José de Rezende Costa

André Figueiredo Rodrigues apresentou-se agradecendo pela oportunidade concedida a um paulista que se apaixonou por Minas Gerais. Lembrou que na infância sentiu-se tocado pela comoção nacional em torno do falecimento de Tancredo Neves e, perguntando a um tio o motivo, recebeu como resposta a sugestão de ler um livro publicado em 1902 sobre Tiradentes. Na adolescência buscou outras informações sobre o alferes e mesmo tendo feito a primeira opção por outro curso universitário, o desejo paulista de conhecer a própria terra levou-a a visitar as cidades históricas e à decisão de estudar a vida dos inconfidentes, trajetória que já se estende por 12 anos.
Mencionou a ideia corrente de que a fortuna dos inconfidentes foi para a Coroa, em volume considerável de ouro. Entretanto, por conta do que apurou na pesquisa sobre a vida de Ayres Gomes, questionou tal afirmativa. Analisando a fortuna deixada pelo próprio Ayres Gomes e por Alvarenga Peixoto, decidiu aprofundar as buscas, encontrando informações interessantes. Citou como exemplo um porco que, no levantamento da FazendaBorda do Campo aparece com o valor de 30 réis e em inventários comuns é avaliado em 80 réis. Por conta de tais diferenças, após concluir o estudo sobre Ayres Gomes, resolveu concentrar-se nos outros inconfidentes da Comarca do Rio das Mortes.
Muito alegre e brincalhão, o palestrante contou uma piada. Disse que se tornou amigo de Ângelo Carrara e que dele ouviu um conselho: não adianta querer trabalhar com pobre; melhor trabalhar com ricos porque deles há fontes documentais. Ou, em linguagem bem mineira, “rico tem sustança”!
Passou a falar de José de Rezende Costa, atualmente muito comentado por conta da investigação sobre seus restos mortais que resultou no esboço da provável aparência de sua face. Citou o Padre Rolim como outro inconfidente sobre o qual seria possível, também, reconstituir a face, através de descrições publicadas.
Reconstituição facial de José de Rezende Costa
Destacou que Rezende Costa chamou a sua atenção pela seguinte questão: como a família conseguiu perpetuar o patrimônio e a Coroa Portuguesa só recebeu um valor irrisório?
Pesquisando sobre este personagem o palestrante teve oportunidade de descobrir o papel das mulheres, o que o levou a concluir que os grandes personagens da Inconfidência não são os homens, mas as mulheres que corrompem, enganam e subornam. Citou o caso da Bárbara Heliodora que multiplicou por 8, em 3 anos, o que Alvarenga Peixoto levara 20 anos para conseguir.
No caso de Rezende Costa, ingerências da família resultaram em que nada se perdesse, apesar do cálculo inicial apontar para um recolhimento de mais de 7 contos de réis em favor da Coroa. A prisão do patriarca foi tardia, em 1791, sendo necessário esclarecer que nada foi feito de surpresa e, portanto, os presos tiveram tempo de se organizarem.
O palestrante mencionou os bens que foram listados, bem como a avaliação e o resultado do processo que, assim como no caso de Ayres Gomes, demonstram que a Coroa não recebeu o que aparentemente lhe seria devido.
Foram projetadas algumas imagens, incluindo mapas, e ressaltado que não se sabe de fotografia ou desenho com a aparência da casa sede da propriedade.
Ao discorrer sobre os motivos que impediram que o sequestro dos bens se efetivasse, ressaltou que, já sabendo de sua prisão, 40 dias antes o Rezende Costa resolveu transmitir um terço de seu patrimônio para o genro. Uma semana e meia antes da prisão, foi firmado o contrato de casamento da filha com Gervásio Pereira Alvim.
O restante do patrimônio pertencia à esposa e, quando chegou a devassa, apenas 50% dos bens dela poderiam ser sequestrados. Entretanto, antes de perder os bens há o direito de precedência de créditos, o que significa que foi possível apresentar à justiça as cobranças existentes antes da devassa, solicitando que as dívidas fossem pagas. Neste momento o genro cobra a parcela constante do contrato de casamento; um irmão de Rezende Costa – Severino Ribeiro cobra uma parte relativa a um projeto de mineração em que os dois eram sócios, além de sobrinhos e primos que também aparecem no rol de credores. Não se sabe como aparece, também, uma certidão solicitando pagamento de dívidas do filho.
Gervásio Pereira Alvim decide, então, juntar todas as dívidas e pagar aos demais devedores, tornando-se o único credor do sogro. A sogra, não podendo administrar os bens, transfere o encargo para Gervásio que se torna o fiel depositário. Oras, quase 80% da dívida era com ele mesmo! Donde apresenta uma lista de mais de 400 bens avaliados por ele em mais de três contos. Seria necessário vender os bens para saldar as dívidas, razão pela qual foram feitas três tentativas de leilão em que não apareceram interessados. Desta forma, o próprio genro decidiu efetuar a compra, fazendo-a por preço abaixo do valor originalmente estipulado por ele mesmo, de forma que mais de 97% dos bens em arresto atingiram o montante necessário. Já detendo um terço do patrimônio, torna-se, assim, proprietário de tudo o que pertencia a Rezende Costa.
André Figueiredo mostrou os valores computados na primeira execução e as dívidas apresentadas, demonstrando um superávit inicial. Ao serem juntadas as cartas de cobrança do irmão de Rezende Costa, Pereira Alvim acrescenta mais alguns bens que são levados a leilão e comprados por ele mesmo.  Posteriormente é apresentada nova carta de cobrança, impetrada por filho ilegítimo de Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, listando despesas futuras do empreendimento de mineração em que era sócio de Rezende Costa. A liquidação ocorre repetindo o modelo acima mencionado.
Não existem, em outros inventários consultados, nada comparável aos preços apresentados nas prestações de contas. Seguindo todo o processo, o palestrante comparou os cálculos de todas as etapas e a forma como o superávit vai diminuindo até desaparecer por completo, quase nada restando para a Coroa.
Em 1804, representantes das famílias dos inconfidentes são chamados pelo fisco para apresentação de contas. Gervásio Pereira Alvim, então, demonstra que nada há para recolher do patrimônio de Rezende Costa e que a Coroa teria que arcar com as despesas do fiel depositário que, como vimos, foi ele mesmo.
Segundo o palestrante, o mesmo ocorreu com Hipólita Jacinta em Prados e com Ayres Gomes. Sendo que, neste último caso, um erro de cálculo permitiu que um pequeno valor fosse recolhido para a Coroa.
O fiel depositário dos bens deHipólita Jacinta foi um sobrinho que também resolveu pagar todas as dívidas e tornar-se o único credor, destacando-se que eram dívidas com parentes próximos, inclusive  filhas do fiel depositário e escravos que foram alforriados e teriam recebido uma porcentagem do montante.
Chama a atenção o fato de que o Governador não enfrentou a situação, mesmo tendo havido uma denúncia de desvio de bens por parte de um parente de Hipólita e as artimanhas para esconder os escravos de maior valor, sendo apresentados apenas aqueles que não se prestavam mais ao trabalho. Embora a família tenha sido chamada para prestar esclarecimentos, em nenhum momento aparecem sinais de apuração ou de enfrentamento, parecendo indicar que o poder das famílias era superior ao dos governantes.
Finalizando, citou a lenda sobre ajuda que teria sido dada a Bárbara Heliodora que estaria em situação difícil, declarando tratar-se de balela e que o processo ocorrido na região de Campanha girou em torno de bens desconhecidos no início da devassa.

Paisagens rurais e personalidades históricas dos Caminhos Velho e Novo

Logo no início da apresentação, Ângelo Carrara ressaltou que há diferenças entre os objetivos de quem se instalou na margem direita do Rio São Francisco e aqueles que se estabeleceram na margem esquerda do mesmo rio. Estes últimos criavam gado não para vender na região das Minas Gerais, mas para comercializá-lo nas minas de Goiás. O olhar destes curraleiros se voltou, portanto, para o centro oeste brasileiro. Observando-se as minas de ouro de Goiás e Tocantins percebe-se como o oeste de Minas se articula com Goiás.
Muito antes das descobertas de ouro já existiam estabelecimentos pecuários no território banhado pelo Rio São Francisco. Como exemplo citou o arraial de Matias Cardoso, fundado no norte de Minas em 1680, que tinha sua economia voltada para o comércio com a Bahia.
Projetado um mapa da Comarca do Rio das Mortes, ressaltou os problemas de nomenclatura para representar uma comunidade homogênea. Chamou a atenção para o fato das divisões que aparecem no mapa não serem municipais, mas das freguesias então existentes. Quando se fazia a cobrança de impostos em Minas Gerais, adotou-se um princípio de jurisdição baseado na divisão eclesiástica.
Passando a discorrer sobre os elementos de caracterização dos Caminhos Novo e Velho, o palestrante informou que há diferenças profundas entre as áreas de um e de outro caminho.

 

A primeira divisão a que se submeteu o território de Minas foi em Comarcas. Em 1711, junto com a criação das três vilas – Mariana, Ouro Preto e Sabará, foram criadas as comarcas, ou áreas judiciárias de atuação de um ouvidor. Considerada uma divisão artificial, por não se preocupar com o recorte da personalidade histórica, demonstra o modo de percepção de Minas de acordo com a geografia do local. De tal maneira que a Comarca do Rio das Velhas recebeu este nome porque a identidade dela era dada pelo rio homônimo, e inicialmente estendia-se até a divisa com Pernambuco, que então marcava o limite de Minas Gerais. A Comarca de Vila Rica englobava dois municípios:Mariana e Ouro Preto, com uma identidade dupla. De um lado o mais alto contraforte do Espinhaço, na região de Ouro Preto e se espalha pelo vale do Rio Doce. Já a Comarca do Rio das Mortes tinha como sua característica fundamental a produção de gêneros alimentícios. Havia duas freguesias que disputavam o lugar de maior produtor: Congonhas do Campo, com milho e feijão, e, Pitangui com a maior pecuária. Estas duas freguesias tinham a maior concentração de riqueza na época.
A divisão é um determinismo geográfico que o palestrante prefere substituir por condicionamento geográfico.Explicando o significado da expressão, declarou que, numa sociedade com o mais baixo nível tecnológico possível, as decisões sobre o quê, onde e como plantar,são decorrentes do tipo de ambiente. Por exemplo: não se podia escolher plantar trigo no cerrado brasileiro. Hoje é possível porque existem tecnologias que suplantam as dificuldades de solo, por exemplo.
Para produzir a vida, as pessoas contavam com três instrumentos: uma enxada, uma foice e um machado. Sequer havia o arado, que só apareceu em Minas no final do século XIX e que não seria útil em tempos anteriores por ser o sistema de plantio muito rudimentar.Queimava-se a mata e nas clareiras furavam-se covas nas quais eram depositadas as sementes.
Ângelo Carrara lembrou que,quando se fala de baixo nível tecnológico não se deve pensar em fome. Muito pelo contrário, Minas se caracteriza pelos mais baixos preços de gêneros alimentícios do Brasil. O motivo é simples: terra é o que não falta. Para cada grão de milho jogado no solo, conseguia-se de volta 500 grãos. Os europeus,naquele momento, não conseguiam 4 grãos de trigo para cada grão semeado. Não há registro de crise de fome em Minas Gerais no momento em que a agricultura está plenamente consolidada.
A ração alimentar era baseada na dupla milho e feijão e mais raramente o arroz. Além disso, uma cota de carne muito abundante, que era a carne de porco, pelas facilidades de criação.

 

Prosseguindo, disse que a organização fiscal baseada em freguesias ajuda bastante por permitir observaras características de espaços mais reduzidos. Uma freguesia era constituída,basicamente, por uma área equivalente hoje a três ou quatro municípios.

 

Passando a focar nas diferenças entre os Caminhos Velho e Novo, o palestrante lembrou que a Freguesia do Caminho Novo iniciava-se em Minas na ponte do Paraibuna e terminava aos pés da Serra da Mantiqueira, logo após Santos Dumont. Esta freguesia tinha um contorno geográfico curioso: abrangia justamente as margens de uma estrada, o Caminho Novo. O nome da freguesia foi dado porque era uma faixa de terras em torno da estrada. As pessoas ali estabelecidas tinham um só objetivo: vender gêneros, ou mantimentos, para os viandantes.
Em 1715, Garcia Rodrigues Paes era o maior produtor rural de Minas Gerais e também o maior proprietário de escravos. Não sendo dono de minas de ouro, qual teria sido o seu objetivo de se estabelecer às margens do Caminho? Segundo Ângelo Carrara, porque optou por uma atividade econômica muito mais rentável. Com a bateia podem vir 20 oitavas de ouro como pode não vir nada. Com a agricultura, todas as pessoas têm que se alimentar, garantindo a rentabilidade do produtor. Como a moeda em circulação era o ouro em pó, Garcia Rodrigues Paes não precisava fazer esforço porque o ouro vinha para suas mãos. Este é o motivo pelo qual, em diversos inventários são mencionadas várias arrobas de ouro por quem não era minerador.
Portanto, a estrutura que se instala no Caminho Novo é de concentração fundiária. Toda a Freguesia do Caminho Novo era, originalmente, do Garcia Rodrigues Paes, tendo-lhe sido concedida em sesmaria pela construção do caminho. Era uma grande propriedade rural que foi transmitida aos descendentes e, mais tarde, repartida entre vários adquirentes. De tal forma que 19 pessoas, entre parentes e sucessores,são responsáveis pela produção de gêneros até 1850.
Cem anos depois, o maior produtor agrícola da região morava em Juiz de Fora, na Fazenda São Mateus, e era o José Ignácio Nogueira da Gama que pagava de impostos o mesmo que muitas freguesias de Minas.
Ao tempo referido anteriormente,a produção de 19 pessoas da Freguesia do Caminho Novo correspondia ao que produziam 214 moradores de Tiradentes. O que reforça a informação de que foi a área de maior concentração fundiária em Minas Gerais.
Quanto ao Caminho Velho, foi informado que há uma série de problemas, começando pelo fato de que não a ocupação não se fez à volta dele por ter perdido importância muito rapidamente.Ele deixou de ser artéria de acesso quando o Caminho Novo tomou o lugar de principal acesso à região central e artéria de fornecimento de bens em geral.
Ângelo Carrara ressaltou que 85%dos gêneros de abastecimento passaram a ser escoados pelo Caminho Novo porque o porto principal passa a ser o Rio de Janeiro. Sem nenhum exagero, disse o palestrante, pode-se dizer que o Rio de Janeiro como porto é uma criação da mineração. Numa declaração que causou alguma polêmica, acrescentou que, antes,o Rio de Janeiro era uma vila de pescadores. Após a conquista da Colônia do Sacramento é que o Rio de Janeiro deu um salto em população e ali foram instalados diversos órgãos administrativos. Reafirmou, porém, que foi o volume fiscal advindo de Minas que sustentou o crescimento do Rio de Janeiro, cujo porto passou a assumir o primeiro lugar no país.
Mencionou o vigor e a diversidade de produção que se desenvolveu no Caminho Velho e, abordando a Comarca do Rio das Mortes, ressaltou que, mesmo com a diminuição do movimento mineratório, permaneceu a concentração fundiária antes mencionada. Exemplificou comAiuruoca, onde o número de pequenos e médios produtores rurais era significativo em contraposição à vizinha Freguesia do Caminho Novo onde o número era bem pequeno.
Outro exemplo citado foi o de Baependi, que se assemelha a Aiuruoca em termos de número de propriedades rurais de pequeno porte. Enquanto isso, uma única propriedade do Caminho Novo começa em Juiz de Fora e termina em São João Nepomuceno, não sendo sequer medida porque a área extrapola a capacidade de mensuração. Portanto, as diferenças estruturais são bem perceptíveis, demonstrando a principal característica que distingue o Caminho Novo do Velho.
O padrão de concentração no Caminho Novo tende a ser reforçado no início do século XIX por conta do sistema de distribuição de sesmaria. Indivíduos que se deslocaram para a região e não pediram uma ou duas sesmarias, mas dez, quatorze e até quinze sesmarias. O mais grave, no entender de Ângelo Carrara, é que foram concedidas, irradiando o padrão de grandes propriedades por todo o vale do Rio Paraíba.
Finalizando, o palestrante convidou a refletir sobre estes padrões diferentes de ocupação e uso do solo entre os Caminhos Velho e Novo. Lembrou que o processo de ocupação da região de Campanha foi completamente diferente do que ocorreu em São João del Rei. Acrescentou que a área de Campanha foi a primeira a se articular com o porto do Rio de Janeiro, provendo-o principalmente em tabaco, reses e porcos. Isto resultou em que a região foi se diferenciando do restante de Minas Gerais e, enquanto o entorno do circuito minerador entrava em crise, perdendo população, a região ao sul crescia e enriquecia, podendo obter da rainha a emancipação, pela grande arrecadação que auferia.
Atentar para essa diversidade que pode ser observada em termos estruturais, econômicos e ancestrais é a sugestão deixada por Ângelo Carrara. Considerando mais importante as estruturas da economia, que numa sociedade rural equivale a sua estrutura agrícola, a melhor forma de se analisar a personalidade histórica de uma sociedade rural é analisar as suas estruturas, pois estas nos dizem que tipo de sociedade ali existe.

Itinerário do Caminho Novo em Conselheiro Lafaiete

Mauricéia Maia declarou que seu objetivo seria demonstrar a situação em que se encontra o trecho do Caminho Novo em Conselheiro Lafaiete.  Iniciou mencionando os dois acervos que utilizou: o Arquivo Antônio Perdigão, na própria cidade, e o Arquivo Forense,em São João del Rei. Ressaltou outras fontes disponíveis, como bancos de dados particulares e o acervo da Academia de Letras de Lafaiete.
Declarou que a equipe na qual trabalha tem, entre seus objetivos,recompor a sinalização do Caminho no município não só para orientar os que o procuram como também para disseminar informações entre os moradores, os quais desconhecem totalmente o assunto.
Estrada Imperial entre Lafaiete e Ouro Preto.
Imagem disponível no site do Arquivo Público Mineiro.
Segundo a palestrante, o Caminho Novo abriu capilares diversos que acabam se confundindo na história, resultando em que famílias nomeiem trilhas como sendo parte dele por entenderem como importante terem um pedaço de terras da Estrada Real. Portanto, é necessário buscar a veracidade das informações colhidas para evitar a perpetuação dos equívocos e identificar o percurso para subsidiar outros projetos, buscando parcerias. Todos os organismos que possam colaborar com subsídios, como o Instituto Estrada Real, estão sendo procurados.
Ressaltou que a ideia de soberania do município é equivocada e que a parceria com os contribuintes “sérios” é a solução para um bom trabalho de valorização do patrimônio cultural.
A pesquisa Memorial de Queluz vem demonstrando que a Inconfidência Mineira é um pano de fundo muito interessante e que foi identificada, pelo menos, a participação no movimento de 16 moradores do Arraial dos Carijós. Este fato a história não valorizou, sendo um material muito bom para ser investigado pelos pesquisadores da nova geração.
Já foram erigidos dois monumentos para marcar o início e o final da Estrada Real em Lafaiete e está sendo elaborado o mapeamento físico do percurso. Este movimento tem despertado o imaginário e o sensitivo da população.
Entre 2005 e 2006 o Instituto Estrada Real desenvolveu o trabalho de instalação dos totens na cidade. No perímetro urbano foram seis destes marcos,sendo que três já foram destruídos por vandalismo. Outros dezesseis foram distribuídos às margens da BR-040, da MG-119 e na área rural.
Apresentou diversas fotografias antigas e atuais para demonstrar o que é, atualmente, o Caminho Novo em Lafaiete. Na medida em que as imagens iam sendo projetadas, Mauricéia descrevia a localização e seu entorno. Declarou que há poucos remanescentes da arquitetura colonial principalmente porque os proprietários não colaboram com a preservação. Muitas vezes tem sido necessário acionar a justiça.
Em seguida mencionou os eventos de âmbito local, realizados em um coreto no centro da cidade, ao lado de um trecho do Caminho Novo. São os congados, os encontros de bandas de música e o Mesa de Bar que é um encontro de cantores locais.
A palestrante informou que, nos anos de 1980, a cidade resolveu valorizar a história local. Dos sete monumentos tombados no nível municipal,três foram criados naquela década.
Discorrendo sobre as prováveis causas para o desenvolvimento da cidade no sentido do que se vê atualmente, observou que a localidade, bem como cidades vizinhas, recebeu um impacto significativo em função das atividades das empresas mineradoras nos últimos anos. Isto resultou em mudança da mentalidade da população por conta da presença de empresários estrangeiros, com uma nova posição cultural. Aquilo que é considerado velho, que foi construído pelos avós, perde espaço para as construções modernas. Este interesse dos moradores em se apresentarem como modernos foi um caos para o patrimônio.
Mencionou empresas mineradoras que deram sustentação financeira e psicológica à mudança das expectativas dos moradores, os quais foram se adaptando às necessidades dos novos moradores que, naturalmente, não tinham a memória cultural daquele lugar. Com o declínio da ferrovia na década de 1980,seus funcionários precisaram buscar outra forma de sustento e muitos deixaram a cidade, alugando seus imóveis que foram, então, dilapidados.
Na década de 1990, com a recuperação econômica, a cidade volta a sofrer o impacto da demolição dos antigos casarões que ainda se mantinham de pé. A partir de 2000, com as políticas de valorização cultural, houve um apelo para identificar o patrimônio da cidade.
Para falar do momento atual, a palestrante historiou rapidamente alguns momentos do passado, como a instalação da ferrovia em 1873, causando sensíveis modificações no comportamento dos moradores. A destacar a perda da vocação para o trabalho agrícola que resulta em abandono daquela estrada de terra onde passava a boiada e os tropeiros. Até ali o caminho rudimentar era necessário para dar fluxo à produção.  Com a ferrovia, a frequência de uso dos caminhos e sua conservação se tornam muito menores.
Houve, no início do século XX, uma tentativa de mudança na paisagem urbana, criando espaços de socialização. Uma destas tentativas fez com que desaparecesse um dos entroncamentos do Caminho Novo no centro da cidade. Nos anos de 1950, nova agressão ocorre com o crescimento das periferias sem planejamento de uso do solo.
A parte final da apresentação de Mauricéia trouxe uma série de imagens e comentários sobre como ocorreram as mudanças na paisagem urbana e a relação das localidades que pertenceram a Queluz e hoje constituem 21 municípios no entorno de Conselheiro Lafaiete. A palestrante lembrou que sua apresentação não tratou do Caminho Novo em Queluz, mas na cidade de Conselheiro Lafaiete, uma área bem mais restrita.
Ressaltou que existem diversos mitos em relação à localização da primeira igreja que seriam ‘valores menores’, uma vez que o importante é a compreensão dos valores da época, da mentalidade que produziu aquele momento.Saber quem construiu o quê não é o valor primordial da pesquisa, sendo necessário um trabalho de maior profundidade.
Finalizando,lembrou que a formação de Queluz remonta a 1780, com os povoadores de características bem variadas como paulistas, cariocas, mestiços e indígenas. Em seus primórdios, abastecia com produtos agrícolas a área de mineração. O primeiro sesmeiro foi Pimentel Salgado.

Historia Social através da Pesquisa Genealógica

Veja os slides da palestra de Nilza Cantoni e Silvia Butros no 2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, realizado em São João del Rei em 2011.

História Social através do Método de Pesquisa Genealógica

As pesquisadoras Silvia Buttros e Nilza Cantoni levaram ao Encontro dois exemplos de história local que vêm sendo divulgados, há mais de um século, como sendo a história oficial dos municípios abordados.
Após apresentar cartografia localizando Paraguaçu dentro do território de Minas Gerais, Silvia Buttros discorreu sobre a trajetória de sua pesquisa que resultou no seguinte quadro:
VERSÃO TRADICIONAL: pontos conflitantes
CORREÇÃO DOCUMENTADA
Pelo ano de 1790, o paulista Manuel Ferreira do Prado, e o português Agostinho Fernandes de Lima Barata receberam, cada um, uma sesmaria de três léguas em quadra.
Manuel Ferreira do Prado tornou-se sócio de um sesmeiro, e Agostinho Fernandes Lima herdou terras de seu sogro. Em 1790, as sesmarias eram de meia légua em quadra.
As sesmarias estariam localizadas no Sertão de São Sebastião, freguesia da Campanha.
As localidades onde se assentaram eram Sertão do Ouvidor e paragem das Mamonas, ambas na freguesia de Santana do Sapucaí.
Manuel Ferreira do Prado veio de São Paulo, com toda a sua família, mais o professor Flávio Secundo de Sales, e instalou-se ao Sul do município.
Manuel Ferreira do Prado era mineiro, de Santa Bárbara, morador no Rio de Janeiro, onde se casou, e veio a formar sua família na freguesia de Santana do Sapucaí. O dito professor era mineiro, de Campanha.
Agostinho Fernandes de Lima deixou mulher e filhos em Portugal, e instalou-se ao Norte do município.
Agostinho Fernandes Lima casou-se, no Brasil, com a filha de José Dias Palhão, sesmeiro de meia légua em quadra, ao Norte do município.
Nilza Cantoni, também após indicar a localização de Leopoldina, mencionou a metodologia da pesquisa iniciada a partir de um questionamento sobre o que afirma a história tradicional: por que os deserdados do ouro foram para o Feijão Cru se não há uma só pista de que em algum momento tenham encontrado ouro por lá? Não seria mais lógico que, com a queda da mineração, tivessem se dirigido para outras regiões auríferas?
Discorreu sobre suas buscas em fontes originais como listas nominativas de habitantes, processos judiciais, registros de terras e assentos paroquiais,apresentando a seguinte conclusão sobre os povoadores do Feijão Cru:
%
ORIGEM
ATIVIDADE ANTERIOR
41,9
Desconhecida
Desconhecida
16,1
Bom Jardim de Minas
Agricultura
8,1
Freguesia de Barbacena
Agricultura
6,5
Freguesia de São João del Rei
Agricultura
4,8
Aiuruoca
Agricultura
4,8
Santana do Garambéu
Agricultura
3,2
Freguesia de São João del Rei
Agricultura / Comércio
3,2
Prados
Agricultura
1,6
Bocaina de Minas
Agricultura
1,6
Conceição de Ibitipoca
Agricultura
1,6
Congonhas
Mineração
1,6
Conselheiro Lafaiete
Agricultura
1,6
Ibertioga
Agricultura
1,6
Santa Rita de Ibitipoca
Agricultura
1,6
São João del Rei
Agricultura / Comércio
Foi ressaltado que o quadro acima poderá sofrer modificações se forem encontradas novas fontes sobre o tema e que 22 povoadores ainda não identificados aparecem na documentação como forros e 3 são mulheres, sem sobrenome ou outra indicação que permita a investigação.

 

Portanto, o estágio atual da investigação demonstra que os povoadores não deixaram minas de ouro esgotadas para trás. Foram e continuaram sendo agricultores.

História Social através do Método de Pesquisa Genealógica – II

Povoadores do Feijão Cru

por Nilza Cantoni

A pequena cidade de Leopoldina tem sua história tradicional baseada em duas afirmativas. Uma delas diz respeito ao seu primeiro nome – Feijão Cru. Diz-se que tem origem no fato de tropeiros terem colocado o feijão para cozinhar e saírem para procurar ouro. Outra versão afirma que foram caçar e uma terceira informa que deixaram o feijão cozinhando durante a noite. Todas as versões informam que choveu e, quando os tropeiros foram se alimentar, jogaram o alimento no rio reclamando por estar cru.

A outra afirmação que vem sendo repetida ao longo tempo é que Leopoldina foi uma cidade rica e que seu povoamento se iniciou em consequência do fim da mineração, trazendo para a nossa terra as famílias que antes se ocupavam de lavras na área central da província e foram para lá plantar café.

Na década de 1960 foi publicado um livro de genealogia, abordando as três principais famílias povoadoras: os Almeidas, os Britos e os Netos. A partir daí, levantou-se uma questão: por que aquelas pessoas foram para lá se não há uma só pista de que em algum momento tenham encontrado ouro? Não seria mais lógico que, com a queda da mineração, tivessem se dirigido para outras regiões mineradoras?

Consultando livros dos antigos cartórios de notas, bem como o arquivo paroquial e os processos do judiciário, foi possível perceber que as referências indicavam atividade agrícola antes da migração. Foram sendo recolhidos recortes de jornais, cadernos com cópias de assentos paroquiais e trechos de processos judiciais, além de fichas de leitura das mais variadas obras. Ao longo do tempo aumentava a distância entre o que era propagado pela história oficial e o que diziam as fontes originais.

No final da década de 1980, com o acesso a microcomputador, as informações foram organizadas em um software que deu novo fôlego ao trabalho, na medida em que ficou mais fácil reunir as referências sobre cada personagem. Alguns anos depois, descobriu-se que fazer genealogia não era simplesmente montar uma lista de nomes, mas utilizar um método de pesquisa que permitia analisar e comparar diferentes aspectos da vida das pessoas que formaram o arraial do Feijão Cru.

E assim, colhendo dados e buscando interpretá-los à luz do conhecimento produzido pelos especialistas de diversas áreas, foi possível observar que a história tradicional parecia estar distante da realidade.

À exceção de uma das primeiras famílias que se estabeleceram em Leopoldina, e que não foram abordadas no livro acima mencionado, todas as que foram identificadas procediam de região agrícola. Com base na Contagem Populacional de 1831, descobriram-se os nomes dos moradores dos “fogos” ali registrados[1].

Entre os 589 moradores, 276 eram cativos que seria difícil investigar por falta de sobrenome. Houve dificuldade, também, para estudar os habitantes de 22 fogos que eram chefiados por “forros”. Seguindo-lhes a trajetória, ficou claro que o sobrenome variava bastante e não foi possível eliminar homonímia nem estabelecer quem eram estes grupos familiares.

Pesquisando assentos paroquiais, inventários, testamentos, documentos de compra e venda de bens e de sepultamentos, chegou-se à relação de 62 nomes dos chefes de fogos em 1831.

Classificando estas pessoas pela origem e atividades anteriores, foi possível definir os seguintes percentuais:

% Origem Atividade Anterior
41,9 Desconhecida Desconhecida
16,1 Bom Jardim de Minas Agricultura
8,1 Freguesia de Barbacena Agricultura
6,5 Freguesia de São João del Rei Agricultura
4,8 Aiuruoca Agricultura
4,8 Santana do Garambéu Agricultura
3,2 Freguesia de São João del Rei Agricultura / Comércio
3,2 Prados Agricultura
1,6 Bocaina de Minas Agricultura
1,6 Conceição de Ibitipoca Agricultura
1,6 Congonhas Mineração
1,6 Conselheiro Lafaiete Agricultura
1,6 Ibertioga Agricultura
1,6 Santa Rita de Ibitipoca Agricultura
1,6 São João del Rei Agricultura / Comércio

Vale registrar que o quadro poderá sofrer modificações na medida em que novas fontes forem encontradas. Atualmente a esperança de encontrar os deserdados do ouro está entre os 22 fogos chefiados por forros e 3 fogos chefiados por mulheres sem sobrenome. Será que Leopoldina realmente foi povoada por mineradores?

Além da contagem populacional de 1831, foram consultados documentos de mesmo gênero não só em relação ao Feijão Cru como aos curatos e freguesias vizinhas.[2]

Utilizaram-se, também, os Registros de Terras[3] realizados por força da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, conhecida como Lei de Terras. Segundo Ligia Osório Silva[4], o normativo objetivava “demarcar as terras devolutas e normalizar o acesso à terra por parte dos particulares, daquela data em diante”. Estes documentos trazem os nomes dos proprietários e quase todos incluem o nome da propriedade, a identificação dos vizinhos e a principal atividade desenvolvida.

Na região, os registros foram realizados nos primeiros meses de 1856 e Leopoldina teve sua emancipação administrativa em 1854. Razão pela qual foi necessário comparar com o alistamento eleitoral de 1850[5] para melhor recortar o universo a ser estudado. Um bom número de proprietários identificados no arquivo do judiciário não aparece nos registros de Leopoldina, Além Paraíba, Mar de Espanha, Meia Pataca ou São João Nepomuceno. Outros, especialmente os do território que formou o Distrito de Conceição da Boa Vista em 1851, estão no Registro de Terras de Santo Antônio de Pádua[6]. Foi desenvolvido um estudo sobre as disputas de limites entre Rio de Janeiro e Minas Gerais para entender os motivos pelos quais Leopoldina ficou subordinada ao Bispado do Rio de Janeiro até 1897[7].

Do estudo realizado com os Registros de Terras, verificou-se que apenas um dos proprietários de 1856 declarou o plantio de café entre as atividades agrícolas em suas terras.

E assim, investigando as famílias antigas de Leopoldina, através das técnicas de pesquisa genealógica, acumulou-se um bom número de informações a demonstrarem que os povoadores não deixaram para trás minas de ouro esgotadas. Foram e continuaram sendo agricultores.

Em todas as oportunidades de conversar com a gente simples da localidade, observam-se os olhos dos interlocutores brilharem. Quando se diz que os povoadores podem não ter sido pessoas ricas e famosas – as celebridades dos tempos da mineração, parece que compartilham da impressão de que foram pessoas comuns, sem auréola de heróis. Sorriem de felicidade, sentindo-se incluídos numa história que até então não lhes dizia respeito.

O envolvimento nestas buscas despertou a admiração por alguns teóricos, razão pela qual se pede licença aos especialistas para citar dois deles. Segundo Bloch[8], “textos ou documentos […] não falam senão quando sabemos interrogá-los”. Para Le Goff[9]

A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

[1] Arquivo Público Mineiro CX 07 DOC 07, Mapa da População de São José do Paraíba, 1831.

[2] Listas de moradores 1834, 1838 e 1841, do Feijão Cru e Curatos limítrofes.

[3] Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial, TP 114, Registro de Terras de Leopoldina, 1856.

[4] SILVA, Ligia Osório. Terras Devolutas e Latifúndio. Campinas-SP: Editora Unicamp, 1996.

[5] Arquivo Público Mineiro, CX 36 PCT 29 PP 11 Alistamento Eleitoral de São João Nepomuceno, 1850.

[6] Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Registros Paroquiais de Terras séc. XIX RJ. Disponível em http://www.docvirt.no-ip.com/aperj/acervo.htm. Publicado em 2003

[7] CANTONI, Nilza. Disputas de Limites entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. Disponível em http://www.cantoni.pro.br/documentos/divisasRioMinas.html. Publicado em2005

[8] BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 79-80, 102-104

[9] LE GOFF, Jacques. História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2003. p. 471

História Social através do Método de Pesquisa Genealógica – I

No 2º Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo, realizado em São João del Rei em agosto de 2011, Silvia Buttros e Nilza Cantoni apresentaram seus estudos sobre os municípios mineiros de Paraguaçu e Leopoldina respectivamente.

 

Como a pesquisa genealógica auxilia a revisão da história

por Sílvia Buttros

A região onde se localiza o município de Paraguaçu, entre os rios Sapucaí e Machado, foi território paulista inexplorado. Um sertão habitado por tribos indígenas que passou ao domínio mineiro em 1749.

Dentro do território de Santana do Sapucaí, na confluência dos rios Sapucaí e Dourado, surgiria a localidade chamada Douradinho, com capela dedicada a São João Batista. Em 1813, criou-se a freguesia de Douradinho, desmembrada de Santana do Sapucaí, estando contidos nesta nova freguesia o Sertão do Ouvidor e o Sapucaí-Abaixo, que viriam a ser a atual Paraguaçu.

A historiografia tradicional nos conta que:

Os primeiros moradores, de que se tem notícia, do local onde se ergue a cidade de Paraguaçu, foram o cap. Manoel Ferreira do Prado e sua mulher, D. Tereza Maria de Jesus Prado, logo seguidos por Agostinho Fernandes de Lima.[1]

No fim do século XVIII foram cedidas duas sesmarias no Sertão de S.Sebastião, Freguezia de Campanha, no sul de Minas. A primeira, ali por 1790, ao Capitão Manoel Luiz Ferreira do Prado. E a segunda, poucos anos depois, ao português Agostinho Fernandes de Lima Barata. Ambas medindo três léguas em quadra, sendo a primeira entre os Rios Dourado, Machado, Ribeirão do Carmo e Sapucaí. E a segunda entre os Rios Sapucaí, Machado e o citado ribeirão. As duas assinadas pelo Juiz de Sesmarias, domiciliado em São João Del-Rei. 

...) Manoel Ferreira do Prado. Para o povo era o Prado Velho. Nasceu em São Paulo, descendendo de João do Prado.[3]

No último qüinqüênio de 1700, aqui entraram Manoel Ferreira e Agostinho Barata, com suas famílias, seus escravos e o Professor Flávio Secundo de Sales.[4]

Com o intuito tão somente de aprofundar o estudo de um grupo familiar, foram sendo encontrados documentos que contrariam a história da cidade de Paraguaçu e de seus primeiros habitantes, propagada por mais de um século, e difundida em todas as escolas do município.

Ao pesquisar os batismos dos filhos do Capitão Manuel Ferreira do Prado e de sua mulher Teresa Maria de Jesus, nos livros paroquiais da então freguesia de Santana do Sapucaí, o que já demonstrava que sua família formou-se em Paraguaçu, duas informações despertaram o interesse: um padrinho do Rio de Janeiro, Nuno da Silva Reis, negociante de gado do Vale do Paraíba, com representação na Corte,  e o Tenente Coronel Francisco de Sales Xavier de Toledo, que batizou 2 filhos do Capitão, levando-se a cogitar um parentesco entre eles.

Para analisar o parentesco, foi pesquisado o inventário de Francisco de Sales Xavier de Toledo, falecido em 1815, autuado em 1822. Nada constava no rol de herdeiros, mas nos bens de raiz, veio a surpresa:

Declarou mais ella inventariante ter huma fazenda de cultura e campos no lugar denominado o Espírito Santo em sociedade com o capitam Manoel Ferreira do Prado o qual se acha na cidade do Rio de Janeiro e por este motivo se não pode proceder a avaliaçam da dita (fls. 4 v)...[5]

Portanto, o Capitão Manuel Ferreira do Prado era sócio da Fazenda do Espírito Santo. Procurando pelas sesmarias, foi localizada a de Francisco de Sales Xavier de Toledo, medindo 3 léguas de comprido e 1 de largo[6], com carta concedida em 1765 a José Ferraz de Araújo e sua mulher Genoveva da Trindade, repassada ao dito Francisco em 1767, ano em que foi feito o Auto de  medição, vistoria e demarcação.[7]

Mas, a pista sobre a sociedade só foi descoberta em outra sesmaria, a de Francisco Moreira de Piza Barreto, medindo meia légua em quadra[8], concedida em 1797, que teve sua demarcação embargada por Francisco de Sales Xavier de Toledo sob a alegação de a mesma estar invadindo seu território. Dentre as várias considerações constantes de sua réplica, muitas nos fornecem dados importantes, como estes:

Que os prim.ros povoadores das terras Embarg.das forão Antonio Vaz Siqrª e Joam Vaz Siqrª, que as possuirão e cultivarão por espaço de nove annos, cuja posse e Cultura teve principio no anno de 1759.”[9]

Que o Alferes Joaquim Luiz do Prado[10] he sócio, e comprador da Fazenda do Embargante.[11]

Há várias outras sesmarias confrontantes com as já citadas, e somente uma em localização oposta, ou seja, ao norte do atual município de Paraguaçu, que vem a esclarecer o engano sobre Agostinho Fernandes de Lima Barata, citado como segundo povoador da região.

Esta sesmaria foi cedida a José Dias Palhão, em 1797, com medição e demarcação em 1799[12], medindo meia légua em quadra. O dito Palhão veio a falecer e foi inventariado em 1805[13], constando dentre seus bens a referida sesmaria e mais uma fazenda; e, dentre seus 12 herdeiros, consta a filha Caetana Dias, casada com Agostinho Fernandes de Lima. Ficando assim esclarecido de onde vieram as terras do dito Agostinho.

Resolvida a questão das terras, faltava descobrir a ligação do Capitão Manoel Ferreira do Prado com a cidade do Rio de Janeiro. A solução poderia estar no casamento do dito Capitão naquela cidade, já que em Minas e São Paulo as buscas foram em vão.

O processo de casamento foi localizado no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, que remeteu ao seguinte assento:

Aos vinte e tres dias do mes de Fevr.o de mil oito centos e sinco, nesta Cathedral pelas duas horas da tarde com m.a prez.ça e das testemunhas abaixo asignadas na fr.a do Sagr. Conc. Trid. e Const. do Bispado se receberão em Matrimonio p.r palavras de prezente o Cap.m Manoel Frr.a do Prado, f.o leg.mo de João Luiz do Prado, e de Anna de Ar.o Silva n.al e bapt.do na Freg.a de N. Snr.a da Con.ção do Arraial de S.ta Barbara do Bispado de Marianna com Theresa Maria de Jesus f.a leg.ma de Lino Glz. Rio, e de Maria da Paixão n.al e bapt.da na Freg.a de S.Jose desta cidade como tudo consta da provisão q. me aprezentarão do M. Rv.do Dr. Juiz dos Cazam.tos Fran.co Gomes Villas Boas e receberão as benções nupciaes na fr.a do Rictual Romano sendo a tudo testemunhas prezentes o Cap.m Nuno da Silva Reis, e Custodio Jose de Almeida alem de outras que prezentes se acharão de que para constar fis este asento que asignei. O Coadj.or Ant.o Teixr.a Alvr.a de Souza=Nuno da Silva Reis=Custodio Jose de Almeida.[14]

Concluindo, o ‘paulista’, era, na verdade, mineiro de Santa Bárbara, casou-se com uma carioca, depois de já morar onde viria a ser o Carmo da Escaramuça, freguesia de Santana do Sapucaí, e não de Campanha, e onde viriam a nascer seus filhos. Não poderia ter recebido uma sesmaria de 3 léguas em quadra em época que só se concedia de meia légua, mas, sim, comprou terras de um sesmeiro  e chegou depois, bem depois dos primeiros povoadores.

A história do Capitão Manuel Ferreira do Prado deve ser revista e, consequentemente, a história de Paraguaçu.

[1] Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, IBGE, Volume XXVI, 1959.

[2] PRADO, Oscar Ferreira,O Sertão dos Mandibóias, pág. 188, Imprensa Oficial, 1981,

[3] Idem, ibidem, pág. 167.

[4] Idem, ibidem, pág. 190.

[5] Centro de Memória do Sul de Minas, Campanha, Caixa 04, Documento 03.

[6] Nos moldes da Carta Régia de 7 de dezembro de 1697.

[7] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de Francisco de Sales Xavier de Toledo.

[8] Nos moldes do Alvará de 3 de março de 1770.

[9] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de Francisco Moreira de Piza Barreto.

[10] Irmão do já citado Capitão Manuel Ferreira do Prado.

[11] Arquivo do IPHAN, São João Del Rei, Sesmaria de Francisco Moreira de Piza Barreto.

[12] Arquivo do IPHAN, São João Del-Rei, Sesmaria de José Dias Palhão.

[13] Idem, ibidem, Inventário de José Dias Palhão.

[14] LDS, Livro de Matrimônios da Capela do S.Sacramento, da Sé do Rio de Janeiro, 1801/1812, fls.86.

CONTINUA

Proposta de Integração dos Arquivos Regionais

O segundo dia do Encontro de Pesquisadores do Caminho Novo começou com a palestra de José Guilherme Ribeiro, que abordou os padrões existentes para a implantação de uma rede de arquivos e os modelos de funcionamento do Arquivo Online da Califórnia (EUA) e do Portal Português de Arquivos. Informou que o projeto já foi iniciado com duas instituições de Juiz de Fora.
A padronização é essencial para a formação da rede, permitindo a migração das descrições para a internet e o acesso por diferentes meios. Entretanto, a padronização dos arquivos é relativamente tardia se comparada, por exemplo, ao que ocorreu na Biblioteconomia, cujo estabelecimento de normas de descrição e codificação vem de longa data. Na Arquivologia isto começa por volta de 1980 e vai resultar na criação da ISAD (G) – Norma Internacional de Descrição Arquivística, em 1994. Este instrumento fixa as normas como devem ser feitas as descrições e,consequentemente, a criação dos instrumentos de pesquisa em arquivos. Em 2006 é adaptada para a realidade brasileira, surgindo então a NOBRADE – Norma Brasileira de Descrição Arquivísitica.
A NOBRADE fixa um certo número de elementos para a descrição de qualquer unidade de um acervo arquivístico, como título, data, conteúdo e outros que vão constituir a referência das unidades. Dentro do conjunto de elementos, destaca o número mínimo de elementos e normatiza a possibilidade de acréscimo de novos elementos. Além disto, fixa a estrutura hierárquica para os elementos, já que os níveis de descrição arquivística são vistos como uma hierarquia. Por exemplo: o Fundo contém Séries, que por sua vez contém Subséries, as quais contêm itens e assim por diante. Desta forma os elementos ficam organizados numa árvore de hierarquia estruturada.
Como exemplo da aplicação da norma, o palestrante mostrou duas descrições e explicou os elementos ali presentes. Ressaltou que tanto a NOBRADE como a ISAD não determinam o modo de veiculação das informações, permitindo que o conjunto possa ser utilizado em formato texto, planilha ou html.
Um dos formatos é sugerido pela EAD- Encoded Archival Description (descrição arquivística codificada), escrevendo as descrições em linguagem xml para divulgação na rede mundial de computadores. Resultado de um projeto iniciado nos Estados Unidos no início dos anos de 1990 que não tinha por objetivo padronizar a descrição arquivística, mas investigar diversas modalidades possíveis de construir um instrumento para descrições em formato digital. Foi iniciado na época da ISAD (G), razão pela qual pretendia ser compatível com ela.  Tem se firmado como padrão internacional, utilizado especialmente no intercâmbio de descrições arquivísticas.
Todos estes sistemas trazem conceitos importantes, disse José Guilherme. O primeiro deles é que a padronização e a criação de instrumentos de pesquisa modelares facilitam ao usuário final um aprendizado natural do método, permitindo-lhe melhor explorar os acervos. Além disso, a padronização facilita a manipulação dos instrumentos pelos recursos digitais. Outro aspecto beneficiado é a troca de informações,permitindo a formação de bancos de dados unificados. No que se refere à construção de redes, a padronização permite que cada instituição mantenha sua autonomia ao mesmo tempo em que compartilha as descrições, não sendo necessário que o órgão centralizador altere o formato de localização das unidades arquivísticas em cada arquivo participante da rede.
A seguir o palestrante discorreu sobre o Arquivo Online da Califórnia, que reúne mais de duzentas instituições. Vinculado ao projeto EAD, permite acesso às descrições e às imagens digitais dos documentos. Reúne bibliotecas e museus públicos e de universidades. Seu modelo é o de banco de dados centralizado, ou seja, todas as instituições participantes do projeto permitem o acesso on line às descrições através do Arquivo Online da Califórnia.
Foi projetada a imagem do site do Arquivo Online da Califórnia através da qual José Guilherme explicou as possibilidades de uso de cada seção ali disponível. Declarou que é um modelo simples, que cresceu ao longo do tempo, pela agregação de novas instituições e dos novos padrões que foram sendo normatizados.
O palestrante ressaltou que os arquivos on line utilizam as convenções de uso da EAD na rede internacional de computadores, aproximando os acervos dos interessados.
Em seguida apresentou o Portal Português de Arquivos que atualmente reúne cerca de vinte instituições portuguesas. Faz parte da Rede Portuguesa de Arquivos que pretende reunir todas as instituições da Comunidade de Língua Portuguesa. O Portal utiliza a EAD em conjunto com a ISAD (G). Foi explicado que o modelo utilizado baseia-se na exportação de dados de cada instituição para o Portal de modo que, quando o internauta faz a opção por ver detalhes de um determinado documento, terá acesso a outra página do próprio portal. Caso a escolha seja por ver o registro original, o consulente será direcionado para o site da instituição original.
Concluindo, José Guilherme declarou que a maior dificuldade da constituição de uma rede de arquivos não é a solução técnica, mas fazer com que as instituições dialoguem e trabalhem em parceria, saindo do isolamento e agindo coletivamente. Este é o passo fundamental porque não basta adotar uma norma, mas trocar informações. As normas permitem diversas interpretações, sendo necessário promover adaptações que serão melhor implementadas se realizadas em parceria.
Declarou que é preciso buscar um modelo simples e, ao mesmo tempo, adequado às necessidades dos integrantes. Não é necessário trazer modelos de fora, mas adaptar à realidade local. É preciso começar com um projeto pequeno que possa crescer e criar raízes, ampliando o número de participantes.

Toponímia da Comarca do Rio das Mortes

A professora Maria Cândida Seabra iniciou mencionando o interesse de algumas áreas do conhecimento pela Toponímia, especialmente a Linguística, mas também a História, a Geografia, a Genealogia e outras. Entretanto, seu estudo ainda é recente no Brasil. Ao lado da Antroponímia, ou seja, do estudo dos nomes de pessoas, a Toponímia insere-se na Onomástica.
Sobre a significação dos nomes, citou como exemplo a pessoa que se chama Cláudia e nem sempre sabe que o antropônimo significa claudicar. O mesmo ocorre com os topônimos, como no caso de uma propriedade ter sido batizada com o nome de Fazenda Olho d´Água em referência a uma nascente que ali existia e depois que o olho d’água desapareceu ninguém mais entendia a razão do nome. Daí a importância da toponímia para outros estudos porque, ao recuperar o significado do nome, é possível restaurar informações sobre a localidade.
Assim ocorre com nomes que remontam a exemplares da fauna, da flora e também da ideologia, como nos casos de topônimos com nomes de santos católicos. Neste último caso, é preciso analisar com cuidado. Isto porque, se em Minas é comum dar o nome de um santo de devoção à propriedade, em Mato Grosso é comum que o marido compre uma fazenda e lhe ponha o nome da esposa, antecedido de Santa. Portanto, há que se considerar as práticas sociais da localidade e até mesmo descobri-las através do estudo dos topônimos.
A palestrante trabalha com três origens de dados sendo uma delas o IBGE, através da qual, em trabalho conjunto com seus alunos, foram levantados os nomes de todos os lugares do estado de Minas Gerais. O resultado foi um banco de dados com 85.000 nomes de lugares,fazendas, rios, córregos etc. Cada um deles encontra-se classificado pela origem,se é português ou híbrido com tupi, por exemplo. Outro índice classificatório foi a motivação para o nome, além de outras informações típicas.
Em trabalho lançado recentemente,foi apresentada a conclusão de que os antigos nomes que interessavam aos portugueses eram em língua portuguesa e os demais eram em tupi.
Outra fonte preciosa para o estudo são as cartas de sesmarias, das quais foram recuperados termos e significados nem sempre facilmente identificáveis.
Uma terceira vertente é a fonte oral, sendo importante destacar que muitos topônimos obtidos em entrevistas não estão registrados nos mapas. O exemplo citado foi de uma localidade referida como Pacaló, nome desconhecido. No decorrer da conversa obteve a informação de que o pasto ao lado era de Chico Lopes e, consultando uma carta de sesmaria de1702, verificou que os requerentes foram Francisco Lopes e Pascoal Lopes.
Em seguida a palestrante destacou um topônimo da Comarca do Rio das Mortes: Brumado, antigo nome da atual Entre Rio de Minas, tem origem na palavra espanhola ‘broma’ e seu significado,diferentemente do que se possa inicialmente pensar, nada ter a ver com bruma. Foi empregado em tempos coloniais para indicar embromação ou mistificação sobre desaparecimento de ouro. O Fanado, em Minas Novas, tem significado semelhante a Brumado, podendo ser entendido como a expressão ‘não deu em nada’.
Os significados não são transparentes e é comum que se usem nomes como referência a alguma coisa cuja lembrança se perde com o tempo. No caso do Brumado, os estudos encontraram a indicação de que seria um lugar onde há notícia do aparecimento de minério que não se confirma. Entre as fontes utilizadas, a palestrante citou o Códice Costa Matoso e ressaltou que, neste trabalho, não basta ir a dicionários comuns.Mencionou a obra do Padre Rafael Bluteau, do século XVIII, considerado o primeiro dicionário da língua portuguesa.
Maria Cândida disse ser importante entender a mentalidade do denominador não só de forma isolada como também considerá-lo como parte de um grupo social. Apresentou Estiva como:entendida popularmente no interior como ponte tosca de madeira e no litoral tem outro significado. Já Noruega, de Catas Altas da Noruega, não faz referência ao país nórdico, mas a um pasto em que há pouca incidência de raios solares, sendo um termo da geografia muito usado no norte de Minas.
Mencionou também Indequecé, encontrado num mapa de Diogo de Vasconcelos da região de Vila Rica, e que remonta a um termo tupi – andirá quecé, que significa mato cortante. Alertou,porém, que embora seja necessário consultar obras de variado escopo, Diogo de Vasconcelos deve ser visto com um certo cuidado. Exemplificou com a afirmação do autor de que ‘gualaxo’ seria um termo tupi e com significado que se mostrou insustentável. Trata-se de um termo provavelmente do grupo Macro-Gê, encontrado no Rio Grande do Sul, em São Paulo e na América Central. Lembrou que ‘xopotó’ é termo também do grupo Macro-Gê utilizado em Minas, apesar de quase nada se conhecer da presença deste grupo na região.
No prosseguimento, informou que ‘grupiara’ tem relação com peixes e a forma mais usual é ‘gupiara’ em função da dificuldade de pronúncia do encontro consonantal. Em Costa Matoso aparece como sendo o córrego em que se fazia extração do cascalho.
Sobre Bom Sucesso, declarou que não tem vínculo com a expressão usual para desejar bons resultados, mas a Nossa Senhora do Bonsucesso, protetora de bens materiais.
Maria Cândida ressaltou que o estudo dos topônimos confirma que as palavras caminham muito próximas da história dos lugares e das pessoas, razão pela qual a denominação envolve fatores diversos. De tal forma que não se deve afirmar inquestionavelmente um significado sem um embasamento cuidadoso.
O topônimo é um patrimônio cultural que nos traz informações geográficas, étnicas, honoríficas etc. Muitos dos encontrados em Minas têm origem africana, sobre os quais há imensa dificuldade de pesquisa pela falta de boas fontes.
Foram citadas outras obrasi mportantes para o estudo da Toponímia como o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, a Contribuição Indígena ao Brasil do Irmão José Gregório e a obra de Nelson de Sena.

Cartografia histórica: arte e técnica dos mapas da América Portuguesa

Márcia Maria Duarte dos Santos apresentou-se manifestando satisfação em estar no Encontro, por julgar que seu tema de estudos combina muito com os objetivos do evento. Trata-se do resultado de uma longa pesquisa sobre Cartografia da América Portuguesa, particularmente de Minas Gerais. Referiu-se à palestra do professor Afonso Alencastro, na parte da manhã, o qual chamou a atenção para uma linha da historiografia moderna que se afasta do estabelecido em obras publicadas para trabalhar diretamente com as fontes originais. No caso do Centro de Estudos de Cartografia Histórica, da UFMG, pode-se estabelecer um paralelo com a fala do professor Afonso.
Explicou, então, que seu trabalho é de divulgação científica e que, de modo geral, boa parte da população considerada culta percebe nos mapas antigos a decoração, a beleza, as iluminuras, o desenho primoroso ou a caligrafia. São, de fato, artefatos culturais de grande beleza. Mas além disto, são fontes primárias nem sempre percebidas como tal. Se o literato se utiliza da língua vernácula, geógrafos se expressam através da cartografia.
Os mapas antigos eram elaborados para corresponder às expectativas do destinatário. Eram geralmente encomendados por alguém de prestígio político, pela administração colonial ou pela nobreza,exigindo cuidado especial na feitura e fino acabamento.
Na época, técnicas de impressão já existiam. Mas no caso da América Portuguesa, eles eram manuscritos. Citou um dos mapas de José Joaquim da Rocha, que se encontra em Portugal, todo debruado com fita de cetim cor de rosa. Mencionou também Albernaz, autor de mapas aquarelados no século XVII que são famosos pela grande beleza.
Foi projetado um mapa de 1558,ricamente ilustrado e com elementos técnicos como rosa dos ventos para indicar direções e escala de latitude em cores vibrantes, sendo que as tintas eram preparadas com ouro e outros elementos.
É só isso, ou seja, só a beleza?Ou o mapa tem outras características, perguntou a professora Márcia para então declarar que todos os elementos figurativos, como animais e plantas, não estão ali simplesmente para ilustrar. Na verdade são indicativos das características do lugar. Determinado tipo de vegetação num dos mapas apresentados era a figuração do Pau Brasil, riqueza explorada intensamente pelos portugueses. De forma bastante clara e didática, fez a plateia perceber que os belos elementos dos mapas antigos não são apenas ornamentais, mas instrumentos de comunicação sobre a área mapeada.
Apresentou um mapa de Albernaz para demonstrar que o brasão desenhado no alto foi um meio de comunicação para afirmar a soberania portuguesa sobre o território. Esta forma de figuração, já fora do espaço representado, é uma espécie de idealização com indígenas, o sexo feminino languidamente posicionado e a abundância da natureza tropical a informar sobre o espaço e as informações que sobre ele o cartógrafo possuía.
Já no século XVIII os elementos informativos estão nos “cartuchos” dos mapas. Com uma cartografia da região de Pitangui que se tornou promissora quando as minas da região central se exauriam,por ali terem sido descobertos ouro e outros minerais, indicou o cartucho – ou legenda- que chama a atenção para este fato. Sabemos, porém, que a região não foi tão promissora quanto se imaginou na época em que o mapa foi produzido.
Com o desenvolvimento da cartografia, os avanços podem ser analisados sob dois aspectos. Um deles é a necessidade de maior conhecimento do território, resultando em que mesmo um cartógrafo muito bem formado não consegue representar minimamente um espaço geográfico sem visitá-lo. O outro é o profundo conhecimento das operações técnicas da cartografia e dos instrumentos que tornavam possíveis as medições. Os princípios que norteiam a atividade passaram a ser mais cobrados no século XVII e, consequentemente, mais presentes em elementos informativos que prestam esclarecimentos ao estudioso.
Entre os elementos que começam a aparecer sistematicamente nos mapas estão os títulos que até então não eram incluídos na representação cartográfica. Data, legenda e notas explicativas são outros elementos que passam a fazer parte dos documentos.
Sobretudo a partir do século XIX,mantendo as latitudes que já apareciam desde o século XVI, as longitudes são incluídas através dos indicadores das coordenadas respectivas. Entretanto, como a adesão internacional ao meridiano de Greenwich só ocorreu no final dos anos de 1800, antes as longitudes aqui no Brasil tomavam o Rio de Janeiro como referência.
Finalizando, Márcia Maria Duarte dos Santos declarou que pretendeu mostrar que, independente da aparência artística da documentação cartográfica e de seu valor estético, os mapas apresentam informações variadas, constituindo-se em fontes particularmente importantes quando se observa que são documentos de interesse do Estado.