Cartografia da região de Minas Gerais

Ao iniciar sua intervenção, Antônio Gilberto da Costa manifestou satisfação em falar para um grupo de pessoas que,não estando vinculadas a universidades, fazem esta ponte com ela. Ressaltou que o contato é importante e que, muitas vezes, os acadêmicos se fecham dentro das universidades. Informou que gostaria de falar sobre o Caminho Novo, mas que falaria sobre mapas de uma forma geral,ressaltando que da próxima vez estará no Encontro para tratar do Caminho Novo.A plateia se sentiu lisonjeada e agradecida pela simpática manifestação de Antônio Gilberto da Costa.
Explicou que apresentaria um conjunto de documentos e por meio deles abordaria a formação do estado de Minas Gerais. Em termos territoriais, de certa forma a conformação já era a atual,como apresentado em imagem de satélite. Sem os instrumentos de que dispomos atualmente, há 300 anos foram criados documentos cartográficos que o demonstram.
Antes de falar em Minas Gerais, o palestrante esclareceu que a América Portuguesa estava dividida em duas grandes partes: Estado do Maranhão e Grão Pará e Estado do Brasil. Neste último surgiria a nossa Minas Gerais. Documentos do início do século XVI trazem as primeiras referências ao território sem nenhuma indicação das Minas, apresentando primordialmente a faixa litorânea. Em documento de 1631,época por excelência da produção de mapas, também ainda não há referência ao território mineiro, concentrando-se em informações da linha do litoral.Trabalhando com mapas do século XVII até o início do XVIII, surgem as primeiras indicações do que viria a ser Minas Gerais.
Característica interessante é que até metade do século XVIII os mapas sobre Minas Gerais são segmentados em partes do território. Num borrão feito para a região de Diamantina, aparecem as primeiras anotações sobre cobre. Este rascunho contribuiu para a posterior elaboração de um mapa do Serro Frio.
Outro conjunto documental mencionado foram as Cartas Sertanistas, disponíveis no site da Biblioteca Nacional, bem como os Registros, citados em palestra anterior, com informações no site da Receita Federal.
Carta Sertanista de 1714, disponível no site da
Biblioteca Nacional: http://bndigital.bn.br/
A primeira Carta Sertanista projetada foi da região de Ouro Preto, Mariana e Serra do Caraça. A Carta seguinte,produzida no início do século XVIII, indica os traçados do Caminho Velho e do Caminho Novo. Considerando que nela há poucas informações do Caminho Velho e diversas do Novo, sugeriu que talvez o primeiro já estivesse, nesta época, meio desativado.
Até então os documentos traziam muitas informações do litoral e poucas do interior. Tais informações, como fazendas ao longo do território, demonstram a ocupação já existente. No início dos anos1700 há referências ao longo do Rio São Francisco.
Discorrendo sobre suas conclusões sobre a época de feitura dos mapas, sobre um deles mencionou a data de óbito do autor e esclareceu que o início da produção pode ter ocorrido uns dez anos antes e que, aos poucos, informações foram sendo acrescentadas, o que se depreende por serem algumas delas posteriores ao falecimento do mesmo. Isto era comum por levar anos para produzir tais documentos, muitas vezes desenhados com base em relatos e não com a visita ao local retratado.
É possível que um dos mapas projetados, datado de 1709, tenha sido encomendado num momento em que já se previa a separação de Minas e São Paulo. Em seguida foram apresentados documentos de 1714 e 1816, demonstrando que no período de 100 anos o volume de informações sobre o território mineiro ampliou-se consideravelmente.
Chamou a atenção, em toda a falado professor Gilberto, a simplicidade com que se apresentou e a linguagem acessível a leigos. Citamos, como exemplo, a preocupação em evitar citações peremptórias sobre datas ou anterioridade dos documentos, situação que poderia gerar contestação por parte de quem tenha realizado outros estudos e encontrado outras fontes. Esta humildade conquistou a plateia.
Prosseguindo na apresentação de outros mapas, o palestrante declarou que na segunda metade do século XVII o território de Minas surge de forma mais bem definida. Ao mostrar a obra de José Joaquim da Rocha, citou a hipótese de alguns estudiosos a respeito de uma eventual participação do autor na Inconfidência, tendo incluído no mapa as referências das trilhas percorridas por Tiradentes.
Ressaltou, ainda, que Minas Gerais fazia divisa com Pernambuco como demonstrado em um mapa onde aparecem,também, as capitanias de Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro,Espírito Santo e Bahia. Indicou, em outros mapas que seguem o modelo de José Joaquim da Rocha, a presença dos caminhos existentes.
Apresentou uma curiosidade a respeito daquele que considera como sendo o primeiro Guia 4 Rodas, por envolver todas as capitanias do Brasil com seus caminhos e indicações do tempo gasto para o deslocamento entre as localidades. Esclareceu que cada planta era acompanhada de textos com informações complementares e que no caso em tela o viajante teria um guia muito esclarecedor.
Em seguida foi projetado um mapa produzido por Eschwege, certamente incluindo cópia de outros mapas e dados acrescidos aos que ele próprio levantou entre 1811 e 1819. O palestrante chamou a atenção para o cuidado necessário na leitura da obra de Eschwege, tendo em vista que ele veio ao Brasil para levantar dados e informações sobre a produção do ouro, com o objetivo de expandi-la. Ressaltou que havia recusa em implantaras técnicas indicadas para evitar o pagamento de mais impostos. Em decorrência, Eschwege tratou os moradores locais de forma pouco amistosa.
A divulgação do mapa de Eschwege no Brasil só ocorreu em 1833, tendo sido inicialmente enviado para Londres e só chegando ao conhecimento dos brasileiros quando o país já se tornara independente de Portugal.
Sobre a região do Triângulo Mineiro, o palestrante lembrou que pertencera a São Paulo, foi transferida para Goiás e em 1816 foi incorporada, por Dom João VI, a Minas Gerais. A primeira cartografia que apresenta o Triângulo como parte do território de Minas Gerais é de 1855, de Halfeld & Tschudi.
Outra modificação ocorreu em1824, por conta da Confederação do Equador, quando Dom Pedro I determinou a incorporação de mais da metade de Pernambuco a Minas Gerais. Desta forma, toda a margem ocidental do São Francisco pertenceu a Minas Gerais até por volta de1827 ou 28, quando a região passou para a Bahia.
Projetado um mapa do final do século XIX, já com o Triângulo em Minas Gerais, num salto gigantesco pula-separa 2002, demonstrando que a configuração do território mineiro em 1875 ou1882 é a mesma da atualidade. Antônio Gilberto da Costa ressaltou o valor do trabalho daquelas pessoas que, trabalhando em condições rudimentares, deixaram documentos de grande importância para a nossa história.
Para encerrar, mostrou imagens de caminhos que interligavam os caminhos Velho e Novo e outras referências de percursos existentes ao tempo em que fomos visitados pelos viajantes estrangeiros, como as serras de São José e da Piedade que, por conter minério de ferro que brilhava à distância, tendo sido conhecida como Serra da Prata.

Plantas Medicinais na Estrada Real

Verena Brandão de Oliveira apresentou diversas plantas medicinais e comentou suas propriedades e características, bem como o processo de preparação para uso medicinal. Uma delas é a pimenta de macaco,como é popularmente conhecida, utilizada na África para o tratamento do diabetes. Está sendo testada em animais obesos.
Esclareceu que as plantas medicinais são divididas em três categorias. As exóticas são aquelas que, não sendo naturais do Brasil, foram para aqui transplantadas e se adaptaram.Importadas são as que, não existindo em nosso país, são trazidas para comercialização ou estudos.  A terceira categoria é a das plantas nativas, cujo uso remonta aos naturais da terra.
Entre as exóticas temos a babosa,a alcachofra, a calêndula e a melissa. Já para as importadas, como a valeriana,foram citados os locais que as utilizam e os objetivos. Nem todas foram internalizadas, ou seja, passaram por estudos e aprovação.
A palestrante informou que são pouquíssimas as plantas nativas que já tiveram seus efeitos comprovados. Nesta categoria foram citados o barbatimão, a carqueja, a flor do maracujá e o funcho.O Brasil, apesar da grande biodiversidade, ainda não conhece todas as suas plantas medicinais. Ela parte de um projeto que tem, entre suas metas, recuperar as informações sobre plantas que tiveram uso medicinal no passado, mas que foram esquecidas no decorrer do tempo. Num segundo momento, o grupo faz divulgação para despertar o interesse nas plantas e na preservação da natureza. Para isso, realizam eventos em parques e escolas.
Abordando os primeiros estudos sobre nossas plantas, lembrou que a partir da vinda da Corte Portuguesa, muitos viajantes estrangeiros aqui estiveram com o objetivo de analisar e descrever nossa terra. As descrições das plantas, muito minuciosas, representam a origem do estudo ao qual ela se dedica. Destacou Auguste de Saint Hilaire como um dos naturalistas que, tendo coletado e catalogado sete delas, levou amostras para a Europa, as quais estão depositadas em museu francês.
Além de Saint Hilaire, informou que diversos outros naturalistas percorreram o país, deixando obras literárias ou científicas que em muito contribuem para os trabalhos realizados na atualidade.Além disso, os viajantes observaram que os brasileiros não estavam preocupados com a preservação da natureza, chegando a ser surpreendente que algumas plantas tenham continuado a florescer no país até nossos dias. Entretanto, suspeita-se que em pouco tempo a nossa flora nativa estará irremediavelmente perdida. Para tanto estão contribuindo, além do descaso dos habitantes, a ação predatória das mineradoras.
Dando prosseguimento, apresentou alguns desenhos de Saint Hilaire ao lado de imagens atuais de plantas que estão sendo objeto de investigações, ressaltando que, naquela época, o pensamento dos naturalistas era de que os médicos deveriam investigar as práticas populares e incorporar os conhecimentos que fossem comprovados como eficazes.
Em 2009 foi realizada uma incursão por várias cidades mineiras no entorno da Estrada Real, para divulgar e distribuir o material que o grupo havia produzido, contendo informações sobre os estudos realizados. Em 2010 aconteceu o primeiro Encontro de Educadores da Estrada Real com o mesmo objetivo de divulgar e despertar a consciência preservacionista.
Encerrando a participação, Verena declarou que descobrir as plantas medicinais nativas do Brasil e valorizar o patrimônio natural e a biodiversidade, recuperando informações que atualmente são de conhecimento apenas dos mais velhos, são necessidades que movem as atividades do grupo ao qual pertence.

A paisagem econômica do Caminho Novo pelo olhar dos Viajantes

Sendo originário da região, Otávio Soares Dulci cedo se interessou pela temática da economia no entorno do Caminho Novo, observando que o problema dos transportes era primordial para o desenvolvimento econômico. Consultando os viajantes estrangeiros, especialmente da primeira metade do século XIX, época em que o Brasil começava a desfazer as amarras que o prendiam a Portugal, verificou queo Caminho Novo foi tema central da maioria deles por causa da importância de Minas Gerais, principal unidade do país na época, e da ligação com o Rio de Janeiro. Estes viajantes vieram de diversos países, sendo importante mencionar o luso brasileiro Cunha Matos.
O professor Dulci ressaltou que seu objetivo principal seria tematizar o assunto sem pretender esgotá-lo. Sendo assim, abordou pontos que julga fundamentais para a história do Caminho Novo e da economia mineira. Explicou que sua a ideia de paisagem é forma semelhante à que os geógrafos trabalham com território, acrescentando-lhe o sentido simbólico, ou o que ele representa num determinado contexto.
Procurou extrair das obras dos viajantes a visão dos ecossistemas. Na obra de Saint Hilaire, declarou, sente-se a fisionomia do caminho. Mas há uma visão mencionada por todos osviajantes e que se refere à contraposição da mata e dos campos. Ao sair do Riode Janeiro, até a subida para a atual Petrópolis, o trecho fluminense édescrito como florestal e sem muita presença do homem, fato que observaramtambém na área da futura Juiz de Fora. Quando transpuseram a Mantiqueira, observaram que entre Santos Dumont eAntônio Carlos a paisagem mudava significativamente. Começavam os campos! Já otrecho final, basicamente entre Ouro Branco e Ouro Preto, era bem diferente dosanteriores, sendo muito montanhoso e com muito mato. Então, são trêsecossistemas bem demarcados.
Um aspecto que o palestrante julga de muita atualidade nos viajantes é a referência ao desmatamento. O sistema de queimada, que herdamos dos indígenas para preparar a terra, e os efeitos nocivos deste sistema, foram objeto de registro provavelmente porque embora a consciência ambiental não existisse propriamente na época, os europeus, que já tinham destruído quase tudo na Europa, estavam atentos ao problema e perceberam o tratamento predatório da terra.
O segundo ponto abordado foi o espaço rural. Os viajantes destacaram o problema da demografia, ou seja, da ocupação humana que era muito esparsa, com exceção do Rio de Janeiro e baixada fluminense, e no fim do Caminho, entre Queluz e Vila Rica. Mas da subida da Serra do Mar e até o Vale do Paraopeba, havia grandes vazios.
Isto se deu, segundo Dulci, por conta do regime de sesmarias que os portugueses introduziram aqui. Em Portugal as sesmarias objetivavam descentralizar a propriedade e efeito inverso ocorreu no Brasil, com a grande concentração de propriedades em poucas mãos. Como resultado, os grandes vazios que eram ruins economicamente, pela baixa utilização. Faltavam braços, a tecnologia agrícola era rudimentar, nem o arado era utilizado, resultando em que apesar da fertilidade da terra, a produtividade era baixíssima, segundo os viajantes.
Questões da agricultura, cuja solução foi buscada ao longo do século XX, como a fundação de boas escolas de agronomia, entre as quais a de Viçosa, representavam uma realidade muito ruim para os portugueses da época. O problema fundiário gerava consequências econômicas difíceis.
Já no espaço urbano havia duas vilas, sendo Barbacena a principal, que se constituiu ao longo do século XVIII.Foi visitada por muitos viajantes que declararam ser um lugar muito agradável.Naquele retrato um tanto negativo do Caminho Novo, Barbacena se destacava pela qualidade de vida, pelas boas construções e pelo movimento comercial. O mesmo disseram de São João del Rei, no Caminho Velho.
O ponto chave seria o comércio.Mas o palestrante chamou a atenção para um comentário que no caso de Barbacena é especialmente válido. É que, não sendo uma região aurífera, aquele capitalismo de aventura que gerou grande confusão em Minas Gerais, sacrificando bastante a produção, não ocorreu ali. Onde não havia ouro as pessoas se dedicavam a produzir, a plantar, a criar gado, a trabalhar nas atividades comuns da terra. Isto foi positivo. Já para São João del Rei a descrição é de uma cidade que já tinha desistido de produzir ouro e se voltado para o comércio, a agricultura e mais tarde a indústria. Uma cidade com uma dinâmica normal para o centro econômico importante.
As vilas tinham também a função de ligação com o sertão e o Rio de Janeiro, havendo aí um giro de capital importante, ajudado pela posição geográfica que também contribuída com a economia. Se na parte final do Caminho Novo o eixo econômico era a mineração,nos campos era a criação extensiva de animais e uma pequena agroindústria de derivados da pecuária, com destaque para a produção de queijo que é enfatizada em toda literatura da época colonial, assim como outros derivados do leite. Além disso, Dulci lembrou os derivados de porcos, como o toucinho, cuja comercialização também movimentava a economia.
Citou o Barão de Eschwege, com a estatística da exportação de Minas, a demonstrar a forma como viviam os mineiros e como ganhavam dinheiro. Quase nada ia para o exterior. A maior parte da produção ia para o Rio de Janeiro. Sabe-se que o estado tem grande variedade de terras, favorecendo a produção de tudo um pouco. Eschwege mostroua existência de produtos industriais simples, vendidos para fora de Minas, como queijo, açúcar e aguardente. Em menor escala vendiam couros e solas, marmelada,farinha de trigo e de mandioca. Produtos semi-industriais de preparo artesanal que eram exportados junto aos produtos agrícolas, sendo o algodão o principal.O café surge mais tarde, especialmente na região de Juiz de Fora, Além Paraíba e Leopoldina. Havia, também, o comércio de animais como o gado em pé, porcos,cavalos e galinhas.
Importava-se principalmente o sal, tecidos finos, vinhos, peixe salgado, remédios de botica, louças, vidros,chapéus e vinagre para o consumo das famílias. Para o consumo das incipientes fábricas, chapas de ferro, aço, cobre e minerais não produzidos na província. Numa demonstração de que as famílias da região viviam de forma frugal, Eschwege mostrou que as compras eram muito menores do que as vendas. As importações representavam apenas 15% das exportações.
A topografia de Minas Gerais dificultava o transporte, com atoleiros na época de chuvas e trechos muito íngremes, como a subida da Mantiqueira. Os viajantes se referiram a tais dificuldades, informando que o Caminho Novo só podia ser percorrido por tropas de burros numa época em que o uso de carroças e carroções já era comum em outros lugares. Quanto à travessias dos rios maiores, eles relataram o uso de barcos ou balsas. As pontes surgem mais para o fim do século. Dulci destacou que ao longo do século XIX foram sendo feitos melhoramentos e que os viajantes se referiram a aspectos diferentes, dependendo da época em que cada um passou por Minas Gerais.
Sobre ranchos e vendas, foi reiterado que os primeiros eram locais de parada em grande número no trajeto do Caminho Novo, constituídos basicamente de uma coberta onde não se pagava pela estadia. O proprietário tinha interesse era na venda do milho para os animais. As vendas eram precárias, a comida não era boa e entre os serviços ali disponíveis, havia tendas de ferraduras, ferreiros e outros artesãos para atenderem a necessidades variadas.
Os registros, através dos quais o Estado atuava como agente econômico, foram também citados pelos viajantes estrangeiros, destacando que na travessia do Paraibuna funcionava uma espécie de alfândega.
Dulci destacou a questão da logística, por ser o Caminho Novo a única ligação com o Rio de Janeiro. O que este caminho oferecia de possibilidades? O trajeto consumia muito tempo em função do peso da carga levada pelos animais. Segundo um dos viajantes, que não levara carga, foram necessários 5 dias do Rio até a divisa no Paraibuna e 13 no trecho mineiro. O palestrante lembrou, porém, que um personagem fez o trajeto em 11 dias por conta das circunstâncias: Caxias, em1842. A estrada União e Indústria, em1851, reduziu o percurso entre Petrópolis e Juiz de Fora para 12 horas, com um prolongamento não muito bom até Barbacena. Posteriormente, a ferrovia, que foi sendo construída em paralelo ao Caminho Novo, favoreceu o transporte e a economia.
Observamos que a palestra de Otávio Dulci despertou surpresa em algumas pessoas da plateia, por ainda não terem se dado conta da multiplicidade de assuntos abordados pelos viajantes estrangeiros. Por outro lado, comentaram que a fala despertou reflexões, entre elas a questão: como importar ou exportar naquelas condições? O Caminho Novo está, pois, num dos vértices da luta para resolver o problema dos transportes.
Ao encerrar, o palestrante lembrou que embora a visão dos viajantes tenha sido muito crítica, devemos evitar o pecado do anacronismo, ou seja, pensar nos problemas da época com o olhar de hoje. E se erros pudessem ser apontados, o principal seria que os governos deixaram de investir de forma construtiva, por estarem totalmente focados na exploração mineral.

Picada de Goiás

Francisco Eduardo Andrade iniciou sua participação pela definição do enfoque a ser dado que seria analisar a rota em termos de relações de poder e econômicas, bem como em termos de constituição de uma territorialidade da Capitania e depois Província de Minas Gerais.
Explicando que a região abordada está localizada a oeste das nascentes do Rio São Francisco, declarou que o espaço já era explorado antes do início do período da mineração, contando com fazendeiros e vaqueiros que da rota da Bahia e de Pernambuco buscavam as nascentes do dito rio, incluindo o curso do Rio das Velhas, afluente daquele.Há também notícias de entradas de paulistas para o apresamento de indígenas,mais frequentes nas últimas décadas do século XVII. Assim é que, tanto as atividades pastoris como a busca do ouro e a caça aos naturais da terra,estimulavam o avanço em direção aos sertões mais interiores da América portuguesa. Donde há que se considerar as ligações históricas de Minas com Mato Grosso e Goiás, origem de conflitos de jurisdição entre Minas e Goiás no século XX.
Lembrou, também, que as atividades econômicas desenvolvidas nas Comarcas do Rio das Velhas e do Rio das Mortes promoviam a expansão pela região a oeste do São Francisco. Com o descobrimento do ouro pelos paulistas no início do século XVIII, o processo de povoamento daquele sertão ampliou-se significativamente. As tradicionais trilhas indígenas foram refeitas com novos propósitos. O interesse de vários grupos, como jornaleiros, faiscadores ou senhores de avultada fortuna era, além de encontrar descobertos lucrativos de ouro ou terra para pastoreio e plantio, apropriar-se dos ganhos provenientes do comércio legal de gêneros e escravos, ou do contrabando nas rotas coloniais importantes.
Na década de 1730, em função das possibilidades lucrativas desta rota do oeste, os arrematantes dos contratos de cobrança das taxas de entrada de gêneros e escravos na Capitania de Minas Gerais, os sertanistas Matias Barbosa da Silva e José Álvares, de Vila Rica,buscaram autorização dos governantes para abrirem um caminho na rota para Goiás. Junto a eles, dois outros nomes poderosos da Vila do Carmo, atual Mariana. Eram eles Caetano Álvares Rodrigues e Maximiano de Oliveira Leite.
Soubemos, assim, que a abertura da rota para Goiás obedeceu ao mesmo modelo do Caminho Novo, ou seja, as trilhas já existiam e foram apenas melhoradas por aqueles que a história tradicional cita como abridores do caminho. Citando o parentesco de Maximiano de Oliveira Leite com Garcia Rodrigues Paes, Francisco Andrade brincou dizendo que parece uma novela: muda o cenário, mas os personagens são sempre os mesmos.O acordo com o governador só foi estabelecido em 1736, sob a alegação de que os associados do empreendimento pretendiam favorecer o comércio legal, evitando-se os extravios. Entretanto, sabe-se que eles também participariam do contrabando.As alianças entre os membros do grupo e o poder basearam-se em laços de amizade e parentesco. Este aspecto, que hoje é visto como tráfico de influência, na época era uma prática absolutamente natural.
Neste ponto o palestrante lembrou que era uma forma de manter a competição entre os poderosos, no sentido da emulação, ou seja, uns buscando suplantar os outros não para destruí-los, mas para atingir fortuna maior e, consequentemente, alcançarem um patamar mais alto na escala de poder. Não havia interesse em destruir o outro pela simples razão de que possuir mais do que alguém despossuído não significaria uma vitória.
Matias Barbosa, Caetano Álvares Rodrigues e Maximiano Oliveira Leite eram proprietários de terras e escravos e moravam na região do Carmo Abaixo. Matias Barbosa era português e chegou às Minas na época dos primeiros descobrimentos de ouro, tornando-se rico fazendeiro,negociante e minerador, fazendo valer seus interesses junto à justiça local.Foi, ainda, arrematante de dois contratos de direitos de Entrada na Capitania,o que lhe permitiu reforçar o caixa. O contratante José Álvares foi tão importante que se destacou até na praça de Lisboa, durante o período pombalino,participando de 17 contratos régios.
Francisco Andrade ressaltou queos agentes pretendiam muito mais do que o alegado oficialmente, já que se assenhoraram de várias atividades na rota e nos encontros de rios, sempre obtendo altos lucros. Mas além dos senhores acima citados, outros poderosos da Capitania do Rio das Mortes, como Manoel da Costa Gouvêa, Manoel Martins de Melo e Francisco Bueno da Fonseca, intentaram participar das mesmas oportunidades,fazendo atalhos para a picada daqueles. Pretenderam, também, terras e possibilidades de lucro. Foram, porém, cautelosos em relação a disputas com os senhores da Comarca de Vila Rica.
As autoridades sempre descreveram a região oeste como problemática, com quilombolas e outros viandantes que ficavam circulando por ali, causando receio aos trabalhadores e fazendeiros.Com a criação da Capitania de Goiás, aumentaram as tensões sociais naquelas localidades, resultante da entrada constante de sesmeiros, mineradores,faiscadores e artesãos.
O palestrante destacou que a Picada de Goiás favoreceu a entrada de uma população pobre que foi se juntando em pontos estratégicos de uma rota com boas possibilidades de lucro, legal ou ilegal, especialmente porque o caminho de São Paulo também passava por ali.Assim, tudo o que saía de São Paulo, Rio de Janeiro e Vila Rica, demandando o interior, transitava pela rota. Os mais pobres, geralmente artesãos como sapateiros e carpinteiros, ou ferreiros e pequenos comerciantes, procuravam um lugar que lhes permitisse ganhos. Os mineradores, por sua vez, dependiam destes profissionais.
Os senhores de Vila Rica fundaram arraiais e capelas na região, onde estabeleceram dirigentes de sua confiança,os quais exerciam múltiplas atividades de interesse pessoal. Os senhores tiveram poder até mesmo para convencer o bispo de Mariana a elevar tais capelas a sedes de paróquias, causando novos conflitos. Como exemplo deste modelo de nascimento de uma freguesia, foram citadas Tamanduá e Oliveira.
Além dos conflitos de interesses com os senhores da Comarca do Rio das Mortes, houve também conflito com os interesses paroquiais desta mesma Comarca. Foi citado um capelão de Tamanduá,apadrinhado do grupo de Vila Rica, que abriu filiais em toda a região, montando uma rede de capelães a ele subordinados, invadindo a jurisdição das Comarcas vizinhas.
Concluindo, Francisco Oliveira declarou que ocorreu uma grande rede econômica e política bancada pelos interesses eclesiásticos.

Belmiro Braga, um escritor

Após o intervalo para almoço, a professora Leila Barbosa apresentou um histórico sobre Belmiro Braga, resultado de um trabalho realizado em conjunto com Marisa Timponi, que teve como objetivo resgatar a memória do escritor, um timoneiro da Academia Mineira de Letras.
A opção da palestrante foi pela abordagem de Belmiro Braga como o poeta da beira do Caminho Novo. Inicialmente falou sobre o nascimento do poeta na cidade que hoje leva o seu nome, e que tem origem na Fazenda Boa Vista, à margem do Caminho Novo, no primeiro trecho em que adentra as Minas Gerais.
 Foram apresentadas algumas obras do escritor, todas falando em caminho, em variados sentidos. No decorrer da palestra, outras informações sobre o poeta foram sendo inseridas, como a rápida trajetória escolar em Juiz de Fora e a passagem por Muriaé e Tombos do Carangola.
Uma das curiosidades sobre a vida do escritor foi o fato de comprar os livros e desmanchá-los para que fizessem menos volume e os capítulos pudessem ser levados ao ambiente de trabalho, sem chamara atenção do patrão.
Sempre ressaltando a verve satírica do escritor, uma fina ironia que se tornou conhecida com a volta para Juiz de Fora, quando começou a publicar seus escritos nos jornais O Pharol e Correio de Minas, Leila Barbosa informou que a obra de Belmiro Braga é múltipla, com textos em versos, em prosa e peças teatrais.
Na literatura como na crítica,disse Leila, o caminho não é apenas o lugar por onde as pessoas passam. Tem um valor simbólico e toda a vida de Belmiro Braga pode ser comparada a um caminho,ou uma caminhada poética e ideológica. Quando ele fala da estrada da vida, usa linguagem metafórica para marcar seu lugar no mundo.
Foi lembrado também que o trem,um meio de transporte muito querido pelos mineiros, foi mencionado pelo poeta em alguns escritos. Detendo-se na ironia em Belmiro Braga, foi destacada a diferença em relação à ironia de outros literatos, como no trecho em que ele escreve que Mar de Espanha é um mar que nunca tem peixe nem água. Ou quando escreve o que seria uma espécie de testamento, definindo como quer que seja seu sepultamento.

A palestra de Leila Barbosa nos fez refletir sobre o personagem Belmiro Braga, ligado por nascimento ao Caminho Novo e que usou figuras de linguagem sobre caminhos em diversas poesias que foram lidas.

Linguagem dos Sinos

A última fala da manhã do dia 19de agosto foi de Jairo Braga Machado, sobre esta manifestação cultural da qual São João del Rei é uma das referências. Isto ocorre em função da singularidade que a distingue em relação a outras localidades.Informou que em 2009 o Conselho do Patrimônio do IPHAN esteve na cidade para o registro do Toque dos Sinos como bem cultural imaterial.
O palestrante comentou o conceito de linguagem como sendo um código que determinada parcela de uma comunidade seja capaz de decodificar. Chamou a atenção para o fato de que não bastaria tombar o bem se a comunidade dele não se apropriasse. No caso em pauta, as Irmandades de São João del Rei mantém uma dinâmica extraordinária, representando um dos pilares fundamentais para a preservação não só da Linguagem dos Sinos como das edificações antigas, especialmente das igrejas.
Outro destaque foram os meninos e jovens da cidade que se apropriam dos espaços do fazer cultural da maneira mais digna possível. O que o leva a reafirmar que o tombamento é importante sim, mas se não houver o comprometimento da comunidade, o bem ou a prática cultural estará fadada ao desaparecimento.
Declarando-se preocupado com a preservação, Jairo Machado alertou para a necessidade de envolver os moradores e que se “Tiradentes, o alferes, é um espírito em movimento”, o toque dos sinos em São João del Rei desperta a lembrança de um tempo em que todas as atividades manuais eram exercidas pelos escravos, legando-nos um patrimônio cultural valiosíssimo.
Os atuais moradores de São João del Rei, vivendo numa época em que o aparato tecnológico está ao alcance de todos, não se esquecem do seu passado e se apropriam de instrumentos medievais de comunicação. Quando os sinos são tocados, sabe-se o que está acontecendo. Se foi um homem ou mulher quem morreu, a qual Irmandade pertencia, qual era o grau ocupado dentro da Ordem ou Confraria, e muitas outras informações sobre o fato são depreendidas da linguagem dos sinos.
No prosseguimento, Jairo Machado esclareceu que o tombamento do Registro de um bem imaterial é o instrumento prioritário para garantir-lhe a perpetuação. Investir na manutenção da prática e dos sinos é papel do Estado. E convidou a plateia a refletir: o que é importante no toque dos sinos, o sino ou o sineiro? E ele mesmo respondeu ser o sineiro, acrescentando a vivência dos meninos de São João del Rei, muitas vezes moradores da periferia, que são capazes de responder aos cantos em latim do padre, e sabem explicar ao leigo o que está sendo cantado.
Falou de sua decepção quando, visitando a Torre dos Clérigos, na cidade do Porto, Portugal,observou que os sinos são tocados através de um interruptor, tirando parte da magia da prática. Muito diferente do que ocorre em São João del Rei, onde a comunidade a tem perpetuado pela atuação fundamental do sineiro. Declarou ter catalogado 29 modalidades de toques, como aviso de incêndio,chamada do sacristão, aviso de morte e outras.
Ao encerrar sua participação, foi lembrado, que ao final deste primeiro dia do Encontro a plateia teria oportunidade de assistir ao vídeo produzido por Jairo Machado, sobre a Linguagem dos Sinos.

O mito da decadência de Minas Gerais no século XIX

Afonso Alencastro Graça Filho iniciou sua apresentação ressaltando que embora seja um tema já ultrapassado na nova historiografia mineira, ainda há alguns autores resistindo às evidências de que a Capitania de Minas Gerais, com o declínio da mineração, não viveu um momento de miséria terrível ou de uma decadência assombrosa.
Lembrou que Celso Furtado, cuja obra ainda é muito considerada, marcou a geração de uma época anterior às novas metodologias. Portanto, a visão daquele autor de que Minas teria vivido a maior retração econômica das Américas, e que só se recuperaria com a introdução do café, na segunda metade do século XIX, é uma postura tradicional que se perpetuou e que a nova historiografia de Minas Gerais tem descartado.
Em 1979, Maria Yeda Linhares publicou palestras que havia feito em Minas Gerais, questionando as evidências da decadência e sugeriu aos pesquisadores que voltassem seus olhos para a dinâmica da história econômica, olhando para a economia de abastecimento, ou seja, a pecuária e a lavoura de alimentos. Estes aspectos tinham sido desconsiderados pela antiga historiografia. Além disso, a autora se referiu ao escravismo que teria contribuído para um consumo atrofiado, pela falta de condições daquela fatia da população. Foi, portanto, um chamado para que as pessoas fizessem pesquisas mais aprofundadas, observando se o impacto da crise do ouro havia sido geral em Minas Gerais ou localizado nas áreas mineradoras, e que levassem em consideração a economia de abastecimento.
Afonso Alencastro prosseguiu lembrando que alguns autores, como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, haviam percebido que, mesmo se tivesse ocorrido uma queda consequente ao ocaso da mineração, uma parte de Minas teria se salvado. No caso, seria oSul de Minas que, em tempos remotos, era a Comarca do Rio das Mortes. Sendo assim, a região de São João del Rei, que foi cabeça da Comarca, é um lugar privilegiado para se falar da História de Minas Gerais.
Com o alerta de Maria YedaLinhares, os estudos começaram a ser redirecionados nos anos de 1980. Muitos nomes de destaque da historiografia desde então atenderam ao chamado e passaram a trabalhar em busca da diversidade de atividades econômicas, da transformação do trabalho e se tornaram referência para a visão de Minas como exportadora de alimentos para outras capitais. Entre os autores citados, estão Roberto Martins, Douglas Libby, Robert Slenes e Alcir Lenharo.
O ponto levantado por Roberto Martins era como Minas teria preservado a maior população de escravos numa economia em decadência. A partir daí, para responder a esta questão demográfica, houve um movimento de busca da resposta. Roberto Martins concluiu que não havia grandes trocas comerciais com outras capitanias. Douglas Libby demonstrou a grande diversidade de atividades econômicas.
O palestrante mencionou que uma das hipóteses levantadas para o grande número de escravos é que seria um resíduo do auge da mineração e que teria havido uma reprodução endógena da escravaria. Slenes e Lenharo acrescentaram que as relações externas de Minas Gerais não eram desprezíveis. Com os olhares voltados para as listas nominativas de habitantes de 1831, os pesquisadores verificaram que a maioria dos fogos não contava com escravos e, entre os que possuíam escravos, metade tinha até 5 indivíduos em tal condição. São, portanto, raras as grandes escravarias.
Lembrando que a consulta às fontes primárias é fundamental para o trabalho do pesquisador, Afonso Alencastro mencionou o professor João Fragoso, em cuja tese de 1992 é informado que, entre 1825 e 1830, 43% dos escravos saídos do Rio de Janeiro foram direcionados para Minas. Como seria possível se este foi justamente o período em que a antiga historiografia definiu como o da terrível decadência?
Foi informado que a análise da economia de mercado é o grande elemento de revisão do funcionamento geral da economia colonial brasileira, mas que apesar dos caminhos da nova historiografia, ainda existem resistentes, embora minoritários, que insistem na visão já ultrapassada. Neste caso, foi citado Wilson Cano, que persiste na linha da decadência pós-mineração.
Encerrando sua fala, o palestrante ressaltou que as antigas obras sobre o ciclo do ouro esconderam outros aspectos da história mineira como, por exemplo, a concessão de cartas de sesmaria a demonstrar que a mineração conviveu com significativa produção de alimentos. Exortou a todos para a necessidade de encarar a historiografia com mais seriedade, realizando pesquisas embasadas em fontes primárias, com a exploração exaustiva do que dizem tais fontes, para verificar como foi realmente o passado de Minas Gerais.

Caminhos de Dentro

Geraldo Barroso de Carvalho nasceu em Cipotânea, cidade cortada por uma linha reta imaginária que vai do Rio de Janeiro a Ouro Preto. Entrevistando antigos tropeiros,teve a curiosidade despertada pela expressão ‘caminhos de dentro’ e passou a estudar o assunto. Observou que o Caminho Novo representava um desvio significativo para oeste, podendo indicar que o percurso teria sido definido para beneficiar proprietários ou para atingir São João del Rei. Por outro lado,no leste a mata era fechada e havia por ali tribos de indígenas rebeldes.
Os moradores da região a leste do Caminho Novo cuidaram de buscar alternativas. Na altura de Simão Pereira,começaram a abrir trilhas no sentido que lhes seria útil: Mar de Espanha, Rio Novo, Rio Pomba, Mercês, Cipotânea, Lamin, Catas Altas, Lamin e Ouro Preto. O nome que se deu a tal percurso foi exatamente Caminho de Dentro, denominação utilizada para outros caminhos próximos.
Entretanto, a Coroa proibiu que se abrissem trilhas do lado leste do Caminho Novo, por receio da evasão do ouro. Observa-se, entretanto, que os tropeiros não obedeceram à legislação e começaram a abrir trilhas e construir pontes para facilitar o acesso. Tais trajetos passaram a ser chamados de Descaminhos do Ouro. Aos poucos as trilhas foram se unindo e criou-se uma estrada muito mais retilínea do que o Caminho Novo.
Dr. Geraldo Barroso concentrou-se na região do Alto Rio Doce por ter ali encontrado fontes orais bastante coerentes. Observou que por ali existiu um pequeno desvio para oeste, cujo objetivo parece ter sido contornar uma serra de difícil transposição, que separa Mercês de Alto Rio Doce. Neste local nascem afluentes do Rio Paraíba do Sul como o Rio Pomba e do outro lado, afluentes do Rio Doce, como o Xopotó.
Aos poucos foram surgindo outros‘caminhos de dentro’ que foram mostrados em cartografia, comprovando que a Coroa tinha razão porque estas vias tornavam relativamente simples para os contrabandistas se desviarem do Caminho Novo antes do Registro, e o retomarem mais adiante. Ressaltou,porém, que os caminhos foram abertos para tornar viável o escoamento da produção local como o mel, a cachaça e o açúcar.
Foram apresentadas imagens da bacia do Xopotó, onde algumas variantes foram abertas. A seguir, através de latitude e longitude das localidades abrangidas pelos Caminhos de Dentro, foi demonstrada a distância em que estavam do Caminho Novo.
Projetada a imagem de uma tropa,o palestrante discorreu sobre a composição e função dos que escoavam a produção local e traziam de volta os produtos necessários aos moradores. Lembrou da preocupação dos tropeiros em fugir dos assaltos que eram frequentemente relatados e citou um destes assaltantes, um padre, preso em Ouro Preto e dali evadido em pouco tempo, sendo posteriormente assassinado em Além Paraíba. Este padre era capelão até 1825, quando passou à deplorável prática no Caminho Novo.
Quando surgiram as ferrovias, os Caminhos de Dentro facilitaram o acesso às estações daquela região. Saindo de Cipotânea, os tropeiros pernoitavam em Alto Rio Doce e no dia seguinte atingiam Mercês.
A seguir foram mencionados dois viajantes estrangeiros que deixaram relatos sobre sua passagem pela região estudada: George Gardner e Herman Burmeister.

Geraldo Barroso encerrou sua participação contando uma curiosidade. Um tropeiro adquiriu dez burros novos e os batizou com nomes que começavam com a letra“P”: Penacho, Peixão, Passo-Preto (Pássaro-Preto?), Pirante, Paraná,Piraí, Panorama, Piano, Pensamento e “Paixonado” (Apaixonado).

O Direito e o Patrimônio Histórico

Alex Guedes dos Anjos estruturou sua fala a a partir da luta para salvar a Fazenda do Registro Velho, em Barbacena.
Iniciando, alertou para a necessidade de envolvimento da comunidade, uma vez que o poder público, sozinho, não dá conta e necessita da colaboração dos moradores para preservar o patrimônio cultural, do qual o patrimônio histórico representa apenas uma pequena parte.
Inventariar é catalogar, disse Alex, produzindo uma parte do processo de registro de bens patrimoniais mencionado na Constituição Federal. Para além do registro, são necessárias a vigilância e fiscalização dos bens, para que sejam preservados.
Sendo o tombamento o meio de proteção mais conhecido, é preciso observar que não se confunde com a desapropriação por representar apenas uma restrição aos direitos de propriedade, com o objetivo de preservar ou perenizar o bem em questão. Um bem tombado não passa a ser público, não se transformando necessariamente em objeto de visitação.
Entre as restrições mencionadas está a de impedir alterações, dar preferência na venda para a entidade que promoveu o tombamento e cuidar da conservação. O que remete a uma das principais dificuldades: falta de recursos do proprietário para fazer a manutenção.
O poder público pode aceitar doações de patrimônio e investir na sua conservação, beneficiando a sociedade.O legislativo pode criar leis específicas de proteção e é possível buscar ajuda também no poder judiciário.
Para o tema proposto, é mais importante tratar da Ação Civil Popular por ser a Pública restrita aos órgãos governamentais. Qualquer cidadão pode propor uma Ação Popular de preservação.Foi destacado que cidadão é aquele que está com suas obrigações eleitorais em dia e que a ideia da Ação Popular remonta ao Império Romano, não sendo,entretanto, regulamentada no Brasil senão a partir do século XX. Independe de reunião ou de abaixo assinado, podendo ser impetrada de forma individual. “Se a Ação Popular impetrada por um cidadão qualquer ensejar algo realmente a ser perscrutado pelo Poder Público, o cidadão fica livre de qualquer ônus e sucumbências. Mais especificamente ainda dizendo, se o autor não esconder qualquer motivo escuso e de proveito pessoal ao impetrar a ação para proteção de um bem patrimonial histórico, ela é totalmente livre de custas”, disse Alex.A responsabilidade de todo bem é prioritariamente do seu proprietário, mas pode ser transferida ao poder público nos casos de falta de meios daquele.
Quanto ao patrimônio histórico,foi esclarecido que não abrange apenas os bens tombados, mas tudo aquilo que se relacione à formação e realimentação da identidade de um povo. Sabendo-se de algum bem patrimonial com relevância histórica ou cultural que esteja abandonado, qualquer cidadão pode procurar a justiça para pedir proteção adequada.
Dados os esclarecimentos, Alex Guedes dos Anjos passou a relatar a Ação Popular de que foi autor, buscando a restauração da Fazenda do Registro, em Barbacena. Foram apresentadas fotografias do imóvel em diversos momentos, culminando com o estado deplorável em que se encontrava recentemente. Enquanto as fotografias eram projetadas, o palestrante discorria sobre o histórico da propriedade, mencionava os viajantes estrangeiros que por lá passaram e outras ocorrências de que foi palco, como a provável partida dos contendores por ocasião da Revolução de 1842.
Lembrou que, pelo estado em que se encontra uma propriedade com tantos vínculos importantes com a história de Minas e do Brasil, pode-se dizer que não foi somente a casa de Tiradentes que foi condenada a desaparecer, mas também esta fazenda na qual o Inconfidente esteve tantas vezes.
Ao final de sua intervenção, informou que o caso teve tanta repercussão que gerou o envolvimento da Prefeitura de Barbacena, que assumiu as obras emergenciais para preservar o que ainda resta do imóvel. As obras estão em andamento e o proprietário o nomeou procurador para fazer a doação a quem se encarregue de sua manutenção.

A Origem do Arraial da Igreja Nova

Tema abordado pelo professor Wilton Ferreira de Souza que iniciou a fala citando versões sobre o surgimento do arraial. Uma delas dá conta de que algumas pessoas chegaram ao local, o alto do morro, e resolveram erigir uma igreja. Mas havia nas imediações alguns sesmeiros ou ocupantes do local que de imediato aceitaram a ideia, dizendo que o terreno não era deles e que a construção não só da capela mas também de casas de moradia resolveria uma discussão que já vinha ocorrendo, com diversos moradores querendo a igreja em suas próprias terras.
Entretanto, ressaltou Wilton, a partir do momento em que se começou a organização do arraial, Estêvão dos Reis e um sobrinho dele começaram a criar problemas. Alegaram que cederam terreno próprio, contrariando a conversa anterior. Foram, então, até Ouro Preto e pediram que o local fosse incorporado à sesmaria deles. E passaram a alegar que haviam permitido a construção da capela mas não de casas e que se estas fossem erigidas eles exigiam que o comércio lhes pertencesse.
Para Wilton, a ocorrência foi uma escaramuça, uma questão de avareza, que o leva a pensar numa outra hipótese para o surgimento da Igreja Nova: as relações igreja-estado e a nobilitação procurada pelos então moradores locais. Seriam pessoas em busca de escalada social.
O palestrante se baseia em Francisco Eduardo de Andrade, cuja palestra ocorreu mais tarde, para informar que os memorialistas dizem que a capela era erigida e a partir dela surgia o arraial. Entretanto, pesquisas detalhadas demonstraram que a capela era construída em função do que já existia no local, como um entroncamento de caminhos e o mobiliário urbano que na época fazia parte deles. No caso da Igreja Nova, ali já existia o Registro e uma vida social e econômica em seu entorno, como fatos geradores da necessidade de construção de um local para a prática religiosa, contrariando, desta forma, o que dizem os memorialistas.
No mesmo sentido foi apresentada uma análise da noção de que os construtores da capela teriam uma espécie de plano de edificação do povoado. Um dos argumentos é uma carta dirigida pelos moradores ao Rei, alegando que o local era visitado frequentemente por pessoas perturbadoras da ordem. Oras, pergunta Wilton, como poderiam querer construir uma capela em local tão inadequado? E ele mesmo responde que há indícios da influência da missão pacificadora da Igreja, de ordenar e evangelizar os moradores locais. Donde o interesse de formação do arraial seria não só daIgreja como dos potentados da região.
Wilton Ferreira de Souza ressaltou que o doador de terras para constituição do patrimônio do santo protetor adquiria alguns direitos, sendo o mais evidente a aproximação com o aparelho da igreja que era também um aparelho de Estado. Ou seja, o doador usava desta estratégia para se aproximar do poder. Todos queriam este acesso. Portanto, doação era uma atitude planejada para a escalada social.
Prosseguindo, foi abordada a questão denominada ‘economia do dom’, ou seja, quem faz alguma doação é automaticamente nobilitado. Quem faz mercê à Igreja tem como benefício o acesso a um novo patamar na sociedade. Naquela época, quem quisesse se nobilitar deveria, antes de mais nada, viver como nobre. Neste processo, o interessado poderia ser até um oficial mecânico, por exemplo, mas não poderia viver como tal. Esta seria a razão para os casos de pessoas que construíram fortuna e a perderam no momento em que passaram a utilizá-la para sustentar uma vida de nobre.
Concluindo sua apresentação, oprofessor Wilton reforçou a opinião de que o surgimento de um arraial, eespecialmente da Igreja Nova, teria sido uma questão de negócio, envolvendo deforma evidente o processo de escalada do poder. Reiterou haver indícios deque a parcela mais abastada daquela população teria interesses na formação dopovoado, o que coloca em campos opostos a opinião de memorialistas e dosestudiosos que pesquisaram o tema.