Revisão Bibliográfica: Dimensão Fundamental para o Planejamento da Pesquisa

Artigo de José D’Assunção Barros publicado na Revista Instrumento.
Resumo:
Este artigo busca desenvolver uma reflexão acerca da Pesquisa em História, particularmente direcionada para os pesquisadores que se defrontam com este que é um dos primeiros momentos da pesquisa a ser iniciado: a construção da Revisão Bibliográfica. A principal intenção do artigo é trazer uma contribuição para alunos e professores dos campos de conhecimento relacionados às ciências sociais e humanas, e particularmente da História, oferecendo algumas sugestões práticas e meios para o entendimento e o esclarecimento sobre aspectos relacionados à Teoria e à Metodologia no que se refere à condução do processo de Pesquisa.

956 (objeto application/pdf)

O Povo também tem Ancestrais

Uma releitura de História da Vida Privada, na França, trouxe à lembrança dois autores que valorizam as histórias de família como instrumentos de educação e cidadania.
Georg Sand, aclamada escritora francesa do século XIX, em História de Minha Vida conclama as classes populares a seguirem-lhe o exemplo, registrando suas histórias pessoais. Justificou dizendo que “o povo tem ancestrais tanto quanto os reis” e que a transmissão de informações sobre os antepassados seria uma forma de ampliar a visão de mundo das gerações subsequentes.
Já para Condorcet, grande pensador francês do final do século anterior, o aperfeiçoamento humano pode ser alcançado pela educação. Segundo ele, registrar a trajetória da própria família é um momento rico em reflexões e por esta razão defendia que fossem escritas as histórias da massa e não mais apenas das elites.
Estas posições parecem combinar com algumas mensagens que temos recebido dos leitores, a partir do momento em que divulgamos a atualização das genealogias de famílias povoadoras de Leopoldina. Uma delas declara que não imaginava ter raízes tão profundas no município e que não sabia nem mesmo os nomes de seus bisavós. Um outro leitor, que também manifesta satisfação com a descoberta, pede-nos que escreva a história de sua família.
Queremos publicamente dizer a estes leitores, como a todos os outros, que é uma satisfação saber que nosso trabalho foi útil. Entretanto, da mesma forma como utilizamos o levantamento de dados familiares para compreender aspectos variados da vida em Leopoldina, acreditamos que cada um possa se basear na composição de seus grupos para buscar outras informações, contextualizar fatos isolados e reconhecer-se como parte de uma sociedade mais ampla, para além de seus parentes próximos.
Nem todos podem se dedicar à busca de dados para começar a escrever. Contudo, ainda que nosso trabalho não seja tão extensivo quanto gostaríamos, esperamos que as informações básicas que recolhemos e publicamos sirvam de incentivo para que cada um escreva o próprio relato.

V – Teoria Necessária

Em História e Memória (4. ed. Campinas: Unicamp, 1996), Jacques Le Goff declara que  o passado é possível recuperar duas formas de memória: os monumentos e os documentos. Monumento é o que pode evocar o passado e permitir a recordação do vivido, como estátuas, construções e atos escritos. Assim como os monumentos entendidos nesta acepção, os documentos históricos são também monumentos, produzidos conscientemente para deixar registrado um momento, uma passagem ou uma forma de ordenamento social. O documento escrito é resultado da escolha de quem o produziu, baseado nas concepções vigentes ao seu tempo.
Acrescente-se o ensinamento de Michel de Certeau em A Escrita da História (2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006, p.81) a respeito da produção de documentos pelo pesquisador. Ao iniciar um trabalho, é necessário separar o material e reordená-lo na forma adequada ao estudo que se pretende. Este movimento é designado como produção de documentos de pesquisa. Portanto, numa pesquisa historiográfica podem ser utilizados documentos históricos (monumentos) para se produzir documentos de pesquisa. O estudioso, segundo Michel de Certeau, não aceita simplesmente os dados, mas combina-os para constituir as fontes sobre as quais atuará.
Sobre este aspecto, lembremo-nos de Carlo Ginsburg em Mitos, emblemas, sinais (São Paulo: Cia das Letras, 1990) quando chama a atenção para o fato de que se deve dar prioridade à fonte original, procurando o que é peculiar e importante para reconstruir um acontecimento do passado de acordo com os objetivos do estudo que se realiza.

IV – Período a ser analisado

Todo pesquisador sabe que é fundamental estabelecer um recorte temporal para tornar viável o empreendimento. Sabe, também, que é necessário estabelecer adequadamente o seu objeto de pesquisa.
No caso em pauta, era aconselhável restringir o número de pessoas a serem estudadas. Entretanto, levantou-se a hipótese de variações em torno da lista de nomes identificados nos livros paroquiais. Desta forma, ficou estabelecido que seriam acrescentados os nomes que surgissem nos demais documentos disponíveis e que a citação em mais de uma fonte seria tomada como base para o reconhecimento do imigrante como residente em Leopoldina.
Sendo assim, decidimos que o período de análise corresponderia à segunda fase da história de Leopoldina, ou seja, entre 1880 e 1930.

A verdade em pauta, novamente

Hoje a resposta vai para Adriana Medeiros, leitora que retoma o assunto #fontes e pergunta como saber se um livro apresenta a verdade.Minha cara Adriana, creio que depende do que você entenda por verdade em termos de história. Digamos que encontre uma carta produzida no passado, contendo informações sobre um acontecimento contado de forma diferente por outra fonte. Neste caso diríamos que as duas fontes apresentam as suas verdades, assim mesmo, no plural. Lembremos o que Le Goff ensina em História e Memória, obra recorrente aqui neste blog.

O documento […] resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro determinada imagem de si próprias. […] Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo. […] importa não isolar os documentos do conjunto de que fazem parte. Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu testemunho, mas do ambiente que o produziu…

 

Reflexões sobre nosso Trabalho

O último boletim sobre a Colônia Agrícola da Constança – Contagem Regressiva, distribuído mensalmente entre os leitores interessados, gerou diversos comentários aos quais prometemos responder aqui pelo blog. Um deles refere-se a uma reflexão que publicamos, em fevereiro de 2009, na qual dissemos que temos a ousadia de tentar resgatar uma história até aqui relegada ao “silêncio”. Pedro Ferreira pergunta o motivo pelo qual ainda não tinha sido registrada a trajetória dos imigrantes que viveram em Leopoldina.Assim como temos feito em outras oportunidades, respondemos com palavras dos pensadores que nos guiaram durante todo o processo de pesquisa. Segundo Michel Foucault, em Arqueologia do Saber,

A história, em sua forma tradicional, se dispunha a “memorizar” os monumentos do passado, transformá-los em documentos.

Nós escolhemos uma via que se contrapõe à história tradicional, a qual se concentrava em acontecimentos ditos importantes, relegando ao esquecimento o que classificava como desnecessário perpetuar. Entendemos por inviável tal posição, na medida em que os historiadores determinaram o que seria importante a partir de uma visão particular de mundo que não é mais aceitável.

Nossa escolha fundamenta-se, entre outras, nas palavras de Fernand Braudel em Escritos sobre a História, onde declara que não existe

indivíduo encerrado em si mesmo […] todas as aventuras individuais se fundem numa realidade mais complexa, a social.

Optamos pela reação contra

a história arbitrariamente reduzida ao papel dos heróis quinta-essenciados.

Realmente acreditamos que a história modula o destino dos homens. Na medida em que pudermos dar voz aos que foram desconsiderados pela história antiga, estaremos contribuindo para um novo lugar de memória, onde a sociedade leopoldinense poderá haurir outros componentes de sua formação identitária.

A Verdade de Cada Um

Qual é a “sua” verdade sobre as colônias agrícolas criadas em Minas no alvorecer dos novecentos? Para você, elas foram celeiro de mão de obra para os latifúndios? Foram berço de novas relações de trabalho? Os colonos foram escravos de cor de pele diferente dos anteriores? Foram artífices de uma nova ordem social?Nós acreditamos que o passado não é um objeto isolado, fixo, imutável. Cada momento do vivido pode ser aproveitado como argamassa do porvir. Usando uma feliz expressão de Walter Benjamin, “escovar a contrapelo” a história da Colônia Agrícola da Constança nos permite vislumbrar os alicerces de uma construção social na Leopoldina que recebemos das mãos de milhares de homens e mulheres que nos antecederam. E assim como cada um representou seu papel, no exercício de reconhecê-los nós nos preparamos para nossa própria atuação, sedimentando o futuro que queremos ter. Sem nos esquecermos, como ensina Marc Bloch em Apologia da História (pag 109), que

“O historiador não estuda o presente com a esperança de nele descobrir a exata reprodução do passado. Busca, nele, simplesmente os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo”.

 

Bases para nossos Estudos

Alguns leitores deste blog e do site perguntam como desenvolvemos nossa pesquisa. Reconhecemos que, até o momento, pouco abordamos sobre a metodologia da pesquisa. Brevemente pretendemos suprir esta falha, publicando o capítulo que escrevemos sobre a elaboração do projeto e seu desenvolvimento. Se ainda não o fizemos é porque, em nosso cronograma, definimos que em abril de 2010 substituiremos os textos publicados no jornal O Leopoldinense, disponíveis no site, pela íntegra de nosso trabalho. No momento estamos dando os retoques finais no texto básico para, em seguida, fazermos a revisão dos outros capítulos.De todo modo, e respondendo diretamente à Mara Lúcia, informamos que buscamos fundamentação teórica em diversas áreas. Especialmente na Sociologia e na Antropologia que, segundo Le Goff em Reflexões sobre a História, estão profundamente vinculadas à História Social.

Colonos, gente desconhecida

Ao elaborarmos nosso projeto de pesquisa, sentimos necessidade de verificar como são vistos os estudos sobre a gente simples que pretendíamos conhecer. Quando pensávamos sobre a Filosofia da História, nos deparamos com o texto Quarenta Anos de Vida Quotidiana, de Jean-Didier Wolfromm, publicado em A Nova História, Edições 70 de 1984., páginas 5-68. Diz o autor:

“Uma das novidades da historiografia actual é a de nos mostrar como viviam os homens no dia-a-dia. Os desconhecidos, aqueles de quem nunca se fala, que não são célebres”.

A partir deste prólogo sentimos estar diante de alguma coisa que ainda não soubéramos expressar. Este era o ponto: conhecer homens e mulheres comuns que viveram na nossa cidade e que provavelmente muito teriam a nos contar. A distância no tempo impedia um contato mas não o inviabilizava integralmente, na medida em que pudéssemos escovar o passado, como sugeriu Walter Benjamin. Segundo Wolfromm,

“todos nós temos nostalgias históricas. Exilados por acaso no século XX, viajantes sem bagagens sobre o mapa do tempo, gostamos de olhar para trás para saber de que era feito o passado.”

Nascidos numa pequena cidade do interior, mesmo que a tenhamos deixado ao final da adolescência dela não nos esquecemos. Em Leopoldina estão as nossas raízes, a nossa força e o alimento primevo. Quando este pensador francês declara que as perguntas mais comuns revelam mais sobre uma época do que as guerras e os feitos dos homens ilustres, sentimo-nos apoiados por mão segura em nossa caminhada. Se o autor generaliza sobre a curiosidade que todos temos sobre o passado, dizendo-a infinita, só podemos tomar suas palavras e dizer que também sentimos que

“ao abrir o correio do passado […] nós dobramos, triplicamos a nossa vida”.

O Homem na História

Marc Bloch é um dos principais autores que guiam nosso projeto de pesquisa. Escolhemos resgatar a memória da Colônia Agrícola Constança através do estudo dos homens e mulheres que habitaram aquele espaço porque, conforme ensina este pensador francês em Apologia da História

“Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e das instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição”.

Acreditamos que não seria possível conhecer o impacto da Colônia para o município de Leopoldina se não buscássemos compreender o modo de vida daqueles trabalhadores que implantaram as transformações.

Antes da chegada em massa dos imigrantes, a vida transcorria dentro de parâmetros estabelecidos há muito tempo. Os proprietários de terra mandavam derrubar a mata, plantar, colher e vender. Com o capital arrecadado, investiam em compra de novos escravos para melhor explorar uma faixa de terra ainda virgem. Buscavam acumular um montante mais significativo que permitisse ampliar a lavoura e garantir-lhes o status. Além das picadas na mata, mandavam abrir ou recuperar caminhos para o trânsito da produção e também para que sua família pudesse se deslocar. Seja para as festas religiosas no centro urbano, seja para as sonhadas viagens à corte, a vida dos fazendeiros girava em torno de garantir a produção e os meios de locomoção que sustentavam um insipiente convívio social.

O comércio mais significativo – venda da produção agrícola – era direcionado para os grandes centros, gerando necessidades que passavam pela compra ou criação de animais de carga até o investimento na estrada de ferro, já no último quartel do século XIX. Já o comércio local era explorado por prepostos dos próprios fazendeiros, em estabelecimentos denominados por “venda”, geralmente localizados no entroncamento dos múltiplos caminhos que cortavam as propriedades.

O poder decisório estava nas mãos dos grandes fazendeiros. Embora a literatura romântica se refira a propriedades de grande extensão, os registros indicam poucas fazendas ultrapassando os 400 hectares e um grande número de sítios, entre 10 e 50 alqueires mineiros. Os pequenos proprietários ficavam sujeitos, na maioria das vezes, ao sistema de plantio e comercialização definido pelos grandes.

Chegam os imigrantes colonos e o ritmo é modificado. Não parece ter havido uma ruptura significativa e imediata. Mas os trabalhadores livres nas fazendas já não se contentavam em esperar o beneplácito do contratantes para ascender economicamente. Aos poucos foram negociando novas relações de trabalho, incluindo a parceria. Do pedaço de terra que o fazendeiro destinava a cada colono, começaram a nascer os pequenos roçados, as pequenas produções de gêneros variados. Há relatos de colono que vendia milho para a cozinha da fazenda. E de outro que fabricava móveis para vender na propriedade vizinha. Já não era, portanto, o escravo da fazenda que produzia o sapato, a roupa ou a cama para o “sinhozinho”. Instaurou-se uma era de mais liberdade para produzir, vender, acumular capitais e progredir, abrindo a sociedade para a chegada de novos atores. Poucos espaços permaneceram restritos ao uso dos privilegiados descendentes dos fazendeiros.

A Colônia Agrícola da Constança é, pois, consequência de um novo modo de vida. Que foi construído por homens e mulheres, artífices da nova sociedade que se estabeleceu em Leopoldina.