127 – A identificação mais antiga.

Esta viagem do Trem de História, dedicada à Colônia Agrícola da Constança e à imigração em Leopoldina, traz a atualização de mais um capítulo da pesquisa publicada em 2010, quando se comemorou o Centenário da Colônia e o que se convencionou, com base nos estudos até ali desenvolvidos, ser os 130 anos da imigração italiana para Leopoldina.

Naquela época foi destacado que o primeiro jornal de Leopoldina, denominado O Leopoldinense, em 1881 noticiou a chegada de imigrantes espanhóis que Domiciano Ferreira Monteiro de Castro fizera embarcar da Corte para a Fazenda do Socorro, de propriedade do seu irmão Vicente Ferreira Monteiro de Barros.

O Relatório da Presidência da Província de 1882 registra a fala que Teófilo Otoni dirigiu à Assembleia Provincial de Minas Gerias, no dia 01 de agosto daquele ano, na qual abordou o tema Colonização. Os deputados foram informados de que, conforme previa o artigo 6º da Lei nº 2819, de outubro de 1881, a empresa John Pitty & Cia tinha sido contratada para introduzir 12.000 colonos nas lavouras da Província de Minas Gerais e que o processo havia sido iniciado no mesmo ano. Entre os contratantes citados no mencionado relatório, confirma-se a notícia do jornal O Leopoldinense. Aqueles espanhóis foram, no início da pesquisa, os registros mais remotos sobre a chegada de imigrantes em Leopoldina.

Não se conheciam os nomes nem qualquer informação adicional sobre os contratados. E mais tarde ficou evidente que os imigrantes espanhóis e portugueses dificilmente seriam identificados, dada a semelhança de nomes e sobrenomes e a falta de indicações nas fontes disponíveis para consulta.

Na medida em que avançava a leitura dos relatórios provinciais e de esparsos livros de notas dos cartórios do regime imperial, surgiram outras referências.

Embora houvesse um controle que praticamente impedia a entrada de estrangeiros no país, já no início do povoamento do Feijão Cru aparecem indícios da presença de ‘não portugueses’ aqui residentes. Em consulta às poucas fontes literárias existentes, surgiu um sobrenome que veio a ser identificado como sendo de Antoine Urbain Levasseur, que em 1838 respondeu ao censo populacional informando ser francês, solteiro, com 30 anos de idade. Além desta e até o final da década de 1870, eventuais referências a estrangeiros em Leopoldina são raras.

O panorama se modifica a partir das negociações empreendidas pelo governo provincial, com vistas a substituir a mão de obra escrava nas fazendas.

Com os primeiros incentivos, empresas foram constituídas com o fim precípuo de contratar imigrantes europeus. E eles começaram a chegar, alguns viajando por conta própria e se instalando na área urbana.

Quando a pesquisa foi encerrada, em 2010, haviam sido identificados alguns italianos não agricultores que chegaram por volta de 1880, o que levou os pesquisadores a considerar esse ano como sendo o do início do período de imigração italiana para Leopoldina. Época em que para cá vieram os Appratto, Cazzolino, Eboli, Pagano, Polito, Petrola, Savino e Tambasco que compunham o grupo de sobrenomes procedente da região da Campania.

Esta afirmação perdurou até 2016, quando veio o convite para um Seminário a ser realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais no ano seguinte. O trabalho para o Seminário no IHGMG, que recebeu o título “Savino: de Ispani para Leopoldina. A origem italiana de Fernando Sabino” e está disponível para leitura no site do jornal e no dos pesquisadores[1], assim como na Revista do IHGMG v.43 de 2018, abriu novos horizontes.

A divulgação do novo estudo despertou a atenção de pessoas que acompanham as publicações e entraram em contato buscando por outros italianos que teriam vivido em Leopoldina antes de 1880. A troca de mensagens trouxe dados que, somados a indícios anotados há mais de quinze anos, levaram à constatação de que desde a década de 1860 havia italianos negociantes estabelecidos em Leopoldina. E apontou o mais antigo sobrenome dessa primeira fase como sendo Vitrale. Uma descoberta que contou com a fundamental contribuição de Gilson Vitorino, um paulistano que descende de um dos filhos de Sebastiano Vitrale, italiano estabelecido na corte desde, pelo menos, 1868, que teve uma filha nascida em Leopoldina naquele ano.

Com a descoberta, o início da imigração italiana para Leopoldina passou a ser considerado como sendo na década de 1860, que será mencionada em textos próximos em que se tratará de algumas das centenas de famílias que cruzaram o Atlântico em busca de novas oportunidades e participaram intensamente da vida da cidade, modificando o panorama social, econômico e político.

Esgotada a lotação para a viagem de hoje, o Trem de História convida os leitores para a próxima viagem, quando serão embarcados mais aspectos da pesquisa publicada em 2010.

Nota 1: os trabalhos sobre história de Leopoldina são publicados em cantoni.pro.br

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 380 no jornal Leopoldinense de 16 de maio de 2019

Há 100 anos

Em julho de 2019, nasceram em Leopoldina

Dia 19 jul: Juracy Lisboa Gomes

Dia 27 jul: Dagoberto Almeida Ramos

Dia 28 jul: Conceição Miranda Costa e Ruy Cabral Machado Dias

126 – O Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru

No meado do século passado, tempo em que os idosos de hoje cursavam o primário, era comum ensinar como sendo “história de Leopoldina” as lendas do Feijão Cru e, a de um tal “Peitudo”, que teria sido proprietário das terras onde surgiu o povoado. Eram estes os marcos iniciais da história do lugar.

Felizmente os tempos mudaram e estudos mais sistematizados e calcados em fontes documentais já conseguem contar um pouco do que aconteceu realmente quando teve início a transformação do que era “mata” em áreas urbanizadas nesta parte do leste mineiro.

O Trem de História, seguindo estes estudos para comemorar os 165 anos de emancipação do que no início foi chamado Feijão Cru, traz hoje mais uma contribuição para clarear a história da cidade.

É sabido que o surgimento de um povoado demandava algumas providências das pessoas que escolhiam aquele lugar para viver. E uma das mais importantes era a escolha de um santo protetor e, mais adiante, a doação de terras para a formação do patrimônio do padroeiro.

Às vezes, a escolha acontecia de forma inversa por uma razão objetiva. Como havia restrições para vender as sesmarias recebidas por doação da administração central, o beneficiário se dispunha a doar uma parte das terras para um santo protetor em troca da autorização para vender o restante.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a formação do patrimônio de Nossa Senhora da Piedade de Piacatuba, conforme se pode verificar no registro da doação em 1844, que se encontra no arquivo do Cartório daquele distrito.

Dos processos de formação de patrimônio surgiram os denominados “doadores de patrimônio” que passaram para a história como fundadores de muitas localidades. A realidade, porém, parece ter sido um pouco diferente.

Após a doação, não necessariamente o sesmeiro participava da formação do povoado e o patrimônio do Feijão Cru não foi formado por um único doador. Pelo que foi possível apurar, o preposto dos beneficiários de duas sesmarias obteve autorização para venda de partes delas, por volta de 1830. Vejam que foi um preposto e não os donos das sesmarias. Isto conforme declararam os compradores, em 1856, por ocasião o Registro de Terras realizado segundo determinou a Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, a chamada Lei de Terras.

Tal preposto, embora seja por vezes citado como “fundador” de Leopoldina, não participou de fato da formação do povoado. E por razões simples e devidamente documentadas. Tão logo ele concluiu a venda das terras doadas a seus tios, seguiu para outras localidades e faleceu no Estado do Rio de Janeiro cerca de cinco anos antes da criação do Distrito de São Sebastião do Feijão Cru.

Como se vê, a falta de pesquisas metodologicamente controladas fez surgir o mito de um fundador que de fato não o foi.

Sobre o Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru, o que se tem são referências literárias sobre uma doação de Maria do Carmo Monteiro de Barros, que formou a Fazenda do Desengano, e um registro existente no arquivo do Fórum de Mar de Espanha sobre doação feita por Joaquim Ferreira Brito, que formou a Fazenda da Cachoeira.

Em 1856, quando foi realizado em Leopoldina o Registro de Terras acima citado, o Patrimônio de São Sebastião do Feijão Cru era composto de “dez alqueires doados por particulares”, cujas divisas foram indicadas pelos nomes dos confrontantes: Álvaro de Souza Werneck, Maria do Carmo Monteiro de Barros, Romão Pinheiro Correia de Lacerda, Antoine Urbain Levasseur, Luiz Botelho Falcão, Padre José Maria Solleiro, Manoel Rodrigues Coelho e José Lopes da Rocha.

Embora não se possa precisar exatamente onde ficavam as divisas dessas terras, o estudo da trajetória dos confrontantes permite uma ideia aproximada quando se atenta para os detalhes a seguir.

Álvaro de Souza Werneck era o filho mais velho e sucessor de Ignacio de Souza Werneck, que viera para o Feijão Cru na década anterior e aqui falecera, tendo formado a Fazenda Benevolência, em terras cortadas pelo Rio Pardo em seu terço final. Maria do Carmo Monteiro de Barros, como foi dito acima, formou a Fazenda do Desengano. Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda formou a Fazenda da Memória cujo registro permite inferir que se estendia da divisa atual do distrito de Providência até os limites da Fazenda da Onça, que então era administrada por dois Lopes da Rocha, familiares do formador da Fazenda, Bernardino José Machado. Levasseur e Botelho Falcão eram dois imigrantes recém-chegados ao Feijão Cru, com pequenas propriedades localizadas na divisa da então área urbana. O Padre Solleiro tinha recebido a doação de Joaquim Ferreira Brito para construir “a casa do Cura”, conforme identificado por pesquisa de Barroso Júnior. Manoel Rodrigues Coelho havia comprado dois alqueires de Joaquim Ferreira Brito, terras que faziam divisa com a dita Fazenda da Cachoeira, com a então área da Vila e com a Fazenda da Onça.

Antiga Sede da Fazenda Desengano – Acervo Próprio

Ao longo dos anos seguintes, parte do Patrimônio de São Sebastião parece ter sido alienado a terceiros, sem que se tenha encontrado os competentes instrumentos de compra e venda. Até que, em 1927, uma lei municipal veio esclarecer a etapa final de transferência das terras. Segundo a Lei nº 417, de 18 de março de 1927, a Câmara Municipal havia autorizado seu Presidente, Carlos Coimbra da Luz, a adquirir os terrenos da Igreja e vendê-los em hasta pública, junto com “o terreno do lixo” que ainda não foi adequadamente identificado, além de lotes da então “rua Thebas, recentemente aberta, e outros terrenos da área urbana” também não identificados.

Parte baixa da atual Rua Presidente Carlos Luz – Acervo Espaço dos Anjos

Importante esclarecer que, naquele momento, as legislações estadual e federal permitiam que as administrações municipais incorporassem patrimônio imobiliário por diversos motivos e através de variados instrumentos legais. Sabe-se, por exemplo, que alguns anos antes a Câmara Municipal havia incorporado o prédio do primeiro Teatro de Leopoldina, vendido em 11 de agosto de 1926 ao negociante Salvador Rodrigues y Rodriguez que o reconstruiu e inaugurou com o nome de Cine-Theatro Alencar no dia 14 de janeiro de 1928.

Primeiro Prédio do Theatro Alencar – Acervo Gazeta de Leopoldina

Na mesma época, a Câmara Municipal de Leopoldina fez outras aquisições que lhe permitiram abrir novas ruas na área urbana e também investir na expansão da rede de fornecimento de energia elétrica para os distritos.

Mas esta já é carga para outra viagem. Não necessariamente a próxima, que retomará o percurso pela imigração italiana até as comemorações, em 2020, dos 110 anos da Colônia Agrícola da Constança e dos 160 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos a Leopoldina.

Parabéns, Leopoldina, pelos 165 anos de emancipação do Feijão Cru!


Fontes de Referência:

Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, nºs 9, 10, 81 e 91.

Lei nº 412 de 16 de março de 1927. Escritura Transcrita na Mensagem do Prefeito de Leopoldina 1928 p. 70-73.

Mensagem do Presidente da Câmara Municipal de Leopoldina (Leopoldina-MG), 1929 p. 70.

BARROSO JÚNIOR. Leopoldina e seus primórdios. Rio Branco, MG: do autor, 1943, p.45.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 379 no jornal Leopoldinense de 27 de abril de 2019

 

125 – Viagem com os sobrenomes de imigrantes italianos

Hoje o Trem vem carregado de história e memória. Carga um pouco diferente, com jeito de festa para lembrar alguns sobrenomes e os trilhos imaginários que teriam percorrido em terras leopoldinenses. Uma viagem com os sobrenomes de imigrantes que estiveram por aqui plantando lavouras e costumes, cultivando terras, amizades e amores. E para recordar, também, onde muitos deles se encontravam para vender a colheita, comprar o indispensável, se divertirem no jogo de malha ou de futebol e, se alegrarem nas festas sociais e religiosas da Capela de Santo Antônio, no Bairro da Onça.

Mesmo sabendo que nem todos fizeram exatamente os roteiros traçados a seguir, vale-se do artifício de citá-los para resgatar sobrenomes e lembrar que muitos certamente transitaram pelo agora oficial “Caminho do Imigrante”. Caminho que ideias recentes sugerem que seja estendido pela Boa Sorte para, por uma das opções de estrada já existente, chegar ao distrito de Tebas. Num roteiro que necessariamente passará por terras que pertenceram ou foram trabalhadas, dentre outros, pelos conhecidos sobrenomes: Bonin, Carraro, Colle (Coli), Fófano, Gottardo do Giovanni Battista casado com Constantina Meneghetti (Meneghite), Marinato, Zangirolani que reúne a família do pracinha da FEB, João Zangirolani, que lutou na Itália e ganhou medalhas, mas na Guerra, infelizmente, perdeu parte da sua capacidade laboral.

Tebas, distrito que foi sede do município por um curto período e que acolheu os sobrenomes Albertoni, da senhora Virgínia, esposa de Giuseppe e o Moroni, da senhora Maria que se casou com Domenico, ambos da mesma família Sampieri (Zampier) que até hoje se liga ao lugar.

Tebas de onde partia o ônibus do Marcatto que da memória não se afasta. Sobrenome que ali chegou com o casal Luigi Marcatto e Anna Maria Ceoldo.

Que se registre por ser vero, ônibus às vezes preterido pelo menino da roça quando o tempo permitia aguardar uma carona gratuita num dos “caminhões de leite” dos irmãos Lupatini.

E falando em ônibus, vem à memória a paixão e profissão de outro descendente, Bartoli, senhor José, dono dos ônibus urbanos da cidade conhecidos popularmente, desde então, como “catanique” porque a passagem se pagava com moeda de níquel.

Na linha de Tebas, que passava pelas terras das antigas fazendas Constança, Puri e Onça, viviam descendentes do casal Otavio de Angelis e Amalia Calzavara e de Emílio Isidoro Carraro e Maria Farinazzo. O sobrenome Anzolin, da família do combatente José Luiz Anzolin que trouxe das trincheiras geladas da Itália, na Segunda Guerra Mundial, medalhas e sequelas nunca esquecidas. O Bedin e o Bolzoni, este, artesão que fabricava balaios, esteiras e peneiras de taquara, indispensáveis na lida diária da roça. O Marinato e o Meneghetti do Agostino) e do Felice, sobrenome encontrado com grafias várias. Cosini, Stievano, Gruppi e o Montan, que saiu da fazenda Paraíso desceu a Serra da Vileta e foi trabalhar em terras da Constança, Água Espalhada e Bairro da Onça, juntamente com Bronzato, Campana, Campagna, Lomba, Longordo, Togni, Sangalli (Zangali) e Zachini (Zaquine) que hoje empresta o sobrenome à rua do bairro Caiçara e recepciona os motoristas que chegam à cidade pelas avenidas Jehú Pinto de Faria e Getúlio Vargas, com suas lojas de autopeças e serviços.

Todos estes sobrenomes familiares aos que conheceram a Casa Timbira – o entreposto da Colônia, os campos de futebol, as raias de malha e as festas na Capela da Onça.

Mas além destes, outros mais também frequentaram estes mesmos pontos de convergência dos imigrantes italianos de Leopoldina.

Por vezes, para um imaginário torneio no campo do Boa Sorte podiam chegar, vindo dos lados de Abaíba, talvez trazidos por este mesmo ônibus antigo que ainda “serve” ao distrito, sobrenomes como Algeri, Bettelli e Bellini que entra na defesa deste time pelo seu possível parentesco com grande capitão da seleção brasileira de futebol campeã do mundo em 1958. Na linha média, Cappai, Rocchi e Pinna. Na frente, Fanni, Finotti, Marangoni, Meneghelli e Sacchetto. Na reserva: Vaccari, Venturini e Salis. No socorro mecânico, Benati, que pode ter algum parentesco com a pessoa maravilhosa do Perseu Benati que há mais de meio século cuida da sua loja de peças. Bozza, por ser sobrenome de médicos no Rio de Janeiro, fica no banco para eventual aplicação de spray e bandagens. E o Scolari, com este sobrenome, é o treinador.

O “escrete” de Providência, numericamente o maior de todos, formado por Gatti cujo nome já diz ser bom para o posto. Antonelli (Antonio no plural) e Boesso (mercador de bois) que talvez possa ter algum parentesco com os irmãos Orlando e Miguel Baeso, os primeiros a praticar o futebol em Maripá de Minas, por volta de 1917. Bianchi, Casarotti e De Vito na linha média. No ataque, um ponta veloz, Ferrari. Um meia direita experiente, Franzoni. Um centroavante desbravador, Fortini. Um lançador perfeito e de jogadas limpas, Zamagna e, na ponta esquerda, para consertar todo o time, um experiente Magnani, talvez descendente do mais antigo da família no lugar, o Giacomo Magnani. Para as providências de custeio das despesas, Mantega; para o apoio espiritual, Capella ou, Padovani, nome que tem origem na cidade de Padova do Santo Antônio da Capela do Onça; e, para o caso de comemoração ou, festa, um Adriani, para lembrar o cantor da jovem guarda, Jerry.

Para torneios imaginários, para os jogos de confraternização e para as festas na Igrejinha de Santo Antônio, também não faltavam sobrenomes de imigrantes vindos da cidade e de outros pontos do município. Como, por exemplo, das Palmeiras, terra de Seoldo; de São Lourenço dos Ambri, Gallito, Gottardo, Maragna, Marinato, Mori, Stievano e Zenobi; e, do Arrasta Couro, dos Bartoli.

De Argirita, hoje cidade independente, vinham Cappai, Carminati, Curcio, Gondolo, Nannini e Vitoi, que tomavam lá as suas providências ou, o ônibus da Viação Mineira e chegavam para a festa.

De Piacatuba, o mais antigo distrito da cidade, selavam seus cavalos ou, aprontavam suas “conduções”: Baldan, Bedin, Bertulli, Bogonhe, Bullado, Carmelim,  Fofano, Lazzaroni, Marcatto, Pesarini, Righetto, Sacchetti. Sangirolami e Stefani, seguidos de Lorenzeto e outros habitantes da Vargem Linda que buscando caminhos pelas margens dos tributários do Ribeirão do Banco, passando pela região do Taquaril, chegavam bem dispostos.

Caminhando no sentido contrário ao das águas do córrego Jacareacanga, vinham outros tantos sobrenomes, pisando os dormentes da linha férrea como se degraus fossem ou, utilizando os vagões do ramal da Leopoldina – Vista Alegre. Ferrovia que foi a razão de ter existido a Hospedaria Jacareacanga e a própria Colônia Agrícola da Constança, criada após acordo do governo com as empresas ferroviárias.

Do vizinho distrito de Campo Limpo, hoje Ribeiro Junqueira, o Trem de sobrenomes trazia Bellan, Bigleiro, Binalti, Cattozzi e Crepaldi, Dorigo, Mondin, Pezzolato e Tambasco. E mais Bellavia, Biasucci, Panzavolta e Pellicani, de Recreio, possivelmente embarcados no mesmo trem que trazia o pessoal da estação anterior, São Martinho, de onde vinham Beccari, Beltrani, Borghi, Bortolotti, Facchini, Ferretti, Ropa e Tonelli.

Brincadeiras à parte, posto que são utilizadas apenas para tornar mais agradável a leitura, o que se pretende aqui é lembrar que todos estes e muitos outros sobrenomes italianos povoaram a coluna Trem de História e as que a antecederam nos 20 anos de publicações sobre a história da cidade. E estão aqui, mais uma vez, para lembrar a quantidade e a importância dos imigrantes italianos que viveram em Leopoldina.

E para mostrar que são 6.084 italianos ligados direta ou indiretamente a Leopoldina e que destes, 3.939 possuem vínculo com a cidade devidamente documentado.

São 1.166 sobrenomes italianos, muitos deles perdidos nos seguidos casamentos dos descendentes, mas todos, com certeza, presentes pelo sangue em mais da metade da população da cidade. Motivo de sobra para merecerem uma homenagem, neste mês, quando se comemora os 159 anos do início dessa imigração e desejar a todos que 2019 seja o ano dos preparativos para a festa dos 110 anos da Colônia Agrícola da Constança e os 160 anos da Imigração Italiana para Leopoldina, em abril de 2020.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 378 no jornal Leopoldinense de 16 de abril de 2019

 

17/03/2020: em virtude da pandemia de coronavírus, foram suspensos os preparativos para o ENCONTRO DE DESCENDENTES DOS IMIGRANTES DE LEOPOLDINA. Nova data será oportunamente informada.

Belezas naturais de Leopoldina: Alto de Santa Úrsula

Reportagem fotográfica de João Gabriel Baía Meneghite

Genealogia da Família Dorigo

Segunda edição de estudo realizado por Beth Dorigo e Nilza Cantoni sobre família inicialmente estabelecida em Leopoldina.

Há 100 anos

Em junho de 1919, nasceram em Leopoldina

Dia 3 jun:

Dinalda Rezende Montes e Pedro Machado Vargas

Dia 6 jun:

Climeria Gouvêa e Sebastiana Nogueira da Silva

Dia 24 jun:

Honorio Fofano, Ignacia Pardal e Maximiano Sangirolami

Dia 26 jun:

Joaquim Machado

Dia 28 jun:

Geraldo Zulian

Descendentes de José Gomes Pardal Júnior

Atualização da genealogia da família Pardal, publicada pela primeira vez em abril de 2009.

Primeira geração
  1. José Gomes Pardal Júnior

José casou com Mariana Tereza de Jesus.

Filhos deste casamento:

+         2   M       i.          Manoel Gomes Pardal

+         3   M      ii.          André Gomes Pardal nasceu cerca de 1855 em Trás os Montes, Portugal,1 e faleceu a 12 Mar 1930 em Porciúncula, RJ.2

Segunda geração (Filhos)
  1. Manoel Gomes Pardal (José Gomes Júnior 1)

Manoel casou com Maria Ilidia de Rezende, filha de José de Rezende Barbosa e Mariana Rita de Jesus.

Filhos deste casamento:

+         4   F        i.          Maria Eliza Gomes nasceu cerca de 1893 em Leopoldina, MG.3

5   M      ii.          Avelino Pardal nasceu a 23 Out 1899 em Leopoldina, MG.4

6   F      iii.          Roza Pardal nasceu a 5 Set 1902 em Leopoldina, MG,5 e faleceu a 6 Dez 1902 em Leopoldina, MG.6

7   F      iv.          Izabel Pardal nasceu a 23 Fev 1906 em Leopoldina, MG.7

8   F       v.          Mariana Pardal nasceu a 5 Ago 1908 em Leopoldina, MG.8

9   M    vi.          Francisco Xavier nasceu a 13 Dez 1910 em Leopoldina, MG,9 e faleceu a 9 Dez 1911 em Leopoldina, MG.10

10   F     vii.          Almerinda Pardal nasceu a 31 Dez 1910 em Leopoldina, MG,11 e faleceu a 3 Ago 1913 em Leopoldina, MG.12

11   F    viii.          Ignacia Pardal

  1. André Gomes Pardal (José Gomes Júnior 1) nasceu cerca de 1855 em Trás os Montes, Portugal,1e faleceu a 12 Mar 1930 em Porciúncula, RJ.2

André casou com Perpétua Maria Pardal, filha de José Gomes da Cruz e Helena Maria. Perpétua nasceu cerca de 1851 em Trás os Montes, Portugal,1 e faleceu em 1929.1

Filhos deste casamento:

12   F        i.          Maria Gomes Pardal nasceu antes de 1892 em Trás os Montes, Portugal.1

+       13   M      ii.          Manoel Gomes Pardal sobrinho nasceu em Porciúncula, RJ,1 e faleceu em Mimoso do Sul, ES.1

14   F      iii.          Perpétua Gomes Pardal

15   M    iv.          Afonso Gomes Pardal nasceu em 1894 em Porciúncula, RJ.1

Terceira geração (Netos)
  1. Maria Eliza Gomes (Manoel Gomes 2, José Gomes Júnior 1) nasceu cerca de 1893 em Leopoldina, MG.3

Maria casou com Frederico Cintra Rodrigues da Costa, filho de Alexandre Herculano Rodrigues da Costa e Francisca Cintra da Costa,  a 7 Jun 1910 em Leopoldina, MG.3 Frederico nasceu cerca de 1889 em Leopoldina, MG.3

Filho/a deste casamento:

16   M       i.          Ubirajara nasceu a 8 Jun 1915 em Leopoldina, MG.13

  1. Manoel Gomes Pardal sobrinho (André Gomes 2, José Gomes Júnior 1) nasceu em Porciúncula, RJ,1e faleceu em Mimoso do Sul, ES.1

Manoel casou com Maria Joana da Silva, filha de Valdevino Cezario da Silva e Raymunda Joana. Maria nasceu a 28 Out 1893.14

Filho/a deste casamento:

17   F        i.          Nair Pardal

 

Citações de fontes
  1. Informações prestadas por Colaboradores, José Luiz Pardal
  2. Informações prestadas por Colaboradores, Luís Salvador Poldi Guimarães.
  3. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 5 cas fls 91 termo 38.
  4. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 08 bat fls 46v termo 41.
  5. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 09 bat fls 93 termo 354.
  6. Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 1 1896-1903 fls 39 reg 11652.
  7. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 11 bat fls 30 termo 109.
  8. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 12 bat fls 16 termo 245.
  9. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 13 bat fls 23 termo 27.
  10. Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 37 plano 3 sep 786.
  11. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 13 bat fls 90v termo 11.
  12. Cemitério Nossa Senhora do Carmo, Leopoldina, MG, lv 2 fls 53 sep 497.
  13. Arquivo da Diocese de Leopoldina, lv 15 bat fls 90v termo 358.
  14. Informações prestadas por Colaboradores, Daniela Pardal

Há 100 anos

Em maio de 1919, nasceram em Leopoldina

Dia 3 mai:

Maria das Dores

Dia 8 mai:

Zina Zamagna

Dia 18 mai:

Dinorah Tavares Machado e Sebastião Bolzoni

Dia 24 mai:

Francisca Bartoli

Dia 25 mai:

Abigail Dutra

Dia 26 mai:

Elza

Dia 27 mai:

Dalvina

Dia 30 mai:

Augusto Fontanella

123 – Fontes das Informações

Resgatar a história da cidade e, por via de consequência, a Imigração Italiana em Leopoldina, tem sido um trabalho prazeroso. Principalmente quando se olha para o conhecimento sobre a população leopoldinense que se conseguiu ordenar e disponibilizar para pessoas que quase nada sabiam sobre o passado da cidade e das famílias que aqui se instalaram.

Mas hoje o Trem de História quer fazer um registro importante. Quer deixar claro que é reconhecida a impossibilidade de se retratar fielmente todo o passado, uma vez que, por mais que se controle a análise dos documentos, ela é sempre orientada pelo presente, ou seja, pela interpretação que o pesquisador é capaz de fazer dos vestígios que consegue recuperar. Está sempre sujeita a novas descobertas e interpretações.

Como recorda o mestre francês Marc Bloch[1], “o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa”.

Através de pistas fornecidas pelos colaboradores, foi possível fazer uma comparação entre as citações encontradas nas fontes. Inclusive, e isto é de enorme importância, entrevistas indicaram caminhos para se identificar transformações sofridas por grande número de sobrenomes.

Nunca será excessivo mencionar dois exemplos clássicos encontrados nos documentos pesquisados. Num deles, um italiano aparece no registro de estrangeiros com o nome de Severino Terceira, nome que dificilmente seria original. O outro exemplo é o de Sancio Maiello que noutras fontes se transformou em Francisco Ismael.

Além disso, nos últimos oito anos foi possível ter acesso a documentos italianos que apresentam grafia diferente para nomes e sobrenomes registrados em outras fontes também produzidas no país de origem do imigrante, confirmando que a divergência de grafia existiu tanto lá quanto cá.

De qualquer forma, permanece em vigor a determinação metodológica, do início da pesquisa, de utilizar a grafia encontrada na fonte mais antiga e estendê-la a todos os membros do grupo familiar. Isto se deve à total impossibilidade de manter todas as variações num universo tão amplo de pessoas. Afinal, o trabalho intenta abordar os imigrantes que chegaram a Leopoldina entre 1860 e 1930, identificados nas fontes disponíveis.

É certo que não foram poucos os casos em que um mesmo personagem apareceu com diversas formas de nomes. E somente após inúmeras comparações foi possível reuní-los sob um único sobrenome. Provavelmente mais ainda o serão, quando outros estudiosos se dedicarem ao assunto.

Por outro lado, muitos leitores se surpreendem com algumas ocorrências frequentes. Na maioria das vezes resultado do anacronismo, ou seja, de se olhar o passado sob a ótica atual. As pessoas não compreendem que o registro civil, seja de nascimento, casamento ou óbito, não é a melhor fonte para o período estudado. Há inúmeros casos em que a data de nascimento no registro civil é posterior à data do batismo, como se fosse possível batizar a criança no ventre da mãe ou até mesmo antes de ser gerada. Diversos, também, são os casos de casamento civil muitos anos após o nascimento dos filhos, como se os pais fossem solteiros. E pessoas se manifestam de forma pouco cortês quando não encontram o registro de óbito no cartório da localidade onde ocorreu a morte.

Mas há justificativas para os três casos, como se verá.

Sobre o registro civil de nascimento, basta lembrar que até fevereiro de 1931 havia cobrança de multa por atraso. É fácil concluir que, para evitar o pagamento da multa, era comum alterar a data do nascimento.

Com o Decreto Lei 1.116, de 24 de fevereiro de 1931, ficou estabelecido em seu Art. 1º que “Os nascimentos ocorridos no país desde 1º de janeiro de 1879 e não registados no tempo próprio deverão ser levados a registo até 31 de dezembro do corrente ano”.

Este decreto esclarece, de uma só vez, duas situações. A primeira, que o registro civil no Brasil não foi implantado com a República. E que os registros realizados a partir deste normativo poderiam conter enganos de data e local, já que eram feitos com base em informações orais.

Quanto ao casamento, foi observado que o registro civil acontecia nos casos em que os noivos residiam próximo ao cartório ou, em casos menos frequentes, quando o oficial se deslocava até alguma fazenda e ali registrava vários eventos no mesmo momento.

Há, ainda, relatos de que os trabalhadores não podiam arcar com os custos cobrados pelos cartórios, o que também justificaria a inexistência ou demora no registro.

Já para a falta de registro de óbito, diversos oficiais de cartório informam a ausência deles para um período relativamente longo. Há várias explicações possíveis, entre elas as mortes e sepultamentos ocorridos longe das áreas urbanas.

De todo modo, e ainda reforçando a metodologia definida desde o início da pesquisa, foi dada prioridade aos assentos paroquiais relativos a eventos ocorridos no Brasil. Para os italianos, sempre que possível se recorreu aos Archivi di Stato, instituições que guardam os registros de nascimento, casamento e óbito em solo italiano, entre outros documentos.

E que fique claro: nenhuma das distorções justificaria abandonar a ideia de continuar com o resgate da história.

Por hoje o Trem de História fica por aqui. Na próxima edição ele trará algumas informações sobre a movimentação dos imigrantes dentro de Leopoldina e, também, para fora dela. Até lá!


Nota 1: BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p.75

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 376 no jornal Leopoldinense de 16 de março de 2019