Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos

 

Proposta de Integração dos Arquivos Regionais

O segundo dia do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo começou com a palestra de José Guilherme Ribeiro, que abordou os padrões existentes para a implantação de uma rede de arquivos e os modelos de funcionamento do Arquivo Online da Califórnia (EUA) e do Portal Português de Arquivos. Informou que o projeto já foi iniciado com duas instituições de Juiz de Fora.
A padronização é essencial para a formação da rede, permitindo a migração das descrições para a internet e o acesso por diferentes meios. Entretanto, a padronização dos arquivos é relativamente tardia se comparada, por exemplo, ao que ocorreu na Biblioteconomia, cujo estabelecimento de normas de descrição e codificação vem de longa data. Na Arquivologia isto começa por volta de 1980 e vai resultar na criação da ISAD (G) – Norma Internacional de Descrição Arquivística, em 1994. Este instrumento fixa as normas como devem ser feitas as descrições e,consequentemente, a criação dos instrumentos de pesquisa em arquivos. Em 2006 é adaptada para a realidade brasileira, surgindo então a NOBRADE – Norma Brasileira de Descrição Arquivísitica.
A NOBRADE fixa um certo número de elementos para a descrição de qualquer unidade de um acervo arquivístico, como título, data, conteúdo e outros que vão constituir a referência das unidades. Dentro do conjunto de elementos, destaca o número mínimo de elementos e normatiza a possibilidade de acréscimo de novos elementos. Além disto, fixa a estrutura hierárquica para os elementos, já que os níveis de descrição arquivística são vistos como uma hierarquia. Por exemplo: o Fundo contém Séries, que por sua vez contém Subséries, as quais contêm itens e assim por diante. Desta forma os elementos ficam organizados numa árvore de hierarquia estruturada.
Como exemplo da aplicação da norma, o palestrante mostrou duas descrições e explicou os elementos ali presentes. Ressaltou que tanto a NOBRADE como a ISAD não determinam o modo de veiculação das informações, permitindo que o conjunto possa ser utilizado em formato texto, planilha ou html.
Um dos formatos é sugerido pela EAD- Encoded Archival Description (descrição arquivística codificada), escrevendo as descrições em linguagem xml para divulgação na rede mundial de computadores. Resultado de um projeto iniciado nos Estados Unidos no início dos anos de 1990 que não tinha por objetivo padronizar a descrição arquivística, mas investigar diversas modalidades possíveis de construir um instrumento para descrições em formato digital. Foi iniciado na época da ISAD (G), razão pela qual pretendia ser compatível com ela.  Tem se firmado como padrão internacional, utilizado especialmente no intercâmbio de descrições arquivísticas.
Todos estes sistemas trazem conceitos importantes, disse José Guilherme. O primeiro deles é que a padronização e a criação de instrumentos de pesquisa modelares facilitam ao usuário final um aprendizado natural do método, permitindo-lhe melhor explorar os acervos. Além disso, a padronização facilita a manipulação dos instrumentos pelos recursos digitais. Outro aspecto beneficiado é a troca de informações,permitindo a formação de bancos de dados unificados. No que se refere à construção de redes, a padronização permite que cada instituição mantenha sua autonomia ao mesmo tempo em que compartilha as descrições, não sendo necessário que o órgão centralizador altere o formato de localização das unidades arquivísticas em cada arquivo participante da rede.
A seguir o palestrante discorreu sobre o Arquivo Online da Califórnia, que reúne mais de duzentas instituições. Vinculado ao projeto EAD, permite acesso às descrições e às imagens digitais dos documentos. Reúne bibliotecas e museus públicos e de universidades. Seu modelo é o de banco de dados centralizado, ou seja, todas as instituições participantes do projeto permitem o acesso on line às descrições através do Arquivo Online da Califórnia.
Foi projetada a imagem do site do Arquivo Online da Califórnia através da qual José Guilherme explicou as possibilidades de uso de cada seção ali disponível. Declarou que é um modelo simples, que cresceu ao longo do tempo, pela agregação de novas instituições e dos novos padrões que foram sendo normatizados.
O palestrante ressaltou que os arquivos on line utilizam as convenções de uso da EAD na rede internacional de computadores, aproximando os acervos dos interessados.
Em seguida apresentou o Portal Português de Arquivos que atualmente reúne cerca de vinte instituições portuguesas. Faz parte da Rede Portuguesa de Arquivos que pretende reunir todas as instituições da Comunidade de Língua Portuguesa. O Portal utiliza a EAD em conjunto com a ISAD (G). Foi explicado que o modelo utilizado baseia-se na exportação de dados de cada instituição para o Portal de modo que, quando o internauta faz a opção por ver detalhes de um determinado documento, terá acesso a outra página do próprio portal. Caso a escolha seja por ver o registro original, o consulente será direcionado para o site da instituição original.
Concluindo, José Guilherme declarou que a maior dificuldade da constituição de uma rede de arquivos não é a solução técnica, mas fazer com que as instituições dialoguem e trabalhem em parceria, saindo do isolamento e agindo coletivamente. Este é o passo fundamental porque não basta adotar uma norma, mas trocar informações. As normas permitem diversas interpretações, sendo necessário promover adaptações que serão melhor implementadas se realizadas em parceria.
Declarou que é preciso buscar um modelo simples e, ao mesmo tempo, adequado às necessidades dos integrantes. Não é necessário trazer modelos de fora, mas adaptar à realidade local. É preciso começar com um projeto pequeno que possa crescer e criar raízes, ampliando o número de participantes.

Toponímia da Comarca do Rio das Mortes

A professora Maria Cândida Seabra iniciou mencionando o interesse de algumas áreas do conhecimento pela Toponímia, especialmente a Linguística, mas também a História, a Geografia, a Genealogia e outras. Entretanto, seu estudo ainda é recente no Brasil. Ao lado da Antroponímia, ou seja, do estudo dos nomes de pessoas, a Toponímia insere-se na Onomástica.
Sobre a significação dos nomes, citou como exemplo a pessoa que se chama Cláudia e nem sempre sabe que o antropônimo significa claudicar. O mesmo ocorre com os topônimos, como no caso de uma propriedade ter sido batizada com o nome de Fazenda Olho d´Água em referência a uma nascente que ali existia e depois que o olho d’água desapareceu ninguém mais entendia a razão do nome. Daí a importância da toponímia para outros estudos porque, ao recuperar o significado do nome, é possível restaurar informações sobre a localidade.
Assim ocorre com nomes que remontam a exemplares da fauna, da flora e também da ideologia, como nos casos de topônimos com nomes de santos católicos. Neste último caso, é preciso analisar com cuidado. Isto porque, se em Minas é comum dar o nome de um santo de devoção à propriedade, em Mato Grosso é comum que o marido compre uma fazenda e lhe ponha o nome da esposa, antecedido de Santa. Portanto, há que se considerar as práticas sociais da localidade e até mesmo descobri-las através do estudo dos topônimos.
A palestrante trabalha com três origens de dados sendo uma delas o IBGE, através da qual, em trabalho conjunto com seus alunos, foram levantados os nomes de todos os lugares do estado de Minas Gerais. O resultado foi um banco de dados com 85.000 nomes de lugares,fazendas, rios, córregos etc. Cada um deles encontra-se classificado pela origem,se é português ou híbrido com tupi, por exemplo. Outro índice classificatório foi a motivação para o nome, além de outras informações típicas.
Em trabalho lançado recentemente,foi apresentada a conclusão de que os antigos nomes que interessavam aos portugueses eram em língua portuguesa e os demais eram em tupi.
Outra fonte preciosa para o estudo são as cartas de sesmarias, das quais foram recuperados termos e significados nem sempre facilmente identificáveis.
Uma terceira vertente é a fonte oral, sendo importante destacar que muitos topônimos obtidos em entrevistas não estão registrados nos mapas. O exemplo citado foi de uma localidade referida como Pacaló, nome desconhecido. No decorrer da conversa obteve a informação de que o pasto ao lado era de Chico Lopes e, consultando uma carta de sesmaria de1702, verificou que os requerentes foram Francisco Lopes e Pascoal Lopes.
Em seguida a palestrante destacou um topônimo da Comarca do Rio das Mortes: Brumado, antigo nome da atual Entre Rio de Minas, tem origem na palavra espanhola ‘broma’ e seu significado,diferentemente do que se possa inicialmente pensar, nada ter a ver com bruma. Foi empregado em tempos coloniais para indicar embromação ou mistificação sobre desaparecimento de ouro. O Fanado, em Minas Novas, tem significado semelhante a Brumado, podendo ser entendido como a expressão ‘não deu em nada’.
Os significados não são transparentes e é comum que se usem nomes como referência a alguma coisa cuja lembrança se perde com o tempo. No caso do Brumado, os estudos encontraram a indicação de que seria um lugar onde há notícia do aparecimento de minério que não se confirma. Entre as fontes utilizadas, a palestrante citou o Códice Costa Matoso e ressaltou que, neste trabalho, não basta ir a dicionários comuns.Mencionou a obra do Padre Rafael Bluteau, do século XVIII, considerado o primeiro dicionário da língua portuguesa.
Maria Cândida disse ser importante entender a mentalidade do denominador não só de forma isolada como também considerá-lo como parte de um grupo social. Apresentou Estiva como:entendida popularmente no interior como ponte tosca de madeira e no litoral tem outro significado. Já Noruega, de Catas Altas da Noruega, não faz referência ao país nórdico, mas a um pasto em que há pouca incidência de raios solares, sendo um termo da geografia muito usado no norte de Minas.
Mencionou também Indequecé, encontrado num mapa de Diogo de Vasconcelos da região de Vila Rica, e que remonta a um termo tupi – andirá quecé, que significa mato cortante. Alertou,porém, que embora seja necessário consultar obras de variado escopo, Diogo de Vasconcelos deve ser visto com um certo cuidado. Exemplificou com a afirmação do autor de que ‘gualaxo’ seria um termo tupi e com significado que se mostrou insustentável. Trata-se de um termo provavelmente do grupo Macro-Gê, encontrado no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na América Central. Lembrou que ‘xopotó’ é termo também do grupo Macro-Gê utilizado em Minas, apesar de quase nada se conhecer da presença deste grupo na região.
No prosseguimento, informou que ‘grupiara’ tem relação com peixes e a forma mais usual é ‘gupiara’ em função da dificuldade de pronúncia do encontro consonantal. Em Costa Matoso aparece como sendo o córrego em que se fazia extração do cascalho.
Sobre Bom Sucesso, declarou que não tem vínculo com a expressão usual para desejar bons resultados, mas a Nossa Senhora do Bonsucesso, protetora de bens materiais.
Maria Cândida ressaltou que o estudo dos topônimos confirma que as palavras caminham muito próximas da história dos lugares e das pessoas, razão pela qual a denominação envolve fatores diversos. De tal forma que não se deve afirmar inquestionavelmente um significado sem um embasamento cuidadoso.
O topônimo é um patrimônio cultural que nos traz informações geográficas, étnicas, honoríficas etc. Muitos dos encontrados em Minas têm origem africana, sobre os quais há imensa dificuldade de pesquisa pela falta de boas fontes.
Foram citadas outras obrasi mportantes para o estudo da Toponímia como o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, a Contribuição Indígena ao Brasil do Irmão José Gregório e a obra de Nelson de Sena.

Convite dos Antigomobilistas de Leopoldina

Cartografia histórica: arte e técnica dos mapas da América Portuguesa

Márcia Maria Duarte dos Santos apresentou-se manifestando satisfação em estar no Encontro, por julgar que seu tema de estudos combina muito com os objetivos do evento. Trata-se do resultado de uma longa pesquisa sobre Cartografia da América Portuguesa, particularmente de Minas Gerais. Referiu-se à palestra do professor Afonso Alencastro, na parte da manhã, o qual chamou a atenção para uma linha da historiografia moderna que se afasta do estabelecido em obras publicadas para trabalhar diretamente com as fontes originais. No caso do Centro de Estudos de Cartografia Histórica, da UFMG, pode-se estabelecer um paralelo com a fala do professor Afonso.
Explicou, então, que seu trabalho é de divulgação científica e que, de modo geral, boa parte da população considerada culta percebe nos mapas antigos a decoração, a beleza, as iluminuras, o desenho primoroso ou a caligrafia. São, de fato, artefatos culturais de grande beleza. Mas além disto, são fontes primárias nem sempre percebidas como tal. Se o literato se utiliza da língua vernácula, geógrafos se expressam através da cartografia.
Os mapas antigos eram elaborados para corresponder às expectativas do destinatário. Eram geralmente encomendados por alguém de prestígio político, pela administração colonial ou pela nobreza,exigindo cuidado especial na feitura e fino acabamento.
Na época, técnicas de impressão já existiam. Mas no caso da América Portuguesa, eles eram manuscritos. Citou um dos mapas de José Joaquim da Rocha, que se encontra em Portugal, todo debruado com fita de cetim cor de rosa. Mencionou também Albernaz, autor de mapas aquarelados no século XVII que são famosos pela grande beleza.
Foi projetado um mapa de 1558,ricamente ilustrado e com elementos técnicos como rosa dos ventos para indicar direções e escala de latitude em cores vibrantes, sendo que as tintas eram preparadas com ouro e outros elementos.
É só isso, ou seja, só a beleza?Ou o mapa tem outras características, perguntou a professora Márcia para então declarar que todos os elementos figurativos, como animais e plantas, não estão ali simplesmente para ilustrar. Na verdade são indicativos das características do lugar. Determinado tipo de vegetação num dos mapas apresentados era a figuração do Pau Brasil, riqueza explorada intensamente pelos portugueses. De forma bastante clara e didática, fez a plateia perceber que os belos elementos dos mapas antigos não são apenas ornamentais, mas instrumentos de comunicação sobre a área mapeada.
Apresentou um mapa de Albernaz para demonstrar que o brasão desenhado no alto foi um meio de comunicação para afirmar a soberania portuguesa sobre o território. Esta forma de figuração, já fora do espaço representado, é uma espécie de idealização com indígenas, o sexo feminino languidamente posicionado e a abundância da natureza tropical a informar sobre o espaço e as informações que sobre ele o cartógrafo possuía.
Já no século XVIII os elementos informativos estão nos “cartuchos” dos mapas. Com uma cartografia da região de Pitangui que se tornou promissora quando as minas da região central se exauriam,por ali terem sido descobertos ouro e outros minerais, indicou o cartucho – ou legenda- que chama a atenção para este fato. Sabemos, porém, que a região não foi tão promissora quanto se imaginou na época em que o mapa foi produzido.
Com o desenvolvimento da cartografia, os avanços podem ser analisados sob dois aspectos. Um deles é a necessidade de maior conhecimento do território, resultando em que mesmo um cartógrafo muito bem formado não consegue representar minimamente um espaço geográfico sem visitá-lo. O outro é o profundo conhecimento das operações técnicas da cartografia e dos instrumentos que tornavam possíveis as medições. Os princípios que norteiam a atividade passaram a ser mais cobrados no século XVII e, consequentemente, mais presentes em elementos informativos que prestam esclarecimentos ao estudioso.
Entre os elementos que começam a aparecer sistematicamente nos mapas estão os títulos que até então não eram incluídos na representação cartográfica. Data, legenda e notas explicativas são outros elementos que passam a fazer parte dos documentos.
Sobretudo a partir do século XIX,mantendo as latitudes que já apareciam desde o século XVI, as longitudes são incluídas através dos indicadores das coordenadas respectivas. Entretanto, como a adesão internacional ao meridiano de Greenwich só ocorreu no final dos anos de 1800, antes as longitudes aqui no Brasil tomavam o Rio de Janeiro como referência.
Finalizando, Márcia Maria Duarte dos Santos declarou que pretendeu mostrar que, independente da aparência artística da documentação cartográfica e de seu valor estético, os mapas apresentam informações variadas, constituindo-se em fontes particularmente importantes quando se observa que são documentos de interesse do Estado.

Maria Aparecida Martins Neto: centenário de nascimento

Nasceu em Leopoldina no dia 4 de setembro de 1911, filha de Evaristo Ferreira Neto e Ambrozina Rodrigues Martins.

Seus pais eram parentes, com vários ancestrais em comum, o que faz com que Maria Aparecida seja descendente dos povoadores Antonio Rodrigues Gomes, Bento Rodrigues Gomes, Felicíssimo Vital de Moraes, Francisco de Vargas Corrêa, Joaquim Antonio Machado, João Gonçalves Neto, Manoel Antônio de Almeida e Manoel Ferreira Brito.

Cartografia da região de Minas Gerais

Ao iniciar sua intervenção, Antônio Gilberto da Costa manifestou satisfação em falar para um grupo de pessoas que,não estando vinculadas a universidades, fazem esta ponte com ela. Ressaltou que o contato é importante e que, muitas vezes, os acadêmicos se fecham dentro das universidades. Informou que gostaria de falar sobre o Caminho Novo, mas que falaria sobre mapas de uma forma geral,ressaltando que da próxima vez estará no Encontro para tratar do Caminho Novo.A plateia se sentiu lisonjeada e agradecida pela simpática manifestação de Antônio Gilberto da Costa.
Explicou que apresentaria um conjunto de documentos e por meio deles abordaria a formação do estado de Minas Gerais. Em termos territoriais, de certa forma a conformação já era a atual,como apresentado em imagem de satélite. Sem os instrumentos de que dispomos atualmente, há 300 anos foram criados documentos cartográficos que o demonstram.
Antes de falar em Minas Gerais, o palestrante esclareceu que a América Portuguesa estava dividida em duas grandes partes: Estado do Maranhão e Grão Pará e Estado do Brasil. Neste último surgiria a nossa Minas Gerais. Documentos do início do século XVI trazem as primeiras referências ao território sem nenhuma indicação das Minas, apresentando primordialmente a faixa litorânea. Em documento de 1631,época por excelência da produção de mapas, também ainda não há referência ao território mineiro, concentrando-se em informações da linha do litoral.Trabalhando com mapas do século XVII até o início do XVIII, surgem as primeiras indicações do que viria a ser Minas Gerais.
Característica interessante é que até metade do século XVIII os mapas sobre Minas Gerais são segmentados em partes do território. Num borrão feito para a região de Diamantina, aparecem as primeiras anotações sobre cobre. Este rascunho contribuiu para a posterior elaboração de um mapa do Serro Frio.
Outro conjunto documental mencionado foram as Cartas Sertanistas, disponíveis no site da Biblioteca Nacional, bem como os Registros, citados em palestra anterior, com informações no site da Receita Federal.
Carta Sertanista de 1714, disponível no site da
Biblioteca Nacional: http://bndigital.bn.br/
A primeira Carta Sertanista projetada foi da região de Ouro Preto, Mariana e Serra do Caraça. A Carta seguinte,produzida no início do século XVIII, indica os traçados do Caminho Velho e do Caminho Novo. Considerando que nela há poucas informações do Caminho Velho e diversas do Novo, sugeriu que talvez o primeiro já estivesse, nesta época, meio desativado.
Até então os documentos traziam muitas informações do litoral e poucas do interior. Tais informações, como fazendas ao longo do território, demonstram a ocupação já existente. No início dos anos1700 há referências ao longo do Rio São Francisco.
Discorrendo sobre suas conclusões sobre a época de feitura dos mapas, sobre um deles mencionou a data de óbito do autor e esclareceu que o início da produção pode ter ocorrido uns dez anos antes e que, aos poucos, informações foram sendo acrescentadas, o que se depreende por serem algumas delas posteriores ao falecimento do mesmo. Isto era comum por levar anos para produzir tais documentos, muitas vezes desenhados com base em relatos e não com a visita ao local retratado.
É possível que um dos mapas projetados, datado de 1709, tenha sido encomendado num momento em que já se previa a separação de Minas e São Paulo. Em seguida foram apresentados documentos de 1714 e 1816, demonstrando que no período de 100 anos o volume de informações sobre o território mineiro ampliou-se consideravelmente.
Chamou a atenção, em toda a falado professor Gilberto, a simplicidade com que se apresentou e a linguagem acessível a leigos. Citamos, como exemplo, a preocupação em evitar citações peremptórias sobre datas ou anterioridade dos documentos, situação que poderia gerar contestação por parte de quem tenha realizado outros estudos e encontrado outras fontes. Esta humildade conquistou a plateia.
Prosseguindo na apresentação de outros mapas, o palestrante declarou que na segunda metade do século XVII o território de Minas surge de forma mais bem definida. Ao mostrar a obra de José Joaquim da Rocha, citou a hipótese de alguns estudiosos a respeito de uma eventual participação do autor na Inconfidência, tendo incluído no mapa as referências das trilhas percorridas por Tiradentes.
Ressaltou, ainda, que Minas Gerais fazia divisa com Pernambuco como demonstrado em um mapa onde aparecem,também, as capitanias de Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro,Espírito Santo e Bahia. Indicou, em outros mapas que seguem o modelo de José Joaquim da Rocha, a presença dos caminhos existentes.
Apresentou uma curiosidade a respeito daquele que considera como sendo o primeiro Guia 4 Rodas, por envolver todas as capitanias do Brasil com seus caminhos e indicações do tempo gasto para o deslocamento entre as localidades. Esclareceu que cada planta era acompanhada de textos com informações complementares e que no caso em tela o viajante teria um guia muito esclarecedor.
Em seguida foi projetado um mapa produzido por Eschwege, certamente incluindo cópia de outros mapas e dados acrescidos aos que ele próprio levantou entre 1811 e 1819. O palestrante chamou a atenção para o cuidado necessário na leitura da obra de Eschwege, tendo em vista que ele veio ao Brasil para levantar dados e informações sobre a produção do ouro, com o objetivo de expandi-la. Ressaltou que havia recusa em implantaras técnicas indicadas para evitar o pagamento de mais impostos. Em decorrência, Eschwege tratou os moradores locais de forma pouco amistosa.
A divulgação do mapa de Eschwege no Brasil só ocorreu em 1833, tendo sido inicialmente enviado para Londres e só chegando ao conhecimento dos brasileiros quando o país já se tornara independente de Portugal.
Sobre a região do Triângulo Mineiro, o palestrante lembrou que pertencera a São Paulo, foi transferida para Goiás e em 1816 foi incorporada, por Dom João VI, a Minas Gerais. A primeira cartografia que apresenta o Triângulo como parte do território de Minas Gerais é de 1855, de Halfeld & Tschudi.
Outra modificação ocorreu em1824, por conta da Confederação do Equador, quando Dom Pedro I determinou a incorporação de mais da metade de Pernambuco a Minas Gerais. Desta forma, toda a margem ocidental do São Francisco pertenceu a Minas Gerais até por volta de1827 ou 28, quando a região passou para a Bahia.
Projetado um mapa do final do século XIX, já com o Triângulo em Minas Gerais, num salto gigantesco pula-separa 2002, demonstrando que a configuração do território mineiro em 1875 ou1882 é a mesma da atualidade. Antônio Gilberto da Costa ressaltou o valor do trabalho daquelas pessoas que, trabalhando em condições rudimentares, deixaram documentos de grande importância para a nossa história.
Para encerrar, mostrou imagens de caminhos que interligavam os caminhos Velho e Novo e outras referências de percursos existentes ao tempo em que fomos visitados pelos viajantes estrangeiros, como as serras de São José e da Piedade que, por conter minério de ferro que brilhava à distância, tendo sido conhecida como Serra da Prata.

Plantas Medicinais na Estrada Real

Verena Brandão de Oliveira apresentou diversas plantas medicinais e comentou suas propriedades e características, bem como o processo de preparação para uso medicinal. Uma delas é a pimenta de macaco,como é popularmente conhecida, utilizada na África para o tratamento do diabetes. Está sendo testada em animais obesos.
Esclareceu que as plantas medicinais são divididas em três categorias. As exóticas são aquelas que, não sendo naturais do Brasil, foram para aqui transplantadas e se adaptaram.Importadas são as que, não existindo em nosso país, são trazidas para comercialização ou estudos.  A terceira categoria é a das plantas nativas, cujo uso remonta aos naturais da terra.
Entre as exóticas temos a babosa,a alcachofra, a calêndula e a melissa. Já para as importadas, como a valeriana,foram citados os locais que as utilizam e os objetivos. Nem todas foram internalizadas, ou seja, passaram por estudos e aprovação.
A palestrante informou que são pouquíssimas as plantas nativas que já tiveram seus efeitos comprovados. Nesta categoria foram citados o barbatimão, a carqueja, a flor do maracujá e o funcho.O Brasil, apesar da grande biodiversidade, ainda não conhece todas as suas plantas medicinais. Ela parte de um projeto que tem, entre suas metas, recuperar as informações sobre plantas que tiveram uso medicinal no passado, mas que foram esquecidas no decorrer do tempo. Num segundo momento, o grupo faz divulgação para despertar o interesse nas plantas e na preservação da natureza. Para isso, realizam eventos em parques e escolas.
Abordando os primeiros estudos sobre nossas plantas, lembrou que a partir da vinda da Corte Portuguesa, muitos viajantes estrangeiros aqui estiveram com o objetivo de analisar e descrever nossa terra. As descrições das plantas, muito minuciosas, representam a origem do estudo ao qual ela se dedica. Destacou Auguste de Saint Hilaire como um dos naturalistas que, tendo coletado e catalogado sete delas, levou amostras para a Europa, as quais estão depositadas em museu francês.
Além de Saint Hilaire, informou que diversos outros naturalistas percorreram o país, deixando obras literárias ou científicas que em muito contribuem para os trabalhos realizados na atualidade.Além disso, os viajantes observaram que os brasileiros não estavam preocupados com a preservação da natureza, chegando a ser surpreendente que algumas plantas tenham continuado a florescer no país até nossos dias. Entretanto, suspeita-se que em pouco tempo a nossa flora nativa estará irremediavelmente perdida. Para tanto estão contribuindo, além do descaso dos habitantes, a ação predatória das mineradoras.
Dando prosseguimento, apresentou alguns desenhos de Saint Hilaire ao lado de imagens atuais de plantas que estão sendo objeto de investigações, ressaltando que, naquela época, o pensamento dos naturalistas era de que os médicos deveriam investigar as práticas populares e incorporar os conhecimentos que fossem comprovados como eficazes.
Em 2009 foi realizada uma incursão por várias cidades mineiras no entorno da Estrada Real, para divulgar e distribuir o material que o grupo havia produzido, contendo informações sobre os estudos realizados. Em 2010 aconteceu o primeiro Encontro de Educadores da Estrada Real com o mesmo objetivo de divulgar e despertar a consciência preservacionista.
Encerrando a participação, Verena declarou que descobrir as plantas medicinais nativas do Brasil e valorizar o patrimônio natural e a biodiversidade, recuperando informações que atualmente são de conhecimento apenas dos mais velhos, são necessidades que movem as atividades do grupo ao qual pertence.

A paisagem econômica do Caminho Novo pelo olhar dos Viajantes

Sendo originário da região, Otávio Soares Dulci cedo se interessou pela temática da economia no entorno do Caminho Novo, observando que o problema dos transportes era primordial para o desenvolvimento econômico. Consultando os viajantes estrangeiros, especialmente da primeira metade do século XIX, época em que o Brasil começava a desfazer as amarras que o prendiam a Portugal, verificou queo Caminho Novo foi tema central da maioria deles por causa da importância de Minas Gerais, principal unidade do país na época, e da ligação com o Rio de Janeiro. Estes viajantes vieram de diversos países, sendo importante mencionar o luso brasileiro Cunha Matos.
O professor Dulci ressaltou que seu objetivo principal seria tematizar o assunto sem pretender esgotá-lo. Sendo assim, abordou pontos que julga fundamentais para a história do Caminho Novo e da economia mineira. Explicou que sua a ideia de paisagem é forma semelhante à que os geógrafos trabalham com território, acrescentando-lhe o sentido simbólico, ou o que ele representa num determinado contexto.
Procurou extrair das obras dos viajantes a visão dos ecossistemas. Na obra de Saint Hilaire, declarou, sente-se a fisionomia do caminho. Mas há uma visão mencionada por todos osviajantes e que se refere à contraposição da mata e dos campos. Ao sair do Riode Janeiro, até a subida para a atual Petrópolis, o trecho fluminense édescrito como florestal e sem muita presença do homem, fato que observaramtambém na área da futura Juiz de Fora. Quando transpuseram a Mantiqueira, observaram que entre Santos Dumont eAntônio Carlos a paisagem mudava significativamente. Começavam os campos! Já otrecho final, basicamente entre Ouro Branco e Ouro Preto, era bem diferente dosanteriores, sendo muito montanhoso e com muito mato. Então, são trêsecossistemas bem demarcados.
Um aspecto que o palestrante julga de muita atualidade nos viajantes é a referência ao desmatamento. O sistema de queimada, que herdamos dos indígenas para preparar a terra, e os efeitos nocivos deste sistema, foram objeto de registro provavelmente porque embora a consciência ambiental não existisse propriamente na época, os europeus, que já tinham destruído quase tudo na Europa, estavam atentos ao problema e perceberam o tratamento predatório da terra.
O segundo ponto abordado foi o espaço rural. Os viajantes destacaram o problema da demografia, ou seja, da ocupação humana que era muito esparsa, com exceção do Rio de Janeiro e baixada fluminense, e no fim do Caminho, entre Queluz e Vila Rica. Mas da subida da Serra do Mar e até o Vale do Paraopeba, havia grandes vazios.
Isto se deu, segundo Dulci, por conta do regime de sesmarias que os portugueses introduziram aqui. Em Portugal as sesmarias objetivavam descentralizar a propriedade e efeito inverso ocorreu no Brasil, com a grande concentração de propriedades em poucas mãos. Como resultado, os grandes vazios que eram ruins economicamente, pela baixa utilização. Faltavam braços, a tecnologia agrícola era rudimentar, nem o arado era utilizado, resultando em que apesar da fertilidade da terra, a produtividade era baixíssima, segundo os viajantes.
Questões da agricultura, cuja solução foi buscada ao longo do século XX, como a fundação de boas escolas de agronomia, entre as quais a de Viçosa, representavam uma realidade muito ruim para os portugueses da época. O problema fundiário gerava consequências econômicas difíceis.
Já no espaço urbano havia duas vilas, sendo Barbacena a principal, que se constituiu ao longo do século XVIII.Foi visitada por muitos viajantes que declararam ser um lugar muito agradável.Naquele retrato um tanto negativo do Caminho Novo, Barbacena se destacava pela qualidade de vida, pelas boas construções e pelo movimento comercial. O mesmo disseram de São João del Rei, no Caminho Velho.
O ponto chave seria o comércio.Mas o palestrante chamou a atenção para um comentário que no caso de Barbacena é especialmente válido. É que, não sendo uma região aurífera, aquele capitalismo de aventura que gerou grande confusão em Minas Gerais, sacrificando bastante a produção, não ocorreu ali. Onde não havia ouro as pessoas se dedicavam a produzir, a plantar, a criar gado, a trabalhar nas atividades comuns da terra. Isto foi positivo. Já para São João del Rei a descrição é de uma cidade que já tinha desistido de produzir ouro e se voltado para o comércio, a agricultura e mais tarde a indústria. Uma cidade com uma dinâmica normal para o centro econômico importante.
As vilas tinham também a função de ligação com o sertão e o Rio de Janeiro, havendo aí um giro de capital importante, ajudado pela posição geográfica que também contribuída com a economia. Se na parte final do Caminho Novo o eixo econômico era a mineração,nos campos era a criação extensiva de animais e uma pequena agroindústria de derivados da pecuária, com destaque para a produção de queijo que é enfatizada em toda literatura da época colonial, assim como outros derivados do leite. Além disso, Dulci lembrou os derivados de porcos, como o toucinho, cuja comercialização também movimentava a economia.
Citou o Barão de Eschwege, com a estatística da exportação de Minas, a demonstrar a forma como viviam os mineiros e como ganhavam dinheiro. Quase nada ia para o exterior. A maior parte da produção ia para o Rio de Janeiro. Sabe-se que o estado tem grande variedade de terras, favorecendo a produção de tudo um pouco. Eschwege mostroua existência de produtos industriais simples, vendidos para fora de Minas, como queijo, açúcar e aguardente. Em menor escala vendiam couros e solas, marmelada,farinha de trigo e de mandioca. Produtos semi-industriais de preparo artesanal que eram exportados junto aos produtos agrícolas, sendo o algodão o principal.O café surge mais tarde, especialmente na região de Juiz de Fora, Além Paraíba e Leopoldina. Havia, também, o comércio de animais como o gado em pé, porcos,cavalos e galinhas.
Importava-se principalmente o sal, tecidos finos, vinhos, peixe salgado, remédios de botica, louças, vidros,chapéus e vinagre para o consumo das famílias. Para o consumo das incipientes fábricas, chapas de ferro, aço, cobre e minerais não produzidos na província. Numa demonstração de que as famílias da região viviam de forma frugal, Eschwege mostrou que as compras eram muito menores do que as vendas. As importações representavam apenas 15% das exportações.
A topografia de Minas Gerais dificultava o transporte, com atoleiros na época de chuvas e trechos muito íngremes, como a subida da Mantiqueira. Os viajantes se referiram a tais dificuldades, informando que o Caminho Novo só podia ser percorrido por tropas de burros numa época em que o uso de carroças e carroções já era comum em outros lugares. Quanto à travessias dos rios maiores, eles relataram o uso de barcos ou balsas. As pontes surgem mais para o fim do século. Dulci destacou que ao longo do século XIX foram sendo feitos melhoramentos e que os viajantes se referiram a aspectos diferentes, dependendo da época em que cada um passou por Minas Gerais.
Sobre ranchos e vendas, foi reiterado que os primeiros eram locais de parada em grande número no trajeto do Caminho Novo, constituídos basicamente de uma coberta onde não se pagava pela estadia. O proprietário tinha interesse era na venda do milho para os animais. As vendas eram precárias, a comida não era boa e entre os serviços ali disponíveis, havia tendas de ferraduras, ferreiros e outros artesãos para atenderem a necessidades variadas.
Os registros, através dos quais o Estado atuava como agente econômico, foram também citados pelos viajantes estrangeiros, destacando que na travessia do Paraibuna funcionava uma espécie de alfândega.
Dulci destacou a questão da logística, por ser o Caminho Novo a única ligação com o Rio de Janeiro. O que este caminho oferecia de possibilidades? O trajeto consumia muito tempo em função do peso da carga levada pelos animais. Segundo um dos viajantes, que não levara carga, foram necessários 5 dias do Rio até a divisa no Paraibuna e 13 no trecho mineiro. O palestrante lembrou, porém, que um personagem fez o trajeto em 11 dias por conta das circunstâncias: Caxias, em1842. A estrada União e Indústria, em1851, reduziu o percurso entre Petrópolis e Juiz de Fora para 12 horas, com um prolongamento não muito bom até Barbacena. Posteriormente, a ferrovia, que foi sendo construída em paralelo ao Caminho Novo, favoreceu o transporte e a economia.
Observamos que a palestra de Otávio Dulci despertou surpresa em algumas pessoas da plateia, por ainda não terem se dado conta da multiplicidade de assuntos abordados pelos viajantes estrangeiros. Por outro lado, comentaram que a fala despertou reflexões, entre elas a questão: como importar ou exportar naquelas condições? O Caminho Novo está, pois, num dos vértices da luta para resolver o problema dos transportes.
Ao encerrar, o palestrante lembrou que embora a visão dos viajantes tenha sido muito crítica, devemos evitar o pecado do anacronismo, ou seja, pensar nos problemas da época com o olhar de hoje. E se erros pudessem ser apontados, o principal seria que os governos deixaram de investir de forma construtiva, por estarem totalmente focados na exploração mineral.

Picada de Goiás

Francisco Eduardo Andrade iniciou sua participação pela definição do enfoque a ser dado que seria analisar a rota em termos de relações de poder e econômicas, bem como em termos de constituição de uma territorialidade da Capitania e depois Província de Minas Gerais.
Explicando que a região abordada está localizada a oeste das nascentes do Rio São Francisco, declarou que o espaço já era explorado antes do início do período da mineração, contando com fazendeiros e vaqueiros que da rota da Bahia e de Pernambuco buscavam as nascentes do dito rio, incluindo o curso do Rio das Velhas, afluente daquele.Há também notícias de entradas de paulistas para o apresamento de indígenas,mais frequentes nas últimas décadas do século XVII. Assim é que, tanto as atividades pastoris como a busca do ouro e a caça aos naturais da terra,estimulavam o avanço em direção aos sertões mais interiores da América portuguesa. Donde há que se considerar as ligações históricas de Minas com Mato Grosso e Goiás, origem de conflitos de jurisdição entre Minas e Goiás no século XX.
Lembrou, também, que as atividades econômicas desenvolvidas nas Comarcas do Rio das Velhas e do Rio das Mortes promoviam a expansão pela região a oeste do São Francisco. Com o descobrimento do ouro pelos paulistas no início do século XVIII, o processo de povoamento daquele sertão ampliou-se significativamente. As tradicionais trilhas indígenas foram refeitas com novos propósitos. O interesse de vários grupos, como jornaleiros, faiscadores ou senhores de avultada fortuna era, além de encontrar descobertos lucrativos de ouro ou terra para pastoreio e plantio, apropriar-se dos ganhos provenientes do comércio legal de gêneros e escravos, ou do contrabando nas rotas coloniais importantes.
Na década de 1730, em função das possibilidades lucrativas desta rota do oeste, os arrematantes dos contratos de cobrança das taxas de entrada de gêneros e escravos na Capitania de Minas Gerais, os sertanistas Matias Barbosa da Silva e José Álvares, de Vila Rica,buscaram autorização dos governantes para abrirem um caminho na rota para Goiás. Junto a eles, dois outros nomes poderosos da Vila do Carmo, atual Mariana. Eram eles Caetano Álvares Rodrigues e Maximiano de Oliveira Leite.
Soubemos, assim, que a abertura da rota para Goiás obedeceu ao mesmo modelo do Caminho Novo, ou seja, as trilhas já existiam e foram apenas melhoradas por aqueles que a história tradicional cita como abridores do caminho. Citando o parentesco de Maximiano de Oliveira Leite com Garcia Rodrigues Paes, Francisco Andrade brincou dizendo que parece uma novela: muda o cenário, mas os personagens são sempre os mesmos.O acordo com o governador só foi estabelecido em 1736, sob a alegação de que os associados do empreendimento pretendiam favorecer o comércio legal, evitando-se os extravios. Entretanto, sabe-se que eles também participariam do contrabando.As alianças entre os membros do grupo e o poder basearam-se em laços de amizade e parentesco. Este aspecto, que hoje é visto como tráfico de influência, na época era uma prática absolutamente natural.
Neste ponto o palestrante lembrou que era uma forma de manter a competição entre os poderosos, no sentido da emulação, ou seja, uns buscando suplantar os outros não para destruí-los, mas para atingir fortuna maior e, consequentemente, alcançarem um patamar mais alto na escala de poder. Não havia interesse em destruir o outro pela simples razão de que possuir mais do que alguém despossuído não significaria uma vitória.
Matias Barbosa, Caetano Álvares Rodrigues e Maximiano Oliveira Leite eram proprietários de terras e escravos e moravam na região do Carmo Abaixo. Matias Barbosa era português e chegou às Minas na época dos primeiros descobrimentos de ouro, tornando-se rico fazendeiro,negociante e minerador, fazendo valer seus interesses junto à justiça local.Foi, ainda, arrematante de dois contratos de direitos de Entrada na Capitania,o que lhe permitiu reforçar o caixa. O contratante José Álvares foi tão importante que se destacou até na praça de Lisboa, durante o período pombalino,participando de 17 contratos régios.
Francisco Andrade ressaltou queos agentes pretendiam muito mais do que o alegado oficialmente, já que se assenhoraram de várias atividades na rota e nos encontros de rios, sempre obtendo altos lucros. Mas além dos senhores acima citados, outros poderosos da Capitania do Rio das Mortes, como Manoel da Costa Gouvêa, Manoel Martins de Melo e Francisco Bueno da Fonseca, intentaram participar das mesmas oportunidades,fazendo atalhos para a picada daqueles. Pretenderam, também, terras e possibilidades de lucro. Foram, porém, cautelosos em relação a disputas com os senhores da Comarca de Vila Rica.
As autoridades sempre descreveram a região oeste como problemática, com quilombolas e outros viandantes que ficavam circulando por ali, causando receio aos trabalhadores e fazendeiros.Com a criação da Capitania de Goiás, aumentaram as tensões sociais naquelas localidades, resultante da entrada constante de sesmeiros, mineradores,faiscadores e artesãos.
O palestrante destacou que a Picada de Goiás favoreceu a entrada de uma população pobre que foi se juntando em pontos estratégicos de uma rota com boas possibilidades de lucro, legal ou ilegal, especialmente porque o caminho de São Paulo também passava por ali.Assim, tudo o que saía de São Paulo, Rio de Janeiro e Vila Rica, demandando o interior, transitava pela rota. Os mais pobres, geralmente artesãos como sapateiros e carpinteiros, ou ferreiros e pequenos comerciantes, procuravam um lugar que lhes permitisse ganhos. Os mineradores, por sua vez, dependiam destes profissionais.
Os senhores de Vila Rica fundaram arraiais e capelas na região, onde estabeleceram dirigentes de sua confiança,os quais exerciam múltiplas atividades de interesse pessoal. Os senhores tiveram poder até mesmo para convencer o bispo de Mariana a elevar tais capelas a sedes de paróquias, causando novos conflitos. Como exemplo deste modelo de nascimento de uma freguesia, foram citadas Tamanduá e Oliveira.
Além dos conflitos de interesses com os senhores da Comarca do Rio das Mortes, houve também conflito com os interesses paroquiais desta mesma Comarca. Foi citado um capelão de Tamanduá,apadrinhado do grupo de Vila Rica, que abriu filiais em toda a região, montando uma rede de capelães a ele subordinados, invadindo a jurisdição das Comarcas vizinhas.
Concluindo, Francisco Oliveira declarou que ocorreu uma grande rede econômica e política bancada pelos interesses eclesiásticos.