A estrada de ferro Alto-Muriaé

Outro fator a acelerar a urbanização do então Arraial Novo foi a estrada de Ferro Alto-Muriaé. Segundo o relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, de 4 de maio de 1881 o presidente da Companhia Estrada de Ferro Alto Muriaé, Dr. Custódio José da Costa Cruz, informou que no dia 5 de janeiro daquele ano a Companhia foi instalada, com o fim de executar o contrato assinado com a Província em 11 de agosto de 1879. Trata-se do contrato para construção de uma linha férrea entre a Estação do Recreio e o povoado de São Francisco do Glória.

Observa-se que decorreram dois anos entre a assinatura do contrato de concessão e a organização da companhia construtora. A partir de então, e segundo o mesmo documento, entre janeiro e abril de 1881 foram “explorados e estudados 6 (seis) quilômetros da nova estrada, entre a Estação do Recreio e o Capivara”. Parece claro que construção da estrada só teria sido iniciada posteriormente, já que no relatório seguinte, de 12 de dezembro de 1881, o presidente da Província informa que aprovou os estudos sobre os primeiros 29 quilômetros da ferrovia Alto-Muriaé.

Confirmando tais informações, o relatório da Presidência da Província, de 1 de agosto de 1882, informa que naquele ano foram iniciados os trabalhos de construção dos 29 quilômetros da estrada, a partir da Estação do Recreio. Acrescente-se que somente em 1885, por ocasião da urbanização das terras da Fazenda Laranjeiras no Arraial Novo, surgem referências sobre esta ferrovia nos livros cartoriais de Conceição da Boa Vista.

Maria Vale: centenário de nascimento

Nasceu em Leopoldina no dia 21 de dezembro de 1911, filha de João Rodrigues Vale e Odilia Dutra.
Sua mãe era bisneta do povoador João Teixeira Marinho

O Arraial Novo e a Estação

Consultando os livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista relativos ao período 1869 a 1885, constatamos que a partir de 1877 começam as referências ao “Arrayal Novo que se está fundando neste Distrito”. Procurando as origens deste povoado, fizemos algumas buscas em documentos relativos à Estrada de Ferro Leopoldina, que seria a origem da atual cidade de Recreio.

A autorização para construir a estrada de ferro ligando Porto Novo do Cunha a Leopoldina veio com a Lei Mineira nº 1826, de 10 de outubro de 1871. Três anos depois, em outubro de 1874, foram inauguradas as estações de Porto Novo e Volta Grandre. Mais um ano e meio e, em dezembro de 1874, inaugurava-se a estação de Providência, de onde partiriam os trilhos para atingir Conceição da Boa Vista. Em agosto de 1876 foi inaugurada a estação de Campo Limpo, atual Ribeiro Junqueira. Sendo assim, os trilhos teriam cruzado o território do atual município de Recreio entre 1874 e 1876 e não parece viável que a Estação do Recreio tenha começado a operar em julho de 1874, como informa o site da Prefeitura Municipal de Recreio.

Para avalizar nossa opinião, além dos registros de transmissão de propriedade consultamos os relatórios da presidência da Província de Minas Gerais. Assim é que soubemos que no ano de 1875 foram concluídos os 59 km que ligavam Porto Novo do Cunha a Santa Isabel, hoje Abaíba.
Pelo contrato de 3 de maio de 1875, ficou estabelecido, em seu artigo 1º, que

“do ponto onde estão concluidos os trabalhos de construcção irá até ao Boqueirão dos Bagres, e d’hai, bifurcando-se, se estenderá, por um lado, até a Cidade da Leopoldina, e por outro até a Villa Cataguazes, antigo arraial de Santa Rita do Meia Pataca”.

Entendemos, portanto, que os trilhos foram assentados na região de Recreio entre maio de 1875 e agosto de 1876.

 

O nome da Estação do Recreio

É também de fonte oral a informação de que Inácio Ferreira Brito não gostava que dissessem que ele era proprietário da Fazenda das Laranjeiras, sempre alegando que esta era propriedade de seu irmão Francisco. Contam que, na tentativa de fixar o nome de sua propriedade – a Fazenda do Recreio, Inácio pediu que a Estação do ramal ferroviário recebesse o nome de Estação do Recreio.Pelo que pudemos apurar nos livros do Cartório de Notas de Conceição da Boa Vista, as duas propriedades – Laranjeiras e Recreio, eram vizinhas. Mas todas as referências à ferrovia, constantes nos livros do cartório, indicam que “deviza com terras da Fazenda das Larangeiras, de propriedade de Ignacio Ferreira Brito e sua mulher, Mariana Ozória de Almeida”

O surgimento do Arraial Novo, Recreio, Minas Gerais

É conhecida a versão sobre a criação do Arraial do Recreio a partir da negativa dos proprietários da Fazenda de São Mateus, impedindo que os trilhos do ramal ferroviário chegassem a Conceição da Boa Vista, o antigo Curato que foi elevadoa Distritode Paz pela Lei533 de 10 de Outubro de 1851. Para solucionar o impasse, os irmãos Inácio e Francisco Ferreira Brito, proprietários da Fazenda das Laranjeiras, ofereceram suas terras para a passagem da ferrovia.

Procuração de Imigrantes

Aqui está mais um documento do Arquivo da Câmara Municipal de Leopoldina, que infelizmente ainda não se encontra disponível para consulta. Trata-se de uma procuração passada no Cartório de Notas de Pirapetinga, MG por Giuseppe Vincenzo Mercadante e sua mulher Marina Dause.

Transcrição:

Procuração bastante que fazem José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause como abaixo se declara. Saibão quantos este publico instrumento de Procuração bastante virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e oitenta aos dose dias do mes de Março do dito anno, nesta Freguesia de Santa Anna do Pirapetinga, termo de Leopoldina Provincia de Minas em meu cartorio perante mim escrivão de Paz deste Freguesia comparecerão como Outhorgantes José Mercadante e sua mulher Dona Marianna Dause moradores deste Freguesia e reconhecidos de mim Escrivão e das duas testemunhas ao diante assignadas ao que dou fé; perante ao quaes por elles me foi dito que nomeavão seu bastante Procurador na Italia a Mighel Detrick para por elles Outhorgantes passar e assignar conseção e licença que elles Outhorgantes consedem para seu filho Antonio Mercadante casar-se com Dona Rosa Demark filha de Vicente Dimak e Francisca Ragaon por ser muito de suas vontades para que lhe consede os poderes que forem precisos. Assim o disserão ao que dou fé; e me pedirão este instrumento que lhe li aceitarão e por elles Outhorgantes não saberem escrever pedirão a Antonio Botelho de Lima que a seus rogos asssignasse com as testemunhas presentes e abaixo assignadas, deste Freguesia e reconhecidas de mim José Victor Ramos, escrivão que a escrevi e assigno em publico e raso. Em ttº de verd. José Victor Ramos Antonio Botelho de Lima Testª Serafim Alves da Costa Francisco Jose Pires

Livro do Cartório de Notas de Pirapetinga, MG, relativo ao período 12.1879 a 07.1880, folhas 29 verso e 30

Nova edição da Revista Patrimônio e Memória

O volume 7, nr. 2, dezembro de 2011 desta revista já está disponível neste endereço.

Gostei muito do artigo Uma austríaca visita o Rio de Janeiro de 1847, de Luiz Barros Montez. Com o subtítulo Exame do Relato de Ida Pfeiffer sob uma ótica transcultural, o autor desenvolve o texto sob o seguinte viés:

“os relatos de viajantes vão sendo percebidos como ações discursivas que, tendo sido concebidas, postas em circulação e absorvidas em contextos históricos particulares, consubstanciaram estratégias de poder, ou seja, representaram práticas sociais relevantes que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não se encerraram num passado histórico considerado extinto, mas se projetam discursivamente na contemporaneidade.”

Por que os primeiros prefeitos de Recreio foram indicados?

Recreio teve sua emancipação político-administrativo assinada aos 17 de dezembro de 1938. A partir de 1° de janeiro de 1939 o território deixou de ser subordinado politicamente ao Município de Leopoldina, mantendo-se dependente apenas na esfera judiciária.
Nesta época o Brasil era regido pela Constituição do Estado Novo, promulgada durante a presidência de Getúlio Vargas, que chegou ao poder pela Revolução de 1930, tendo sido deposto em 1945. Para entender o motivo pelo qual os quatro primeiros prefeitos de Recreio foram indicados e não eleitos, interessa-nos analisar apenas o período 1938/1945. Naquele momento éramos a República dos Estados Unidos do Brasil, a capital (distrito federal) era o Rio de Janeiro, a moeda passou do Réis (Rs$) para o Cruzeiro (Cr$) em 1942 e o estado de Minas Gerais era governado por Benedito Valadares, que permaneceu no poder entre 1933 a 1945.
Segundo a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1945, no Artigo 27:
“O Prefeito será de livre nomeação do Governador do Estado”.
Benedito Valadares fora nomeado por Getúlio Vargas e cabia-lhe a indicação dos prefeitos municipais, ou seja, tudo na base da coligação política. Sendo assim, em Recreio chegaram ao poder, por indicação de Benedito Valadares, os seguintes chefes do executivo municipal: Modesto Faria; José Simão de Almeida; Rossini de Minas; e, por último, Rafael da Costa Cruz Figueira.
Com o fim do Estado Novo as eleições diretas voltaram e, aos 26 de outubro de 1947, Recreio elegeu seu primeiro prefeito por voto direto: Darcy Nunes Miranda.
Leonardo Ribeiro da Silva
Graduado em História pela Faculdades Integradas de Cataguases
Pós-graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora
Fotografias feitas pelo autor, na galeria da Prefeitura Municipal de Recreio.
Modesto Faria
José Simão de Almeida
Rafael da Costa Cruz Figueira
Não foi encontrada imagem do terceiro prefeito, Rossini de Minas.

Francisco Silva: centenário de nascimento

Nasceu em Leopoldina no dia 17 de dezembro de 1911, filho de Antônio Maurício da Silva e Emília dos Reis Coutinho.
Sua mãe era filha de Moisés dos Reis Coutinho, residente em Leopoldina desde o início da década de 1870.

“De vm ce amigo, servo, venerador…”: comentários sobre o sujeito histórico e a escrita epistolar nas Minas setecentistas

Paulo Miguel Fonseca

RESUMO

O presente texto visa contextualizar as discussões relativas à ação do sujeito histórico e as dinâmicas frente aos sistemas normativos na construção da escrita da História. Para isso, iremos analisar o papel do sujeito como autor e a relação com o produto de seu trabalho. A título de estudo de caso, buscaremos dissecar a correspondência do colono mineiro Paulo Pereira de Souza, comerciante de secos e molhados que atuou na capitania de Minas Gerais nas décadas de 1750 e 1760. É, pois, a partir de Paulo Pereira que procuraremos identificar as variadas formas de narrativa e expressão, que naturalmente geram diferentes percepções do historiador.

Palavras-chave: epistolografia, Minas Gerais, Brasil, Paulo Pereira de Souza.

Varia Historia – “De vm ce amigo, servo, venerador…”: comentários sobre o sujeito histórico e a escrita epistolar nas Minas setecentistas