A História nos Meios de Comunicação

Em entrevista concedida a Francesco Maiello, publicada sob o título Intervista Sulla Storia em 1982, Jacques Le Goff manifesta uma opinião interessante. Segundo ele,

Até há não muito tempo o historiador universitário julgava praticamente indigno, se não mesmo imoral, divulgar as suas ideias, particularmente através da televisão. Esta era considerada uma prática embrutecedora. 

A declaração veio logo após ter dito que

a história não poderá manter uma qualquer função no âmbito da ciência e da sociedade se os historiadores não souberem por-se em dia no que se refere aos novos meios de comunicação de massa. 

A lembrança deste trecho surgiu após conversa com coordenadora de uma faculdade, a qual declarou que uma série apresentada há algum tempo em rede de televisão de grande audiência, tendo como protagonista o jornalista Eduardo Bueno, não têm credibilidade por não ter sido produzida dentro de uma universidade. Não cabe, aqui, discutir a fragilidade de tal argumento. Entretanto, acreditamos que posturas deste gênero estejam na origem do distanciamento que se observa entre o que é produzido na academia e o que é consumido pelo público. Parece-nos incoerente construir conhecimento para ficar restrito ao ambiente universitário.

Umberto Eco, em Como se faz uma Tese, chama a atenção para a “universidade de massa, que transforma o aluno em pesquisador por obrigação para ascender profissionalmente”. E declara que escrever uma tese “é um exercício de comunicação que presume a existência de um público”.

Adaptando as palavras destes dois téoricos ao estudo que vimos realizando há 15 anos, podemos declarar que nosso objetivo é falar de perto ao público em geral, é contar o que descobrimos sobre um aspecto importante da história de Leopoldina. E contribuir para que este conhecimento chegue aos moradores da cidade e a todos os que se interessem pelo assunto. Sendo assim, o nosso meio ideal de divulgação é a rede mundial de computadores. Construir este conhecimento com a colaboração de nossos leitores, com quem trocamos impressões desde que o primeiro site foi ao ar em 1997, tem sido a nossa meta. Que esperamos estar cumprindo a contento.

Há 98 anos, na Colônia Agrícola da Constança

No dia 10 de agosto de 1911 foi assinado o contrato de venda do lote número 39 para Giovanni Lupatini. Segundo os Relatórios da Colônia Agrícola da Constança, também o lote 30 foi vendido a este colono procedente da Lombardia, e que já estava em Leopoldina desde 1895. Entretanto, não foi localizada a data de assinatura de venda deste segundo lote.

Giovanni viveu na Colônia até sua morte no dia 9 de junho de 1917. Em janeiro de 1942 sua esposa Maria Zanetti fez o requerimento para registro de estrangeiros e declarou morar no lote adquirido por seu falecido marido. Segundo este documento, dona Maria sofria de deficiência visual.

Imigração e Família em Minas Gerais no final do século XIX

Este é o título do trabalho de Tarcísio Rodrigues Botelho, Mariângela Porto Braga e Cristiana Viegas de Andrade, publicado na Revista Brasileira de História vol. 27, nr. 54, em dezembro de 2007. Disponível aqui

Traz uma análise bem interessante do perfil dos imigrantes que se dirigiram para Minas Gerais, especialmente no ano de 1896. Os dados foram extraídos dos Livros da Hospedaria Horta Barbosa e organizados em quadros que demonstram o predomínio de grupos familiares, além de informações sobre nacionalidade. Especificamente sobre italianos e espanhóis, são apresentados interessantes gráficos demonstrativos.

Escolher um Foco

“Precisamos escolher certos aspectos do que queremos estudar, pois não podemos compreender todos os seus aspectos de uma só vez.”
John Beattie in Introdução à Antropologia Social (1980, p.43)

Neste último mês estamos revendo um dos capítulos do nosso estudo, com vistas a extrair trechos para um resumo que nos foi pedido. O texto aborda os pressupostos que fundamentaram nossa pesquisa. Um dos pensadores consultados foi o inglês John Beattie, pioneiro da Antropologia Social. Assim como qualquer cientista, ele declara que ninguém pode “analisar um material de mente aberta, sendo obrigado a possuir algumas preocupações teóricas”.

No início de nossos estudos, quando buscávamos entender o que representou a Colônia Agrícola da Constança para o município de Leopoldina, entre outras leituras buscamos os conceitos da Antropologia Social para aprendermos um pouco sobre a criação da instituição. Assim, com Beattie vimos que “a existência de uma certa instituição e o fato de contribuir para fins socialmente significativos é devida a uma série de causas: intenção consciente de seus membros, consequência de um comportamento dirigido, difusão proveniente de outro lugar, ou combinação de alguns ou de todos estes fatores”.

Nossa pesquisa demonstrou que a Colônia surgiu da combinação de diversos fatores, não sendo possível eleger um deles como proeminente. A proibição do tráfico de escravos estimulara a busca de soluções porque a produção dependia de número de trabalhadores não disponíveis no território nacional. Os imigrantes começaram a chegar, ainda que timidamente, durante a vigência do regime escravocrata. Sabe-se de fazendas que mantiveram escravos e trabalhadores livres, desde muito cedo. Portanto, é lícito supor que a intenção de aumentar a produção sofria restrições pela falta de braços.

Especialmente na segunda metade do século XIX, as propriedades agrícolas foram administradas segundo um tipo de comportamento dirigido, embora disso nem sempre tenham se dado conta. Aos poucos, surgiram os sistemas de parceria e colonato, por exemplo. A experiência do Senador Vergueiro, em São Paulo, deve ser considerada na conta da difusão externa mencionada por Beattie. E assim, agregando experiências diversas, surgiram as primeiras colônias destinadas a imigrantes estrangeiros. Que foram sendo aperfeiçoadas por conta de numerosos fatores.

Ainda que o objetivo possa ser considerado único, ou seja, o desenvolvimento da agricultura, o mesmo não se pode dizer das causas que determinaram a criação das colônias. Uma instituição, como vimos, não provém de causa isolada. Ela surge como resultado de diversos fatores que perpassam a vida do grupo social na qual é criada.

Mas como alertou Beattie, é impossível estudar todos os aspectos a um só tempo. As causas da criação da Colônia Agrícola da Constança foram apenas ligeiramente abordadas em nossos estudos. Nosso foco foi a vida dos colonos que nela se instalaram.

Outra Paisagem

Corria o ano de 1895. Um jovem de cerca de 20 anos conversava no terreiro com o pai, proprietário da fazenda. Conversava, não, ouvia calado alguma coisa que parecia ser muito séria. Talvez o jovem tivesse feito alguma coisa errada. 

A pequena distância, três pequenos grupos. O primeiro era composto por um casal e dois meninos de menos de 10 anos. Ao lado, um senhor de avançada idade, uma senhora um pouco mais nova e um casal bem mais jovem. Mais adiante, um homem carrancudo, a esposa com um bebê no colo e 3 crianças agarradas às pernas dos pais. Entre eles, algumas trouxas e um pequeno baú de madeira.

Os três grupos e o jovem filho do fazendeiro tinham acabado de chegar da estação. Foi uma caminhada difícil. Fazia muito calor e o chão ainda estava um pouco encharcado da chuva da véspera. A carroça trouxera apenas o rapaz e a mãe com o bebê. Os outros vieram andando, desviando das poças de lama. A fome apertava.

Depois de muito ouvir, o rapaz teve autorização do pai para retirar-se. Com alguma dificuldade os outros viajantes entenderam que deveriam se acomodar num galpão à direita. Não foi fácil transformar o local em moradia. Um fogão à lenha do lado de fora, uma bica d’água a alguma distância e nenhum apetrecho que sugerisse uma forma de cama, cadeira ou colchão.

Nos dias seguintes os viajantes tiveram que se entender, embora cada grupo tivesse um linguajar desconhecido para os outros. Fizeram o possível para tornar habitáveis duas choupanas que ficavam para além do curral. Uma delas era até maiorzinha e deu para acomodar dois dos grupos.

Meses depois, todos já conseguiam trocar algumas palavras entre si e até mesmo entender as ordens do fazendeiro. Só o bebê não tinha obrigações. Vivia pendurado num pano amarrado no ombro de sua mãe, que passava o dia inteiro cuidando da horta e do fogão. As crianças menores limpavam canteiros e faziam pequenas tarefas que a cozinheira da fazenda determinava. Os 3 meninos maiores acompanhavam os adultos na lavoura.

O velho não viu chegar o segundo verão. Partiu sem dizer um ai. A viúva só se queixou de que o rapaz que os trouxera nunca mais voltara a falar com eles. Nem na hora da morte o jovem viera vê-los. E parecia tão alegre naquele dia da chegada!

O tempo foi passando, outros viajantes chegaram pela estrada lamacenta, crianças nasceram, crianças morreram. Os homens aproveitavam o domingo para colher mel de abelha. Muito bom! Doce para alegrar a vida de quem nada tinha de seu.

16 de fevereiro de 1906. Há muito tempo um padre não visitava a fazenda. Mas naquele dia, tudo era festa! Uma filha do fazendeiro se casava e um daqueles meninos, agora com 21 anos, aproveitou para pedir que o casassem também, com a menina branquela que viajara no mesmo navio. Não foi fácil convencer o padre! Ele queria um papel que os noivos e seus pais nem desconfiavam o que fosse. Por sorte o fazendeiro agora estava mais velho e já não era tão bravo como naquele primeiro dia. O padre acabou aceitando a palavra do homem e os dois viajantes puderam se casar.

Dois anos depois, mais uma criança nascia. Será que ia vingar? No ano anterior o jovem casal enterrou o primeiro filho. Havia esperança desta vez? Com o choro do bebê chegou uma outra novidade. O filho do fazendeiro, aquele que os trouxera da estação, apareceu na porta. Estava diferente! Parecia mais gordo, com menos cabelo e a pele parecia esturricada de sol. Onde teria andado durante todo este tempo?

A mulher do fazendeiro estava pela beira da morte. Mandara buscar o filho. Nem os viajantes sabiam que ele tinha sumido no dia mesmo em que chegaram. Nunca ninguém falou nem o nome dele. Morreu, diria o pai.

Agora, vinte anos são passados. Meu pai se foi, minha mãe o seguiu. Meu irmão tomou seu rumo. Só eu fiquei na fazenda, com a branquela embarrigando todo ano. Outros viajantes chegaram. Muitos ficaram pouco tempo. O fazendeiro morreu. O filho sumido voltou mais uma vez. E desta vez não vai embora sozinho.

A roda do carro de boi chia bonito. Desta vez não vamos ter que andar da estação até a fazenda. Aqui é mais longe. A estação fica a 4 horas da fazenda. Fazenda nova. Pequena mas muito bonita. E tem até uma casa para eu viver com a minha branquela enrugada.

O filho do fazendeiro tinha razão. O pai mandou, ele saiu de lá. Veio aqui prá mata e se arrumou. E agora trouxe a gente para viver num lugar em que é mais fácil passar os dias e as noites, sem aquele calorão danado. Nunca mais eu volto. Nem prá fazenda velha, nem prá terra onde eu nasci.

Uso do Método Genealógico

Em diversas oportunidades, temos informado que utilizamos o método de pesquisa genealógica como um dos instrumentos para resgatar a memória da Colônia Agrícola da Constança. Entretanto, muitas pessoas se surpreendem por desconhecerem do que se trata. De imediato, imaginam que genealogia sirva apenas para demonstrar ascendência nobre ou, no caso dos descendentes de imigrantes italianos, para requerer o reconhecimento de cidadania. Mas o método genealógico tem amplitude muito maior.

Para explicar nossa opção pelo método, extraímos parte da orientação de W.H.R.Rivers, conforme exposto no artigo O Método Genealógico de Pesquisa Antropológica, publicado pela primeira vez em 1910. Segundo Rivers, o sistema de matrimônios num grupo social pode ser deduzido da análise de ocorrências tais como a endogamia. Da mesma forma, analisar a genealogia de um grupo representativo nos permite estudar as leis que regulamentam a descendência e a transmissão de propriedade. “É possível pesquisar a história de um determinado pedaço de terra, talvez desde os tempos em que foi pela primeira vez cultivado, com suas divisões nos vários momentos”, esclarece o autor.

Em outro momento do mesmo texto, Rivers declara que “as genealogias incluem enorme quantidade de informações valiosas para um estudo exato de vários problemas” e alerta para o fato de que a “memória popular é menos precisa em relação às pessoas das gerações passadas que morreram jovens ou antes de casar”.

Este teórico da antropologia aborda o método como instrumento importante para o estudo do que ele chama de “populações de cultura primitiva”, ou seja, sociedade ágrafas, sem registros escritos. Menciona diversas vantagens do método, das práticas sobre a transmissão de nomes à a regulação da vida social.

Adaptamos o método genealógico ao objetivo do nosso estudo, utilizando-o como um dos instrumentos de busca e na testagem de informações orais. Enquanto antropólogos que estudam sociedades ágrafas precisam basear-se exclusivamente em informações orais, nós caminhamos em outra direção. Pouco se sabia a respeito das famílias que habitaram a Colônia Agrícola da Constança. Então, a partir de nomes recolhidos em diversas fontes, buscamos registros civis e paroquiais para montar o grupo familiar de cada colono.

A análise dos registros de nascimento, batismo e casamento nos permitiu identificar os lugares de moradia, as relações de compadrio, a fertilidade dos casais etc. E comprovou ou desfez hipóteses sobre os arranjos matrimoniais mencionados por nossos entrevistados.

Conforme alertou Rivers, a memória dos descendentes raramente mencionou os que morreram jovens ou solteiros. Mas para além de estudos puramente demográficos, o conjunto de genealogias que pudemos compor apresenta, confirmando as palavras do teórico, um quantidade expressiva de informações importantes para resgatar a memória daquele grupo social.

O Homem na História

Marc Bloch é um dos principais autores que guiam nosso projeto de pesquisa. Escolhemos resgatar a memória da Colônia Agrícola Constança através do estudo dos homens e mulheres que habitaram aquele espaço porque, conforme ensina este pensador francês em Apologia da História

“Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e das instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição”.

Acreditamos que não seria possível conhecer o impacto da Colônia para o município de Leopoldina se não buscássemos compreender o modo de vida daqueles trabalhadores que implantaram as transformações.

Antes da chegada em massa dos imigrantes, a vida transcorria dentro de parâmetros estabelecidos há muito tempo. Os proprietários de terra mandavam derrubar a mata, plantar, colher e vender. Com o capital arrecadado, investiam em compra de novos escravos para melhor explorar uma faixa de terra ainda virgem. Buscavam acumular um montante mais significativo que permitisse ampliar a lavoura e garantir-lhes o status. Além das picadas na mata, mandavam abrir ou recuperar caminhos para o trânsito da produção e também para que sua família pudesse se deslocar. Seja para as festas religiosas no centro urbano, seja para as sonhadas viagens à corte, a vida dos fazendeiros girava em torno de garantir a produção e os meios de locomoção que sustentavam um insipiente convívio social.

O comércio mais significativo – venda da produção agrícola – era direcionado para os grandes centros, gerando necessidades que passavam pela compra ou criação de animais de carga até o investimento na estrada de ferro, já no último quartel do século XIX. Já o comércio local era explorado por prepostos dos próprios fazendeiros, em estabelecimentos denominados por “venda”, geralmente localizados no entroncamento dos múltiplos caminhos que cortavam as propriedades.

O poder decisório estava nas mãos dos grandes fazendeiros. Embora a literatura romântica se refira a propriedades de grande extensão, os registros indicam poucas fazendas ultrapassando os 400 hectares e um grande número de sítios, entre 10 e 50 alqueires mineiros. Os pequenos proprietários ficavam sujeitos, na maioria das vezes, ao sistema de plantio e comercialização definido pelos grandes.

Chegam os imigrantes colonos e o ritmo é modificado. Não parece ter havido uma ruptura significativa e imediata. Mas os trabalhadores livres nas fazendas já não se contentavam em esperar o beneplácito do contratantes para ascender economicamente. Aos poucos foram negociando novas relações de trabalho, incluindo a parceria. Do pedaço de terra que o fazendeiro destinava a cada colono, começaram a nascer os pequenos roçados, as pequenas produções de gêneros variados. Há relatos de colono que vendia milho para a cozinha da fazenda. E de outro que fabricava móveis para vender na propriedade vizinha. Já não era, portanto, o escravo da fazenda que produzia o sapato, a roupa ou a cama para o “sinhozinho”. Instaurou-se uma era de mais liberdade para produzir, vender, acumular capitais e progredir, abrindo a sociedade para a chegada de novos atores. Poucos espaços permaneceram restritos ao uso dos privilegiados descendentes dos fazendeiros.

A Colônia Agrícola da Constança é, pois, consequência de um novo modo de vida. Que foi construído por homens e mulheres, artífices da nova sociedade que se estabeleceu em Leopoldina.

Escovar a História dos Imigrantes

Um texto publicado na semana passada despertou comentário interessante de um leitor. Para Alexandre Ferreira, “a tradição valorizada no antigo sistema de ensino é muito mais confortável, não exige que o aprendiz se esforce para compreender coisa alguma. Basta decorar, porque não se vai fazer coisa alguma com o que se aprende na escola”. Por outro lado, argumenta o leitor, “o produto deste ensino é um ser quase não-pensante, que não pode construir conhecimento sobre um nada que lhe foi exigido para a prova. É um consumidor de soluções prontas, com forte tendência a desenvolver preconceitos de todos os tipos”.

De fato, Alexandre, o que é diferente nos causa desconforto. Se nos defrontamos com algo diverso de uma verdade em que acreditamos, a tendência é rechaçar como inverdade. Nós acreditamos naquilo que foi construído em nossa socialização. Se não tivemos oportunidade de “vasculhar” um determinado tema, se nos foi imposta uma verdade absoluta e inquestionável, criaremos barreiras contra outras visões sobre o mesmo tema.

Você se ressente de preconceitos contra os imigrantes, seja no passado ou no presente. E agradece por apresentarmos informações sobre os colonos imigrantes porque, na sua opinião, a memória deles foi sepultada pelo desconhecimento. Optamos por agradecer seu comentário abrindo esta nova postagem principalmente porque, conforme sugere Benjamin, “os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”. Se perpetuarmos uma versão unicista sobre os nossos imigrantes, pespegando-lhes um determinado rótulo, estaremos contribuindo com mais uma pá de cal sobre o túmulo.

Entretanto, acreditamos que a ilusão do Grande Um é maniqueísta, ditatorial. O objetivo de publicar nossos estudos sobre os imigrantes é apenas apresentar a nossa versão, a conclusão que extraímos da escovação dos pelos desta história.

Fixar o passado na Memória

Marc Bloch, em Apologia da História, declara que “a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente histórico”.

A criação da Colônia Agrícola da Constança, em abril de 1910, é um fato histórico inquestionável. Capturá-lo do passado onde se inscreve e analisá-lo, permite navegar por outros fatos marcados na história de Leopoldina. Entretanto, parece que até 1994 ninguém se dedicara a tentar compreendê-lo. E segundo Benjamin, na Tese número 5, “o passado só se deixa fixar no momento em que é reconhecido”.

Conforme temos informado em várias oportunidades, quando concluímos o levantamento sobre batismos e casamentos em Leopoldina até 1930, procuramos literatura que nos ajudasse a compreender o que representou a Grande Imigração para Leopoldina. O percentual de estrangeiros que viveu na cidade era significativo e julgávamos que o fenômeno teria sido estudado, uma vez que provavelmente teria tido um peso significativo em todos os aspectos da vida local. Para nós, era um passado que deveria estar fixado.

Na medida em que buscávamos a literatura disponível, éramos surpreendidos pela reação das pessoas a quem procurávamos. Na Biblioteca Municipal as funcionárias olharam espantadas quando perguntamos sobre obras que tratassem do assunto. Informaram que conheciam muitos descendentes de italianos mas nunca tinham ouvido falar que algum livro tivesse sido escrito a respeito. Restou-nos pedir os antigos jornais. A ideia era descobrir alguma pista através do noticiário da época e sabíamos que o primeiro jornal de Leopoldina circulou na década de 1880. Infelizmente, porém, ninguém ali sabia que existiram outros jornais antes do periódico que sobreviveu até o final do século XX.

Com algumas informações pinçadas nos poucos exemplares antigos que encontramos na Biblioteca, decidimos procurar outros leopoldinenses conhecidos pelo interesse na história local. De decepção em decepção, concluímos que estávamos trilhando um caminho desconhecido. O jornal mencionava uma colônia agrícola mas deveria ter sido alguma coisa muito pequena e passou despercebida.

A última pessoa que procuramos naquela oportunidade foi o Mauro de Almeida Pereira, mentor para outros estudos desenvolvidos já há duas décadas. Ele sabia do levantamento feito nos livros paroquiais mas não havíamos conversado sobre a grande quantidade de imigrantes que vivia em Leopoldina no final do século anterior. Informou que não sabia da existência de estudos a respeito e indicou o Luiz Raphael como pessoa que provavelmente ajudaria.

O Luiz Raphael não era propriamente um amigo. Já nos encontráramos algumas vezes mas a conversa jamais foi ampla. Acreditávamos que era uma pessoa reservada, de fala pouca. E não foi fácil encontrá-lo. Somente numa próxima temporada em Leopoldina, e depois de lido um bom número de obras generalistas sobre o tema, conseguimos chegar ao Raphael. Bela surpresa! Além da ótima recepção, mostrou-nos um pacote de documentos que marcaria a primeira fase do projeto de pesquisas.

A Colônia Agrícola da Constança surgiu em nosso horizonte de forma muito tímida, a partir do momento em que decidimos organizar um projeto de pesquisa sobre a Imigração em Leopoldina. Já que não foi encontrada literatura a respeito, a solução seria partir do zero. Ao longo destes 15 anos, conseguimos reunir um bom número de fontes. Pode-se dizer que atualmente muitos moradores de Leopoldina já sabem que a cidade abrigou um núcleo criado para acolher imigrantes. A intenção de convidar os moradores para comemorarem o Centenário da Colônia faz parte deste processo. Se realizarem o evento, o conhecimento atingirá um maior número de pessoas e, conforme ensinou Benjamin, este passado terá sido reconhecido e estará fixado na memória local.

Cartas como Fonte de Pesquisa

Frequentemente recebemos consulta de leitores sobre as fontes que utilizamos em nosso trabalho. Na maioria dos casos, o interesse é por documentos que esclareçam a composição de uma família e, principalmente, o local de nascimento. Entretanto, há diversas perguntas sobre a melhor maneira de recuperar outras informações. Na medida do possível, indicamos material publicado que permita ao leitor aproximar-se do universo em que viveu o personagem em questão.

Para nós, todo tipo de informação é importante na composição do perfil dos imigrantes que viveram em Leopoldina. A dedicatória no verso de uma fotografia descortina uma relação de amizade ou parentesco, por exemplo. E, claro, a própria imagem fixada pode nos dizer muito mais do que os traços físicos. De modo geral, temos mais interesse por quem foi o imigrante do que exatamente pela sua aparência física.

Sem a colaboração dos descendentes nosso trabalho seria bem mais difícil. Por isto as visitas pessoais aos familiares mais velhos é sempre um grande prazer. Mas nem sempre isto é possível e atualmente, com maior facilidade de comunicação, podemos conseguir muito através de um e-mail.

Foi o que aconteceu, por exemplo, a partir da troca de mensagens com um descendente de Braz/Biase Arleo. Além de fotografia, Antonio nos forneceu cópia de algumas cartas que nos ajudaram a conhecer um pouco mais sobre este italiano de Maratea que morou em Vista Alegre, Conceição da Boa Vista, Cisneiros e Itapiruçu. Pois numa das cartas fornecidas pelo Antonio encontramos uma expressão interessante: “encomenda sem dinheiro fica no Rio de Janeiro”. Braz/Biase demonstrou, por estas palavras, sua perfeita adaptação aos costumes da região.

Dada a proximidade da capital do país, o comércio e o consumo locais eram mediados pela importação de bens encontráveis naquela praça. E o dito popular tornou-se corrente em função do antigo hábito de pedir ao viajante para trazer determinado item, sem contudo dar dinheiro para a aquisição. Ao escrever para seu filho, que residia no meio norte da zona da mata mineira, Braz pediu um produto e acertou a forma de pagamento, citando a expressão destacada.

Pelo menos um dos filhos de Braz Arleo foi batizado em Leopoldina, levando-nos a crer que inicialmente viveu no distrito de Ribeiro Junqueira. Em 1896 este italiano é citado como contribuinte de impostos municipais em Leopoldina, relativos à taxa escolar e a uma casa de negócio denominada Braz Arlego & Cia. Considerando que Vista Alegre, distrito de Cataguases, antigamente denominava também uma parte do território da margem direita do rio Pomba, que permaneceu como território de Leopoldina após a emancipação de Cataguases, é possível que a família Arleo tenha vivido naquele lado, hoje distrito de Ribeiro Junqueira. Além disso, o distrito de Conceição da Boa Vista, hoje município de Recreio, foi subordinado a Leopoldina até 1930. E Itapiruçu, hoje distrito de Palma, pertenceu a Leopoldina até pouco antes de Braz Arleo passar ao Brasil.

Os Arleo espalharam-se por diversos municípios mineiros mas também migraram para o Espírito Santo. Embora não haja vínculo direto com a Colônia Agrícola da Constança, é uma família de imigrantes que partilhou da vivência daqueles primeiros anos da Imigração em Leopoldina, que em 2010 completará 130 anos.