Uso de Documentos

Eliane Pereira, em longa mensagem sobre passagens que julga fantasiosas na história da imigração, pede nossa opinião sobre quais seriam as fontes mais confiáveis para resgatar a memória. Talvez a decepcionemos, prezada leitora, mas nossa opinião é de que não é possível classificar as fontes aprioristicamente. Acreditamos que cabe a nós, na investigação de cada documento, detectar o que é adequado. Como alerta, escolhemos palavras de dois teóricos.

O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. (Jacques Le Goff, em História e Memória)

Já Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, declara que os problemas da história se resumem numa expressão: o questionar do documento.

Memória Coletiva

“Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva”. 

Assim Le Goff se expressa a respeito das práticas das classes dominantes sobre a sociedade. [História e Memória, Editora Unicamp, 5ª edição em 2003, pag. 422] A memória, ensina este autor, é fenômeno individual e psicológico, ligado à vida social. Conservar certas informações representa a conquista do passado coletivo.

Teóricos da historiografia nos ensinam que a memória, por ser parte integrante da nossa identidade, deve ser resgatada pelos historiadores tendo em mente que o que sobrevive do passado é resultado de escolhas pelos detentores do poder em todas as épocas. Conhecemos um tipo de história dita tradicional, que só dá voz aos nomes que escolheram como representativos. Quem são estes representantes que a história tradicional se dedicou a monumentalizar? Há entre eles algum colono imigrante, que deixou a terra natal por falta de condições de garantir o sustento de sua família?

Muitos outros grupos sociais foram sepultados da memória coletiva, por decisão de quem detinha o poder de escolha sobre aquilo que deveria ser perpetuado. A nova historiografia veio ultrapassar esta barreira. E nós, humildemente, estamos aqui para contribuir com o pouco que nos foi dado conhecer sobre esta gente guerreira que mudou a face de Leopoldina.

Novos Togni

Com a colaboração de Roberto de Oliveira Togni, temos o prazer de incluir novos descendentes à família de Arturo Togni e Augusta Pradal, pais de Euclides.

Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos

O Jornal Leopoldinense Online está recebendo as inscrições do 18º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos, promovido pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Leopoldina.

Para saber maiores informações, acesse o site: clique no banner CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS e leia atentamente o EDITAL e REGULAMENTO disponíveis para download e preencha o formulário da pré-inscrição.

Os italianos e a língua portuguesa

Segundo informou um de nossos entrevistados, após a morte de um fazendeiro da região de Leopoldina, os herdeiros decidiram “lotear” a propriedade e diversos compradores foram colonos italianos ainda com pouquíssimo domínio da língua portuguesa. 

Para eles, fazenda era o local onde se instalava a casa de moradia do proprietário, tendo nas proximidades os equipamentos comuns naquela época, como a tulha, o curral, o barracão, os terreiros para secagem do café e as casas de colonos. Ou seja, não era a propriedade rural em si, mas a sede.

Para aqueles colonos, seria o equivalente à fattoria italiana, vale dizer, o complexo administrativo de um núcleo agrícola, compreendendo a residência do fattore (administrador ou proprietário). Sendo assim, o imigrante que adquiriu o terreno onde se localizava a sede, passou a ser denominado pelos outros como fazendeiro. Ou melhor, fatiendero era como pronunciavam.

A Verdade de Cada Um

Qual é a “sua” verdade sobre as colônias agrícolas criadas em Minas no alvorecer dos novecentos? Para você, elas foram celeiro de mão de obra para os latifúndios? Foram berço de novas relações de trabalho? Os colonos foram escravos de cor de pele diferente dos anteriores? Foram artífices de uma nova ordem social?Nós acreditamos que o passado não é um objeto isolado, fixo, imutável. Cada momento do vivido pode ser aproveitado como argamassa do porvir. Usando uma feliz expressão de Walter Benjamin, “escovar a contrapelo” a história da Colônia Agrícola da Constança nos permite vislumbrar os alicerces de uma construção social na Leopoldina que recebemos das mãos de milhares de homens e mulheres que nos antecederam. E assim como cada um representou seu papel, no exercício de reconhecê-los nós nos preparamos para nossa própria atuação, sedimentando o futuro que queremos ter. Sem nos esquecermos, como ensina Marc Bloch em Apologia da História (pag 109), que

“O historiador não estuda o presente com a esperança de nele descobrir a exata reprodução do passado. Busca, nele, simplesmente os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo”.

 

Bases para nossos Estudos

Alguns leitores deste blog e do site perguntam como desenvolvemos nossa pesquisa. Reconhecemos que, até o momento, pouco abordamos sobre a metodologia da pesquisa. Brevemente pretendemos suprir esta falha, publicando o capítulo que escrevemos sobre a elaboração do projeto e seu desenvolvimento. Se ainda não o fizemos é porque, em nosso cronograma, definimos que em abril de 2010 substituiremos os textos publicados no jornal O Leopoldinense, disponíveis no site, pela íntegra de nosso trabalho. No momento estamos dando os retoques finais no texto básico para, em seguida, fazermos a revisão dos outros capítulos.De todo modo, e respondendo diretamente à Mara Lúcia, informamos que buscamos fundamentação teórica em diversas áreas. Especialmente na Sociologia e na Antropologia que, segundo Le Goff em Reflexões sobre a História, estão profundamente vinculadas à História Social.

Colonos, gente desconhecida

Ao elaborarmos nosso projeto de pesquisa, sentimos necessidade de verificar como são vistos os estudos sobre a gente simples que pretendíamos conhecer. Quando pensávamos sobre a Filosofia da História, nos deparamos com o texto Quarenta Anos de Vida Quotidiana, de Jean-Didier Wolfromm, publicado em A Nova História, Edições 70 de 1984., páginas 5-68. Diz o autor:

“Uma das novidades da historiografia actual é a de nos mostrar como viviam os homens no dia-a-dia. Os desconhecidos, aqueles de quem nunca se fala, que não são célebres”.

A partir deste prólogo sentimos estar diante de alguma coisa que ainda não soubéramos expressar. Este era o ponto: conhecer homens e mulheres comuns que viveram na nossa cidade e que provavelmente muito teriam a nos contar. A distância no tempo impedia um contato mas não o inviabilizava integralmente, na medida em que pudéssemos escovar o passado, como sugeriu Walter Benjamin. Segundo Wolfromm,

“todos nós temos nostalgias históricas. Exilados por acaso no século XX, viajantes sem bagagens sobre o mapa do tempo, gostamos de olhar para trás para saber de que era feito o passado.”

Nascidos numa pequena cidade do interior, mesmo que a tenhamos deixado ao final da adolescência dela não nos esquecemos. Em Leopoldina estão as nossas raízes, a nossa força e o alimento primevo. Quando este pensador francês declara que as perguntas mais comuns revelam mais sobre uma época do que as guerras e os feitos dos homens ilustres, sentimo-nos apoiados por mão segura em nossa caminhada. Se o autor generaliza sobre a curiosidade que todos temos sobre o passado, dizendo-a infinita, só podemos tomar suas palavras e dizer que também sentimos que

“ao abrir o correio do passado […] nós dobramos, triplicamos a nossa vida”.

Arquivo Histórico em Leopoldina

Estamos acompanhando, com vivo interesse, o esforço da professora Natania para organizar o arquivo permanente da Câmara Municipal de Leopoldina. Em postagem de ontem, intitulada Documentos da Câmara de Leopoldina, Natania nos trouxe mais algumas informações interessantes. E nos fez reler um texto que escrevemos há alguns anos sobre o assunto.Quando soubemos da iniciativa do Arquivo Histórico do Espírito Santo, facilitando consulta à distância, lembramo-nos do sonho de organizar o Arquivo Histórico de Leopoldina, iniciativa que tentamos levar a efeito em meados da década de 1990. A distância, entretanto, nos fez desistir do projeto. Na época, publicamos um comentário sobre nossa grande admiração pela declaração de Le Goff, em Reflexões sobre a História, a respeito do único nacionalismo admissível como sendo o que clarifica para os homens o funcionamento da sociedade na qual está inserido.

E hoje acrescentamos palavras de March Bloch, em Apologia da História, sobre ser necessário que as sociedades organizem racionalmente o conhecimento sobre si mesmas, tendo em mente os dois responsáveis pelo esquecimento e pela ignorância:

“a negligência, que extravia os documentos; e […] a paixão pelo sigilo […] que os esconde ou destrói”(pag. 85).

Estimular os leopoldinenses a conhecerem a sua história sempre foi o objetivo maior de nossos estudos. E pelo que conhecemos do acervo da Câmara Municipal de Leopoldina, não temos dúvidas em afirmar que ali está a fonte mais preciosa para resgatarmos a memória do município.