Educação formal para os filhos de Colonos

No discurso do Presidente da Província de Minas Gerais, de 1898, informa-se que a Lei nº 150, de 20.06.1896, autorizou a “concessão de favores aos particulares” que quisessem fundar, em suas propriedade, núcleos coloniais. A condição era o fornecimento ao colono de uma casa, terreno para cultivo de subsistência e instrução gratuita para os filhos.

Além disso, o Ministro da Agricultura Rodolpho Miranda declarou, em 1910, estar empenhado em prover todos os núcleos coloniais de

escolas dotatas de material pedagogico moderno, funccionando em predios que reunam condições de capacidade e de higiene e servidas por professores capazes, dedicados ao magisterio e podendo exercel-o com methodo e proficiencia.

Neste discurso, o então Presidente abordou a necessidade de ensinar a língua portuguesa para os filhos dos imigrantes, ombreando com a prática dos governos estrangeiros que procuravam perpetuar entre eles o idioma da pátria de seus pais. Em Minas Gerais, ficou determinado que não haveria frequência obrigatória nem seria exigido que os colonos matriculassem seus filhos. Entretanto, foi ressaltada necessidade de oferecer os meios possíveis para que as crianças aprendessem o português, independente de continuarem usando a língua de seus pais.

Dentro da Colônia Agrícola da Constança funcionavam, em 1918, duas salas de aulas de primeiras letras e na fazenda Paraíso a escola começou a funcionar antes de 1920 porque, segundo descendentes, na época alguns empregados vinham procurando emprego em outro lugar exatamente porque “os filhos precisavam estudar”.

O que a história pode ensinar ao mundo de hoje?

Resposta de Mary del Priore, em entrevista na Bienal:

Prá começar, cidadania e ética, que são duas palavras que estão muito banalizadas mas que são da maior importância prá nós continuarmos vivendo num mundo habitado por gente e não por animais… conhecer o seu passado, ter uma memória, ter zelo pelo seu passado… tudo isso se traduz numa postura cidadã mais engajada, mais dinâmica, mais enérgica… nós não podemos ser criaturas que apenas levamos o alimento da mão à boca.

Ouça aqui.

Mostra de Elias Fajardo

O Fecho do Mundo, mostra de Elias Fajardo e Sarau com participação musical do Coralito
A partir de 18 de setembro de 2009
Rua Almirante Alexandrino, 3283
Santa Teresa
Rio de Janeiro

Supremacia da imigração italiana em Minas

Em 1896, o Presidente Bias Fortes explicou o motivo de Minas Gerais receber maior número de #imigrantes italianos com as seguintes palavras (na ortografia original):

As condições especiaes em que se acha a Italia, e o gráo de relações existentes hoje entre este paiz e o Brasil tem contribuido para a preponderancia do elemento italiano sobre o de outras procedencias na introducção de immigrantes.

Continuando o discurso, Bias Fortes esclareceu que era importante evitar o exclusivismo de uma nacionalidade, razão pela qual estava em negociação para introduzir colonos portugueses.

Elias Fajardo

Convido-os a conhecerem uma das obras do artista Elias Fajardo, inscrita no programa Talentos da Maturidade na área de artes plásticas.

www.talentosdamaturidade.com.br/eliasfajardo

Quem quiser pode deixar também um comentário nesse link.

A verdade em pauta, novamente

Hoje a resposta vai para Adriana Medeiros, leitora que retoma o assunto #fontes e pergunta como saber se um livro apresenta a verdade.Minha cara Adriana, creio que depende do que você entenda por verdade em termos de história. Digamos que encontre uma carta produzida no passado, contendo informações sobre um acontecimento contado de forma diferente por outra fonte. Neste caso diríamos que as duas fontes apresentam as suas verdades, assim mesmo, no plural. Lembremos o que Le Goff ensina em História e Memória, obra recorrente aqui neste blog.

O documento […] resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro determinada imagem de si próprias. […] Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo. […] importa não isolar os documentos do conjunto de que fazem parte. Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu testemunho, mas do ambiente que o produziu…

 

Reflexões sobre nosso Trabalho

O último boletim sobre a Colônia Agrícola da Constança – Contagem Regressiva, distribuído mensalmente entre os leitores interessados, gerou diversos comentários aos quais prometemos responder aqui pelo blog. Um deles refere-se a uma reflexão que publicamos, em fevereiro de 2009, na qual dissemos que temos a ousadia de tentar resgatar uma história até aqui relegada ao “silêncio”. Pedro Ferreira pergunta o motivo pelo qual ainda não tinha sido registrada a trajetória dos imigrantes que viveram em Leopoldina.Assim como temos feito em outras oportunidades, respondemos com palavras dos pensadores que nos guiaram durante todo o processo de pesquisa. Segundo Michel Foucault, em Arqueologia do Saber,

A história, em sua forma tradicional, se dispunha a “memorizar” os monumentos do passado, transformá-los em documentos.

Nós escolhemos uma via que se contrapõe à história tradicional, a qual se concentrava em acontecimentos ditos importantes, relegando ao esquecimento o que classificava como desnecessário perpetuar. Entendemos por inviável tal posição, na medida em que os historiadores determinaram o que seria importante a partir de uma visão particular de mundo que não é mais aceitável.

Nossa escolha fundamenta-se, entre outras, nas palavras de Fernand Braudel em Escritos sobre a História, onde declara que não existe

indivíduo encerrado em si mesmo […] todas as aventuras individuais se fundem numa realidade mais complexa, a social.

Optamos pela reação contra

a história arbitrariamente reduzida ao papel dos heróis quinta-essenciados.

Realmente acreditamos que a história modula o destino dos homens. Na medida em que pudermos dar voz aos que foram desconsiderados pela história antiga, estaremos contribuindo para um novo lugar de memória, onde a sociedade leopoldinense poderá haurir outros componentes de sua formação identitária.

Posse de colonos em agosto de 1911

Além do lote número 39, dois outros tiveram os contratos de venda assinados em agosto de 1911. No dia 26 foram vendidos o lote 5 para o italiano Carlo Meccariello e o lote 45 para Gustav Fischer.

O primeiro viveu na Colônia Agrícola da Constança por um bom tempo e foi o segundo adquirente do lote, conforme explicamos em coluna publicada no jornal Leopoldinense. Já de Gustav Fischer sabemos apenas que era casado com Claire Burghart e teve pelo menos três filhos: Luiza, Maria e Alfredo. Segundo uma neta de Gustav, a família transferiu-se para Ubá e depois para Juiz de Fora.

Uso de Documentos

Eliane Pereira, em longa mensagem sobre passagens que julga fantasiosas na história da imigração, pede nossa opinião sobre quais seriam as fontes mais confiáveis para resgatar a memória. Talvez a decepcionemos, prezada leitora, mas nossa opinião é de que não é possível classificar as fontes aprioristicamente. Acreditamos que cabe a nós, na investigação de cada documento, detectar o que é adequado. Como alerta, escolhemos palavras de dois teóricos.

O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa. (Jacques Le Goff, em História e Memória)

Já Michel Foucault, em Arqueologia do Saber, declara que os problemas da história se resumem numa expressão: o questionar do documento.

Memória Coletiva

“Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva”. 

Assim Le Goff se expressa a respeito das práticas das classes dominantes sobre a sociedade. [História e Memória, Editora Unicamp, 5ª edição em 2003, pag. 422] A memória, ensina este autor, é fenômeno individual e psicológico, ligado à vida social. Conservar certas informações representa a conquista do passado coletivo.

Teóricos da historiografia nos ensinam que a memória, por ser parte integrante da nossa identidade, deve ser resgatada pelos historiadores tendo em mente que o que sobrevive do passado é resultado de escolhas pelos detentores do poder em todas as épocas. Conhecemos um tipo de história dita tradicional, que só dá voz aos nomes que escolheram como representativos. Quem são estes representantes que a história tradicional se dedicou a monumentalizar? Há entre eles algum colono imigrante, que deixou a terra natal por falta de condições de garantir o sustento de sua família?

Muitos outros grupos sociais foram sepultados da memória coletiva, por decisão de quem detinha o poder de escolha sobre aquilo que deveria ser perpetuado. A nova historiografia veio ultrapassar esta barreira. E nós, humildemente, estamos aqui para contribuir com o pouco que nos foi dado conhecer sobre esta gente guerreira que mudou a face de Leopoldina.