Os Caminhos do Povoamento e a Origem da Vila Leopoldina

Aspecto ainda não estudado da história de Leopoldina, os Caminhos do Povoamento da zona da mata mineira estão sendo pesquisados em parceria por Nilza Cantoni e Joana Capella e deste trabalho foi extraído o material utilizado em palestra realizada no Cefet, campus Leopoldina, na abertura do II Festival de Arte e Cultura, neste ano de 2012.

O convite para encontrar-me com os profissionais da Educação que atuam em Leopoldina foi um grande presente. Ao longo do tempo eu venho colhendo dados e buscando interpretá-los à luz do conhecimento produzido pelos especialistas de diversas áreas, tendo chegado a algumas conclusões que gostaria de dividir com vocês. Hoje falarei sobre um estudo inédito que acredito ser importante para ampliar o conhecimento sobre a então Vila Leopoldina.

Localização de Leopoldina pelo Google Earth
Localização de Leopoldina pelo Google Earth

Neste recorte, destaquei os pontos importantes para o assunto de hoje: a localização de Ouro Preto, Mariana, Barbacena, Cataguases, Leopoldina, Cantagalo, Campos dos Goitacazes e Rio de Janeiro.

Agora viajaremos para 1847.

Cartografia de 1847
Cartografia de 1847

Esta cartografia[1] foi produzida por João José da Silva Teodoro e concluída em 1847. O original encontra-se na Biblioteca Nacional. Fazendo um recorte no mapa, verifica-se que a cartografia detalha os termos do Pomba, Presídio de São João Batista (atual Visconde do Rio Branco) e São João Nepomuceno:

Os Termos do Pomba em 1847
Os Termos do Pomba em 1847
No território do Termo de São João Nepomuceno, o distrito do Feijão Cru em destaque.
No território do Termo de São João Nepomuceno, o distrito do Feijão Cru em destaque.

No território do Termo de São João Nepomuceno encontra-se em destaque o distrito do Feijão Cru.

Procurando saber quem foram as pessoas que se estabeleceram no Feijão Cru[2], verifiquei que, à exceção de uma das primeiras famílias que aqui se fixaram, todas as que consegui identificar procediam de região agrícola. Donde se derruba um dos mais arraigados mitos da história de Leopoldina, ou seja, de que os povoadores eram deserdados do ouro.

Voltemos ao mapa completo de João José da Silva Teodoro.

Bacia do Paraíba do Sul na Zona da Mata Mineira

Rio Paraíba do Sul na zona da mata mineira, recebendo o Pomba e seus dois principais afluentes: o Novo e o Xopotó

Paraíba do Sul, Pomba, Novo e Xopotó, além do Caminho Novo à esquerda e das localidades de Ouro Preto, Presídio, Campos dos Goitacazes e Cantagalo

Além dos rios Paraíba do Sul, Pomba, Novo e Xopotó, e do Caminho Novo à esquerda, acima destacamos as localidades de Ouro Preto, Presídio, Campos dos Goitacazes e Cantagalo.

Caminho do Cantagalo

Acrescentado o provável percurso do Caminho do Cantagalo [na cor vinho] mencionado em diversas Cartas de Sesmaria[3] e aberto pelas tropas de Pedro Afonso Galvão de São Martinho nas investidas de 1784[4] e 1786[5]. Pelo que nos foi dado apurar, o Caminho do Cantagalo foi o trajeto utilizado pela maioria dos povoadores do Feijão Cru e serviu de base para uma estrada de rodagem de São João del Rei a Cantagalo[6].

Estrada Presídio-Campos
Em verde a estrada Presídio-Campos

Prosseguindo, temos agora a Estrada Presídio – Campos dos Goitacazes[7], aberta por volta de 1812[8]. O trajeto desta estrada foi definido a partir de anotações colhidas em correspondência de Guido Marliére, referências em Cartas de Sesmarias[9], em Spix & Martius[10] e em Burmeister[11].

Segundo Helena Guimarães Campos[12],

O estudo dos caminhos é determinante para a compreensão dos processos históricos, pois eles estão associados à exploração, ocupação e povoamento dos territórios [...] A existência, a inexistência ou as condições dos caminhos traçam os rumos dos limites e das possibilidades da história dos povos, que tem ou não seus territórios articulados com outros.

Abordando as pesquisas realizadas sobre o Caminho Novo, o professor Ângelo Alves Carrara[13] informou que os Diários de Viagem dos Soldados Dragões demonstram que havia um caminho “vertebrador” e uma boa quantidade de variantes, sendo de notar que os soldados eventualmente faziam o percurso de ida por um trecho e na volta utilizavam outra variante, dando notícia precisa da distância entre cada parada que faziam.

Embora não tenhamos “diários de viagem” sobre os nossos caminhos, as referências encontradas na cartografia que pesquisamos indicam que o Caminho do Cantagalo e a Estrada Presídio-Campos dos Goitacazes também não eram uma via de percurso único. No caso do acesso a Cantagalo, temos referências sobre alternativas existentes em 1858, quando a viajante Ida Pffeifer o atingiu na altura da Aldeia da Pedra, hoje Itaocara[14].

Trilhando e abrindo novos caminhos, os povoadores do Feijão Cru foram ampliando sua área de influência, conforme podemos verificar no mapa seguinte.

Leopoldina segundo Tschudi e Halfeld

Aí está um trecho de cartografia produzida pelos engenheiros Halfeld e Tschudi[15] e publicada em 1855, no qual destaquei o território que formou a Vila Leopoldina em 1854.

Pensar os nossos antigos caminhos é fundamental para compreendermos a nossa história. Por esta razão eu convido a todos para refletirem sobre a ocupação das áreas cortadas pelo Caminho do Cantagalo e pela Estrada Presídio-Campos dos Goitacazes. De onde vieram as pessoas que implantaram em nossa terra a lógica colonial? Quais eram as suas práticas culturais? Como se alimentavam? Como supriam as necessidades básicas de suas famílias? Por onde escoavam a produção? De que forma produziam riqueza?

Voltando o olhar para estes aspectos, as informações acumuladas nos fizeram chegar à imagem seguinte, montada a partir de topografia disponível no Arquivo Público Mineiro[16].

Vila Leopoldina em 1854

Segundo Bloch[17], “textos ou documentos […] não falam senão quando sabemos interrogá-los”. Para Le Goff[18] a “memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”. Nosso trabalho tem tido como objetivo resgatar textos e documentos sobre a história de Leopoldina, analisando-os e divulgando-os para que todos tenham acesso.

a) Nilza Cantoni

NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] TEODORO, João José da Silva. Carta Topographica dos Termos do Presidio, Pomba e S. João Nepomuceno. 1847. Disponível na Biblioteca Nacional, Seção de Mapas, 2617.

[2] CANTONI, Nilza. Povoadores do Feijão Cru. In: História Social através da Genealogia. Comunicação apresentada no 2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. São João del Rei: 21 agosto 2011.

[3] Carta de sesmaria consultada no Arquivo Histórico Municipal Professor Altair Savassi, de Barbacena: MACHADO, José Joaquim Machado, Fundo PJ, Grupo 1SVC, Série AC. Caixa 42, Ordem 12.

Sesmarias consultadas no Arquivo Público Mineiro: Códice SC 275 [BRANDÃO, Manoel Carvalho / p. 164]; Códice SC. 352 [CARVALHO, Domingos Gonçalves de/ p. 73 v; MATTOS, Marcelino Pereira de/ p. 74 v; NICACIO, Antonio Dutra/ p. 78 v]; Códice SC. 377 [ANNA Margarida/p. 119; AZEVEDO, Manoel Ferreira de/p. 95; BAPTISTA, Joanna/p. 123; BARROS, Francisco Xavier de/p. 5; CARNEIRO, João Nepumuceno – sac/p. 136; CASTRO, Antonio José de/p. 93; CASTRO, Clara Maria de Sá e/p. 106; CASTRO, Jacintho Manoel de/p. 126; CASTRO, Maria do Carmo de/p. 121; CONCEIÇÃO, Maria Joanna da/p. 97; CONSTANCIA, Francisca/p. 107; CORREA, Je. Joaquim – sgt mor/p. 48; FERREIRA, José Lopes/p. 149; FIGUEIREDO, Luiza Alexandrina da Mota e/p. 80; GAMA, Francisco Xavier Monteiro da/p. 125; GAMA, Maria Balbina Monteiro da/p. 108; JOZÉ, Maria/p. 103; MARGARIDA, Eufrásia/p. 96; MATTOS, Matheus Herculano Monteiro da Cunha e/p. 124; MONTEIRO, Francisca de Assis/p. 129; MONTEIRO, José Maria/p. 105; MONTEIRO, Lucas Antonio/p. 92; MONTEIRO, Miguel Antonio/p. 102; MOTTA, José Luiz da/p. 81; OLIVEIRA, João José/p. 138; PAULA, Barbara Marcelina de/p. 47; PIMENTEL, Alexandre Pereira/p. 43; PIMENTEL, João Pereira alf./p. 42; SÁ, Ana Maria de/p. 120; SILVA, Francisco Antunes da/p. 140; SILVA, Joaquim José da (tem.)/p. 137; SOARES, João Teixeira/p. 139; SOUZA, Fernando José de Almeida e/p. 41].

[4] CARTAS do sargento-mor Pedro Afonso Galvão de São Martinho para Luiz da Cunha Meneses, de São Manuel do Pomba, 12 de maio e 7 de agosto de 1784; da Margem do Paraíba, 22 de maio e 10 de junho de 1784; do Porto Novo do Cunha,  5 e 18 de junho de 1784; do Sertão do Rio Novo, 24 de junho de 1784. Disponíveis no Arquivo Público Mineiro, Coleção Casa dos Contos, caixa 13, item 10266; caixa 3, itens 10060, 10061, 10071, 10072.

[5] CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os Sertões de Leste: achegas para a história da zona da mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

[6] PLANTA da Estrada de Automóvel São João del Rei a Canta Galo, 1928. Disponível no Arquivo Público Mineiro, Fundo Secretaria de Agricultura, SA – 263(10) e MAPA de saída dos gêneros alimentícios de Cantagalo para Baependi, Sabará, Tamanduá, Barbacena, Pitangui, São João, Jacuí, Vila Rica, Caeté, Vila do Príncipe e Campanha, 30 de setembro de 1819, Coleção Casa de Contos, caixa 37, item 30094.

[7] PINTO, A. P. Mapa Topográfico do Povoamento da Ex-Vila do Presídio. 1854. Disponível no Arquivo Público Mineiro, Fundo Presidência da Província, PP 012.

[8] Em correspondência. ao Presidente do Conselho da Província, datada de 07.01.1826, Revista APM, vol. XI, pag 123, Guido Tomaz Marlière declara, sobre a Estrada de Minas aos Campos de Goytacazes: “Esta utilissima Estrada desde que se abrio em 1812, pela authoridade do Exmo. Governador e Capitão General Conde de Palma, não vio o menor concerto […] desde a Serra da Onça, no Prezidio de S. João Baptista, até o Registro da Pomba nossa fronteira em hua extenção de 33 leguas.” Afirma ainda que a estrada era utilizada pelos tropeiros para aprovisionar colonos dosTermos de Mariana, Barbacena e Caeté.

[9] Sesmarias consultadas: Códice 352 [ARAUJO, Manoel (Marçal) José de/p. 39; CABRAL. Francisco de Assis Ferreira/p. 60; CANDIDO, Antonio Gomes/p. 62; CANDIDO, Francisco de Paulo/p. 61; COSTA, Antonio Pereira da/p. 43 v; COSTA, Salvador Pereira da/p. 44 v; FRANCISCO, Antonio/p. 63; GODOY, Anna Joaquina de/p. 41 v; JARDIM, Manoel Roiz – sac./p. 39 v; MACHADO, Antonio da Cruz/p. 55; MELLO, Manoel Ignacio de/p. 33 v; MONTEIRO, Francisco de Assis Lopes/p. 34 v; MONTEIRO, João Procópio Lopes/p. 36; PICADO, José Marinho Lopes/p. 57 v; PINTO, Luiz Maria da Silva/p. 38; RIBEIRO, Diogenia Pereira (Izabel Dioguina Ribeiro Pereira de Vasconcelos)/p. 46; RIBEIRO, Joaquim José Lopes Mendes – padre/p. 35; ROCHA, Candido Joaquim da – sac./p. 32 v; SACRAMENTO, Joanna Umbelina Clara do/p. 37; UMBELINA, Anna Roza/p. 62 v; VASCONCELLOS, Fernando Pereira de/p. 49; VASCONCELLOS, Joanna Jacintha Pereira Ribeiro de Vasconcellos/p. 42 v; VELASCO, Francisco José Pereira de/p. 56]; Códice SC 363 [ARAUJO, Lucas José de/p. 114; COSTA, Joaquim Marques da/p. 137 v; FONSECA, Manoel Escorcia da/p. 9 v; GOMES, Antonio José/p. 15; MOREIRA, Antonio Marques/p. 178; MOREIRA, Francisco Antunes/p. 76 v; PIRES, Joaquim Correa/p. 73; VASCONCELLOS, Antonio Francisco/p. 8]; Códice SC 377 [ALMEIDA, Manoel Carlos de/p.202; COURA, Manoel Barbosa/p.85; FERREIRA, Joaquim de Freitas/p.165 ]. Disponíveis no Arquivo Público Mineiro.

[10] SPIX, Johann Baptista von e MARTIUS, Carl Friedrich von . Viagem pelo Brasil: 1817-1826. São Paulo: Melhoramentos, 1976

[11] BURMEISTER, Herman. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980

[12] CAMPOS, Helena Guimarães. Caminhos da História: Estradas Reais e Ferrovias. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012. p. 15

[13] CARRARA, Ângelo Alves. O Caminho Novo em 3D. Comunicação apresentada no 3º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo. Conselheiro Lafaiete: 30 jun 2012

[14] LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e a Serra. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. p. 223

[15] HALFELD, Henrique Guilherme Fernando e TSCHUDI, Johann Jakob von. A Província Brasileira de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998

[16] Cartas Topográficas das cidades de Cataguases, Além Paraíba e Ubá, produzidas pela Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais, publicadas pela Seção Cartográfica da Companhia Melhoramentos, de São Paulo, em 1926 e 1927, folhas 18, 19, 20, 22 e 23.

[17] BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 79-80, 102-104

[18] LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2003. p. 471Os Caminhos do Povoamento e a Origem da Vila Leopoldina

Cataguases: uma cidade na Fazenda Cachoeira

135 anos depois, alguns aspectos significativos*

* Joana Capella, pesquisadora
Colaboração: Dilson Martins de Freitas
Artigo publicado no Jornal Cataguases, setembro de 2012.

Criado pela Lei n. 2.180, de 25 de novembro de 1875, desmembrado de Leopoldina, o município de Cataguases comemora, neste ano, os 135 anos de sua instalação oficial, ocorrida em 07 de setembro de 1877.

A área onde se acha situado o centro antigo de Cataguases era parte da fazenda do Sargento de Ordenanças Henrique José de Azevedo, doada por Termo de Doação lavrado em 26 de maio de 1828.  Este documento contém a primeira referência, até agora conhecida, às terras de Azevedo no arraial de Santa Rita do Porto dos Diamantes. A origem da propriedade destas terras é ainda desconhecida. Podem ter sido adquiridas por apossamento, concessão de sesmaria ou mesmo através de compra, como foi o caso das terras que ele possuiu na fazenda Monte Redondo, nas proximidades do atual município de Santana de Cataguases, adquiridas de Joaquim Dias Moreira, antes de 1855.

Segundo Silva Pontes, um viajante que por aqui passou em 1833, a fazenda de Azevedo ficava no Caminho do Passa Cinco para o arraial de Meia Pataca. Já Francisco Teixeira de Siqueira, casado com Clara Lina da Encarnação, declarou, em 1855, possuir terras herdadas do sogro Henrique de Azevedo, às margens do ribeirão Meia Pataca, que divisavam com os terrenos de Santa Rita. A identificação da fazenda Cachoeira como propriedade do Sargento Azevedo se confirmou, em definitivo, com as seguintes vendas de terras: em 1865, seu filho, Joaquim José Azevedo, vendeu a Antonio Xavier de Barros terras herdadas de sua mãe, Ana Maria da Encarnação, e, em 1873, outras terras herdadas pelos netos de Azevedo foram vendidas a Francisco Antonio Fernandes, Antonio Jacinto Carreiro e a José Antonio Bastos Guerreiro, além de parte anteriormente vendida ao então finado João Pedro de Souza, o que nos leva a concluir que esta era a Fazenda Cachoeira do Passa Cinco, cujas terras se situavam da barra do ribeirão Passa Cinco até o Meia Pataca, numa área equivalente a pouco mais de meia sesmaria, ou 300 alqueires, aproximadamente.

 

Em 1822, já havia sido criado um aldeamento e, seis anos após, a povoação contava com uma capela já construída, visando, inclusive, a catequização dos índios. Com 30 casas localizadas às margens da estrada Presídio-Campos dos Goitacazes, o arraial foi, dentre  muitos, um dos que se desenvolveu à beira das estradas e caminhos.

Em obediência ao Diretório de 7 de dezembro de 1767, ato do então Governador Luiz Diogo Lobo da Silva, que regulamentava a criação de povoados em terras indígenas, Guido Thomaz Marlière traçou as ruas da nova povoação, tendo ao centro a referida capela.

Hermann Burmeister, um dos viajantes estrangeiros a visitar a região no século XIX, aqui pernoitou em 28 de abril de 1853, tendo registrado que uma igreja em grande estilo já estava em construção e que as casas eram “todas de aspecto agradável e emolduradas por faixa de cal”.

Em 06 de novembro de 1877, a primeira planta da cidade, recém-elaborada, foi apresentada à Câmara Municipal por seu autor, Alberto Belmonte de Aguiar, engenheiro gaúcho que trabalhava na construção da linha férrea Juiz de Fora-Ponte Nova. Alberto e o então vereador Camilo Delfim Silva residiram na fazenda Canadá, em Cataguarino, sendo ambos genros de João José de Souza Lima e Carlota Raquel de Souza Lima, fazendeiros no mesmo distrito. Da referida planta constavam seis ruas e duas praças, quais sejam: Largo da Matriz, Largo do Rosário, Caminho do Passa  Cinco, Caminho da Estação, Rua do Sobe-Desce, Rua do Pomba, Rua do Meio e Rua do Cemitério.

Alterações nos nomes de ruas foram propostas pelos vereadores Camilo Delfim Silva, em 09 de janeiro de 1878, e Agnelo Carlos Quintela, em 20 de outubro de 1885, ambas aprovadas pela Câmara.

Vejamos as denominações originais de alguns logradouros e suas respectivas alterações até os nomes atuais, além de algumas curiosidades:

1- Largo da Matriz, Praça 25 de Junho e Praça Santa Rita

Aqui se localizava a estátua de Guido Thomaz Marlière, obra do escultor Luiz Ferrer, inaugurada em 26 de maio de 1958. Sua construção, por subscrição popular, foi uma iniciativa do político Pedro Dutra Nicácio Neto;

2- Largo do Rosário, Largo do Comércio, Praça do Comércio e Praça Rui Barbosa

Ajardinado em 1893, sediava o imponente prédio da Sociedade Theatro Recreio, cedido ao Cel. João Duarte Ferreira em 1910, em pagamento de hipoteca, e por ele deixado, em testamento, ao Hospital de Cataguases. O Theatro foi demolido, sendo construído, no mesmo local, o Cine Teatro Edgar;

3- Largo da Estação, Praça Governador Valadares

Ali se localizava o Engenho Central de Cataguases, beneficiador de café, arroz e madeira, pertencente ao Cel. João Duarte Ferreira. O prédio, de 1890, ainda existente, sofreu pelo menos duas alterações: uma reforma executada no período de 1908 a 1916 e a construção de um pavimento superior, em 1925. O Largo sediava, também, os armazéns da Federação Cooperativa Agrícola de Cataguases, fundada em 1907, que encampava, dentre outras, as cooperativas de café de Cataguases, Itamarati e São Manoel do Guaiaçu;

4- Caminho do Passa Cinco, Rua José de Alencar e Rua Alferes Henrique José de Azevedo

Era um trecho da estrada que ligava Presídio (hoje Visconde do Rio Branco) a Campos dos Goitacazes. Seguia pela rua Cel. Vieira e descia em direção ao ribeirão Kágado;

5- Caminho da Estação, Rua da Estação e Rua Cel. João Duarte Ferreira

Esta rua, hoje conhecida como Calçadão, homenageia  uma das mais destacadas figuras da nossa história política e econômica. Em 1887, sediava o Hotel Progresso, onde o dentista Roque Cathete atendia em seu“gabinete de arte dentária”;

6- Rua do Sobe-Desce, atual Rua Coronel Vieira

Na esquina com o Largo da Matriz, onde hoje se situa o prédio da Câmara Municipal, foi concedido alvará de posse a Joaquim Tomás de Aquino Cabral, em 19 de maio de 1879, para ali construir o primeiro engenho de café, inaugurado como “Engenho Central Cabral”, em  30 de junho de 1886. Esta rua, que se estendia até o ribeirão Meia Pataca, teve seu calçamento concluído em 1880. Um trecho foi denominado “Ladeira Capitão Carlos”, tendo a sua parte final recebido, posteriormente, a denominação de “Rua Professor Alcântara”, ainda hoje mantida;

7- Rua do Meio, Rua Direita e Rua Rebello Horta

8- Travessa do Rosário, Rua do Rosário e Rua Tenente Fortunato

Em 1881, esta era a nova via que, da Rua da Estação, seguia para o rio Pomba. Na esquina, em frente ao prédio da Maçonaria, Venâncio Vieira Coelho de Araújo fez a doação de um terreno para construção da Igreja do Rosário, cuja obra não foi executada.

9- Travessa Conselheiro Saraiva

Ligava a Rua Rebello Horta à Rua Cel. Vieira e era o endereço do ateliê de Gallotti Serra, fotógrafo italiano que era, também, representante da firma Ornestein S.A, de Importação e Exportação de Mantimentos e Molhados.

10- Avenida Cataguases e Avenida Astolfo Dutra

Autorizado pela Lei n.198, de 16 de março de 1906, o Agente Executivo Cel. Joaquim Gomes de Araújo Porto adquiriu terrenos às margens do córrego Lava Pés para ali construir uma rua ou avenida. Neste mesmo ano, foi concluída uma ponte de pedra sobre o córrego, construída por Francisco Drumond. A Lei n.221, de 18 de abril de 1908, com um capítulo dedicado às edificações urbanas, determinava que os pretendentes às posses na nova avenida deviam apresentar o requerimento e a planta da edificação a ser feita, exigência mantida no edital de venda dos lotes, publicado em 05 de setembro de 1912, conforme a Lei n.239, de 09 de julho do mesmo ano. A Avenida Cataguases teve sua denominação alterada para Avenida Astolfo Dutra pela Lei Municipal n.267, de 28 de julho de 1920, numa homenagem a este vulto político, falecido naquele ano.

Nas duas primeiras décadas dos anos 1900, sob a administração da Câmara Municipal, presidida pelo Cel. Joaquim Gomes de Araújo Porto no período de 1901 a 1910, e pelo Cel. João Duarte Ferreira de 1911 a 1923, Cataguases viveu um período de prosperidade. Como exemplo, citamos:

. criação, pelo Cel. João Duarte e outros sócios, da Fábrica de Tecidos, da Cia. Força e Luz, do Ginásio de Cataguases e da Usina de Açúcar;

. construção, por concessão municipal, de 4km de trilhos da Cia. Carrís Urbanos (bondes);

. criação da Biblioteca Municipal, da Imprensa Oficial e do Jornal “CATAGUASES” e a regulamentação do Arquivo Municipal;

. fundação da Federação das Cooperativas de Cataguases, visando apoiar a cafeicultura, que era principal atividade econômica do município na época;

. criação do Ginásio de Cataguases e da Escola Normal;  das Colônias Agrícolas “Santa Maria” e “Major Vieira”;

. construção do Grupo Cel. Vieira e da Ponte Metálica;

. implantação do serviço de telefonia e melhoria nos serviços de água e esgotos;

. instalação de fábricas de ladrilhos, cigarros, fósforos e meias.

A Lei n.221, de 18 de abril de 1908, que “Codifica todas as Leis Municipais”, contendo mais de 70 Capítulos e 650 Artigos, promulgada pela Câmara e publicada pelo seu Presidente em exercício, Coronel Luiz Januário Ribeiro, constitui um verdadeiro retrato do município, rica fonte de estudos para o conhecimento de sua história por abordar aspectos da administração pública, tais como rendas e impostos, obras, delimitação e desenvolvimento do perímetro urbano, prestação de serviços como água, esgotos, limpeza pública, ensino, funcionalismo, estradas e edificações urbanas, dentre outros.

 

Em 1906, o engenheiro George Bourgeois enviou proposta à Câmara para a realização do “Serviço de planta e nivelamento geral da cidade, projeto de arruamento, planta das redes de água e esgotos, projetos de tipos de fachada e modificação do leito do córrego Lava Pés”. A Lei n.198, aprovada em 16 de março de 1906, previa o levantamento de uma planta da cidade, mas não conseguimos informações sobre a sua execução, nem referências à realização do trabalho por parte de Bourgeois. A “Planta da cidade de Cataguazes, 1913 – Projeto de reforma e ampliação da rede de distribuição”, é uma imagem desfocada, o que impediu a identificação de seu autor e a leitura de outras informações nela contidas. Quanto ao mapa do município, o mais antigo que conhecemos é o da Comissão Geográfica e Geológica de Minas Gerais, de 1926/1927.

Quanto aos povoadores de Cataguases, que consideramos os moradores da região no período de 1798 até 1831,  hoje objeto de nossa pesquisa, podemos citar as famílias Afonso, Almeida, Arantes, Azevedo, Barros, Borges de Andrade, Cardoso, Barbosa Coura, Dias Lopes, Ferreira Maciel, Fialho Garcia, Ferreira Armond, Freitas Ferreira, Gomes, Medeiros, Marlière, Marques da Costa, Moreira de Souza, Novaes, Pereira de Souza, Pereira Pontes, Pita de Castro, Rodrigues de Aguiar, Rodrigues de Mello, Rodrigues Pires, Santos, Silva Maia, Silva Viana, Souza, Souza Lima e Teixeira de Siqueira, dentre outras.

De algumas destas famílias encontramos descendentes que, ainda hoje, residem em Cataguases e municípios vizinhos.

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Fontes consultadas:

1- Relatório de viagem de Manoel J. P. Silva Pontes, 1833, Revista, Vol. IX , APM,; Registro de Terras de Santa Rita de Meia Pataca; Relatório do Governo da Província de Minas Gerais, 1874; Jornal “O Cataguasense”, Ed. 27, 30.01.1887; Ephemérides Mineiras, 1864-1897, José Pedro Xavier da Veiga; “O Município de Cataguazes”, Arthur Vieira; Fotografia da Ponte– Disponíveis no Arquivo Público Mineiro;

2 – Viagem ao Brasil, Hermann Burmeister, 1853; Folheto “Referências Históricas ao Município de Cataguases”, Museu Municipal Alípio Vaz, Adm. Ângelo Rocha, 71/72; Minas Gerais e seus municípios, Roberto Capri, 1916; Coleção digital do Jornal CATAGUAZES, cedida pelos prof. Angela Faria e Inácio Frade; Jornal “Guido Marlière”, Edição Única, de Pedro Dutra Nicácio, 26.05.1958  – Acervo pessoal

3 – Livros de Notas do período 1865 a 1880 – Arquivos da Câmara de Leopoldina e Cartórios de Notas de Cataguases;

4- Anuário de Minas Gerais, 1907, Disponível na Biblioteca Nacional.