122 – Relembrando a pesquisa publicada em 2010

Em diversas viagens do Trem de História, na série de artigos que lembraram o Centenário da Colônia Agrícola da Constança em 2010, foi ressaltado um ensinamento do teórico francês Jacques Le Goff a respeito das duas formas de alimentar a memória: os monumentos e os documentos. Ensinou ele que monumento é o que pode evocar o passado e permitir a recordação do vivido, como estátuas, construções e documentos.

Na viagem atual será abordado, segundo os ensinamentos daquele autor, um tipo de “documento de memória” formado pela “escrita da história local”. Reúne o conhecimento que se obteve sobre o assunto até o momento em que foi escrito. E poderá ser sempre enriquecido com novas pesquisas, especialmente pelo olhar de outros pesquisadores que vierem se debruçar sobre o mesmo assunto.

É um documento que se iniciou pela pesquisa, ou seja, pela consulta de documentos de onde se extraíram dados que foram analisados à luz de outras fontes para então constituir a base sobre a qual foi realizada a escrita, como ocorreu com o resgate da história da Imigração Italiana em Leopoldina.

Durante anos os autores reuniram dados e escreveram sobre o assunto. Em abril de 2010, por ocasião das comemorações do Centenário da Colônia Agrícola da Constança, o jornal Leopoldinense publicou um resumo histórico sobre aquela instituição, composto por alguns dos textos publicados entre 1998 e aquela data na imprensa local. Simultaneamente, os autores publicaram uma edição virtual de toda a pesquisa e suas conclusões.

Criou-se, portanto, um ‘documento de memória’ que começa, agora, a ser revisado. Porque o tempo decorrido, as pesquisas que se sucederam e outros fatores determinaram a necessidade de tal revisão.

Um aspecto importante a ser destacado é que a pesquisa começou num tempo em que ainda não existiam as novas tecnologias de reprodução da informação, obrigando o pesquisador a copiar, manualmente, os dados encontrados nas fontes pertencentes aos acervos dos diversos centros de documentação visitados.

No decorrer da década de 1990, com o surgimento de novos meios de reprodução, algumas instituições passaram a fornecer cópias que permitiram a primeira revisão ou a conferência do que se tinha obtido até então.

Na mesma década, com o início do acesso comercial à rede mundial de computadores, tornou-se mais rápido solicitar documentos dos países de origem dos imigrantes. Entretanto, a popularização do acesso demorou ainda algum tempo e até o final do projeto, em 2010, muitas instituições nacionais e estrangeiras ainda não estavam aptas a atender aos pedidos. Nos anos seguintes, muito mais se obteve, seja remotamente ou pela aquisição de cópias digitais diretamente nos locais detentores dos acervos.

Outro fator a ser considerado é que, em 1997, quando a rede mundial de computadores era muito pouco conhecida e utilizada no Brasil, os autores publicaram o primeiro site dedicado a divulgar suas pesquisas sobre a história de Leopoldina. Com a popularização da rede, já em meados da década passada, descendentes dos imigrantes que viveram em Leopoldina começaram a entrar em contato através do site. A visitação e os contatos aumentaram sensivelmente após a publicação da mencionada edição de 2010. Portanto, nos últimos oito anos houve aumento substancial de indicadores que levaram a novas buscas com muitas confirmações do que já se sabia, mas também com algumas alterações importantes.

O objetivo desta revisão é, pois, acrescentar informações ao que foi publicado nos últimos vinte anos e apresentar novas descobertas. Além de recordar a Colônia Agrícola da Constança, cuja fundação completará 110 anos em 2020, será feita, também, uma ampliação do período de análise da imigração italiana em Leopoldina.

No trabalho anterior, o recorte temporal foi de 1880 a 1930. Agora, as novas descobertas obrigam a retroceder com a data de início acrescentando 20 anos ao recorte temporal, em virtude da identificação de imigrantes italianos chegados à Leopoldina na década de 1860, ano que se torna, assim, o marco inicial da pesquisa cujo término permaneceu em 1930.

Diante desta mudança, os 130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina, comemorados em 2010, necessariamente serão corrigidos para 160 anos em 2020.

Mas antes de se embrenhar por estes caminhos, o Trem de História faz uma parada para reabastecimento antes de retomar a viagem, na próxima edição, com nova bagagem. Aguardem!


Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 375 no jornal Leopoldinense de 1 de março de 2019

121 – Imigrantes Italianos em Leopoldina – O início do estudo

Hoje o Trem de História inicia uma nova viagem, em cuja estação de embarque são recolhidas informações publicadas pelos autores nos últimos vinte anos, as quais servirão de guia para uma nova série de artigos.

Sabe-se que pesquisar é buscar resposta para uma questão que surge no contato com um tema. De modo geral, o processo tem início quando, ao procurar conhecimento sobre um assunto, o leitor se sente atraído por um aspecto não abordado nas obras disponíveis. No caso de pesquisas historiográficas relativas ao resgate da memória de uma cidade, como é o caso deste trabalho sobre a imigração em Leopoldina, isto se torna mais claro por não sido encontrada uma fonte suficiente para esclarecer o assunto.

A convivência com descendentes de naturais de outros países que aqui se estabeleceram desde o século XIX, acrescida mais tarde da pesquisa em fontes documentais, da leitura de obras sobre o tema e de entrevistas com descendentes e especialistas, resultou numa parceria que vem produzindo diversos trabalhos, seja para publicar no jornal da cidade ou para apresentação em seminários.

Um deles foi “A Imigração em Leopoldina vista através dos Assentos Paroquiais de Matrimônio”, cuja primeira versão data de 1999. Nele ficou demonstrado que 10% dos noivos que se casaram em Leopoldina no período de 1890 a 1930 eram imigrantes, sendo 9% italianos e os demais vieram de Portugal, Espanha, Síria, Açores, França, Ilhas Canárias e Egito.

Registre-se que, num primeiro momento, parte destes casais ficou sem definição do país de origem. Mais tarde, através de assentos paroquiais de batismo, foi acrescentada a origem germânica de alguns casais que aqui viviam no período.

Naturalmente, uma questão se impôs logo no início da pesquisa: quem eram aqueles imigrantes? Questão que se tornou a justificativa primeira para realizar a busca delineada.

Embora o senso comum reconheça que o centro urbano é habitado por grande número de descendentes de italianos, eram desconhecidas iniciativas de valorização de tal comunidade. A exceção era a representação anual na Feira da Paz, evento dos clubes de serviço com atividades festivas de congraçamento.

Assim, logo se viu que a busca por informações se mostrava infrutífera, já que as pessoas consultadas nada sabiam sobre a chegada dos primeiros imigrantes nem sobre a trajetória das famílias. Mas para quem já se dedicava há tantos anos a buscar conhecimento sobre Leopoldina, uma certeza já se fixara ali.

Sabia-se que a ordenação de informações resultaria em benefício para os moradores, na medida em que conhecer a própria origem dá ao ser humano a oportunidade de reconhecer-se no tempo e no espaço, realimentando sua própria identidade e abrindo um novo olhar para o mundo.

Sendo assim, ficou decidido que seria feita uma análise daquela sociedade a partir de um de seus elementos constitutivos – os imigrantes, com o objetivo de oferecer aos conterrâneos uma informação cultural até então pouco discutida, qual seja o reconhecimento da presença dos descendentes em todas as atividades locais.

Ao ser esboçado o projeto, foi feito um levantamento das fontes passíveis de serem consultadas. Decidiu-se que os dados obtidos no levantamento dos livros paroquiais seriam comparados com os registros de entrada de estrangeiros; processos de registro dos que viviam no município por ocasião do Decreto 3010 de 1938 [1]; livros de sepultamento; pagamento de impostos e tributos municipais; escrituras de compra e venda de imóveis; e notícias na imprensa periódica.

Como se sabe, é fundamental estabelecer um recorte temporal para tornar viável o empreendimento, bem como o objetivo da pesquisa. No caso em pauta, por ser um primeiro trabalho sobre o universo estudado, era aconselhável restringir também o número de pessoas a serem estudadas. Entretanto, levantou-se a hipótese de variações em torno da lista de nomes identificados nos livros paroquiais. E em razão disto ficou estabelecido que seriam acrescentados os nomes que surgissem nos demais documentos disponíveis e que a citação em mais de uma fonte seria tomada como base para o reconhecimento do imigrante como residente em Leopoldina. Determinou-se, a partir daí, que o período de análise corresponderia à segunda fase da história de Leopoldina, o que se verá nos artigos seguintes.

Por hoje, com os cumprimentos às centenas de descendentes de italianos que vivem em Leopoldina, pela passagem do Dia Nacional do Imigrante Italiano no próximo dia 21, o Trem de História dá uma parada para embarque da carga que seguirá viagem na próxima edição do jornal. Até lá!


Nota 1 – Este Decreto, promulgado por Getúlio Vargas, determinava que todo imigrante residente em território nacional deveria preencher um requerimento a ser encaminhando para controle pelo Departamento de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras, com dados de identificação pessoal e de sua imigração.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 374 no jornal Leopoldinense de 16 de fevereiro de 2019