170 – Bento Rodrigues Gomes

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O Trem de História de hoje fecha o ciclo dos dois irmãos pioneiros de Leopoldina trazendo Bento Rodrigues Gomes.

Bento casou-se aos 13 de julho de 1813, em Bom Jardim de Minas, com Ângela Joaquina de Jesus, filha do pioneiro Joaquim Ferreira Brito e de Catarina Esméria de Sene.

Em seu testamento [1], Bento declarou ter tido dezesseis filhos, mas relacionou apenas os nove que estavam vivos na ocasião.

Registre-se, por oportuno, que nas fontes consultadas até aqui foram encontrados doze filhos deste casal, sendo os dois mais novos nascidos no Feijão Cru. Bento faleceu aos 16 de março de 1862, na condição de viúvo.

Em 1856 ele declarou [2] ter comprado cerca de 300 alqueires de Francisco Manoel de Souza e Ana Rosa de São José, os quais faziam parte da propriedade denominada Fazenda Cachoeira Alta do Bagre quando de sua morte.

É importante registrar que talvez tenha havido engano na indicação do nome do vendedor, já que em uma Carta de Sesmaria [3] doando terras no “Ribeirão dos Bagres que deságua no Pomba por baixo do Feijão Cru”, o nome do beneficiário seria Manoel Francisco Corrêa. De todo modo, nem Francisco Manoel de Souza nem Manoel Francisco Corrêa são referidos na documentação ainda existente sobre os pioneiros do Feijão Cru.

Os vizinhos de Bento Rodrigues Gomes foram Genoveva Maria de Jesus, Marianna Pereira Duarte, José Thomaz de Aquino Cabral, Felisberto Antônio de Souza, Joaquim Dias Netto, Francisco Antônio de Almeida e Gama, Francisco Bernardino Machado, Antônio Joaquim Teixeira, Antônio Rodrigues Gomes e a propriedade limitava-se, ainda, com o Rio Pomba.

Conforme já se viu nesta série, Genoveva Maria de Jesus era proprietária da Fazenda Santana do Pomba, cuja sede ficava no local onde mais tarde foi construída a Estação Vista Alegre da Estrada de Ferro Leopoldina.

De Mariana Pereira Duarte era a Fazenda Recreio, vizinha dos Aquino Cabral da Fazenda Santa Cruz. Felisberto Antônio de Souza era proprietário de um pequeno sítio de 15 alqueires. Assim como Felisberto, o vizinho Joaquim Dias Neto também não declarou o nome da propriedade de 40 alqueires que levou a registro na mesma época. Francisco Antônio de Almeida Gama era vizinho de Bento Rodrigues Gomes pela propriedade que denominou Circuito, nome também da volta que o Rio Pomba faz pouco antes de atingir Vista Alegre, sendo aí também localizada a propriedade de Francisco Bernardino Machado. Os outros dois vizinhos citados por Bento foram Antônio Joaquim Teixeira, que registrou 200 alqueires no Ribeirão do Bagre e o seu irmão Antônio Rodrigues Gomes.

Na Divisão requerida por Antônio Sabino Damasceno Ferreira aos 07 de dezembro de 1889 para demarcação dos limites de sua fazenda Estrela [4], consta que

“Aos 25 dias de novembro de 1871, nesta fazenda dos Bagres, no alto de um espigão na divisa das fazendas dos Bagres e Fortaleza […] ordenou o Juiz que fosse cravado o marco para começo da divisa entre João Gualberto Damasceno Ferreira e Joaquim Antônio de Oliveira. […]”

Considerando que a Fazenda Fortaleza foi formada por João Gualberto Ferreira Brito, pai de João Gualberto Damasceno Ferreira, e que tal fazenda representou o legado paterno recebido por João Gualberto Damasceno, é possível concluir que a fazenda Cachoeira do Bagre, formada por Bento Rodrigues Gomes, estendia-se desde as proximidades do Rio Pomba, onde divisava com a fazenda Santana dos Miranda, até a altura da Fazenda Fortaleza.

Os filhos

Bento Rodrigues Gomes e Ângela Joaquina de Jesus tiveram os filhos a seguir.

1) João Rodrigues Ferreira cc Messias Esméria de Almeida, filha de Manoel Antônio de Almeida e Rita Esméria de Jesus. Tiveram quinhão da fazenda Feijão Cru do pai de Messias, e foram condôminos e confrontantes da Constança; 2) Mariana Vitoria de Jesus cc Francisco Izidoro Ferreira Brito, filho de Joaquim Ferreira Brito e Joana Maria Macedo; 3) Francisco Rodrigues das Chagas cc Francisca Cândida da Gama. Residiram na fazenda Cachoeira Alta do Bagre, do pai de Francisco, na divisa com terras de Francisco Antônio de Almeida e Gama que pode ter sido familiar de Francisca; 4) Rita Flausina de Jesus cc João Ferreira de Macedo que também pode ser meio irmão da sogra; 5) Maria nasceu entre 1817 e 1822, e faleceu na infância; 6) Joaquim Rodrigues Gomes cc Ana Flausina de Nazareth; 7) Fidelis Rodrigues Gomes cc Mariana Leopoldina de Lacerda, filha de Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda e Mariana Maria de Macedo; 8) Ana Catarina de Jesus cc Evencio José Fabrício da Fonseca, filho de Bernardo José da Fonseca e Ana de Souza da Guarda; 9) Vicente Rodrigues Ferreira cc Luciana Francelina da Anunciação, filha de Antônio Rodrigues Gomes e Rita Esméria de Almeida; 10) Calisto Roiz nasceu entre 1825 e 1827 e faleceu na infância; 11) Theodoro Roiz nasceu entre 1828 e 1833 e também faleceu na infância; e, 12) Bernardo Rodrigues Gomes cc Tereza Maria de Brito e segunda vez com Rita Silvéria de Almeida, filha de João Rodrigues Ferreira Brito e Messias Esméria de Almeida. No segundo casamento residia no Monte Redondo, em terras que teriam sido de Manoel Antônio de Almeida, avô materno de Rita. Talvez a primeira esposa fosse irmã da segunda.

O Trem de História encerra aqui a história conhecida dos dois irmãos pioneiros de Leopoldina que, entretanto, poderão vir a ser citados quando forem abordados seus vizinhos. Na próxima viagem um outro personagem virá. Até lá!

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 422 no jornal Leopoldinense, julho de 2021

Fontes consultadas: 
1 - Inventário de Bento Rodrigues Gomes processo 38404388 COARPE – TJMG. 
2 - Registro de Terras de Leopoldina. Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, termo 59. 
3 - Arquivo Público Mineiro. Carta de Sesmaria de 19 de setembro de 1821, SC 384 p. 107v. 
4 - Divisão amigável da Fazenda Estrela processo 38401585 COARPE-TJMG.

134 – O Ribeirão Jacareacanga

Em oportunidade anterior, quando se tratou do Ribeirão do Feijão Cru, foi dito que ali não se ocupava tempo e paciência de eventual leitor por ser um grande curso d’água ou, um curso de águas límpidas. Ocupava-se porque ele emprestou o seu nome ao povoado que deu origem à cidade e porque a sua bacia hidrográfica estava integralmente dentro dos limites do município de Leopoldina. Porque o Feijão Cru é da cidade e a sua vida se confunde com a vida dos que aqui vivem.

Recorde-se que o povoado surgiu nas imediações da Igreja do Rosário e cresceu pela margem direita do Feijão Cru, expandindo-se pelas encostas dos Pirineus, Tabocas e pelo vale por onde passam as ruas Cotegipe e Presidente Carlos Luz que margeavam antigo córrego, escoadouro das águas nascidas em mina existente na Praça General Osório que desaguavam no Feijão Cru, nas proximidades do Colégio Estadual Botelho Reis (Ginásio). Com o tempo o casario subiu o morro da Catedral, aproveitou o estreito que formou a Rua do Buraco (das Flores) e foi juntar-se ao Bairro da Grama, que também está na mesma margem direita do Feijão Cru. Muito depois é que os habitantes saltaram o Ribeirão e povoaram a Fábrica, a Praça da Bandeira e subiram o Alto da Ventania.

Mas hoje o que se pretende é falar das águas que vertem ou, correm para o outro lado do morro dos Pirineus, da elevação que forma o bairro da Meia Laranja e do lado norte da Volta da Cobra, onde nasce, do lado sul, o Feijão Cru. São águas que formam outros córregos e outro importante ribeirão por onde escoam as águas de chuva que caem no atual centro da cidade.

O que se quer contar é um pouco da história do Ribeirão Jacareacanga, irmão do Feijão Cru, porque nascem na mesma serra da subida da Volta da Cobra. Um à direita e o outro à esquerda da estrada que segue para o Arraial dos Montes / São Lourenço e Abaíba. O Jacareacanga, na região da Serra dos Netos, nasce no alto do morro e por entre pedras e árvores desce a encosta por um dos vales e vai recolhendo as águas de pequenas nascentes. Quando chega à parte plana, em terras que formavam a antiga fazenda Fortaleza, antes de cruzar a BR-116 recebe pela margem direita o Córrego Fortaleza. Logo depois, na outra margem da rodovia, pelo lado esquerdo recebe a contribuição do Córrego Três Cruzes, que lhe traz as águas das encostas da região do Brasília Country Club. Segue seu curso e, na Fazenda Estrela, recebe o córrego Bela Vista e o Pau Cascado, afluentes da margem esquerda.

O Córrego Bela Vista é o que recolhe as águas do bairro de mesmo nome e as que descem pelos fundos da Rodoviária, do CEFET e pelo lado norte da Meia Laranja. E mais ou menos paralelo à Avenida dos Expedicionários, marca a divisa entre os bairros Bela Vista e São Cristóvão.

É bom que se observe que entre estes dois bairros passa o Córrego Bela Vista, diferentemente do que afirmam algumas pessoas que consideram ser ali o Jacareacanga.

Voltando ao curso do Ribeirão, depois que passa pela Fazenda Estrela ele segue mais ou menos o leito do ramal da antiga linha férrea.

No jornal O Leopoldinense, edição 65, 08.09.1885, p. 3, nota intitulada “Serviço de Immigração” informa que “até 2ª ou 3ª o fiscal adquirirá, por conta do Estado, o Sítio Jacareacanga, onde vai ser montada uma hospedaria com capacidade para receber 1200 imigrantes.” Na folha 20 S2 E3 da cartografia da Comissão Geographica e Geologica de Minas Gerais de 1926, consta que no terço final do Ribeirão localizava-se a Fazenda Jacareacanga.

Registre-se que em 1896 a hospedaria de Leopoldina, na estação de Vista Alegre, posteriormente denominada Hospedaria Jacareacanga, estava em construção, segundo a mensagem do presidente do estado Chrispim Jacques Bias Fortes, de 15.07.1896. p. 31.

Aproximando-se de sua foz, o Ribeirão Jacareacanga recebe o Córrego Santana e a seguir mais dois afluentes, os córregos do Bagre e o São Luiz, todos pela margem esquerda.

Logo depois, deságua no Rio Pomba, bem perto da estação donde partia o TREM que ligava a Estrada de Ferro da Leopoldina ao centro da cidade que lhe emprestou o nome. Um TREM de verdade que fez história transportando imigrantes e riquezas da região. Um TREM que ficou na história e, inspirou este TREM DE HISTÓRIA que hoje conta as muitas histórias que ocuparam e ainda ocuparão este espaço do Jornal. Histórias que não acabam, porque a vida e a viagem deste imaginário TREM continuam na próxima edição. Até lá.

Luja Machado e Nilza Cantoni – Membros da ALLA

Publicado na edição 387 no jornal Leopoldinense de 1 de setembro de 2019