138 – Colônias em Minas Gerais e migrações entre elas

O Trem de História de hoje faz uma viagem um pouco mais abrangente para trazer para este espaço um pouco sobre as colônias criadas em todo o estado.

E começa lembrando que a organização de colônias agrícolas em Minas Gerais foi determinada pela necessidade de oferecer atrativos que fixassem os imigrantes no estado. O caminho encontrado pelos dirigentes foi, então, criar e incentivar a criação de núcleos agrícolas em terras devolutas e no entorno das estradas que se abriam, inclusive da ferrovia.

A partir de 1880, há referências esparsas a colônias criadas pelas municipalidades, como foi o caso da Colônia Santo Antônio que existiu em Leopoldina, conforme se depreende das contratações de imigrantes realizadas pela Câmara Municipal.

No final daquela década funcionavam o núcleo de São João del Rei, a Colônia Maria Custódia em Sabará e a Colônia Rodrigo Silva em Barbacena, todos transferidos da União para o Governo de Minas em 1892.

Já entre 1893 e 1930, o governo de Minas Gerais criou os seguintes núcleos coloniais: em 1893 a Colônia Francisco Sales, em Pouso Alegre; 1899 a Colônia Carlos Prates, Américo Werneck, Afonso Pena, Bias Fortes e Adalberto Ferraz, no subúrbio da capital; em 1900 a Colônia Nova Baden, em Lambari; em 1907 as Colônias Vargem Grande na capital e Itajubá no município de mesmo nome; em 1908 a Colônia João Pinheiro, criada em conjunto com o governo federal em Sete Lagoas; em 1910 as Colônias Constança em Leopoldina, Santa Maria em Astolfo Dutra, Barão de Ayuruoca em Mar de Espanha e, em conjunto com o governo federal, Colônia Inconfidentes em Ouro Fino; em 1911 as Colônias Major Vieira em Cataguases e Rio Doce em Ponte Nova; em 1912 as Colônias Wenceslau Braz em Sete Lagoas e Pedro Toledo em Carangola; em 1913 a Colônia Guidoval em São Domingos da Prata; em 1914 a Colônia Joaquim Delfino, em Cristina; em 1915 a Colônia Vaz de Melo em Viçosa; em 1920 a Colônia Álvaro da Silveira, em Pitangui; em 1921 a Colônias David Campista em Bom Despacho, Júlio Bueno Brandão em Peçanha e Francisco Sá em Teófilo Otoni; em 1923 a Colônia Padre José Bento, em Pouso Alegre; em 1924 a Colônia Brucutu, em Santa Bárbara; em 1926 a Colônia Raul Soares, em Pará de Minas; e, em 1927 a Colônia Mucuri, em Teófilo Otoni.

Desse grupo de colônias há informações nos relatórios disponíveis no Arquivo Público Mineiro, através dos quais foram identificadas algumas migrações entre as localidades.

É o caso da família de Andreas Stievano que chegou ao Brasil em 1888 e foi para Itajubá. Pouco depois da criação do núcleo colonial naquele município, não tendo conseguido adquirir o lote, os Stievano migraram para Leopoldina. O mesmo aconteceu com alguns Scantamburlo que foram para Chiador e os Magiollo que foram para Soledade, distrito de Mar de Espanha e, não conseguindo lote na colônia criada em Mar de Espanha em 1910, migraram para Leopoldina. Houve relato semelhante envolvendo os sobrenomes Bellan, Calloni, Conti, Pighi, Precisvale e Vetorello que foram inicialmente para Ponte Nova. Entretanto, o núcleo daquele município foi criado após o de Leopoldina e as famílias mencionadas já haviam migrado alguns anos antes.

Esclareça-se, a propósito, que não foi apenas a organização de um núcleo colonial, com venda de lotes a imigrantes, a causa das migrações. Tome-se, por exemplo, os municípios de Juiz de Fora e Muriaé, nos quais não existiu colônia nos moldes da nossa Constança. Foi grande o número de imigrantes italianos que se estabeleceram nos dois municípios e que migraram posteriormente dentro da própria zona da mata ou para outras regiões.

Vale a pena registrar que em 1911, um ano após sua fundação, a Constança ocupava a 7ª posição em número de habitantes, superando 4 núcleos mais antigos. Em 1912 já era a 2ª, tendo à frente a Rodrigo Silva, de Barbacena. No ano seguinte a Santa Maria, de Astolfo Dutra, alcançou a segunda posição e a Constança ficou em 3º lugar no número de habitantes e na produtividade. Nos anos subsequentes a Rodrigo Silva manteve-se como a de maior número de habitantes mas sua produção foi caindo, cedendo a posição para a Constança e a Santa Maria alternadamente. A partir de 1915 a Constança manteve-se como a segunda maior colônia do estado em número de habitantes.

Digno de registro, também, é o fato de que, ao serem emancipadas, estas colônias agrícolas sofriam pequena mudança administrativa, especialmente no que se refere ao fornecimento de equipamentos e sementes. Mas de acordo com a mensagem do presidente Fernando de Mello Vianna em 14 de julho de 1926, “apesar de emancipadas e com vida autonoma, permaneciam subordinadas ás leis geraes do Estado e do paiz”.

E para encerrar é bom lembrar que as despesas de manutenção da estrutura dessas colônias foram mantidas até a extinção de cada uma delas, não tendo havido um prazo previamente determinado para que fossem dispensados os funcionários administrativos e vendido o lote reservado pelo estado para moradia do administrador e funcionamento do serviço burocrático. Em diversas mensagens presidenciais, foram mencionadas despesas de manutenção das casas-sede, limpeza de córregos, reparo de pontes e outros serviços nas estradas internas dos núcleos por longo tempo após a emancipação. Tudo levando a crer que tais serviços eram realizados pelos próprios colonos, representando uma renda adicional para além do cultivo da terra. Analisando as falas anuais do dirigente estadual até 1930, é possível supor que a extinção só ocorria após todos os lotes terem sido quitados e emitidos todos os títulos definitivos de posse.

O Trem de História, neste final da viagem de hoje, lembra aos eventuais interessados neste estudo sobre a história pública da cidade que a emancipação da Colônia Agrícola da Constança ocorreu em março de 1921, mas as datas de emissão dos títulos definitivos estão em poder do Cartório de Registro de Imóveis de Leopoldina e infelizmente, por razões burocráticas, não foi possível acessá-los para completar esta lacuna.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 391 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2019


Fontes de referência:

MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas 1889-1930. Belo Horizonte: Itatiaia, 1994. p. 189

Relatórios da Presidência da Província / Governo do Estado de Minas Gerais 1837-1930.

Decretos 4194 de 30.05.19146430 de 15.12.1923, 11.874 de 12.01.1916, 5597 de 03.03.1921, 5598 de 03.03.1921, 3207 de 01.07.1911, 6614 de 20.07.1923, 5596 de 03.03.1921, 6631 de 10.09.1923, 6624 de 16.06.1924, 8145 de 13.01.1928 e 6613 de 20.07.1923.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 391 no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2019

A Pesquisa em Leopoldina II

Uma pergunta frequente nas mensagens de nossos leitores:

Quantos sobrenomes italianos existem em Leopoldina?


Geralmente nós começamos a resposta com um caso clássico. Trata-se do imigrante Sancio Maiello que passou a ser identificado como Francisco Ismael, sendo Ismael o sobrenome usado pelos descendentes. Donde perguntamos aos nossos interlocutores: neste caso, devemos dizer que é um ou que são dois sobrenomes?

Agora convidamos nossos leitores para analisar um outro caso.

Teresa Trombini, nascida em Porto Tolle, Rovigo, era casada com Candido Leone Finotti. Foram pais de Giovanni Sante (1868), Battista (1871), Pietro Antonio (1873), Domenico Claudio (1876), Lorenzo (1881), Angelo (1883) e Giuseppe, todos nascidos na Itália. Muitos deles migraram para a região de Carangola e para o Espírito Santo, sendo que atualmente há descendentes também na região de Governador Valadares.

O filho Giovanni Sante Finotti foi casado duas vezes: com Ema Craciotoni e com Emilia Bellan. O segundo casamento foi realizado no distrito de Ribeiro Junqueira, em 1898, e a noiva era filha de Angelo Bellan e Maria Piovesan. Aqui temos um aspecto que pode gerar confusão numa busca apressada: no casamento de Giovanni, consta que ele era viúvo de Tereza Trombini que, na verdade, era sua mãe.

Outro filho, Battista Finotti, casou-se com Maria Dorigo em 1896, também em Leopoldina. Maria era filha de Gaetano Dorigo e Felicitá Omilio. Mais uma dúvida: a mãe de Maria é referida, em algumas fontes, como Emilia Felicitá.

Ocorre que Candido Leone Finotti, o genearca deste grupo, foi casado também com Pierina Marangoni, que, por sua vez, tinha sido casada com Antonio Nacav, cujo sobrenome aparece como Nocori e Nacaré.

Até aqui mencionamos os sobrenomes Bellan, Craciotoni, Dorigo, Finotti, Marangoni, Nacav, Omilio, Piovesan e Trombini. Poderíamos, então, definir como sendo nove os sobrenomes italianos encontrados neste grupo? Ou deveríamos acrescentar a quantidade de variações ortográficas? Deveríamos somar Felicitá como variação de Omilio?

Como um estudante, que está começando a se aproximar de sua própria história familiar, poderia responder à questão: 

Quantos sobrenomes italianos há em sua família?

Para ampliar um pouco mais a dificuldade, alguns descendentes do grupo aqui mencionado adotaram, como sobrenome, o primeiro ou o segundo nome do pai. Muitas vezes isto ocorre porque o italiano, ao informar como se chama, responde com o sobrenome antes do nome. Donde, nesta família, encontramos pessoas com sobrenome Battista, Domenico, Leone, Lorenzo, Pietro e Sante e suas variações ortográficas.

Ao longo destes quinze anos de pesquisas nós descobrimos muitos outros casos semelhantes. Por esta razão, julgamos inadequado quantificar os sobrenomes imigrantes presentes em Leopoldina. Consideramos que, muito mais importante do que um número redutor, são as pessoas que estão representadas na população leopoldinense. Os atuais descendentes nem sempre se sentirão incluídos no grupo se não souberem que usam, por sobrenome, uma variação do que estaria registrado em alguma lista totalizante.

Cada pesquisador escolhe a melhor metodologia para atingir os objetivos de sua pesquisa. No nosso caso, decidimos usar o sobrenome original para vincular o grupo familiar. E estamos disponíveis para ajudar a todos os leopoldinenses, através do acervo de informações que reunimos, a descobrirem o grupo ao qual pertencem.