero muito facilmente identificado por todos, formado por Ouro Preto, Mariana, Caeté e Sabará.

[…] A alimentação na área curraleira é diferente da área mineradora.

Essa região aqui, de Barbacena, que hoje se chama de Vertentes, mas que no período colonial se chamava O Campo, por isso que aqui é a Borda do Campo, termina lá nas Congonhas do Campo. O Campo é Campo por quê? Porque isso aqui é uma região diferente das demais, a mais fértil de todas, com uma rede hidrográfica fantástica e é isso que explica o vigor da agricultura nessa região.

Só que a identidade de Barbacena, de Santana do Garambéu, de Prados que, apesar de ser área de mineração comunga muito com a identidade de Barbacena, Entre Rio de Minas, Carijós, até Congonhas, guarda uma homogeneidade muito forte.

Primeiro o estilo de fazenda. As descrições rudimentares que eu vou encontrar, do século XVIII, vão dizer que o perfil preferencial é uma concentração de terras, [uma concentração] fundiária, de propriedades médias, de produção média. Toda essa região do Campo, antes de cair no espinhaço em direção a Ouro Preto, fechando essa região aqui nas Congonhas, tem uma concentração de terras distinta da região do Caminho Novo indo para Juiz de Fora. O padrão aqui é menos concentrador do que em Juiz de Fora. A produção agrícola aqui é baseada em propriedades médias e não em grandes.

Se eu for para Juiz de Fora? 1750 – quantas pessoas produzem alimentos? Dezenove. De Paraíba do Sul no Rio de Janeiro, até o pé da serra aqui em Santos Dumont. Dessas 19, 10 produzem 85% do total. Isso é concentração!

Concentração fundiária é o melhor identificador da ‘personalidade’ de uma região. Quanto mais concentrada a propriedade rural, mais concentração de renda. Quanto melhor distribuída a propriedade da terra, melhor o padrão dessa sociedade.

As pessoas que vivem na roça… a forma como elas acessam o principal meio de vida é fundamental… Numa região em que o padrão de concentração é mais equilibrado, a sociedade é diferente.

Então, esse Caminho Novo não é uma identidade. Na verdade nós temos que ultrapassar isso. O Caminho Novo é uma rota. O que importa é verificar a região. Esse é o grande desafio. 

Fontes para isso? Um problema que nós não temos em Minas Gerais. Todos os outros estados tem problemas com fontes. Nosso problema é o inverso. Nós temos excesso de fontes. Nós temos que ir a um arquivo rezando para não encontrar documentos. Experiência própria. Ali abre um livro e surge mais um questionamento.

Existe uma fonte que é um verdadeiro cadastro em Minas Gerais. Ela me dá o nome, a propriedade rural, o endereço, a produção agrícola. Isso desde 1750. Eu tenho como fazer uma história dessa propriedade rural, história da produção econômica, desde 1750 até 1835. É um tipo de registro muito particular, todo organizado. A partir desse período eu consigo rastrear, com a documentação que ainda não conhecemos e da qual ainda não temos inventário. Mas que em breve teremos. É a nossa caixa preta da História do Brasil. É a Coleção Casa dos Contos de Ouro Preto, com duzentos e tantos mil itens. Sabemos que tem coisas preciosas mas… não tem inventário. No momento em que tivermos inventário, poderemos fazer a história que quisermos. Quer fazer História da Medicina? Pode. Quer acompanhar o receituário? Tem. Porque lá estão os registros dos hospitais militares. Para cada doença tem o medicamento que foi adotado.

Tem ali documentação que vocês não podem imaginar. Documentação sobre todas as obras artísticas…. Aleijadinho foi um. Há dezenas de outros artistas. O altar da Igreja, como é que foi feito…

O que na verdade eu gostaria de chamar a atenção é para a necessidade que nós temos, é a responsabilidade que a academia tem de produzir esse tipo de investigação. Uma responsabilidade que ela tem como instituição pública.

Uma outra responsabilidade que a Prefeitura tem, dentro das suas possibilidades, é de produzir material didático capaz de sensibilizar a sociedade, atingir a sociedade. Fazer isso é elevar o nível de cidadania, aqui entendido como a capacidade de entender direitos e deveres. É ter consciência das transformações…

Diferentemente de outras áreas de conhecimento, o objeto da história não está dado. É complicadíssimo. Nós não lidamos com um único indivíduo. Nós lidamos com todos. E o que é mais complicado: o ser humano muda. E o historiador tem que encontrar o padrão da mudança. Porque as coisas não são colocadas [e] nós não vivemos no caos. Nos vivemos dentro de uma visão de como o mundo funciona. Existe um padrão de mudança que precisamos identificar.

Então, nos aproximarmos desse tipo de história que tem a capacidade de nos informar, com maior segurança, os padrões que essa sociedade adquire ao longo do tempo, é o grande desafio. É isso que me chamou a atenção para este evento. É o primeiro e precisa se repetir. Barbacena tem uma responsabilidade enorme por conta do equipamento urbano que tem, diante de outros municípios. Barbacena tem um fator de liderança diante de outros municípios.

A responsabilidade é das prefeituras de mobilizar seus professores em torno dessa ideia de construção de material didático. O impacto disso no médio prazo é profundamente transformador .

Meu papel aqui foi mais dizer o que fazer. Material a academia tem. Mas há uma necessidade cada vez maior de aproximação entre a universidade e as necessidades efetivas da sociedade. Produção histórica que tenha um impacto mais imediato sobre a sociedade.

Ângelo Carrara, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, encerrou sua participação dizendo que seu papel foi o de saudar esse tipo de iniciativa e chamar a atenção daqueles que têm alguma responsabilidade sobre esse tipo de projeto.