Zignago e Bogonhe

Do distrito de Piacatuba recebemos uma pergunta:
Zignago e Bogonhe são sobrenomes italianos?
Recorremos ao Dicionário de Sobrenomes Italianos, de Ciro Mioranza, para informar que existe o sobrenome Zignago, como locativo de região setentrional da Itália, cuja origem remonta a Zignaculum do latim médio que, por sua vez, pode ser uma composição de Junus com o sufixo diminutivo àculum, significando pequenas terras do cidadão Junius.
Lembrando que a letra “J” é rara em italiano, Junius transformou-se em Giugno e é o nome do sexto mês do ano civil. Em outras localidades brasileiras encontramos Giugnano e Giugnago sem contudo termos identificado relações com os Zignago que nasceram em Piacatuba no final do século XIX.
Quanto ao Bogonhe, por coincidência conversamos, na semana passada, com a amiga Joana Capella que está pesquisando a Colônia Major Vieira, fundada na região que hoje marca a divisa entre Itamarati de Minas, Piacatuba e Cataguases. Em Piacatuba temos referência a Angelina Bogonhe que ali se casou com Alexandre Possenti em 1906. Talvez seja uma variação brasileira do sobrenome Bologni, locativo referente à província de Bologna, na Emilia-Romagna. Mas os pais de Angelina e Alexandre não residiam no município de Leopoldina que é o objeto de nossos estudos. É provável que o casamento tenha sido realizada na Matriz de Nossa Senhora da Piedade, assim como de alguns outros italianos residentes nos municípios vizinhos, por maior facilidade de acesso.

Convite para o evento no Globo On Line

O Conversa Mineira desta semana convida os leitores do Blog do Noblat / Maria Helena para o evento comemorativo do Centenário da Colônia Agrícola da Constança e os 130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina.

130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina

Continuamos hoje a responder nosso leitor que consultou sobre imigrantes italianos em Providência. E acrescentamos uma informação: a definição de 130 anos da Imigração em Leopoldina baseou-se na análise dos livros paroquiais. No ano de 1880 começam a aparecer os registros de italianos, sendo que os mais antigos remetem ao distrito de Campo Limpo, hoje Ribeiro Junqueira, como os De Marchi, os Rossi e Tambasco.
  • Binato, Doroteo  – nascido em Além Paraíba, casou-se em 1929, em Leopoldina, com Olga Gadas. Ela era natural do Egito e seu pai radicou-se no distrito de Ribeiro Junqueira depois de casar-se, em Providência, com a italiana Engracia Marsola.
  • De Marchi, Giovanni – radicado em Ribeiro Junqueira desde a chegada ao Brasil, em 1888, uma de suas filhas permanecia naquele distrito em 1942. Mas há um Marcelino de Marchi que chegou da Italia no mesmo ano e que pode ter vivido em Providência. Não era parente de Giovanni.
  • De Vitto, Michele  – casou-se em Leopoldina, em 1897, com a também italiana Angela Iborazzatti. Não sabemos onde residia.
  • Detabian, Giudetta Enricheta  – chegou a Leopoldina em 1888, casada com Domenico Zotti. Faleceu na sede municipal em 1911. Seus descendentes migraram para Simonésia, MG.
  • Fortunata, Alba  – casada com Daniele Locci, chegou em 1897 e foi morar em São Martinho, Providência.
  • Grace, Rosa  – italiana, em 1942 residia em Ribeiro Junqueira. Foi casada com Abrahão Miguel, provável imigrante sírio que mascateava em Providência por volta de 1910.

Convite

Você está convidado a comemorar conosco o Centenário da Colônia Agrícola da Constança e os 130 Anos da Imigração Italiana em Leopoldina.

 

Dia 10 de abril de 2010, sábado.
  • 19:00 horas – Banda Princesa Leopoldina
  • 20:00 horas – A Tarantela – Dança com o Grupo Assum Preto
  • 20:45 horas – Coral Encanto
  • 21:00 horas – Banda Primeiro de Maio
  • 21:30 horas – Coral Antique

 

Dia 11 de abril de 2010, domingo.
  • 09:30 horas – Concentração da Associação de Veículos Antigos de Leopoldina – AVAL e colecionadores de associações de outros municípios, na Praça João XXIII, saindo em carreata para a Capela de Santo Antonio, no Bairro da Onça.
  • 11:00 horas – Missa campal comemorativa.
  • 12:00 horas – Almoço (adesão)
  • Após o almoço, apresentação de paraglider.

 

Local: Pátio da Capela de Santo Antonio de Pádua, no Bairro da Onça, Leopoldina-MG, Rodovia BR-116, km 770.

 

Seja você um descendente de nossos imigrantes ou não, venha comemorar e traga a sua família e amigos.

Italianos no distrito de Providência

Recebemos uma longa lista de sobrenomes italianos que seriam de famílias radicadas no distrito de Providência. De fato aquele distrito concentrou uma grande comunidade italiana mas permitimo-nos discordar do leitor num aspecto: não foi maior do que a radicada nas outras áreas do município de Leopoldina. Como sempre informamos, não temos a preocupação em quantificar. Entretanto, sabemos que outros distritos, assim como a sede municipal, abrigaram um número tão expressivo de imigrantes quanto Providência.
Ainda não nos foi possível analisar cada um dos sobrenomes informados pelo leitor, especialmente por conta das variações ortográficas. No momento podemos dizer apenas que:
  • Antonin, Salvatore – italiano, falecido e sepultado em Leopoldina aos 09 de junho de 1906;
  • Baqueca, Eugenia – italiana cujo sobrenome original ainda não identificamos, casou-se em Leopoldina aos 29 de abril de 1893 com o imigrante espanhol Romão Lomba;
  • Barboni, Giuseppe – casado com Vitonia Menecci, vivia em Providência em 1899 quando sua filha Annunziata casou-se com Giuseppe Betti, cuja família viveu em Além Paraíba e depois em Leopoldina;
  • Beccari, Aldo – nasceu em Providência aos 3 de março de 1898, filho de Enrico Beccari e Adolfa Bighelli, cujo sobrenome pode ser Biglietti e ter parentesco com Luigi Bigleiro ou Biglietti, morador do distrito de Ribeiro Junqueira na mesma época;
  • Berlandi, Carmela – sobrenome original também ainda não identificado, veio da Itália casada com Pietro Tartaglia que foi contratado em 1896 para trabalhar em fazenda do distrito de Providência;
  • Bertocchi, Pietro – saiu da Hospedaria Barbosa em dezembro de 1888, com destino a Leopoldina e provavelmente migrou depois para o município de Palma;
  • Rossi, Domenico – morador em Ribeiro Junqueira  em 1880, sendo um dos primeiros italianos a chegar no município de Leopoldina na fase da Grande Imigração; pai de Maria Clara Rossi que se casou com Luigi Bigleiro ou Biglietti acima citado.

Qual a forma correta de escrever meu sobrenome?

Em primeiro lugar, vamos lembrar que, pelas Instruções para a Organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, conforme constante no VOLP de 2009 publicado pela editora Global, de São Paulo, temos na página LXXVI:
XI – Nomes Próprios
39. Os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, serão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns.
Com pequenas variações que não invalidam o conteúdo, as normas em outras línguas são as mesmas. Ou seja:
X – Parônimos e Vocábulos de Grafia Dupla
33. Deve-se registrar a grafia que seja mais conforme à etimologia do vocábulo e à sua história.
Em outra oportunidade já abordamos este tema, especialmente quanto à duplicidade de grafia de vários sobrenomes encontrados em Leopoldina. Se consultarmos os autores italianos, verificaremos que o mesmo ocorre por lá. Traduzimos, a título de exemplo, a declaração de Paola Marongiu na obra Breve Storia della Lingua Italiana Per Parole, publicada em 2000 pela editora Le Monnier, de Firenze: (pag. 111)
usa-se a língua para escrever e o dialeto para falar
Na mesma obra podemos aprender que “língua” é a forma como se referem à forma padrão, também indicada como “o italiano”. A autora esclarece que as variedades regionais continuam sendo adaptadas ao “italiano standard” que é o modelo da língua escrita e foi estabelecido a partir do dialeto da Toscana, mais especificamente da língua falada em Firenze e imediações.
E já que estamos abordando o assunto, não podemos deixar de citar Gramsci, para quem
o caráter elitista da língua italiana [decorre de ter sido] elaborada pela classe dominante, sendo necessário dar acesso a esta língua aos estratos inferiores da sociedade para resgatá-los da condição de inferioridade.
(tradução livre de um trecho do Quaderni del Carcere, publicado em 1950).
Ou seja: nada diferente do que acontece em outras línguas. Em Leopoldina há até uma lenda a respeito de uma grande família na qual existiam pessoas com bom poder aquisitivo e outras que passavam por grandes dificuldades. Contam os antigos que uma pessoa desta família decidiu marcar a diferença entre os seus, que eram mais ricos, e aqueles parentes muito pobres, exigindo que o oficial do Cartório registrasse seus filhos duplicando uma determinada letra do sobrenome.
Independente das lendas, o fato é que encontramos, em diversas famílias italianas, duas grafias diferentes. Num destes casos consultamos o Archivio di Stato di Venezia e recebemos a seguinte resposta:
XXX ma poi individuato come YYY
Sendo assim, reiteramos o que já comentamos em postagem recente: é preciso pesquisar a etimologia do nome e escolher a metodologia de trabalho. No nosso caso, optamos pela grafia encontrada em documento italiano ou, na falta deste, na mais antiga fonte documental brasileira.
Não é possível extrair conclusões em uma busca apressada. Um exemplo envolve Dalsin e Dalassim que um leitor julgou como variações de um mesmo sobrenome. Segundo Ciro Mioranza, no Dicionário dos Sobrenomes Italianos que utilizamos, Dall’Asen é a composição de dall (do em português) com àsen (asno, em latim) e significa o criador ou mercador de asnos, bestas de carga, cavalos. Já o sobrenome Da Lasen é um locativo por referência a uma região nos alpes denominada Làsen, cujo nome tem origem no etrusco Lasinius e atualmente tem a variação Dalsin.
Estes dois sobrenomes aparecem em Leopoldina em Ursula Dalsin, mulher de Giovanni Batista Pradal e em Luigi Dalassim, cuja filha Magdalena casou-se com Domenico Meneghetti. Lembramos que a primeira veio do norte de Treviso e o segundo do sul de Venezia mas não temos elementos para identificar origem remota igual ou diversa para as duas famílias. Sendo assim, optamos por registrar as duas formas.
Caso diferente nos parece ser o de Venturi e Venturini, sobre os quais um outro leitor alegou serem descendentes de um único personagem. Mioranza dá a mesma origem para os dois sobrenomes: Ventura, redução popular e coloquial de Bonaventura, significando pessoa de sorte.
Descobrimos que Carlo Venturi, o genearca do grupo radicado em Santa Isabel (hoje Abaíba) na década de 1890, procedia de Verona. Já o Carlo Venturini vivia na divisa de Piacatuba com Itamarati na mesma época e procedia de Ravenna, na Emilia-Romagna.
Consultamos pesquisadores italianos e fomos informados de que Carlo Venturini era descendente de Francesco Venturini, nascido em Parma, Emilia-Romagna, em 1744, e que esta família ali existia desde dois séculos antes. Através de outro colaborador italiano, soubemos que Carlo Venturi pertence à família de Domenico Venturi, radicada desde 1723 em Catanzaro, na Calabria. Evidentemente não podemos eliminar a hipótese de migração interna de membros desta família. Na falta de comprovação, mantivemos as duas formas.

Genealogia dos nossos Imigrantes

Onde eu encontro a genealogia do sobrenome X?

Esta é mais uma questão que demanda algumas explicações. Em primeiro lugar, lembramos de uma afirmação de Rivers, em O Método Genealógico na Pesquisa Antropológica, em que ele declara que

“as genealogias incluem enorme quantidade de informações valiosas para um estudo exato de vários problemas”.

De fato, o conjunto de genealogias dos imigrantes que viveram em Leopoldina comprovou que o método permite conhecer uma quantidade expressiva de informações importantes para resgatar a memória daquele grupo social. Entretanto, é preciso ter em mente que a “árvore genealógica” é construída a partir de indivíduos e não a partir de sobrenomes. Para atendermos consultas sobre as genealogias, é preciso que nos informem o nome do personagem e nos forneçam algumas pistas como datas e locais de nascimento, casamento ou óbito. Para os que nasceram em Leopoldina antes de 1930, provavelmente teremos alguma informação.

Como temos feito nas demais respostas, aqui citamos como exemplo a consulta sobre um personagem de sobrenome Franzone. No desenrolar da troca de mensagens, o leitor descobriu que seu antepassado não pertencia à família do imigrante Luigi Franzone. Isto só foi possível porque nosso leitor construiu a sua própria “árvore de costado”, ou seja, coletou informações de seus pais e avós e nos informou a data e o local de nascimento do personagem que acreditava ser filho do imigrante. De imediato levantamos a hipótese de pertencer a outro grupo familiar, já que a pessoa nasceu em outra região brasileira e em data incompatível com a idade da mãe.

Segundo as fontes que basearam a inclusão do personagem em nosso banco de dados, em sua maioria documentais, Luigi Franzone passou ao Brasil em 1895, com a esposa Emilia Filoti e os filhos Cecilia, Fiorenzo e Maria. Foram contratados para trabalhar numa fazenda em Recreio e tiveram, pelo menos, mais 3 filhos: Carmen, Hercilia e José. Estes dois últimos nasceram, respectivamente, em 1901 e 1903, em Leopoldina. Pelo registro de entrada no Brasil, Luigi nasceu em 1864 e Emilia em 1869, ambos em Candia, Torino, Piemonte. Outras datas importantes: o casal é mencionado como residente em Leopoldina em assentos paroquiais dos anos de 1911, 1912, 1914, 1918 e 1926. Portanto, é pouco provável que tenham tido um filho na Bahia, em 1926. Ainda mais se considerarmos que, nesta época, Emilia Filoti estaria com 57 anos.

É possível que Luigi Franzone e Emilia Filoti tenham tido um filho homônimo do pai e que, por coincidência, tenha se casado com homônima de sua mãe. Tal personagem, entretanto, não aparece nas fontes que consultamos. Tampouco encontramos genros ou noras de mesmo nome. Pelo que nos foi dado apurar, Maria Franzone casou-se no povoado de São Martinho com Antonio Carlos Bittencourt; Carmen casou-se em Providência com Alfredo Antinarelli; Hercilia casou-se com César Augusto Borella e José Franzone casou-se com Anatilde Spinola em Leopoldina.

A última notícia que tivemos de nosso leitor talvez explique as informações desencontradas. Segundo ele, um seu primo copiou a árvore genealógica da internet e não sabia as fontes utilizadas pelo autor do trabalho. Aí está um ponto fundamental: é preciso analisar a procedência da informação, preferencialmente fazendo uma comparação entre diversas fontes e analisando a lógica dos acontecimentos, antes de assumir que fulano é filho de beltrano.

Significado de Sobrenomes

Continuando com a série de questões frequentes nas mensagens de nossos leitores, hoje apresentamos um resumo sobre o Estudo da Origem e do Significado de Sobrenomes. Esclarecemos tratar-se de noções básicas com o objetivo auxiliar o início de um trabalho de pesquisa sobre o tema.
Em primeiro lugar queremos chamar a atenção para alguns termos.
– Onomástica é o ramo da Linguística que se refere ao estudo explicativo dos nomes próprios;
– Antroponímia é a divisão da Onomástica que estuda o significado dos nomes próprios;
– Etimologia é a parte da Gramática que trata da origem e formação das palavras.
Algumas pessoas se assustam quando encontram os termos acima e até mesmo desistem de prosseguir por julgarem tratar-se de alguma coisa muito complexa e inatingível. Ledo engano! Todos nós, que nos interessamos pelo estudo de nossas origens, em algum momento vamos entrar por este caminho. E podemos encontrar termos como os seguintes.
– Patronímico é o sobrenome derivado do nome do pai;
– Toponímico é o sobrenome que se refere a um local, à toponímia de um lugar, ou seja ao seu nome;
– Gentílico designa a Nação ou Estado a que pertence.
Há muitas obras publicadas sobre o assunto e inúmeros sites que o abordam. Cabe a cada um de nós escolher aquela fonte que passar pelo nossa crítica. Como aproximação do assunto, e considerando que estamos comemorando os 130 anos da Imigração Italiana em Leopoldina, vamos comentar o significado de alguns sobrenomes a partir do Dicionário dos Sobrenomes Italianos, de Ciro Mioranza, publicado pela Editora Escala de São Paulo. Nesta obra o autor retoma o contido em sua obra anterior – Filus Quondam, A Origem e o Significado dos Sobrenomes Italianos – publicada pela Editora São João de Guarulhos, SP.
Segundo Ciro Mioranza,
“prefixos e sufixos constituem a chave-mestra para entender os sobrenomes italianos e seu significado. Os prefixos são poucos. Os sufixos, porém, são muitos e se combinam e se aglutinam de todas as formas.”
Para não tornar cansativa esta exposição, destacamos alguns sufixos comuns em sobrenomes italianos, segundo este autor. A primeira forma é singular, seguida do plural.
– àccio, acci – aumentativo, pejorativo
– acco, acchi – diminutivo, indica local de origem
– ardo, ardi – onomástico, toponímico, diminutivo pejorativo
– engo, enghi – ressalta relação de parentesco
– eno, eni – noção de numeral, coletivo
– ente, enti – qualidade, profissão, gentílico
– oto, oti – étnico, gentílico das áreas meridionais
– tore, tori – profissão, arte e ofício, função
– trice, trici – feminino do anterior
No estudo dos sobrenomes, nós precisamos analisar a etimologia da palavra. É fundamental identificar o radical, os sufixos e prefixos. Só assim poderemos chegar ao significado.
Um exemplo: Gallo, segundo Ciro Mioranza, é proveniente
“do latim gallus, galo ou gaulês, ou seja, habitante da Gália. Gallus era sobrenome de prestígio na sociedade romana e se referia tanto à ave, como à etnia gaulesa. O sobrenome, portanto, pode indicar ‘oriundo da Gália’ como recordar os atributos do galo, a vigilância, a altivez, a sobranceria, o comando. Pode, ainda, ser uma referência ao habitante oriundo de uma das duas cidades ou de uma das várias povoações chamadas Gallo”.
Em Leopoldina este sobrenome aparece em descendentes de Pietro Gallo, procedente de Longare, Vicenza, Veneto. Ele passou ao Brasil em 1896 e foi contratado para trabalhar em fazenda de Além Paraíba, onde já viviam parentes seus. Posteriormente a família surge em fontes relativas a Providência, distrito de Leopoldina.
Pietro era casado com Corina di Lamassara com quem teve os filhos Giorgio, Guglielmo, Silvestre , Catterina, Maria e Angela. Esta última filha casou-se, no distrito de Providência, com Luigi Fermadi. Diferentemente da maioria dos filhos de italianos que usavam apenas o sobrenome paterno, como é comum na Itália, alguns filhos de Angela Gallo e Luigi Fermadi foram registrados com o sobrenome duplo: Gallo Fermadi.
Ainda não temos o significado dos dois outros sobrenomes mencionados neste texto, Lamassara e Fermadi, por não termos conseguido chegar ao original. Provavelmente são variações ortográficas. Talvez o primeiro seja “La Massaro”, sendo que “la” é o artigo feminino correspondente ao “a” em português. Massaro, segundo Mioranza, vem do latim massarius, derivado de massa, ou seja, latifúndio. O autor destaca que este sobrenome refere-se ao administrador ou feitor de uma grande propriedade agrícola, podendo também designar o colono que trabalha em tal propriedade. Uma outra possibilidade, ainda segundo Mioranza, é de que este sobrenome identifique o administrador de bens de uma comunidade, ou seja, “a massa” de bens da paróquia local, por exemplo.
Este texto foi enviado para uma professora de Leopoldina que nos consultou sobre o significado de alguns sobrenomes. Em seguida ela nos escreveu para declarar que não imaginava as múltiplas possibilidades oferecidas pelo projeto Conhecendo suas Raízes. Esta professora está pensando em ampliar o alcance para seus alunos do Ensino Médio, por acreditar que eles se sentirão mais estimulados para estudar Linguística. 
Nós nos sentimos recompensados ao perceber que nossos estudos sobre a Imigração em Leopoldina podem, finalmente, entrar na pauta das escolas. Sempre o dissemos e aqui repetimos: o passado da nossa cidade abre portas para o nosso futuro até por vertentes que não conseguimos perceber de imediato.

Brasões, Ascendência e Descendência

Hoje falaremos de duas colocações frequentes:

1 – Eu tenho descendência italiana.

2 – Estou procurando o brasão de minha família.

Em primeiro lugar, vamos pensar no significado das palavras ascendência e descendência. Usaremos um dicionário de consulta on line, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Ascendência – Parentesco com os pais e outros antepassados.

Descendência – Série de indivíduos provenientes do mesmo progenitor.

Portanto, se você quer dizer que seus antepassados são italianos, você deve usar o termo ascendência. Você tem ascendência italiana quando seus antepassados nasceram na Itália. E terá descendência italiana se seus filhos, netos e bisnetos nascerem na Itália. Nós estudamos a imigração em Leopoldina através dos descendentes daqueles que aqui chegaram a partir do final do século XIX.

Quanto à segunda colocação, é preciso, antes de mais nada, entender o que é um brasão. Não somos especialistas em heráldica e, portanto, daremos apenas informações básicas.

Um Brasão de Armas é um desenho criado de acordo com as normas heráldicas para identificar famílias, cidades, países etc. Na Idade Média estes desenhos eram usados nos escudos dos cavaleiros que iam à guerra, em alguma parte do vestuário ou na bandeira que eles carregavam. Por terem sido usados no vestuário de proteção usado pelos guerreiros, vestuário que tinha o nome de cotas, os brasões são também denominados Cotas de Armas. Quando apresentado no escudo, recebe o nome de Escudo de Armas.

Os brasões não eram concedidos ao acaso. Em alguns filmes sobre a Idade Média pode-se observar a cerimônia em que um chefe de clã entrega o Escudo de Armas a um guerreiro que irá usá-lo nas lutas de defesa da propriedade ou de alguma outra questão. Neste caso, o brasão tem por objetivo identificar a que “exército” pertence o guerreiro e não a que família ele pertence. O mesmo ocorre quando um guerreiro, ao voltar das lutas, recebe do Senhor das Terras que defendeu a insígnia que identifica aquele burgo. É uma homenagem que se assemelha, de certa forma, às medalhas que são concedidas aos combatentes das guerras atuais.

Com o passar do tempo, os brasões passaram a significar o status das pessoas a quem eram conferidos. Para alguns heraldistas, vem daí a prática de mandar desenhar Brasões de Armas para concedê-los àqueles que se destacavam por atos de coragem. Desta prática surgiu a Carta de Brasão de Armas, ou CBA, que identificava o beneficiado e também o uso a que se destinava. Portanto, nem todo usuário de um sobrenome localizado num documento heráldico tem o direito de usar o brasão e as armas ali descritas. Há todo um sistema de transmissão que não se resume ao uso do sobrenome. Por exemplo: em determinado tempo e lugar o uso do Brasão de Armas poderia ser transmitido aos filhos do sexo masculino ou somente para o filho mais velho.

Mais adiante o Brasão de Armas tornou-se o distintivo das famílias nobres, identificando seu grau social, e só poderia ser transmitido aos descendentes diretos. Neste caso, se o brasão foi concedido a uma pessoa, só os descendentes daquele personagem podem utilizá-lo, sendo vedado aos sobrinhos, irmãos ou outros familiares de mesmo sobrenome.

No século XIX, quando a aristocracia deu lugar à burguesia, o prestígio do brasão entrou em declínio. No século XX voltou a ter importância como designativo de municípios, instituições e estados.

Hoje é relativamente fácil encontrar falsos brasões à venda. A maioria não é considerada verdadeira por desobedecer às normas da heráldica, que é a arte que norteia sua produção.

Se você está em busca de um brasão de família, pesquise sua linhagem até encontrar o personagem de sua ascendência a quem tenha sido concedido um Brasão de Armas ou que o tenha mandado desenhar. Estude as condições da concessão e da transmissão. Ou contrate um heraldista para desenhar o símbolo que identificará você, seus filhos e netos, se assim o desejar.

Nos tempos atuais, é comum que se mande desenhar um logotipo para identificar uma instituição ou empresa. Em seguida faz-se o registro para evitar o uso indevido. Guardadas as devidas proporções, o mesmo se dava com os Brasões de Armas.

Conhecendo suas Raízes

Uma professora pergunta:
Como ensinar meus alunos a descobrirem qual é o verdadeiro sobrenome italiano em suas famílias?

 

Esta questão é importante. Ao longo de nossas buscas, inúmeras vezes nos deparamos com informações orais sobre ascendentes italianos cujo nome nos pareceu estranho. Como foi o caso de uma família que disse descender dos Terceira Rocha. Até o momento não conseguimos identificar o sobrenome real desta família.

Em outros casos, felizmente a maioria, colhemos as variações nos assentos paroquiais e fomos montando o grupo familiar através da indicação de pais, mães e eventualmente avós que tenham sido indicados nos batismos. Foi um grande quebra cabeça, com certeza. Hoje, 15 anos depois do início da montagem, nos colocamos à disposição dos interessados para fornecer as informações constantes em nosso banco de dados. Desta forma estaremos ajudando aos alunos envolvidos no projeto Conhecendo suas Raízes, das secretarias municipais de Cultura e Esporte e Lazer de Leopoldina. Isto porque, num primeiro momento, talvez não seja possível apresentá-los aos meandros de uma pesquisa desta natureza.

Vejamos um caso clássico. Há alguns anos recebemos consulta de um leitor de nossas colunas que desejava descobrir a origem de sua família. Informou-nos que o sobrenome de uma avó era Bastos Perdão. Assim como em inúmeros outros casos, foram necessárias trocas de mensagens que nos esclarecessem e pudéssemos identificar os prováveis ascendentes. Chegamos a Giuseppe Perdonelli e Giovanna Bagetti, pais de Luigia, Maria e Tereza.

Luigia, nascida na província de Vicenza, casou-se no distrito de Providência com Federico ou Frederico Canova, italiano de Codevigo, Padova, filho de Pietro Canova e Santa Varoti.

Maria Perdonelli casou-se com Luigi Richardelli também em Providência. Ele era filho de Domenico Richardelli e Rosa Sangiorgio, família que passou ao Brasil em 1896 e estabeleceu-se naquele distrito. Além de Luigi, o casal teve os filhos Carlo Domenico casado com Ida Zamagna, Maria, Ernesta, Tereza casada com Manoel Furtado, Gaspare, Luigia casada com Antonio Luiz de Moura e Pasquina casada com Eugenio Francisco de Souza.

A família Richardelli trabalhou na Fazenda Albion. Uma das filhas de Maria Perdonelli e Luigi Richardelli casou-se com Sante Antonelli, filho de Serafino Antonelli e Santa Gentilini. Com a ajuda de uma descendente, descobrimos que os Antonelli viveram em Providência até, pelo menos, 1941.

Tereza Perdonelli casou-se em Providência com Augusto Mario. Ele nasceu em Palma, filho dos italianos Maria e Giacomo Mario.

O uso do sobrenome original nos permite identificar adequadamente as famílias. Entretanto, não é simples perceber que Bastos Perdão quer dizer Bagetti Perdonelli. Assim também os inúmeros descendentes de imigrantes que vivem em Leopoldina nem sempre conseguem localizar-se no seio daquele grupo que chegou ao município a partir de 1880. Mas se a criança começa a trabalhar com suas próprias raízes, cedo descobrirá não apenas de onde procede como uma série de outras informações que ampliam seu universo cultural.

Em todas as reuniões e contatos que fizemos com instituições, autoridades e moradores de Leopoldina nestes últimos anos, sempre dissemos que a comemoração do Centenário da Colônia Agrícola da Constança e dos 130 anos de Imigração Italiana em Leopoldina poderia alavancar diversos aspectos. Inclusive, e talvez principalmente, ajudando os alunos num estudo interdisciplinar sobre suas origens familiares.

Disse-nos Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, que “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”. Quanto aprenderemos com a pesquisa de nossos estudantes para o projeto Conhecendo suas Raízes? Quantos deles virão nos contar coisas que não suspeitávamos sobre o lazer, o trabalho e as relações sociais da Leopoldina dos imigrantes? E quantos despertarão para atividades profissionais ligadas aos conhecimentos que precisarão acessar ao buscarem suas origens?