Fazer História, Escrever a História

Com o subtítulo ‘sobre as figurações do historiador no Brasil oitocentista’ Maria da Glória de Oliveira escreveu sobre a historiografia brasileira no século XIX, com o objetivo de “analisar as figurações que definiam qualidades e deveres para o estudo e a escrita da história, tais como esses atributos foram sendo circunscritos nas biografias de alguns “homens de letras”, publicadas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro ao longo do Oitocentos”.
O artigo, publicado na Revista Brasileira de História vol.30 nº.59 em junho de 2010 pode ser lido neste endereço.E para os que se interessaram pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, eis o site.

Sugestão de Leitura

Muito bom o espaço de José d’Assunção Barros na Rede Histórica. Conheçam! Hoje foram divulgados dois ótimos textos para reflexão.
Objetividade e subjetividade no conhecimento histórico: a oposição entre os paradigmas positivista e historicista foi publicado na Revista Tempo, Espaço e Linguagem (TEL), v.1, n.2, maio/ago. 2010, p.73-102
Sobre a noção de Paradigma e seu uso nas ciências humanas  publicado nos Cadernos de Pesquisa Interdisciplinares em Ciências Humanas, Florianópolis, v.11, n.98, p. 426-444, jan/jun. 2010

Temos um Passado

Embora  o título não seja dos melhores, um texto de Jim Sharpe merece ser lido por todos aqueles que se interessam pelo resgate da história dos habitantes comuns de todas os lugares. Sob o título “A História vista de Baixo”, que preferiríamos substituir por A História das Pessoas Comuns como era denominada por Eric Hobsbawm, o texto de Sharpe foi incluído na coletânea A Escrita da História Novas Perspectivas, organizada por Peter Burke e publicada pela Editora Unesp em 1992.
Pensando naqueles imigrantes que viveram em Leopoldina, e cuja trajetória ainda não mereceu o devido respeito por parte dos leopoldinenses, deixamos as frases finais de Sharpe para reflexão de nossos leitores.
“A história vista de baixo ajuda a convencer aqueles de nós nascidos sem colheres de prata em nossas bocas, de que temos um passado, de que viemos de algum lugar. Mas também, com o passar dos anos, vai desempenhar um importante papel, ajudando a corrigir e a ampliar aquela história política da corrente principal que é ainda o cânone aceito nos estudos históricos britânicos.”

A verdade em pauta, novamente

Hoje a resposta vai para Adriana Medeiros, leitora que retoma o assunto #fontes e pergunta como saber se um livro apresenta a verdade.Minha cara Adriana, creio que depende do que você entenda por verdade em termos de história. Digamos que encontre uma carta produzida no passado, contendo informações sobre um acontecimento contado de forma diferente por outra fonte. Neste caso diríamos que as duas fontes apresentam as suas verdades, assim mesmo, no plural. Lembremos o que Le Goff ensina em História e Memória, obra recorrente aqui neste blog.

O documento […] resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro determinada imagem de si próprias. […] Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo. […] importa não isolar os documentos do conjunto de que fazem parte. Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu testemunho, mas do ambiente que o produziu…

 

Memória Coletiva

“Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva”. 

Assim Le Goff se expressa a respeito das práticas das classes dominantes sobre a sociedade. [História e Memória, Editora Unicamp, 5ª edição em 2003, pag. 422] A memória, ensina este autor, é fenômeno individual e psicológico, ligado à vida social. Conservar certas informações representa a conquista do passado coletivo.

Teóricos da historiografia nos ensinam que a memória, por ser parte integrante da nossa identidade, deve ser resgatada pelos historiadores tendo em mente que o que sobrevive do passado é resultado de escolhas pelos detentores do poder em todas as épocas. Conhecemos um tipo de história dita tradicional, que só dá voz aos nomes que escolheram como representativos. Quem são estes representantes que a história tradicional se dedicou a monumentalizar? Há entre eles algum colono imigrante, que deixou a terra natal por falta de condições de garantir o sustento de sua família?

Muitos outros grupos sociais foram sepultados da memória coletiva, por decisão de quem detinha o poder de escolha sobre aquilo que deveria ser perpetuado. A nova historiografia veio ultrapassar esta barreira. E nós, humildemente, estamos aqui para contribuir com o pouco que nos foi dado conhecer sobre esta gente guerreira que mudou a face de Leopoldina.

A Verdade de Cada Um

Qual é a “sua” verdade sobre as colônias agrícolas criadas em Minas no alvorecer dos novecentos? Para você, elas foram celeiro de mão de obra para os latifúndios? Foram berço de novas relações de trabalho? Os colonos foram escravos de cor de pele diferente dos anteriores? Foram artífices de uma nova ordem social?Nós acreditamos que o passado não é um objeto isolado, fixo, imutável. Cada momento do vivido pode ser aproveitado como argamassa do porvir. Usando uma feliz expressão de Walter Benjamin, “escovar a contrapelo” a história da Colônia Agrícola da Constança nos permite vislumbrar os alicerces de uma construção social na Leopoldina que recebemos das mãos de milhares de homens e mulheres que nos antecederam. E assim como cada um representou seu papel, no exercício de reconhecê-los nós nos preparamos para nossa própria atuação, sedimentando o futuro que queremos ter. Sem nos esquecermos, como ensina Marc Bloch em Apologia da História (pag 109), que

“O historiador não estuda o presente com a esperança de nele descobrir a exata reprodução do passado. Busca, nele, simplesmente os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo”.

 

Bases para nossos Estudos

Alguns leitores deste blog e do site perguntam como desenvolvemos nossa pesquisa. Reconhecemos que, até o momento, pouco abordamos sobre a metodologia da pesquisa. Brevemente pretendemos suprir esta falha, publicando o capítulo que escrevemos sobre a elaboração do projeto e seu desenvolvimento. Se ainda não o fizemos é porque, em nosso cronograma, definimos que em abril de 2010 substituiremos os textos publicados no jornal O Leopoldinense, disponíveis no site, pela íntegra de nosso trabalho. No momento estamos dando os retoques finais no texto básico para, em seguida, fazermos a revisão dos outros capítulos.De todo modo, e respondendo diretamente à Mara Lúcia, informamos que buscamos fundamentação teórica em diversas áreas. Especialmente na Sociologia e na Antropologia que, segundo Le Goff em Reflexões sobre a História, estão profundamente vinculadas à História Social.

Colonos, gente desconhecida

Ao elaborarmos nosso projeto de pesquisa, sentimos necessidade de verificar como são vistos os estudos sobre a gente simples que pretendíamos conhecer. Quando pensávamos sobre a Filosofia da História, nos deparamos com o texto Quarenta Anos de Vida Quotidiana, de Jean-Didier Wolfromm, publicado em A Nova História, Edições 70 de 1984., páginas 5-68. Diz o autor:

“Uma das novidades da historiografia actual é a de nos mostrar como viviam os homens no dia-a-dia. Os desconhecidos, aqueles de quem nunca se fala, que não são célebres”.

A partir deste prólogo sentimos estar diante de alguma coisa que ainda não soubéramos expressar. Este era o ponto: conhecer homens e mulheres comuns que viveram na nossa cidade e que provavelmente muito teriam a nos contar. A distância no tempo impedia um contato mas não o inviabilizava integralmente, na medida em que pudéssemos escovar o passado, como sugeriu Walter Benjamin. Segundo Wolfromm,

“todos nós temos nostalgias históricas. Exilados por acaso no século XX, viajantes sem bagagens sobre o mapa do tempo, gostamos de olhar para trás para saber de que era feito o passado.”

Nascidos numa pequena cidade do interior, mesmo que a tenhamos deixado ao final da adolescência dela não nos esquecemos. Em Leopoldina estão as nossas raízes, a nossa força e o alimento primevo. Quando este pensador francês declara que as perguntas mais comuns revelam mais sobre uma época do que as guerras e os feitos dos homens ilustres, sentimo-nos apoiados por mão segura em nossa caminhada. Se o autor generaliza sobre a curiosidade que todos temos sobre o passado, dizendo-a infinita, só podemos tomar suas palavras e dizer que também sentimos que

“ao abrir o correio do passado […] nós dobramos, triplicamos a nossa vida”.