70 – Martins de Almeida – Carta de Mário de Andrade

O Trem de História encerra com este número a parte da viagem com Francisco Martins de Almeida no que se refere à sua obra. A partir do próximo Jornal se conhecerá a família deste leopoldinense que estava totalmente esquecido pela cidade.

Lembremos então a opinião de Drummond de Andrade(1), para quem o grupo modernista mineiro atingiu rapidamente notoriedade no restante do país e fiquemos com a carta de Mário de Andrade a Martins de Almeida, datada de São Paulo (SP), em 19.03.26.

“Ah! Martins de Almeida, tenho recebido tudo o que você mandou, cartas e A Revista… Mas você não pode imaginar que vida apertada ando vivendo. Só por isso não tenho respondido. Escrevo artigo sobre artigo. É A Manhã do Rio (quero que você leia o meu artigo de ontem “Contrabando de passadismo” que define minha posição social, é Terra Roxa aqui, é o São Paulo Jornal onde estou como crítico musical e tenho trabalho quase diário e inda por cima um curso de estética geral para moças com conferências semanais. E como tenho péssima faculdade de falar de improviso, sou obrigado a escrever essas conferências! Imagine a trabalheira! Contando ainda com meus cursos no Conservatório e particulares. Não tenho vida mais. Estou reduzido a uma máquina pra sustentar os outros. Miséria miserável que me faz sofrer. Não leio nada. Não escrevo nada de aproveitável. Meus livros todos parados. Não escrevo pra nenhum amigo quase. Até o Manu [Manuel Bandeira] que é o do coração nem sei dele. Hei de reagir mas não pode ser tão já. Estava carecido de ganhar um pouco mais pra me enroupar, comprar uns livros e umas músicas. Talvez pelo fim do ano readquira minha vida se Deus quiser. A Revista está excelente. Não tanto pela colaboração de fora como por você. Até por isso que acho o nº- 2 melhor que o 3. Acabo de falar isso mesmo pra Nava. E você? Quando nos manda um artigo pra Terra Roxa? Me esqueci de insistir com o Nava também. Insista você por favor. E com o João Alphonsus. E com o Emílio Moura. Mas mandem prosa que é melhor. Prosa é mais legível e estamos vendo se conseguimos fazer o jornaleco se sustentar. […] Você está sem o Drummond aí e o meu primeiro movimento, o mais sincero, foi me felicitar por causa disso. Depois corrigi pra maior nobreza e lamento sinceramente mas espiritualmente essa separação. Eu adoro o Carlos. Foi a inveja que me fez de primeiro ter um movimentinho de alegria de vê-lo sequestrado de Belo Horizonte. Tenho por ele uma afeição admirada muito quentinha que me faz quando penso nele me sentir bem. A impressão que tenho dele é dessas que grudam como cheiro de laranja azeda. Não sai mais. É de vocês todos o que me dá mais a sensação, a comoção igual à que tive com certas paisagens mineiras, sobretudo uma tarde maravilhosa em Carmo da Mata. Que gostosura! que boniteza pura! que silêncio caricioso e cheio de amor ardendo dentro! E uma força de terra virgem atrás, cheia de ouro, cheia de vegetal e de minério rico. Isso é o Carlos pra mim. A impressão que ele dá pros que o veem pouco é de secura… Eu amoleci essa secura… Pra mim ele é um amigo verdadeiro, nunca esqueço a inteligência extraordinária e o lirismo incansável que ele é. O adoro. Queria o Carlos juntinho de mim… Não pode ser! Lá está em Itabira do Mato Dentro, que é dos nomes mais maravilhosos que conheço… Carecemos agora de agasalhá-lo ainda mais nos nossos carinhos e esperanças, Martins de Almeida. A terra, assim meio virgem pra onde ele foi, é boa mas traiçoeira. Faz a gente se esquecer da cabeça. A terra ama por demais, chupa a gente… Bom, até logo. Não se esqueça de continuar me escrevendo. Invente assunto pra discutirmos. Andamos tão concordes e cheios de notícias!… Ciao. Mário”

Também nós dizemos “tchau” ou, “ciao” como o mestre Mário de Andrade. Mas numa despedida apenas quanto à obra de Martins de Almeida. Porque, na próxima edição continuaremos com a sua família. Aguardem.


Referência:

1 – Drummond, Testemunho da Experiência Humana. Disponível em: <http://zip.net/bstsJ1&gt; Acesso em 17 nov. 2015

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 325 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2017

69 – Martins de Almeida na visão de terceiros

O Trem de História segue sua viagem com os comentários dos críticos e amigos do modernista leopoldinense, como se verá a seguir.

Na década de 1930, já morando no Rio de Janeiro, Martins de Almeida foi diversas vezes citado em matérias sobre “Alguma Poesia”, obra que Carlos Drummond de Andrade havia lançado. Eram comentários e impressões de intelectuais da época, muitos deles estendidos a todo o grupo mineiro.

Augusto Frederico Schmidt publicou em O Jornal, em 1929, um artigo sob o título Os novos de Minas. Tristão de Ataíde, pseudônimo de Alceu de Amoroso Lima, além de comentar a obra de Martins de Almeida em janeiro([1]) de 1931, voltou ao assunto quando abordou “Os novos de 1927” – como ficou conhecido o grupo modernista – em seu Estudo publicado em livro em 1934. Afonso Arinos (sobrinho) teceu elogios à obra em junho([2]) de 1930, Agripino Grieco([3]) em fevereiro de 1931 e Raul Floriano em junho de 1931([4]).

Para Fernando Correia Dias([5]), nessa época a “literatura era vivida em profundidade, era amplamente participada”. Baseia esta sua interpretação no já citado artigo de Martins de Almeida publicado em 1930 em O Jornal, do qual recolhemos um trecho significativo([6]):

“Nós outros, companheiros de vida literária ou antes, de vida vivida (Emílio Moura, João Alphonsus, Pedro Nava e eu) temos de emprestar um caráter particularíssimo às poesias de Carlos Drummond. Vemos que muitas delas não param nelas mesmas, continuando infinitamente para além do próprio autor. Cada um de nós tem a sua parte em várias daquelas poesias.”

Em Galo das Trevas Pedro Nava informa que o nosso biografado escreveu([7]), também, “Amigado com a vida – inédito, conhecido só dos que receberam do autor suas cópias xerografadas”. E diz considerá-lo um ensaísta de primeira e um dos melhores espíritos críticos da sua geração. “Um conversador admirável, o que justificaria plenamente o apelido que lhe dava Emílio Moura de: o nosso Rivarol[8]”.

Para Ribeiro Couto([9]), em carta dirigida ao próprio Martins de Almeida, ele foi “um crítico de mão cheia que devia cultivar essa veia”.

Agripino Grieco([10]), em artigo publicado na Gazeta de Notícias se refere a Martins de Almeida como um: “escritor de uma sobriedade elegante, pensador e esteta, inimigo da vulgaridade e sempre desejoso da beleza”.

Uma rápida passagem por uma das principais obras de Martins de Almeida, a publicação denominada “A Revista”, se faz necessária. E para isto nos valemos da opinião de Ronald de Carvalho([11]) em carta a Carlos Drummond de Andrade, em 01.09.25. Diz ele:

“Que bonita fogueira estão vocês fazendo com A Revista. Precisamos dessas queimadas para a nossa literatura de gravetos, espetos, paus e palitos de Ovar. Você e Martins de Almeida, que inteligentíssimos diabos para sapecar essas pereiras, pessegueiros e oliveiras do nosso mato acadêmico!”

Para Dias([12]), o grupo mineiro decolara, impusera-se como coletividade estruturada, através de um instrumento eficaz de afirmação: uma revista fugaz, porém marcante.

Como é sabido, A Revista contou apenas com três edições e seu fim não tem explicação definitiva. Para uns, deveu-se a dificuldades econômico-financeiras. Para outros, a saída de Belo Horizonte daqueles jovens que foram buscar novos horizontes depois da formatura foi o real motivo para o fim de A Revista.

Os comentários sobre o movimento modernista de Belo Horizonte não se esgotam aqui. Mas o espaço do Jornal impõe que o Trem de História encerre por hoje. No próximo número ele volta com a carta de Mário de Andrade para Martins de Almeida. Até lá.


[1] O Jornal, Rio de Janeiro, 18 jan 1931, ed 3739 Primeiro Caderno p. 4.
[2] idem, 15 jun 1930, ed 3554 Primeiro Caderno p. 2.
[3] idem, 22 fev 1931, ed 3769 Segunda Seção p. 2.
[4] idem, 17 jun 1931, ed 3867 Segunda Seção p. 21.
[5] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.114
[6] O Jornal, Rio de Janeiro, 10 ago 1930, ed 3602, Segunda Seção, p. 2
[7] NAVA, Pedro. Galo-das-Trevas: As Doze Velas Imperfeitas: memórias, 5. Rio de Janeiro: José Olumpio, 1981. Nota p. 319
[8] Referência ao escritor e polemista Antoine de Rivarol, nascido na França em 1753 e falecido na Alemanha em 1801
[9] A Revista. Reimpressão fac-similar de José Mindlin, Patrocínio da Metal Leve S.A, São Paulo,1978. p.87.
[10] idem, p.86.
[11] idem, p.85.
[12] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.43

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 324 no jornal Leopoldinense de 1  de fevereiro de 2017

 

68 – Martins de Almeida – Jornalista e Escritor

O Trem de História traz agora um pouco sobre a obra deste modernista leopoldinense. E começa recordando Fernando Correia Dias([i]) que registra “o momento de decolagem” daquele grupo de jovens futuristas com o lançamento de A Revista, uma publicação que foi saudada pelo jornal O Diário de Minas.

Dias informa que Martins de Almeida e Carlos Drummond de Andrade eram seus diretores, e Emilio Moura e Gregoriano Canedo eram os redatores. O editorial do primeiro número seria de Martins de Almeida. Mas como o autor não é citado, podemos apenas informar que A Revista é apresentada ao público num texto sob o título “Para os Céticos” do qual destacamos:

“Supõe-se que ainda não estamos suficientemente aparelhados para manter uma revista de cultura, ou mesmo um simples semanário de bonecos cinematográficos: falta-nos desde a tipografia até o leitor. Quanto a escritores, oh! Isso temos de sobra.([ii])

Neste mesmo número encontra-se o artigo “À margem de Pascal”, de autoria de Martins de Almeida. Já no segundo número([iii]) o editorial é um convite “Para os espíritos criadores” do qual destacamos:

“Não queremos atirar pedras ao passado. O nosso verdadeiro objetivo é esculpir o futuro. Aí estão problemas essenciais da nacionalidade exigindo uma solução imediata. Pretendemos realizar, ao mesmo tempo, uma obra de criação e de crítica. […] Na verdade, um dos nossos fins principais é solidificar o fio das nossas tradições. Somos tradicionalistas no bom sentido. […] Se adotamos a reforma estética, é justamente para multiplicar e valorizar o diminuto capital artístico que nos legaram as gerações passadas.”

O artigo de Martins de Almeida vem, desta vez, na página 19, sob o título “Crítica psicológica: a propósito de Manuel Bandeira.”

É um exercício interessante analisar os propósitos da ‘rapaziada’ como foram chamados por Werneck([iv]), expressos nos editoriais de A Revista, e a forma como cada um deles se expressou naqueles únicos três números da publicação. No artigo do segundo número, Martins de Almeida declara ser “a maior parte das nossas obras de arte formada de impressões que se cristalizam à flor da pele” e que, por conta disto, “a nossa arte é constituída, quase toda, de preconceitos, artificialismos e cópias”. Em seguida faz algumas avaliações sobre a obra de Manoel Bandeira, comentando que o poeta modificou sua forma de expressão dando um verdadeiro salto entre “Cinzas das Horas” e “Carnaval”. Nesta, Bandeira([v]) “desalinhou a simetria forçada do ritmo e pôs dissonâncias na música plan-rataplan do antigo verso.”

O terceiro e último número de A Revista([vi]), que embora datado de setembro de 1925 só foi publicado em 1926, é aberto com Poética, de Manuel Bandeira, seguido de Sambinha, de Mário de Andrade, depois Pijama, de Guilherme de Almeida e Broadway, de Ronald de Carvalho.

Naquela época, em que os denominados “passadistas” não aceitavam o abandono dos rigores da técnica, a opção dos diretores e redatores pode ter representado um forte chamamento a novos valores estéticos. Os quatro poemas foram seguidos pelo texto Malazarte, em que Martins de Almeida([vii]) analisa a peça homônima de Graça Aranha, romancista que aderiu ao Modernismo e seu rompimento com os tradicionalistas causou escândalo no meio literário da época.

Além dos trabalhos para A Revista, Martins de Almeida publicou o livro Brasil Errado, pela Editora de Augusto Frederico Schmidt, cuja segunda edição([viii]) saiu em 1953. Colaborou com Terra Roxa, veículo dos modernistas de São Paulo, com a Revista do Brasil e com os jornais A Noite, Correio da Manhã, Diário de Notícias, O País, O Mundo e com o Suplemento Literário do Jornal Estado de Minas([ix]). “O Avesso dos Maridos Enganados ou, A Sociedade dos Cornos Livres”, de 1976, é o título de uma peça teatral que chegou a ser traduzida para o francês e da qual companheiros do autor dão notícia, sem contudo sabermos se foi realmente publicada.

Mas o assunto não termina aqui. O Trem de História continua a sua viagem. No próximo número virão mais alguns comentários de críticos e amigos do modernista leopoldinense. Até lá.


[i] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38

[ii] A Revista. Ano 1, número 1, Belo Horizonte, julho de 1925, p.11

[iii] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.11

[iv] WERNECK, Humberto. O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais (1920-1970). 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

[v] A Revista. Ano 1, número 2, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.21

[vi] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, setembro de 1925, p.11

[vii] A Revista. Ano 1, número 3, Belo Horizonte, agosto de 1925, p.17

[viii] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

[ix] NAVA, Pedro. Beira-Mar Memórias/4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p.218.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 323 no jornal Leopoldinense de 16  de janeiro de 2017

 

67 – Martins de Almeida – Um modernista nascido em Leopoldina

“Às vezes, sou invadido pela dúvida de que não 

fiz mais do que sonhar às avessas dos outros.”

Martins de Almeida([i])

A partir de hoje o Trem de História empreenderá viagem pela obra e vida de Martins de Almeida, um modernista nascido em Leopoldina. Um importante personagem que se pretende retirar da gaveta dos esquecidos.

De início é justo registrar que a busca pelas suas origens foi estimulada por Glória Barroso e José Gabriel Barbosa que, sabedores de nossos estudos sobre as antigas famílias leopoldinenses, perguntaram a quem pertencia este nome citado por Pedro Nava como tendo nascido em Leopoldina. Uma pergunta que nos intrigou e para a qual não tínhamos resposta naquele momento.

Iniciadas as buscas a partir das informações de Pedro Nava e de outros modernistas, descobrimos o nome completo do personagem e de seu pai, embora não existisse menção alguma a eles em nosso banco de dados.

A luz no final do túnel surgiu quando a Hemeroteca Nacional se tornou disponível na rede mundial de computadores e permitiu que, através de uma busca pelos nomes, se chegasse ao anúncio do noivado([1]) de Georgina, filha de Félix Martins Ferreira [neto] e de Heliodora Pinheiro Correia de Lacerda com o então Secretário da Polícia de Ouro Preto, Dr. Antonio Francisco de Almeida.

Descobriu-se, então, que Francisco Martins de Almeida, o até então desconhecido modernista, nasceu([2]) em Leopoldina em 07 de janeiro de 1903 e faleceu([3]) no Rio de Janeiro (RJ) no dia 29 de julho 1983. Era filho do magistrado Dr. Antonio Francisco de Almeida e de Georgina Martins de Almeida. Teria sido aluno do Colégio Granbery, em Juiz de Fora, segundo informações de um membro da família. E soube-se que em 1920 ele já estava em Belo Horizonte onde, segundo o poeta Drummond de Andrade, teria aberto “a caixa com os primeiros livros de Proust a chegarem na cidade”([4]). Na capital mineira era acadêmico de direito([5]) em 1923 e participava do Grupo Estrela, com rapazes que “decompunham e recompunham o espetáculo humano e preparavam materiais de cultura”, conforme declarou Drummond([6]).

Fernando Correia Dias([7]) informa que pouco tempo depois nosso biografado estava residindo no interior do estado, na cidade de Oliveira, para onde havia sido nomeado promotor. O que não o impediu de continuar em contato com os companheiros, inclusive no debate que se seguiu a algumas opiniões. Fato que se confirma pelas páginas do jornal Diário de Minas, citado por Dias em sua obra, onde Martins de Almeida contestou a entrevista de João Alphonsus, outro nome da literatura mineira naquele momento.

Para concluir a carga deste vagão de hoje, destacamos que no posfácio de seu livro “Brasil Errado” o autor fala de si mesmo, numa espécie de autobiografia do seu fazer intelectual que se transcreve([8]):

“É muito comum deixarmos abandonadas nossas ideias no meio do caminho por onde enveredamos, um pouco distante do ponto terminal do nosso percurso espiritual. Propositadamente nem sempre chegamos ao extremo de nossos pensamentos. Talvez por pudor intelectual, receando o desapontamento de um efeito excessivo. Não sei bem, mas raramente atingimos as últimas conclusões de nossas ideias. Falo a respeito dos nossos pensamentos claros e frios, sem qualquer envoltório simbólico, que param de repente sem querer chegar às suas derradeiras consequências. O meu espírito vai muito além do que escrevi. De fato, os meus trabalhos estão quase todos por acabar”.

E acabar é a ação imposta a este texto, por razão de espaço. Mas fica a promessa de que na próxima edição o Trem de História continuará com Martins de Almeida. Aguardem!


[i] ALMEIDA, Francisco Martins de. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p. 144.

[1] Minas Geraes. Belo Horizonte, MG, 2 abr 1898, ed 89 p.5

[2] Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Providência, Leopoldina, MG, matricula: 0371430155 1903 1 00003 053 0000003 81.

[3]Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 30 jul 1983, ed 113 p.14

[4] Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, RJ, 26 out 1977, ed. 8589 p.9.

[5] O Pharol, Juiz de Fora,MG, 29 jul 1923, ed 366 p. 1.

[6] ANDRADE, Carlos Drummond de. Recordação de Alberto Campos. In: Confissões de Minas. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p.50

[7] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38

[8] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p.143

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 322 no jornal Leopoldinense de 1  de janeiro de 2017

 

66 – Eugênio Botelho Falcão

O personagem de hoje é Eugênio Botelho Falcão, filho de Luiz Botelho Falcão III e de Ana Cecília. Irmão, portanto, do Luiz Botelho Falcão IV, de cuja família o Trem de História se ocupou nos três últimos artigos publicados.

Documentos diversos registram que Eugênio era Alferes do 37º Batalhão da Guarda Nacional em 1880 e 1881. No ano seguinte foi nomeado 2º suplente de delegado. Em 1883, tomou posse como vereador. Três anos mais tarde aparece como representante de “Venâncio dos Santos Pereira & C, Comissarios de Café e mais generos do Paiz”, estabelecimento sediado no Rio de Janeiro. Continuava como negociante em 1892 e foi acionista da Sociedade Educacional Arcádia Leopoldina, fundada em setembro de 1893. E em setembro de 1898 foi nomeado 3º suplente de delegado.

Segundo o sobrinho Luiz Rousseau, residia num sobrado na Rua Tiradentes, embora informe, no mesmo livro, que seu tio morava no Largo Félix Martins. Ao se referir ao sobrado da Rua Tiradentes, Luiz Rousseau esclarece que tal residência ficava na esquina com a Rua Sete de Setembro e que no andar térreo funcionava a carpintaria de Ricardo de Oliveira e a agência dos Correios, cujo agente era o próprio Eugênio.

Registre-se que esta informação encontra respaldo no órgão oficial da província de 1893, informando que Luiz Botelho Falcão (sic) e José Bastos foram nomeados estafetas ambulantes entre Cataguases, Santana de Cataguases, Vista Alegre e Leopoldina.

Sabe-se que Eugênio Botelho Falcão se casou com Maria Amélia, com quem teve dez filhos: Luiza Rosa; Luiz (1881); Luiza Eugênia; Luiz (1886); Luiz (1888); Luiza (1891); Luiza (1892); Luiz (1895); Luiza (1897); e, Luiza (1901). De apenas duas filhas, Luiza Rosa e Luiza Eugênia, obtivemos algumas informações.

Luiza Rosa foi, provavelmente, a filha nascida em 1879, que se casou em 1902 com Ovídio Rocha e teve pelo menos dois filhos: Eugênio (1903) e Euclides (1905). Seu marido Ovídio era filho de Honório Fideles Ferreira e Joaquina Eucheria de Jesus e, irmão de Clotilde Eucheria de Jesus que se casou com o açoriano Jerônimo Botelho Falcão, filho de Francisco Botelho Falcão Sobrinho e Rosa Emilia já citados neste ensaio. Ovídio foi o criador do combativo periódico O Arame, de oposição aos Ribeiro Junqueira. Por conta de sua posição política foi vítima de um processo difamatório através das páginas da Gazeta de Leopoldina, jornal de propriedade de seu desafeto.

Luiza Eugênia foi provavelmente a filha que nasceu em 1883. Casou-se com Francisco d’Almeida, nascido em 1881, filho de Lino José de Almeida e Antonia Carolina Pereira Pinto, descendente dos Almeida Ramos povoadores de Leopoldina.

Chichico, como era conhecido, foi editor de uma folha denominada O Cafageste (sic), que passou para J. Siqueira em 1898. Segundo Mauro de Almeida Pereira, Francisco d’Almeida mudou-se para Recreio quando foi nomeado Escrivão de Paz e oficial do Registro Civil de Recreio. Desde jovem ele trabalhava no Cartório Judicial de Notas de Leopoldina. Em Recreio, que na época era distrito de Leopoldina, foi presidente da Banda de Música 1º de Maio, do Clube dos Baetas e de outras agremiações esportivas. Além disto, substituiu Luiz Soares na direção do jornal O Verbo e foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Recreio.

Em Leopoldina foram batizados os dois filhos de Luiza Eugenia e Francisco d’Almeida: Edson (1903) e Maria, nascida e falecida em junho de 1905. Em consequência deste segundo parto, Luiza Eugênia Botelho faleceu no dia 26.06.1905. Viúvo, Chichico contraiu segundas núpcias em 1908, com Francisca Ferreira Damasceno, filha de Antonio Sabino Damasceno Ferreira e Porcina Padilha Figueiredo, sendo neta paterna de Zeferina de Jesus e João Gualberto Damasceno Brito. Por este ramo, bisneta do Capitão João Gualberto Ferreira Brito, personagem conhecido na história de Leopoldina por sua carreira política e por sua atuação como Chefe do Partido Conservador.

Edson Botelho de Almeida, o filho de Luiza Eugênia, foi então criado pelo pai e sua segunda esposa em Recreio, onde se casou e teve quatro filhos com a descendente de imigrantes italianos Virgínia Artuza Conti.

Encerra-se aqui a série de nove textos sobre os “Botelho Falcão” de Leopoldina. Virão outros personagens nas próximas viagens desse Trem de História. A galeria dos conterrâneos esquecidos é grande e nosso objetivo é resgatar a história de Leopoldina através da construção de “peças” para a salutar brincadeira de montar um imaginário quebra-cabeça mostrando a cidade e seus construtores.

Até a próxima ou, o próximo número do Jornal, caro leitor.


Fontes consultadas:

Barroso Júnior. O centenário da Cidade de Leopoldina, em Minas Geraes. Rio de Janeiro: Revista Eu Sei Tudo, Abril 1932. p.11.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 7 sep 2 – 1º plano e fls 8 sep. 82 3º plano

Gazeta de Leopoldina 1898 19 junho ed 10 p.4 e 5 de novembro de 1899, página 2.

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 02 bat fls 6 termo 30, fls 46 termo 433,.fls 55v termo 527, fls 103v termo 969 e fls 156 termo 1491; lv 03 bat fls 61v termo ordem 587 e fls 189 termo 120; lv 04 bat fls 75v termo 900; lv 05 bat fls 78 termo 313; lv 07 bat fls 45 termo 1238; lv 10 bat fls 26 termos 252 e 253, fls 30 termo 295 e fls 88 termo 137; lv 3 cas fls 163  termos 40 e 41; lv 5 cas fls 19.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 321 no jornal Leopoldinense de 16  de dezembro de 2016

65 – Luiz Botelho Falcão IV – parte 3

A viagem de hoje se inicia com a segunda descendente do casal Luiz IV e Emília, Luiza Erminia Botelho, nascida em 1883 e casada em 1903 com Nestor Capdeville, filho do imigrante francês Batista Capdeville e sua esposa Maria Albuquerque.

Registre-se que Nestor Capdeville trabalhava na Gazeta de Leopoldina em 1916 e faleceu antes de 1942, ano em que a família passou a receber pensão do Instituto dos Bancários do qual ele era associado.

Luiza Ermínia e Nestor foram pais de Ester (1905-1906); Teófilo (1907); Ester (1908); Iracema (1909-1910); Maria Luiza nascida e falecida em 1911; Nestor nascido e falecido em 1912; Dinah, a primeira aviadora de Minas Gerais (1913-2005); Paulo (1914); Luiza (1916-1917); e, o expedicionário Celso Botelho Capdeville que, segundo Pedro Wilson Carrano de Albuquerque, nasceu em 1921 e se casou em 1941, no Rio de janeiro, com Elza Guimarães Antunes, de família leopoldinense.

O próximo filho de Luiz IV e Emília de quem se tem registro é Luiz Eugênio Botelho, nascido em 1889 e que se casou em 1913 com Cyrina Capdeville, irmã de seu cunhado Nestor Capdeville.

Luiz e Cyrina tiveram doze filhos: Thier (1914); Yvete (1915); Lizete; Suzete (1916); Ruth (1920); Maria Emilia; Belkiss; Arethusa (1927); Lucíola; Luiz; Antonio e Helena.

Luiz Eugenio foi memorialista, tendo publicado os livros “Leopoldina de Outrora” (1963), “Leopoldina de Hoje… e de Ontem” (1967), além de vários textos em jornais da cidade. Foi funcionário do DNER, tendo recebido o distintivo do Grêmio dos Veteranos da instituição em 1957. Faleceu no Rio de Janeiro em 1975 e foi sepultado em Leopoldina. Vinte e cinco dias depois, por iniciativa do irmão de seu genro Otacyr, o então prefeito de Leopoldina Osmar Lacerda França, seu nome foi dado à Biblioteca Municipal.

O penúltimo filho de Luiz IV e Emília foi Luiz Rousseau Botelho, nascido em 1892 e que se casou em Além Paraíba, em 1921, com Joaquina Santos, com quem teve os filhos Maria Josefina, Solange e José Botelho.

Luiz Rousseau, a exemplo de seu irmão Luiz Eugênio, foi também memorialista que, incentivado pela filha Solange, publicou os livros Dos 8 aos 80 (1979), Alto Sereno (1981), Moinho de Fubá (1982) e Coração de Menino (1984).

Segundo o prefácio do livro Alto Sereno, Rousseau foi acrescentado ao nome de Luiz por um seu irmão em referência a Jean-Jacques Rousseau, filósofo suíço, nascido em Genebra, figura marcante do iluminismo francês.

Em seu livro Dos 8 aos 80, Luiz Rousseau informa que seu primeiro trabalho foi como ajudante de seu irmão Tatão (Luiz Emílio) numa farmácia em Tebas. Depois, foi admitido como empregado da Gazeta de Leopoldina e em 1913 foi para a Cia. Força e Luz Cataguases Leopoldina, dali saindo em 1914 para trabalhar na Cia. Mineira de Eletricidade em Juiz de Fora. Em 1920 era microscopista no Posto de Profilaxia em Campo Limpo, distrito de Leopoldina, sendo depois transferido para o Posto de Profilaxia de Além Paraíba. Em 1921 foi designado para Tombos do Carangola para combater um surto de Tifo. Em 1923 a Brasilian Light and Power, na Ilha dos Pombos, em Além Paraíba era o seu local de trabalho. Depois passou a ser funcionário da Light em São Paulo, Pirapora e Santos. Em 1930 tornou-se funcionário da Prefeitura de Além Paraíba, trabalhando em Pirapetinga como encarregado do serviço de abastecimento d’água que vinha do rio que deu nome àquele município. Em 1933 voltou a trabalhar para a Light em Além Paraíba.

No Almanaque do Arrebol, ano II, outubro 1985, há uma entrevista de Luiz Rousseau em que ele declara ter vivido em Leopoldina até 1918 e que o Dr. Irineu Lisboa foi seu padrinho de casamento.

Concluída a descrição da família de Luiz Botelho Falcão IV e Emília Antunes, caminhamos para a última estação, onde nos encontraremos com o irmão dele, Eugênio Botelho Falcão. Até lá!


Fontes consultadas:

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 02 bat fls 98v termo 922; lv 03 bat fls 108 termo ordem 1061; lv 04 bat fls 51v termo 663; lv 11 bat fls 21 termo 32 e fls 73v termo 199; fls 29v termo 38 e fls 73v termo 117; lv 13 bat fls 39v termo 193; lv 14 bat fls 15v termo 264; lv 15 bat fls 11v termo 106, fls 64v termo 97 e fls 76v termo 216; lv 16 bat fls 5v termo 504, fls 25 termo 161 e fls 72 termo 90; lv 18 bat fls 75 termo 539; lv 3 cas fls 183 termo 21.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 10 sep. 190, fls 33 nr 58, fls 39 nr 111, fls 46 nr 122 e 2 fls 81 nr 222.

Lei Municipal de Leopoldina nr 1106 de 20 de novembro de 1975.

Diário Carioca (Rio de Janeiro, 1957, 19 dez, ed 38 p.5.

Diário de Notícias do Rio de Janeiro, edição 5953 de 22 de março de 1942, página 17, coluna Vida Bancária

Gazeta de Leopoldina, 1914, 26 nov, p.1 e 1924, 8 maio, ed 8, p.4.

BOTELHO, Luiz Rousseau, Dos 8 aos 80. Belo Horizonte: Vega, 1979. p.305.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 320 no jornal Leopoldinense de 1  de dezembro de 2016

64 – Luiz Botelho Falcão IV – parte 2

Como prometido no artigo anterior, o Trem de História segue falando sobre Luiz Botelho Falcão IV.

De início sobre a sua situação econômica que, em 1890, parecia estável, conforme indica a contratação de uma Apólice de Seguro de Vida junto à Companhia New York Life Insurance.

Em março de 1892 ele tomou posse como vereador e, em agosto do mesmo ano, foi citado como Coronel ao assumir a presidência da Junta de Alistamento Militar. No mês seguinte, foi provisionado pelo prazo de três anos no cargo de Solicitador da Câmara, cujas funções eram exercidas por leigos e se assemelhavam às dos atuais defensores públicos. E as últimas referências a Luiz Botelho Falcão datam de março de 1893, quando participou da Assembleia de Instalação do Banco de Leopoldina, três meses antes do seu falecimento ocorrido, segundo o filho Luiz Eugênio, no dia 12 de junho, embora o órgão oficial da província registre como sendo 14.06.1893. Para Luiz Rousseau Botelho, no livro Dos 8 aos 80, seu pai faleceu em 19 de fevereiro.

Em Alto Sereno Luiz Rousseau esclarece alguns pontos sobre a família. Mas ainda não foi possível, por exemplo, definir o nome utilizado na idade adulta por muitos familiares. Ele registra, no Epílogo, página 266, apenas que: “Em nossa família todos tiveram Luiz ou Luiza como primeiro nome, em honra de meu pai e de meu avô, Luiz Botelho Falcão, português nascido na Ilha dos Açores.”

Luiz Botelho Falcão IV e Emília Antunes foram pais de: Luiz Botelho Falcão V, nascido por volta de 1877; Luiz Emilio Botelho Falcão, nascido em 1879 e provavelmente falecido no mesmo ano; Luiz Emilio Botelho, nascido em 1880; Luiza S. Botelho, nascida em 1882; Luiza Erminia Botelho, nascida em 1883; Luiza, nascida em 1884; Luiza Cecilia, nascida em 1886 e falecida em 1887; Emilia, nascida em 1887; Luiz Eugênio Botelho, nascido em 1889; Luiz, nascido em 1890; Luiz Rousseau Botelho, nascido em 1892; e, Luiz Tasso Botelho, nascido em 1893 e falecido em 1962.

Por conta da homonímia tornou-se difícil descobrir a trajetória dos doze filhos do casal. Ao final de muitas pesquisas, apenas sobre quatro deles se conseguiu reunir dados para produzir uma biografia mínima, como se verá adiante.

O primeiro destes filhos é Luiz Botelho Falcão V, que se casou em 1897 com Ernestina Antunes Barbosa, filha de Eduardo José Barbosa e Custódia Maria Antunes. Ela nasceu em 1880, sendo neta paterna de José Joaquim Barbosa e Francisca Rosa de Jesus e neta materna de José Antunes Pereira e Custódia Maria de Jesus.

O casamento de Luiz V com Ernestina foi realizado na Fazenda Boa Esperança, propriedade do pai da noiva. O avô paterno de Ernestina era José Joaquim Barbosa, que em 1847 veio de Conselheiro Lafaiete (MG) para comprar terras da família Lopes da Rocha no então distrito de Rio Pardo, atual Argirita. Tornou-se grande proprietário de terras na região do atual distrito de Taruaçu, no município de São João Nepomuceno. Terras que em 1854 faziam parte do território da Vila Leopoldina. Um dos filhos de José Joaquim foi Antonio Maurício Barbosa, o doador do território onde está a Usina Maurício, no distrito de Piacatuba.

Segundo Luiz Eugenio, Luiz Botelho Falcão V instalou a primeira fábrica de manteiga em Leopoldina, por volta de 1907, localizada na Rua Cotegipe.

Luiz V e Ernestina tiveram os seguintes filhos: Jahir (1898), Jupira (1900-1905), Jakson (1903); Judith (1905); Jandira (1907); Jopson (1910-1911); Jacira (1911); Juracy (1914); e, Junis Botelho Falcão, nascido dia 02.02.1918 e falecido a 10.11.1918. Todos iniciados por “J”, para não fugir à regra dos seus pais que repetiram o primeiro nome em todos os filhos.

Depois de tantos nomes e letras repetidas, o Trem de História também se repete. Faz mais uma parada necessária, para seguir viagem na próxima edição deste Jornal, trazendo outros filhos de Luiz Botelho Falcão IV. Aguardem.


Fontes consultadas:

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 02 bat fls 30 termo 270, fls 40 termo 370, bat fls 131 termo 1247, fls 156 termo 1492; lv 03 bat fls 3, fls 153v; lv 04 bat fls 142v termo ordem 1397; lv 07 bat fls 131v termo 2061;. lv 10 bat fls 36 termo 48;. lv 11 bat fls 91 termos 34 e 35;. lv 14 bat fls 7 termo 179; lv 15 bat fls 56 termo 12; lv 17 bat fls 58 termo 444; lv 2 cas fls 172 termo 208.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 9 sep. 158, fls 38 nr 71, fls 87 nr 211.

Cemitério Público de Leopoldina, MG (1880-1887) (Livro 1880-1887), folhas 32 sepultura 975.

A Ordem (Manhuaçu, MG), 1892 12 mar ed 150 p.3.

Minas Geraes (Belo Horizonte), 1892 15 ago ed 113 p.3; 1892 7 set ed 135 p.2 e 1893 18 junho ed 163 p.7

O Estado de Minas Geraes (Ouro Preto), 1891 11 abril ed 145 p 4.

O Pharol (Juiz de Fora), 1890 16 julho ed 166 p.2 e ed 232 de 1 out 1890 p.4.

BOTELHO, Luiz Eugênio. Leopoldina de Outrora. Belo Horizonte: s.n., 1963. p.60 e p.103

BOTELHO, Luiz Rousseau. Dos 8 aos 80. Belo Horizonte: Vega, 1979. p.305

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 319 no jornal Leopoldinense de 16  de novembro de 2016

63 – Luiz Botelho Falcão IV – parte 1

O Trem de História direciona agora o foco da pesquisa para iluminar os caminhos seguidos pelos dois filhos de Luiz Botelho Falcão III e Ana Cecília: Luiz Botelho Falcão IV e Eugênio Botelho Falcão.

Luiz Botelho Falcão IV, de quem não se conseguiu documentar a data de nascimento, casou-se com Emília Antunes, nascida em 1860, filha de José Antunes Pereira e Custódia Maria de Jesus.

Segundo seu filho Luiz Eugênio, teria cursado humanidades no Colégio Pinheiro, no Rio de Janeiro, o que não se confirmou nas listas de alunos do citado Colégio nos anos de 1863, 1865 e 1867.

Também não foi encontrado o registro do casamento de Luiz Botelho Falcão IV que pode ter ocorrido em 1876, logo depois dele ter obtido a nomeação para suplente de Juiz Municipal no 2º distrito de Leopoldina.

Tudo indica que esta nomeação teria ocorrido a pedido do então futuro sogro que residia no distrito de Bom Jesus do Rio Pardo, atual município de Argirita.

Certo é que um ano depois de obter este emprego, Luiz IV iniciou a construção de uma casa na área urbana de Leopoldina. No mesmo ano, adquiriu escravo e no início do ano seguinte sua situação já era estável o suficiente para permitir-lhe colaborar com a Comissão de Socorro às vítimas das inundações em Portugal.

Em 1878 foi eleito vereador, tendo feito parte da comissão que aprovou a instalação de iluminação pública a gás em 1879. Sua carreira de homem público se ampliou um pouco mais em 1879, quando foi nomeado para o cargo de Inspetor de Instrução Pública no qual permanecia em junho de 1880, quando a reforma no sistema de ensino determinou que Leopoldina seria a sede do 8º Círculo Literário de Minas. Pediu exoneração em 1882.

Quatro anos depois ele foi citado como negociante em Leopoldina e em 1888 chegou ao posto de Major Ajudante de Ordens da Guarda Nacional ao passar para a reserva, agregado ao 23º batalhão.

Em abril de 1889 seu nome foi mencionado como redator proprietário do jornal O Leopoldinense. Mas vale recordar que no artigo nº 09 desta série ficou esclarecido que Luiz Botelho Falcão IV não foi o fundador do jornal O Leopoldinense, lançado em 01.01.1879 pelo Alferes Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho.

Registre-se que, segundo as edições preservadas nas hemerotecas da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público Mineiro, o Alferes, criador, primeiro proprietário e redator do jornal pioneiro de Leopoldina, havia atuado como guarda-livros e se incumbia de cobranças judiciais e extrajudiciais em Macaé, Campos dos Goitacazes, São João da Barra, São Fidelis, Cantagalo e Muriaé antes de vir para Leopoldina. Era, também, sócio fundador do Club Literário Campista onde atuou como Bibliotecário. Registre-se, também, que não foram encontradas edições de O Leopoldinense a partir do final do ano de 1886. Em 1889, o Alferes Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho requereu nomeação como Escrivão de Órfãos de Rezende, RJ. Na edição 180 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, de 29 de junho de 1889, bem como no Diário do Commercio (Rio) de 27 de junho e no Fluminense (Niterói) de 28 de junho, ele foi mencionado como fundador dos periódicos O Leopoldinense e Folha de Minas (Juiz de Fora).

Tudo indica que Luiz Botelho Falcão IV se interessou em comprar o Leopoldinense, mas não conseguiu manter a publicação com regularidade. E provavelmente a venda só se efetivou em 1889, tendo o jornal voltado a circular em novembro do ano seguinte, de forma irregular.

Por hoje paramos por aqui. Ainda existe carga sobre este personagem. Mas ficará para a próxima viagem do Trem de História. Aguardem.


Fontes Consultadas:

Secretaria Paroquial da Matriz do Rosário, Leopoldina, MG, lv 01 bat fls 61 termo 325.

Livro Caixa da Câmara Municipal de Leopoldina, códice 654 fls 3 item 6.

Cartório de Notas de Leopoldina, lv 699 fls 18-verso.

A Actualidade (Ouro Preto), 1878 2 out ed 101 p.1; 1879 26 abr ed 44 p.2 e 1880 26 jun ed 67 p.2.

A Província de Minas (Ouro Preto), 1882 21 dez ed 131 p.1.

A União (Ouro Preto, MG), 1888 9 junho ed 178 p.3.

Almanaque de Leopoldina (Leopoldina: s.n., 1886), fls 89.

Diário de Minas, (Outro Preto, MG), 1875 10 junho ed 467 p.1 e 1875 12 junho ed 468 p.1.

Echo do Povo (Juiz de Fora), 1882 21 dez ed 46 p.1.

Irradiação (Leopoldina, MG), 1889 11 abril ed 60 p.3.

Monitor Campista (Campos dos Goitacazes, RJ), 1879 17 fev ed 38 p 3 e 1879 1 maio ed 101 p. 2

O Baependyano (Caxambu, MG), 1880 11 julho ed 150 p.3.

O Globo – jornal do século XIX (Rio de Janeiro), 1877 5 jan, ed 5, pag 3 e 1877 8 jan, ed 8 pag 4

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 01 de novembro de 2016

62 – Como e porquê os restos mortais do poeta permanecem em Leopoldina

O personagem de hoje é conhecido de todos e se faz presente para que não fique esquecida a sua data de morte há 102 anos e o Jubileu de Prata do Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos era filho de Córdula de Carvalho e de Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho, o pernambucano que perambulou pelo nordeste como promotor público em Granja (CE), Aracahú (Aracati?) (CE), em Atalaya (AL), Pedra de Fogo (PB) e, como Juiz Municipal em Ipú (CE).

Um menino que nasceu a 20 de abril de 1884 no Engenho do Pau D’Arco, no interior da Paraíba e foi batizado no dia 27 de fevereiro de 1885 na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu, PB, na zona canavieira do vale do Rio Una.

Um homem que se casou em João Pessoa (PB) e um dia abandonou o nordeste para fixar residência no Rio de Janeiro (RJ), onde trabalhou o quanto e no que pode para sustentar a si e aos seus.

Augusto dos Anjos, que estudou em Recife e tendo muitas outras cidades como referência, um dia foi indicado para dirigir uma escola no final de um ramal ferroviário no interior de Minas Gerais. Juntou a família e embarcou nesse Trem. Nesta nova terra continuou fazendo versos que ainda hoje encantam e granjeou admiradores que lhe teceram elogios mil.

Moacyr Carneiro[1] afirma em entrevista que Augusto, ao ser indagado sobre sua poesia ser triste, respondeu:

“Meu filho, o meu poema vem como o meu espírito o dita. É isto. O mundo, meu caro aluno, é o pior lugar do mundo. A desilusão ocorre em todos os níveis. Eu já nasci desiludido de tudo e de todos.”

Augusto dos Anjos criou discípulos, angariou amigos e construiu uma bela História de amor à terra que adotou. A doença lhe corroeu as entranhas e lhe tirou a vida ainda jovem, mas ele desejou permanecer na terra que o acolheu. Augusto dos Anjos faleceu em Leopoldina (MG) no dia 12 de novembro de 1914.

Na previsão emocionada de José Oiticica, segundo Fausto Cunha[2], a morte de Augusto dos Anjos só se comparava à morte prematura de Castro Alves: “Poucos o compreenderão hoje […] No futuro será, sem possível dúvida, o mais assinalado poeta brasileiro de seu tempo.”

Júlio Ferreira Caboclo foi um grande divulgador e incentivador do culto à obra do poeta em aulas e matérias publicadas. E de tal modo o fez, que se tornou uma figura indissociável da trajetória de Augusto dos Anjos entre a juventude leopoldinense. Os textos que produziu sobre o “rapaz de cérebro de ouro”[3] o confirmam.

Além disto, no dia 25 de junho de 1925, Júlio ajudou a fundar o Grêmio Lítero-Artístico Augusto dos Anjos[4], do qual foi o primeiro presidente. E foi com o apoio dele que, para comemorar o décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, em 1926, o Grêmio promoveu uma romaria ao túmulo e uma sessão solene que incluiu a denominada Missa de Arte, na qual falaram vários oradores.

Passado algum tempo começaram a surgir movimentos com o objetivo de levar os restos mortais de Augusto dos Anjos de volta à Paraíba. No final da década de 1940 estava sendo idealizada a construção, em João Pessoa, de um monumento a Augusto dos Anjos. Entre as diversas notícias a respeito, uma delas, de 1947, acrescentava[5] que os restos mortais do poeta seriam trasladados de Minas Gerais para a capital paraibana. No ano seguinte o mesmo periódico[6] informava que os jornalistas do estado natal de Augusto dos Anjos estavam “trabalhando junto ao governo para fazer a trasladação das cinzas do poeta” de Leopoldina para João Pessoa. Por outro lado, um jornalista recifense declarou que “os descendentes de Augusto dos Anjos nunca se mostraram desejosos das trasladações”.

Nesta época circularam rumores a respeito do túmulo do poeta em Leopoldina e em 1952 Henrique Gonzalez ressaltou[7] que os leopoldinenses ignoravam ter hospedado “um dos maiores poetas brasileiros” e ilustrou sua matéria com uma foto “do tosco túmulo cento e quarenta e nove”.

Gonzalez não estava totalmente enganado porque, a despeito de Julio Caboclo e Barroso Júnior terem publicado na imprensa do Rio de Janeiro vários artigos sobre Augusto dos Anjos, havia algum desconhecimento por parte dos moradores da cidade. Fato que se observou ao entrevistar pessoas que estudaram no Grupo Escolar Ribeiro Junqueira em meados da década de 1930, quais quais pouco sabiam sobre o poeta que foi diretor daquela instituição e acreditavam que o túmulo estaria vazio, que os ossos teriam sido levados embora.

Mas o poeta não estava esquecido! Esforços variados resultaram na construção do Mausoléu de Augusto dos Anjos, inaugurado no dia 11 de janeiro de 1964 quando a cidade recebeu[8] a então denominada Caravana da Cultura, patrocinada pela Rádio MEC, composta pela Diretora da Rádio, pelo Ministro da Educação Pascoal Carlos Magno e pelo escritor Francisco Assis Barbosa, biógrafo do poeta, e com a presença dos filhos de Augusto dos Anjos.

Entretanto, a intenção de trasladar os restos mortais voltou a ser divulgada mais tarde, resultando na atitude dos dois filhos do poeta, Glória e Guilherme, de registrarem no Cartório do 15º Ofício de Notas da rua da Assembleia, 36, Rio de Janeiro, RJ, no dia 15 de setembro de 1977, uma declaração tornando público o “propósito irrevogável de não consentirmos sejam trasladadas do cemitério dessa cidade [de Leopoldina] as cinzas de nosso glorioso pai, que ali jazem, sob o túmulo nº 149 desde o ano de 1914”.

O documento foi encaminhado para registro pelo Oficial do Registro de Títulos e Documentos da Comarca de Leopoldina, Mauro de Almeida Pereira, que o transcreveu no Livro de Registro Integral de Títulos e Documentos nº B-4, fls 598 a 599, número de ordem 2438. Na mensagem, os filhos do poeta declaram

“plena convicção de estarmos cumprindo fielmente recomendação deixada, a tal respeito, por nossa inesquecível genitora, Esther Fialho Rodrigues dos Anjos” e que transmitiriam a orientação “aos netos e bisnetos de Augusto dos Anjos, ao abrigo do que dispõe o Código Civil Brasileiro em matéria de Direito de Família […] no sentido de que permaneçam, no Campo Santo de Leopoldina, MG, os restos mortais do referido vate. [e reiteram] ao povo leopoldinense o profundo sentimento de gratidão pela veneração, pura e sincera, sempre devotada à memória de Augusto dos Anjos a quem nos derradeiros meses de sua vida, jamais deixou de dar inequívocas provas de solidariedade, que se estenderam, após a sua morte, à viúva e aos seus dois filhos, ao longo de muitos anos [tendo recebido] expressões de estima e decisivo apoio moral em momentos difíceis”.

Segundo Orlandino Rocha[9] em matéria publicada em 1980, o mausoléu de Augusto dos Anjos, no cemitério de Leopoldina, “já se converteu, inclusive, em atração turística. Ir a Leopoldina e não visitar o túmulo de Augusto é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa”.

De resto, conferindo a bagagem do viajante deste Trem de História se constata que Augusto dos Anjos teria deixado João Pessoa aborrecido com fato ocorrido em sua vida profissional naquela cidade. Rumou para o Rio de Janeiro em busca de melhores dias, mas não obteve o sucesso esperado. Recebeu um convite para vir para Leopoldina e aqui encontrou emprego, carinho, vida social e cultural. Fez amigos e deixou saudades, material suficiente para a sua permanência entre nós. Até hoje seu nome e obra merecem o respeito de todos os leopoldinenses. A cidade o homenageia com o Museu Espaço dos Anjos, na casa onde viveu seus últimos dias, e com a Escola Estadual Augusto dos Anjos. A Academia Leopoldinense de Letras e Artes – ALLA o escolheu como patrono. E este ano, realiza-se o 25º Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos, criado em 1992 pela equipe da Biblioteca Municipal Luiz Eugênio Botelho capitaneada pela professora Maria Helena Vieira.

Ele se disse “aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do caminho, a poesia de tudo quanto é morto[10]”. Mas está, em Leopoldina, rodeado de admiradores.


Fontes Utilizadas:

MACHADO, Luja e CANTONI, Nilza. Augusto dos Anjos visto por alguns biógrafos e pensadores. Ensaio. Leopoldina, 2014, 37f, Centenário de Morte de Augusto dos Anjos.

[1] Gazeta de Leopoldina, 30 nov 1979, p. 6

[2] Jornal do Brasil, 20 abr 1974, Caderno Livro, p.2

[3] Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro, 30 out 1926, seção Caixilhos

[4] Revista Brasil Progresso, Rio de Janeiro, setembro 1925

[5] Illustração Brasileira, Rio de Janeiro, agosto 1947, ed 148 p. 37

[6] Idem, abril 1948, ed 156, p. 37

[7] O Malhor, Rio de Janeiro, julho 1952, ed 150 p. 18

[8] A Noite, Rio de Janeiro, 10 jan 1964, ed 17513 p. 8

[9] O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 15 jan 1980, ed 10 p. 71

[10] ANJOS, Augusto dos. O Poeta do Hediondo. In: Eu e Outras Poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p 65

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 01 de novembro de 2016

 

61 – As dificuldades de muitos na chegada ao Brasil

O Trem de História anterior terminou falando dos confusos cruzamentos das linhas férreas em um pátio de manobras. E comparou estes cruzamentos com os das linhas genealógicas. Hoje, ele vai percorrer uma outra confusão, muito comum entre brasileiros descendentes de portugueses, qual seja a de imaginar que seus antepassados chegaram ao Brasil com capital para iniciar um negócio.

E para melhor compreensão das condições da passagem dos açorianos, começamos por citar alguns aspectos que evidenciam as dificuldades pelas quais passaram os portugueses que vieram para o Brasil depois da nossa Independência. Um assunto que tem sido objeto de muitos estudos aqui e em Portugal.

Em artigo para o Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe, Portugal, por exemplo, Miguel Monteiro(1) declarou que iniciou o estudo sobre o assunto “com a ideia de confirmar a hipótese de que a Migração interna correspondia às classes sociais desfavorecidas e Emigração para o Brasil a indivíduos provenientes da classe média e alta, particularmente até aos finais do século XIX.”

Entretanto, no decorrer do trabalho, Monteiro constatou que a maioria dos que atravessaram o atlântico entre 1834 e 1926 fugia deste estereótipo. O autor demonstrou que veio um grande número de crianças do sexo masculino entre 13 e 15 anos de idade, que chegavam ao Rio de Janeiro com uma carta de recomendação para algum patrício com quem geralmente se empregavam.

As histórias de muitos deles são bons exemplos de como viviam. Um destes jovens declarou que, ao despedir-se do primeiro emprego em dezembro de 1830, recebeu(2) “do resto dos meus salários 6$419 reis. Era esta toda a minha fortuna no fim de 3 anos e 4 meses de sofrimento e provações no Rio de Janeiro!

Para aqueles que acreditam na imensa capacidade de enriquecimento dos portugueses em terras brasileiras, o autor transcreve um trecho do diário de um deles(3):

“Tempo de Caixeiro: dizendo que foram 14 anos de pobreza e provação tendo ele seguido o sistema de gastar só metade do que ganhava e apesar de todas as suas economias, da grande sujeição em que vivia e das apoquentações por que passou, só tinha podido juntar uma pequena quantia.”

Parece ter sido esta a sina de Antonio V e Luiz II, os dois jovens da família Botelho Falcão que deixaram a ilha açoriana de São Miguel em torno de 1850.

Conforme já ressaltamos, não é possível fazer muitas afirmações sobre a trajetória deles por falta de fontes confiáveis. Um dos primeiros obstáculos que encontramos foi a afirmação de Luiz Eugênio Botelho de que seu pai, aqui denominado Luiz Botelho Falcão IV, teria nascido no dia 10.08.1851, em Leopoldina. Este nascimento não foi encontrado, nem tampouco o casamento dos pais de Luiz Eugênio.

Apesar da possibilidade de Luiz Eugênio ter calculado a idade do pai com base em informações orais, aqui o nome do açoriano fica mantido como Luiz Botelho Falcão II e o nome do avô de Luiz Eugênio como Luiz Botelho Falcão III,

Quanto ao vínculo do avô de Luiz Eugênio com a família de Manoel Botelho Falcão IV, cuja genealogia foi descrita no início deste ensaio, um indicativo foi a repetição do apadrinhamento nos casamentos dos filhos de Manoel IV, hábito comum nas ilhas atlânticas portuguesas naquela época.

Ainda que não tenha sido possível levantar muitas informações sobre a situação econômico-social da família Botelho Falcão em Leopoldina, os casamentos com pessoas de famílias há muito estabelecidas no município parecem indicar um percurso de ascensão social. Embora em 1856 não tenha sido encontrada propriedade em nome de Luiz Botelho Falcão III, em 1859 ele sofreu uma ação contestatória por ter informado um tamanho maior para a chácara que vendera a Lauriano João Celestino Ferreira e em 1896 a família era proprietária de uma edificação urbana recebida por herança de Luiz Botelho Falcão III.

O foco da pesquisa segue, a partir de agora, os caminhos dos filhos de Luiz Botelho Falcão III e Ana Cecília: Luiz Botelho Falcão IV e Eugênio Botelho Falcão.

Mas por hoje o Trem de história fica por aqui. No próximo mês voltaremos a falar da família Botelho Falcão.


Fontes Consultadas:

1 – MONTEIRO, Miguel. Emigração para o Brasil (1834-1926): os números e a autobiografia – sair, viver e regressar na primeira pessoa. Disponível em <http://zip.net/bbtpVB&gt; Acesso 23 jan. 2012 p.1

2 – Idem, p. 11

3 – Idem, p. 9

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado no jornal Leopoldinense de 16  de outubro de 2016