Belmiro Braga, um escritor

Após o intervalo para almoço, a professora Leila Barbosa apresentou um histórico sobre Belmiro Braga, resultado de um trabalho realizado em conjunto com Marisa Timponi, que teve como objetivo resgatar a memória do escritor, um timoneiro da Academia Mineira de Letras.
A opção da palestrante foi pela abordagem de Belmiro Braga como o poeta da beira do Caminho Novo. Inicialmente falou sobre o nascimento do poeta na cidade que hoje leva o seu nome, e que tem origem na Fazenda Boa Vista, à margem do Caminho Novo, no primeiro trecho em que adentra as Minas Gerais.
 Foram apresentadas algumas obras do escritor, todas falando em caminho, em variados sentidos. No decorrer da palestra, outras informações sobre o poeta foram sendo inseridas, como a rápida trajetória escolar em Juiz de Fora e a passagem por Muriaé e Tombos do Carangola.
Uma das curiosidades sobre a vida do escritor foi o fato de comprar os livros e desmanchá-los para que fizessem menos volume e os capítulos pudessem ser levados ao ambiente de trabalho, sem chamara atenção do patrão.
Sempre ressaltando a verve satírica do escritor, uma fina ironia que se tornou conhecida com a volta para Juiz de Fora, quando começou a publicar seus escritos nos jornais O Pharol e Correio de Minas, Leila Barbosa informou que a obra de Belmiro Braga é múltipla, com textos em versos, em prosa e peças teatrais.
Na literatura como na crítica,disse Leila, o caminho não é apenas o lugar por onde as pessoas passam. Tem um valor simbólico e toda a vida de Belmiro Braga pode ser comparada a um caminho,ou uma caminhada poética e ideológica. Quando ele fala da estrada da vida, usa linguagem metafórica para marcar seu lugar no mundo.
Foi lembrado também que o trem,um meio de transporte muito querido pelos mineiros, foi mencionado pelo poeta em alguns escritos. Detendo-se na ironia em Belmiro Braga, foi destacada a diferença em relação à ironia de outros literatos, como no trecho em que ele escreve que Mar de Espanha é um mar que nunca tem peixe nem água. Ou quando escreve o que seria uma espécie de testamento, definindo como quer que seja seu sepultamento.

A palestra de Leila Barbosa nos fez refletir sobre o personagem Belmiro Braga, ligado por nascimento ao Caminho Novo e que usou figuras de linguagem sobre caminhos em diversas poesias que foram lidas.

Linguagem dos Sinos

A última fala da manhã do dia 19de agosto foi de Jairo Braga Machado, sobre esta manifestação cultural da qual São João del Rei é uma das referências. Isto ocorre em função da singularidade que a distingue em relação a outras localidades.Informou que em 2009 o Conselho do Patrimônio do IPHAN esteve na cidade para o registro do Toque dos Sinos como bem cultural imaterial.
O palestrante comentou o conceito de linguagem como sendo um código que determinada parcela de uma comunidade seja capaz de decodificar. Chamou a atenção para o fato de que não bastaria tombar o bem se a comunidade dele não se apropriasse. No caso em pauta, as Irmandades de São João del Rei mantém uma dinâmica extraordinária, representando um dos pilares fundamentais para a preservação não só da Linguagem dos Sinos como das edificações antigas, especialmente das igrejas.
Outro destaque foram os meninos e jovens da cidade que se apropriam dos espaços do fazer cultural da maneira mais digna possível. O que o leva a reafirmar que o tombamento é importante sim, mas se não houver o comprometimento da comunidade, o bem ou a prática cultural estará fadada ao desaparecimento.
Declarando-se preocupado com a preservação, Jairo Machado alertou para a necessidade de envolver os moradores e que se “Tiradentes, o alferes, é um espírito em movimento”, o toque dos sinos em São João del Rei desperta a lembrança de um tempo em que todas as atividades manuais eram exercidas pelos escravos, legando-nos um patrimônio cultural valiosíssimo.
Os atuais moradores de São João del Rei, vivendo numa época em que o aparato tecnológico está ao alcance de todos, não se esquecem do seu passado e se apropriam de instrumentos medievais de comunicação. Quando os sinos são tocados, sabe-se o que está acontecendo. Se foi um homem ou mulher quem morreu, a qual Irmandade pertencia, qual era o grau ocupado dentro da Ordem ou Confraria, e muitas outras informações sobre o fato são depreendidas da linguagem dos sinos.
No prosseguimento, Jairo Machado esclareceu que o tombamento do Registro de um bem imaterial é o instrumento prioritário para garantir-lhe a perpetuação. Investir na manutenção da prática e dos sinos é papel do Estado. E convidou a plateia a refletir: o que é importante no toque dos sinos, o sino ou o sineiro? E ele mesmo respondeu ser o sineiro, acrescentando a vivência dos meninos de São João del Rei, muitas vezes moradores da periferia, que são capazes de responder aos cantos em latim do padre, e sabem explicar ao leigo o que está sendo cantado.
Falou de sua decepção quando, visitando a Torre dos Clérigos, na cidade do Porto, Portugal,observou que os sinos são tocados através de um interruptor, tirando parte da magia da prática. Muito diferente do que ocorre em São João del Rei, onde a comunidade a tem perpetuado pela atuação fundamental do sineiro. Declarou ter catalogado 29 modalidades de toques, como aviso de incêndio,chamada do sacristão, aviso de morte e outras.
Ao encerrar sua participação, foi lembrado, que ao final deste primeiro dia do Encontro a plateia teria oportunidade de assistir ao vídeo produzido por Jairo Machado, sobre a Linguagem dos Sinos.

O mito da decadência de Minas Gerais no século XIX

Afonso Alencastro Graça Filho iniciou sua apresentação ressaltando que embora seja um tema já ultrapassado na nova historiografia mineira, ainda há alguns autores resistindo às evidências de que a Capitania de Minas Gerais, com o declínio da mineração, não viveu um momento de miséria terrível ou de uma decadência assombrosa.
Lembrou que Celso Furtado, cuja obra ainda é muito considerada, marcou a geração de uma época anterior às novas metodologias. Portanto, a visão daquele autor de que Minas teria vivido a maior retração econômica das Américas, e que só se recuperaria com a introdução do café, na segunda metade do século XIX, é uma postura tradicional que se perpetuou e que a nova historiografia de Minas Gerais tem descartado.
Em 1979, Maria Yeda Linhares publicou palestras que havia feito em Minas Gerais, questionando as evidências da decadência e sugeriu aos pesquisadores que voltassem seus olhos para a dinâmica da história econômica, olhando para a economia de abastecimento, ou seja, a pecuária e a lavoura de alimentos. Estes aspectos tinham sido desconsiderados pela antiga historiografia. Além disso, a autora se referiu ao escravismo que teria contribuído para um consumo atrofiado, pela falta de condições daquela fatia da população. Foi, portanto, um chamado para que as pessoas fizessem pesquisas mais aprofundadas, observando se o impacto da crise do ouro havia sido geral em Minas Gerais ou localizado nas áreas mineradoras, e que levassem em consideração a economia de abastecimento.
Afonso Alencastro prosseguiu lembrando que alguns autores, como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, haviam percebido que, mesmo se tivesse ocorrido uma queda consequente ao ocaso da mineração, uma parte de Minas teria se salvado. No caso, seria oSul de Minas que, em tempos remotos, era a Comarca do Rio das Mortes. Sendo assim, a região de São João del Rei, que foi cabeça da Comarca, é um lugar privilegiado para se falar da História de Minas Gerais.
Com o alerta de Maria YedaLinhares, os estudos começaram a ser redirecionados nos anos de 1980. Muitos nomes de destaque da historiografia desde então atenderam ao chamado e passaram a trabalhar em busca da diversidade de atividades econômicas, da transformação do trabalho e se tornaram referência para a visão de Minas como exportadora de alimentos para outras capitais. Entre os autores citados, estão Roberto Martins, Douglas Libby, Robert Slenes e Alcir Lenharo.
O ponto levantado por Roberto Martins era como Minas teria preservado a maior população de escravos numa economia em decadência. A partir daí, para responder a esta questão demográfica, houve um movimento de busca da resposta. Roberto Martins concluiu que não havia grandes trocas comerciais com outras capitanias. Douglas Libby demonstrou a grande diversidade de atividades econômicas.
O palestrante mencionou que uma das hipóteses levantadas para o grande número de escravos é que seria um resíduo do auge da mineração e que teria havido uma reprodução endógena da escravaria. Slenes e Lenharo acrescentaram que as relações externas de Minas Gerais não eram desprezíveis. Com os olhares voltados para as listas nominativas de habitantes de 1831, os pesquisadores verificaram que a maioria dos fogos não contava com escravos e, entre os que possuíam escravos, metade tinha até 5 indivíduos em tal condição. São, portanto, raras as grandes escravarias.
Lembrando que a consulta às fontes primárias é fundamental para o trabalho do pesquisador, Afonso Alencastro mencionou o professor João Fragoso, em cuja tese de 1992 é informado que, entre 1825 e 1830, 43% dos escravos saídos do Rio de Janeiro foram direcionados para Minas. Como seria possível se este foi justamente o período em que a antiga historiografia definiu como o da terrível decadência?
Foi informado que a análise da economia de mercado é o grande elemento de revisão do funcionamento geral da economia colonial brasileira, mas que apesar dos caminhos da nova historiografia, ainda existem resistentes, embora minoritários, que insistem na visão já ultrapassada. Neste caso, foi citado Wilson Cano, que persiste na linha da decadência pós-mineração.
Encerrando sua fala, o palestrante ressaltou que as antigas obras sobre o ciclo do ouro esconderam outros aspectos da história mineira como, por exemplo, a concessão de cartas de sesmaria a demonstrar que a mineração conviveu com significativa produção de alimentos. Exortou a todos para a necessidade de encarar a historiografia com mais seriedade, realizando pesquisas embasadas em fontes primárias, com a exploração exaustiva do que dizem tais fontes, para verificar como foi realmente o passado de Minas Gerais.

Caminhos de Dentro

Geraldo Barroso de Carvalho nasceu em Cipotânea, cidade cortada por uma linha reta imaginária que vai do Rio de Janeiro a Ouro Preto. Entrevistando antigos tropeiros,teve a curiosidade despertada pela expressão ‘caminhos de dentro’ e passou a estudar o assunto. Observou que o Caminho Novo representava um desvio significativo para oeste, podendo indicar que o percurso teria sido definido para beneficiar proprietários ou para atingir São João del Rei. Por outro lado,no leste a mata era fechada e havia por ali tribos de indígenas rebeldes.
Os moradores da região a leste do Caminho Novo cuidaram de buscar alternativas. Na altura de Simão Pereira,começaram a abrir trilhas no sentido que lhes seria útil: Mar de Espanha, Rio Novo, Rio Pomba, Mercês, Cipotânea, Lamin, Catas Altas, Lamin e Ouro Preto. O nome que se deu a tal percurso foi exatamente Caminho de Dentro, denominação utilizada para outros caminhos próximos.
Entretanto, a Coroa proibiu que se abrissem trilhas do lado leste do Caminho Novo, por receio da evasão do ouro. Observa-se, entretanto, que os tropeiros não obedeceram à legislação e começaram a abrir trilhas e construir pontes para facilitar o acesso. Tais trajetos passaram a ser chamados de Descaminhos do Ouro. Aos poucos as trilhas foram se unindo e criou-se uma estrada muito mais retilínea do que o Caminho Novo.
Dr. Geraldo Barroso concentrou-se na região do Alto Rio Doce por ter ali encontrado fontes orais bastante coerentes. Observou que por ali existiu um pequeno desvio para oeste, cujo objetivo parece ter sido contornar uma serra de difícil transposição, que separa Mercês de Alto Rio Doce. Neste local nascem afluentes do Rio Paraíba do Sul como o Rio Pomba e do outro lado, afluentes do Rio Doce, como o Xopotó.
Aos poucos foram surgindo outros‘caminhos de dentro’ que foram mostrados em cartografia, comprovando que a Coroa tinha razão porque estas vias tornavam relativamente simples para os contrabandistas se desviarem do Caminho Novo antes do Registro, e o retomarem mais adiante. Ressaltou,porém, que os caminhos foram abertos para tornar viável o escoamento da produção local como o mel, a cachaça e o açúcar.
Foram apresentadas imagens da bacia do Xopotó, onde algumas variantes foram abertas. A seguir, através de latitude e longitude das localidades abrangidas pelos Caminhos de Dentro, foi demonstrada a distância em que estavam do Caminho Novo.
Projetada a imagem de uma tropa,o palestrante discorreu sobre a composição e função dos que escoavam a produção local e traziam de volta os produtos necessários aos moradores. Lembrou da preocupação dos tropeiros em fugir dos assaltos que eram frequentemente relatados e citou um destes assaltantes, um padre, preso em Ouro Preto e dali evadido em pouco tempo, sendo posteriormente assassinado em Além Paraíba. Este padre era capelão até 1825, quando passou à deplorável prática no Caminho Novo.
Quando surgiram as ferrovias, os Caminhos de Dentro facilitaram o acesso às estações daquela região. Saindo de Cipotânea, os tropeiros pernoitavam em Alto Rio Doce e no dia seguinte atingiam Mercês.
A seguir foram mencionados dois viajantes estrangeiros que deixaram relatos sobre sua passagem pela região estudada: George Gardner e Herman Burmeister.

Geraldo Barroso encerrou sua participação contando uma curiosidade. Um tropeiro adquiriu dez burros novos e os batizou com nomes que começavam com a letra“P”: Penacho, Peixão, Passo-Preto (Pássaro-Preto?), Pirante, Paraná,Piraí, Panorama, Piano, Pensamento e “Paixonado” (Apaixonado).

O Direito e o Patrimônio Histórico

Alex Guedes dos Anjos estruturou sua fala a a partir da luta para salvar a Fazenda do Registro Velho, em Barbacena.
Iniciando, alertou para a necessidade de envolvimento da comunidade, uma vez que o poder público, sozinho, não dá conta e necessita da colaboração dos moradores para preservar o patrimônio cultural, do qual o patrimônio histórico representa apenas uma pequena parte.
Inventariar é catalogar, disse Alex, produzindo uma parte do processo de registro de bens patrimoniais mencionado na Constituição Federal. Para além do registro, são necessárias a vigilância e fiscalização dos bens, para que sejam preservados.
Sendo o tombamento o meio de proteção mais conhecido, é preciso observar que não se confunde com a desapropriação por representar apenas uma restrição aos direitos de propriedade, com o objetivo de preservar ou perenizar o bem em questão. Um bem tombado não passa a ser público, não se transformando necessariamente em objeto de visitação.
Entre as restrições mencionadas está a de impedir alterações, dar preferência na venda para a entidade que promoveu o tombamento e cuidar da conservação. O que remete a uma das principais dificuldades: falta de recursos do proprietário para fazer a manutenção.
O poder público pode aceitar doações de patrimônio e investir na sua conservação, beneficiando a sociedade.O legislativo pode criar leis específicas de proteção e é possível buscar ajuda também no poder judiciário.
Para o tema proposto, é mais importante tratar da Ação Civil Popular por ser a Pública restrita aos órgãos governamentais. Qualquer cidadão pode propor uma Ação Popular de preservação.Foi destacado que cidadão é aquele que está com suas obrigações eleitorais em dia e que a ideia da Ação Popular remonta ao Império Romano, não sendo,entretanto, regulamentada no Brasil senão a partir do século XX. Independe de reunião ou de abaixo assinado, podendo ser impetrada de forma individual. “Se a Ação Popular impetrada por um cidadão qualquer ensejar algo realmente a ser perscrutado pelo Poder Público, o cidadão fica livre de qualquer ônus e sucumbências. Mais especificamente ainda dizendo, se o autor não esconder qualquer motivo escuso e de proveito pessoal ao impetrar a ação para proteção de um bem patrimonial histórico, ela é totalmente livre de custas”, disse Alex.A responsabilidade de todo bem é prioritariamente do seu proprietário, mas pode ser transferida ao poder público nos casos de falta de meios daquele.
Quanto ao patrimônio histórico,foi esclarecido que não abrange apenas os bens tombados, mas tudo aquilo que se relacione à formação e realimentação da identidade de um povo. Sabendo-se de algum bem patrimonial com relevância histórica ou cultural que esteja abandonado, qualquer cidadão pode procurar a justiça para pedir proteção adequada.
Dados os esclarecimentos, Alex Guedes dos Anjos passou a relatar a Ação Popular de que foi autor, buscando a restauração da Fazenda do Registro, em Barbacena. Foram apresentadas fotografias do imóvel em diversos momentos, culminando com o estado deplorável em que se encontrava recentemente. Enquanto as fotografias eram projetadas, o palestrante discorria sobre o histórico da propriedade, mencionava os viajantes estrangeiros que por lá passaram e outras ocorrências de que foi palco, como a provável partida dos contendores por ocasião da Revolução de 1842.
Lembrou que, pelo estado em que se encontra uma propriedade com tantos vínculos importantes com a história de Minas e do Brasil, pode-se dizer que não foi somente a casa de Tiradentes que foi condenada a desaparecer, mas também esta fazenda na qual o Inconfidente esteve tantas vezes.
Ao final de sua intervenção, informou que o caso teve tanta repercussão que gerou o envolvimento da Prefeitura de Barbacena, que assumiu as obras emergenciais para preservar o que ainda resta do imóvel. As obras estão em andamento e o proprietário o nomeou procurador para fazer a doação a quem se encarregue de sua manutenção.

A Origem do Arraial da Igreja Nova

Tema abordado pelo professor Wilton Ferreira de Souza que iniciou a fala citando versões sobre o surgimento do arraial. Uma delas dá conta de que algumas pessoas chegaram ao local, o alto do morro, e resolveram erigir uma igreja. Mas havia nas imediações alguns sesmeiros ou ocupantes do local que de imediato aceitaram a ideia, dizendo que o terreno não era deles e que a construção não só da capela mas também de casas de moradia resolveria uma discussão que já vinha ocorrendo, com diversos moradores querendo a igreja em suas próprias terras.
Entretanto, ressaltou Wilton, a partir do momento em que se começou a organização do arraial, Estêvão dos Reis e um sobrinho dele começaram a criar problemas. Alegaram que cederam terreno próprio, contrariando a conversa anterior. Foram, então, até Ouro Preto e pediram que o local fosse incorporado à sesmaria deles. E passaram a alegar que haviam permitido a construção da capela mas não de casas e que se estas fossem erigidas eles exigiam que o comércio lhes pertencesse.
Para Wilton, a ocorrência foi uma escaramuça, uma questão de avareza, que o leva a pensar numa outra hipótese para o surgimento da Igreja Nova: as relações igreja-estado e a nobilitação procurada pelos então moradores locais. Seriam pessoas em busca de escalada social.
O palestrante se baseia em Francisco Eduardo de Andrade, cuja palestra ocorreu mais tarde, para informar que os memorialistas dizem que a capela era erigida e a partir dela surgia o arraial. Entretanto, pesquisas detalhadas demonstraram que a capela era construída em função do que já existia no local, como um entroncamento de caminhos e o mobiliário urbano que na época fazia parte deles. No caso da Igreja Nova, ali já existia o Registro e uma vida social e econômica em seu entorno, como fatos geradores da necessidade de construção de um local para a prática religiosa, contrariando, desta forma, o que dizem os memorialistas.
No mesmo sentido foi apresentada uma análise da noção de que os construtores da capela teriam uma espécie de plano de edificação do povoado. Um dos argumentos é uma carta dirigida pelos moradores ao Rei, alegando que o local era visitado frequentemente por pessoas perturbadoras da ordem. Oras, pergunta Wilton, como poderiam querer construir uma capela em local tão inadequado? E ele mesmo responde que há indícios da influência da missão pacificadora da Igreja, de ordenar e evangelizar os moradores locais. Donde o interesse de formação do arraial seria não só daIgreja como dos potentados da região.
Wilton Ferreira de Souza ressaltou que o doador de terras para constituição do patrimônio do santo protetor adquiria alguns direitos, sendo o mais evidente a aproximação com o aparelho da igreja que era também um aparelho de Estado. Ou seja, o doador usava desta estratégia para se aproximar do poder. Todos queriam este acesso. Portanto, doação era uma atitude planejada para a escalada social.
Prosseguindo, foi abordada a questão denominada ‘economia do dom’, ou seja, quem faz alguma doação é automaticamente nobilitado. Quem faz mercê à Igreja tem como benefício o acesso a um novo patamar na sociedade. Naquela época, quem quisesse se nobilitar deveria, antes de mais nada, viver como nobre. Neste processo, o interessado poderia ser até um oficial mecânico, por exemplo, mas não poderia viver como tal. Esta seria a razão para os casos de pessoas que construíram fortuna e a perderam no momento em que passaram a utilizá-la para sustentar uma vida de nobre.
Concluindo sua apresentação, oprofessor Wilton reforçou a opinião de que o surgimento de um arraial, eespecialmente da Igreja Nova, teria sido uma questão de negócio, envolvendo deforma evidente o processo de escalada do poder. Reiterou haver indícios deque a parcela mais abastada daquela população teria interesses na formação dopovoado, o que coloca em campos opostos a opinião de memorialistas e dosestudiosos que pesquisaram o tema.

Antigas ligações entre os Caminhos Novo e Velho na região das Vertentes

A segunda palestra do dia 19 de agosto ficou a cargo de Francisco Rodrigues de Oliveira.
Foi apresentada cartografia do Caminho Velho e Novo e explicado que o Velho era vulnerável no trecho marítimo do Rio até Parati, frequentado por piratas. Além disso, o percurso total consumia até três meses de deslocamento, enquanto pelo Caminho Novo era possível ir do Rio a Vila Rica em um mês.
 Mapa da Estrada Imperial
Acervo do Arquivo Público Mineiro
Demonstrando que, no início de cada um, havia uma boa distância a separá-los, ressaltou que ao entrar em Minas as duas vias iam se aproximando até se unirem na altura de Conselheiro Lafaiete. Na parte inferior da Serra da Mantiqueira a mata era fechada. Já no Campo das Vertentes,região que abrange São João del Rei e Barbacena, só existia mata nas margens dos rios, as chamadas matas ciliares. As demais áreas do campo eram cobertas por vegetação rasteira, com árvores esparsas.
Esta condição lhe parece ter favorecido o surgimento de várias trilhas, anteriores à abertura dos Caminhos Velho e Novo, resultando em que ambos tenham sido, na verdade, o alargamento devias já existentes. Ressaltou que o índio, por não conhecer o cavalo, teria aberto trilhas bem estreitas. Advindo a necessidade de transporte de carga, em lombo de animais, tornou-se imperioso transformar aquelas picadas em passagens que permitissem o trânsito de um animal com cargas dispostas dos dois lados.
Citou os viajantes estrangeiros que passaram pela região nos séculos XVIII e XIX, buscando responder a curiosidade dos europeus. A partir da vinda da Família Real Portuguesa em 1808,surgiram as expedições científicas, com objetivos mais específicos.
Outros mapas foram apresentados.Um deles, do final do século XIX, com as condições geológicas de Minas. Em seguida um mais recente, já contando com a tecnologia da fotografia aérea.
A imagem de um rancho despertou curiosidade na plateia, sendo explicado que era uma cobertura de sapé sobre quatro esteios que servia para abrigar os viajantes. Os estrangeiros reclamavam do desconforto e dos bichos de pé e carrapatos, além do hábito dos tropeiros decantarem durante a noite inteira depois de passarem o dia todo trabalhando duro.
Francisco Rodrigues de Oliveira explicou também que o proprietário construía o rancho a pequena distância desua casa, onde só se hospedavam as autoridades que por ali passassem. Para os demais, que ficavam debaixo daquela cobertura, nada era cobrado pela estadia,mas pela venda de alimentos, especialmente o milho para os animais.
Em seguida discorreu sobre a forma como eram desenhados os mapas no final do século XIX. Chamada triangulação, consistia em alcançar um determinado ponto elevado que permitisse a visualização de outro ponto de mesma altitude. Medindo-se a distância entre os dois pontos, através de um aparelho de medição de ângulos era possível completar o terceiro lado do triângulo. Fazia-se, então, um levantamento de detalhes da área medida. De cada triângulo composto partia-se para suas interseções.
Foi citada a Várzea do Marçal, localidade próxima a São João del Rei, que foi o ponto de início da medição naquela região. E explicando como o trabalho era realizado, Francisco Rodrigues de Oliveira destacou que os encarregados da operação eram engenheiros dos quais se exigia também boa capacidade de expressão gráfica para registrar em papel os componentes encontrados. Além disso, havia uma turma para fazer a medição linear entre dois pontos e outra turma fazendo a mesma medição no caminho inverso, tirando-se a média dos dois resultados encontrados.
Além de Cunha Matos, o cronometrista do Caminho Novo, Francisco Rodrigues de Oliveira mencionou em sua palestra os viajantes Antonil, Tavares de Brito, Costa Matoso, Saint Hilaire,  Langsdorff e Richard Burton, personagens que passaram pela região e com suas descrições contribuíram para que as informações chegassem até nós.

João Rodrigues: centenário de nascimento


Nasceu no dia 23 de agosto de 1911, no Sítio Puris, em Leopoldina. Neto e bisneto de antigos moradores do então Feijão Cru, foi criado num lote da Colônia Agrícola da Constança.
Informações biográficas em texto de seu filho José do Carmo, disponível neste endereço.

Abertura do Segundo Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo

Com a colaboração dos amigos Silvia Buttros e Francisco de Barros, serão aqui publicados relatos do Segundo Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo.
Iniciado no dia 19 de agosto de 2011, desta vez promovido pelo escritório do IPHAN emSão João del Rei, sob a direção de Jairo Braga Machado, este Segundo Encontro veio solidificar o projeto inicialmente desenvolvido pelos membros do Centro de Memória Belisário Pena e pela Associação Cultural do Arquivo Histórico Municipal Professor Altair Savassi – Acahmpas, entidades de Barbacena, Minas Gerais.
Iniciando os trabalhos, Luiz Mauro Andrade da Fonseca falou sobre a informalidade do Encontro, para o qual as pessoas vão espontaneamente, fazem a inscrição na hora, as despesas são socializadas e os palestrantes não recebem cachê. Ressaltou que o público é diferenciado, não é um público leigo. São pessoas que acompanham as palestras com muita atenção.
O objetivo do encontro, disse o Dr. Luiz Mauro, é promover uma reunião de pesquisadores que apresentam os temas que estudam para compartilhar com os demais as suas experiências. Comparecem pessoas vinculadas a universidades ou não, genealogistas, pessoas voltadas para a preservação do patrimônio cultural, memorialistas etc. E mesmo os que não estão diretamente ligados ao tema, acabam se interessando dada a espontaneidade com que são abordados os assuntos.
Destacou que há o cuidado de evitar a repetição desnecessária do que está publicado em livros, por não ser de interesse a apresentação de assuntos já estabelecidos, mas de pesquisas regionais, autênticas, que ajudam a progredir. O Caminho Novo foi escolhido por mote dos Encontros, o que não impede de serem abordados todos os caminhos de Minas, como a Picada de Goiás e outros que nos ajudam a compreender a história de Minas e do Brasil.
Explicou que ele e Francisco Rodrigues de Oliveira trabalham com sesmarias há cerca de 20 anos, e que a maior dificuldade sempre foi com a toponímia. Como exemplo citou o nome Cuiabá que aparece nas cartas e evidentemente não se refere à cidade do Mato Grosso. Ou seja: são documentos que trazem topônimos pouco conhecidos pelos pesquisadores.Motivo pelo qual foi convidada a professora Maria Cândida Seabra para falar sobre Toponímia da Comarca do Rio das Mortes, o que certamente permitirá um grande salto na pesquisa dele e de Francisco Rodrigues de Oliveira.
Luiz Mauro deu boas vindas e agradeceu a presença de todos, desejando que formem uma confraria de amigos que facilitem o avanço das pesquisas de uns em contato com as experiências dos outros. Agradeceu também ao Presidente da Academia Sanjoanense de Letras, José Cláudio Henriques,que compareceu acompanhado pela secretária da instituição, Zélia Maria Leão Terrell, pela cessão do espaço para a realização do Encontro.
Em seguida, passou a palavra a Francisco Rodrigues de Oliveira, com o tema Antigas ligações entre os Caminhos Novo e Velho na região das Vertentes.

Peter Blasenheim comenta jornais e arquivos em Minas

Em conferência proferida no dia 16 de agosto, em Cataguases, o professor norte americano Peter Blasenheim fala sobre os jornais, fonte secundária que ele teve dificuldade de localizar quando realizou pesquisas na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, há cerca de 30 anos. E manifestou desagrado com a falta de organização do Arquivo Público Mineiro.
Agrademos à professora Natania por gravar e divulgar no You Toube alguns trechos desta conferência.