Reflexões sobre nosso Trabalho

O último boletim sobre a Colônia Agrícola da Constança – Contagem Regressiva, distribuído mensalmente entre os leitores interessados, gerou diversos comentários aos quais prometemos responder aqui pelo blog. Um deles refere-se a uma reflexão que publicamos, em fevereiro de 2009, na qual dissemos que temos a ousadia de tentar resgatar uma história até aqui relegada ao “silêncio”. Pedro Ferreira pergunta o motivo pelo qual ainda não tinha sido registrada a trajetória dos imigrantes que viveram em Leopoldina.Assim como temos feito em outras oportunidades, respondemos com palavras dos pensadores que nos guiaram durante todo o processo de pesquisa. Segundo Michel Foucault, em Arqueologia do Saber,

A história, em sua forma tradicional, se dispunha a “memorizar” os monumentos do passado, transformá-los em documentos.

Nós escolhemos uma via que se contrapõe à história tradicional, a qual se concentrava em acontecimentos ditos importantes, relegando ao esquecimento o que classificava como desnecessário perpetuar. Entendemos por inviável tal posição, na medida em que os historiadores determinaram o que seria importante a partir de uma visão particular de mundo que não é mais aceitável.

Nossa escolha fundamenta-se, entre outras, nas palavras de Fernand Braudel em Escritos sobre a História, onde declara que não existe

indivíduo encerrado em si mesmo […] todas as aventuras individuais se fundem numa realidade mais complexa, a social.

Optamos pela reação contra

a história arbitrariamente reduzida ao papel dos heróis quinta-essenciados.

Realmente acreditamos que a história modula o destino dos homens. Na medida em que pudermos dar voz aos que foram desconsiderados pela história antiga, estaremos contribuindo para um novo lugar de memória, onde a sociedade leopoldinense poderá haurir outros componentes de sua formação identitária.

Posse de colonos em agosto de 1911

Além do lote número 39, dois outros tiveram os contratos de venda assinados em agosto de 1911. No dia 26 foram vendidos o lote 5 para o italiano Carlo Meccariello e o lote 45 para Gustav Fischer.

O primeiro viveu na Colônia Agrícola da Constança por um bom tempo e foi o segundo adquirente do lote, conforme explicamos em coluna publicada no jornal Leopoldinense. Já de Gustav Fischer sabemos apenas que era casado com Claire Burghart e teve pelo menos três filhos: Luiza, Maria e Alfredo. Segundo uma neta de Gustav, a família transferiu-se para Ubá e depois para Juiz de Fora.

Uso de Documentos

Eliane Pereira, em longa mensagem sobre passagens que julga fantasiosas na história da imigração, pede nossa opinião sobre quais seriam as fontes mais confiáveis para resgatar a memória. Talvez a decepcionemos, prezada leitora, mas nossa opinião é de que não é possível classificar as fontes aprioristicamente. Acreditamos que cabe a nós, na investigação de cada documento, detectar o que é adequado. Como alerta, escolhemos palavras de dois teóricos.

O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. (Jacques Le Goff, em História e Memória)

Já Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, declara que os problemas da história se resumem numa expressão: o questionar do documento.

Memória Coletiva

“Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva”. 

Assim Le Goff se expressa a respeito das práticas das classes dominantes sobre a sociedade. [História e Memória, Editora Unicamp, 5ª edição em 2003, pag. 422] A memória, ensina este autor, é fenômeno individual e psicológico, ligado à vida social. Conservar certas informações representa a conquista do passado coletivo.

Teóricos da historiografia nos ensinam que a memória, por ser parte integrante da nossa identidade, deve ser resgatada pelos historiadores tendo em mente que o que sobrevive do passado é resultado de escolhas pelos detentores do poder em todas as épocas. Conhecemos um tipo de história dita tradicional, que só dá voz aos nomes que escolheram como representativos. Quem são estes representantes que a história tradicional se dedicou a monumentalizar? Há entre eles algum colono imigrante, que deixou a terra natal por falta de condições de garantir o sustento de sua família?

Muitos outros grupos sociais foram sepultados da memória coletiva, por decisão de quem detinha o poder de escolha sobre aquilo que deveria ser perpetuado. A nova historiografia veio ultrapassar esta barreira. E nós, humildemente, estamos aqui para contribuir com o pouco que nos foi dado conhecer sobre esta gente guerreira que mudou a face de Leopoldina.

Novos Togni

Com a colaboração de Roberto de Oliveira Togni, temos o prazer de incluir novos descendentes à família de Arturo Togni e Augusta Pradal, pais de Euclides.

Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos

O Jornal Leopoldinense Online está recebendo as inscrições do 18º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos, promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Leopoldina.

Para saber maiores informações, acesse o site: clique no banner CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS e leia atentamente o EDITAL e REGULAMENTO disponíveis para download e preencha o formulário da pré-inscrição.

Os italianos e a língua portuguesa

Segundo informou um de nossos entrevistados, após a morte de um fazendeiro da região de Leopoldina, os herdeiros decidiram “lotear” a propriedade e diversos compradores foram colonos italianos ainda com pouquíssimo domínio da língua portuguesa. 

Para eles, fazenda era o local onde se instalava a casa de moradia do proprietário, tendo nas proximidades os equipamentos comuns naquela época, como a tulha, o curral, o barracão, os terreiros para secagem do café e as casas de colonos. Ou seja, não era a propriedade rural em si, mas a sede.

Para aqueles colonos, seria o equivalente à fattoria italiana, vale dizer, o complexo administrativo de um núcleo agrícola, compreendendo a residência do fattore (administrador ou proprietário). Sendo assim, o imigrante que adquiriu o terreno onde se localizava a sede, passou a ser denominado pelos outros como fazendeiro. Ou melhor, fatiendero era como pronunciavam.

A Verdade de Cada Um

Qual é a “sua” verdade sobre as colônias agrícolas criadas em Minas no alvorecer dos novecentos? Para você, elas foram celeiro de mão de obra para os latifúndios? Foram berço de novas relações de trabalho? Os colonos foram escravos de cor de pele diferente dos anteriores? Foram artífices de uma nova ordem social?Nós acreditamos que o passado não é um objeto isolado, fixo, imutável. Cada momento do vivido pode ser aproveitado como argamassa do porvir. Usando uma feliz expressão de Walter Benjamin, “escovar a contrapelo” a história da Colônia Agrícola da Constança nos permite vislumbrar os alicerces de uma construção social na Leopoldina que recebemos das mãos de milhares de homens e mulheres que nos antecederam. E assim como cada um representou seu papel, no exercício de reconhecê-los nós nos preparamos para nossa própria atuação, sedimentando o futuro que queremos ter. Sem nos esquecermos, como ensina Marc Bloch em Apologia da História (pag 109), que

“O historiador não estuda o presente com a esperança de nele descobrir a exata reprodução do passado. Busca, nele, simplesmente os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo”.

 

Bases para nossos Estudos

Alguns leitores deste blog e do site perguntam como desenvolvemos nossa pesquisa. Reconhecemos que, até o momento, pouco abordamos sobre a metodologia da pesquisa. Brevemente pretendemos suprir esta falha, publicando o capítulo que escrevemos sobre a elaboração do projeto e seu desenvolvimento. Se ainda não o fizemos é porque, em nosso cronograma, definimos que em abril de 2010 substituiremos os textos publicados no jornal O Leopoldinense, disponíveis no site, pela íntegra de nosso trabalho. No momento estamos dando os retoques finais no texto básico para, em seguida, fazermos a revisão dos outros capítulos.De todo modo, e respondendo diretamente à Mara Lúcia, informamos que buscamos fundamentação teórica em diversas áreas. Especialmente na Sociologia e na Antropologia que, segundo Le Goff em Reflexões sobre a História, estão profundamente vinculadas à História Social.