Recreio, MG: Suíços ou Franceses?

Em visita ao Cemitério de Conceição da Boa Vista, Pedro Dorigo encontrou o túmulo de João Cláudio Robert, cujo sobrenome chamou a atenção. Seria um dos estrangeiros? Pesquisando antigos documentos, descobrimos tratar-se de Jean Claude Robert, falecido a 09 de dezembro de 1890 com 80 anos. No mesmo túmulo encontram-se os restos mortais de sua esposa, Maria Louise Robert, falecida a 01 de julho de 1885, aos 74 anos.

 Este casal residia em Conceição da Boa Vista desde antes de 1871, época em que aparecem numa transação imobiliária. Trata-se da troca envolvendo uma propriedade que divisava com a Fazenda Santa Maria, com Manoel Antônio da Silva Lima Salema e com Manoel Ferreira da Silva. Nestas terras vivia o genro de Jean Claude, Estevam Rosset de Passicam (ou Pancam) e a esposa Louise Amelie.

O proprietário era, até então, Astolfo Pio da Silva Pinto, que transferiu a propriedade para Jean Claude Robert em troca de outra, no córrego Felipe, cujas divisas eram as propriedades de Manoel Antônio da Silva Lima Salema, Florentino Rodrigues da Costa e a fazenda Serra Bonita que fora de Francisco José de Almeida.

Acreditamos que um outro vizinho da propriedade, Auguste Robert, seria o homem suíço solteiro que aparece no Recenseamento de 1872. Pode ter sido um filho de Jean Claude e Maria Louise. De certo sabemos apenas que morava em terras que divisavam com Estevam, com a fazenda Pedra Bonita e com o sítio Serrote. Caso Estevam tenha ficado viúvo entre agosto de 1871, data da operação imobiliária, e o final de 1872 quando foi realizada a contagem populacional, teríamos aí grandes possibilidades de ter identificado os três homens e a mulher suíça.

Importante lembrar, porém, que o nome J. C. Robert aparece em, pelo menos, dois processos de estrangeiros disponíveis no Arquivo Nacional. Um deles, francês, entrou no Brasil aos 20 anos em 1829, procedente de Buenos Aires. O outro, cuja idade não foi informada, era um artista francês que entrou no Brasil pela Bahia e em 1841 chegou ao porto do Rio de Janeiro.

Apesar da dificuldade causada pelas múltiplas grafias dos nomes e sobrenomes – João Cláudio Roberto, João Gloub Robert, Jan Glaude Robert – a assinatura no registro da troca permitiu que reuníssemos as informações deste personagem que em 1886 foi identificado como “cafelista”, ou seja, proprietário de terras onde plantava café.

Recreio, MG: A presença dos Estrangeiros

A contagem populacional de 1872 é o primeiro documento mais seguro para o exame da composição de moradores por nacionalidade. Dificilmente podemos identificar os imigrantes das décadas precedentes. Sendo assim, é comum estabelecer aquele ano como primeiro momento da análise.

No distrito de Conceição da Boa Vista viviam 301 estrangeiros na época. Entre eles, 160 africanos escravos e 7 africanos livres. O estudo desta parcela da população é sobremaneira dificultado pela falta de especificação dos registros.

Das demais nacionalidades foram contados:

– 7 homens franceses, (3 solteiros e 4 casados);

– 13 homens italianos, (6 solteiros e 7 casados);

– 102 homens portugueses, (38 solteiros, 32 casados e 12 viúvos);

– 8 mulheres portuguesas (5 casadas e 3 viúvas);

– 3 homens suíços (1 solteiro, 1 casado e 1 viúvo);

– 1 mulher suíça, casada.

De modo geral, é possível identificar os componentes deste grupo de estrangeiros através dos registros paroquiais e civis. Entretanto, no que se refere aos portugueses a pesquisa pode não atingir um bom resultado porque nem sempre o padre e o escrivão indicavam a nacionalidade.

O recenseamento de 1890 indica a presença de apenas 276 estrangeiros no distrito de Conceição da Boa Vista. Em busca de outros informes a respeito, consultamos os livros das hospedarias e observamos que os imigrantes europeus chegaram na região a partir de 1870, com aumento significativo nos anos de 1888 e 1889. Mas até o momento só encontramos referência à estação de Recreio, como local de desembarque dos imigrantes, em 1895 e 1896. Segundo os livros da Hospedaria Horta Barbosa, os contratados nestes anos seguiram para a Fazenda Belmonte, de Theophilo Barbosa da Fonseca Moura.

Recreio, MG: Professores

O professor Antônio Maximiano de Oliveira Leite, citado no post anterior por ser professor em Conceição da Boa Vista em 1875, era filho do fazendeiro de café Maximiano de Oliveira Leite e de Maria Eugênia Galvão de São Martinho, sendo neto materno de Pedro Afonso Galvão de São Martinho, o oficial encarregado das duas diligências pelos Sertões do Leste em 1784 e 1786. Assim como seu pai, o professor Antônio era eleitor do distrito de Conceição da Boa Vista em 1886.

Casou-se com Luiza Constantina, filha de Luiza e José Constantino Cherques, proprietários de uma fazenda na Grota. A esposa do professor tinha uma irmã de nome Melania, residente em Cantagalo. Em 1874, a sogra e a cunhada de Antônio Maximiano de Oliveira Leite venderam a Ignacio Ferreira Brito a parte da herança que lhes coube. Consta que o professor continuou morando nas terras herdadas de seu sogro, pertencentes ao futuro distrito de Recreio.

Pode ser que Antônio Maximiano tenha deixado a função de ensinar depois de casar-se, porque João Batista Nunes Junior foi nomeado, no dia 13 de janeiro de 1885, para as aulas públicas do sexo masculino em Conceição da Boa Vista. Este novo professor veio juntar-se a Maria da Glória Fonseca da Cruz, nomeada a 10 de setembro de 1883 para as aulas públicas de sexo feminino.

Temos, portanto, três personagens que circulavam pela comunidade na época em que o destino do distrito estava sendo articulado. Embora não seja possível identificar todos aqueles que participaram da divisão, acreditamos ser importante lembrar dos antigos mestres. Além de sua função precípua, qual seja a de ensinar as primeiras letras, certamente estes professores colaboraram na formação do ideal de cada um que freqüentava suas salas de aula.

Certidão de Nascimento de Recreio, MG: o aforamento das terras do Arraial Novo

A Fazenda das Laranjeiras – ou parte dela, estava hipotecada ao Banco do Brasil. Era o ano de 1885 e os proprietários requereram autorização para alienar a área próxima à Estação do Recreio. Assim, os registros encontrados no Livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista constituem-se numa espécie de Certidão de Nascimento da futura cidade de Recreio. Nas folhas 127 e verso do livro relativo aos anos de 1884 e 1885, encontra-se o seguinte:

Registro de uma autorisação do Banco do Brasil do theorseguinte: = nº 1672 – O Banco do Brasil, representado pelo seo Presidente, abaixo assignado, e na qualidade de credor hypothecario do Capitão Ignacio Ferreira Brito e sua mulher, lavradores no Municipio da Leopoldina, concede a preciza autorisação pra que possão aquelles devedores alienar o dominio util de cerca de dois hectares do terreno da fazenda das Larangeiras, terreno que fica junto à Estação do Recreio, por meio de contractos de aforamento, devendo o Banco ser informado dos nomes dos foreiros, quantidade de terreno aforado e preço do aforamento; continuando a garantia hypothecaria sobre o dominio directo da parte do terreno alienado. Rio de Janeiro doze de Março de mil oito centos e oitenta e cinco. J. Machado Coêlho de Castro. Estava uma estampilha de duzentos reis, devidamente inutilisada pela data e assignatura. Nada mais se via estar em o dito papel de autorisação, que fielmente copiei do proprio original a que me resporto, dou fé, e assigno em sete de Abril de mil oito centos e oitenta e cinco. O Escrivão, Carlos Rebollido Pinheiro.

 

Memória da Cidade na Internet

Em outubro de 2006 participamos de um Seminário, em Barbacena, no qual conhecemos pessoas que desenvolvem um projeto de preservação e valorização da história de vida dos moradores de São João del Rei. Naquela oportunidade soubemos que o objetivo é sensibilizar a comunidade para o resgate histórico, valorizando o passado através das histórias individuais. À semelhança do Museu da Pessoa, (http://www.museudapessoa.com.br/), e com o apoio da Universidade Federal de São João del Rei, entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas como forma de trazer, das experiências e vivências das pessoas, aspectos da memória do grupo social onde elas se inserem.

 Temos também notícia sobre evento de natureza semelhante. Alunos do Ensino Médio entrevistaram diversos moradores de uma pequena localidade do interior do Paraná e organizaram um painel com as partes mais expressivas dos depoimentos colhidos. O objetivo é sempre o mesmo: conhecer as versões sobre o passado de grupos que ficam à margem da história oficial. Essas memórias não eram, até aqui, registradas em algum suporte passível de ser consultado por outras pessoas. Assim, são guardadas no interior das famílias que ainda praticam o belo hábito de narrar suas histórias de vida.

As mudanças na rotina diária já não permitem que os avós conversem amiúde com os netos, nem tampouco que os pais e mães dediquem algum tempo a contar suas histórias para os próprios filhos. Quanto atingem a idade adulta, muitos se ressentem de nada saberem sobre suas famílias. Alguns passam, então, a dedicar todo o tempo livre no resgate possível.  Uma dessas pessoas mandou mensagem perguntando sobre um antigo morador de Recreio.

O visitante pergunta por memórias da cidade de Recreio disponíveis para pesquisa à distância. Está interessado na trajetória de Serafim Teixeira da Luz, provavelmente o mesmo personagem citado no post de 21 de janeiro de 2007 como um dos negociantes a quem foi aforado um terreno da Fazenda das Laranjeiras, em 1885.  Seria, segundo apurou em documentos do início do século XX,  o mesmo Serafim Coimbra citado como proprietário do Hotel Recreio no post de 20 de março.

A este visitante, assim como a todos que nos pedem notícias de Recreio no século XX, indicamos o site http://www.usinadeletras.com.br para leitura dos ótimos textos de Pedro Wilson Carrano de Albuquerque. Enquanto isso, continuaremos a trazer para cá os poucos informes que temos tido oportunidade de encontrar.

Atos Públicos

A distância no tempo pode levar-nos a interrogações curiosas. Uma delas: onde eram realizadas as eleições, já que não havia prédio público em Recreio?

Em primeiro lugar cabe ressaltar que no século XIX as eleições eram realizadas, na maioria das vezes, na Igreja. A designação do local era feita pela Presidência da Província. Quando algum motivo impedisse o uso do espaço da Igreja, era então determinado um outro local. É o que podemos observar no seguinte trecho do Relatório da Presidência da Província de 13 de abril de 1886, página 21:

“Achando-se em obras a casa do cidadão Ignacio Ferreira Brito, anteriormente designada para n’ella celebrarem-se os actos eleitoraes da parochia da Conceição da Boa Vista, designei, a 28 de outubro, o predio do Exm. Barão de Avellar Resende para aquelle fim, tendo em vista a informação da camara municipal da Leopoldina, datada de 23 de setembro, e o art. 94 do decreto n. 8213 de 13 de agosto de 1881”

Importante lembrar que o título de Barão de Avelar Rezende foi concedido a 9 de setembro de 1882 a Quirino de Avelar Monteiro de Rezende. Parece-nos que é o mesmo personagem conhecido por Quirino Ribeiro Monteiro de Rezende, cujo casamento havia sido celebrado na Matriz de Conceição da Boa Vista em 1862. A família deste titular do império estava radicada no distrito desde 1838, onde formou a Fazenda Saudade que passou a pertencer ao distrito de Santa Isabel (Abaíba), criado em 1890.

Antigos Hotéis de Recreio, MG

No post publicado no dia 1º de janeiro de 2007, informamos que o Arraial Novo contava com dois locais de hospedagem, conforme se depreende da análise do livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista 1884-1885, folhas 124 a 127. Comentando tal informação, escreve Pedro Dorigo:

“Quando criança, lembro-me de dois hotéis, em Recreio: Hotel Pinho, de propriedade (ou arrendamento) de Sebastião (Zim) Teixeira de Castro [filho de José Teixeira de Castro e Francisca de Almeida]; Hotel Recreio, do Sr. José Moreira. Mas é claro que houve outros proprietários. Sei que o Hotel Recreio, talvez nas primeiras décadas de 1900, pertenceu ou foi arrendado por Serafim Coimbra e que o Hotel Pinho pertenceu à mesma família proprietária do Bazar Pinho [antigo Empório Tomasco], pais de Guilhermino Martins.”

Aproveitamos este comentário para lembrar que, com o novo destino dado a uma parte da Fazenda Laranjeiras, foi necessário atender a demandas específicas do espaço urbano. Entre elas, locais de hospedagem e um comércio mais diversificado como o representado pelo Empório Tomasco, depois Bazar Pinho, abaixo em fotografias que farão parte de uma exposição programada para julho deste ano de 2007. Acrescentamos, para melhor esclarecimento dos leitores, que Guilhermino Martins era genro, e não filho dos proprietários do Hotel Pinho, conforme informou sua bisneta Mercês Martins Simão.

Esta fotografia foi tomada, provavelmente, na primeira década do século XX. A localização do prédio é a esquina diagonal oposta à do extinto casarão dos Melido.
Nesta outra imagem a casa comercial já está com o nome Bazar Pinho. A data no alto do prédio, pouco abaixo do telhado, é 1912 ou 1914. Atualmente o prédio pertence a Arcelino de Oliveira Simão (genro de Guilhermino Martins, antigo proprietário, e filho de Américo Simão),cuja praça, em frente, leva o nome de seu pai.

Processo José Correia de Lacerda

Concluímos nossos comentários sobre os antigos moradores, referidos nos Mapas de População, com este membro da família Lacerda. Sua esposa é algumas vezes referida como Maria Teodora e em outras como Maria Vitória. O casal procedia da região de Bom Jardim de Minas.

Na propriedade denominada Taboleiro, vizinha de Manoel José de Novaes, Francisco da Silva Barbosa e da fazenda da Bocaina, Processo e Maria viveram com os filhos Generosa, Manoel, Maria, e Processo.

O nome deste morador é encontrado nos documentos eleitorais de 1851, 1872 e 1873, sempre vinculado ao então distrito de Conceição da Boa Vista. No Almanaque da Província de Minas Gerais de 1875, aparece como fazendeiro de café.

João Batista de Paula Almeida

Com o objetivo de falar dos antigos moradores de Conceição da Boa Vista, trazemos mais um nome encontrado nos Mapas de População. Aproveitamos para responder à consulta de um visitante a respeito destas listagens nominais de habitantes. Esclarecemos que os chamados “maços de população” foram implantados por ordem do Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, para fins de arrecadação de impostos e alistamento militar.

Em 1832 João Baptista de Paula Almeida comprou, de Pedro Teixeira de Carvalho, 200 alqueires de terras no lugar denominado Monte Alegre. Unidas à propriedade que herdou de seus pais, formou a Fazenda do Monte Alegre que fazia divisa com Francisco José de Freitas Lima, com a Fazenda do Recreio, com Francisco da Silva Barboza, com Manoel Ferreira Britto e com as terras dos Mendes.

Joaquim Cesário de Almeida e Luciana

O sogro de Ignacio Ferreira Brito deixou enorme descendência em Recreio e Leopoldina. Nascido em Santana do Garambeo, em 1804, descendia de açorianos por parte de pai e sua mãe era irmã do “comendador” Manoel Antonio de Almeida, um dos povoadores de Leopoldina. Casou-se com sua prima Luciana, filha deste seu tio Manoel Antonio de Almeida. Encontra-se o nome da esposa de Joaquim Cesário como Luciana Esméria de Almeida, Luciana Francelina de Jesus ou Luciana Felisbina.O casal formou a Fazenda do Tesouro, na qual viveram até a morte de Joaquim Cesário, ocorrida no dia 18 de março de 1855. A partir daí, seja pelo desmembramento da propriedade por ocasião do inventário, seja por compra que seus filhos fizeram ou receberam por dote da esposa, encontram-se referências às fazendas Alto da Cachoeira, Passa Tempo e Tesouro, como propriedades da família.

Filhos de Joaquim Cezário de Almeida e Luciana:

– João Basílio de Almeida casado com Augusta Leopoldina Rezende Martins
– Izahias de Almeida
– Maria Cezária de Almeida casada com João Ferreira de Almeida
– Mariana Ozória de Almeida casada com Ignacio Ferreira Brito
– Antonio Augusto de Almeida casado com Virgínia Pereira Werneck
– Honorina Antonia de Almeida casada com Antonio José de Freitas Lima
– Joaquina Eucheria de Almeida casada com Francisco Gonçalves Neto
– Rita Virgínia de Almeida casada com Antônio Venâncio de Almeida