História Social através do Método de Pesquisa Genealógica

As pesquisadoras Silvia Buttros e Nilza Cantoni levaram ao Encontro dois exemplos de história local que vêm sendo divulgados, há mais de um século, como sendo a história oficial dos municípios abordados.
Após apresentar cartografia localizando Paraguaçu dentro do território de Minas Gerais, Silvia Buttros discorreu sobre a trajetória de sua pesquisa que resultou no seguinte quadro:
VERSÃO TRADICIONAL: pontos conflitantes
CORREÇÃO DOCUMENTADA
Pelo ano de 1790, o paulista Manuel Ferreira do Prado, e o português Agostinho Fernandes de Lima Barata receberam, cada um, uma sesmaria de três léguas em quadra.
Manuel Ferreira do Prado tornou-se sócio de um sesmeiro, e Agostinho Fernandes Lima herdou terras de seu sogro. Em 1790, as sesmarias eram de meia légua em quadra.
As sesmarias estariam localizadas no Sertão de São Sebastião, freguesia da Campanha.
As localidades onde se assentaram eram Sertão do Ouvidor e paragem das Mamonas, ambas na freguesia de Santana do Sapucaí.
Manuel Ferreira do Prado veio de São Paulo, com toda a sua família, mais o professor Flávio Secundo de Sales, e instalou-se ao Sul do município.
Manuel Ferreira do Prado era mineiro, de Santa Bárbara, morador no Rio de Janeiro, onde se casou, e veio a formar sua família na freguesia de Santana do Sapucaí. O dito professor era mineiro, de Campanha.
Agostinho Fernandes de Lima deixou mulher e filhos em Portugal, e instalou-se ao Norte do município.
Agostinho Fernandes Lima casou-se, no Brasil, com a filha de José Dias Palhão, sesmeiro de meia légua em quadra, ao Norte do município.
Nilza Cantoni, também após indicar a localização de Leopoldina, mencionou a metodologia da pesquisa iniciada a partir de um questionamento sobre o que afirma a história tradicional: por que os deserdados do ouro foram para o Feijão Cru se não há uma só pista de que em algum momento tenham encontrado ouro por lá? Não seria mais lógico que, com a queda da mineração, tivessem se dirigido para outras regiões auríferas?
Discorreu sobre suas buscas em fontes originais como listas nominativas de habitantes, processos judiciais, registros de terras e assentos paroquiais,apresentando a seguinte conclusão sobre os povoadores do Feijão Cru:
%
ORIGEM
ATIVIDADE ANTERIOR
41,9
Desconhecida
Desconhecida
16,1
Bom Jardim de Minas
Agricultura
8,1
Freguesia de Barbacena
Agricultura
6,5
Freguesia de São João del Rei
Agricultura
4,8
Aiuruoca
Agricultura
4,8
Santana do Garambéu
Agricultura
3,2
Freguesia de São João del Rei
Agricultura / Comércio
3,2
Prados
Agricultura
1,6
Bocaina de Minas
Agricultura
1,6
Conceição de Ibitipoca
Agricultura
1,6
Congonhas
Mineração
1,6
Conselheiro Lafaiete
Agricultura
1,6
Ibertioga
Agricultura
1,6
Santa Rita de Ibitipoca
Agricultura
1,6
São João del Rei
Agricultura / Comércio
Foi ressaltado que o quadro acima poderá sofrer modificações se forem encontradas novas fontes sobre o tema e que 22 povoadores ainda não identificados aparecem na documentação como forros e 3 são mulheres, sem sobrenome ou outra indicação que permita a investigação.

 

Portanto, o estágio atual da investigação demonstra que os povoadores não deixaram minas de ouro esgotadas para trás. Foram e continuaram sendo agricultores.

História Social através do Método de Pesquisa Genealógica – II

Povoadores do Feijão Cru

por Nilza Cantoni

A pequena cidade de Leopoldina tem sua história tradicional baseada em duas afirmativas. Uma delas diz respeito ao seu primeiro nome – Feijão Cru. Diz-se que tem origem no fato de tropeiros terem colocado o feijão para cozinhar e saírem para procurar ouro. Outra versão afirma que foram caçar e uma terceira informa que deixaram o feijão cozinhando durante a noite. Todas as versões informam que choveu e, quando os tropeiros foram se alimentar, jogaram o alimento no rio reclamando por estar cru.

A outra afirmação que vem sendo repetida ao longo tempo é que Leopoldina foi uma cidade rica e que seu povoamento se iniciou em consequência do fim da mineração, trazendo para a nossa terra as famílias que antes se ocupavam de lavras na área central da província e foram para lá plantar café.

Na década de 1960 foi publicado um livro de genealogia, abordando as três principais famílias povoadoras: os Almeidas, os Britos e os Netos. A partir daí, levantou-se uma questão: por que aquelas pessoas foram para lá se não há uma só pista de que em algum momento tenham encontrado ouro? Não seria mais lógico que, com a queda da mineração, tivessem se dirigido para outras regiões mineradoras?

Consultando livros dos antigos cartórios de notas, bem como o arquivo paroquial e os processos do judiciário, foi possível perceber que as referências indicavam atividade agrícola antes da migração. Foram sendo recolhidos recortes de jornais, cadernos com cópias de assentos paroquiais e trechos de processos judiciais, além de fichas de leitura das mais variadas obras. Ao longo do tempo aumentava a distância entre o que era propagado pela história oficial e o que diziam as fontes originais.

No final da década de 1980, com o acesso a microcomputador, as informações foram organizadas em um software que deu novo fôlego ao trabalho, na medida em que ficou mais fácil reunir as referências sobre cada personagem. Alguns anos depois, descobriu-se que fazer genealogia não era simplesmente montar uma lista de nomes, mas utilizar um método de pesquisa que permitia analisar e comparar diferentes aspectos da vida das pessoas que formaram o arraial do Feijão Cru.

E assim, colhendo dados e buscando interpretá-los à luz do conhecimento produzido pelos especialistas de diversas áreas, foi possível observar que a história tradicional parecia estar distante da realidade.

À exceção de uma das primeiras famílias que se estabeleceram em Leopoldina, e que não foram abordadas no livro acima mencionado, todas as que foram identificadas procediam de região agrícola. Com base na Contagem Populacional de 1831, descobriram-se os nomes dos moradores dos “fogos” ali registrados[1].

Entre os 589 moradores, 276 eram cativos que seria difícil investigar por falta de sobrenome. Houve dificuldade, também, para estudar os habitantes de 22 fogos que eram chefiados por “forros”. Seguindo-lhes a trajetória, ficou claro que o sobrenome variava bastante e não foi possível eliminar homonímia nem estabelecer quem eram estes grupos familiares.

Pesquisando assentos paroquiais, inventários, testamentos, documentos de compra e venda de bens e de sepultamentos, chegou-se à relação de 62 nomes dos chefes de fogos em 1831.

Classificando estas pessoas pela origem e atividades anteriores, foi possível definir os seguintes percentuais:

% Origem Atividade Anterior
41,9 Desconhecida Desconhecida
16,1 Bom Jardim de Minas Agricultura
8,1 Freguesia de Barbacena Agricultura
6,5 Freguesia de São João del Rei Agricultura
4,8 Aiuruoca Agricultura
4,8 Santana do Garambéu Agricultura
3,2 Freguesia de São João del Rei Agricultura / Comércio
3,2 Prados Agricultura
1,6 Bocaina de Minas Agricultura
1,6 Conceição de Ibitipoca Agricultura
1,6 Congonhas Mineração
1,6 Conselheiro Lafaiete Agricultura
1,6 Ibertioga Agricultura
1,6 Santa Rita de Ibitipoca Agricultura
1,6 São João del Rei Agricultura / Comércio

Vale registrar que o quadro poderá sofrer modificações na medida em que novas fontes forem encontradas. Atualmente a esperança de encontrar os deserdados do ouro está entre os 22 fogos chefiados por forros e 3 fogos chefiados por mulheres sem sobrenome. Será que Leopoldina realmente foi povoada por mineradores?

Além da contagem populacional de 1831, foram consultados documentos de mesmo gênero não só em relação ao Feijão Cru como aos curatos e freguesias vizinhas.[2]

Utilizaram-se, também, os Registros de Terras[3] realizados por força da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, conhecida como Lei de Terras. Segundo Ligia Osório Silva[4], o normativo objetivava “demarcar as terras devolutas e normalizar o acesso à terra por parte dos particulares, daquela data em diante”. Estes documentos trazem os nomes dos proprietários e quase todos incluem o nome da propriedade, a identificação dos vizinhos e a principal atividade desenvolvida.

Na região, os registros foram realizados nos primeiros meses de 1856 e Leopoldina teve sua emancipação administrativa em 1854. Razão pela qual foi necessário comparar com o alistamento eleitoral de 1850[5] para melhor recortar o universo a ser estudado. Um bom número de proprietários identificados no arquivo do judiciário não aparece nos registros de Leopoldina, Além Paraíba, Mar de Espanha, Meia Pataca ou São João Nepomuceno. Outros, especialmente os do território que formou o Distrito de Conceição da Boa Vista em 1851, estão no Registro de Terras de Santo Antônio de Pádua[6]. Foi desenvolvido um estudo sobre as disputas de limites entre Rio de Janeiro e Minas Gerais para entender os motivos pelos quais Leopoldina ficou subordinada ao Bispado do Rio de Janeiro até 1897[7].

Do estudo realizado com os Registros de Terras, verificou-se que apenas um dos proprietários de 1856 declarou o plantio de café entre as atividades agrícolas em suas terras.

E assim, investigando as famílias antigas de Leopoldina, através das técnicas de pesquisa genealógica, acumulou-se um bom número de informações a demonstrarem que os povoadores não deixaram para trás minas de ouro esgotadas. Foram e continuaram sendo agricultores.

Em todas as oportunidades de conversar com a gente simples da localidade, observam-se os olhos dos interlocutores brilharem. Quando se diz que os povoadores podem não ter sido pessoas ricas e famosas – as celebridades dos tempos da mineração, parece que compartilham da impressão de que foram pessoas comuns, sem auréola de heróis. Sorriem de felicidade, sentindo-se incluídos numa história que até então não lhes dizia respeito.

O envolvimento nestas buscas despertou a admiração por alguns teóricos, razão pela qual se pede licença aos especialistas para citar dois deles. Segundo Bloch[8], “textos ou documentos […] não falam senão quando sabemos interrogá-los”. Para Le Goff[9]

A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

[1] Arquivo Público Mineiro CX 07 DOC 07, Mapa da População de São José do Paraíba, 1831.

[2] Listas de moradores 1834, 1838 e 1841, do Feijão Cru e Curatos limítrofes.

[3] Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, 1856.

[4] SILVA, Ligia Osório. Terras Devolutas e Latifúndio. Campinas-SP: Editora Unicamp, 1996.

[5] Arquivo Público Mineiro, CX 36 PCT 29 PP 11 Alistamento Eleitoral de São João Nepomuceno, 1850.

[6] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Registros Paroquiais de Terras séc. XIX RJ. Disponível em http://www.docvirt.no-ip.com/aperj/acervo.htm. Publicado em 2003

[7] CANTONI, Nilza. Disputas de Limites entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Disponível em http://www.cantoni.pro.br/documentos/divisasRioMinas.html. Publicado em2005

[8] BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 79-80, 102-104

[9] LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2003. p. 471

História Social através do Método de Pesquisa Genealógica – I

No 2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, realizado em São João del Rei em agosto de 2011, Silvia Buttros e Nilza Cantoni apresentaram seus estudos sobre os municípios mineiros de Paraguaçu e Leopoldina respectivamente.

 

Como a pesquisa genealógica auxilia a revisão da história

por Sílvia Buttros

A região onde se localiza o município de Paraguaçu, entre os rios Sapucaí e Machado, foi território paulista inexplorado. Um sertão habitado por tribos indígenas que passou ao domínio mineiro em 1749.

Dentro do território de Santana do Sapucaí, na confluência dos rios Sapucaí e Dourado, surgiria a localidade chamada Douradinho, com capela dedicada a São João Batista. Em 1813, criou-se a freguesia de Douradinho, desmembrada de Santana do Sapucaí, estando contidos nesta nova freguesia o Sertão do Ouvidor e o Sapucaí-Abaixo, que viriam a ser a atual Paraguaçu.

A historiografia tradicional nos conta que:

Os primeiros moradores, de que se tem notícia, do local onde se ergue a cidade de Paraguaçu, foram o cap. Manoel Ferreira do Prado e sua mulher, D. Tereza Maria de Jesus Prado, logo seguidos por Agostinho Fernandes de Lima.[1]

No fim do século XVIII foram cedidas duas sesmarias no Sertão de S.Sebastião, Freguezia de Campanha, no sul de Minas. A primeira, ali por 1790, ao Capitão Manoel Luiz Ferreira do Prado. E a segunda, poucos anos depois, ao português Agostinho Fernandes de Lima Barata. Ambas medindo três léguas em quadra, sendo a primeira entre os Rios Dourado, Machado, Ribeirão do Carmo e Sapucaí. E a segunda entre os Rios Sapucaí, Machado e o citado ribeirão. As duas assinadas pelo Juiz de Sesmarias, domiciliado em São João Del-Rei. 

...) Manoel Ferreira do Prado. Para o povo era o Prado Velho. Nasceu em São Paulo, descendendo de João do Prado.[3]

No último qüinqüênio de 1700, aqui entraram Manoel Ferreira e Agostinho Barata, com suas famílias, seus escravos e o Professor Flávio Secundo de Sales.[4]

Com o intuito tão somente de aprofundar o estudo de um grupo familiar, foram sendo encontrados documentos que contrariam a história da cidade de Paraguaçu e de seus primeiros habitantes, propagada por mais de um século, e difundida em todas as escolas do município.

Ao pesquisar os batismos dos filhos do Capitão Manuel Ferreira do Prado e de sua mulher Teresa Maria de Jesus, nos livros paroquiais da então freguesia de Santana do Sapucaí, o que já demonstrava que sua família formou-se em Paraguaçu, duas informações despertaram o interesse: um padrinho do Rio de Janeiro, Nuno da Silva Reis, negociante de gado do Vale do Paraíba, com representação na Corte,  e o Tenente Coronel Francisco de Sales Xavier de Toledo, que batizou 2 filhos do Capitão, levando-se a cogitar um parentesco entre eles.

Para analisar o parentesco, foi pesquisado o inventário de Francisco de Sales Xavier de Toledo, falecido em 1815, autuado em 1822. Nada constava no rol de herdeiros, mas nos bens de raiz, veio a surpresa:

Declarou mais ella inventariante ter huma fazenda de cultura e campos no lugar denominado o Espírito Santo em sociedade com o capitam Manoel Ferreira do Prado o qual se acha na cidade do Rio de Janeiro e por este motivo se não pode proceder a avaliaçam da dita (fls. 4 v)...[5]

Portanto, o Capitão Manuel Ferreira do Prado era sócio da Fazenda do Espírito Santo. Procurando pelas sesmarias, foi localizada a de Francisco de Sales Xavier de Toledo, medindo 3 léguas de comprido e 1 de largo[6], com carta concedida em 1765 a José Ferraz de Araújo e sua mulher Genoveva da Trindade, repassada ao dito Francisco em 1767, ano em que foi feito o Auto de  medição, vistoria e demarcação.[7]

Mas, a pista sobre a sociedade só foi descoberta em outra sesmaria, a de Francisco Moreira de Piza Barreto, medindo meia légua em quadra[8], concedida em 1797, que teve sua demarcação embargada por Francisco de Sales Xavier de Toledo sob a alegação de a mesma estar invadindo seu território. Dentre as várias considerações constantes de sua réplica, muitas nos fornecem dados importantes, como estes:

Que os prim.ros povoadores das terras Embarg.das forão Antonio Vaz Siqrª e Joam Vaz Siqrª, que as possuirão e cultivarão por espaço de nove annos, cuja posse e Cultura teve principio no anno de 1759.”[9]

Que o Alferes Joaquim Luiz do Prado[10] he sócio, e comprador da Fazenda do Embargante.[11]

Há várias outras sesmarias confrontantes com as já citadas, e somente uma em localização oposta, ou seja, ao norte do atual município de Paraguaçu, que vem a esclarecer o engano sobre Agostinho Fernandes de Lima Barata, citado como segundo povoador da região.

Esta sesmaria foi cedida a José Dias Palhão, em 1797, com medição e demarcação em 1799[12], medindo meia légua em quadra. O dito Palhão veio a falecer e foi inventariado em 1805[13], constando dentre seus bens a referida sesmaria e mais uma fazenda; e, dentre seus 12 herdeiros, consta a filha Caetana Dias, casada com Agostinho Fernandes de Lima. Ficando assim esclarecido de onde vieram as terras do dito Agostinho.

Resolvida a questão das terras, faltava descobrir a ligação do Capitão Manoel Ferreira do Prado com a cidade do Rio de Janeiro. A solução poderia estar no casamento do dito Capitão naquela cidade, já que em Minas e São Paulo as buscas foram em vão.

O processo de casamento foi localizado no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, que remeteu ao seguinte assento:

Aos vinte e tres dias do mes de Fevr.o de mil oito centos e sinco, nesta Cathedral pelas duas horas da tarde com m.a prez.ça e das testemunhas abaixo asignadas na fr.a do Sagr. Conc. Trid. e Const. do Bispado se receberão em Matrimonio p.r palavras de prezente o Cap.m Manoel Frr.a do Prado, f.o leg.mo de João Luiz do Prado, e de Anna de Ar.o Silva n.al e bapt.do na Freg.a de N. Snr.a da Con.ção do Arraial de S.ta Barbara do Bispado de Marianna com Theresa Maria de Jesus f.a leg.ma de Lino Glz. Rio, e de Maria da Paixão n.al e bapt.da na Freg.a de S.Jose desta cidade como tudo consta da provisão q. me aprezentarão do M. Rv.do Dr. Juiz dos Cazam.tos Fran.co Gomes Villas Boas e receberão as benções nupciaes na fr.a do Rictual Romano sendo a tudo testemunhas prezentes o Cap.m Nuno da Silva Reis, e Custodio Jose de Almeida alem de outras que prezentes se acharão de que para constar fis este asento que asignei. O Coadj.or Ant.o Teixr.a Alvr.a de Souza=Nuno da Silva Reis=Custodio Jose de Almeida.[14]

Concluindo, o ‘paulista’, era, na verdade, mineiro de Santa Bárbara, casou-se com uma carioca, depois de já morar onde viria a ser o Carmo da Escaramuça, freguesia de Santana do Sapucaí, e não de Campanha, e onde viriam a nascer seus filhos. Não poderia ter recebido uma sesmaria de 3 léguas em quadra em época que só se concedia de meia légua, mas, sim, comprou terras de um sesmeiro  e chegou depois, bem depois dos primeiros povoadores.

A história do Capitão Manuel Ferreira do Prado deve ser revista e, consequentemente, a história de Paraguaçu.

[1] Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, IBGE, Volume XXVI, 1959.

[2] PRADO, Oscar Ferreira,O Sertão dos Mandibóias, pág. 188, Imprensa Oficial, 1981,

[3] Idem, ibidem, pág. 167.

[4] Idem, ibidem, pág. 190.

[5] Centro de Memória do Sul de Minas, Campanha, Caixa 04, Documento 03.

[6] Nos moldes da Carta Régia de 7 de dezembro de 1697.

[7] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de Francisco de Sales Xavier de Toledo.

[8] Nos moldes do Alvará de 3 de março de 1770.

[9] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de Francisco Moreira de Piza Barreto.

[10] Irmão do já citado Capitão Manuel Ferreira do Prado.

[11] Arquivo do IPHAN, São João Del Rei, Sesmaria de Francisco Moreira de Piza Barreto.

[12] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de José Dias Palhão.

[13] Idem, ibidem, Inventário de José Dias Palhão.

[14] LDS, Livro de Matrimônios da Capela do S.Sacramento, da Sé do Rio de Janeiro, 1801/1812, fls.86.

CONTINUA

Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos

 

Proposta de Integração dos Arquivos Regionais

O segundo dia do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo começou com a palestra de José Guilherme Ribeiro, que abordou os padrões existentes para a implantação de uma rede de arquivos e os modelos de funcionamento do Arquivo Online da Califórnia (EUA) e do Portal Português de Arquivos. Informou que o projeto já foi iniciado com duas instituições de Juiz de Fora.
A padronização é essencial para a formação da rede, permitindo a migração das descrições para a internet e o acesso por diferentes meios. Entretanto, a padronização dos arquivos é relativamente tardia se comparada, por exemplo, ao que ocorreu na Biblioteconomia, cujo estabelecimento de normas de descrição e codificação vem de longa data. Na Arquivologia isto começa por volta de 1980 e vai resultar na criação da ISAD (G) – Norma Internacional de Descrição Arquivística, em 1994. Este instrumento fixa as normas como devem ser feitas as descrições e,consequentemente, a criação dos instrumentos de pesquisa em arquivos. Em 2006 é adaptada para a realidade brasileira, surgindo então a NOBRADE – Norma Brasileira de Descrição Arquivísitica.
A NOBRADE fixa um certo número de elementos para a descrição de qualquer unidade de um acervo arquivístico, como título, data, conteúdo e outros que vão constituir a referência das unidades. Dentro do conjunto de elementos, destaca o número mínimo de elementos e normatiza a possibilidade de acréscimo de novos elementos. Além disto, fixa a estrutura hierárquica para os elementos, já que os níveis de descrição arquivística são vistos como uma hierarquia. Por exemplo: o Fundo contém Séries, que por sua vez contém Subséries, as quais contêm itens e assim por diante. Desta forma os elementos ficam organizados numa árvore de hierarquia estruturada.
Como exemplo da aplicação da norma, o palestrante mostrou duas descrições e explicou os elementos ali presentes. Ressaltou que tanto a NOBRADE como a ISAD não determinam o modo de veiculação das informações, permitindo que o conjunto possa ser utilizado em formato texto, planilha ou html.
Um dos formatos é sugerido pela EAD- Encoded Archival Description (descrição arquivística codificada), escrevendo as descrições em linguagem xml para divulgação na rede mundial de computadores. Resultado de um projeto iniciado nos Estados Unidos no início dos anos de 1990 que não tinha por objetivo padronizar a descrição arquivística, mas investigar diversas modalidades possíveis de construir um instrumento para descrições em formato digital. Foi iniciado na época da ISAD (G), razão pela qual pretendia ser compatível com ela.  Tem se firmado como padrão internacional, utilizado especialmente no intercâmbio de descrições arquivísticas.
Todos estes sistemas trazem conceitos importantes, disse José Guilherme. O primeiro deles é que a padronização e a criação de instrumentos de pesquisa modelares facilitam ao usuário final um aprendizado natural do método, permitindo-lhe melhor explorar os acervos. Além disso, a padronização facilita a manipulação dos instrumentos pelos recursos digitais. Outro aspecto beneficiado é a troca de informações,permitindo a formação de bancos de dados unificados. No que se refere à construção de redes, a padronização permite que cada instituição mantenha sua autonomia ao mesmo tempo em que compartilha as descrições, não sendo necessário que o órgão centralizador altere o formato de localização das unidades arquivísticas em cada arquivo participante da rede.
A seguir o palestrante discorreu sobre o Arquivo Online da Califórnia, que reúne mais de duzentas instituições. Vinculado ao projeto EAD, permite acesso às descrições e às imagens digitais dos documentos. Reúne bibliotecas e museus públicos e de universidades. Seu modelo é o de banco de dados centralizado, ou seja, todas as instituições participantes do projeto permitem o acesso on line às descrições através do Arquivo Online da Califórnia.
Foi projetada a imagem do site do Arquivo Online da Califórnia através da qual José Guilherme explicou as possibilidades de uso de cada seção ali disponível. Declarou que é um modelo simples, que cresceu ao longo do tempo, pela agregação de novas instituições e dos novos padrões que foram sendo normatizados.
O palestrante ressaltou que os arquivos on line utilizam as convenções de uso da EAD na rede internacional de computadores, aproximando os acervos dos interessados.
Em seguida apresentou o Portal Português de Arquivos que atualmente reúne cerca de vinte instituições portuguesas. Faz parte da Rede Portuguesa de Arquivos que pretende reunir todas as instituições da Comunidade de Língua Portuguesa. O Portal utiliza a EAD em conjunto com a ISAD (G). Foi explicado que o modelo utilizado baseia-se na exportação de dados de cada instituição para o Portal de modo que, quando o internauta faz a opção por ver detalhes de um determinado documento, terá acesso a outra página do próprio portal. Caso a escolha seja por ver o registro original, o consulente será direcionado para o site da instituição original.
Concluindo, José Guilherme declarou que a maior dificuldade da constituição de uma rede de arquivos não é a solução técnica, mas fazer com que as instituições dialoguem e trabalhem em parceria, saindo do isolamento e agindo coletivamente. Este é o passo fundamental porque não basta adotar uma norma, mas trocar informações. As normas permitem diversas interpretações, sendo necessário promover adaptações que serão melhor implementadas se realizadas em parceria.
Declarou que é preciso buscar um modelo simples e, ao mesmo tempo, adequado às necessidades dos integrantes. Não é necessário trazer modelos de fora, mas adaptar à realidade local. É preciso começar com um projeto pequeno que possa crescer e criar raízes, ampliando o número de participantes.

Toponímia da Comarca do Rio das Mortes

A professora Maria Cândida Seabra iniciou mencionando o interesse de algumas áreas do conhecimento pela Toponímia, especialmente a Linguística, mas também a História, a Geografia, a Genealogia e outras. Entretanto, seu estudo ainda é recente no Brasil. Ao lado da Antroponímia, ou seja, do estudo dos nomes de pessoas, a Toponímia insere-se na Onomástica.
Sobre a significação dos nomes, citou como exemplo a pessoa que se chama Cláudia e nem sempre sabe que o antropônimo significa claudicar. O mesmo ocorre com os topônimos, como no caso de uma propriedade ter sido batizada com o nome de Fazenda Olho d´Água em referência a uma nascente que ali existia e depois que o olho d’água desapareceu ninguém mais entendia a razão do nome. Daí a importância da toponímia para outros estudos porque, ao recuperar o significado do nome, é possível restaurar informações sobre a localidade.
Assim ocorre com nomes que remontam a exemplares da fauna, da flora e também da ideologia, como nos casos de topônimos com nomes de santos católicos. Neste último caso, é preciso analisar com cuidado. Isto porque, se em Minas é comum dar o nome de um santo de devoção à propriedade, em Mato Grosso é comum que o marido compre uma fazenda e lhe ponha o nome da esposa, antecedido de Santa. Portanto, há que se considerar as práticas sociais da localidade e até mesmo descobri-las através do estudo dos topônimos.
A palestrante trabalha com três origens de dados sendo uma delas o IBGE, através da qual, em trabalho conjunto com seus alunos, foram levantados os nomes de todos os lugares do estado de Minas Gerais. O resultado foi um banco de dados com 85.000 nomes de lugares,fazendas, rios, córregos etc. Cada um deles encontra-se classificado pela origem,se é português ou híbrido com tupi, por exemplo. Outro índice classificatório foi a motivação para o nome, além de outras informações típicas.
Em trabalho lançado recentemente,foi apresentada a conclusão de que os antigos nomes que interessavam aos portugueses eram em língua portuguesa e os demais eram em tupi.
Outra fonte preciosa para o estudo são as cartas de sesmarias, das quais foram recuperados termos e significados nem sempre facilmente identificáveis.
Uma terceira vertente é a fonte oral, sendo importante destacar que muitos topônimos obtidos em entrevistas não estão registrados nos mapas. O exemplo citado foi de uma localidade referida como Pacaló, nome desconhecido. No decorrer da conversa obteve a informação de que o pasto ao lado era de Chico Lopes e, consultando uma carta de sesmaria de1702, verificou que os requerentes foram Francisco Lopes e Pascoal Lopes.
Em seguida a palestrante destacou um topônimo da Comarca do Rio das Mortes: Brumado, antigo nome da atual Entre Rio de Minas, tem origem na palavra espanhola ‘broma’ e seu significado,diferentemente do que se possa inicialmente pensar, nada ter a ver com bruma. Foi empregado em tempos coloniais para indicar embromação ou mistificação sobre desaparecimento de ouro. O Fanado, em Minas Novas, tem significado semelhante a Brumado, podendo ser entendido como a expressão ‘não deu em nada’.
Os significados não são transparentes e é comum que se usem nomes como referência a alguma coisa cuja lembrança se perde com o tempo. No caso do Brumado, os estudos encontraram a indicação de que seria um lugar onde há notícia do aparecimento de minério que não se confirma. Entre as fontes utilizadas, a palestrante citou o Códice Costa Matoso e ressaltou que, neste trabalho, não basta ir a dicionários comuns.Mencionou a obra do Padre Rafael Bluteau, do século XVIII, considerado o primeiro dicionário da língua portuguesa.
Maria Cândida disse ser importante entender a mentalidade do denominador não só de forma isolada como também considerá-lo como parte de um grupo social. Apresentou Estiva como:entendida popularmente no interior como ponte tosca de madeira e no litoral tem outro significado. Já Noruega, de Catas Altas da Noruega, não faz referência ao país nórdico, mas a um pasto em que há pouca incidência de raios solares, sendo um termo da geografia muito usado no norte de Minas.
Mencionou também Indequecé, encontrado num mapa de Diogo de Vasconcelos da região de Vila Rica, e que remonta a um termo tupi – andirá quecé, que significa mato cortante. Alertou,porém, que embora seja necessário consultar obras de variado escopo, Diogo de Vasconcelos deve ser visto com um certo cuidado. Exemplificou com a afirmação do autor de que ‘gualaxo’ seria um termo tupi e com significado que se mostrou insustentável. Trata-se de um termo provavelmente do grupo Macro-Gê, encontrado no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na América Central. Lembrou que ‘xopotó’ é termo também do grupo Macro-Gê utilizado em Minas, apesar de quase nada se conhecer da presença deste grupo na região.
No prosseguimento, informou que ‘grupiara’ tem relação com peixes e a forma mais usual é ‘gupiara’ em função da dificuldade de pronúncia do encontro consonantal. Em Costa Matoso aparece como sendo o córrego em que se fazia extração do cascalho.
Sobre Bom Sucesso, declarou que não tem vínculo com a expressão usual para desejar bons resultados, mas a Nossa Senhora do Bonsucesso, protetora de bens materiais.
Maria Cândida ressaltou que o estudo dos topônimos confirma que as palavras caminham muito próximas da história dos lugares e das pessoas, razão pela qual a denominação envolve fatores diversos. De tal forma que não se deve afirmar inquestionavelmente um significado sem um embasamento cuidadoso.
O topônimo é um patrimônio cultural que nos traz informações geográficas, étnicas, honoríficas etc. Muitos dos encontrados em Minas têm origem africana, sobre os quais há imensa dificuldade de pesquisa pela falta de boas fontes.
Foram citadas outras obrasi mportantes para o estudo da Toponímia como o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, a Contribuição Indígena ao Brasil do Irmão José Gregório e a obra de Nelson de Sena.

Convite dos Antigomobilistas de Leopoldina

Cartografia histórica: arte e técnica dos mapas da América Portuguesa

Márcia Maria Duarte dos Santos apresentou-se manifestando satisfação em estar no Encontro, por julgar que seu tema de estudos combina muito com os objetivos do evento. Trata-se do resultado de uma longa pesquisa sobre Cartografia da América Portuguesa, particularmente de Minas Gerais. Referiu-se à palestra do professor Afonso Alencastro, na parte da manhã, o qual chamou a atenção para uma linha da historiografia moderna que se afasta do estabelecido em obras publicadas para trabalhar diretamente com as fontes originais. No caso do Centro de Estudos de Cartografia Histórica, da UFMG, pode-se estabelecer um paralelo com a fala do professor Afonso.
Explicou, então, que seu trabalho é de divulgação científica e que, de modo geral, boa parte da população considerada culta percebe nos mapas antigos a decoração, a beleza, as iluminuras, o desenho primoroso ou a caligrafia. São, de fato, artefatos culturais de grande beleza. Mas além disto, são fontes primárias nem sempre percebidas como tal. Se o literato se utiliza da língua vernácula, geógrafos se expressam através da cartografia.
Os mapas antigos eram elaborados para corresponder às expectativas do destinatário. Eram geralmente encomendados por alguém de prestígio político, pela administração colonial ou pela nobreza,exigindo cuidado especial na feitura e fino acabamento.
Na época, técnicas de impressão já existiam. Mas no caso da América Portuguesa, eles eram manuscritos. Citou um dos mapas de José Joaquim da Rocha, que se encontra em Portugal, todo debruado com fita de cetim cor de rosa. Mencionou também Albernaz, autor de mapas aquarelados no século XVII que são famosos pela grande beleza.
Foi projetado um mapa de 1558,ricamente ilustrado e com elementos técnicos como rosa dos ventos para indicar direções e escala de latitude em cores vibrantes, sendo que as tintas eram preparadas com ouro e outros elementos.
É só isso, ou seja, só a beleza?Ou o mapa tem outras características, perguntou a professora Márcia para então declarar que todos os elementos figurativos, como animais e plantas, não estão ali simplesmente para ilustrar. Na verdade são indicativos das características do lugar. Determinado tipo de vegetação num dos mapas apresentados era a figuração do Pau Brasil, riqueza explorada intensamente pelos portugueses. De forma bastante clara e didática, fez a plateia perceber que os belos elementos dos mapas antigos não são apenas ornamentais, mas instrumentos de comunicação sobre a área mapeada.
Apresentou um mapa de Albernaz para demonstrar que o brasão desenhado no alto foi um meio de comunicação para afirmar a soberania portuguesa sobre o território. Esta forma de figuração, já fora do espaço representado, é uma espécie de idealização com indígenas, o sexo feminino languidamente posicionado e a abundância da natureza tropical a informar sobre o espaço e as informações que sobre ele o cartógrafo possuía.
Já no século XVIII os elementos informativos estão nos “cartuchos” dos mapas. Com uma cartografia da região de Pitangui que se tornou promissora quando as minas da região central se exauriam,por ali terem sido descobertos ouro e outros minerais, indicou o cartucho – ou legenda- que chama a atenção para este fato. Sabemos, porém, que a região não foi tão promissora quanto se imaginou na época em que o mapa foi produzido.
Com o desenvolvimento da cartografia, os avanços podem ser analisados sob dois aspectos. Um deles é a necessidade de maior conhecimento do território, resultando em que mesmo um cartógrafo muito bem formado não consegue representar minimamente um espaço geográfico sem visitá-lo. O outro é o profundo conhecimento das operações técnicas da cartografia e dos instrumentos que tornavam possíveis as medições. Os princípios que norteiam a atividade passaram a ser mais cobrados no século XVII e, consequentemente, mais presentes em elementos informativos que prestam esclarecimentos ao estudioso.
Entre os elementos que começam a aparecer sistematicamente nos mapas estão os títulos que até então não eram incluídos na representação cartográfica. Data, legenda e notas explicativas são outros elementos que passam a fazer parte dos documentos.
Sobretudo a partir do século XIX,mantendo as latitudes que já apareciam desde o século XVI, as longitudes são incluídas através dos indicadores das coordenadas respectivas. Entretanto, como a adesão internacional ao meridiano de Greenwich só ocorreu no final dos anos de 1800, antes as longitudes aqui no Brasil tomavam o Rio de Janeiro como referência.
Finalizando, Márcia Maria Duarte dos Santos declarou que pretendeu mostrar que, independente da aparência artística da documentação cartográfica e de seu valor estético, os mapas apresentam informações variadas, constituindo-se em fontes particularmente importantes quando se observa que são documentos de interesse do Estado.

Maria Aparecida Martins Neto: centenário de nascimento

Nasceu em Leopoldina no dia 4 de setembro de 1911, filha de Evaristo Ferreira Neto e Ambrozina Rodrigues Martins.

Seus pais eram parentes, com vários ancestrais em comum, o que faz com que Maria Aparecida seja descendente dos povoadores Antonio Rodrigues Gomes, Bento Rodrigues Gomes, Felicíssimo Vital de Moraes, Francisco de Vargas Corrêa, Joaquim Antonio Machado, João Gonçalves Neto, Manoel Antônio de Almeida e Manoel Ferreira Brito.

Cartografia da região de Minas Gerais

Ao iniciar sua intervenção, Antônio Gilberto da Costa manifestou satisfação em falar para um grupo de pessoas que,não estando vinculadas a universidades, fazem esta ponte com ela. Ressaltou que o contato é importante e que, muitas vezes, os acadêmicos se fecham dentro das universidades. Informou que gostaria de falar sobre o Caminho Novo, mas que falaria sobre mapas de uma forma geral,ressaltando que da próxima vez estará no Encontro para tratar do Caminho Novo.A plateia se sentiu lisonjeada e agradecida pela simpática manifestação de Antônio Gilberto da Costa.
Explicou que apresentaria um conjunto de documentos e por meio deles abordaria a formação do estado de Minas Gerais. Em termos territoriais, de certa forma a conformação já era a atual,como apresentado em imagem de satélite. Sem os instrumentos de que dispomos atualmente, há 300 anos foram criados documentos cartográficos que o demonstram.
Antes de falar em Minas Gerais, o palestrante esclareceu que a América Portuguesa estava dividida em duas grandes partes: Estado do Maranhão e Grão Pará e Estado do Brasil. Neste último surgiria a nossa Minas Gerais. Documentos do início do século XVI trazem as primeiras referências ao território sem nenhuma indicação das Minas, apresentando primordialmente a faixa litorânea. Em documento de 1631,época por excelência da produção de mapas, também ainda não há referência ao território mineiro, concentrando-se em informações da linha do litoral.Trabalhando com mapas do século XVII até o início do XVIII, surgem as primeiras indicações do que viria a ser Minas Gerais.
Característica interessante é que até metade do século XVIII os mapas sobre Minas Gerais são segmentados em partes do território. Num borrão feito para a região de Diamantina, aparecem as primeiras anotações sobre cobre. Este rascunho contribuiu para a posterior elaboração de um mapa do Serro Frio.
Outro conjunto documental mencionado foram as Cartas Sertanistas, disponíveis no site da Biblioteca Nacional, bem como os Registros, citados em palestra anterior, com informações no site da Receita Federal.
Carta Sertanista de 1714, disponível no site da
Biblioteca Nacional: http://bndigital.bn.br/
A primeira Carta Sertanista projetada foi da região de Ouro Preto, Mariana e Serra do Caraça. A Carta seguinte,produzida no início do século XVIII, indica os traçados do Caminho Velho e do Caminho Novo. Considerando que nela há poucas informações do Caminho Velho e diversas do Novo, sugeriu que talvez o primeiro já estivesse, nesta época, meio desativado.
Até então os documentos traziam muitas informações do litoral e poucas do interior. Tais informações, como fazendas ao longo do território, demonstram a ocupação já existente. No início dos anos1700 há referências ao longo do Rio São Francisco.
Discorrendo sobre suas conclusões sobre a época de feitura dos mapas, sobre um deles mencionou a data de óbito do autor e esclareceu que o início da produção pode ter ocorrido uns dez anos antes e que, aos poucos, informações foram sendo acrescentadas, o que se depreende por serem algumas delas posteriores ao falecimento do mesmo. Isto era comum por levar anos para produzir tais documentos, muitas vezes desenhados com base em relatos e não com a visita ao local retratado.
É possível que um dos mapas projetados, datado de 1709, tenha sido encomendado num momento em que já se previa a separação de Minas e São Paulo. Em seguida foram apresentados documentos de 1714 e 1816, demonstrando que no período de 100 anos o volume de informações sobre o território mineiro ampliou-se consideravelmente.
Chamou a atenção, em toda a falado professor Gilberto, a simplicidade com que se apresentou e a linguagem acessível a leigos. Citamos, como exemplo, a preocupação em evitar citações peremptórias sobre datas ou anterioridade dos documentos, situação que poderia gerar contestação por parte de quem tenha realizado outros estudos e encontrado outras fontes. Esta humildade conquistou a plateia.
Prosseguindo na apresentação de outros mapas, o palestrante declarou que na segunda metade do século XVII o território de Minas surge de forma mais bem definida. Ao mostrar a obra de José Joaquim da Rocha, citou a hipótese de alguns estudiosos a respeito de uma eventual participação do autor na Inconfidência, tendo incluído no mapa as referências das trilhas percorridas por Tiradentes.
Ressaltou, ainda, que Minas Gerais fazia divisa com Pernambuco como demonstrado em um mapa onde aparecem,também, as capitanias de Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro,Espírito Santo e Bahia. Indicou, em outros mapas que seguem o modelo de José Joaquim da Rocha, a presença dos caminhos existentes.
Apresentou uma curiosidade a respeito daquele que considera como sendo o primeiro Guia 4 Rodas, por envolver todas as capitanias do Brasil com seus caminhos e indicações do tempo gasto para o deslocamento entre as localidades. Esclareceu que cada planta era acompanhada de textos com informações complementares e que no caso em tela o viajante teria um guia muito esclarecedor.
Em seguida foi projetado um mapa produzido por Eschwege, certamente incluindo cópia de outros mapas e dados acrescidos aos que ele próprio levantou entre 1811 e 1819. O palestrante chamou a atenção para o cuidado necessário na leitura da obra de Eschwege, tendo em vista que ele veio ao Brasil para levantar dados e informações sobre a produção do ouro, com o objetivo de expandi-la. Ressaltou que havia recusa em implantaras técnicas indicadas para evitar o pagamento de mais impostos. Em decorrência, Eschwege tratou os moradores locais de forma pouco amistosa.
A divulgação do mapa de Eschwege no Brasil só ocorreu em 1833, tendo sido inicialmente enviado para Londres e só chegando ao conhecimento dos brasileiros quando o país já se tornara independente de Portugal.
Sobre a região do Triângulo Mineiro, o palestrante lembrou que pertencera a São Paulo, foi transferida para Goiás e em 1816 foi incorporada, por Dom João VI, a Minas Gerais. A primeira cartografia que apresenta o Triângulo como parte do território de Minas Gerais é de 1855, de Halfeld & Tschudi.
Outra modificação ocorreu em1824, por conta da Confederação do Equador, quando Dom Pedro I determinou a incorporação de mais da metade de Pernambuco a Minas Gerais. Desta forma, toda a margem ocidental do São Francisco pertenceu a Minas Gerais até por volta de1827 ou 28, quando a região passou para a Bahia.
Projetado um mapa do final do século XIX, já com o Triângulo em Minas Gerais, num salto gigantesco pula-separa 2002, demonstrando que a configuração do território mineiro em 1875 ou1882 é a mesma da atualidade. Antônio Gilberto da Costa ressaltou o valor do trabalho daquelas pessoas que, trabalhando em condições rudimentares, deixaram documentos de grande importância para a nossa história.
Para encerrar, mostrou imagens de caminhos que interligavam os caminhos Velho e Novo e outras referências de percursos existentes ao tempo em que fomos visitados pelos viajantes estrangeiros, como as serras de São José e da Piedade que, por conter minério de ferro que brilhava à distância, tendo sido conhecida como Serra da Prata.