O ferroviário Ignacio Fernandes

Empregado da linha férrea, o morador de São José do Alem Parahyba Ignacio Fernandes ocupava, com autorização dos proprietários da Fazenda Laranjeiras, um pequeno lote de terras que media 3 metros e 80 centímetros de frente por 7 metros e cinquenta centímetros de fundos. Segundo o registro, no terreno existia “uma casa terrea coberta de telhas, que devide pela direita com a casa de Julio de Moraes Tavares, pela esquerda com terrenos dos outorgantes, pela frente com a rua fronteira à Estação e pelos fundos com os trilhos da Estrada de Ferro da Leopoldina”. O contrato foi estabelecido através da contrapartida de um foro anual de 4.845 réis.

Conforme se observa, os terrenos variavam bastante de tamanho. Provavelmente não foi planejado um loteamento no entorno da Estação e as ocupações teriam sido autorizadas na medida da necessidade de acomodar os operários da construção da ferrovia e os prestadores dos serviços essenciais.

Em busca de outro personagem: José Fernandes Júnior

Segundo Michael Pollak em Memória, Esquecimento e Silêncio, “a referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos” e defender “as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, incluídos o território e os personagensque construíram a história do próprio grupo. Em outro texto, discorrendo sobre a identidade individual e social o mesmo autor lembra que a memória tem papel preponderante na (re)construção da identidade, sendo “constituída por pessoas, personagens, acontecimentos e lugares”.

Baseando-nos neste sociólogo austríaco, não podemos deixar de lembrar que é dele o conceito de personagens freqüentadas portabela”, ou seja, aqueles que nós não conhecemos pessoalmente por não pertencerem ao nosso “espaço-tempo”. Entretanto, ao sermos informados sobre suas trajetórias, transformamos estes personagens em partícipes de nossa identidade social. E é assim, com o objetivo de recuperar para a memória coletiva os seus componentes fundamentais, é que seguimos falando dos acontecimentos, dos lugares e dos personagens que escreveram os primeiroscapítulos da história de Recreio.

Nos primórdios do então Arraial Novo, a casa de Miguel Bento Borba avizinhava-se, pela direita, com benfeitorias do morador José Fernandes Júnior, outro foreiro das terras da Fazenda Laranjeiras. Da mesma forma que os demais moradores, no aforamento consta que ele ocupava, com autorização de Ignacio Ferreira Brito, um terreno junto da Estação.

José Fernandes Júnior vivia em uma “casa térrea, coberta de telhas, que divide e confronta pela frente com a pequena rua queacesso à Estação e pelos fundos com a linha férrea do Alto-Muriahé”. Segundo o registro, o terreno media 29 metros e 70 centímetros por 19 metros e 50 centímetros, resultando num foro anual de 196.911 réis, calculado na base de 340 réis por metro quadrado.

Dois hotéis no Arraial Novo

Em abril de 1885, a Estação do Recreio era o centro do Arraial Novo, mais tarde referido como Arraial do Recreio. Em seu entorno existiam algumas construções sendo a maior delas o Hotel do Recreio, de propriedade de Ignacio Ferreira Britto e sua mulher Mariana Ozória de Almeida.

Segundo o citado livro do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista, relativo ao período 1884-1885, folhas 124 a 127, duas das outras construções do local eram ocupadas por Julio Moraes Tavares, a quem foi outorgado o aforamento no dia 7 de abril de 1885. Uma delas erauma casa assoalhada coberta de telhas, com […] cinco portas e cinco janellas na circunferencia, e um jardim ao lado […] em que o outorgado tem negocio, hotel e bilhar”. Portanto, além do Hotel do Recreio o Arraial contava com um outro ponto de hospedagem, construído em terrenos da Fazenda das Laranjeiras.

O terreno ocupado por Julio Moraes Tavares limitava-se, pela frente, comuma pequena rua em que estão algumas casinhas juntas aos trilhos e em frente a Estação da Estrada de Ferro da Leopoldina, e no fundo com os trilhos da Estrada de Ferro do Alto Muriahé”.

O registro informa ainda que o terreno occupado como se disse pelo outorgado, tem vinte e um metros e oitenta centimetros quadrados de frente, e treze metros e quarenta centimentos quadrados de fundo; e da mesma Fasenda desmembrão mais um pequeno terreno em frente ao que está descripto, e mais proximo a Estação, com quarenta e seis metros quadrados, na qual se acha uma casinha coberta de telhas pertencente ao outorgado, com duas portas e duas janellas em sua circunferencia, a qual tem de frente treze metros e cincoenta centimetros, e de fundo quatro metros quadrados”.

O aforamento deste e dos demais terrenos desmembrados da Fazenda das Laranjeiras obedeceu aos seguintesparâmetros:

a) dos quaes terrenos elles outorgantes fazem afforamento perpetuo, por si seus herdeiros e sucessores, pelo fôro annual de quatrocentos e oitenta reis, digo pelo fôro de trezentos e quarenta reis pelo metro quadrado

b) a penção em fôro annual de dois terrenos no qual se contem duzentos e noventa e cinco metros e sessenta centimetros quadrados, vem a sêr de cem mil quinhentos e quatro reis, cuja quantia será paga em prestações semestrais a razão de cincoenta mil duzentos e cincoenta e dois reis, a contar da data da presente escriptura em diante, e deixando o outorgado ou seus sucessores de pagar um anno vencido, pode ser demandado executivamente, a cuja prompta solução de fôro em forus desde fica hyppothecado o dominio util dos mesmos terrenos e benfeitorias existentes, e as que ai crescerem

c) deixando elle afforeiro de pagar os forus por trez annos successivos perderá o dominio do dito terreno e suas bemfeitorias, que então existirem por comisso para elles senhoriais

d) elle foreiro não poderá alienar ou por qualquer maneira se desfazer da posse do terreno e suas bemfeitorias sem expressa licença do senhorio, affrontando as alienações para poder optar conforme lhe fôr conveniente debaixo da dita pena de comisso

e) por seu turno os senhorios dentro de dez dias da data em que lhe fôr dada a sciencia da alienação e do preço que a apagar o comissario, não usando seu direito de opção, perderá a preleção para o fim de se realizar a allienação com o terceiro com quem tiver contractado

f) pagará elle foreiro aos seus sucessores o laudemio de dez por cento regulado pelo preço da allienação, ficando o mesmo terreno e bemfeitorias hypottecados a este laudemio para o sinhorio o poder haver do vendedor ou comprador, ficando entendido que este laudemio e foro não poderá elle foreiro pedir em tempo algum reducção por qualquer caso fortuito, cogitado e não cogitado; e nem tão pouco elles sinhorios e seus successores lhe poderão augmentar o laudemio e fôro, qualquer que seja o augmento do valor intrincico do terreno afforado

g) o foreiro se obriga a cercar os terrenos que ora lhe são limitados, e prefixal-as por balisas provisorias, e não ultrapassal-as sob pena de serem desmanchadas quaesquer bemfeitorias a custa delle foreiro; como obrigão-se a respeitar a lavoura e terrenos delles senhorios, não concentindo que sejão imvadidas por seus animaes

Consta também do registro do aforamento a Julio Moraes Tavares quepelo outorgado mais foi dito qu eparte de seu predio tendo sido construido com madeiras tiradas dos matos delles outorgantes; como indemnização dessas madeiras e do desfructe que tem tido até hoje dos terrenos afforados, offerece, e os outorgantes aceitão a quantia de seiscentos mil”.


A estrada de ferro Alto-Muriaé

Outro fator a acelerar a urbanização do então Arraial Novo foi a estrada de Ferro Alto-Muriaé. Segundo o relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, de 4 de maio de 1881 o presidente da Companhia Estrada de Ferro Alto Muriaé, Dr. Custódio José da Costa Cruz, informou que no dia 5 de janeiro daquele ano a Companhia foi instalada, com o fim de executar o contrato assinado com a Província em 11 de agosto de 1879. Trata-se do contrato para construção de uma linha férrea entre a Estação do Recreio e o povoado de São Francisco do Glória.

Observa-se que decorreram dois anos entre a assinatura do contrato de concessão e a organização da companhia construtora. A partir de então, e segundo o mesmo documento, entre janeiro e abril de 1881 foram “explorados e estudados 6 (seis) quilômetros da nova estrada, entre a Estação do Recreio e o Capivara”. Parece claro que construção da estrada só teria sido iniciada posteriormente, já que no relatório seguinte, de 12 de dezembro de 1881, o presidente da Província informa que aprovou os estudos sobre os primeiros 29 quilômetros da ferrovia Alto-Muriaé.

Confirmando tais informações, o relatório da Presidência da Província, de 1 de agosto de 1882, informa que naquele ano foram iniciados os trabalhos de construção dos 29 quilômetros da estrada, a partir da Estação do Recreio. Acrescente-se que somente em 1885, por ocasião da urbanização das terras da Fazenda Laranjeiras no Arraial Novo, surgem referências sobre esta ferrovia nos livros cartoriais de Conceição da Boa Vista.

O surgimento do Arraial Novo, Recreio, Minas Gerais

É conhecida a versão sobre a criação do Arraial do Recreio a partir da negativa dos proprietários da Fazenda de São Mateus, impedindo que os trilhos do ramal ferroviário chegassem a Conceição da Boa Vista, o antigo Curato que foi elevadoa Distritode Paz pela Lei533 de 10 de Outubro de 1851. Para solucionar o impasse, os irmãos Inácio e Francisco Ferreira Brito, proprietários da Fazenda das Laranjeiras, ofereceram suas terras para a passagem da ferrovia.

Fazendas de Leopoldina

O município de Leopoldina estendia-se por um território muito vasto e até hoje, apesar de muitos desmembramentos, sua área ainda é uma das maiores na região sul da zona da mata, num total de 942,31 km² conforme o site da Prefeitura Municipal.

Inúmeras foram as fazendas formadas no decorrer do século XIX. Muitas já não existem mais, quer por terem sido divididas em propriedades menores que por terem se tornado área urbana. Algumas delas foram analisadas e localizadas no texto “Antigas Cartas de Leopoldina” apresentado em Seminário realizado em 2004.

A formação da Colônia Constança

Foram os imigrantes chegados a Leopoldina até vinte anos antes da fundação da Constança, que se constituíram na primeira população daquele núcleo agrícola.
No início, poucos conseguiram comprar os lotes. A maioria formou a população de agregados, citados nos relatórios da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização.
Consta que o núcleo vinha sendo planejado desde 1909 e foi constituído a partir das fazendas Constança, Boa Sorte, Onça (parte) e Puris (parte), adquiridas pelo Estado. Relatório da Diretoria da Agricultura, Terras e Colonização, de 1909, assinado por Guilherme Prates, informa que
"Acha-se situada no districto da cidade de Leopoldina, a quatro kilômetros da estação da estrada de ferro. Fundada em terras das fazendas annexadas e denominadas Constança, Sobradinho, Boa Sorte, Onça e o sítio Puris, que o Estado adquiriu. Tem área de 17.437.500,00 metros quadrados, dividida em 60 lotes, com cerca de 25 hectares cada um e um logradoiro público."
Mas a criação da Colônia ocorreu mesmo em 12.04.1910, através do Decreto Estadual nº 2801.
Para a sua constituição o Governo adquiriu, entre outras, a fazenda Boa Sorte com 122 alqueires, em 02.03.1909, conforme o Annuario Historico Chorographico de Minas Gerais daquele ano. Em julho de 1910 incorporou à Colônia as terras da Fazenda Modelo D. Antonia Augusta e, no ano seguinte, as das fazendas Palmeiras e Santo Antônio do Onça, esta última adquirida da Câmara Municipal, conforme a Gazeta de 30.06.1911.