Antigas ligações entre os Caminhos Novo e Velho na região das Vertentes

A segunda palestra do dia 19 de agosto ficou a cargo de Francisco Rodrigues de Oliveira.
Foi apresentada cartografia do Caminho Velho e Novo e explicado que o Velho era vulnerável no trecho marítimo do Rio até Parati, frequentado por piratas. Além disso, o percurso total consumia até três meses de deslocamento, enquanto pelo Caminho Novo era possível ir do Rio a Vila Rica em um mês.
 Mapa da Estrada Imperial
Acervo do Arquivo Público Mineiro
Demonstrando que, no início de cada um, havia uma boa distância a separá-los, ressaltou que ao entrar em Minas as duas vias iam se aproximando até se unirem na altura de Conselheiro Lafaiete. Na parte inferior da Serra da Mantiqueira a mata era fechada. Já no Campo das Vertentes,região que abrange São João del Rei e Barbacena, só existia mata nas margens dos rios, as chamadas matas ciliares. As demais áreas do campo eram cobertas por vegetação rasteira, com árvores esparsas.
Esta condição lhe parece ter favorecido o surgimento de várias trilhas, anteriores à abertura dos Caminhos Velho e Novo, resultando em que ambos tenham sido, na verdade, o alargamento devias já existentes. Ressaltou que o índio, por não conhecer o cavalo, teria aberto trilhas bem estreitas. Advindo a necessidade de transporte de carga, em lombo de animais, tornou-se imperioso transformar aquelas picadas em passagens que permitissem o trânsito de um animal com cargas dispostas dos dois lados.
Citou os viajantes estrangeiros que passaram pela região nos séculos XVIII e XIX, buscando responder a curiosidade dos europeus. A partir da vinda da Família Real Portuguesa em 1808,surgiram as expedições científicas, com objetivos mais específicos.
Outros mapas foram apresentados.Um deles, do final do século XIX, com as condições geológicas de Minas. Em seguida um mais recente, já contando com a tecnologia da fotografia aérea.
A imagem de um rancho despertou curiosidade na plateia, sendo explicado que era uma cobertura de sapé sobre quatro esteios que servia para abrigar os viajantes. Os estrangeiros reclamavam do desconforto e dos bichos de pé e carrapatos, além do hábito dos tropeiros decantarem durante a noite inteira depois de passarem o dia todo trabalhando duro.
Francisco Rodrigues de Oliveira explicou também que o proprietário construía o rancho a pequena distância desua casa, onde só se hospedavam as autoridades que por ali passassem. Para os demais, que ficavam debaixo daquela cobertura, nada era cobrado pela estadia,mas pela venda de alimentos, especialmente o milho para os animais.
Em seguida discorreu sobre a forma como eram desenhados os mapas no final do século XIX. Chamada triangulação, consistia em alcançar um determinado ponto elevado que permitisse a visualização de outro ponto de mesma altitude. Medindo-se a distância entre os dois pontos, através de um aparelho de medição de ângulos era possível completar o terceiro lado do triângulo. Fazia-se, então, um levantamento de detalhes da área medida. De cada triângulo composto partia-se para suas interseções.
Foi citada a Várzea do Marçal, localidade próxima a São João del Rei, que foi o ponto de início da medição naquela região. E explicando como o trabalho era realizado, Francisco Rodrigues de Oliveira destacou que os encarregados da operação eram engenheiros dos quais se exigia também boa capacidade de expressão gráfica para registrar em papel os componentes encontrados. Além disso, havia uma turma para fazer a medição linear entre dois pontos e outra turma fazendo a mesma medição no caminho inverso, tirando-se a média dos dois resultados encontrados.
Além de Cunha Matos, o cronometrista do Caminho Novo, Francisco Rodrigues de Oliveira mencionou em sua palestra os viajantes Antonil, Tavares de Brito, Costa Matoso, Saint Hilaire,  Langsdorff e Richard Burton, personagens que passaram pela região e com suas descrições contribuíram para que as informações chegassem até nós.

Abertura do Segundo Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo

Com a colaboração dos amigos Silvia Buttros e Francisco de Barros, serão aqui publicados relatos do Segundo Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo.
Iniciado no dia 19 de agosto de 2011, desta vez promovido pelo escritório do IPHAN emSão João del Rei, sob a direção de Jairo Braga Machado, este Segundo Encontro veio solidificar o projeto inicialmente desenvolvido pelos membros do Centro de Memória Belisário Pena e pela Associação Cultural do Arquivo Histórico Municipal Professor Altair Savassi – Acahmpas, entidades de Barbacena, Minas Gerais.
Iniciando os trabalhos, Luiz Mauro Andrade da Fonseca falou sobre a informalidade do Encontro, para o qual as pessoas vão espontaneamente, fazem a inscrição na hora, as despesas são socializadas e os palestrantes não recebem cachê. Ressaltou que o público é diferenciado, não é um público leigo. São pessoas que acompanham as palestras com muita atenção.
O objetivo do encontro, disse o Dr. Luiz Mauro, é promover uma reunião de pesquisadores que apresentam os temas que estudam para compartilhar com os demais as suas experiências. Comparecem pessoas vinculadas a universidades ou não, genealogistas, pessoas voltadas para a preservação do patrimônio cultural, memorialistas etc. E mesmo os que não estão diretamente ligados ao tema, acabam se interessando dada a espontaneidade com que são abordados os assuntos.
Destacou que há o cuidado de evitar a repetição desnecessária do que está publicado em livros, por não ser de interesse a apresentação de assuntos já estabelecidos, mas de pesquisas regionais, autênticas, que ajudam a progredir. O Caminho Novo foi escolhido por mote dos Encontros, o que não impede de serem abordados todos os caminhos de Minas, como a Picada de Goiás e outros que nos ajudam a compreender a história de Minas e do Brasil.
Explicou que ele e Francisco Rodrigues de Oliveira trabalham com sesmarias há cerca de 20 anos, e que a maior dificuldade sempre foi com a toponímia. Como exemplo citou o nome Cuiabá que aparece nas cartas e evidentemente não se refere à cidade do Mato Grosso. Ou seja: são documentos que trazem topônimos pouco conhecidos pelos pesquisadores.Motivo pelo qual foi convidada a professora Maria Cândida Seabra para falar sobre Toponímia da Comarca do Rio das Mortes, o que certamente permitirá um grande salto na pesquisa dele e de Francisco Rodrigues de Oliveira.
Luiz Mauro deu boas vindas e agradeceu a presença de todos, desejando que formem uma confraria de amigos que facilitem o avanço das pesquisas de uns em contato com as experiências dos outros. Agradeceu também ao Presidente da Academia Sanjoanense de Letras, José Cláudio Henriques,que compareceu acompanhado pela secretária da instituição, Zélia Maria Leão Terrell, pela cessão do espaço para a realização do Encontro.
Em seguida, passou a palavra a Francisco Rodrigues de Oliveira, com o tema Antigas ligações entre os Caminhos Novo e Velho na região das Vertentes.

Programa do Encontro de Pesquisadores

Dia 19 – sexta
(Exposição e venda de livros –Livraria Quarup (Juiz de Fora) – diariamente no encontro)
8:00h – Abertura – Inscrições
8:30h – Mesa-redonda “Pesquisadoresde Barbacena”: 1) “Anais do Primeiro Encontro” – Prof. Luiz Mauro Andrade daFonseca (CMBP); 2) “Antigas ligações entre os Caminhos Novo e Velho na regiãodas Vertentes” – Prof. Francisco Rodrigues de Oliveira ( ACAHMPAS); 3) “Aorigem do arraial da Igreja Nova” – Prof. Wilton Ferreira de Souza (História);4) “O Direito e o Patrimônio Histórico- Case da Fazenda do Registro Velho” –Dr. Alex Guedes dos Anjos e Edson Brandão.
9:30h – “Caminhos de Dentro” –Prof. Geraldo Barroso de Carvalho (CMBP).
10h – “O mito da decadência deMinas Gerais no século XIX” – Prof. Afonso Alencastro Graça Filho (UFSJ).
10:30 – Café
10:45h – Visita dirigida a fontesprimárias para pesquisa em São João Del Rei
– Instituto de PatrimônioHistórico e Artístico (IPHAN) – São João Del Rei.
12:30 – Almoço
14:00h – “As cidades históricaspara além dos limites territoriais do tombamento” – Prof. Everaldo BatistaCastro (UFOP).
14:30 – “Picada de Goiás” – Prof.Francisco Eduardo de Andrade (UFOP).
15:00 – “A paisagem econômicado Caminho Novo pelo olhar dos viajantes”  –Prof. Otávio Soares Dulci – (UFMG).
15:30 – “Plantas Medicinais na Estrada Real” – Prof.a Mariadas Graças Brandão (UFMG).
16:00h – “Cartografia da regiãodas Minas Gerais” – Prof. Antônio Gilberto da Costa – (UFMG).
16:30h – “Cartografia histórica,arte e técnica dos mapas da América Portuguesa” – Prof.a Márcia Maria Duartedos Santos – (UFMG).
17:00h –“Toponímia da Comarca doRio das Mortes” – Prof.a Maria Cândida Seabra (Belo Horizonte).
17:30 – “Itinerário do CaminhoNovo – Juiz de Fora” – Prof. Wanderlei Tomaz (Biblioteca Pública de Juiz deFora).
18:00h – “Preservação dahistórica Fazenda da Mantiqueira” – Engenheiro Roberto Amado (Santos Dumont).
18:30h – Belmiro Braga, umescritor à beira do Caminho Novo – Prof.as Leila Barbosa e Marisa Timponi(Academia Juizforana de Letras).
19:00h – Prof. Leonardo OliveiraBarreto, superintendente do IPHAN (Belo Horizonte) / Jairo Braga Machado (SJDR)– “Linguagem dos Sinos de São João Del Rei” – Prof. Jairo Braga Machado (IPHAN– SJDR).
21:30h – Jantar por adesão
Dia 20 – sábado
8:30h – “Proposta de Integraçãodos Arquivos Regionais” – Prof. José Guilherme Ribeiro (UFOP).
9:00h – “Arquivos Integrados doIPHAN” – Prof.a Mônica do Carmo Elisque (IPHAN-MG).
9:30h – Mesa Redonda “Ahistória social através do método de pesquisa genealógica: a genealogiacorrigindo lapsos da história.” – Prof.as Avelina Noronha (ConselheiroLafaiete) e Sílvia Buttros (Paraguaçu) – Coordenação da Prof.a Nilza Cantoni(Leopoldina).
10:00h – “Itinerário do CaminhoNovo em Conselheiro Lafaiete” – Prof.a Mauricéia Maia (Coordenadora doPatrimônio Cultural – Conselheiro Lafaiete).
10:30h – Café
10:45h – “Paisagens rurais epersonalidades históricas dos Caminhos Novo e Velho” – Prof. Ângelo AlvesCarrara (UFJF).
11:15h – “José Aires Gomes” –Prof. André Figueiredo Rodrigues (São Paulo).
– Almoço e passeio Pela EstradaParque Passos dos Fundadores (Caminho Velho) entre Prados e Tiradentes). Almoçona Pousada Vivendas Letícia.
Traslado e almoço por adesão.
21:30h – Visita ao FestivalGastronômico de Tiradentes . Traslado por adesão
Dia 21 – Domingo
9:15h – Missano  Templo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, todacantada em latim pela centenária Orquestra “Ribeiro Bastos”.

Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo

O Segundo Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo vem para consolidaruma proposta lançada em 2010, em Barbacena, onde um grupo de estudiosos dahistória de Minas Gerais se mobilizou para realizar encontros anuais com o fitode compartilhar informações, fontes e experiências. Por não serem acadêmicos etampouco presos a ideologias ou motivações outras que não a valorização e a difusãoda pesquisa regional, tais encontros são abertos à participação dosinteressados, não arrecadam nem requerem investimentos, salvo para pequenoscustos, visto que todos arcam com suas próprias participações.
Neste ano, a cidade que acolhe o grupo é São João del-Rei e otemário está voltado para os Caminhos Novo e Velho, Arquivos Regionais,Genealogia e Defesa do Patrimônio Histórico, além do lançamento de livros entreos autores presentes e ainda uma experiência de campo, com o passeio pelaEstrada Parque Passos dos Fundadores, um importante resgate de um dos trechosremanescentes do Caminho Velho.
Participe conosco deste reencontro com nossas origens,conheça o trabalho dos pesquisadores independentes e descubra um outro olharpara a  história de Minas Gerais.

2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo

Taxista sabe-tudo vira atração histórica em Minas

“Ranulfo virou uma atração a mais para os turistas que visitam as igrejas e monumentos históricos” em São João del Rei.

Conservação de Patrimônio Histórico

O Grupo Novo Caminho Novo se integra, cada vez mais, na luta pela preservação no entorno daquele que foi o principal acesso à região central das Minas. Vejam matéria sobre a Fazenda Ribeirão das Rosas.

Novo Caminho Novo

Os Anais do 1º Encontro de Pesquisadores de História e Geografia do Caminho Novo da Estrada Real estão disponíveis no blog. 

O Caminho Novo e o Comércio das Minas 1700-1818

O professor Ângelo Carrara iniciou agradecendo o convite e declarou que “este tipo de reunião, que ocorre fora dos meios acadêmicos, tem a faculdade de produzir mais efeitos concretos e objetivos a curto prazo do que as que acontecem no meio acadêmico. Nós fazemos nossos eventos acadêmicos mas em termos práticos… quando isso que nós dissemos vai chegar ao aluno?”

Informou que este foi o segundo evento do tipo do qual participou este ano e percebeu que todos ali estavam envolvidos de forma sincera, interessada. Assim, após ouvir as comunicações que ocorreram ao longo do dia, decidiu modificá-la.  


A seguir, trechos do que falou Carrara.

“O Caminho Novo é um caminho. Se eu for abordar o tema de comércio, eu não vou sair disso: 85% de toda a importação de mercadoria passou pelo Caminho, da mesma forma que 98% do ouro produzido em Minas Gerais. E pronto!

Só que esse Caminho Novo é tratado como caminho, como rota. E o que está em volta do caminho? Pessoas circulavam pelo Caminho Novo. E é essa a ideia! É nisso que eu mudei! Ao invés de tratar o caminho como … mercadorias e ouro, quero chamar a atenção para o entorno dele. E para a personalidade histórica dele. Então, eu não preciso trazer aqui números. 

[…] Nós estamos num lugar muito especial. Minas é muito especial! O mineiro tem um profundo orgulho de ter nascido aqui. É o melhor estado do mundo!

[…] Eu posso afirmar que não havia Império. [Naquele momento] o que há é um império de rotas comerciais dominadas por portugueses. Mas o império no sentido territorial… Então eu pergunto: o que é o Brasil até 1696?

O Brasil é um punhado de gente vivendo em pontos da costa brasileira. A estatística que nós tínhamos até muito recentemente nos dava um total de 300 mil pessoas. Isto é um absurdo! Por que?

Este ano, conversando com um colega que está trabalhando com demografia, descobrimos que este cálculo é fruto de um palpite, de um despautério sem fim. Quantos habitantes tinha Salvador em 1681?

Três mil pessoas! Era a capital do Brasil e tinha 50% da população brasileira. E 50% da economia brasileira estava concentrada em Salvador e seu recôncavo. Então, por aí vocês tiram as conclusões.

O Brasil é um conjunto de pontos. O ouro detona o processo de migração maciça, de Portugal, do Brasil todo, num movimento demográfico que não consegue ser estancado. Enquanto os países europeus perdiam população ano após ano.

E para onde ia essa gente? Para Minas Gerais. Eles não estão indo para Salvador, para Pernambuco, não! Eles estão vindo prá cá. 

[…] O ponto nevrálgico desse ‘agora’ no Império Português é uma questão de território. É Minas, é Mato Grosso, é Goiás. Isso é território! O vale do São Francisco…

[…] A razão principal do ouro é entrar em circulação. De 1724 a 1735 nós tivemos uma casa da moeda em Ouro Preto. Esta casa da moeda, durante seus 10 anos de vida, cunhou três vezes mais moeda do que suas equivalentes de Lisboa e Rio de Janeiro juntas. Então, imaginem. Enquanto a rotina da Casa da Moeda em Lisboa era uma, em Minas a produção era muito maior. Claro que os melhores servidores da Coroa estavam onde estava a riqueza.  Em Minas Gerais! Porque aqui estava a galinha dos ovos de ouro.

O grande desafio nosso, na minha perspectiva, é fugir dessa história que enaltece determinados indivíduos.


A pergunta que eu faço é o que esta história tem de utilidade para as pessoas comuns?

O fato é que essa movimentação toda de gente pelo Caminho Novo… As pessoas se levantam e perguntam: o que eu faço agora? Me alimento como? Como é o dia a dia? Não é a história de grandes personagens, de fatos heróicos, mas a nossa história. Mas não é uma história da vida privada [como perguntou alguém da platéia]. É uma história de todos, pública. É o dia a dia.

A pergunta que devemos fazer é: o que é viver aqui? O que foi viver no século XVIII e no século XIX aqui? Devemos perguntar que tipo de esforço estes indivíduos faziam para poder manter suas vidas. Porque não se pode esquecer que essa gente trabalha.

Dá-se a impressão de que o passado era um brilho só. Na realidade, o que talvez tenha mais impacto sobre as pessoas [seja]… há 300 anos, quando eu me sentava à mesa, o que eu tinha?

Percebem o desafio que temos à frente?

[…] Já avançamos muito. Em 10 anos, eu sou testemunha disso, crescemos absurdamente no campo da preservação da documentação. Nós temos acervos monumentais, um acervo que precisa ser preservado. Um outro desafio, diretamente relacionado, é a propagação da educação patrimonial, que é fundamental. Aquilo que as secretarias de educação incorporam nos seus currículos, uma disciplina de educação patrimonial que não vai tratar de enaltecer grandes nomes. Ao contrário, é cuidar de um patrimônio que muitas vezes é imaterial. Os queijos, a cultura mineira…

Este é um desafio para o historiador de ofício. Escrever esta história de Minas. Esta reunião está acontecendo em Barbacena. O que nos deve interessar é a história de Barbacena.

Existe uma coisa que eu chamo de personalidade histórica. Vou explicar. O meu objetivo aqui é dar serviço. [risos]

As identidades originais de Minas Gerais… Exemplo: nos centros mineradores, o que existiu ali é diferente de uma outra sociedade que é vizinha [mas que tem uma] identidade curraleira.

Em Minas temos quatro [identidades]. Saindo de Ouro Preto até Itabirito, é a do ouro. Pitangui não foi uma região mineradora importante. Pitangui… tinha a segunda maior produção de gado de todo o século XVIII.

Outras identidades, ao longo do século XVIII, vão se formando. A zona curraleira… margem esquerda do São Francisco… no extremo noroeste de Minas Gerais que não conversa com Minas Gerais. Eles não produziram gado ali para vender em Minas. É uma identidade particular de Minas Gerais.

Outra identidade é do vale dos rios Verde e Verde Grande. Produção agrícola que conversa com Minas Novas ou Itacambira. É outra formação.

Eu estou falando da identidade que se forma por vínculos familiares, por parentesco, por pessoas circulando diariamente, semanalmente… 

O mesmo se dá em Diamantina, que não pode ser entendida só como Distrito Diamantino. Diamantina é ao mesmo tempo Diamantina e Curvelo. Porque o gado que abastece Diamantina é o gado de Curvelo. Ou seja, Diamantina é muito curraleira apesar da produção de diamantes.

Percebem-se as diferenças no sotaque. O historiador tem que ter parâmetros para saber ouvir o sotaque. O de Diamantina é o mesmo de Curvelo … é só ir para a rodoviária e identificar as linhas de ônibus mais comuns.

Então, na região das minas, eu acho que fica claro que há um quadrilátero muito facilmente identificado por todos, formado por Ouro Preto, Mariana, Caeté e Sabará.

[…] A alimentação na área curraleira é diferente da área mineradora.

Essa região aqui, de Barbacena, que hoje se chama de Vertentes, mas que no período colonial se chamava O Campo, por isso que aqui é a Borda do Campo, termina lá nas Congonhas do Campo. O Campo é Campo por quê? Porque isso aqui é uma região diferente das demais, a mais fértil de todas, com uma rede hidrográfica fantástica e é isso que explica o vigor da agricultura nessa região.

Só que a identidade de Barbacena, de Santana do Garambéu, de Prados que, apesar de ser área de mineração comunga muito com a identidade de Barbacena, Entre Rio de Minas, Carijós, até Congonhas, guarda uma homogeneidade muito forte.

Primeiro o estilo de fazenda. As descrições rudimentares que eu vou encontrar, do século XVIII, vão dizer que o perfil preferencial é uma concentração de terras, [uma concentração] fundiária, de propriedades médias, de produção média. Toda essa região do Campo, antes de cair no espinhaço em direção a Ouro Preto, fechando essa região aqui nas Congonhas, tem uma concentração de terras distinta da região do Caminho Novo indo para Juiz de Fora. O padrão aqui é menos concentrador do que em Juiz de Fora. A produção agrícola aqui é baseada em propriedades médias e não em grandes.

Se eu for para Juiz de Fora? 1750 – quantas pessoas produzem alimentos? Dezenove. De Paraíba do Sul no Rio de Janeiro, até o pé da serra aqui em Santos Dumont. Dessas 19, 10 produzem 85% do total. Isso é concentração!

Concentração fundiária é o melhor identificador da ‘personalidade’ de uma região. Quanto mais concentrada a propriedade rural, mais concentração de renda. Quanto melhor distribuída a propriedade da terra, melhor o padrão dessa sociedade.

As pessoas que vivem na roça… a forma como elas acessam o principal meio de vida é fundamental… Numa região em que o padrão de concentração é mais equilibrado, a sociedade é diferente.

Então, esse Caminho Novo não é uma identidade. Na verdade nós temos que ultrapassar isso. O Caminho Novo é uma rota. O que importa é verificar a região. Esse é o grande desafio. 

Fontes para isso? Um problema que nós não temos em Minas Gerais. Todos os outros estados tem problemas com fontes. Nosso problema é o inverso. Nós temos excesso de fontes. Nós temos que ir a um arquivo rezando para não encontrar documentos. Experiência própria. Ali abre um livro e surge mais um questionamento.

Existe uma fonte que é um verdadeiro cadastro em Minas Gerais. Ela me dá o nome, a propriedade rural, o endereço, a produção agrícola. Isso desde 1750. Eu tenho como fazer uma história dessa propriedade rural, história da produção econômica, desde 1750 até 1835. É um tipo de registro muito particular, todo organizado. A partir desse período eu consigo rastrear, com a documentação que ainda não conhecemos e da qual ainda não temos inventário. Mas que em breve teremos. É a nossa caixa preta da História do Brasil. É a Coleção Casa dos Contos de Ouro Preto, com duzentos e tantos mil itens. Sabemos que tem coisas preciosas mas… não tem inventário. No momento em que tivermos inventário, poderemos fazer a história que quisermos. Quer fazer História da Medicina? Pode. Quer acompanhar o receituário? Tem. Porque lá estão os registros dos hospitais militares. Para cada doença tem o medicamento que foi adotado.

Tem ali documentação que vocês não podem imaginar. Documentação sobre todas as obras artísticas…. Aleijadinho foi um. Há dezenas de outros artistas. O altar da Igreja, como é que foi feito…

O que na verdade eu gostaria de chamar a atenção é para a necessidade que nós temos, é a responsabilidade que a academia tem de produzir esse tipo de investigação. Uma responsabilidade que ela tem como instituição pública.

Uma outra responsabilidade que a Prefeitura tem, dentro das suas possibilidades, é de produzir material didático capaz de sensibilizar a sociedade, atingir a sociedade. Fazer isso é elevar o nível de cidadania, aqui entendido como a capacidade de entender direitos e deveres. É ter consciência das transformações…

Diferentemente de outras áreas de conhecimento, o objeto da história não está dado. É complicadíssimo. Nós não lidamos com um único indivíduo. Nós lidamos com todos. E o que é mais complicado: o ser humano muda. E o historiador tem que encontrar o padrão da mudança. Porque as coisas não são colocadas [e] nós não vivemos no caos. Nos vivemos dentro de uma visão de como o mundo funciona. Existe um padrão de mudança que precisamos identificar.

Então, nos aproximarmos desse tipo de história que tem a capacidade de nos informar, com maior segurança, os padrões que essa sociedade adquire ao longo do tempo, é o grande desafio. É isso que me chamou a atenção para este evento. É o primeiro e precisa se repetir. Barbacena tem uma responsabilidade enorme por conta do equipamento urbano que tem, diante de outros municípios. Barbacena tem um fator de liderança diante de outros municípios.

A responsabilidade é das prefeituras de mobilizar seus professores em torno dessa ideia de construção de material didático. O impacto disso no médio prazo é profundamente transformador .

Meu papel aqui foi mais dizer o que fazer. Material a academia tem. Mas há uma necessidade cada vez maior de aproximação entre a universidade e as necessidades efetivas da sociedade. Produção histórica que tenha um impacto mais imediato sobre a sociedade.

Ângelo Carrara, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, encerrou sua participação dizendo que seu papel foi o de saudar esse tipo de iniciativa e chamar a atenção daqueles que têm alguma responsabilidade sobre esse tipo de projeto.

Arquivos Públicos Regionais

 

Este momento do Encontro de Pesquisadores de História e Geografia do Caminho Novo da Estrada Real contou com a participação de representantes das seguintes instituições: 1 – Arquivo Público Municipal de Ouro Preto – APMOP, com João Paulo Martins;

2 – Escritório Técnino do IPHAN de São João del Rei, com Jairo Machado;

3 – Arquivo Histórico da Universidade Federal de Juiz de Fora – AHJF, com Galba di Mambro;

4 – Arquivo Público Municipal de Santos Dumont – APMSD, com Marisa Fontes;

5 – Arquivo Públimo Municipal de Barbacena – APMB, com Edna Resende.

Não só através das comunicações dos responsáveis, mas também por conversas que fluíram durante todo o dia, chama a atenção a necessidade de atuação de associações de amigos dos arquivos públicos para buscar alternativas diversas. Isto porque, no âmbito de sua atuação, nem sempre os diretores ou responsáveis conseguem equipamentos, melhorias, estagiários e um sem número de providências necessárias.

1 – APMOP

João Paulo Martins informou que o acervo abrange o período 1728 a 1931, com volume maior para o século XIX. É composto por documentação produzida pela Câmara e pela Prefeitura. Em sua breve apresentação, mencionou curiosidades. Uma delas: as pontes existentes entre Ouro Preto e Barbacena não são antigas como normalmente se divulga, mas construídas no século XIX.

2 – IPHAN

Este arquivo conta com material produzido a partir de 1711. “O cidadão tem direito a sua memória, a suas raízes, a dialogar com seus antepassados”, disse Jairo Machado. Falou sobre a mudança da instituição que antes utilizava um pequeno espaço dentro do Museu Regional de São João del Rei e agora conta com sede própria. E ressaltou que ‘obrigatoriamente a história de Minas Gerais passa por São João del Rei’, a principal vila abastecedora da Corte do Rio de Janeiro.

Além de informar que o Escritório Técnico do IPHAN conta com uma Biblioteca de mais de mil volumes, Machado fez diversas considerações sobre a função do arquivo e encerrou afirmando: ‘o mais importante: é um arquivo público’.

3 – AHJF

O professor Galba di Mambro denominou sua apresentação como ‘Arquivo Hisórico da UFJF: perspectivas de pesquisa sobre o Caminho Novo’. Destacou que o acervo relativo ao tema é pequeno, só um fundo que, entretanto, conta com 30.000 processos de 1830 a 1960, provenientes do Forum Benjamin Colucci.

Um dos destaques da apresentação, além do roteiro didaticamente apresentado em slides, foi a explicação de que a instituição não é o Arquivo Permanente da Universidade, mas um Centro de Memória Social. Informou que está sendo providenciada a mudança do nome para melhor identificá-lo dentro do Sistema de Arquivos da UFJF.
Site do Arquivo

4 – APMSD

Marisa Fontes lembrou que um dos organizadores do Encontro, Luiz Mauro Andrade da Fonseca, é um dos fundadores do arquivo e incentivador de seu trabalho na instituição. ‘A sensibilidade de guardar a memória da cidade’, disse Fontes, nasceu pelas mãos de vários entusiastas. Destacou, entre outros, Oswaldo Castelo Branco, historiador e um dos fundadores da Casa de Cabangu, e o grupo Pesquisadores Independentes do qual Luiz Mauro faz parte.

Na direção desde 1997, Marisa Fontes mostrou-se uma entusiasta da preservação da memória local que muitas vezes sofre concorrência da imagem popular que liga o município exclusivamente ao aviador Alberto Santos Dumont. Entretanto, trata-se de um município importante para a história da Estrada Real, da Ferrovia e da indústria de laticínios, entre outras.

Descreveu ligeiramente o acervo que hoje se encontra no antigo prédio da Estação Ferroviária e informou que, além de subsidiar projetos de Educação Patrimonial, o arquivo municipal preocupa-se não só com o armazenamento mas com catalogação, microfilmagem e digitalização do acervo. Divulgar, é a chave de sua atuação, disse Fontes. ‘As crianças se encantam’, complementou, especialmente com o que se refere à ferrovia que é a alma do município.

Em seguida, Luiz Mauro Andrade da Fonseca comentou que a obra de Alberto Santos Dumont é sobejamente estudada e conhecida e que a cidade tem outros focos, como a industrialização. ‘A coisa ruim das nossas cidades’, disse Fonseca, é que as escolas continuam estudando Inconfidência Mineira, Tiradentes e Aleijadinho e não incluem a história local em seus programas de ensino.

5 – APMB

Edna Resende informou que as atividades do Arquivo foram iniciadas há 10 anos, ‘quando a documentação do Poder Judiciário estava prestes a ser eliminada’ e a inauguração ocorreu em agosto de 2005. Foram apresentadas imagens do acervo, antes e depois do tratamento arquivístico.

Posteriormente foram recolhidos outros conjuntos, com destaque para o arquivo do Professor Altair Savassi com um rico material sobre a história regional, incluindo publicações periódicas. Além de obras dos memorialistas, os pesquisadores encontram na instituição fontes como inventários, testamentos, processos criminais, sesmarias, material sobre escravidão, escrituras e outros. Edna Resende informou que há cartas de sesmarias, provindas da coleção da família Andrada, diferentes das encontráveis no Arquivo Público Mineiro.

‘Era difícil fazer pesquisa sobre Barbacena porque não havia fontes disponíveis’, lembrou Resende, situação que agora se modificou e já apresenta resultados em pesquisas universitárias ou não. Ressaltou, ainda, que a criação da Associação Cultural do Arquivo Histórico Municipal Professor Altair José Savassi trouxe novo estímulo, já que o grupo tem sido responsável por buscar outros caminhos para o funcionamento da instituição.

Ao final da mesa redonda alguns ouvintes declararam não saber, até aquele momento, da existência de tal diversidade de fontes disponíveis para o estudo não só do Caminho Novo como, especialmente, da história dos municípios surgidos a partir dele.