143 – A Fazenda Constança do final do século XIX

O Trem de História traz hoje um retrato da Constança no meado dos anos de 1890. E começa registrando que, em 1896, 9,75 hectares da Fazenda[1] foram vendidos por Gustavo Augusto de Almeida Gama e sua mulher Carolina Rosa França para Octaviano Nicomedes Barbosa. Tal propriedade fazia divisa por seus diversos lados com os herdeiros de Manoel Rodrigues da Silva; com João Baptista de Almeida; João Fonseca ou Francisco Guimarães; e, com a Fazenda do Feijão Cru. Formando uma área distinta, mas incorporada à Constança, também estavam 10 alqueires de terras desmembradas do Sítio Pury, parte esta que tinha como confrontantes: a fazenda do Coronel José Joaquim (Fazenda Boa Sorte); a fazenda Constança; Antonio Bernardino Machado; Domiciano Ferreira Monteiro de Castro (ou, Domiciano Ferreira Monteiro de Barros, administrador da Paraíso); herdeiros de Dona Messias (esposa de Custódio de Vargas Corrêa) e outros.

Dentro destes limites estava a casa sede[2] da fazenda, uma construção assobradada, com escada de madeira por fora, tendo na frente 3 janelas e um portão em baixo. Em cima, 8 janelas e uma porta no centro e divisões que formavam 3 salas, 10 quartos e 1 varanda. Esta, com porta e 4 janelas para o quadrado interno.

Em continuação era ligada por uma varanda a uma segunda casa contendo porta e 5 janelas para a frente. Esta segunda casa era dividida em sala e corredor com 4 quartos voltados para uma mesma varanda, uma dispensa e 1 quarto. Seguia outra varanda para o quadrado, que terminava numa cozinha com fogão econômico e em seguida 2 quartos.

No fim da varanda existia uma coberta de telhas (meia água), onde tinha um forno. No quadrado existia uma cocheira para animais e um quarto para empregados.

Existia, ainda, uma casa de sobrado, caiada, assoalhada e coberta de telhas, engenho de café com todo o maquinismo para preparo do mesmo e moinho para fubá, tocado por máquina a vapor. Engenho de serra e outras benfeitorias.

Mais adiante, outra casa com 2 portas e 7 janelas, sendo 1 porta e 2 janelas de morada e 1 porta e 5 janelas de armazém, com armação e balcão para negócio.

Além destas construções, existiam ainda as 44 casas mencionadas na coluna anterior, cujas indicações embasam a conclusão de que mais tarde se tornaram casas dos adquirentes dos lotes da Colônia Agrícola da Constança.

Com tantas casas, empregados, meeiros e mais as dificuldades vividas pelos lavradores da ocasião era natural que alguns desencontros pudessem se tornar mais sérios. Um deles, de 1899, chegou às páginas do jornal Minas Gerais[3] que o registrou na forma seguinte: “Na fazenda Constança deu-se no dia 22 de maio ultimo um grave conflito entre o proprietário da fazenda sr. Octaviano Barbosa e outros de um lado e o meeiro da fazenda Bartholomeu Mello e pessoas de sua família, do outro lado.”

Superando estes e outros contratempos, a Fazenda ainda sobreviveu como tal durante aproximadamente uma década até que o Relatório[4] assinado por Guilherme Prates a 20.03.1910 informou que a Colônia Agrícola da Constança foi “fundada em terras das fazendas annexadas e denominadas Constança, Sobradinho, Boa Sorte, Onça e o sitio Puris, que o Estado adquiriu”.

A partir daí, com a implantação da Colônia Agrícola da Constança, cuja administração foi instalada na sede da Fazenda da Boa Sorte, a casa sede da Fazenda Constança se tornou subsede da Colônia e residência do auxiliar do administrador, o sr. João Ventura Gonçalves Neto. Suas terras foram divididas para dar origem a muitos dos lotes vendidos aos colonos que deram início à bela história dos imigrantes que ali se fixaram.

Hoje, fruto do descaso para com a história, a casa sede da Constança, que ficava na margem direita da BR 267, na altura do km 2 desta rodovia, não existe mais. Para marcar o lugar, estão lá algumas palmeiras e os vestígios do que foi uma escola municipal, num terreno que ainda hoje pertence ao poder público.

Com este artigo o Trem de História encerra a série destinada ao resgate do que foi a Fazenda que emprestou seu nome à Colônia Agrícola da Constança e acolheu muitos dos imigrantes italianos que vieram para Leopoldina. Certamente a história não termina aqui. *** E até 17 de maio de 2020, quando acontecerá o Encontro de Descendentes dos Imigrantes de Leopoldina, muita novidade ainda pode surgir. *** Até a próxima!


Fontes de Referência:

[1] Arquivo Permanente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – COARPE – TJMG. Extrato de Confrontações da Fazenda Constança – Processo códice 38405781

[2] idem

[3] Jornal Minas Geraes, Ouro Preto (MG), 07.06.1899, Ed. 146 p. 2, col.3.

[4] Arquivo Público Mineiro. Relatório da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização de Minas Gerais, 1909.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 396 no jornal Leopoldinense de 16 de janeiro de 2020

***

17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA que seria realizado no próximo dia 17 de maio de 2020. Nova data será oportunamente informada.

5 opiniões sobre “143 – A Fazenda Constança do final do século XIX”

  1. Senhora Nilza Cantoni parabéns pelo seu trabalho.
    Gostaria de me inscrever no Evento de descendentes dos Colonos dos Imigrantes de Leopoldina.
    jlpardal@uol.com.br
    Minha Família era agricultores na Fazenda Constança.
    INFORMAÇÃO:
    Em Leopoldina tinha acampamento da Estrada de Ferro Inglesa que estava sendo construída???
    Tenho informação que meu bisavô trabalhava de garçom em um restaurante onde havia muitos Engenheiros ingleses e em conversa com eles meu bisavô André Gomes Pardal ficou sabendo que eles estavam com problemas de fornecedor de dormentes na região de Porciúncula.
    Então meu bisavô se comprometeu a fornecer os dormentes.
    Por este motivo que a família foi para Porciúncula.
    Comprou áreas de terras em Porciúncula-RJ e forneceu dormentes para o trecho da ferrovia de Porto Novo até Manhuaçu.
    Ele era madeireiro em Vila Real de Trás os Montes.
    Para mais possíveis informações estou a disposição.

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    1. Agradeço pelo apoio, José Luiz.
      O Encontro de Descendentes de 2020 foi cancelado em função da pandemia. Assim que for programado o próximo, darei notícia.
      Sobra a ferrovia, se você se refere à Estrada de Ferro Leopoldina, não era inglesa. Recebeu este nome por ter sido criada com capitais de fazendeiros do município de Leopoldina. A primeira estação foi inaugurada em 1874.
      Vinte anos depois foi vendida para a The Leopoldina Railway Company Ltd, companhia recém criada em Londres. Havia, então, dez anos que estava sendo construída a expansão da Estrada de Ferro Leopoldina para Carangola, com diversas interrupções e dificuldades que levaram a ferrovia a sair do estado de Minas e entrar no estado do Rio, ali na altura de Porciúncula.
      A Colônia Agrícola da Constança só foi criada anos depois, em 1910. Em 1911 chegou lá o Manoel Gomes Pardal que adquiriu lote. Parece que ele já estava no Brasil há algum tempo, tendo vindo do estado do Rio. Não há referência ao André Gomes Pardal nos relatórios da Colônia.
      Creio ser necessário ajustar as informações que você coletou porque foi a companhia denominada Estrada de Ferro Carangola que construiu o trecho que ligava o município de Carangola ao atual município de Porciúncula, cuja estação então denominada Santo Antonio do Carangola foi inaugurada em 1886. O distrito deste nome havia sido criado em 1879, pertencente a Campos dos Goitacazes.
      No mesmo ano da inauguração da estação de Porciúncula a Estrada de Ferro Carangola foi incorporada pela Estrada de Ferro Leopoldina. Ambas eram companhias mineiras e não tenho referência a engenheiros ingleses no quadro de funcionários delas.
      A então Leopoldina Railway concluiu o ramal que atingiu Manhuaçu entre 1911 e 1915, período que coincide com alguma migração de Leopoldina para a então conhecida como Mata do Carangola. Teriam os seus migrado no sentido inverso?

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      1. Então o André Gomes Pardal trabalhava de garçom no restaurante dos Engenheiro ingleses no Rio de Janeiro e veio para essa região para fornecer dormentes para a Estrada de Ferro Leopoldina.
        Vale o complemento do meu relato anterior.
        Obrigado pela resposta.

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      2. Quando o André
        quando veio de Portugal trabalhou como garçom no restaurante dos Engenheiros ingleses e veio para Porciúncula, adquiriu terras para retirar madeira e fornecer dormentes para a ferrovia.
        Quando terminou a obra ele foi à Portugal, com a esposa e a filha mais nova Perpétua.
        Voltando para o Brasil em 1914, quando foi a Leopoldina onde morava seu irmão.
        […]AÇÃO
        3/1/2014 12:04:32
        Pode ter acontecido está migração inversa?????

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      3. José Luiz: a msg chegou truncada mas acho que consegui entender. Parece que vc mandou o passaporte que o André obteve em Portugal antes de voltar ao Brasil. Em 2014 vc o mencionou e o vi no site do Arquivo Distrital de Vila Real.
        Não sei se entendi sua pergunta sobre migração inversa. Em Leopoldina temos vários casos de imigrantes que retornaram ao país de origem e, entre eles, um percentual que decidiu passar novamente ao Brasil e muitos não saíram mais do país.

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