Augusto dos Anjos por Júlio Caboclo

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O Trem de História continua nos trilhos das Homenagens pelo Centenário da Morte de Augusto dos Anjos. Hoje, trazendo no vagão mais um pouco da história e a visão de um dos maiores divulgadores e grande incentivador do culto à obra do poeta paraibano: o professor e poeta Júlio Ferreira Caboclo, em suas aulas no Ginásio Leopoldinense e nas matérias publicadas em diversos jornais e revistas.

De início é bom lembrar que a história de Júlio Caboclo como professor, embora ainda incompleta, parece ter tido início quando desembarcou no Rio de Janeiro, com aproximadamente vinte anos em busca de “uma colocação”, conforme declarou à Polícia Política de Minas Gerais anos mais tarde.

Ainda conforme declarado à Polícia, poucos meses depois conseguiu emprego de professor no Colégio Ítalo-Brasileiro, de Santo Antônio de Pádua, RJ e por volta de 1922 passou a lecionar no então Ginásio Leopoldinense.

E em Leopoldina Júlio Caboclo passou a estimular o culto à obra e à pessoa de Augusto dos Anjos. De tal modo o fez, que se tornou uma figura indissociável da trajetória de Augusto dos Anjos entre a juventude leopoldinense. Os textos que produziu sobre o “rapaz de cérebro de ouro” conforme escreveu na seção Caixilhos, da Fon-Fon de 30 de outubro de 1926, o confirmam.

Além disto, no ano anterior, mais precisamente no dia 25 de junho de 1925, foi Júlio quem ajudou a fundar o Grêmio Lítero-Artístico Augusto dos Anjos, segundo a Revista Brasil Progresso, do Rio de Janeiro, edição de setembro 1925, do qual foi o primeiro presidente. E foi com o apoio dele que, para comemorar o décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, em 1926, o Grêmio promoveu uma romaria ao túmulo e uma sessão solene que incluiu a denominada Missa de Arte, na qual falaram vários oradores, entre os quais Erymá Carneiro (então acadêmico de Direito), Gerardo Majella Bijos, Antônio Pedro Braga, Francisco Eufrosino dos Santos e outros estudantes do Curso de Farmácia do Ginásio Leopoldinense.

Vale recordar que, naquela época, algumas pessoas do grupo acima citado lançaram a ideia de transferir as cinzas de Augusto dos Anjos para a sua terra natal, na Paraíba. Mas esta ideia não recebeu apoio da maioria, ficando sem efeito a proposta de buscar ajuda política para realizar o intento. Tal atitude, entretanto, parece ter sido estimulante no sentido de fazer nascer entre os leopoldinenses um maior apreço pelo poeta que tão pouco tempo viveu na cidade, mas que se tornou parte integrante da nossa história.

Fato curioso é que a notícia sobre as homenagens pelo décimo segundo aniversário de morte de Augusto dos Anjos, que saiu no jornal O Brasil, de 17 de outubro de 1926, traz alguma semelhança com os diversos eventos que foram realizados em vários novembros desde que o poeta passou para outra esfera. A própria celebração de missa com acompanhamento de cânticos sacros, organizada em 1926, tendo à frente Júlio Caboclo, foi uma ideia que se tentou reviver com a Missa em Latim deste ano do centenário de morte.

Antes, em 1924, em homenagem ao décimo ano de falecimento, segundo o periódico O Brasil, do Rio de Janeiro, edição de 22 de novembro de 1924, Júlio Ferreira Caboclo fizera publicar um texto que permanece desconhecido por especialistas da atualidade em função de ter saído com um erro de impressão no nome do autor, corrigido em nota da edição seguinte, onde afirmava:

“Augusto dos Anjos pertencia ao número dessas naturezas singulares cuja imperfeição procede de uma posse incompleta de si mesmas, mas pela razão de que nelas essa posse se torna mais difícil e tardia dos que nos casos mais comuns. Elas são o inédito propriamente dito; para se revelarem passam por todas as torturas e incertezas, todos os erros e descaminhos dos que vêm para descobrir um novo mundo.”

Palavras que nos trazem um pouco da dimensão que o poeta do EU deixou em Júlio Ferreira Caboclo que, por sua vez, impressionou não só os alunos em quem estimulou o culto da obra de Augusto dos Anjos como a nós, que quase cem anos depois nos debruçamos sobre os textos que escreveu e nos sentimos como Miguel Torga tão bem expressou: “Embora de carne e osso, parecia-nos mitológico”.

O Trem de História precisa terminar por aqui. E com ele encerrar a série de artigos em comemoração ao centenário da morte do poeta paraibano. Mas se for do interesse do leitor conhecer um pouco mais sobre o Poeta da Morte e sobre o seu grande divulgador, fica a sugestão para uma visita ao Museu Espaço dos Anjos, ali na Rua Cotegipe, onde morou Augusto dos Anjos. Porque ali se pode compulsar o material disponível sobre Augusto dos Anjos e Júlio Ferreira Caboclo e conhecê-los ainda melhor. No próximo Jornal o Trem de História retornará aos trilhos da Imprensa em Leopoldina e espera continuar contando com a atenção de seus leitores. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de dezembro de 2014

Júlio Caboclo, o divulgador do poeta.

Marca da Coluna Trem de História

O Trem de História de hoje continua correndo os trilhos do Centenário de Augusto dos Anjos. Agora para falar um pouco sobre o professor Júlio Ferreira Caboclo, um dos grandes divulgadores e incentivadores do culto à obra de Augusto dos Anjos, seja em sala de aula ou escrevendo matérias para jornais e revistas.

Júlio Ferreira Caboclo que, segundo seu título de eleitor nasceu em 25.09.1901 em Manaus, AM, era filho de José Liberato Ferreira Caboclo e Maria Eliza Ferreira e sua história começa a ficar mais conhecida a partir do momento em que foi admitido como professor em Santo Antônio de Pádua, RJ.

De Pádua ele se transferiu para Leopoldina, por volta de 1922, onde passou a lecionar português, francês, geografia e história no então Ginásio Leopoldinense e foi descrito por Miguel Torga, poeta e médico português que foi seu aluno no Ginásio Leopoldinense, como sendo: “todo teso, pequenino, a ensinar os verbos franceses, metido no colarinho engomado, com as entradas do cabelo mais subidas ainda”.

Foi um dos fundadores e presidente do Grêmio Litero-Artístico Augusto dos Anjos, em 23.06.25, em Leopoldina, segundo o jornal O Paiz de 20 de agosto e a Revista Brasil Progresso na edição de setembro do mesmo ano, ambas as publicações do Rio de Janeiro.

Em Leopoldina Caboclo conheceu Esther Fialho, viúva de Augusto dos Anjos e com ela se casou em 16 de agosto de 1923, em Leopoldina.

Vale lembrar que, ao se casar com Júlio, Esther Fialho tinha um casal de filhos, Glória e Guilherme Augusto, do seu casamento com Augusto dos Anjos. Com Júlio teve as filhas: Selma, nascida em 1924 e Elida em 1925, ambas nascidas em Leopoldina e, Maria Elisa, em São João Nepomuceno, nascida em 21.05.31 e falecida em 06.06.31, quatro dias depois da morte de Esther Fialho.

Viúvo, com duas filhas menores e dois enteados do primeiro casamento de Esther, Júlio casou-se segunda vez com Lygia de Macedo Cerqueira em 21.06.33 em São João Nepomuceno, e com ela teve as filhas Guaynubi em 1934 e Apalaís em 1936, nascidas em Nova Friburgo, e o filho Júlio César Cerqueira Caboclo nascido em São João Nepomuceno em 1943.

Em 1938, em carta resposta enviada de São Paulo ao amigo Blair de Abreu, residente em São João Nepomuceno, Júlio Caboclo se mostra um homem angustiado, acossado, com saudades da mulher e das filhas e se declara uma pessoa “incontentável, que nasceu fora da época ou, noutros intermúndios”. Na mesma carta declara ainda ter ido “à missa pela manhã” e completa: “Reconciliei-me com a igreja. Estou feliz e satisfeito com a consciência. Posso lançar o brado para a grande batalha. Numa das mãos o sigma. Na outra a Cruz de Cristo”.

Membro da Ação Integralista Brasileira, cujas atividades foram proibidas pelo Decreto-Lei nº 37, no rastro dos efeitos da Constituição Brasileira conhecida como Polaca, promulgada a 10.11.37, Júlio Ferreira Caboclo era um verdadeiro soldado sempre pronto para a batalha. Foi preso e perseguido político.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de novembro de 2014

Centenário de Morte de Augusto dos Anjos – II

Coluna Trem de História no jornal Leopoldinense

A FAMÍLIA DO POETA

Trilhando ainda pelas terras da Paraíba, o Trem de História recolhe os retalhos de um imaginário proclama do casamento realizado a 04 de junho de 1910, na residência da mãe da noiva, em João Pessoa (PB), na Rua Duque de Caxias, onde se uniram Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho, e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos com a senhorita Esther Fialho, que adotou o nome de Esther Fialho Rodrigues dos Anjos, filha de Agnello Candido Lins Fialho e Michelina Amelia Monteiro Fialho, conforme certidão extraída do livro 9, casamentos, fls. 310-312, termo 1412, do Cartório de Registro Civil de João Pessoa (PB).

Ele nascido a 20 de abril de 1884 no Engenho do Pau D’Arco, e batizado no dia 27 de fevereiro de 1885 na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu, PB e ela nascida no dia 21 de novembro de 1887 e batizada aos 22 de fevereiro de 1888 em João Pessoa (PB).

Foram testemunhas do casamento civil: Arthur de Carvalho Rodrigues dos Anjos (29 anos), promotor público e irmão do noivo; Rômulo de Magalhães Pacheco (27 anos) e sua esposa Olga Fialho Pacheco, irmã da noiva; Orestes de Azevedo Cunha (54 anos); Joaquina Monteiro da Cunha; e, Maria José Fernandes dos Anjos.

Assinaram, também, Francisco Xavier Júnior; Aprigio de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo; Alfredo de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo e que veio a ser Juiz Municipal em Carmo do Paranaíba (MG); José Antonio de Figueiredo; Carlos de Carvalho Rodrigues dos Anjos, irmão do noivo; e, Brazilino Pereira Luiz Wanderley Filho.

Alexandre Rodrigues dos Anjos Filho nasceu em 09.05.1850 no Recife (PE) e faleceu 13.01.1905, segundo o Jornal A Província de 17.01.1905, página 2. Era filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e Francisca Augusta Xavier Camello Pessoa. Casou-se com Córdula Fernandes de Carvalho, nascida em 25.08.1855 e falecida em 04.08.1933, em João Pessoa (PB), filha de João Antonio Fernandes de Carvalho e Juliana Ludugério no dia 09.10.1875 no Recife (PE). Alexandre Filho bacharelou-se em direito, no Recife, em 1872. Segundo o obituário publicado no jornal A Província, do Recife, “logo que se formou exerceu os cargos de promotor público em Granja (CE), depois, em Aracahú (Aracati?) (CE), em Atalaya (AL), em Pedra de Fogo (PB) e, Juiz Municipal em Ipú (CE)”. Todos estes cargos desempenhados com proficiência e honestidade. Posteriormente deixou a magistratura e passou a dedicar-se à vida de agricultor. Sua esposa, Córdula, em 1899 era proprietária de Engenho de Açúcar, na Paraíba.

Augusto e Esther geraram três filhos. O primeiro deles morreu prematuro, aos sete meses. A segunda, Glória, nascida no Rio de Janeiro (RJ) e falecida em 10.10.1977 na mesma cidade. Foi casada com Antonio Cruz e o casal não deixou descendentes.

O terceiro, Guilherme, segundo o Arquivo da Diocese de Leopoldina, livro de batismos no 15, fls. 55, termo 5, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 12 de junho de 1912 e foi batizado em Leopoldina (MG), no dia 05 de janeiro de 1915. Casou-se com Carmen Pena.

Ainda conforme o Arquivo da Diocese de Leopoldina, os padrinhos de Guilherme foram o senhor Joel Esdras Lins Fialho representado pelo Dr. Rômulo de Magalhães Pacheco e Michelina Amélia Monteiro Fialho, avó materna. Registre-se que o batizado de Guilherme ocorreu após a morte do pai e que o seu padrinho foi representado pelo marido da tia materna, Olga Fialho.

Augusto dos Anjos, como é bem sabido, faleceu em Leopoldina (MG) no dia 12 de novembro de 1914. Quase nove anos após enviuvar, Esther se casou com o professor Júlio Ferreira Caboclo no dia 16 de agosto de 1923, em Leopoldina. Deste segundo casamento teve três filhas: Selma, Elisa e Maria Elisa que faleceu com 15 dias de idade.

Mas a continuação do assunto virá em outra viagem do Trem de História.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de novembro de 2014

Centenário de Morte de Augusto dos Anjos – I

Coluna Trem de História no jornal Leopoldinense

DESENTENDIMENTO COM O GOVERNADOR DA PARAÍBA

O Trem de História de hoje toma o rumo do nordeste e vai ao Engenho do Pau D’Arco, no município de Sapé e a João Pessoa, na Paraíba, para homenagear o poeta Augusto dos Anjos no centenário de sua morte. Desvia por ora da história da Imprensa em Leopoldina para contar um pouco sobre a vida do Poeta da Morte. Mais especificamente, para falar sobre um episódio aparentemente corriqueiro, mas que contribuiu para a vinda do poeta para o Rio de Janeiro e, dali, para Leopoldina, onde mais tarde seu corpo foi sepultado.

Como é sabido, Augusto dos Anjos nasceu no Engenho do Pau D’Arco, na zona rural do município de Sapé, na Paraíba, onde existe hoje a Comunidade Usina Santa Helena que conserva o Memorial Augusto dos Anjos, no dia 20 de abril de 1884 e foi batizado na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos em São Miguel de Taipu.

Aprendeu as primeiras letras com o pai, advogado, ainda no Engenho onde moravam. Posteriormente estudou no Lyceu Paraibano. Segundo o seu biógrafo, Órris Soares, em Elogio de Augusto dos Anjos, na página 23 do livro Eu e Outras Poesias, o menino Augusto “Descia do Pau d’Arco, sombrio engenho de açúcar plantado na aba do Rio Una, vindo prestar exame no Lyceu”. Cursou a Faculdade de Direito do Recife onde se bacharelou em 1907, mas nunca advogou. Retornou para João Pessoa onde passou a lecionar português no Lyceu e a dar aulas particulares de literatura brasileira.

Em 1910, devido a um desentendimento com o governador teria se afastado do cargo de professor do Lyceu Paraibano. Embora não se tenha, ainda, a razão exata deste desentendimento, faz sentido supor ter tido origem em algum fato decorrente das medidas de João Lopes Machado, que governou a Paraíba de 28.10.08 a 22.10.12, e que atingiram diretamente o Lyceu Paraibano.

Por este modo de pensar, a leitura da Mensagem do Presidente da Paraíba João Lopes Machado, para a Assembleia Legislativa do Estado em 01 de setembro de 1909, na qual ele aborda as medidas que julga necessárias para melhorar a qualidade do ensino no estado, talvez possa trazer alguma luz. Este documento está disponível na Hemeroteca Nacional <http://memoria.bn.br&gt;.

Destaque-se que o problema no Lyceu foi posterior à pretendida reforma sugerida por João Machado, a qual tratava tão somente da realocação do ensino primário, secundário e profissional, estabelecendo critérios que determinavam o que seria de alçada do município e o que ficaria a cargo do estado.

Dois anos depois veio a denominada “reforma federal” que pretendia reorganizar o ensino para que voltasse a ter as garantias da equiparação do Lyceu com o Ginásio Nacional. Na mensagem de 01 de setembro de 1911, na pag. 21, consta que estava em processo a “recente reforma federal” que intentava “adaptá-lo a um instituto inteiramente preparado para ministrar um ensino fundamental e prático, de maneira que se torne aproveitável aos que pretenderem se matricular nos cursos superiores e aos que aspirarem somente as noções indispensáveis para o exercício de qualquer profissão”.

Da leitura desses relatórios vê-se que pode estar por aqui o motivo do desentendimento de Augusto dos Anjos com o governador. Do relatório seguinte, de 1913, página 8, extrai-se: “O corpo docente corresponde em toda a altura às exigências do ensino moderno, sendo que as últimas nomeações dos Drs. Álvaro Pereira de Carvalho, Manoel Tavares Cavalcanti, Afonso Rodrigues de Souza Campos e Coronel João de Lyra Tavares não mentiriam à mais rigorosa expectativa, se tivessem de lecionar nos mais adiantados centros do país.” E do jornal O Paiz, de 23 de novembro de 1912, página 6, complementa-se: “Em virtude da reforma, o governo nomeou hoje lentes do Lyceu Parahybano o coronel João Lyra, para a cadeira de contabilidade comercial; o Dr. Ascendino Cunha, para inglez; o Dr. Alvaro de Carvalho, para italiano, e o Dr. Tavares Cavalcanti, para direito comercial e economia política. As demais cadeiras foram preenchidas pelos lentes antigos,”

É verdade que nas listas de pessoal efetivo do Lyceu, publicadas no Almanaque da Paraíba, Augusto dos Anjos não aparece como professor da Instituição em 1911 e 1912. Diz a autora do romance A Última Quimera que o poeta concorreu na seleção para a cadeira de história da literatura em 1912 e não foi escolhido, sendo o lugar dado a um apaniguado de Cazuza Trombone que parece ser apelido de algum político. Segundo a romancista, o escolhido jamais tomou posse e Augusto foi chamado para exercer o cargo como interino.

Fato é que, com o ocorrido, perdeu a Paraíba e ganhou a terra do Trem de História que recebeu o poeta de braços abertos na estação de verdade da Estrada de Ferro da Leopoldina, e entregou a ele a direção do Grupo Escolar que posteriormente recebeu o nome Ribeiro Junqueira.

Mas a continuação do assunto virá em outra viagem a ser contada no próximo Jornal.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 16 de outubro de 2014

9 – O Leopoldinense Pioneiro

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No vagão anterior falou-se dos diversos jornais que utilizaram o nome “Leopoldinense”. Neste, o trem de história reitera alguns pontos apurados sobre o jornal O Leopoldlinense lançado pelo Alferes Francisco da Costa Sobrinho em 01 de janeiro de 1879, o primeiro periódico que circulou na cidade e, por via de consequência, o primeiro a usar este nome.

De início, para colocar o trem na linha e desfazer o equívoco registrado por Luiz Eugênio Botelho no seu livro “Leopoldina de Outrora”, é necessário que se esclareça que Luiz Botelho Falcão não lançou O Leopoldinense em 1879 conforme afirma o autor. As edições do próprio jornal, consultadas para este trabalho, dão conta de que Botelho Falcão só assumiu o periódico alguns anos depois da sua fundação. E esteve à frente dele por cerca de dois anos, ao final dos quais, em 1894, o vendeu a Randolpho Chagas e Valério de Rezende.

Feito este esclarecimento, que se coloque lenha na caldeira para que o trem prossiga com a história. E diga-se que O Leopoldinense aqui estudado trazia nas suas primeiras edições o subtítulo: “Consagrado aos Interesses dos municípios de Leopoldina e Cataguases”. A partir do seu segundo ano de existência este subtítulo foi alterado para informar que o periódico passou a ser “Dedicado à Causa Pública”, embora continuasse com os mesmos posicionamentos e com a mesma equipe editorial.

Mais adiante, em maio de 1882, de fato ele sofreu uma significativa mudança estrutural quando foi desfeita a sociedade “Costa Sobrinho & C” e todo o ativo e passivo da tipografia, bem como a casa de negócio situada à Rua do Rosário nº 37 (atual Rua Tiradentes), passou a ficar a cargo do sócio Francisco da Costa Sobrinho, conforme nota publicada na primeira página da edição de 21.05.1882. Mas esta mudança aparentemente não alterou em nada a linha editorial, a estrutura e o público alvo do jornal, conforme se deduz das edições subsequentes.

Ressalte-se que O Leopoldinense nasceu e circulou numa época em que a política marcava presença no cenário municipal. Num período conturbado, com manifestações sobre a libertação dos escravos, a monarquia e a república. Anos de acirradas disputas no campo político e com forte apelo literário bastante influenciado pelas publicações francesas. Sem contar que sofria a influência de jornais publicados na Corte, como o “Diário do Brasil”, conforme fica patenteado na sua edição de 25.05.1882 quando o editor deixa claro que seu periódico acompanha o referido diário. E é bom que se diga que o “Diário do Brasil” é citado por Nelson Werneck Sodré, em “A História da Imprensa no Brasil” como sendo um dos órgãos da pequena imprensa que se isolou no apoio ao manifesto de Carl von Koseritz, em 1883, de incentivo à imigração germânica. Fato que leva a crer, com boa margem de certeza, que não teria sido por mero acaso que O Leopoldinense tenha se colocado em diversas oportunidades a favor da substituição da mão de obra escrava por colonos estrangeiros.

Alguns fatos podem dar uma ideia de quão árdua deve ter sido a sua luta. Um jornal do interior a defender a libertação dos escravos numa cidade que presta homenagem ao Barão de Cotegipe, dando o nome dele à rua principal. Um barão que, ao cumprimentar a princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea, teria afirmado: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono”. E no ano seguinte implantou-se a república. Uma cidade que homenageia Cotegipe, mas esquece a princesa Isabel e lembra Pedro II numa pequena Travessa que mais parece um apêndice da rua principal.

Mas vale lembrar que O Leopoldinense, além dos assuntos locais, publicava também matérias relativas a diversos municípios que não faziam parte da área de influência de Leopoldina. O que indica sua boa receptividade numa região mais vasta, embora não tenha sido possível identificar com precisão todo o universo dos seus assinantes. Sabe-se, apenas, que além dos moradores de localidades próximas ele possuía leitores em diferentes pontos das províncias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, além dos residentes na Corte.

E para fechar o vagão de hoje resta dizer que O Lepoldinense circulou até os primeiros anos do século XX, embora no estudo atual não se tenha chegado às últimas edições. Dizer, também, que a viagem continuará e na próxima estação recolherá o vagão com a história de outro periódico da cidade. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 1 de outubro de 2014

Parte IX de A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

8 – ‘Leopoldinense’: nome de vários jornais

Logomarca da Coluna Trem de História, no jornal Leopoldinense

Antes que agarre na memória de algum leitor distraído uma informação indevida, feito o pó de carvão que sujava a roupa dos passageiros da Maria Fumaça, o Trem de História vira a chave do desvio, evita possível descarrilamento e presta um esclarecimento importante.

Diferentemente do Leopoldinense atual, que acolhe mais uma vez um resgate histórico destes autores, o Leopoldinense do passado teve uma outra história.

O atual nasceu em agosto de 2003, bem depois de arrancados os trilhos e derrubada a estação ferroviária, com o nome de “Gazeta Leopoldinense de Notícias”. Assim circulou por alguns meses até que, em 2004, por alteração contratual a sua razão social passou para “Grupo Leopoldinense de Notícias Ltda”. E é esta empresa, comandada por Luiz Otávio Meneghite, a responsável pela edição do atual “Jornal Leopoldinense”, que empunha a bandeira da “Consciência crítica da Cidade”. Um jornal que tem uma tiragem média de 2.000 exemplares e circula rigorosamente a cada início de quinzena.

“O Leopoldinense”, ao qual se refere este estudo sobre a história da imprensa em Leopoldina entre 1879 e 1899, teve sua primeira edição em 01.01.1879. Seu primeiro editor e gerente foi o Alferes Francisco da Costa Sobrinho e o próprio jornal informava ser “propriedade de uma sociedade anônima”. Na sua fase inicial apresentava-se como “Folha Comercial Agrícola Noticiosa”, trazendo o subtítulo “Consagrado aos Interesses dos Municípios de Leopoldina e Cataguases”. Segundo consta de todas as edições d’O Leopoldinense a que se teve acesso, até julho de 1883 a sua tiragem era de 2000 exemplares.

Importante esclarecer que, após esta data, foram encontradas seis edições no Arquivo Público Mineiro entre 1890 e 1892, nas quais não constam informações sobre assinaturas ou tiragem, nem tampouco os nomes dos redatores e proprietários.

Quanto à data de lançamento e o nome do proprietário do Leopoldinense antigo, registre-se um esclarecimento importante.

Segundo Luiz Eugênio Botelho, em Leopoldina de Outrora, seu pai Luiz Botelho Falcão teria lançado o jornal em 1879, o que se comprovou não ser coerente com a realidade. Pelas edições do próprio jornal, Luiz Botelho teria assumido a empresa em 1892, naquela que se poderia chamar terceira das quatro fases conhecidas d’O Leopoldinense. Por outro lado, entre setembro e novembro de 1886, quando Carlos Wehrs esteve em Leopoldina, informaram-lhe que Luiz Eugênio seria o proprietário do jornal. Uma das hipóteses prováveis é a de que, com a morte do fundador Francisco da Costa Sobrinho, Botelho Falcão tenha adquirido a empresa e só alguns anos depois o periódico tenha voltado a circular.

De todo modo, apesar dos descendentes terem incensado o patriarca como grande e pioneiro jornalista leopoldinense, só há indicação de que Luiz Botelho Falcão tenha estado à frente do periódico por cerca de dois anos, vendendo-o a Randolpho Chagas e Valerio de Rezende em 1894.

Circulou ainda pela cidade, no final dos anos de 1950, outro informativo com o nome de Leopoldinense. Segundo consta, era uma publicação de responsabilidade da Diocese de Leopoldina, impresso numa tipografia que funcionava junto à casa episcopal. Mas como este informativo é de período posterior ao estudado, dele não se apurou maiores detalhes e influências. Faz-se apenas o registro da sua existência pela coincidência do nome e para que ele não perca o Trem de História.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 26 de setembro de 2014

Continuação do trabalho A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899

7 – Periódicos e suas Histórias

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Conforme prometido no artigo anterior o Trem de História traz um pouco da vida dos vinte e um periódicos publicados no município de Leopoldina entre 1879 e 1899. De alguns deles se falará um pouco mais em vagões posteriores.

01) O Leopoldinense, o mais antigo deles, circulou de 1879 a 1900. É o primeiro da lista e a ele se voltará em artigo posterior;

02) O Correio da Leopoldina veio em seguida, no ano de 1881. Deste se sabe apenas, por nota d’O Leopoldinense de 03.07.1881 que José de Souza Soares Filho e Manoel Teixeira da Fonseca Vasconcelos eram seus redatores e proprietários.  É possível que fossem moradores do então distrito de Bom Jesus do Rio Pardo, atual município de Argirita;

03) O terceiro periódico é O Povo, que segundo o já citado Xavier da Veiga teria circulado de 1885 a 1890 no distrito de Campo Limpo (atual Ribeiro Junqueira). Dele pouco se sabe. Foram encontradas três edições datadas de 1885 e 1886, ano em que o proprietário se transferiu para Cataguases, onde continuou publicando o periódico;

04) Princípio da Vida. Deste periódico se sabe apenas que foi lançado em 1885;

05) O Pássaro, lançado em 1886, do qual não foram encontradas edições;

06) Estrela de Minas teve sua data de lançamento – 29 de julho de 1887, registrada por José Pedro Xavier da Veiga na monografia A Imprensa em Minas Gerais, publicada em 1894 em fascículo do jornal Minas Geraes e republicada em 1898 na Revista do Arquivo Público Mineiro. Entretanto, nenhuma edição foi localizada;

07) Ideia Nova teve o lançamento informado também por Xavier da Veiga, e assim como do anterior não foram encontradas suas edições. No jornal A Província de Minas, edição 501, 24 de novembro de 1887, página 1, anuncia-se o aparecimento no dia 17 de novembro de 1887, sob direção de Jacobino Freire e Reynaldo Matolla, sendo de propriedade de Arnaldo Lessa;

08) Irradiação circulou entre 1888 a 1890. Sua história será um pouco mais detalhada em artigo posterior;

09) A Voz Mineira. Deste periódico tem-se o registro de que circulou em 1890. Está na lista dos desconhecidos;

10) Gazeta de Leste circulou entre 1890 e 1891. Trazia no subtítulo a informação de que era Órgão Popular. Seu redator e proprietário era José de Moura Neves Filho. É mais um periódico que terá sua história contada em artigo vindouro;

11) A Leopoldina registra na sua primeira edição a data de 16.02.1893. Também sobre este periódico se vai falar em artigo futuro;

12) A Phalena é uma publicação de 1894 da qual nada mais se conseguiu apurar;

13) A Voz de Thebas foi um periódico publicado entre 1894 a 1897 no distrito de mesmo nome. Deste periódico se vai falar mais adiante;

14) O Correio de Leopoldina é de 1894. Um pouco mais sobre a sua história virá em artigo posterior;

15) A Gazeta de Leopoldina, o décimo quinto jornal do período, foi lançada em 1895. Um vagão inteiro será pouco para contar a sua história, como adiante se verá;

16) O Mediador circulou entre 1895 a 1896. Mais adiante se dará mais detalhes sobre sua trajetória;

17) O Tiradentes, publicado em 1897, foi mencionado por Xavier da Veiga como jornal do arraial de Vista Alegre, em Leopoldina. Na única edição encontrada informa-se que o proprietário foi M. C. Machado Júnior, os redatores eram Francisco Gama e Alberto Guimarães e o local consta como Vista Alegre (Minas). Ocorre que o distrito cataguasense recebeu este nome por causa da Estação Vista Alegre que havia sido instalada anos antes no município de Leopoldina, donde é comum encontrar referência a Vista Alegre como se fosse distrito de Leopoldina;

18) O Arame, jornal que circulou entre os anos 1898 a 1899, do qual foram encontrados 23 exemplares em acervo particular. Sobre ele se falará um pouco mais em artigo posterior;

19) A Lyra teria circulado em 1898 no distrito de Campo Limpo, conforme noticiado no jornal O Arame, de 11.12.1898. Seu proprietário e redador foi Jorge de Albuquerque Júnior;

20) O Pelicano, consagrado à maçonaria, teve seu lançamento em 1898. Tinha José Werneck como seu diretor e circulou no distrito de Campo Limpo; e,

21)O Recreio, lançado em 1899 no então distrito do mesmo nome, conforme a Gazeta de Leopoldina de 08.01.1899.  Era editado por “A. Napoleão & C”.

Com o Recreio encerra-se a relação dos 21 periódicos publicados em Leopoldina entre 1879 a 1899. Mas seguindo a História da Imprensa em Leopoldina, a partir do vagão seguinte o leitor conhecerá um pouco mais sobre alguns destes periódicos. “Aguardem a próxima composição”, diria o agente da estação.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA
Publicado no jornal Leopoldinense de 12 de setembro de 2014

Continuação do trabalho A Imprensa em Leopoldina (MG) entre 1879 e 1899